17/11/09

A visão dos outros


Aprende-se sempre com o resultado da visão dos outros sobre nós. Geralmente, essa visão recata-se na intimidade da consciência, dissimula-se, é generosa connosco ao silenciar o pensamento. As regras de urbanidade poupam alguns desgostos ao nosso precário narcisismo. Mas esse olhar estranho torna-se instrutivo quando é obrigado, pelas circunstâncias sociais ou institucionais, a objectivar-se. Objectivar-se aqui não significa tornar-se objectivo, mas simplesmente ter de se manifestar objectivamente, o que é inteiramente diferente. Nesse momento, temos a revelação de como os outros, por este ou aquele motivo, nos vêem. E isso é sempre instrutivo. Instrui-nos sobre nós e sobre os outros que nos olham. O que, porém, me tem dado mais motivo de reflexão, a partir da experiência própria, é que esse olhar sobre nós vindo dos outros muda muito em conformidade com o lugar onde nos situamos. Por lugar, refiro-me ao lugar geográfico e não a um outro tipo de espaço, seja social ou mental. Sou mais atreito à benevolência dos outros em certos lugares, enquanto outros lugares me são mais claramente adversos. É como se existisse para mim, talvez para todos nós, uma geografia onde se combinam espaços fastos e nefastos, espaços onde se é amado sem fazer nada por isso, e espaços onde se é não propriamente odiado, mas olhado de lado e com mal disfarçada desconfiança, embora também nada se tenha feito para isso. É evidente que estes espaços geograficamente fastos ou nefastos acabam por ter uma correspondência social e mental. Nunca se compreende perfeitamente aquele aviso que na adolescência os pais fazem para que não se frequentem certos sítios nem certas pessoas. Pensamos que é um conselho localizado no espaço e no tempo, mas não é. Prolonga-se vida fora. Muitos dos nossos problemas nascem de nos termos deixado arrastar, talvez por complacência para connosco e para com os outros, para espaços que não são os nossos e frequentar pessoas que não nos convêm. Elas, as pessoas que não nos convêm, sempre que tiverem oportunidade não deixarão de assinalar a nossa inconveniência.

16/11/09

Impressões - XLIII


Joaquín Sorolla y Bastida, Alrededores de Segovia (1906)

inútil nomear o âmbar a opala a safira
inútil contar as pedras ceifar o cereal
inútil abrir as mãos para o vento
ou dar a face para receber o açoite

guarda a faca no bolso da madrugada
e caminha para onde nasce o poente
não haverá um barco que te leve para longe
ou uma silhueta que te anuncie o fim

de margem em margem deixa a prisão
que teceste no linho que há em ti
muralhas de palavras no rumor da noite
escurecem-te a cegueira que nasce de mim

Camané - Estranha Forma de Vida


Chemins qui ne mènent nulle part


Sinal de contradição



É isto que se espera da Igreja Católica, que esteja neste mundo mas não lhe pertença. Bento XVI criticou o «egoísmo que permite que a especulação penetre mesmo no mercado dos cereais, colocando a comida no mesmo plano que todas as outras mercadorias». Este sinal de contradição é o melhor serviço que se pode prestar às sociedades humanas. A voz dos homens é a dos interesses pessoais e do egoísmo. Estes interesses e egoísmo têm um papel na iniciativa dos indivíduos e na dinâmica das sociedades, mas deverão ser contrabalançados pela moral, pela religião, pela política e pelo direito. O ideal seria que o equilíbrio se estabelecesse a partir da própria consciência, isto é, a partir das convicções morais e religiosas. Mas como o egoísmo tem pouca propensão para a consciência moral e faz ouvidos moucos à religião, aquilo que o Papa pede só pode ser realizado por iniciativa política. Esta, como se sabe, serve os senhores deste mundo. Sendo assim, ao menos que a voz do Papa clame, mesmo que seja no deserto, mesmo que ninguém o escute.

15/11/09

Impressões - XLII


Federico Zandomeneghi, La Strada

eis o que te coube em herança
a erva seca a poeira da estrada
jardins suspensos ao luar
por lá passas cantando
à espera de um grito de uma nuvem
de um pássaro a ferir o olhar

não sou o meu corpo disseste
a sombra crescia pela encosta
e anunciava a cidade sitiada
onde haveria de te tomar
e cativa levar-te para a noite
duma praia sem areia nem mar

Origem do mundo


A tortura mais insuportável



Terão alguma vez os tiranos inventado torturas mais insuportáveis que aquelas que os prazeres fazem sofrer aos que se abandonam a eles? Eles trouxeram ao mundo males desconhecido ao género humano, e os médicos ensinam, a partir de uma perspectiva comum, que estas funestas complicações de sintomas e de doenças que desconcertam a sua arte, confundem as suas experiências, desmentem tantas vezes os antigos aforismas, têm a sua origem nos prazeres. [J-B Bossuet, Sermon contre l'amour des plaisirs, I.º point]

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Eis o progresso. Desde a condenação do prazer visto como tortura, devido à insuportabilidade de um desejo nunca saciado, até aos programas políticos da educação para o prazer vão cerca de três séculos. A grande diferença, curiosamente, é que Bossuet sermoneava desta forma perante Luís XIV e a sua corte, como forma de tornar os poderosos mais contidos, enquanto hoje é o poder político que evangeliza a população para o culto do prazer. Restará, contudo, fazer esta estranha pergunta: o que ganham as elites políticas com esta evangelização? O que pretendem elas? Bossuet diria que pretendem abrir uma espécie de caixa de Pandora e disseminar os males pelo mundo, ao mesmo tempo que submetem as populações à tortura mais insuportável, a do desejo nunca saciado (curiosamente, não é este desejo que funda a sociedade de consumo?). Mas Bossuet não passava de um teórico do absolutismo, adversário da democracia.

Masturbação política



Tomei contacto com a coisa no Ponteiros Parados, de lá segui para o Público, onde fui informado que a Exma. Junta da Extremadura espanhola, sob a égide dos socialistas (informação pesquisada por este blogger), está ocupadíssima em «pôr os jovens espanhóis, entre os 14 e os 17 anos, em contacto com o seu corpo e a sua sexualidade. As técnicas de masturbação estão entre os assuntos debatidos e explicados.» A notícia acrescenta: «A campanha, financiada pelo Governo, pediu a duas formadoras que ensinem aos jovens tudo o que é preciso saber sobre jogos eróticos, carícias, auto-erotismo e anatomia masculina e feminina. Temas mais complexos, como a identidade de género e a auto-estima, deverão igualmente ser abordados. As sessões de formação são itinerantes e incluem demonstrações com uma série de "brinquedos sexuais", incluindo vibradores e bolas chinesas.»

Ao fim de centenas de milhares de anos em que os seres humanos e os seus ancestrais se masturbaram como muito bem entenderam, o socialismo moderno decidiu que os jovens não sabem masturbar-se e que não há nada mais para fazer com o dinheiro dos contribuintes do que uns cursos de educação sexual, onde se ensina, entre outras coisas, os jovens nos seus jogos auto-eróticos. A intolerabilidade de tudo isto não reside no facto de haver alguém que ensine alguém a sexualidade, masturbação inclusive. A intolerabilidade está na intromissão do Estado no assunto. Esta intromissão tão cheia de boa vontade iluminista é perigosa porque rasga as fronteiras entre o público e o privado e abre uma nova frente de colonização da esfera da intimidade pela esfera do controlo político. Quando um organismo político acha que deve ensinar sexualidade aos seus cidadãos é porque não está contente com a sexualidade tal como existe e pretende interferir nas práticas sexuais, para as corrigir segundo o seu modelo. Extraordinário.

Mas não é só a esfera da intimidade que é assim ameaçada pelo controlo político. É o próprio poder político que se dissolve na irrelevância daquilo que toma por objecto da sua função. Estas causas da esquerda light, esquerda comprometida com a submissão da esfera política à esfera económica, significam a demissão das elites políticas das suas funções efectivas e a procura de um campo que, após se terem demitado da função de soberania, justique a sua inútil existência. Uma masturbação.

14/11/09

Impressões - XLI


Diego Rivera, La Casteñeda o el Paseo del los Meláncolicos (1904)

no obscuro caminho onde passas
sem que vejam em ti um nome
ou uma estrela assinale a fronte
um pudor de árvores turva o chão
que pisas ao fugir do suplício da noite

as uvas amadureceram no fim do estio
e os cachos caem melancólicos dos braços
onde tristes a vinha os depôs
para que fossem sombra de vida
o vinho no copo que ergues na mão

Serviço militar obrigatório



Um dos temas presentes na crónica de ontem, no Público, de Luís Campos e Cunha, e aqui citada, é o da disciplina. Pertenço a uma geração que assistiu e participou na abolição do valor da disciplina e, concomitantemente, desvalorizou até ao irrisório as virtudes militares e os seus valores. Não fui imune ao sortilégio. Há muitos anos, porém, que reconheço o elevado valor moral e social dos valores da instituição militar. Nunca concordei com a abolição do serviço militar obrigatório, pelo contrário. Ele deveria, nos dias de hoje, ser universal, abranger rapazes e raparigas. Seriam dispensáveis os 16 meses que me couberam em sorte, mas uma espécie de recruta prolongada, de seis meses, na qual todos sem excepção seriam iguais, não faria mal a ninguém. Seria um momento, se bem pensado e organizado como é apanágio da instituição militar, de alta qualidade na formação cívica, social, patriótica e moral. Depois de uma escolaridade anarquizante e mesmo de um ensino superior quase igual, a disciplina da instituição militar acabaria por ajudar uma extensa maioria de jovens. Sei que isto não é politicamente correcto afirmar, ainda por cima por alguém que pertence a uma geração que fugiu do cumprimento do dever militar através de múltiplos álibis. Mas 25 anos como professor, para além da experiência própria na instituição militar, corrigem muitos preconceitos e ideias feitas. O serviço militar obrigatório não seria apenas uma contribuição para solidificar o espírito patriótico e a noção de dever, mas também uma tábua de salvação para muitos jovens que andam pura e simplesmente à deriva.  A primeira coisa que deveria acabar era a objecção de consciência. Pode cumprir-se o dever militar sem ter de pegar em armas. O essencial é a rotina, os valores, a disciplina irremitente, o deitar e levantar cedo, o ter de fazer a cama, o de estar impecavelmente fardado, o aprender a falar com o superior hierárquico, o ter de obedecer, o espírito de entre-ajuda em situações difíceis, o reconhecimento do papel do esforço. Isto é, tudo aquilo que deveria ser já o apanágio das escolas, mas que o corpo político por irresponsabilidade, oportunismo, má-fé e pusilanimidade, com a cumplicidade de muitos professores, diga-se de passagem, decretou que acabasse, para infelicidade de muita gente.

Logo à noite, Ana Moura



Logo, pelas 21:30, no Cine Teatro Virgínia, em Torres Novas, Ana Moura. Já tenho bilhetes para um espectáculo que, segundo consta, está hiper-esgotado. A primeira vez que vi, a sério, fado ao vivo foi com Camané. Ele deixou a expectativa tão alta que até tenho algum medo da apresentação de logo à noite.

13/11/09

Impressões - XL


Theodore Robinson, El Puente Viejo (1890)

quem saberá falar dos anjos
ou daquelas pedras que juntas são
um palácio um castelo uma ponte
onde passas se te dói a cabeça
ou os dias de novembro
se tornam exíguos para a ânsia
que há na luz com que me chamas

tantos os deuses ali mortos
vinham pela aurora e olhavam o rio
e em silêncio viam passar homens
a escura floresta chamava-os
e eles adormeciam nas tarde cálidas
para não mais semearem
em ti o odor fresco da terra

Luís Campos e Cunha - O horror à decência



E a anarquia, quase geral em que vive o ensino secundário, tem horror ao Colégio Militar, obviamente. Aliás, a verdade é mais funda: a anarquia quase geral da nossa sociedade tem horror à instituição militar. Uma instituição organizada, como a militar, que cultiva os valores da honra, da camaradagem, da disciplina e do dever para com a pátria, não pode ser bem vista pela sociedade actual. A nossa vida colectiva -a civil - privilegia o oportunismo, habituou-se aos casos de corrupção (com ou sem fundamento), tem uma imprensa virada para o escândalo e uma televisão com novelas que são difusoras da falta valores e da ausência dos bons costumes. O Colégio Militar poderá acabar mas as razões estão na nossa sociedade e não dentro dos muros do Colégio. O horror à decência é dos indecentes.

Icebergs à deriva



Há uma corrente que insiste em negar a causalidade humana nos fenómenos relacionados com as alterações climáticas. Um dos argumentos é curioso. Funda-se num apelo à humildade. Seria uma arrogância humana desmedida, pretender que as alterações que estão a ocorrer no clima do planeta se devem à acção de uma das espécies que o habita. Mas dois séculos e meio de Revolução Industrial, uma revolução cada vez mais acelarada e disseminada por todos os cantos do planeta, alguma coisa devem ter contribuído para o actual estado de coisas. Por exmplo, para o fenómeno dos icebergs que se estão a deslocar para a Novaz Zelândia ou para a acelarção da perda de massa na Gronelândia. Mas subjacente a este tipo de posições está uma não pequena arrogância, uma hubris prometaica que presume que tudo é permitido ao homem. Que o fogo tenha sido roubado aos deuses e dado aos homens é um crime que, apesar da condenação de Prometeu, pode ser perdoado à espécie humana. É duvidoso, porém, que os deuses permitam impunemente que o homem utilize esse mesmo fogo para reduzir a casa onde habitam a cinzas.

Um record difícil de bater


Jornal Torrejano, 13 de Novembro de 2009



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12/11/09

Impressões - XXXIX


Gustave Loiseau, The Eure River in Winter (1903)

sei das horas a viagem
esse enigma que tudo desfaz
os velhos planos que rompiam futuros
o esboço de um jardim de verão
a esperança do amor
nas tardes em quo o frio nos trai

ergo a taça e brindo
a todos os invernos que me nascem
dentro do saco de lona
a que por hábito chamo alma
e sento-me no sossego da margem
à espera que o rio passe

Ministra da Educação



Acabei de ver, na RTP, a entrevista dada pela Ministra da Educação a Judite de Sousa. Depois da Bruxa Má, veio a Branca de Neve. Antes assim, mas veremos o que tempo, esse grande escultor, nos vai ensinar.

Leituras



Tenho estado a trabalhar sobre um texto de Joseph de Maistre denominado Éclaircissement sur les Sacrifices. Há nessa operação uma dupla ambiguidade. Maistre, um autor anti-iluminista, e é o mínimo que se pode dizer do seu reaccionarismo, utiliza no título do seu estudo uma das palavras mais caras ao Iluminismo, Éclaircissement, Esclarecimento. Esclarecer não é mais do que levar a luz da razão aos lugares onde as trevas predominam. Esclarecer significa literalmente tornar claro, visível. O Esclarecimento é atravessado por um ideal de transparência, por uma luta sem fim contra a opacidade do real. O que Maistre faz, porém, é levar a luz até ao lugar onde ela não penetra, até a uma espécie de buraco negro que deglute toda a energia, que elimina a luminosidade, que mostra um limite à transparência. Esclarece para mostrar que nem tudo pode ser esclarecido, como se brincasse com os seus inimigos teóricos de predilecção, como Voltaire.

A segunda ambiguidade reside em mim, leitor de Maistre. Muito do que leio repugna-me o sentimento e atiça a ferocidade polémica da razão. Ao mesmo tempo, contudo, insinua-se um secreto prazer na leitura, uma prazer que não nasce da transgressão, mas do reconhecimento de uma voz muito antiga que o tempo tinha recalcado. É como se a superfície racionalista que cobre a minha educação cedesse a um longínquo apelo daquilo que, para a razão, há de mais tenebroso e ameaçador. Sinto-me divido entre a vontade de polémica e a sedução que os textos de Maistre exercem sobre mim. Já há muito que não encontrava textos que me pusessem neste estado de ambiguidade. Os livros de Agustina Bessa-Luís, por exemplo, tinham essa capacidade. Fascinavam-me e repeliam-me. Faziam-no de tal maneira que cheguei a jogá-los violentamente contra a parade ou para o chão e pontapeá-los, para depois os apanhar e retomar sofregamente a leitura. Ninguém se iluda, ler não leva à glória dos altares, nem é um exercício para almas cordatas. Ler pode ser uma batalha campal.