12/12/09

Cavaco e o TGV



Pequena é a memória dos homens, ou a sua capacidade para interpretar os factos. O TGV está para José Sócrates como as auto-estradas estiveram para Cavaco Silva primeiro-ministro. Na altura, muitas foram as vozes que se levantaram contra a política do alcatrão, salientando que ela não representaria uma aposta no futuro, mas serviria apenas para alimentar um país fundado na mão-de-obra barata. Cavaco, porém, não hesitou e fez o que pôde em matéria de vias rodoviárias. Agora, quando os socialistas apostam em obras como o TGV ou o aeroporto, Cavaco acha que iniciativas dos jovens em matéria de inovação são mais importantes que o TGV. Como a quase totalidade dos portugueses, não faço a mínima ideia se a construção do TGV é uma boa solução para a economia do país ou não. Pela complexidade das variáveis em jogo, tenho dúvidas, inclusive, que alguém o saiba, efectivamente. O que julgo, todavia, interessante é esta nova posição de Cavaco. Mas se ele governasse, qual seria a sua opção? Alguém duvida?

Um pequeno Blair



Houve um tempo em que simpatizei com a figura de Tony Blair. Não tanto pela sua terceira via, escorada nas perspectivas do sociólogo Anthony Giddens, mas por me parecer alguém determinado. Percebi mesmo que, de um certo ponto de vista, ela não tinha outra solução senão seguir George W. Bush na questão iraquiana. Hoje, porém, haveria da sua parte grandeza em não tentar ocultar o enorme desastre a que a política seguida no Iraque conduziu. Aquilo que diz, porém, mostra pouca capacidade crítica. Perante o flop da história das armas de destruição massiva, continuar a defender a bondada da invasão. Seja por que razão for, parece-me irresponsabilidade excessiva e sintoma de uma enorme pequenez política.

Esbjörn Svensson Trio - Behind The Yashmak (live)


11/12/09

Jornal Torrejano, 11 de Dezembro de 2009



On-line encontra-se a edição semanal do Jornal Torrejano.

Um equívoco semântico


Aquilo a que hoje se chama universidade só por equívoco tem esse nome. Segundo os dirigentes empresariais, os jovens licenciados correspondem cada vez mais ao que as empresas procuram. Merece ser lido o artigo do i. Ele é, apesar da aparência em contrário, uma demonstração da tese que se defende aqui. A universidade, contrariamente ao que se pensa, não deve servir para fornecer mão-de-obra, mesmo que de carácter cognitivo, às empresas. A universidade significa o lugar onde se educa alguém para se elevar a um ponto de vista universal. A preparação para o mercado de trabalho, para as empresas, é apenas uma preparação particular para funções particulares, mesmo que estas sejam amplas. Não se está aqui a argumentar a favor do desaparecimento dessa formação. Pelo contrário, essa formação deve ser ainda mais ampla, abranger mais pessoas e ter melhor qualidade. Não lhe chamemos, porém, aquilo que ela não é. A universidade, por seu lado, deveria encolher drasticamente, concentrando-se nas actividades de produção de saber. As universidades não se devem aproximar das empresas, devem mesmo fugir delas a sete pés, caso não queiram perverter o seu sentido. No entanto, as instituições de ensino que preparam jovens para serem engenheiros, economistas, gestores, designers, etc. devem estar em íntima relação com o mundo empresarial.  Chamar-lhes, porém, universidades é um lamentável equívoco semântico, cujas consequências serão a destruição do que resta da verdadeira universidade. É o que acontece no mundo ocidental, onde a universidade, aquela que ainda trata de questões universais, se rege agora pelo particularismo das empresas privadas. Um dia destes, aquilo a que se chama universidade não será mais do que uma espécie de prolongamento das antigas escolas industriais e comerciais.

Já não se pode ter calor



Numa escola americana, a James Madison, um contínuo (agora em Portugal acho que se chamam técnicos operacionais de educação) encontrou duas professores nuas numa sala de aula. Nuas, mesmo, sem uma roupinha a cobrir a pele. Anda tudo intrigado com o motivo de elas terem confundido a sala de aula com o velho éden, o paraíso da nossa mãe Eva e do nosso pai Adão. Ignorantes, as autoridades instauraram um processo disciplinar por atentado ao pudor. Meu Deus, já ninguém pode ter calor.

Como destruir o que resta



Perante a gravíssima crise que atinge o país, o partido do governo não sabe o que mais há-de inventar para fingir que faz política. Agora lá volta o sacrossanto tema da regionalização. Esta gente não descansa enquanto não esfrangalhar o que resta do país e o entregar a 5 clones dos senhores Jardim e César. Eu que, em princípio, seria favorável à regionalização, como forma de governar e ordenar o país e fazer frente às assimetrias existentes, quando olho as experiências das regiões autónomas e as dos municípios, só posso esperar o pior. Tendo em consideração a cultura geral da classe política e a debilidade estrutural da Justiça, a introdução das regiões será a a vitória daqueles que acham que a política é um meio para enriquecer e dos que desejam, mais ou menos inconscientemente, rasgar a velha unidade nacional. As regiões serão apenas um primeiro passo, uma espécie de supermucipalização do país, mas aberta a porta, quem sabe o que por ela vai entrar?

10/12/09

Sebald - o meu avô



Hoje, porém, releio sempre as histórias do almanaque, provavelmente porque, como observou Benjamim, uma marca da sua perfeição é que facilmente as esquecemos. Mas não foi somente a etérea fugacidade da prosa de Hebel o que, ao cabo de um par de semanas, me levou a querer saber se o barbeiro de Segringen e o alfaiate de Pensa ainda existiam; o que me faz voltar constantemente a Hebel é também o facto, inteiramente fortuito, de o meu avô, cuja linguagem em muitos aspectos fazia lembrar a do amigo da casa, ter o hábito de comprar todos os anos um calendário Kempten no qual anotava, a lápis de tinta, os dias da festa onomástica de parentes e amigos, a primeira geada, o primeiro nevão, a irrupção do föhn, as trovoadas, granizos e similares, bem como, nas páginas para notas, uma qualquer receita para o fabrico de vermute ou de aguardente de genciana. [W. G. Sebald (2009). O Caminhante Solitário. Lisboa: Editorial Teorema, pp. 12]
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Volto a um dos meus autores preferidos, W. G. Sebald. Esta minha preferência talvez se deva à partilha do seu culto pela memória. Educado filosoficamente numa tradição que vai da reminiscência platónica à rememoração de Ricoeur, passando pela memória como presente do passado, de Agostinho de Hipona, com o passar dos anos, e o crescimento inusitado das memórias, fui ficando cada vez mais sensível aos exercícios mnésicos na literatura, chegando a pensar, muitas vezes, que toda a literatura não é outra coisa senão um imenso exercício memorial.

O meu culto de Sebald, porém, não se deve apenas a essa atenção comum à memória. Deve-se à destreza como ele convoca e entrelaça as memórias para narrar uma história, uma história que, sendo-me absolutamente estranha, parece ser a minha história. Neste pequeno excerto, Sebald começa por falar nas histórias de almanaque de Johann Peter Hebel (1760-1826), um dos grandes escritores de língua alemã, famoso precisamente por essas histórias, mas logo deriva para a memória do seu avô, dos seus gestos e da forma como regulava o mundo.

Eu, que nunca tive um avô, pois morreram ambos muitos anos antes de eu nascer, vejo-me a recordar esse avô que não tive, e recordo-me dele a anotar o seu calendário, talvez uma vulgar agenda, a anotar os dias de aniversário de filhos e netos, os acontecimentos climáticos significativos, o dia que nevou, ou aquele em que o fogo devastou o pinhal à saída da aldeia. Chego a vê-lo a consultar as suas anotações sobre receitas de aguardentes e licores. Sei bem que toda esta recordação é imaginada, mas só em parte. Conheci várias pessoas que faziam algumas daquelas coisas que regulavam a vida do avô de Sebald, mas a história que o escritor me conta permitiu sintetizá-las numa única figura, aquela que nunca conheci, o meu avô. E este meu avô comove-me, como se tivesse existido e me tivesse passeado e mostrado as estrelas e os campos. Um grande escritor é aquele que me faz ter o avô que nunca tive.

René Girard - Imitação



Não há nada ou quase nada, nos comportamentos humanos, que não seja aprendido, e toda a aprendizagem reenvia para a imitação. Se os homens, de repente, cessassem de imitar, todas as formas culturais desapareceriam. Os neurologistas lembram-nos frquentemente que o cérebro é uma enorme máquina de imitar. [Girard, René (1978). Des Choses Cachées Depuis la Fundation du Monde. Éditions Grasset & Fasquele, pp. 15]
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Eis o conceito central da aprendizagem, imitação. Daí a importância do mestre, a quem discípulo deve imitar, até ao dia que, capacitado, pode "matá-lo" e tornar-se assim em mestre e exemplo a imitar. O conceito de mimésis, já em Aristóteles, era um conceito complexo. A real imitação nunca é uma reprodução mecânica do modelo. Este, porém, constitui-se no conteúdo noemático, para falar à maneira da fenomenologia, que a intencionalidade do discípulo visa. Esta intencionalidade implica uma configuração complexa, de gestos e atitudes, para lograr a imitação, implica um trabalho árduo para alcançar o modelo. Este trabalho, porém, tem uma função surpreendentemente libertadora. Aquele que trabalha arduamente para imitar vai descobrir as suas próprias forças e o seu próprio caminho. Assim, se libertará do modelo.

Aquilo que no ensino de hoje se propõe, porém, é o contrário disto. A imitação, e o concomitante trabalho árduo, foram banidos. A criança e o jovem não devem imitar. Terão de ser criativos e de ser inovadores. Não há maior armadilha que se possa fazer a uma criança ou a um jovem que exigir que ele seja criativo e inovador (fazem-me rir as idiotices - repito para que não restem dúvidas, idiotices - que se encontram em muitos documentos de avaliação de alunos, paridos por escolas, professores e organismos do ministério, sobre avaliar criatividades e espíritos de inovação). A criatividade e a inovação só podem nascer após um longo processo mimético. Como pode um sistema de ensino que baniu os modelos a imitar, que desprezou o acto mimético e o complexo trabalho que ele requer, exigir, com tamanha falta de pudor e de probidade intelectual, que crianças e jovens sejam criativos e inovadores?

09/12/09

Uma estranha pátria



O desafio. Ser racional e desconfiar da razão. Viver racionalmente na conduta social e privadamente descobrir os limites dessa racionalidade. Será a razão filha da política? Resultará essa faculdade do exercício do cálculo na relação com o outro e da necessidade de agir segundo a justa medida? Será ela um produto da praxis? A tradição ocidental pensou o homem como animal racional. Nietzsche pensou-o como uma ponte entre o animal e o sobre-homem. Mas se o homem é uma ponte, que coisa nele fará com que seja essa ponte. Não a condição animal, pois essa é uma das margens. Resta a conclusão: a razão é uma ponte. As pontes ligam o aquém e o além. O aquém da razão todos conhecemos, são os afectos, as emoções, as pulsões. Mas o que será o além da razão? O que será a sobre-razão? Para além da ponte está a não ponte. A sobre-razão só pode ser uma não-razão. Qual o território dessa não-razão? A infra-razão, o aquém da razão, tem por território a necessidade natural, físico-biológica, a razão habita o território da necessidade social, pois não é ela a filha da praxis política? À sobre-razão resta-lhe um estranho território, o da liberdade. Onde cessam as necessidades naturais e a sociais, começa o país da liberdade. A razão ainda é uma prisão para aquele que se quer aventurar nessa estranha pátria. Não basta, para ser livre, desconstruir as estratégias do corpo como pensou Platão e a tradição ocidental com ele. Não basta opor a razão ao corpo, o espírito à matéria. Não basta sequer perorar contra os dualismos, cartesianos ou outros. O corpo encerra a razão, a razão encerra a liberdade. A sobre-razão talvez seja a faculdade de abandonar ambos os cativeiros. Mas como será possível uma sobre-crítica dessa sobre-razão que lhe assinale os direitos e os limites? Talvez o território da liberdade não tenha limites e o que penetra nele esteja libertado de direitos e de deveres.

A mistificação das competências



Graças à leitora Alice N, tive acesso a este documento. É uma interessante e reflexão e desmontagem do chamado ensino por competências. Torna evidente os interesses que se escondem na retórica educativa do ensino por competências e mostram como esse ensino desvaloriza o saber e promove a desigualdade social, ao contrário do que o discurso político anuncia.

O papel essencial de Cassandra



Eu sei que da parte do governo, e mesmo da oposição, se olha com complacência as tomadas de posição de Medina Carreira. São diatribes de um velho que perdeu o contacto com a realidade, pensa-se, dentro da classe política, para aliviar o peso da consciência, se ainda há algum. No entanto, aquilo que o antigo ministro das Finanças diz faz todo o sentido (ler aqui ou aqui). A crítica radical que faz ao programa Novas Oportunidades só peca por ser demasiado benévola. Aquilo é, para o país, bem pior do que uma simples «aldrabice» e uma simples «trafulhice». Também a crítica que faz à educação é demasiado benevolente. A educação não está uma «miséria». A educação está pervertida. Os princípios que a orientam estão completamente errados. Também a crítica ao parlamento e aos parlamentares, apesar da contundência, acaba por ser suave. O problema não é só o facto de ninguém, com medo do chefe partidário, não miar. O problema central é que os representantes deixaram efectivamente de representar os representados. Isto significa que a democracia representativa está morta. Seja como for, o papel de Cassandra que Medina Carreira decidiu vestir é social e politicamente fundamental, pese o desagrado das múltiplas Clitmnestras que por aí há.

Escola e Sociedade - a Deriva da Razão



No âmbito do Fórum Cidadania, organização conjunta da Escola Secundária Maria Lamas e da CIVILIS, este blogger proferiu a 23 de Novembro pp., a conferência com o título Escola e Sociedade - a Deriva da Razão. Publica-se aqui e agora o abstract. Quando o texto desenvolvido da conferência estiver disponível on-line, far-se-á daqui o respectivo link.

Discute-se a sociedade que se está a construir a partir de uma visão da relação entre escola e sociedade. Tomando como ponto de partida uma descrição fenomenológica dos valores dos alunos relativamente à probidade do desempenho escolar, faz-se uma descrição das figuras sociais dominantes na sociedade portuguesa actual – a esperteza sem regras morais e cívicas, o desânimo e fuga dos melhores, a lamentação dos altos responsáveis. Assim caracterizada a sociedade, argumenta-se criticamente a ideologia da escola aberta à comunidade, nomeadamente a visão da escola como continuidade da família, a sua permeabilidade aos valores e sub-culturas locais, e o imiscuir, na instituição, dos poderes fácticos estranhos ao ethos escolar. Argumenta-se, depois, a necessidade de caracterizar a escola como espaço público fechado. Parte-se de um argumento de Michael Walzer sobre a escola japonesa do pós-guerra e de uma descrição fenomenológica da axiologia escolar, para defender que a escola deve ser esse espaço público fechado devido às características específicas da instituição (um lugar onde menores e maiores se encontram para os primeiros se elevarem à universalidade da razão) e à necessidade de preservar o currículo a transmitir da influência dos interesses privados, sejam familiares ou de natureza económica, social e política. Por fim, propor-se-á as linhas gerais de uma política conservadora de resistência e insistência que vise conservar o papel primordial da razão perante a deriva niilista actual.

08/12/09

Alexandre del Valle - Eurabismo e a morte do pai



Segundo Bat Ye'Or, o eurabismo ambiciona libertar a Europa cristã das suas bases judaicas e respectivas raízes bíblicas. Assim como os nazis queriam arianizar o cristianismo e os islâmicos quiseram palestinizá-lo, assim como determinadas igrejas do Médio Oriente pretenderam criar uma espécie de síntese islamo-cristã, assim também estará a dar-se - afirma Bat Ye'Or - uma islamização do cristianismo por via da palestinização. Trata-se de uma estratégia teo-geopolítica partilhada por personalidades como René Guenon, que sonhava, como certes nazis viriam a sonhar, com a possibilidade de fazer regressar às fontes um ocidente em declínio, islamizando a Europa e cristianizando o islão, movimento que designava por regresso salvífico ao oriente. Assim, e ainda segundo Bat Ye'Or, a propensão que diversos dirigentes europeus eurabianos - de que são exemplo, nomeadamente Jacques Chirac e José Luis Zapatero - mostram ter para a glorificação do passado arabe e islâmico da Europa, e a corte que fazem às nações mais radicalmente inimigas de Israel, são indícios de uma atitude mais ou menos consciente de rejeição do pai hebreu, ou seja, da origem fundamentalmente judaica da civilização cristã. [Alexandre del Vale (2009). A Islamização da Europa. Porto: Civilização Editora, pp. 41]

Conspirações


Portugal aqueceu 1,2 graus nas últimas décadas e vive fenómenos extremos como chuvadas intensas, ondas de calor e vagas de frio prolongadas. A responsabilidade deste incremento da temperatura é, segundo Adérito Serrão, presidente do Instituto de Meteorologia (IM), da acção humana, nomeadamente das consequências da revolução industrial, que intensificou as emissões de dióxido de carbono.

O mais curioso nesta história do aquecimento global é a emergência de teses negacionistas. Aparentam ser um exercício da razão crítica e lançam a confusão entre o senso comum destituído de capacidade analítica e de informação. No fundo, são exercícios próximos daqueles que negam o holocausto dos judeus. Muitas vezes os defensores destes teses negacionistas são os mesmos. Tentam denunciar estranhas conspirações que moldam as teses do holocausto e do aquecmento global, mas na verdade quando se começa a puxar o fio dé ambos os negacionismos encontramos interesses políticos comuns na sua origem. Quem defende a inexistência do holocausto de judeus na II Grande Guerra? Quem tem petróleo para vender e provocar mais emissões de CO2? Como se vê, é fácil montar uma nova teoria da conspiração.

07/12/09

Um pensamento falacioso



A extraordinária centralização e concentração de capital, a formação de gigantescos monopólios que, isoladamente ou em aliança, dominam ramos inteiros da produção, do comércio e serviços e das finanças, os próprios mecanismos de regulação internacional do capitalismo, são expressão de reais processos de socialização que mostram a necessidade do socialismo, como solução racional necessária à desumana anarquia e concorrência capitalistas. A solução dos grandes problemas que afectam toda a Humanidade, a começar pelo problema da paz, mas também os problemas dos recursos naturais, da energia, do ambiente, da pobreza e outros, exige a utilização de métodos racionais de planeamento inerentes ao socialismo." [Resolução Política do XVIII Congresso do PCP, aprovada em 1 Dez 2008]
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No post anterior tinha escrito que nem sempre se pode estar em desacordo com o PCP. Referia-me à crítica que o partido faz à mercantilização do suposto direito de poluir. Mas, ao olhar para os comentários dos leitores à notícia do Público sobre o assunto, deparo-me com este excerto de um documento do PCP. E logo encontro matéria onde esse acordo desaparece de imediato.

1. Não se compreende a ligação lógica entre "A extraordinária centralização e concentração de capital, a formação de gigantescos monopólios que, isoladamente ou em aliança, dominam ramos inteiros da produção, do comércio e serviços e das finanças, os próprios mecanismos de regulação internacional do capitalismo são expressão de reais processos de socialização" e "que mostram a necessidade do socialismo, como solução racional necessária à desumana anarquia e concorrência capitalistas". Estamos, antes do mais, perante a denominada falácia do falso dilema. Dá-se a entender, de forma falaciosa, que só há dois pólos de escolha. Se um gera uma situação crítica, então deveremos optar pelo o outro. Isto é falso, do ponto de vista lógico. Mas não estamos apenas perante a falácia do falso dilema, estamos perante uma outra falácia denominada non sequitur, que se refere aos casos onde, num argumento, a conclusão não se pode deduzir das premissas. Mesmo que a premissa seja verdadeira, não há conexão entre o que ela diz e aquilo que se afirma na conclusão. Da situação actual do capitalismo, por exemplo, não posso deduzir a necessidade do socialismo, como o faz o texto do PCP.

2. Mas o desacordo não é apenas lógico. É também ontológico e metodológico. Os métodos racionais de planeamento já foram testados no chamado socialismo real. O resultado foi desastroso. O potencial de criatividade humana foi abafado, a capacidade de gerar produtos para a satisfação das necessidades e desejos dos homens era mínimo, a liberdade era inexistente. Depois, neste tipo de pensamento há uma presunção desmedida, a presunção de que a razão planificadora consegue calcular tudo o que é necessário à vida dos homens. O capitalismo é, do ponto de vista económico, muito mais eficaz que o socialismo planificador. Só que esse capitalismo terá de ser regulado e não deve ocupar as áreas da vida social que não sejam económicas. Esta crítica ao capitalismo não visa a sua destruição, mas pô-lo ao serviço dos homens e limitar os aspectos mais insociáveis do egoísmo que lhe é inerente.

3. Voltando à questão ambiental, assunto do post anterior, não se pode afirmar que os problemas ambientais produzidos pela economia capitalista tenham por solução "a utilização de métodos racionais de planeamento inerentes ao socialismo". Para além das falácias contidas no raciocínio, existe aqui uma falta de verdade histórica. As economias socialistas eram muito mais poluidoras que as capitalistas e muito menos interessadas nas questões ambientais.

4. Eis como se pode estar muitas vezes de acordo com o PCP nas críticas que faz, e raramente com as soluções que propõe.

Recusar a mercantilização do ambiente



Nem sempre se pode estar em desacordo com o PCP. Por exemplo, a posição dos comunistas perante o comércio da poluição parece-me bastante justa. A crítica à mercantilização do ambiente e à privitização da atmosfera é essencial para afirmação sobre elas de um direito público internacional e evitar que, devido ao talento das equipas jurídicas ao serviço das grandes multinacionais, a defesa do ambiente e a protecção da atmosfera se venham a reger pelas leis do mercado e da economia, e não da política. A atmosfera bem como o ambiente do planeta são bens comuns partilhados por todos os seres que habitam a Terra, não podem estar sujeitos à lei da oferta e da procura, nem ao jogos dos interesses privados, por muito amplos que estes sejam.

A minha primeira vez





Não queria deixar de assinalar aqui, no averomundo, o acontecimento. Ontem, pela primeira vez, entrei no novo estádio do Sport Lisboa e Benfica. Há muitos anos, desde o fim da faculdade, que não ia ver o Benfica a jogar na Luz. Ontem, graças à generosidade e à estratégia de marketing do clube, lá fui para a bancada TMN. O jogo, enfim, é o que menos conta. Apesar de ser um espectador fleumático e de o futebol me interessar já muito pouco, gosto de ver o ambiente e de sentir o fervor do clube. Isso liga-me à minha infância e à memória do meu pai. Uma das coisas que tenho pena foi não ter conseguido levá-lo a ver a nova Luz, inaugurada quando ele estava já gravemente doente. Ontem, porém, pude ver a obra por dentro. Ela é, do ponto de vista arquitectónico, muito mais interessante vista do interior do que do exterior. Há uma leveza naquela arquitectura de ferro que faz lembrar uma águia planando sobre a presa. Depois, a concepção permite um escoamento fácil. Acabado o jogo, tudo flui e os vestígios do acontecimento nas imediações do estádio desaparecem rapidamente. Para coroar a visita, 4 golos à Académica. Talvez lá volte um dia destes.

05/12/09

A continuação do regabofe



Esta declaração da autarca socialista, Maria de Lurdes Rosinha, no congresso da Associação Nacional de Municípios, é um sinal de que esta gente ainda não percebeu nada do que se passa. A senhora quer uma "revisão urgente da lei das finanças locais para fazer face à crise orçamental de muitos municípios num período de crise".  Isto é, quer mais dinheiro para os seus estimáveis projectos. Ainda não percebeu que a crise não é conjuntural. Não se está a viver um período de crise que vai levar, naturalmente, a um período fora de crise, a um período de abundância. Para além da crise internacional, há um estado crítico estrutural que atinge o país devido à irresponsabilidade, fraqueza e oportunismo de uma classe política completamente desajustada da realidade, composta por gente que pensa que o dinheiro cai do céu aos trambolhões. E os municípios, esse glorificado exemplo do poder pós 25 de Abril, bem podem limpar as mãos à parede com o contributo que deram para se chegar onde se chegou. Por exemplo, os presidentes de Câmara deveriam fazer um voto de silêncio durante os próximos anos e evitar reunir-se em conclave para dizerem dislates deste género.

Quotas e outras batotas



Há uma falta de honestidade essencial na relação do governo com os professores. A questão das quotas na avaliação, do ponto de vista da apreciação do mérito, são uma mentira sem fim. Aliás, a própria avaliação, a que vai acabar ou a que vai entrar, não discernirá o mérito de quem quer que seja. Mas a desonestidade governamental, desonestidade que passou do anterior para o actual governo, deve-se a um pormenor que não é assumido publicamente. Não há dinheiro para pagar os salários dos professores. O país não gera riqueza para tal. Isso não é assumido porque o problema não diz respeito apenas aos professores. Não há dinheiro para pagar como se paga aos juízes, aos militares, aos universitários, aos médicos, aos enfermeiros, às chefias e aos quadros superiores da função pública, não há dinheiro para pagar a maior parte dos salários dos funcionários públicos, centrais e locais. Não há dinheiro para tanta gente dependente do Estado. Não há dinheiro para pagar muitas das reformas que o Estado tem de pagar a antigos servidores. Não há dinheiro para tanto assessor e chefe de gabinete que as classes políticas, locais e centrais, criam para assegurar o seu poder. O governo anterior pensou que proletarizando os professores estabelecia um pacto de silêncio com os outros corpos servidores do Estado e que o regabofe poderia continuar. Não resolveu problema nenhum e criou um enorme conflito com os docentes.

As coisas chegaram a um ponto que vai, mais tarde ou mais cedo, ter de se mexer na constituição para poder anular certas direitos conquistados, pelo simples motivo que não há dinheiro para os pagar. Sócrates teve uma maioria para fazer isso. Preferiu escolher um bode expiatório e fingir que resolvia o problema. Um dia destes acordamos e estamos na Argentina de há uns anos atrás. Sócrates tornou-se um impecilho, até para o seu próprio partido. O pântano cresce todos os dias. Portugal está gravemente doente. Está a chegar a hora em que a batota já não consegue encobrir a incompetência que tomou conta do país desde que entrámos na CEE. Sim, Cavaco foi o primeiro culpado disto a que se chegou. Os outros têm sido uns meros continuadores da desgraça que se começou a desenhar no cavaquismo. Fingir-se civilizado, só porque os outros nos dão muito dinheiro para fazermos auto-estradas e rotundas, deu nisto. Vamos pagar duramente.