05/11/09

Contaminações



O idílio alemão tem qualquer coisa de confinado, de reduzido, como de resto sugere a etimologia da palavra «idílio», a pequena imagem ou pequeno quadrozinho florido da literatura helenistica. A história alemã, que entretanto visa impérios universais e milenares, nasce muitas vezes de uma moldura provinciana, de um horizonte municipal. Assim, por exemplo, um historiador refere o plano secreto preparado para a tomada de Ulm, em 1701, por parte dos Bávaros, aliados de Luís XIV, alguns dos quais tinham conseguido infiltrar-se na cidade disfarçados de camponeses, e camponeses com a missão, de resto cumprida, de abrirem os portões da fortaleza às suas tropas: «O tenente Baertelmann levará debaixo do braço um cordeiro; o sargento Kerbler, dois frangos, o tenante Habbach, vestido de mulher, levará na mão uma cesta de ovos...»

As tropas bávaras, que graças a este golpe de mão se apoderaram de Ulm — hoje a cidade fica no limite entre Baden-Württemberg e a Baviera —, eram aliadas do Rei-Sol, mas a política de Luis XIV, com a sua modernização centralizadora e imperialista que destrói os poderes locais, faz parte de uma outra história, pertence a um capítulo que inclui Robespierre, Napoleão ou Estaline, ao passo que os aliados alemães dos autocratas franceses pertencem ao particularismo medieval, estreito e «idílico» que a história moderna, e especialmente a de França, depressa deixa para trás. [Cláudio Magris, Danúbio]

------------------------

Uma das coisas que me retém junto deste livro de Magris é a combinação entre vários tipos de género. Estamos perante uma narrativa que conta pequenas histórias, que faz crónica, apresenta reflexões de carácter filosófico, deixa entrever algumas perspectivas científicas, mobiliza a História. Esta contaminação, que de certa forma constitui o núcleo central do romance moderno, tem o seu antepassado, como bem viu Nietzsche, no diálogo platónico, também ele produto de outros géneros literários que o génio de Platão soube fundir. Isto serve-me para ir a um outro lado. O carácter central da narrativa na vida dos homens e no seu saber. Da poesia lírica às ciências da natureza, talvez mesmo à matemática e à lógica, aquilo que subjaz a todos esses campos é o aspecto narrativo, por estranho que isso possa parecer aos ouvidos de um físico, de um biólogo, ou, por maioria de razão, de um matemático. Em qualquer dos géneros, sejam literários, filosóficos ou científicos, alguém conta alguma coisa a alguém. A distinção entre els não residirá na sua hipotética incomensurabilidade. O que os distingue são as estratégias retóricas presentes em cada um deles, estratégias essas que se adequam a diferentes línguas e linguagens, para as configurar e obrigar a contar-nos uma história, seja a das realidades infra atómicas, seja a da aventura do ADN, seja a que se expressa num epigrama, ou num breve conto, ou mesmo na pequena anedota, mais ou menos pícara, que se conta no dia a dia. A narrativa de Magris é um símbolo de tudo isto, e por isso um prazer refinado para o leitor.

04/11/09

Impressões - XXXI


Lilla Cabot Perry, The State House, Boston (1910)

o manto que a terra cobre
a desolação do frio sobre as árvores
as folhas como mãos caídas
suspensas desses ramos
abandonados pela seiva

a vida não é um herbário
onde colas vitórias e derrotas
e deixas uma página em branco
para a folha que não encontraste

deixa vir o frio do inverno
e senta-te diante do fogo que arde
se esperares a muralha cairá
sob o peso que o tempo traz

Uma viagem no Barroco - 23 François Couperin - La Sultane (1668-1733)


François Couperin - La Sultane


François Couperin, known as le grand to distinguish him from an uncle of the same name, was the most distinguished of a numerous family of French musicians, officially succeeding his uncle and father as organist of the Paris church of St. Gervais when he was eighteen. He enjoyed royal patronage under Louis XIV and in 1693 was appointed royal organist and belatedly royal harpsichordist. As a keyboard-player and composer he was pre-eminent in France at the height of his career. He died in Paris in 1733.

Couperin composed church music for the royal chapel under Louis XIV. The surviving Leçons de ténèbres are possibly the best example of this form of composition, the first of the three for soprano solo and continuo and the third for two sopranos, settings of the Lamentations of Jeremiah for the Holy Week liturgy.

Couperin's chamber music includes L'apothéose de Lully (The Apotheosis of Lully), a tribute to the leading composer in France in the second half of the 17th century Jean-Baptiste Lully, a tribute to the Italian composer Corelli, L'apothéose de Corelli, part of a larger collection of ensemble pieces under the title Les goûts réunis (Tastes United), an exploration of the rival French and Italian tastes in music, a quarrel in which Couperin remained neutral. The Concerts royaux represent another important element in Couperin's music for instrumental ensemble.

Couperin's compositions for the harpsichord occupy a very important position in French music. In 27 suites for the harpsichord, most of them published between 1713 and 1730, Couperin offered a series of harpsichord pieces, many of them descriptive in one way or another. These richly varied suites or "ordres" represent the height of Couperin's achievement as a composer and arguably that of the French harpsichord composers (Naxos).

Sonate en Quatuor "La Sultane": I. [Gravement]; II. [Gaiement]; III. Air [Tendrement]; IV. [Gravement]

Manfredo Kraemer, violin. Jay Bernfeld, viola da gamba. Carol Lewis, viola da gamba. Michel Murgier, basse de violon. Mike Fentross, theorbo. Skip Sempé, clavecin.

Capriccion Stravangante. Director: Skip Sempé.

Sob suspeita



É preciso ir mais longe. Isto significa o quê? Significa apenas que devemos desconfiar mais e melhor. Num tempo como o nosso, a suspeita deve recair sobre tudo e sobre todos. Em primeiro lugar, devemo-nos colocar a nós mesmos sob suspeita. Devemos suspeitar dos nossos actos, dos nossos pensamentos, dos nossos gestos, das nossas crenças, das nossas visões. Mas esta suspeita que fazemos recair sobre nós deve ser universalizada. A corrupção do carácter, para usar o belo título de um livro de Sennett, é universal, tão universal que já ninguém dá por essa corrupção. Aprendemos a viver segundo as regras dos corruptores e hoje pensa-se que elas são não apenas a lei jurídica como a lei moral. O carácter corrompido tornou-se inocência, mas esta não é ausência do mal, mas o desconhecimento da maldade do próprio mal.

03/11/09

Impressões - XXX


Claude Monet, Bordighera, Italy (1884)

o fundo onde tudo se recolhe
abre-se para a lenta inércia do olhar
como se uma história cantasse
na hora em que a terra escurece

não é a tristeza que cai sobre a face
nem o abandono que há-de vir
não é a dor que se desenha no horizonte
nem a queda que se pressente

ouve-se apenas a cotovia cantar
e sentado à sombra da buganvília
vê-se crescer sobre o mundo
o véu tecido pela insignificância

Uma viagem no Barroco - 22 Girolamo Frescobaldi - Aria di balletto (1583-1643)


Girolamo Frescobaldi - Aria di balletto (Scott Ross)


Italian keyboardist and composer. His father was a musician and a prominent Ferrarese citizen; he studied with the Ferrarese court organist Luzzaschi (a debt he often acknowledged in dedications), from whom he received training on Vicentino's chromatic archicembalo as well. He was named organist at the Accadernia della Morte in 1597 at the age of 14. At some point he came under the patronage of Guido Bentivoglio, a cleric and member of a powerful Ferrarese family. The duchy of Ferrara reverted to the papacy upon Alfonso's death in 1597; the principal Vatican figure in the affair, Cardinal Pietro Aldobrandini, promised a post at the papal court to Guido, who soon went to Rome, taking Frescobaldi with him. Girolamo was admitted to the Accademia di S. Cecilia in 1604 and became organist at S. Maria in Trastevere in 1607. He accompanied Guido to Flanders in 1607-8, where a set of his 5-part madrigals was published. He was summoned back to Rome by Guido's brother Enzo, a Vatican official, and was appointed organist of the Cappella Giulia, St. Peter's, upon his return; he worked also as a member of Enzo's household musica, though he was less than diligent in that post. He married in 1612 after fathering two illegitimate children by his future wife; by 1615 he seems to have left the service of the Bentivoglio family for that of Cardinal Aldobrandini, while the court of Mantua made an abortive effort to engage him in that same year. (Continuar a ler em HOASM , cf. também wikipedia)

Na morte de Claude Lévy-Strauss



Foi hoje anunciada a morte do antropólogo Claude Lévy-Strauss. Tinha 100 anos. Foi uma das figurantes marcantes, no campo intelectual, do século XX. Como homenagem, deixo aqui os três últimos parágrafos de um texto de 1975, um texto que todos os professores, pais, pedagogos e gente interessada em educação, inclusive ministros socialistas, deveriam ler uma e outra vez até terem percebido a simples mensagem que ele contém. O texto denomina-se Palavras Retardatárias sobre a Criança Criadora. Perdoe-se-me a extensão da citação.

Os nossos filhos nascem e crescem num mundo feito por nós, que antecipa as suas necessidades, previne as suas perguntas, os encharca de soluções. A este respeito, não vejo diferença entre os produtos industriais que nos inundam e os «museus imaginários» que, sob a forma de colecções de livros de bolso, de álbuns de reproduções e de exposições temporárias em jacto contínuo desvitalizam e embotam o gosto, minimizam o esforço, baralham o saber: vãs tentativas para acalmar o apetite bulímico de um público sobre o qual desabam desordenadamente todas as produções espirituais da humanidade. Que, neste mundo de facilidades e desperdício, a escola continue a ser o único sítio em que é preciso ter trabalho, sofrer uma disciplina, passar por vexames, progredir passo a passo, viver, como se costuma dizer, «no duro», não é coisa que as crianças aceitem, pois já não a podem compreender. Daí a desmoralização que as invade, quando sofrem toda a espécie de coacções para as quais tanto a família como a sociedade não as prepararam e as consequências por vezes trágicas desta inadaptação.

Resta saber se é a escola que está errada, se é uma sociedade que perde cada vez mais e todos os dias o sentido da sua função. Ao pormos o problema da criança criadora, enganamo-nos no tema: porque somos nós próprios, tornados consumidores desenfreados, quem se mostra cada vez menos capaz de criar. Angustiados pela nossa carência, esperamos a vinda do homem criador. E como não nos apercebemos dele em parte alguma, viramo-nos, em desespero de causa, para os nossos filhos.

Temamos, no entanto, que, ao sacrificarmos as rudes necessidades da aprendizagem aos nossos sonhos egoístas, acabemos por lançar a escola pela borda fora, com tudo aquilo que ela ainda representa, e que venhamos a privar os nossos sucessores do pouco que ainda permanece sólido e substancial na herança que podemos deixar-lhes. Seria aberrante pretender iniciar os nossos filhos na criação pelas vias da arte, recorrendo a métodos pedagógicos inspirados pelos frutos ilusórios da nossa esterilidade. Reconheçamos ao menos que procuramos nisso uma consolação: ao fazermos da criança a medida do criador, damos a nós próprios uma desculpa por termos deixado a arte regredir ao estádio do jogo, mas sem termos tido o cuidado de não abrirmos a porta a confusões muito mais graves entre o jogo e os outros aspectos sérios da vida. Ai de nós, nem tudo na vida é jogo. É aos jovens espíritos que nos incumbe formar, que se fica a dever esta lição fundamental. Lição que nos convidam a calar para a satisfação, na verdade bem ingénua, de justificar aquilo a que ainda se chama arte pelos exercícios atraentes que, sob o colorido de reforma pedagógica, proporcionam às crianças; exercícios em que, no entanto, os próprios adultos podem encontrar — e nada mais — um muito vivo agrado. [Claude Lévy-Strauss, O Olhar Distanciado]

O apagamento da figura humana



Hoje reparei numa coisa que estava a escapar-me. Desde que comecei, aqui no blogue, a publicar poesia feita em cima de quadros, a exibição da figura humana, nesses quadros, foi-se tornando cada vez mais rara. Há séries onde ela é constante, mas nas úlimas séries,  actual incluída, são cada vez menos os quadros onde se vislumbra um ser humano. Não quer dizer que os não haja. A primeira série deste género que publiquei, uma série feita sobre - em cima de - quadros de Gustav Klimt, tinha um certo equilíbrio entre quadros onde a figura humana estava presente e outros onde ela estava ausente. Vista daqui parece o prenúncio de uma certa esquizoidia, entendida esta na sua raiz grega, que remete para uma cisão, uma fenda que se abre na forma das coisas, neste caso da realidade humana.

Esta evolução, provavelmente passível de reversão, não representa um acréscimo de misantropia, nem um culto tardio dos deuses silvestres, nem uma patologia específica, espero. Por vezes, a humanidade cansa-nos, ou cansamo-nos de nós próprios, o que vai dar ao mesmo. Isso seria uma boa razão para o seu esquecimento. Um olhar enviesado sobre o homem, por outro lado, pode ser mais penetrante, poeticamente falando, do que um olhar directo. Ao ir apagando a figura humana, deixo pairar perante o olhar as suas obras, a aldeia que fez nascer, a paisagem que deixou subsistir, a casa que construiu, a ponte que ergueu entre duas margens. Estas obras humanas transfiguradas pela arte acabam por tornar o Homem, apesar de tudo, mais aceitável. São uma ilusão, mas são aquela ilusão que permite não desesperar completamente da humanidade. Esquecer os homens nas suas obras, naquelas sobre as quais a arte fez cair o véu da ilusão, poderá ser a condição necessária para os aceitar.

02/11/09

Impressões - XXIX


Eugène Louis Boudin, Trouville, Le Port (1886)

o verão declinava naquelas praias
e os barcos anunciavam a noite
como se uma velha fotografia viesse
assombrar as pequenas paixões
que me retêm longe de ti

uma gaivota deixava um traço de tristeza
e no céu as nuvens desenhavam
a face onde pressentia a tua voz
essa distância que nunca se aproxima
mesmo se o coração arde no fogo da noite

Uma viagem no Barroco - 21 Johann Kaspar Ferdinand Fischer - Chaconne (1665-1746)


Johann Kaspar Ferdinand Fischer - Chaconne

Johann Casper Ferdinand Fischer was born in Germany around 1670, though we shall never be certain when. We find the first record of his existence in the mid-1690's when appointed Hofkapellmeister to the Margrave Ludwig Wilhelm, and it was the brilliance that Fischer brought to music at the court that made him an important musical figure. Obviously a fine harpsichordist, he was responsible for bringing a French influence into German music. There is just one question mark that remains unanswered, and that surrounds the variability of the quality of music which carries his name, leading to the speculation that there may have been two - or even three - generations of Fischers who contributed to the works that carry his name. That has been given further substance by the fact that Fischer would have had to compose for over 60 years to cover the approximate dates of composition, which would have been a long time in the early 18th century.

Possibly his most outstanding work, the Musicalischer Parnassus, published in 1738, represents the fusion of French and German styles. In the form of nine suites, they transform the style of French orchestral dances to the more restricted tonal scale of the harpsichord. Yet Fischer achieved works of a vivacity and piquant pleasure, many that would rival in impact and melodic invention the finest keyboard music of Scarlatti. Each suite carries the name of one of the Muses, and can be seen as a reflection of the supposed character of that Muse. Fischer's knowledge of French style extends to the use of the latest dance rhythms of the time, and the idea of using pairs of Minuets. This 'modern' outlook for a man probably in his late 50's or early 60's has added to the speculation of a younger hand being responsible. Though looking back, we find it consistent with a composer who had always been willing to experiment. In this case Fischer was employing many of the latest compositional styles, the rotating musical figures of the gigue in the third suite being just one example, while his oft use of broken chords, adds a distinctly humorous atmosphere to the dances. The summation is a group of short movements that prove a constant joy (Naxos).

Gustav Leonhardt joue sur l'orgue Dom Bedos de Sainte-Croix de Bordeaux la Chacconne de Johann Kaspar Ferdinand Fischer.

Falência técnica



Depois da SAD do Sporting, a do Benfica entrou em falência técnica. A do Porto está um pouco melhor, mas não muito. Esta é a verdade do nosso futebol, talvez a verdade do futebol de muitos países europeus. O futebol expandiu-se como contraponto ao fenómeno capitalista. O desenraizamento provocado pela proletarização de milhões de pessoas conduziu à necessidade de encontrar novas raízes e formas de identidades. Na Europa, o futebol foi o principal veículo desse apelo ao enraizamento. De certa forma, o futebol era uma reacção ao mundo moderno das sociedades capitalistas. No momento, em que ele próprio se torna um empreendimento essencialmente capitalista, perde a sua identidade originária e dá o triste espectáculo a que assistimos. Eficácia financeira e tradição identitária e afectiva são coisas que casam mal, pelo menos por cá.

Padrinhos e afilhados



Portugal, mas não só, é uma país esquizofrénico. Vive dilacerado entre uma legislação que tenta imitar o quadro legal dos países do norte da Europa fundado na religião protestante, e uma cultura mediterrânica, onde a família e os amigos possuem enorme preponderância. A figura do padrinho não é, em primeiro lugar, um fenómeno mafioso. É, antes, um fenómeno de integração social, numa sociedade marcadamente patriarcal, onde uma hierarquia de vassalos prestam tributo a um suserano, o padrinho. Este protege a família, uma família alargada para lá dos laços de sangue, distribuindo encargos e proventos em conformidade com os seus interesses, que acabam por ser os interesses dessa família. Todos estes casos de corupção que agora saltam nos jornais, bem como os inúmeros que nunca viremos a conhecer, são o fruto de uma cultura com centenas de anos, talvez mesmo milhares. É por isso que ninguém condena seriamente os corruptos e os corruptores. São eleitos, se forem a votos, pois contribuem de forma concreta para o bem comum, mesmo que isso signifique que contribuam mais significativamente para o seu bem. Mais do que acabar com padrinhos e afilhados, os portugueses pretendem ou ser afilhados de alguém ou, os mais ousados, ascender à categoria de padrinho, e assim fundar e proteger a sua família. As relações abstractas que existem entre os cidadãos do norte da Europa, onde todos são efectivamente indivíduos iguais perante a lei, são incompreensíveis em países onde o indivíduo é menos importante do que o grupo familiar de onde provém. As relações de sangue e as relações de amizade são concretas, os ditames da lei ou o bem comum geral, puras abstracções. Gostemos ou não. O resto é o espectáculo desta nossa esquizofrenia.

01/11/09

Impressões - XXVIII


Emil Nolde, Light Sea-Mood (1901)

podia ser uma terra marítima
onde antigos marinheiros
bebiam vinho
e juravam sobre a verdade
na sombra duma mão

mas é apenas areia mar
e um rasto de luz que ilude
o viajante ocasional
o sítio onde apanhavas búzios
e os confiavas à primeira criança
que a tarde trazia

Uma viagem no Barroco - 19 - Jean Philippe Rameau-Tristes Apprets Pales Flambeaux (1683-1764)


Jean Philippe Rameau-Tristes Apprets Pales Flambeaux

French composer of the 18th century, and a highly influential music theorist. Born in Dijon, where his father was an organist, Rameau traveled to Italy at the age of 18 and subsequently was employed as an organist in several French cities, most notably Clermont-Ferrand, where he stayed until 1722 and where he wrote his Traité de l'harmonie (Treatise on Harmony, 1722). He moved to Paris in 1723, where he taught harpsichord and music theory. His early compositions include light theatrical pieces and religious and harpsichord music. In 1731 he became director of the private orchestra of a wealthy music patron. This patronage enabled him to turn to opera. Rameau's 30 or so operas include many masterpieces of the French lyric theater: the tragedies Hippolyte et Aricie (Hippolytus and Aricia, 1733), Castor et Pollux (Castor and Pollux, 1737), Dardanus (1739 and 1744 versions), and Zoroastre (1749); the opéra-ballets Les Indes galantes (The Gallant Indies, 1735), Les fêtes d'Hébé (The Festivals of Hebe, 1739), and La princesse de Navarre (1745); and the comedy Platée (1745). His orchestration was powerful and innovative, as was the manner in which he used harmony for dramatic effect.

His Piéces de clavecin en concerts (Concerted Music for Harpsichord, 1741), for two violins and harpsichord, are among the earliest such works to give the keyboard an independent, rather than accompanying part. His theoretical writing set in systematic form the harmonic practices of the previous 100 years and detailed theoretical concepts that remained basic to European harmony until about 1900. Rameau died in Paris, September 12, 1764. [baroque-music.com; cf wikipedia]

Cláudio Magris - Alienação e autenticidade



A proclamação da autenticidade individual transforma-se numa pose de parvenu quando falamos contra a massa, esquecendo que dela fazemos parte. A retórica do enraizamento e do autêntico exprime por outro lado, embora de forma distorcida, uma exigência real, ou seja, a exigência de uma vida política e social não alienada, e denuncia a insuficiência do simples direito positivo, da mera legalidade formal que pode sancionar a injustiça, e à qual se contrapõe a legitimidade, quer dizer, um valor no qual possa assentar uma autoridade autêntica [Cláudio Magris, Danúbio].

---------------------

Percebo a crítica a Heidegger, compreendo a denúncia da pose de parvenu na proclamação da autenticidade do indivíduo. Compreendo inclusive a subjacente apologia de regimes não tirânicos. O que não compreendo, porém, é a ideia de uma vida política e social não alienada e o conceito de autoridade autêntica. Poderia afirmar, em contraponto a Magris, embora sem alinhar pelo diapasão heideggariano, que toda a vida política e social é alienada e toda a autoridade é não apenas inautêntica como ilegítima. Mas isso ainda seria ver a questão de uma forma superficial. A questão que se deve colocar é a seguinte: serão os conceitos de alienação e de autenticidade os mais indicados para falar da vida política e social e da autoridade? Não teremos que desfazer toda a malha conceptual que de Platão ao nossos dias, passando por Marx, Nietzsche, Foucault, construiu a rede onde tentámos apanhar o grande peixe da política?

31/10/09

Impressões - XXVII


Camille Pissarro, Kitchen Garden at l'Hermitage Pontoise (1874)

o trabalho na horta
ao ritmo das horas

a minúcia dos gestos
a fazer florir a terra

a promessa de salvação
a pairar sobre a vida

as árvores perderam as folhas
e um céu de cinza
despede-se das últimas aves

um cântico no silêncio
apraza o dia
convoca o deus
abre a casa vazia

Uma viagem no Barroco - 19 Arcangelo Corelli - Concerto no. 8 (1653-1713)


Arcangelo Corelli - Concerto no. 8 "Scritto per la Notte di Natale" in sol minore

The Italian composer and violinist Arcangelo Corelli exercised a wide influence on his contemporaries and on the succeeding generation of composers. Born in Fusignano, Italy, in 1653, a full generation before Bach or Handel, he studied in Bologna, a distinguished musical center, then established himself in Rome in the 1670s. By 1679 had entered the service of Queen Christina of Sweden, who had taken up residence in Rome in 1655, after her abdication the year before, and had established there an academy of literati that later became the Arcadian Academy. Thanks to his musical achievements and growing international reputation he found no trouble in obtaining the support of a succession of influential patrons. History has remembered him with such titles as "Founder of Modern Violin Technique," the "World's First Great Violinist," and the "Father of the Concerto Grosso."


His contributions can be divided three ways, as violinist, composer, and teacher. It was his skill on the new instrument known as the violin and his extensive and very popular concert tours throughout Europe which did most to give that instrument its prominent place in music. It is probably correct to say that Corelli's popularity as a violinist was as great in his time as was Paganini's during the 19th century. Yet Corelli was not a virtuoso in the contemporary sense, for a beautiful singing tone alone distinguished great violinists in that day, and Corelli's tone quality was the most remarkable in all Europe according to reports. In addition, Corelli was the first person to organize the basic elements of violin technique. (continuar a ler em Baroque Composers and Musicians. Cf. tb Wikipedia)

Portugal


Vasco Pulido Valente - A carreira de um corrupto



Claro e distinto. Mas o que poderemos nós pensar de Portugal e do regime político, desde as autarquias ao governo central? A miséria corrói o tecido social e isto? Que conexão há entre isto e a miséria (económica, social e cultura) endémica? Por que razão todos temos uma estanha sensação de medo e de que o país está a desaparecer? Diz VPV: "Só sei, como sabe, ou desconfia, a maioria dos portugueses que o regime se tornou uma enorme rede de corrupção".

Formação científica



O professor Jaime Carvalho e Silva, futuro secretário-geral da Comissão Internacional de Instrução Matemática, defendeu a necessidade do país investir mais na formação de professores de Matemática e de ampliar as horas de ensino da disciplina nos currículos. O mais importante daquilo que disse, mas provavelmente será aquilo que vai ser rapidamente posto de lado, refere-se, todavia, à necessidade de formação científica: “Além da língua, há uma cultura comum e problemas associados a essa cultura, como o de se considerar que a formação científica não é importante e que conseguimos improvisar o que será necessário”.

Aqui está um dos problemas cruciais do ensino em Portugal. São poucos aqueles que acham necessária uma maior e mais efectiva formação científica dos docentes. Isto começa no Ministério da Educação e acaba nos próprios professores. Mas a verdade é que o que acontece é o improviso a partir do manual. Os responsáveis julgam que o problema é pedagógico, mas não é. É um problema de domínio científico. Quem não conhece com profundidade as matérias que ensina, e muito para além delas, não tem material para dar conteúdo à imaginação didáctica que deve presidir ao trabalho docente. Mas explicar isto é uma tarefa inglória e destituída de sentido.