29/11/09

Stan Getz Quartet - Desafinado, Girl from Ipanema


Ratos



São tempos ricos em homicídios de mulheres, sete nos últimos dias. Hoje, mais um. Incluiu a morte de um Guarda Republicano. O que se está a passar é absolutamente intolerável. A lei dá demasiadas garantias aos candidatos a homicidas. O país tem um combate civilizacional a travar. Nenhum ser humano pertence a ninguém. A agressividade tem crescido entre os jovens de uma forma insuportável. A percentagem de namoradas agredidas por namorados frágeis e psicologiacamente aterrados com a liberdade feminina não pára de crescer. Nem o amor, nem a infidelidade, nem o desejo, nem o quer que seja são motivos para que alguém se julgue no direito de tocar em alguém, ou de se achar proprietário de alguém. Uma mulher não é uma coisa, é uma pessoa. Homens que batem e matam mulheres não são homens, são ratos.

O referendo aos minaretes



A Suíça aprovou hoje, por mais de 57 por cento, os apelos da extrema-direita a que seja proibida a construção de novos minaretes no país. Há muitas formas de tratar um assunto delicado e que atravessa, cortante, as nossas ilusões. A utilização, na frase do Público, da expressão "apelos da extrema-direita" tem uma função tranquilizadora perante o problema. Afinal essa coisa da proibição tem a ver com os pró-fascistas. Assim dormir-se-á mais descansado. Nada que nos turve a razão. O problema, porém, são os 57% de eleitores que decidiram participar na proibição da construção de minaretes. "O maior partido nacional, o Partido do Povo da Suíça, alega que os minaretes ou torres erguidos no topo dos templos muçulmanos são um símbolo do islão militante."

Nós podemos querer enterrar a cabeça na areia. Podemos fingir que a ideia do islão militante é um produto da imaginação dos sectores mais reaccionários da sociedade europeia. Podemos até acreditar piamente que as sociedades islâmicas e as comunidades migrantes são respeitadoras dos direitos humanos e que partilham connosco um sério entusiamo pela igualdade de todos perante a lei, fundamentalmente a igualdade entre homens e mulheres. Podemos criar as ilusões que quisermos. Mas a verdade é que, para além da capa de um conjunto de opiniões politicamente de acordo com a cartilha em vigor, a população dos países europeus onde existem grandes comunidades islâmicas, nascidas da imigração, está longe de se sentir tranquila.

Mas há uma coisa muito mais tenebrosa, coisa que toda a gente se recusa a ver. A estratégia que a Europa seguiu para lidar com as guerras religiosas provocadas pela separação das Igrejas cristãs, a separação entre Igreja e Estado, entre Religião e Política, está a ser fortemente desafiada pela presença de grandes comunidades islâmicas no Ocidente. Eis um problema. Até onde é que a separação da Religião e da Política é operativa, quando o que está em causa é o militantismo político-religioso. Educados no desencantamento do mundo e na compreensão da política de um ponto de vista burocrático, para falar à maneira do grande sociólogo alemão Max Weber, as lideranças europeias não sabem o que fazer quando o religioso e o simbólico retornam em força dentro do campo da política e da guerra.

28/11/09

Impressões - LI


Stanislas Lépine, Péniche sur la Seine (1870)

a rosa descai sobre as águas
barco baldio de onde
avisto as margens
e quando as pétalas caem
sobra ainda a noite
que me leva na viagem

Banda do Casaco - Natação Obrigatória



Nunca uma peça musical se adaptou tão perfeitamente ao Portugal de hoje como esta antiga canção da velha e gloriosa Banda do Casaco. De facto, não há cu que não dê traque.

Estrangulado?



Eis um bom motivo para uma pessoa, que até compreende e aceita os princípios da regionalização, ser claramente contra o cumprimento desse infeliz desígnio da nossa constituição. Não por causa do futebol, claro, coisa que tem uma credibilidade a roçar o zero. Que o Porto, ou o Benfica, ou o Sporting ganhem ou percam é irrelevante. Mas a regionalização que poderia ser um princípio de desenvolvimento local, não seria mais do que o prolongamento desse universo obscuro que são os municípios, ao que se adicionaria temperamentos, estilos, desígnios, discursos e práticas como os que imperam na Madeira e nos Açores, para além das ânsias de centralização que ocorreriam logos nessas maravilhosas sedes regionais. Portugal afundar-se-ia irremissivelmente. Pinto da Costa diz que Portugal está estrangulado. É verdade. Com a regionalização, porém, além da corda central, mais cinco cordas regionais apertariam o pescoço do infeliz condenado. Como poderia ele respirar?

Desporto e virtude


Não sei se aquela retórica, que ribombava no meu tempo ao anunciar o desporto como escola de virtudes, ainda está em vigor. Provavelmente, mas claramente fora do prazo de validade. A máfia das apostas, segundo a justiça alemã, conseguiu perverter os resultados de competições desportivas em 17 países. Um dia, as pessoas decentes proibirão os filhos de pronunciar a palavra desporto. Quantos filmes não foram feitos sobre a perversão das corridas de cavalos? Agora começamos a suspeitar que não há jogo, seja de que modalidade for, que não faça parte de uma enorme rede e que qualquer resultado é fruto não do mérito, mas do embuste? Mas quando se acha que tudo é mercadoria e que o desporto é uma indústria, o que se pode esperar que aconteça? Mas o pior é que a suspeita não fica por aqui. A suspeita cresce desmesurada até à pergunta ingénua sobre quanto na economia real não é já fruto da mão invisível das máfias.

A víbora no peito e a morte da liberdade



Depois de contar uma história desagradável sobre a estranha relação entre um banco privado e o jornal Sol, motivada por uma notícia pouco favorável ao governo, Rui Ramos, na crónica de hoje no Correio da Manhã, argumenta que o problema, o da punição de quem não baixa  a cabeça perante o poder, não é só deste nem só com este governo. Conclui o artigo dizendo: «Há trinta anos que andamos a fingir que pode haver direito e pluralismo onde quem fala corre o risco de ser castigado e onde para fazer negócios é preciso pôr dinheiro em envelopes. A democracia portuguesa vive com uma víbora sobre o peito. Só não nos morde se estivermos muito quietinhos e formos bem comportados. É assim que queremos viver, quietinhos e bem comportados?»

Toda a sociedade portuguesa está, há muito, absolutamente domesticada. Alguns redutos de liberdade de expressão e de crítica existem ainda nas profissões liberais, mas poucos, e nas universidades, cada vez menos. Até ao último governo de Sócrates, os professores do ensino não superior representavam outro reduto onde a liberdade de expressão e de crítica era possível. Uma liberdade que, por essa província fora, era transferida para a esfera pública e política dos municípios, onde muitos professores tinham voz activa, tanto na vida política como na imprensa local. Mas o efeito conjugado do Estatuto da Carreira Docente, da Avaliação de Professores e da lei sobre Gestão Escolar destruiu esse reduto. Toda a gente percebe que o melhor é estar caladinho, pois há que evitar "chatices". Como nos tempos do dr. Salazar ou do prof. Caetano.

Se o debate educativo dentro das escolas era já pobre, tornou-se inexistente. As escolas são, ao nível do debate de ideias, mausoléus entregues a curadores e regedores, dos quais se tem medo ou a quem se quer agradar de forma abjecta. A indigência intelectual cresce. Muitos dos dirigentes escolares, por certo, não gostam do papel e não se sentem bem nesta fotografia de família. Mas o papel foi-lhes entregue. Mais tarde ou mais cedo, eles ou os próximos a vir, em caso de necessidade lá farão exercício do arbítrio com que foram investidos, lá saberão encontrar os mecanismos maravilhosos para calar alguma voz mais crítica e descuidada, mecanismos que políticos inimigos da liberdade e do espírito crítico lhe puseram, sem qualquer sobressalto na consciência, nas mãos.

Os professores, para além das manifestações generalistas contra o ECD e a avaliação, não passam já de uma massa amorfa, há boas excepções, claro,  sem espírito crítico e, como todos os outros portugueses, amedrontados com as indisposições ou os fluxos hormonais das chefias e daqui  a uns tempos do régulo municipal. Quem está hoje, numa escola, disponível para chamar a atenção para o que possa haver de errado, do ponto de vista educativo, na orientação  de um director executivo? Quem, sendo professor, vai amanhã criticar um Presidente de Câmara? É de um professorado assim que, depois, os demagogos habituais e os psicólogos de serviço exigem que formem cidadãos críticos e reflexivos, e outras idiotices inomináveis do género. A liberdade fica para os aposentados, por enquanto. Mas isso significa apenas que a liberdade se tornou decrépita.

Os portugueses nunca amaram especialmente a liberdade. Agora, e eu estou a medir bem as palavras, os portugueses começam a ter medo de ser livres. Uma sociedade civil frágil. Governos locais e centrais demasiado fortes, governos que colonizam o aparelho de estado e das autarquias, governos que, em todos os lados e independentemente dos partidos a que pertençam, não têm a medida do respeito pelo pensar alheio. Portugal definha num pântano e na viscosidade que se apossou, mais uma vez, da sociedade portuguesa. Os melhores e os mais livres resta-lhes um caminho: a porta de saída. A liberdade morre em cada hora que passa. Morre por restrição subreptícia e por falta de exercício. A víbora ameça morder-nos no peito, é um facto. Mas à liberdade já a víbora envenenou há muito.

27/11/09

Impressões - L


John Singer Sargent, OliveTrees at Corfu

a terra exaltada sobre a tarde
uma ilha onde a dor te atravessa
e os anos que passam
escritos tronco a tronco
naquela sabedoria
que só as árvores trazem consigo

Arild Andersen Quartet - Anima (1978)


Condescendência



O Banco de Portugal (BdP) teve conhecimento da existência de concentração de risco na Sociedade Lusa de Negócios (SLN) durante o ano de 2000, falhas que na altura mandou corrigir sem verificar se os procedimentos tinham sido de facto alterados. O problema não é o Banco de Portugal. Esta atitude é apenas a expressão de um modo de ser, o modo de ser português. Por que carga de água haveria o Banco de Portugal ser diferente? Quantas vezes não se ouve dizer "não suporto perfeccionistas"? Ser exaustivo e tentar fazer tudo como deve ser feito e até ao fim não é, para os portugueses, uma virtude. Virtude é a condescendência. De condescendência em condescendência, o país em trinta anos chegou onde chegou.

A vida como a conhecemos



Vasco Pulido Valente (aqui), sobre a decisão próximo de Obama relativamente ao Afeganistão. O crescimento da irrelevância americana e o fim da vida como a conhecemos. Embora essa vida como a conhecemos esteja a acabar há muito, o que se passa no Afeganistão, para não falar no Iraque, Irão e Paquistão, não vai contribuir por certo para que a vida como a conhecemos continue. E quem achar que uma derrota e humilhação dos americanos é coisa boa, depressa irá saber o que custa essa vida desconhecida que nos espera. Muitas serão as saudades do império.

Jornal Torrejano, 27 de Novembro de 2009



On-line está a edição semanal do Jornal Torrejano.

A confiscação



Por vezes há, mesmo entre pessoas sempre prontas para gritar contra o cristianismo, uma estranha tolerância, para não dizer uma não dissimulada simpatia, com certas causas muçulmanas. Ainda ontem, por exemplo, ouvi a um especialista brasileiro em Michel Foucault a referência à simpatia com que o pensador francês olhava os jovens oposicionistas do Xá da Pérsia, tendo apenas posteriormente percebido o que se escondia por trás daquela militância. Esta notícia é das mais extraordinárias, entre as extraordinárias que o Irão sempre está disposto a proporcionar. Para além de outras tropelias bem mais graves, o regime de Teerão confiscou, à activista dos direitos humanos, Shirin Ebadi, a medalha e o diploma recebidos quando foi premiada com o Nobel da Paz em 2003. Os objectos foram retirados de um cofre pessoal num banco em Teerão há cerca de três semanas. É o que se chama descer ao pormenor.

26/11/09

Qualidades



Isabel Alçada quer sistema de avaliação de professores que premeie esforço e qualidade. Estas piedosas intenções também faziam parte da retórica da sua antecessora, a qual, como se viu, arquitectou um sistema completamente absurdo. O importante não está em dizer que se quer premiar a qualidade. Isso é uma trivialidade. O importante é como se define a qualidade. Também a antecessora premiava uma certa qualidade, só que não era aquela que permitia aos alunos aprender. Definir o que são professores de qualidade é o primeiro passo, para se descobrir se a intenção é boa, ou se não passa de mais uma aventura num túnel sem luz ao fundo.

23/11/09

Instintos e Instituições




Por causa disto, este blogue vai sofrer até sexta-feira uma assinalável diminuição de actividade. É a nossa condição animal. Consultar o programa aqui. "Instintos e Instituições - saberes e políticas da vida" é uma organização do “the Animal Condition” Research Group - Centro Interuniversitário de Historia das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT). [Nota - aqui o cartaz saiu desformatado, mas foi o que se conseguiu.]

22/11/09

Impressões - XLIX


Ignacio Díaz Olano, Pueblo de Urbina, Apunte (1915)

a casa onde me abres a mão
é uma névoa de cal
a promessa de uma rosa
a crescer para o verão

deixa a água cantar
ao som do sino da igreja
deixa as árvores florir
na luz onde te veja

Ana Moura - Leva-me aos Fados


21/11/09

Impressões - XLVIII


Lilla Cabot Perry, Mountain Village, Japan (1898-1901)

a que alturas subiu o coração
para que fosse montanha
ou um ramo de árvore
inclinando-se para o chão

em que sombras habitou
depois de ter perdido a luz
e de ser roubado
de tudo aquilo que amou

Mônica Salmaso - Beatriz