28/10/09

Joseph Maistre - A natureza do grande legislador



Referi um carácter principal dos grandes legisladores; eis um outro bastante notável, e sobre o qual seria cómodo fazer um livro. Eles nunca são aquilo a que se chama sábio, eles não escrevem, eles agem por instinto e por impulso, mais do que pelo raciocínio, e eles não têm outro instrumento para agir, senão uma certa força moral que dobra as vontade como o vento, as searas. [Joseph Maistre, Considérations sur la France]

Ratzinger, o estranho inquisidor



Música sacra moderna, orações, ladainhas e cantos marianos em várias línguas, incluindo o português, preenchem “Alma Mater - Música do Vaticano”, disco gravado pelo Papa Bento XVI e que estará à venda dentro de um mês. Não é isto, porém, que é motivo de admiração. Quando Ratzinger foi eleito Papa, não faltou gente a afirmar que o Grande Inquisidor, o Perfeito para a Congregação da Fé, tinha chegado à cadeira de S. Pedro. O intuito era desvalorizar a figura de um intelectual eminente, agora Papa. Quis-se colar-lhe a etiqueta de intolerante. Aqui temos mais um prova da sua fanática intolerância. As oito músicas originais do disco foram seleccionadas por uma comissão formada por três compositores, um ateu, Simon Boswell, um católico, Stefano Mainetti, e um muçulmano, Nour Eddine. Que estranho inquisidor este. Que estranho fanatismo este.

São Medeiros Ferreira



Se no governo que agora tomou posse houver ainda um traço de instinto político, se não tiver sido tudo já carcomido pelo politiquês mascarado de pseudo-racionalidade de aparência maquiavélica, então os senhores ministros, com o chefe à cabeça, deveriam ajoelhar-se todos os dias diante do altar que é o blogue de Medeiros Ferreira. Não custa muito, o santo, como um oráculo, é parco em palavras e subtil nas presunções. Não fere, aparentemente, ninguém. Mas aquilo que destila em cada post é sabedoria política da mais refinada, como por exemplo este verdadeiro programa de governo. Um pouco de humildade não faz mal a ninguém e, diga-se em abono da verdade, valem mais 20 palavras de Medeiros Ferreira de que todos os discursos de Sócrates e ministros adjacentes durante toda uma legislatura. Não somos todos iguais. É a vida, como disse o Engenheiro Guterres.

Discriminação



O problema da exclusão manifesta-se onde menos se espera. Uma reportagem no i revela-nos o mundo dos motéis à portuguesa. Num deles, onde se aceita casais de todo o tipo, permite-se a própria multigamia (acabei de inventar a palavra, acho eu, mas não é seguro que assim seja...). Um casal corrente (duas pessoas) paga cinquenta euros, se o casal for a três paga setenta e cinco e a quatro, cem. Até aqui tudo bem, é apenas uma questão de mutiplicação de 25 euros pelo número de membros do casal, com um mínimo de dois membros por casal (ainda não chegámos à ideia de casal de um, mas lá chegaremos). Mas os outros, os casais de cinco, seis ou mais membros? Esses não têm lugar. Estão excluídos. Não compreendo por que ainda não foi apresentada queixa à Comissão Europeia para os Direitos Humanos. Há que acabar com esta discriminação que atinje casais que se recusam a ser menos de cinco.

Novíssimos escravos



No círculo infinito da miséria que persiste em Portugal também há lugar para a escravatura. E nao sei o que é mais lamentável, se a falta de escrúpulos e de princípios daqueles que não hesitam em viver da escravatura, se a fragilidade social e psicológica dos que são levados no embuste e acabam acorrentados numa qualquer quinta de Espanha. Fragilidade social e pessoal e vocação de negreiro compõem uma parte da moeda que corre no território pátrio. Uma coisa é certa, mal se raspa um pouquinho o fato civilizado com que os humanos se travestem e logo aparece a barbárie. Como pode alguém ser optimista relativamente à espécie humana?

27/10/09

Impressões - XXIII


Claude Monet, Blue Water Lilies (1916-1919)

a planta que faltava no herbário
um risco de tinta na penumbra da água
é agora um incêndio de azul
entre ervas esquecidas no matagal

virgem deixa que olhos forasteiros pairem
sobre o pudor da corola
para se esconder no assédio da noite
entre limos e folhas a apodrecer

Uma viagem no Barroco - 15 Giovanni Legrenzi - O Dilectissime Jesu Per Il Santissimo, Op 17 (1626-1690)


Giovanni Legrenzi (1626-1690) - O Dilectissime Jesu Per Il Santissimo, Op 17

Giovanni Legrenzi (baptized August 12, 1626 – May 27, 1690) was an Italian composer of opera, vocal and instrumental music, and organist, of the Baroque era. He was one of the most prominent composers in Venice in the late 17th century, and extremely influential on the development of late Baroque idioms across northern Italy.

Legrenzi was active in most of the genres current in northern Italy in the late 17th century, including sacred vocal music, opera, oratorio, and varieties of instrumental music. Though best known as a composer of instrumental sonatas, he was predominantly a composer of liturgical music with a distinctly dramatic character. The bulk of his instrumental music may also be included in this category, since it would have been used primarily as a substitute for liturgical items at Mass or Vespers. His operas were immensely popular (and extravagantly presented) in their day, though like his oratorios, few have survived. His later dance music was certainly connected with the operatic repertoire, though the function of an early collection (Op. 4, which is musicologically famous for its inclusion of six pieces designated sonate da camera) is less clear. [Wikipedia]

Ensemble El Mundo, dir.Richard Savino
Ruth Escher, soprano

Da imutabilidade das coisas



Quarenta mil idosos passam fome em Portugal. Delphi fecha em Ponte de Sor e atira 430 pessoas para o desemprego. Certamente haverá explicações económicas para este triste panorama. As empresas estão obsoletas e fecham. As pessoas envelhecem, tornam-se obsoletas, ficam sem emprego, passam fome no ocaso da vida. Tudo isto, porém, não passa do sintoma de uma sociedade que nunca se preocupou em tornar-se mais adaptada à realidade e mais justa. A injustiça social, em Portugal, é companheira fiel da desadequação educativa, científica e tecnológica do país. Apesar de mirabolantes planos tecnológicos, planos que andamos a inventar há décadas - Sócrates não o primeiro -, o destino, como numa tragédia grega, parece imutável.

Imagem do Ares da Minha Graça.

26/10/09

Impressões - XXII


Cesare Biseo, Paesaggio desertico con carovana (1870)

contra a areia avançavam
o horizonte por destino
o calor do dia na bagagem
e um sonho de água no coração

iam perseguidos pelos céus
povo abandonado
à deriva no deserto
chamando pelo deus
calando-se no silêncio da resposta

Uma viagem no Barroco - 14 Philipp Heinrich Erlebach - Himmel, du weißt meine Plagen (1657-1714)


Philipp Heinrich Erlebach - Himmel, du weißt meine Plagen (1657-1714)

A key figure in late seventeenth century German music, composer Philipp Heinrich Erlebach nonetheless has gained recognition very slowly for his considerable role in the middle Baroque. Born in the East Friesland town of Esens, Erlebach was a citizen of East Friesland when it was a free duchy, and would have come of age in an atmosphere heavily impacted by Franco-Flemish culture. It was in the service of the Friesian Court that Erlebach first made his name as a musician, and based on his exceptional abilities Erlebach's services were loaned out to the court of Albrecht Anton von Schwarzberg-Rudolstadt, Count of the larger principality of Thuringia, starting in 1678. In 1681, Erlebach was named to the post of Kapellmeister to the Thuringian Court, a position he held until his death 33 years later. In this time, Erlebach built a reputation as one of the great composers in Central Germany, and enjoyed connections to the courts in Nuremburg, Mühlhausen (where the young Johann Sebastian Bach was employed from 1707-08) and at Brunswick-Wolfenbüttel. Count Albrecht Anton's successor, Prince Ludwig Friedrich I, thought enough of Erlebach's music to purchase his manuscript collection from Erlebach's widow after the composer's death in 1714. Unfortunately, a fire in 1735 wiped out this entire legacy, and posterity is dependent upon published editions, manuscript copies and a single holograph in Erlebach's own hand to account for his talents. [Cf. Answers.com]

Benfica 6 - Nacional 1



Benfica venceu por 6 a 1 o Nacional da Madeira (ver também aqui). Há trinta anos seria uma trivialidade, hoje não é bem assim. Quando a fartura é muita, o pobre desconfia. Depois de anos e anos de fastio, o Benfica de Jesus entra em campo com vontade de jogar futebol e de marcar golos. Não sei se é para continuar. Ver-se-á em Braga, com o Porto e com o Sporting, mas que este ano a coisa está substancialmente diferente, lá isso está.

Cláudio Magris - O rio e a História



Na torrente de montanha que corre para o vale, o jovem Goethe via uma juventude fresca e impetuosa, que se precipitava na planície tornando a terra fecunda. Na época do Sturm und Drang, das esperanças pré-revolucionárias, o rio era o símbolo do génio, da energia vital e criadora de progresso; no tomo quinto da Encydopédie, o «enthousiasme» é comparado com um regato ténue que cresce, flui, serpeia, se torna cada vez maior e mais potente e por fim se lança no oceano, «depois de ter feito ricas e fecundas as terras felizes que banhou». Mas algumas décadas mais tarde, Grillparzer, o poeta da Áustria oitocentista, em versos de tom completamente diverso sonhava deter o fluir de um regato, via-o crescer mas também perder-se na história, deixar a pequena mas harmoniosa paz da sua infância límpida e tranquila, agitar-se e confundir-se até se diluir no mar, no nada. [Cláudio Magris, Danúbio, pp.32]
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De Goethe a Grillparzer há um sentimento comum. O rio é a metáfora fundamental para falar da História, desse enigma do passar do tempo e da passagem das coisas e instituições com ele. Se em Goethe a História é fecunda, se no Romantismo se incensa a impetuosidade do rio que corre, se se admira o progresso, se se olha benevolentemente, com a Enciclopédia, o «entusiasmo», com Grillparzer é uma outra e antagónica realidade que emerge. A História é a mãe do niilismo, o rio que flui apenas corre para o nada. Por isso, Grillparzer está longe de afectar entusiasmo, aquele entusiasmo que certamente vem do Iluminismo, com o devir histórico. Sonhava antes um sonho impossível, sonhava deter o fluir do regato. Curiosamente, a crítica ao entusiasmo nasce dentro da própria Filosofia iluminista, dentro do pensamento do progresso, nasce em Kant. Talvez Kant tenha pressentido na libertação do Homem da menoridade de que ele próprio é culpado, o programa do Iluminismo, uma sombra ameaçadora. Ele viu-a no entusiasmo que se apossou dos actores da Revolução Francesa. Aquilo que ele não viu, ofuscado ainda pela ideia do progresso moral da humanidade, foi mais tarde entrevisto por Nietzsche, no conceito de niilismo. Podemos, assim, formular mais claramente aquilo que dá que pensar. Todo o progresso é um progresso em direcção ao nada. O rio nasce e progride até deixar de ser rio. O progresso tornou-se a ilusão mais persistente da modernidade, uma espécie de justificação do devir da História, como se ela precisasse de uma justificação do seu acontecer, como se o devir nunca fosse inocente. O progresso é a expressão de uma razão culpada.

25/10/09

Impressões - XXI


Alfred Sisley, Dia de Viento en Veno (1882)

ardia o vento na coroa da tarde
mão presa na mão
sem pressa de liberdade
sem angústia por tal prisão

como folhas
os dedos tremiam
a humidade os acolhia

os campos podiam ceder
à luz da eternidade
as cidades arder
ao compasso da pulsação
mas o vento haveria de atear
o sangue que corria
do teu para o meu coração

Uma viagem no Barroco - 13 Franz Tunder - O Jesu dulcissime (1614 - 1667)


Franz Tunder - O Jesu dulcissime - MacLeod

Franz Tunder (1614 – November 5, 1667) was a German composer and organist of the early to middle Baroque era. He was an important link between the early German Baroque style which was based on Venetian models, and the later Baroque style which culminated in the music of J.S. Bach; in addition he was formative in the development of the chorale cantata.

Along with Heinrich Scheidemann and Matthias Weckmann, Tunder was one of the most important members of the North German organ school; however, few of his works are preserved. His surviving output suggests a marked preference for the chorale fantasia style, though he is also known for chorale versets, such as his setting of Jesus Christus unser Heiland, notable in particular for the opening pedal flourish (probably the earliest surviving example of an opening pedal solo in an organ work), a technique that was to be more fully exploited by Dietrich Buxtehude.

Notas da Wikipedia.

Gatos e vírus



Talvez o gato de Schrödinger, aquele que estaria ao mesmo tempo vivo e morto, possa ser substituído por um vírus. Não parece ser grande a promoção, coisa de cientistas espanhóis do Instituto Max Planck. Trata-se de uma experiência em mecânica quântica que pretende testar a sobreposição de estados, não com um pobre bichano, mas com um diabólico vírus. Mesmo para um ignorante da Mecânica Quântica, como este blogger, o artigo do Público é um prazer para a imaginação. Veja-se o debate entre os adeptos da escola de Copenhaga (Bohr e Heisenberg) e Schrödinger, isto para não falar da many-worlds interpretation, de Everett . Penso muitas vezes que se fosse hoje não teria feito Filosofia mas Física. Com a morte da religião e o envelhecimento da Filosofia, resta apenas a Física como a casa grande onde a imaginação pode encontrar um terreno fértil para os seus devaneios. Não se pense que estou a ironizar. A imaginação é o alicerce da razão. Talvez o acesso aos fundamentos da realidade necessite tanto, ou mais, da faculdade da imaginação como da do entendimento ou razão. E depois há qualquer coisa de literário em tudo isto, o que talvez nos obrigue a pensar nos limites das definições dos géneros literários. Não será a ciência ainda uma forma de literatura? A gesta do gato de Schrödinger, não deixaria de ser um belo título.

Um padre explosivo


Um padre septuagenário (curiosa forma de identificação) figura entre os quatro detidos pela GNR, no concelho de Boticas, por posse ilegal de armas, munições e explosivos. Pode haver várias explicações para o acontecido, para além daquela que nos diz que o senhor padre é inocente, presumido ou efectivo. Por exemplo, o padre, já septuagenário, poderia confundir armas de fogo com material pirotécnico para alegrar a festa na paróquia. Poderia, também, estar com medo e possuir armas para auto-defesa. Mais do que um crime, será então um pecado, a incapacidade de dar a outra face. Também se pode considerar, até pelo furor desencadeado por José Saramago, que haverá padres geneticamente descendentes de Abel e outros de Caim. Quem sabe se esta não será a melhor explicação?

24/10/09

Impressões - XX


Edgar Degas, Paisaje

nem animais embalsamados há
nesta paisagem tragada pelo ocre

se uma súbita voragem abria o coração
à lonjura do horizonte
os olhos perdiam-se no segredo
daquilo que lhes está mais próximo

não vale a pena trazer na face
o símbolo do infinito

as mãos pedem o limite de um corpo
a avara certeza da carne
mesmo morta
mesmo embalsamada

O caso Freeport e o fim do romancista



O notável no caso Freeport não é a longa demora do processo. Não é dos mais morosos na Justiça portuguesa. O que merece admiração, talvez louvor, é a narrativa que o suporta. Se observarmos um romance, ele tem, por norma, um autor. Este cria o narrador que conta a história, compondo as acções e os pensamentos das personagens. A composição é a arte suprema da narrativa romanesca. De certa maneira, um romance é uma coisa simples. Basta criar um bom narrador. Dependerá deste, passe a ironia, a qualidade da narrativa, fundada na arte da composição. No caso Freeport, não há autor. Não havendo autor, não há narrador. Mas apesar disso, existe narrativa, a qual possui uma intriga notável, onde as peripécias se sucedem como se tivessem sido criadas por um autêntico romancista, peripécias essas que vão atando o nó, sem que o leitor desprevenido consiga, apesar das revelações, antecipar qual vai ser o desenlace. Esta narrativa é a consumação da modernidade romanesca, pois cada personagem compõe autonomamente parte da história. Imprensa, Ministério Público, Polícia Judicária, arguidos, etc. vão propondo textos que acabam por se compor entre si e por si mesmos, de forma a que o nó seja cada vez mais cerrado e a narrativa possa prosseguir, como nas telenovelas ou nos antigos romances publicados em folhetins nos jornais. O caso Freeport é uma prova a favor do fim dos romancistas, mas não do romance. Hoje em dia, para haver um belo romance não é preciso autor, bastam as personagens. A narrativa escreve-se por si mesma. E no entanto, apesar do carácter admirável da ficção, todos temos a sensação, quiçá errónea, de que um processo judicial deveria obedecer a outro género literário que não o romance, mesmo que este seja auto-poiético.

23/10/09

Impressões - XIX


Benvenuto Benvenuti, I Cardi (1897)

queria para aquela deserto fugir
trocar o cheiro das frésias
pelo ardor do cardo
e esperar que um deus viesse
no naufrágio da tarde

mas a cidade tinha uma mão de aço
e um ogre em de cada porta
prendia o fugitivo na luz
das praças com que sonhara
na longínqua infância

Jornal Torrejano, 23 de Outubro de 2009



On-line está a edição semanal do Jornal Torrejano, aqui.

Italo Calvino - Os clássicos e a actualidade



O ideal talvez seja sentir o rumor que entra pela janela, que nos avisa dos engarrafamentos do trânsito e dos saltos meteorológicos, enquanto acompanhamos o discurso dos clássicos que soa clara e articulado no nosso gabinete. Mas também já é muito se para a maioria a presença dos clássicos se sentir como um ribombar longínquo fora do gabinete invadido pela actualidade como se fosse uma televisão a todo o volume. Acrescentemos portanto:

14. É clássico o que tiver tendência para relegar a actualidade para a categoria de ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não puder passar sem esse ruído.

15. É clássico o que persistir como ruído de fundo mesmo onde dominar a actualidade mais incompatível. [Italo Calvino (2009). Porquê Ler os Clássicos? Lisboa: Teorema, pp. 12]

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Eu diria ainda outra coisa. É clássico aquilo que nos permite ler o ruído da actualidade como ruído e como actualidade, que nos permite perceber que a cacofonia não é mais do que isso, que deixa ver o instante que impera no actual contra a sombra de eternidade que se desprende dos clássicos. Mas os clássicos ainda permitem outra coisa. Permitem vislumbrar aquelas obras que, sendo fruto da actualidade, trazem uma marca genética que as liga aos clássicos, e que assim têm todas as condições de filiação para se tornarem também eles parte da família, mesmo que aparentemente sejam filhos rebeldes. Tornar-se-ão filhos pródigos.

A diferença



Quando o primeiro governo Sócrates tomou posse havia uma grande expectativa. Os desafios eram, como hoje o são, grandes, mas também era grande a esperança que da esquerda viesse alguma coisa interessante. Todos sabemos o que se passou, independentemente das interpretações que se façam. Perante o novo governo há uma atitude diferente. Ninguém espera nada. O problema nem reside no facto de não ter maioria absoluta, mas no de toda a gente conhecer Sócrates e o núcleo duro governamental. As novidades não passam disso mesmo, novidades, amanhã estarão tão velhas como as não novidades. As únicas boas notícias são as que se referem à não recondução de certas personagens. Nem vale a pena dizer quais.

22/10/09

Benfica e Governo, num só dia



Consta que já temos governo. Uma espécie de evolução na continuidade, para falar à maneira de Marcello Caetano. Na Educação, confirma-se Isabel Alçada (licenciada em Filosofia, mas passou por Boston, péssimo sintoma). Teria preferido a Enid Blyton, mas não estava disponível. Azar de Jose Sócrates. Mas coisa séria mesmo é o triunfo do Benfica sobre o Everton. Confesso que cada vez compreendo menos a má disposição de Saramago contra a Bíblia. Não fora Jesus, e onde estaria o glorioso? Que ao menos ele continue a dar alegrias ao povo, pois do governo nada de bom se pode esperar.

21/10/09

Impressões - XVIII


Paul Cezanne, View of Auvers-sur-Oise (1873)

nada se prende ao olhar
ali nesse lugar tragado pela cor
sítio desmemoriado que arde
no lume do amanhecer

o desejo mais delicado
seria ainda um excesso

apenas o sopro do ar
basta para rasgar o coração
e semear de vísceras os campos
onde involuntário
pastoreio a minha solidão

O que se esconde no desemprego



O Público anuncia que a Delphi da Guarda vai despedir 500 trabalhadores (ver também aqui). Há no ficar sem trabalho qualquer coisa muito obscura. Não me estou a referir aqui à hipotética malevolência das classes exploradoras do trabalho de outrem, nem àqueles que deliberadamente querem ficar sem trabalho. Falo antes de uma experiência ontológica radical que se dá nesse acontecimento. É essa experiência que dinamiza as múltiplas atitudes políticas que são geradas em torno do desemprego. De certa maneira, um despedimento é uma espécie de condenação à morte. Esta condenação nem vem obrigatoriamente da entidade empregadora. É como se uma dada colónia de animais deparasse, de um momento para o outro, com o esgotamento das reservas alimentares do ambiente onde vive. Uma empresa deixar de ter mercado, sejam quais forem os motivos, é como o esgotamento das reservas alimentares de uma dada colónia animal. Esta condenação à morte proferida pelo mercado é, desta maneira, pensável em analogia com aquilo que acontece na natureza. Sendo assim, porém, ela abre um estranho "direito natural" àquele que é vítima de despedimento, um direito de lutar de qualquer maneira pela sua sobrevivência e a dos seus. Um despedimento suspende, do ponto de vista moral, a ordem cultural e com ela a ordem jurídica. Um despedimento que condena as pessoas ao não trabalho reinscreve as relações humanas na ordem da natureza, na ordem da luta pela sobrevivência, na guerra de todos contra todos. É por isto que a tentativa de certos sectores liberais de reduzir a sociedade ao mercado é dissolvente e perigosa. Os mecanismos do estado social, nomeadamente os da protecção no desemprego, mas não só, são fundamentais para evitar o retorno ao estado de natureza. Têm a função política de assegurar a ordem. O estado social ou o estado providência não nasceram de considerações de ordem moral, não nasceram da bondade do coração humano ou de uma utopia socialista. Nasceram do medo, nasceram como forma de evitar a guerra de todos contra todos. É a ameaça dessa guerra que devemos descortinar cada vez que se noticia este tipo de despedimento colectivo.

Isabel Alçada, com papas e bolos...



Nas especulações sobre o futuro governo feitas pelo i, o nome de Isabel Alçada é dado com certo na Educação. Aqueles que se interessam pelas questões educativas apenas se devem preocupar se o futuro ministo, seja ele quem for, vem para manter e continuar o trabalho de destruição da escola pública incrementado por Lurdes Rodrigues, ou se vem para tentar pôr cobro ao descalabro que dura há quase cinco anos. Se a pessoa é simpática e bonita, ou se escreve livros para criancinhas, ou se faz o pino às três da tarde, tudo isso é irrelevante. Vai continuar o predomínio do eduquês nas orientações da educação? Vai continuar a vigorar uma visão burocrática da escola em vez de uma visão de escola como centro de saber? O Estatuto do Aluno vai ser mantido como está? O Estatuto da Carreira Docente e a divisão da carreira em duas, bem como o modelo de avaliação de professores são para manter? O modelo de gestão, que submete o ensino e os professores, aos obscuros desígnios da "comunidade" local é para continuar? Aqui estão as matérias que interessam, o resto são papas e bolos para enganar tolos.

Senhor do destino


Manhã destinada a leituras várias. Estou há quase uma hora a ser bombardeado pelo legítimo desejo de um vizinho destruir e reconstruir a sua casa. Um bombardeamento contínuo de marteladas cai sobre mim, imobiliza-me, macera-me a cabeça, frita-me o cérebro em azeite bem quente. Parece que estou a trabalhar há 20 horas. Durante uns segundos o bombardeamento parou, mas retornou logo. Tento perceber o ritmo, perscrutar a variação da intensidade, encontrar um qualquer sinal que me anuncie o fim do tormento. Nada. Aquela ideia de que os homens são senhores do destino faz-me sorrir. Uma manhã já perdida, e ainda não são dez horas, e uma dor de cabeça ganha.

20/10/09

Impressões - XVII


Camille Pissarro, The Road to Louveciennes (1872)

de súbito entardeceu
ou talvez o sol se tivesse cansado
ou os meus olhos só vejam sombras
na vastidão da estrada

nada naquelas casas anuncia um futuro
apenas a erva rasa desenha
a luz que descobre
na escura mancha da tarde
um vestígio de humanidade

Não esquecer



Vi há pouco esta fotografia no Público e pensei que há coisas que um professor não deve esquecer. Não me estou a referir apenas aos desmandos de Lurdes Rodrigues na educação. A cobertura política que Cavaco Silva sempre deu às medidas que desfizeram a escola pública portuguesa também não deve ser esquecida.

Cláudio Magris - O rio e a identidade



Desde Heraclito, o rio é por excelência a figura que interroga a identidade, com a velha pergunta sobre se podemos ou não banhar-nos duas vezes nas suas águas, e Descartes, com o seu célebre pedaço de cera, começou a pensar por ideias claras e distintas sobre o rio, sobre o Danúbio, em Neuburg, a 10 de Novembro de 1619, na sua casa aquecida para o Inverno graças à munificência do Duque da Baviera.

19/10/09

Impressões - XVI


Edouard Manet, La Maison de Rueil (1882)

sonhava a casa como um navio
balançando em alto-mar
e nela o lume cantava
como ondas
sob a luz do temporal

das janelas vêm suspiros
o amor furtivo anuncia o dia
entre lençóis de linho
e a dor que se desprende
de uma ave ao cantar

Convicções



O meu problema não é a ausência de convicções. Eu tenho múltiplas e diferenciadas convicções, arrasto-as comigo, durmo com elas, passeio-as pela rua, chego a jantar com elas. O meu problema é diferente. Reside no simples facto de não acreditar em nenhuma das minhas convicções. Mas isso não é o pior. O pior é que eu não acredito mesmo em poder acreditar nessas convicções. Há um livro de Paul Ricoeur que me fascina desde que saiu, em 1995. Resultou de longas conversas com François Azouvi e Marc De Launay. O que me fascina não é o seu conteúdo, mas o título e aquilo que ele pressupõe. O livro chama-se A Crítica e a Convicção. O pressuposto é que o exercício crítico da Filosofia acaba por depurar as convicções, tornando o convicto mais convicto das suas convicções. O meu fascínio reside no simples facto de nenhuma convicção que eu possa ter resiste ao exercício da crítica. A crítica dissolve todas as convicções, todas as crenças, tudo aquilo que tomamos por verdadeiro. Por isso protesto pela dissolução niilista da verdade, protesto contra o relativismo. Mas não creio sequer no meu protesto, não passa de um gesto inútil.

Leituras superficiais



A Igreja Católica tem uma funda sabedoria dada por dois mil anos de existência, mas os judeus são muito mais antigos e, por isso mesmo, mais sábios. Veja-se, por exemplo, o que o rabino Eliezer di Martino, responsável pela comunidade judaica de Lisboa, disse sobre o livro de Saramgo. José Saramago “não conhece a Bíblia nem a sua exegese”, fazendo “leituras superficiais das narrativas da Bíblia”. Eliezer di Martino recolocou a discussão no seu devido lugar. Depois, como resposta à afirmação de Saramago de que «o livro possa incomodar os judeus, mas isso pouco me importa», disse que «continuamos (os judeus) a existir e a acreditar naquele livro [Bíblia] desde há milhares de anos, embora tenhamos ataques e perseguições precisamente por acreditarmos». E encerrou qualquer tipo de polémica com o escritor.

Será a sorte grande?



Bósnia-Herzegovina. Talvez tenha saído a sorte grande a Carlos Queiroz. Esperemos bem que sim. Uma fase final sem Portugal seria desagradável. De certa maneira, habituámo-nos, nos últimos tempos, à presença da selecção Portuguesa nesse género de eventos. Façamos figas para que não haja surpresas, daquelas que tantas vezes nos acontecem, e não sejamos vítimas de algum desvario balcânico. O terreno é fértil em armadilhas.

18/10/09

Impressões - XV


Francis Picabia, Saint-Tropez, vista de la Citadelle (1909)

o passado é sempre tão perfeito
traz uma luz consumada
e em cada figura repousa
um lastro de tempo
entre erva queimada

mas não há sombra nem água
ou vida desmedida
apenas o sussurro de algum fantasma
nos desperta para aquilo
que já foi vida

Coimbra fantasmática


Hoje estive mais uma vez em Coimbra. Sentei-me numa esplanada da Visconde da Luz para tomar café, deambulei por ruas e ruelas, espantei-me, de novo, pela visceral beleza de tudo aquilo. Almocei junto ao rio, num belo espaço, bem cuidado, nas margens do Mondego, postas à disposição de conimbricenses e de forasteiros. Vi a recuperação de imensas casas na cidade antiga, tudo com bom gosto, equilíbrio, sem rupturas na harmonia do povoado. Mas, apesar de tudo isto, a cidade parecia um paraíso de fantasmas. O comércio fechado, por ser domingo, afastou as gentes dali. O pior é, todavia, a ausência de turistas, de gente vinda do estrangeiro para se perder por aquelas ruelas. Coimbra merecia ser "vendida" de uma forma mais agressiva. Um domingo não tem de ser um dia onde a vida da cidade fecha para descanso. Lisboa deve ter estado, como é habitual, cheia de estrangeiros. Coimbra merecia igual sorte.

O exercício da banalidade



O que me espanta não é o ateísmo militante de Saramago, uma ateísmo que roça o proselitismo. É um direito seu exactamente igual ao dos crentes  militantes e proselitistas. O que me acaba sempre por desapontar é a banalidade dos ataques à religião, a incompreensão do fenómeno e das raízes racionais que estão presentes na ideia de Deus. Compreender a religião e a ideia de Deus não implica acreditar ou não nelas, mas tentar uma aproximação racional ao fenómeno religioso. O que está muito longe de acontecer com Saramago, como se prova por isto: «O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!» Isto está ao nível das crises religiosas da adolescência.

O gosto pelas metáforas mortas



Que um poeta metaforize, ninguém estranha. É a sua a maneira  de dar a ver o mundo de uma forma inesperada. Que os políticos sejam dados à metafórica leva-nos, pelo menos, a franzir o sobrolho. Isto não apenas pela fraca qualidade das metáforas (quase sempre metáforas mortas) a que recorrem, mas porque com elas, contrariamente aos poetas, pretendem ocultar sempre qualquer coisa. Sócrates, perante a nova situação de governação em minoria, metaforizou: Já fui rico e já fui pobre. Prefiro ser rico. O que se oculta aqui? Não claramente o desejo de mandar sem entraves. Ele está bem expresso na sua preferência por ser rico. O que se oculta é aquilo que está por detrás do jogo «já fui rico e já fui pobre», cuja enunciação nos leva a pensar que isso são coisas que acontecem, fruto do acaso da vida. O que se oculta, então, foi a forma como Sócrates dilapidou a riqueza que tinha, como foi perdulário durante a última governação. Sócrates oculta que a sua actual pobreza se deve então a forma como agiu. Não foi o acaso nem um decreto arbitrário das potências infernais que o conduziram ao lugar onde está. Foi ele e as suas políticas.

16/10/09

Impressões - XIV


Joaquin Sorolla y Bastida, Paisaje de S. Sebastián

quando o dia chegava
o ar marítimo trazia as últimas névoas
para envolver de segredos
casas, caminhos e animais

assim os furtava
aos veraneantes ocasionais
que trazem em cada algibeira
o cansaço com que infestam
o desamparado tempo
pela terra inteira

Sem retorno



A senhora ministra da educação afirmou hoje que as escolas enfrentam “obstáculos e dificuldades” sem paralelo na história do sector para conseguirem responder ao alargamento da escolaridade obrigatória para os 12 anos. Enumerou algumas dificuldades, incensou, embora enviesadamente, a medida por si tomada e não esqueceu a banalidade. "Não podemos desistir de nenhum dos nossos jovens, nenhuma criança, adolescente ou jovem pode ser deixado para trás”. Tudo isto é muito bonito e comovedor. Pena é que a senhora tenha criado tão grandes obstáculos à disciplina nas escolas, que tenha desprezado o problema, tenha desautorizado os professores e acobertado os comportamentos menos adequados dos alunos. Há uma coisa, porém, que ninguém diz. Os alunos que querem trabalhar e aprender, mas cujas famílias não têm dinheiro para colégios privados, ou não os há onde vivem, quem os protege? Esta medida, por mais encantadora que seja, vai criar muitos problemas não às escolas, mas a esses alunos que precisam, para aprender, de um ambiente escolar saudável. É muito bonito dizer que há grandes desafios para as escolas enfrentarem, como se tudo estivesse na mão dos homens. Todos nós sabemos como isto vai acabar. Quem se interessa, já viu este filme no estrangeiro. Como em certos países ocidentais, a escola pública portuguesa vai definhar no caos, na indisciplina, na irrelevância. Em França, por exemplo, começaram agora a pagar a esse adoráveis adolescentes para ver se eles concordam em ir às aulas. A senhora ministra lançou a confusão, da qual não haverá retorno, e vai-se embora, esperemos.

Pena é que o senhor Mário Nogueira também não a acompanhe. O dirigente da Fenprof interpretou as palavras da ministra como “uma espécie de testamento político”. A ministra “conseguiu fazer um discurso completo de despedida sem ter uma referência elogiosa para os professores, o que também não é de espantar, foi assim todo o tempo, durante estes quatro anos”. Meus Deus, perante a anunciação do caos que vai acontecer em muitas escolas, a única coisa que lhe ocorre é que a senhora ministra, que nem mãe castigadora, não fez uma referência elogiosa aos professores. Parece que se sente abandonado. Se a ministra me elogiasse, eu desconfiaria imediatamente da qualidade do meu trabalho. Há coisas que só a psicanálise explica.

O problema



O problema está mesmo aqui. Uma notícia do Público diz-nos que os indicadores de conjuntura mostram aumento do ritmo da retoma. Uma outra, porém, estabelece o horizonte do quadro de recuperação: 18 por cento dos portugueses são pobres e a situação tende a piorar. Como em tudo o mais, as boas notícias neste país nunca são para todos. A economia irá recuperar mais rapidamente do que se esperava, mas a pobreza irá também aumentar. Este é o problema. Uma parte cada vez maior da comunidade portuguesa mostra-se incapaz de se integrar nos novos tempos.

Jornal Torrejano, 18 de Setembro de 2009



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15/10/09

Impressões - XIII


Eugene Louis Boudin, El Puerto de La Havre (1888)

a caligrafia desenhada pelos barcos
sobre o rumor das águas
anuncia o perfume de certas mulheres
ao saírem de casa nas tardes
em que as paisagens se cobrem de invernos

não basta a lucidez nem o apuro dos sentidos
para o reconhecer
é preciso saber acender o lume
e esperar que o véu da paixão
caia irremediável sobre o anoitecer

Contar com o ovo...



Sócrates vai formar um governo minoritário. O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista rejeitaram, por princípio, qualquer coligação. Toda a gente está a contar os votos futuros, mas os eleitores também percebem o que se está a passar. Teria sido ocasião para, com amplas cedências de lado a lado, se construir  uma alternativa política. Sócrates tem má fama na esquerda? É um facto, mas a política não se faz de estados de alma nem de preconceitos morais. Pode ser que me engane, mas a esquerda à esquerda do PS vai pagar duramente o fecho negocial que patenteou perante o país. Ao menos, deveria ter obrigado o PS a negociar. O tempo do cinismo, o tempo em que o não assumir responsabilidades dá votos começa a findar. A retórica da esquerda de confiança e da estabilidade social começa a ser escassa para justificar tantos votos. Mais do que o PC, o BE que se cuide. Toda a gente está contar com o ovo no dito da galinha, talvez se enganem.

Que maçada



Que maçada! Ser deputado numa hora destas, era o que faltava. Certamente haverá razões ponderosas para que o antigo ministro da Educação renunciar ao cargo de deputado trinta minutos depois de tomar posse. Enquanto estas não se conhecerem, os eleitores de Braga, e do resto do país, têm todo o direito de pensar que Deus Pinheiro não tem o mínimo respeito por eles, nem pelo parlamento, nem pelo regime democrático, nem pelo país. Os partidos políticos deveriam auscultar claramente os seus candidatos para que estas coisas não acontecessem. Pior é se o PSD sabia já da possibilidade disto vir a suceder. Para o lugar do sénior Deus Pinheiro entra o júnior Pedro Rodrigues, dirigente da JSD. Este, considerando o pobre currículo, deve querer manter o lugar.

14/10/09

Impressões - XII


Diego Rivera, Casa sobre el puente (1909)

a quieta cor do dia
desenha uma súbita jura de água
e aí ficamos presos
a sonhar gôndolas
naquelas terras onde as não há

nas paredes a caliça anuncia
o charco do futuro
e em cada janela avista-se
a promessa oculta
de um inútil homicídio

Veremos



Portugal cumpriu. Ganhou por 4-0 aos amigos malteses. Mas aquilo que se viu, nomeadamente na segunda parte, não deixa ninguém muito tranquilo para o play-off. Como disse o Toni, que é um péssimo comentador mas sabe muito de futebol, Hungrias e Maltas acabaram. Queiroz tem um mês para pôr Portugal na África do Sul. Veremos.

O futuro pesa



Este é um dos problemas maiores do país. Perspectiva-se mais uma quebra de natalidade para este ano. É como se Portugal estivesse cansado e a comunidade decidisse, inconscientemente, suicidar-se. Talvez novecentos anos de história cansem, mas não é o passado que pesa, é o futuro. Para os portugueses o futuro é uma carga enorme, desmesurada. Olho para a maioria dos alunos que vejo na minha e noutras escolas, e o que vejo? Gente exausta, sem perspectivas, sem vontade, sem rumo, sem desejo. Quando chegarem à idade razoável de ter filhos, estarão demasiado cansados para os fazer. Isto não vai acabar bem.

A essência da história




Que se suba até ao berço das nações, ou que se desça até aos nossos dias, que se examine os povos em todas as posições possíveis, desde o estado de barbárie até ao de civilização mais refinada, encontrar-se-á sempre a guerra. Por esta causa, que é a principal, e por todas aquelas que se lhe juntam, a efusão de sangue humano nunca está suspensa no universo: umas vezes ela é mais fraca sobre uma superfície maior, outras é mais forte numa superfície mais pequena, de maneira que ela é quase constante. Mas de tempos a tempos há acontecimentos extraordinários que a aumentam prodigiosamente, como as guerras púnicas, os triunviratos, as vitórias de César, a irrupção dos bárbaros, as cruzadas, as guerras religiosas, a sucessão de Espanha, a Revolução francesa, etc. Se houvesse uma tabela de massacres como há tabelas meteorológicas, quem sabe se não se descobriria, ao fim de alguns séculos de observação, a lei que os rege? [Joseph de Maistre, Considérations sur la France]

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Para além de mostrar a essência da História universal, a guerra e a efusão de sangue humano, Maistre faz, meio ironicamente, uma curiosa sugestão. Construir tabelas de observação dos massacres em analogia com as tabelas feitas na meteorologia. Esta aproximação a uma certa cientificidade da História, feita em finais do século XVIII, é muito mais interessante do que a de Marx, feita posteriormente. Marx e Engels estavam fascinados pelo desenvolvimento da Física e da Química, e sonhavam com uma legalidade histórica idêntica àquela que determina os acontecimentos naturais. A irónica proposta de Maistre abre a História não à necessidade, presente nas leis da Física clássica de Newton, mas à probabilidade e à previsão, como acontece com a meteorologia. O que faz dele, epistemologicamente,  um contemporâneo. Um mistério, este de um reaccionário ser mais moderno do que os revolucionários posteriores.

13/10/09

Era inevitável



Era inevitável que o ex-jovem Passos Coelho viesse falar com voz grossa. Segundo a sua opinião, Manuela Ferreira Leite não tem condições para estar à frente do partido. Mais, ele quer regener, logo regenerar, o partido, "renovar discursos e práticas". Só estas palavras deveriam ser o suficiente para os seus companheiros - é assim que se conhecem na congregação - o mandarem calar e nunca mais lhe permitirem abrir a boca. Não vai acontecer, pois os partidos políticos tornaram-se o local ideal para dizer banalidades sem sentido. Seja como for, há uma coisa que dá razão a Passos Coelho. Se o ex-jovem Sócrates chegou onde chegou, por que não há-de ele chegar a um sítio semelhante. Mal por mal, as metáforas do prof. Marcelo.

Impressões - XI


Pierre-August Renoir, Banks of the Seine at Champrosay (1876)

aceitamos o tempo como oferenda
e não vemos a garra erguida
na água que corre
nem sabemos a cor que terá
ao perder-se no estuário

às vezes tomamos uma ponte
e pensamos que nos furtámos
ao fascínio do rio
mas as margens não são habitação
e logo nos devolvem à viagem