15/11/09

A tortura mais insuportável



Terão alguma vez os tiranos inventado torturas mais insuportáveis que aquelas que os prazeres fazem sofrer aos que se abandonam a eles? Eles trouxeram ao mundo males desconhecido ao género humano, e os médicos ensinam, a partir de uma perspectiva comum, que estas funestas complicações de sintomas e de doenças que desconcertam a sua arte, confundem as suas experiências, desmentem tantas vezes os antigos aforismas, têm a sua origem nos prazeres. [J-B Bossuet, Sermon contre l'amour des plaisirs, I.º point]

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Eis o progresso. Desde a condenação do prazer visto como tortura, devido à insuportabilidade de um desejo nunca saciado, até aos programas políticos da educação para o prazer vão cerca de três séculos. A grande diferença, curiosamente, é que Bossuet sermoneava desta forma perante Luís XIV e a sua corte, como forma de tornar os poderosos mais contidos, enquanto hoje é o poder político que evangeliza a população para o culto do prazer. Restará, contudo, fazer esta estranha pergunta: o que ganham as elites políticas com esta evangelização? O que pretendem elas? Bossuet diria que pretendem abrir uma espécie de caixa de Pandora e disseminar os males pelo mundo, ao mesmo tempo que submetem as populações à tortura mais insuportável, a do desejo nunca saciado (curiosamente, não é este desejo que funda a sociedade de consumo?). Mas Bossuet não passava de um teórico do absolutismo, adversário da democracia.

Masturbação política



Tomei contacto com a coisa no Ponteiros Parados, de lá segui para o Público, onde fui informado que a Exma. Junta da Extremadura espanhola, sob a égide dos socialistas (informação pesquisada por este blogger), está ocupadíssima em «pôr os jovens espanhóis, entre os 14 e os 17 anos, em contacto com o seu corpo e a sua sexualidade. As técnicas de masturbação estão entre os assuntos debatidos e explicados.» A notícia acrescenta: «A campanha, financiada pelo Governo, pediu a duas formadoras que ensinem aos jovens tudo o que é preciso saber sobre jogos eróticos, carícias, auto-erotismo e anatomia masculina e feminina. Temas mais complexos, como a identidade de género e a auto-estima, deverão igualmente ser abordados. As sessões de formação são itinerantes e incluem demonstrações com uma série de "brinquedos sexuais", incluindo vibradores e bolas chinesas.»

Ao fim de centenas de milhares de anos em que os seres humanos e os seus ancestrais se masturbaram como muito bem entenderam, o socialismo moderno decidiu que os jovens não sabem masturbar-se e que não há nada mais para fazer com o dinheiro dos contribuintes do que uns cursos de educação sexual, onde se ensina, entre outras coisas, os jovens nos seus jogos auto-eróticos. A intolerabilidade de tudo isto não reside no facto de haver alguém que ensine alguém a sexualidade, masturbação inclusive. A intolerabilidade está na intromissão do Estado no assunto. Esta intromissão tão cheia de boa vontade iluminista é perigosa porque rasga as fronteiras entre o público e o privado e abre uma nova frente de colonização da esfera da intimidade pela esfera do controlo político. Quando um organismo político acha que deve ensinar sexualidade aos seus cidadãos é porque não está contente com a sexualidade tal como existe e pretende interferir nas práticas sexuais, para as corrigir segundo o seu modelo. Extraordinário.

Mas não é só a esfera da intimidade que é assim ameaçada pelo controlo político. É o próprio poder político que se dissolve na irrelevância daquilo que toma por objecto da sua função. Estas causas da esquerda light, esquerda comprometida com a submissão da esfera política à esfera económica, significam a demissão das elites políticas das suas funções efectivas e a procura de um campo que, após se terem demitado da função de soberania, justique a sua inútil existência. Uma masturbação.

14/11/09

Impressões - XLI


Diego Rivera, La Casteñeda o el Paseo del los Meláncolicos (1904)

no obscuro caminho onde passas
sem que vejam em ti um nome
ou uma estrela assinale a fronte
um pudor de árvores turva o chão
que pisas ao fugir do suplício da noite

as uvas amadureceram no fim do estio
e os cachos caem melancólicos dos braços
onde tristes a vinha os depôs
para que fossem sombra de vida
o vinho no copo que ergues na mão

Serviço militar obrigatório



Um dos temas presentes na crónica de ontem, no Público, de Luís Campos e Cunha, e aqui citada, é o da disciplina. Pertenço a uma geração que assistiu e participou na abolição do valor da disciplina e, concomitantemente, desvalorizou até ao irrisório as virtudes militares e os seus valores. Não fui imune ao sortilégio. Há muitos anos, porém, que reconheço o elevado valor moral e social dos valores da instituição militar. Nunca concordei com a abolição do serviço militar obrigatório, pelo contrário. Ele deveria, nos dias de hoje, ser universal, abranger rapazes e raparigas. Seriam dispensáveis os 16 meses que me couberam em sorte, mas uma espécie de recruta prolongada, de seis meses, na qual todos sem excepção seriam iguais, não faria mal a ninguém. Seria um momento, se bem pensado e organizado como é apanágio da instituição militar, de alta qualidade na formação cívica, social, patriótica e moral. Depois de uma escolaridade anarquizante e mesmo de um ensino superior quase igual, a disciplina da instituição militar acabaria por ajudar uma extensa maioria de jovens. Sei que isto não é politicamente correcto afirmar, ainda por cima por alguém que pertence a uma geração que fugiu do cumprimento do dever militar através de múltiplos álibis. Mas 25 anos como professor, para além da experiência própria na instituição militar, corrigem muitos preconceitos e ideias feitas. O serviço militar obrigatório não seria apenas uma contribuição para solidificar o espírito patriótico e a noção de dever, mas também uma tábua de salvação para muitos jovens que andam pura e simplesmente à deriva.  A primeira coisa que deveria acabar era a objecção de consciência. Pode cumprir-se o dever militar sem ter de pegar em armas. O essencial é a rotina, os valores, a disciplina irremitente, o deitar e levantar cedo, o ter de fazer a cama, o de estar impecavelmente fardado, o aprender a falar com o superior hierárquico, o ter de obedecer, o espírito de entre-ajuda em situações difíceis, o reconhecimento do papel do esforço. Isto é, tudo aquilo que deveria ser já o apanágio das escolas, mas que o corpo político por irresponsabilidade, oportunismo, má-fé e pusilanimidade, com a cumplicidade de muitos professores, diga-se de passagem, decretou que acabasse, para infelicidade de muita gente.

Logo à noite, Ana Moura



Logo, pelas 21:30, no Cine Teatro Virgínia, em Torres Novas, Ana Moura. Já tenho bilhetes para um espectáculo que, segundo consta, está hiper-esgotado. A primeira vez que vi, a sério, fado ao vivo foi com Camané. Ele deixou a expectativa tão alta que até tenho algum medo da apresentação de logo à noite.

13/11/09

Impressões - XL


Theodore Robinson, El Puente Viejo (1890)

quem saberá falar dos anjos
ou daquelas pedras que juntas são
um palácio um castelo uma ponte
onde passas se te dói a cabeça
ou os dias de novembro
se tornam exíguos para a ânsia
que há na luz com que me chamas

tantos os deuses ali mortos
vinham pela aurora e olhavam o rio
e em silêncio viam passar homens
a escura floresta chamava-os
e eles adormeciam nas tarde cálidas
para não mais semearem
em ti o odor fresco da terra

Luís Campos e Cunha - O horror à decência



E a anarquia, quase geral em que vive o ensino secundário, tem horror ao Colégio Militar, obviamente. Aliás, a verdade é mais funda: a anarquia quase geral da nossa sociedade tem horror à instituição militar. Uma instituição organizada, como a militar, que cultiva os valores da honra, da camaradagem, da disciplina e do dever para com a pátria, não pode ser bem vista pela sociedade actual. A nossa vida colectiva -a civil - privilegia o oportunismo, habituou-se aos casos de corrupção (com ou sem fundamento), tem uma imprensa virada para o escândalo e uma televisão com novelas que são difusoras da falta valores e da ausência dos bons costumes. O Colégio Militar poderá acabar mas as razões estão na nossa sociedade e não dentro dos muros do Colégio. O horror à decência é dos indecentes.

Icebergs à deriva



Há uma corrente que insiste em negar a causalidade humana nos fenómenos relacionados com as alterações climáticas. Um dos argumentos é curioso. Funda-se num apelo à humildade. Seria uma arrogância humana desmedida, pretender que as alterações que estão a ocorrer no clima do planeta se devem à acção de uma das espécies que o habita. Mas dois séculos e meio de Revolução Industrial, uma revolução cada vez mais acelarada e disseminada por todos os cantos do planeta, alguma coisa devem ter contribuído para o actual estado de coisas. Por exmplo, para o fenómeno dos icebergs que se estão a deslocar para a Novaz Zelândia ou para a acelarção da perda de massa na Gronelândia. Mas subjacente a este tipo de posições está uma não pequena arrogância, uma hubris prometaica que presume que tudo é permitido ao homem. Que o fogo tenha sido roubado aos deuses e dado aos homens é um crime que, apesar da condenação de Prometeu, pode ser perdoado à espécie humana. É duvidoso, porém, que os deuses permitam impunemente que o homem utilize esse mesmo fogo para reduzir a casa onde habitam a cinzas.

Um record difícil de bater


Jornal Torrejano, 13 de Novembro de 2009



On-line encontra-se a edição semanl do Jornal Torrejano. Clique aqui e vá até .

12/11/09

Impressões - XXXIX


Gustave Loiseau, The Eure River in Winter (1903)

sei das horas a viagem
esse enigma que tudo desfaz
os velhos planos que rompiam futuros
o esboço de um jardim de verão
a esperança do amor
nas tardes em quo o frio nos trai

ergo a taça e brindo
a todos os invernos que me nascem
dentro do saco de lona
a que por hábito chamo alma
e sento-me no sossego da margem
à espera que o rio passe

Ministra da Educação



Acabei de ver, na RTP, a entrevista dada pela Ministra da Educação a Judite de Sousa. Depois da Bruxa Má, veio a Branca de Neve. Antes assim, mas veremos o que tempo, esse grande escultor, nos vai ensinar.

Leituras



Tenho estado a trabalhar sobre um texto de Joseph de Maistre denominado Éclaircissement sur les Sacrifices. Há nessa operação uma dupla ambiguidade. Maistre, um autor anti-iluminista, e é o mínimo que se pode dizer do seu reaccionarismo, utiliza no título do seu estudo uma das palavras mais caras ao Iluminismo, Éclaircissement, Esclarecimento. Esclarecer não é mais do que levar a luz da razão aos lugares onde as trevas predominam. Esclarecer significa literalmente tornar claro, visível. O Esclarecimento é atravessado por um ideal de transparência, por uma luta sem fim contra a opacidade do real. O que Maistre faz, porém, é levar a luz até ao lugar onde ela não penetra, até a uma espécie de buraco negro que deglute toda a energia, que elimina a luminosidade, que mostra um limite à transparência. Esclarece para mostrar que nem tudo pode ser esclarecido, como se brincasse com os seus inimigos teóricos de predilecção, como Voltaire.

A segunda ambiguidade reside em mim, leitor de Maistre. Muito do que leio repugna-me o sentimento e atiça a ferocidade polémica da razão. Ao mesmo tempo, contudo, insinua-se um secreto prazer na leitura, uma prazer que não nasce da transgressão, mas do reconhecimento de uma voz muito antiga que o tempo tinha recalcado. É como se a superfície racionalista que cobre a minha educação cedesse a um longínquo apelo daquilo que, para a razão, há de mais tenebroso e ameaçador. Sinto-me divido entre a vontade de polémica e a sedução que os textos de Maistre exercem sobre mim. Já há muito que não encontrava textos que me pusessem neste estado de ambiguidade. Os livros de Agustina Bessa-Luís, por exemplo, tinham essa capacidade. Fascinavam-me e repeliam-me. Faziam-no de tal maneira que cheguei a jogá-los violentamente contra a parade ou para o chão e pontapeá-los, para depois os apanhar e retomar sofregamente a leitura. Ninguém se iluda, ler não leva à glória dos altares, nem é um exercício para almas cordatas. Ler pode ser uma batalha campal.

11/11/09

Impressões - XXXVIII


John Singer Sargent, Yoho Falls (1916)

que sol iluminará a queda
essa lâmina que atravessa o coração
e te deixa exangue
à porta de minha casa

os astros estiveram de feição
mas o voo das aves
trouxe outro veredicto

nem sempre a perda é uma maldição
pode ser um pomar de macieiras
ou os olhos rasos de água
de quem volta de um longo exílio

De rastos



Por que temos todos a impressão, talvez a certeza, de que a Justiça, nesta embrulhada das escutas telefónicas e das certidões judiciais, vai sair, aos olhos da opinião pública, mais uma vez de rastos? Se alguém quisesse destruir a independência do Poder Judicial, e mostrar a inanidade do princípio, não faria melhor do que a Justiça portuguesa faz. É provável que Manuela Ferreira Leite tenha razão, e que o primeiro-ministro tenha o dever político de explicar aquilo em que foi escutado. Mas os responsáveis pela Justiça em Portugal não terão contas a prestar? Como é possível que tudo se discuta na praça pública? Como é possível o triste espectáculo a que assistimos?

A morte de Robert Enke



Por causa do presuntivo suicídio do antigo guarda-redes do Benfica, Robert Enke, actualmente a jogar no Hannover 96, João Gonçalves escreve isto, e o Zé Ricardo, isto. Mas talvez a questão do acto de Enke não resida nem em Deus nem na alma, não possua uma explicação filosófica, ou teológica, ou sociológica. Talvez a explicação seja idêntica àquela que se dá quando alguém morre de  cancro ou de tuberculose, ou sei lá eu de quê, tantas são as estratégias da morte ligadas às patologias. Se Thanatos escolhe uma desregulação na multiplicação das células, uma pneumonia ou uma depressão que aniquila o livre-arbítrio e conduz o paciente para a auto-imolação, estará a fazer coisas diferentes? Tecnicamente falando, do ponto de vista da ordenação jurídica da vida, o caso de Enke foi um suicídio, mas terá sido? A morte por cancro é um suicídio?

10/11/09

Impressões - XXXVII


Stanislas Lépine, Le Port de Caen (1859)

regressamos sempre ao mesmo passado
a rosa que nos atormenta
com a ferocidade dos espinhos
as buganvílias que vimos crescer
no porto da infância
aqueles barcos de pavilhão arvorado
à espera que o imperador regresse

e é sempre tudo em vão
o trabalho da flor sobre a água
os remos estendidos no barco
as velas que o vento já não sopra

os portos onde depositámos a infância
são agora desertos de areia e betão
iluminados por um sol frio
que tumultua as ruas onde ninguém passa

Educação Sexual



Não percebo a pressa que há em disseminar pelas escolas essa disciplina retrato do niilismo educativo, Educação Sexual. A única coisa que se deveria dizer seria para os jovens aguardarem pelos 70 anos. Segundo a opinião de Jane Fonda, o sexo aos setenta e um é melhor do que antes. Sendo assim, e como não se presume que a escolaridade obrigatória se prolongue até tão tarde, o melhor mesmo seria ensinar gramática às crianças. Não é afrodisíaca? Depende. Talvez a morfologia não seja particularmente interessante. Mas se se aprender a metaforizar, talvez se compreenda que da morfologia das palavras à morfologia dos corpos a distância não é assim tão grande. Por outro lado, a fonética é imediatamente pregnante no acto sexual. O estudo dos sons, da sua emissão e recepção, não deixaria de fornecer matéria suficiente para a reflexão sobre a praxis sexual. Incontornável, porém, é a sintaxe. A arte da combinação das palavras numa frase é uma excelente propedêutica para a combinação dos corpos numa cama, a reflexão sobre o que deve vir antes e o que deverá vir depois, as possibilidades de alteração da ordem natural, etc. Como se vê, ensinando seriamente gramática aos alunos, fornecer-se-ia os instrumentos básicos de uma sexualidade realizada e feliz. Não há pois sexualidade que não tenha a sua grámatica, que não mobilize os conhecimentos morfológicos, que não dependa da fonética, que não utilize as regras da sintaxe. Mesmo que nem todos fossem poetas do sexo, pelo menos saberiam escrever e falar, o mínimo exigido para haver comunicação decente. E o sexo não é comunicação? Se se continuar a insistir na Educação Sexual e na Educação Cívica e no Estudo Acompanhado e na Área de Projecto, os alunos nunca terão tempo para aprender a complexidade do saber gramatical. Nem aos setenta anos poderão dizer que o sexo é melhor do que antes. Faltar-lhes-á a gramática que superintende um bom desempenho na linguagem do amor e fornece o padrão de avaliação da performance.

09/11/09

Impressões - XXXVI


Pierre-Albert Marquet, Tempête en Mer (1899)

como um incêndio no mar
o sopro do vento
abre uma pústula de fogo
nas mãos dos remadores

cantam a areia frágil
onde a vida escreve
numa folha de água
a esperança desmedida

O filosofês técnico

Como se banaliza, até o reduzir a um puro flato destituído de significado, um conceito filosófico? Assim: «Sócrates: Queda do Muro significou "novo paradigma mundial"». A noção de paradigma, importada do eidos (ideia) platónico pela mediação da teoria do desenvolvimento da ciência de Thomas S. Kuhn, tornou-se um bordão na mão de quem não faz a mínima ideia do que é efectivamente um paradigma, qual a arqueologia do conceito, e para que finalidade foi criado. Quando oiço alguém utilizar a palavra paradigma dá-me vontade de o mandar calar de imediato, ou de desligar a televisão. Tornou-se uma daqueles noções que se exibem mecanicamente para se mostrar uma erudição inútil e que de facto não se possui. No caso vertente, um filosofês técnico.

Jorge Sá Borges

Ao ler o In Memorian, de Medeiros Ferreira, sobre o antigo dirigente e fundador do PPD, Jorge Sá Borges, apetece voltar à inocência da primeira juventude, e perguntar por que razão pessoas como ele não têm lugar na política portuguesa? Dirigente estudantil na crise académica de 1962, católico, advogado de sucesso, pessoa elegante. As intervenções políticas de Sá Borges eram, ainda segundo Medeiros Ferreira, informadas, inteligentes, conciliatórias. Foi também, para o antigo renovador, o melhor ministro de Conselho de Ministros. Tudo isto no período quente do pós 25 de Abril. Hoje, salvas raras e honrosas excepções, resta uma gente funesta, cuja inteligência se mede pelas sondagens e a elegância, mesmo se composta por fatos caros e gravatas bem combinadas (coisa, aliás, rara), anda não muito longe da elegância do Zé Povinho do Bordalo.

08/11/09

Impressões - XXXV


José Nogué, La esfinge marina (1910)

a trémula água que se agita
o peso do céu a arder
ou a rosa que se abre
para a desdita

tudo conspira
para que o teu nome
venha envolto de espuma
e em cada olhar se veja
não a pedra não a rocha
mas a velha esfinge
que devorou a bruma

Os crucifixos italianos



O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem decidiu proibir os crucifixos nos estabelecimentos escolares italianos. Segundo o Público, uma sondagem do Corriere della Sera mostra, porém, que a grande maioria dos italianos, 84%, é favorável à manutenção dos crucifixos na sala de aula. Dentro desta maioria conta-se 68% daqueles que nunca vão à missa.

O preocupante nesta história não é o conflito entre o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e o sentir da imensa maioria dos italianos, nem tão pouco o direito de ingerência em assuntos internos que os países europeus criaram para certas instâncias internacionais. Aquilo que é mesmo preocupante centra-se no escavar da identidade europeia, na abolição sistemática dos símbolos que nos conduziram até aqui. Mais tarde ou mais cedo tudo isto se pagará. Seja pela sujeição a símbolos que são radicalmente estranhos à tradição europeia, seja pelo acréscimo de intolerância e fanatismo religiosos dos próprios europeus. Contrariamente ao que pensam os herdeiros do Iluminismo e do Jacobinismo, não há vazios religiosos. A destruição do cristianismo, fundamentalmente do catolicismo, é apenas a antecâmara para que outras religiões, porventura bem menos civilizadas, tomem o lugar daquela que venera o Crucificado.

Mais um passo...



Uma vitória de Barack Obama. A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou a proposta de reforma do sistema de saúde, que prevê o alargamento da cobertura médica a quase toda a população norte-americana. Falta agora a votação no Senado, para os EUA, em matéria de Saúde, darem um passo para fora das trevas medievais. Mais um passo...

Lá se vai mais um bocado da auto-estima



O dr. Manuel Damas formou-se em Medicina Nuclear, mas a sua especialidade é sexologia, e dirige o Centro Avançado de Sexualidades e Afectos, no Porto. Deu uma entrevista à revista Sábado. Parece apostado em reforçar a baixa auto-estima dos portugueses do sexo masculino, mostrando o que se esconde por detrás da prosápia heróica com que se pintam. Transcrevo...

Diz que o homem português ainda tem muito a aprender, no que toca ao sexo.

É muito marialva, mau amante. Passou da figura do Rafael Bordalo Pinheiro, baixo, gordo, careca e de bigode, para um homem mais alto, mais magro e de brinco à Cristiano Ronaldo. Ou seja, modernizou-se aparentemente, mas com muita superficialidade. Temos de avançar para o futuro. E isso passa também pela sexualidade e pelos afectos. Há muita desinformação, muito analfabetismo na área da sexualidade.

07/11/09

Impressões - XXXIV


Leopold Romañach, Marina


este equilíbrio
entre terra e água
é um fogo que brilha
na curva da tarde

incendeia mãos e olhos
traça um rumor de madeira
como se anunciasse
uma praia de carvão

este equilíbrio
branco como a vertigem
anoitece pela casa
que o tempo trai

Chemins qui ne mènent nulle part


O tempo das avaliações



Afinal não são só professores que estão sob o fogo da avaliação. O senhor Procurador-Geral da República veio informar-nos que as conversas escutadas entre o sr. dr. Vara, distinto administrador de bancos, e o sr. eng.º Sócrates, não menos distinto primeiro-ministro de Portugal, estão também sob avaliação. Qual será a escala e os indicadores utilizados? Será que o eng.º Sócrates vai ser obrigado a fazer um relatório de auto-avaliação?

Deixando de lado a tolice das avaliações, há coisas que me fazem espécie, como se diz por estes lados. Em primeiro lugar, faz-me espécie a gestão do segredo de justiça. Como é que conversas inerentes a um processo ainda em segredo de justiça, conversas que envolvem o primeiro-ministro de Portugal, são mais públicas que um resultado de um jogo de futebol transmitido pela RTP? Não se trata de defender Sócrates. Trata-se de exigir que a Justiça portuguesa não continue a atolar-se na lama, lama que já lhe cobre os ombros. Esta publicidade extemporânea serve para quê e a quem? É sintoma de quê? Faz-me espécie também que o senhor Procurador-Geral venha lançar uma sombra com a história da avaliação. Não deveria eximir-se a abrir a boca e agir se tivesse de o fazer e quando fosse a hora de o fazer? Faz-me espécie, por fim, a propensão que há para associar o nome do primeiro-ministro a casos desagradáveis.

06/11/09

Impressões - XXXIII


Van Gogh, Paisaje fluvial con barcas de remos en la orilla (1887)

um rio – floresta de rosas azuis
onde barcos dançam
sonâmbulos
no sono da margem

o vento tacteia os cascos
e os remos são pétalas
desamparadas
a cair para fora da viagem

A sombra



(Imagem retirada, com a devida vénia, do aluaflutua)

Militantes socialistas de Braga condenam ataques de Correia de Campos, antigo ministro da Saúde, a Manuel Alegre. Por si só, esta posição significa pouco, mas ela não deixa de indicar o rumor que, como uma sombra, começa a atravessar as hostes socialistas, depois de uns anos de ataraxia mental.

O fim da infância



Há dias disseram-me que a casa onde nasci tinha sido demolida. Em sua substituição está, um pouco atrás, a ser construída uma outra. Apossou-se de mim uma sensação de vazio, como se só agora me tivesse realmente separado dela. Não sei que relação as pessoas têm com as casas onde nasceram, mas eu tinha uma relação muito forte, embora a casa já não estivesse na posse da família há cerca de 30 anos. Foi ali que vi o mundo, que descobri a luz, que sujei as mãos na terra, que vi a erva pela primeira vez. Foi lá que descobri o céu e os astros. Foi lá que o meu pai fez o meu primeiro presépio, com um céu azul e estrelas e um Menino nas palhas. Foi lá que vi os primeiros animais, foi lá que vi a minha avó chegar uma e outra vez, com os cabelos que para mim sempre foram brancos. Foi lá que escutei os meus tios-avós, os donos primitivos da casa, de quem ainda guardo uma grata recordação. Foi lá que ouvi a voz da minha mãe e que vi as suas flores, e escutei as suas orações. Foi lá que descobri a água dos poços e os frutos da terra. A demolição dessa casa, já irreal, representa a expulsão definitiva do paraíso e a sentença de um retorno impossível, mesmo que ele fosse ilusório e nunca verdadeiramente desejado. Talvez a minha infância tenha agora acabado de acabar. Não tenho casa onde voltar.

05/11/09

Impressões - XXXII


Berthe Morisot - Boat - Entry to the Midina in the Isle of Wight (1875)

as águas ondulam
sob o império de um barco
a luz ferida que avança
deixa esteiras à passagem
inunda o olhar de gratidão

que destino o teu
se o desalento da tarde
descai sobre os ombros
e a mão outrora feroz
não é mais que água
sob tirania de um casco
que vai a passar

A lei das compensações



Os ingleses é que pagam as frustrações de Braga. A vida é assim, umas coisas compensam as outras. Mas para se ficar mais tranquilo sobre o real valor da coisa, é preciso ganhar aos grandes de cá, não bastam os médios de lá de fora.

Contaminações



O idílio alemão tem qualquer coisa de confinado, de reduzido, como de resto sugere a etimologia da palavra «idílio», a pequena imagem ou pequeno quadrozinho florido da literatura helenistica. A história alemã, que entretanto visa impérios universais e milenares, nasce muitas vezes de uma moldura provinciana, de um horizonte municipal. Assim, por exemplo, um historiador refere o plano secreto preparado para a tomada de Ulm, em 1701, por parte dos Bávaros, aliados de Luís XIV, alguns dos quais tinham conseguido infiltrar-se na cidade disfarçados de camponeses, e camponeses com a missão, de resto cumprida, de abrirem os portões da fortaleza às suas tropas: «O tenente Baertelmann levará debaixo do braço um cordeiro; o sargento Kerbler, dois frangos, o tenante Habbach, vestido de mulher, levará na mão uma cesta de ovos...»

As tropas bávaras, que graças a este golpe de mão se apoderaram de Ulm — hoje a cidade fica no limite entre Baden-Württemberg e a Baviera —, eram aliadas do Rei-Sol, mas a política de Luis XIV, com a sua modernização centralizadora e imperialista que destrói os poderes locais, faz parte de uma outra história, pertence a um capítulo que inclui Robespierre, Napoleão ou Estaline, ao passo que os aliados alemães dos autocratas franceses pertencem ao particularismo medieval, estreito e «idílico» que a história moderna, e especialmente a de França, depressa deixa para trás. [Cláudio Magris, Danúbio]

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Uma das coisas que me retém junto deste livro de Magris é a combinação entre vários tipos de género. Estamos perante uma narrativa que conta pequenas histórias, que faz crónica, apresenta reflexões de carácter filosófico, deixa entrever algumas perspectivas científicas, mobiliza a História. Esta contaminação, que de certa forma constitui o núcleo central do romance moderno, tem o seu antepassado, como bem viu Nietzsche, no diálogo platónico, também ele produto de outros géneros literários que o génio de Platão soube fundir. Isto serve-me para ir a um outro lado. O carácter central da narrativa na vida dos homens e no seu saber. Da poesia lírica às ciências da natureza, talvez mesmo à matemática e à lógica, aquilo que subjaz a todos esses campos é o aspecto narrativo, por estranho que isso possa parecer aos ouvidos de um físico, de um biólogo, ou, por maioria de razão, de um matemático. Em qualquer dos géneros, sejam literários, filosóficos ou científicos, alguém conta alguma coisa a alguém. A distinção entre els não residirá na sua hipotética incomensurabilidade. O que os distingue são as estratégias retóricas presentes em cada um deles, estratégias essas que se adequam a diferentes línguas e linguagens, para as configurar e obrigar a contar-nos uma história, seja a das realidades infra atómicas, seja a da aventura do ADN, seja a que se expressa num epigrama, ou num breve conto, ou mesmo na pequena anedota, mais ou menos pícara, que se conta no dia a dia. A narrativa de Magris é um símbolo de tudo isto, e por isso um prazer refinado para o leitor.

04/11/09

Impressões - XXXI


Lilla Cabot Perry, The State House, Boston (1910)

o manto que a terra cobre
a desolação do frio sobre as árvores
as folhas como mãos caídas
suspensas desses ramos
abandonados pela seiva

a vida não é um herbário
onde colas vitórias e derrotas
e deixas uma página em branco
para a folha que não encontraste

deixa vir o frio do inverno
e senta-te diante do fogo que arde
se esperares a muralha cairá
sob o peso que o tempo traz

Uma viagem no Barroco - 23 François Couperin - La Sultane (1668-1733)


François Couperin - La Sultane


François Couperin, known as le grand to distinguish him from an uncle of the same name, was the most distinguished of a numerous family of French musicians, officially succeeding his uncle and father as organist of the Paris church of St. Gervais when he was eighteen. He enjoyed royal patronage under Louis XIV and in 1693 was appointed royal organist and belatedly royal harpsichordist. As a keyboard-player and composer he was pre-eminent in France at the height of his career. He died in Paris in 1733.

Couperin composed church music for the royal chapel under Louis XIV. The surviving Leçons de ténèbres are possibly the best example of this form of composition, the first of the three for soprano solo and continuo and the third for two sopranos, settings of the Lamentations of Jeremiah for the Holy Week liturgy.

Couperin's chamber music includes L'apothéose de Lully (The Apotheosis of Lully), a tribute to the leading composer in France in the second half of the 17th century Jean-Baptiste Lully, a tribute to the Italian composer Corelli, L'apothéose de Corelli, part of a larger collection of ensemble pieces under the title Les goûts réunis (Tastes United), an exploration of the rival French and Italian tastes in music, a quarrel in which Couperin remained neutral. The Concerts royaux represent another important element in Couperin's music for instrumental ensemble.

Couperin's compositions for the harpsichord occupy a very important position in French music. In 27 suites for the harpsichord, most of them published between 1713 and 1730, Couperin offered a series of harpsichord pieces, many of them descriptive in one way or another. These richly varied suites or "ordres" represent the height of Couperin's achievement as a composer and arguably that of the French harpsichord composers (Naxos).

Sonate en Quatuor "La Sultane": I. [Gravement]; II. [Gaiement]; III. Air [Tendrement]; IV. [Gravement]

Manfredo Kraemer, violin. Jay Bernfeld, viola da gamba. Carol Lewis, viola da gamba. Michel Murgier, basse de violon. Mike Fentross, theorbo. Skip Sempé, clavecin.

Capriccion Stravangante. Director: Skip Sempé.

Sob suspeita



É preciso ir mais longe. Isto significa o quê? Significa apenas que devemos desconfiar mais e melhor. Num tempo como o nosso, a suspeita deve recair sobre tudo e sobre todos. Em primeiro lugar, devemo-nos colocar a nós mesmos sob suspeita. Devemos suspeitar dos nossos actos, dos nossos pensamentos, dos nossos gestos, das nossas crenças, das nossas visões. Mas esta suspeita que fazemos recair sobre nós deve ser universalizada. A corrupção do carácter, para usar o belo título de um livro de Sennett, é universal, tão universal que já ninguém dá por essa corrupção. Aprendemos a viver segundo as regras dos corruptores e hoje pensa-se que elas são não apenas a lei jurídica como a lei moral. O carácter corrompido tornou-se inocência, mas esta não é ausência do mal, mas o desconhecimento da maldade do próprio mal.

03/11/09

Impressões - XXX


Claude Monet, Bordighera, Italy (1884)

o fundo onde tudo se recolhe
abre-se para a lenta inércia do olhar
como se uma história cantasse
na hora em que a terra escurece

não é a tristeza que cai sobre a face
nem o abandono que há-de vir
não é a dor que se desenha no horizonte
nem a queda que se pressente

ouve-se apenas a cotovia cantar
e sentado à sombra da buganvília
vê-se crescer sobre o mundo
o véu tecido pela insignificância

Uma viagem no Barroco - 22 Girolamo Frescobaldi - Aria di balletto (1583-1643)


Girolamo Frescobaldi - Aria di balletto (Scott Ross)


Italian keyboardist and composer. His father was a musician and a prominent Ferrarese citizen; he studied with the Ferrarese court organist Luzzaschi (a debt he often acknowledged in dedications), from whom he received training on Vicentino's chromatic archicembalo as well. He was named organist at the Accadernia della Morte in 1597 at the age of 14. At some point he came under the patronage of Guido Bentivoglio, a cleric and member of a powerful Ferrarese family. The duchy of Ferrara reverted to the papacy upon Alfonso's death in 1597; the principal Vatican figure in the affair, Cardinal Pietro Aldobrandini, promised a post at the papal court to Guido, who soon went to Rome, taking Frescobaldi with him. Girolamo was admitted to the Accademia di S. Cecilia in 1604 and became organist at S. Maria in Trastevere in 1607. He accompanied Guido to Flanders in 1607-8, where a set of his 5-part madrigals was published. He was summoned back to Rome by Guido's brother Enzo, a Vatican official, and was appointed organist of the Cappella Giulia, St. Peter's, upon his return; he worked also as a member of Enzo's household musica, though he was less than diligent in that post. He married in 1612 after fathering two illegitimate children by his future wife; by 1615 he seems to have left the service of the Bentivoglio family for that of Cardinal Aldobrandini, while the court of Mantua made an abortive effort to engage him in that same year. (Continuar a ler em HOASM , cf. também wikipedia)

Na morte de Claude Lévy-Strauss



Foi hoje anunciada a morte do antropólogo Claude Lévy-Strauss. Tinha 100 anos. Foi uma das figurantes marcantes, no campo intelectual, do século XX. Como homenagem, deixo aqui os três últimos parágrafos de um texto de 1975, um texto que todos os professores, pais, pedagogos e gente interessada em educação, inclusive ministros socialistas, deveriam ler uma e outra vez até terem percebido a simples mensagem que ele contém. O texto denomina-se Palavras Retardatárias sobre a Criança Criadora. Perdoe-se-me a extensão da citação.

Os nossos filhos nascem e crescem num mundo feito por nós, que antecipa as suas necessidades, previne as suas perguntas, os encharca de soluções. A este respeito, não vejo diferença entre os produtos industriais que nos inundam e os «museus imaginários» que, sob a forma de colecções de livros de bolso, de álbuns de reproduções e de exposições temporárias em jacto contínuo desvitalizam e embotam o gosto, minimizam o esforço, baralham o saber: vãs tentativas para acalmar o apetite bulímico de um público sobre o qual desabam desordenadamente todas as produções espirituais da humanidade. Que, neste mundo de facilidades e desperdício, a escola continue a ser o único sítio em que é preciso ter trabalho, sofrer uma disciplina, passar por vexames, progredir passo a passo, viver, como se costuma dizer, «no duro», não é coisa que as crianças aceitem, pois já não a podem compreender. Daí a desmoralização que as invade, quando sofrem toda a espécie de coacções para as quais tanto a família como a sociedade não as prepararam e as consequências por vezes trágicas desta inadaptação.

Resta saber se é a escola que está errada, se é uma sociedade que perde cada vez mais e todos os dias o sentido da sua função. Ao pormos o problema da criança criadora, enganamo-nos no tema: porque somos nós próprios, tornados consumidores desenfreados, quem se mostra cada vez menos capaz de criar. Angustiados pela nossa carência, esperamos a vinda do homem criador. E como não nos apercebemos dele em parte alguma, viramo-nos, em desespero de causa, para os nossos filhos.

Temamos, no entanto, que, ao sacrificarmos as rudes necessidades da aprendizagem aos nossos sonhos egoístas, acabemos por lançar a escola pela borda fora, com tudo aquilo que ela ainda representa, e que venhamos a privar os nossos sucessores do pouco que ainda permanece sólido e substancial na herança que podemos deixar-lhes. Seria aberrante pretender iniciar os nossos filhos na criação pelas vias da arte, recorrendo a métodos pedagógicos inspirados pelos frutos ilusórios da nossa esterilidade. Reconheçamos ao menos que procuramos nisso uma consolação: ao fazermos da criança a medida do criador, damos a nós próprios uma desculpa por termos deixado a arte regredir ao estádio do jogo, mas sem termos tido o cuidado de não abrirmos a porta a confusões muito mais graves entre o jogo e os outros aspectos sérios da vida. Ai de nós, nem tudo na vida é jogo. É aos jovens espíritos que nos incumbe formar, que se fica a dever esta lição fundamental. Lição que nos convidam a calar para a satisfação, na verdade bem ingénua, de justificar aquilo a que ainda se chama arte pelos exercícios atraentes que, sob o colorido de reforma pedagógica, proporcionam às crianças; exercícios em que, no entanto, os próprios adultos podem encontrar — e nada mais — um muito vivo agrado. [Claude Lévy-Strauss, O Olhar Distanciado]

O apagamento da figura humana



Hoje reparei numa coisa que estava a escapar-me. Desde que comecei, aqui no blogue, a publicar poesia feita em cima de quadros, a exibição da figura humana, nesses quadros, foi-se tornando cada vez mais rara. Há séries onde ela é constante, mas nas úlimas séries,  actual incluída, são cada vez menos os quadros onde se vislumbra um ser humano. Não quer dizer que os não haja. A primeira série deste género que publiquei, uma série feita sobre - em cima de - quadros de Gustav Klimt, tinha um certo equilíbrio entre quadros onde a figura humana estava presente e outros onde ela estava ausente. Vista daqui parece o prenúncio de uma certa esquizoidia, entendida esta na sua raiz grega, que remete para uma cisão, uma fenda que se abre na forma das coisas, neste caso da realidade humana.

Esta evolução, provavelmente passível de reversão, não representa um acréscimo de misantropia, nem um culto tardio dos deuses silvestres, nem uma patologia específica, espero. Por vezes, a humanidade cansa-nos, ou cansamo-nos de nós próprios, o que vai dar ao mesmo. Isso seria uma boa razão para o seu esquecimento. Um olhar enviesado sobre o homem, por outro lado, pode ser mais penetrante, poeticamente falando, do que um olhar directo. Ao ir apagando a figura humana, deixo pairar perante o olhar as suas obras, a aldeia que fez nascer, a paisagem que deixou subsistir, a casa que construiu, a ponte que ergueu entre duas margens. Estas obras humanas transfiguradas pela arte acabam por tornar o Homem, apesar de tudo, mais aceitável. São uma ilusão, mas são aquela ilusão que permite não desesperar completamente da humanidade. Esquecer os homens nas suas obras, naquelas sobre as quais a arte fez cair o véu da ilusão, poderá ser a condição necessária para os aceitar.

02/11/09

Impressões - XXIX


Eugène Louis Boudin, Trouville, Le Port (1886)

o verão declinava naquelas praias
e os barcos anunciavam a noite
como se uma velha fotografia viesse
assombrar as pequenas paixões
que me retêm longe de ti

uma gaivota deixava um traço de tristeza
e no céu as nuvens desenhavam
a face onde pressentia a tua voz
essa distância que nunca se aproxima
mesmo se o coração arde no fogo da noite

Uma viagem no Barroco - 21 Johann Kaspar Ferdinand Fischer - Chaconne (1665-1746)


Johann Kaspar Ferdinand Fischer - Chaconne

Johann Casper Ferdinand Fischer was born in Germany around 1670, though we shall never be certain when. We find the first record of his existence in the mid-1690's when appointed Hofkapellmeister to the Margrave Ludwig Wilhelm, and it was the brilliance that Fischer brought to music at the court that made him an important musical figure. Obviously a fine harpsichordist, he was responsible for bringing a French influence into German music. There is just one question mark that remains unanswered, and that surrounds the variability of the quality of music which carries his name, leading to the speculation that there may have been two - or even three - generations of Fischers who contributed to the works that carry his name. That has been given further substance by the fact that Fischer would have had to compose for over 60 years to cover the approximate dates of composition, which would have been a long time in the early 18th century.

Possibly his most outstanding work, the Musicalischer Parnassus, published in 1738, represents the fusion of French and German styles. In the form of nine suites, they transform the style of French orchestral dances to the more restricted tonal scale of the harpsichord. Yet Fischer achieved works of a vivacity and piquant pleasure, many that would rival in impact and melodic invention the finest keyboard music of Scarlatti. Each suite carries the name of one of the Muses, and can be seen as a reflection of the supposed character of that Muse. Fischer's knowledge of French style extends to the use of the latest dance rhythms of the time, and the idea of using pairs of Minuets. This 'modern' outlook for a man probably in his late 50's or early 60's has added to the speculation of a younger hand being responsible. Though looking back, we find it consistent with a composer who had always been willing to experiment. In this case Fischer was employing many of the latest compositional styles, the rotating musical figures of the gigue in the third suite being just one example, while his oft use of broken chords, adds a distinctly humorous atmosphere to the dances. The summation is a group of short movements that prove a constant joy (Naxos).

Gustav Leonhardt joue sur l'orgue Dom Bedos de Sainte-Croix de Bordeaux la Chacconne de Johann Kaspar Ferdinand Fischer.

Falência técnica



Depois da SAD do Sporting, a do Benfica entrou em falência técnica. A do Porto está um pouco melhor, mas não muito. Esta é a verdade do nosso futebol, talvez a verdade do futebol de muitos países europeus. O futebol expandiu-se como contraponto ao fenómeno capitalista. O desenraizamento provocado pela proletarização de milhões de pessoas conduziu à necessidade de encontrar novas raízes e formas de identidades. Na Europa, o futebol foi o principal veículo desse apelo ao enraizamento. De certa forma, o futebol era uma reacção ao mundo moderno das sociedades capitalistas. No momento, em que ele próprio se torna um empreendimento essencialmente capitalista, perde a sua identidade originária e dá o triste espectáculo a que assistimos. Eficácia financeira e tradição identitária e afectiva são coisas que casam mal, pelo menos por cá.

Padrinhos e afilhados



Portugal, mas não só, é uma país esquizofrénico. Vive dilacerado entre uma legislação que tenta imitar o quadro legal dos países do norte da Europa fundado na religião protestante, e uma cultura mediterrânica, onde a família e os amigos possuem enorme preponderância. A figura do padrinho não é, em primeiro lugar, um fenómeno mafioso. É, antes, um fenómeno de integração social, numa sociedade marcadamente patriarcal, onde uma hierarquia de vassalos prestam tributo a um suserano, o padrinho. Este protege a família, uma família alargada para lá dos laços de sangue, distribuindo encargos e proventos em conformidade com os seus interesses, que acabam por ser os interesses dessa família. Todos estes casos de corupção que agora saltam nos jornais, bem como os inúmeros que nunca viremos a conhecer, são o fruto de uma cultura com centenas de anos, talvez mesmo milhares. É por isso que ninguém condena seriamente os corruptos e os corruptores. São eleitos, se forem a votos, pois contribuem de forma concreta para o bem comum, mesmo que isso signifique que contribuam mais significativamente para o seu bem. Mais do que acabar com padrinhos e afilhados, os portugueses pretendem ou ser afilhados de alguém ou, os mais ousados, ascender à categoria de padrinho, e assim fundar e proteger a sua família. As relações abstractas que existem entre os cidadãos do norte da Europa, onde todos são efectivamente indivíduos iguais perante a lei, são incompreensíveis em países onde o indivíduo é menos importante do que o grupo familiar de onde provém. As relações de sangue e as relações de amizade são concretas, os ditames da lei ou o bem comum geral, puras abstracções. Gostemos ou não. O resto é o espectáculo desta nossa esquizofrenia.

01/11/09

Impressões - XXVIII


Emil Nolde, Light Sea-Mood (1901)

podia ser uma terra marítima
onde antigos marinheiros
bebiam vinho
e juravam sobre a verdade
na sombra duma mão

mas é apenas areia mar
e um rasto de luz que ilude
o viajante ocasional
o sítio onde apanhavas búzios
e os confiavas à primeira criança
que a tarde trazia

Uma viagem no Barroco - 19 - Jean Philippe Rameau-Tristes Apprets Pales Flambeaux (1683-1764)


Jean Philippe Rameau-Tristes Apprets Pales Flambeaux

French composer of the 18th century, and a highly influential music theorist. Born in Dijon, where his father was an organist, Rameau traveled to Italy at the age of 18 and subsequently was employed as an organist in several French cities, most notably Clermont-Ferrand, where he stayed until 1722 and where he wrote his Traité de l'harmonie (Treatise on Harmony, 1722). He moved to Paris in 1723, where he taught harpsichord and music theory. His early compositions include light theatrical pieces and religious and harpsichord music. In 1731 he became director of the private orchestra of a wealthy music patron. This patronage enabled him to turn to opera. Rameau's 30 or so operas include many masterpieces of the French lyric theater: the tragedies Hippolyte et Aricie (Hippolytus and Aricia, 1733), Castor et Pollux (Castor and Pollux, 1737), Dardanus (1739 and 1744 versions), and Zoroastre (1749); the opéra-ballets Les Indes galantes (The Gallant Indies, 1735), Les fêtes d'Hébé (The Festivals of Hebe, 1739), and La princesse de Navarre (1745); and the comedy Platée (1745). His orchestration was powerful and innovative, as was the manner in which he used harmony for dramatic effect.

His Piéces de clavecin en concerts (Concerted Music for Harpsichord, 1741), for two violins and harpsichord, are among the earliest such works to give the keyboard an independent, rather than accompanying part. His theoretical writing set in systematic form the harmonic practices of the previous 100 years and detailed theoretical concepts that remained basic to European harmony until about 1900. Rameau died in Paris, September 12, 1764. [baroque-music.com; cf wikipedia]

Cláudio Magris - Alienação e autenticidade



A proclamação da autenticidade individual transforma-se numa pose de parvenu quando falamos contra a massa, esquecendo que dela fazemos parte. A retórica do enraizamento e do autêntico exprime por outro lado, embora de forma distorcida, uma exigência real, ou seja, a exigência de uma vida política e social não alienada, e denuncia a insuficiência do simples direito positivo, da mera legalidade formal que pode sancionar a injustiça, e à qual se contrapõe a legitimidade, quer dizer, um valor no qual possa assentar uma autoridade autêntica [Cláudio Magris, Danúbio].

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Percebo a crítica a Heidegger, compreendo a denúncia da pose de parvenu na proclamação da autenticidade do indivíduo. Compreendo inclusive a subjacente apologia de regimes não tirânicos. O que não compreendo, porém, é a ideia de uma vida política e social não alienada e o conceito de autoridade autêntica. Poderia afirmar, em contraponto a Magris, embora sem alinhar pelo diapasão heideggariano, que toda a vida política e social é alienada e toda a autoridade é não apenas inautêntica como ilegítima. Mas isso ainda seria ver a questão de uma forma superficial. A questão que se deve colocar é a seguinte: serão os conceitos de alienação e de autenticidade os mais indicados para falar da vida política e social e da autoridade? Não teremos que desfazer toda a malha conceptual que de Platão ao nossos dias, passando por Marx, Nietzsche, Foucault, construiu a rede onde tentámos apanhar o grande peixe da política?

31/10/09

Impressões - XXVII


Camille Pissarro, Kitchen Garden at l'Hermitage Pontoise (1874)

o trabalho na horta
ao ritmo das horas

a minúcia dos gestos
a fazer florir a terra

a promessa de salvação
a pairar sobre a vida

as árvores perderam as folhas
e um céu de cinza
despede-se das últimas aves

um cântico no silêncio
apraza o dia
convoca o deus
abre a casa vazia

Uma viagem no Barroco - 19 Arcangelo Corelli - Concerto no. 8 (1653-1713)


Arcangelo Corelli - Concerto no. 8 "Scritto per la Notte di Natale" in sol minore

The Italian composer and violinist Arcangelo Corelli exercised a wide influence on his contemporaries and on the succeeding generation of composers. Born in Fusignano, Italy, in 1653, a full generation before Bach or Handel, he studied in Bologna, a distinguished musical center, then established himself in Rome in the 1670s. By 1679 had entered the service of Queen Christina of Sweden, who had taken up residence in Rome in 1655, after her abdication the year before, and had established there an academy of literati that later became the Arcadian Academy. Thanks to his musical achievements and growing international reputation he found no trouble in obtaining the support of a succession of influential patrons. History has remembered him with such titles as "Founder of Modern Violin Technique," the "World's First Great Violinist," and the "Father of the Concerto Grosso."


His contributions can be divided three ways, as violinist, composer, and teacher. It was his skill on the new instrument known as the violin and his extensive and very popular concert tours throughout Europe which did most to give that instrument its prominent place in music. It is probably correct to say that Corelli's popularity as a violinist was as great in his time as was Paganini's during the 19th century. Yet Corelli was not a virtuoso in the contemporary sense, for a beautiful singing tone alone distinguished great violinists in that day, and Corelli's tone quality was the most remarkable in all Europe according to reports. In addition, Corelli was the first person to organize the basic elements of violin technique. (continuar a ler em Baroque Composers and Musicians. Cf. tb Wikipedia)

Portugal