19/10/09

Convicções



O meu problema não é a ausência de convicções. Eu tenho múltiplas e diferenciadas convicções, arrasto-as comigo, durmo com elas, passeio-as pela rua, chego a jantar com elas. O meu problema é diferente. Reside no simples facto de não acreditar em nenhuma das minhas convicções. Mas isso não é o pior. O pior é que eu não acredito mesmo em poder acreditar nessas convicções. Há um livro de Paul Ricoeur que me fascina desde que saiu, em 1995. Resultou de longas conversas com François Azouvi e Marc De Launay. O que me fascina não é o seu conteúdo, mas o título e aquilo que ele pressupõe. O livro chama-se A Crítica e a Convicção. O pressuposto é que o exercício crítico da Filosofia acaba por depurar as convicções, tornando o convicto mais convicto das suas convicções. O meu fascínio reside no simples facto de nenhuma convicção que eu possa ter resiste ao exercício da crítica. A crítica dissolve todas as convicções, todas as crenças, tudo aquilo que tomamos por verdadeiro. Por isso protesto pela dissolução niilista da verdade, protesto contra o relativismo. Mas não creio sequer no meu protesto, não passa de um gesto inútil.

Leituras superficiais



A Igreja Católica tem uma funda sabedoria dada por dois mil anos de existência, mas os judeus são muito mais antigos e, por isso mesmo, mais sábios. Veja-se, por exemplo, o que o rabino Eliezer di Martino, responsável pela comunidade judaica de Lisboa, disse sobre o livro de Saramgo. José Saramago “não conhece a Bíblia nem a sua exegese”, fazendo “leituras superficiais das narrativas da Bíblia”. Eliezer di Martino recolocou a discussão no seu devido lugar. Depois, como resposta à afirmação de Saramago de que «o livro possa incomodar os judeus, mas isso pouco me importa», disse que «continuamos (os judeus) a existir e a acreditar naquele livro [Bíblia] desde há milhares de anos, embora tenhamos ataques e perseguições precisamente por acreditarmos». E encerrou qualquer tipo de polémica com o escritor.

Será a sorte grande?



Bósnia-Herzegovina. Talvez tenha saído a sorte grande a Carlos Queiroz. Esperemos bem que sim. Uma fase final sem Portugal seria desagradável. De certa maneira, habituámo-nos, nos últimos tempos, à presença da selecção Portuguesa nesse género de eventos. Façamos figas para que não haja surpresas, daquelas que tantas vezes nos acontecem, e não sejamos vítimas de algum desvario balcânico. O terreno é fértil em armadilhas.

18/10/09

Impressões - XV


Francis Picabia, Saint-Tropez, vista de la Citadelle (1909)

o passado é sempre tão perfeito
traz uma luz consumada
e em cada figura repousa
um lastro de tempo
entre erva queimada

mas não há sombra nem água
ou vida desmedida
apenas o sussurro de algum fantasma
nos desperta para aquilo
que já foi vida

Coimbra fantasmática


Hoje estive mais uma vez em Coimbra. Sentei-me numa esplanada da Visconde da Luz para tomar café, deambulei por ruas e ruelas, espantei-me, de novo, pela visceral beleza de tudo aquilo. Almocei junto ao rio, num belo espaço, bem cuidado, nas margens do Mondego, postas à disposição de conimbricenses e de forasteiros. Vi a recuperação de imensas casas na cidade antiga, tudo com bom gosto, equilíbrio, sem rupturas na harmonia do povoado. Mas, apesar de tudo isto, a cidade parecia um paraíso de fantasmas. O comércio fechado, por ser domingo, afastou as gentes dali. O pior é, todavia, a ausência de turistas, de gente vinda do estrangeiro para se perder por aquelas ruelas. Coimbra merecia ser "vendida" de uma forma mais agressiva. Um domingo não tem de ser um dia onde a vida da cidade fecha para descanso. Lisboa deve ter estado, como é habitual, cheia de estrangeiros. Coimbra merecia igual sorte.

O exercício da banalidade



O que me espanta não é o ateísmo militante de Saramago, uma ateísmo que roça o proselitismo. É um direito seu exactamente igual ao dos crentes  militantes e proselitistas. O que me acaba sempre por desapontar é a banalidade dos ataques à religião, a incompreensão do fenómeno e das raízes racionais que estão presentes na ideia de Deus. Compreender a religião e a ideia de Deus não implica acreditar ou não nelas, mas tentar uma aproximação racional ao fenómeno religioso. O que está muito longe de acontecer com Saramago, como se prova por isto: «O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!» Isto está ao nível das crises religiosas da adolescência.

O gosto pelas metáforas mortas



Que um poeta metaforize, ninguém estranha. É a sua a maneira  de dar a ver o mundo de uma forma inesperada. Que os políticos sejam dados à metafórica leva-nos, pelo menos, a franzir o sobrolho. Isto não apenas pela fraca qualidade das metáforas (quase sempre metáforas mortas) a que recorrem, mas porque com elas, contrariamente aos poetas, pretendem ocultar sempre qualquer coisa. Sócrates, perante a nova situação de governação em minoria, metaforizou: Já fui rico e já fui pobre. Prefiro ser rico. O que se oculta aqui? Não claramente o desejo de mandar sem entraves. Ele está bem expresso na sua preferência por ser rico. O que se oculta é aquilo que está por detrás do jogo «já fui rico e já fui pobre», cuja enunciação nos leva a pensar que isso são coisas que acontecem, fruto do acaso da vida. O que se oculta, então, foi a forma como Sócrates dilapidou a riqueza que tinha, como foi perdulário durante a última governação. Sócrates oculta que a sua actual pobreza se deve então a forma como agiu. Não foi o acaso nem um decreto arbitrário das potências infernais que o conduziram ao lugar onde está. Foi ele e as suas políticas.

16/10/09

Impressões - XIV


Joaquin Sorolla y Bastida, Paisaje de S. Sebastián

quando o dia chegava
o ar marítimo trazia as últimas névoas
para envolver de segredos
casas, caminhos e animais

assim os furtava
aos veraneantes ocasionais
que trazem em cada algibeira
o cansaço com que infestam
o desamparado tempo
pela terra inteira

Sem retorno



A senhora ministra da educação afirmou hoje que as escolas enfrentam “obstáculos e dificuldades” sem paralelo na história do sector para conseguirem responder ao alargamento da escolaridade obrigatória para os 12 anos. Enumerou algumas dificuldades, incensou, embora enviesadamente, a medida por si tomada e não esqueceu a banalidade. "Não podemos desistir de nenhum dos nossos jovens, nenhuma criança, adolescente ou jovem pode ser deixado para trás”. Tudo isto é muito bonito e comovedor. Pena é que a senhora tenha criado tão grandes obstáculos à disciplina nas escolas, que tenha desprezado o problema, tenha desautorizado os professores e acobertado os comportamentos menos adequados dos alunos. Há uma coisa, porém, que ninguém diz. Os alunos que querem trabalhar e aprender, mas cujas famílias não têm dinheiro para colégios privados, ou não os há onde vivem, quem os protege? Esta medida, por mais encantadora que seja, vai criar muitos problemas não às escolas, mas a esses alunos que precisam, para aprender, de um ambiente escolar saudável. É muito bonito dizer que há grandes desafios para as escolas enfrentarem, como se tudo estivesse na mão dos homens. Todos nós sabemos como isto vai acabar. Quem se interessa, já viu este filme no estrangeiro. Como em certos países ocidentais, a escola pública portuguesa vai definhar no caos, na indisciplina, na irrelevância. Em França, por exemplo, começaram agora a pagar a esse adoráveis adolescentes para ver se eles concordam em ir às aulas. A senhora ministra lançou a confusão, da qual não haverá retorno, e vai-se embora, esperemos.

Pena é que o senhor Mário Nogueira também não a acompanhe. O dirigente da Fenprof interpretou as palavras da ministra como “uma espécie de testamento político”. A ministra “conseguiu fazer um discurso completo de despedida sem ter uma referência elogiosa para os professores, o que também não é de espantar, foi assim todo o tempo, durante estes quatro anos”. Meus Deus, perante a anunciação do caos que vai acontecer em muitas escolas, a única coisa que lhe ocorre é que a senhora ministra, que nem mãe castigadora, não fez uma referência elogiosa aos professores. Parece que se sente abandonado. Se a ministra me elogiasse, eu desconfiaria imediatamente da qualidade do meu trabalho. Há coisas que só a psicanálise explica.

O problema



O problema está mesmo aqui. Uma notícia do Público diz-nos que os indicadores de conjuntura mostram aumento do ritmo da retoma. Uma outra, porém, estabelece o horizonte do quadro de recuperação: 18 por cento dos portugueses são pobres e a situação tende a piorar. Como em tudo o mais, as boas notícias neste país nunca são para todos. A economia irá recuperar mais rapidamente do que se esperava, mas a pobreza irá também aumentar. Este é o problema. Uma parte cada vez maior da comunidade portuguesa mostra-se incapaz de se integrar nos novos tempos.

Jornal Torrejano, 18 de Setembro de 2009



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15/10/09

Impressões - XIII


Eugene Louis Boudin, El Puerto de La Havre (1888)

a caligrafia desenhada pelos barcos
sobre o rumor das águas
anuncia o perfume de certas mulheres
ao saírem de casa nas tardes
em que as paisagens se cobrem de invernos

não basta a lucidez nem o apuro dos sentidos
para o reconhecer
é preciso saber acender o lume
e esperar que o véu da paixão
caia irremediável sobre o anoitecer

Contar com o ovo...



Sócrates vai formar um governo minoritário. O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista rejeitaram, por princípio, qualquer coligação. Toda a gente está a contar os votos futuros, mas os eleitores também percebem o que se está a passar. Teria sido ocasião para, com amplas cedências de lado a lado, se construir  uma alternativa política. Sócrates tem má fama na esquerda? É um facto, mas a política não se faz de estados de alma nem de preconceitos morais. Pode ser que me engane, mas a esquerda à esquerda do PS vai pagar duramente o fecho negocial que patenteou perante o país. Ao menos, deveria ter obrigado o PS a negociar. O tempo do cinismo, o tempo em que o não assumir responsabilidades dá votos começa a findar. A retórica da esquerda de confiança e da estabilidade social começa a ser escassa para justificar tantos votos. Mais do que o PC, o BE que se cuide. Toda a gente está contar com o ovo no dito da galinha, talvez se enganem.

Que maçada



Que maçada! Ser deputado numa hora destas, era o que faltava. Certamente haverá razões ponderosas para que o antigo ministro da Educação renunciar ao cargo de deputado trinta minutos depois de tomar posse. Enquanto estas não se conhecerem, os eleitores de Braga, e do resto do país, têm todo o direito de pensar que Deus Pinheiro não tem o mínimo respeito por eles, nem pelo parlamento, nem pelo regime democrático, nem pelo país. Os partidos políticos deveriam auscultar claramente os seus candidatos para que estas coisas não acontecessem. Pior é se o PSD sabia já da possibilidade disto vir a suceder. Para o lugar do sénior Deus Pinheiro entra o júnior Pedro Rodrigues, dirigente da JSD. Este, considerando o pobre currículo, deve querer manter o lugar.

14/10/09

Impressões - XII


Diego Rivera, Casa sobre el puente (1909)

a quieta cor do dia
desenha uma súbita jura de água
e aí ficamos presos
a sonhar gôndolas
naquelas terras onde as não há

nas paredes a caliça anuncia
o charco do futuro
e em cada janela avista-se
a promessa oculta
de um inútil homicídio

Veremos



Portugal cumpriu. Ganhou por 4-0 aos amigos malteses. Mas aquilo que se viu, nomeadamente na segunda parte, não deixa ninguém muito tranquilo para o play-off. Como disse o Toni, que é um péssimo comentador mas sabe muito de futebol, Hungrias e Maltas acabaram. Queiroz tem um mês para pôr Portugal na África do Sul. Veremos.

O futuro pesa



Este é um dos problemas maiores do país. Perspectiva-se mais uma quebra de natalidade para este ano. É como se Portugal estivesse cansado e a comunidade decidisse, inconscientemente, suicidar-se. Talvez novecentos anos de história cansem, mas não é o passado que pesa, é o futuro. Para os portugueses o futuro é uma carga enorme, desmesurada. Olho para a maioria dos alunos que vejo na minha e noutras escolas, e o que vejo? Gente exausta, sem perspectivas, sem vontade, sem rumo, sem desejo. Quando chegarem à idade razoável de ter filhos, estarão demasiado cansados para os fazer. Isto não vai acabar bem.

A essência da história




Que se suba até ao berço das nações, ou que se desça até aos nossos dias, que se examine os povos em todas as posições possíveis, desde o estado de barbárie até ao de civilização mais refinada, encontrar-se-á sempre a guerra. Por esta causa, que é a principal, e por todas aquelas que se lhe juntam, a efusão de sangue humano nunca está suspensa no universo: umas vezes ela é mais fraca sobre uma superfície maior, outras é mais forte numa superfície mais pequena, de maneira que ela é quase constante. Mas de tempos a tempos há acontecimentos extraordinários que a aumentam prodigiosamente, como as guerras púnicas, os triunviratos, as vitórias de César, a irrupção dos bárbaros, as cruzadas, as guerras religiosas, a sucessão de Espanha, a Revolução francesa, etc. Se houvesse uma tabela de massacres como há tabelas meteorológicas, quem sabe se não se descobriria, ao fim de alguns séculos de observação, a lei que os rege? [Joseph de Maistre, Considérations sur la France]

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Para além de mostrar a essência da História universal, a guerra e a efusão de sangue humano, Maistre faz, meio ironicamente, uma curiosa sugestão. Construir tabelas de observação dos massacres em analogia com as tabelas feitas na meteorologia. Esta aproximação a uma certa cientificidade da História, feita em finais do século XVIII, é muito mais interessante do que a de Marx, feita posteriormente. Marx e Engels estavam fascinados pelo desenvolvimento da Física e da Química, e sonhavam com uma legalidade histórica idêntica àquela que determina os acontecimentos naturais. A irónica proposta de Maistre abre a História não à necessidade, presente nas leis da Física clássica de Newton, mas à probabilidade e à previsão, como acontece com a meteorologia. O que faz dele, epistemologicamente,  um contemporâneo. Um mistério, este de um reaccionário ser mais moderno do que os revolucionários posteriores.

13/10/09

Era inevitável



Era inevitável que o ex-jovem Passos Coelho viesse falar com voz grossa. Segundo a sua opinião, Manuela Ferreira Leite não tem condições para estar à frente do partido. Mais, ele quer regener, logo regenerar, o partido, "renovar discursos e práticas". Só estas palavras deveriam ser o suficiente para os seus companheiros - é assim que se conhecem na congregação - o mandarem calar e nunca mais lhe permitirem abrir a boca. Não vai acontecer, pois os partidos políticos tornaram-se o local ideal para dizer banalidades sem sentido. Seja como for, há uma coisa que dá razão a Passos Coelho. Se o ex-jovem Sócrates chegou onde chegou, por que não há-de ele chegar a um sítio semelhante. Mal por mal, as metáforas do prof. Marcelo.

Impressões - XI


Pierre-August Renoir, Banks of the Seine at Champrosay (1876)

aceitamos o tempo como oferenda
e não vemos a garra erguida
na água que corre
nem sabemos a cor que terá
ao perder-se no estuário

às vezes tomamos uma ponte
e pensamos que nos furtámos
ao fascínio do rio
mas as margens não são habitação
e logo nos devolvem à viagem

Joseph Maistre - Da natureza das acções humanas


Enfim, há acções desculpáveis, louváveis mesmo segundo o ponto de vista humano, e que são infinitamente criminosas. Se, por exemplo, nos dizem: Abracei do boa-fé a Revolução francesa, por um amor puro da liberdade e da minha pátria. Acreditei, na minha alma e na minha consciência, que ela conduziria à reforma dos abusos e à felicidade pública. Nada temos a apontar. Mas o olho, para quem todos os corações são diáfanos, vê a fibra culpada, descobre numa discórdia ridícula, num pequeno melindre do orgulho, numa paixão baixa ou criminosa, o primeiro motivo destas resoluções que se quereriam mostrar ilustres aos olhos dos homens. E para ele a mentira da hipocrisia enxertada sobre a traição é mais um crime [Joseph Maistre, Considérations sur la France].
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Quem viveu politicamente os conturbados anos de 1974 a 1976, quantas vezes não deparou com situações destas? Quantas vezes não vi a inveja brilhar por detrás de certas opções e compromissos políticos? Quantas vezes não vi o despeito de um protagonista ao ser preterido, na economia da vida de um partido, por outro. Mesmo se eu olhar para o meu coração, tão imaturo à época, estou longe de lá encontrar apenas candura e idealismo altruísta. A participação nas revoluções políticas, bem como na vida política em geral, não é um exercício ascético de purificação. Quem está na política não visa a glória dos altares, mas o poder. Fundamentalmente o seu poder.

12/10/09

Impressões - X


Claude Monet, Cap Martin, near Menton (1884)

as velhas árvores
são como o ombro de um anjo
reclinadas para água
deixando uma sombra pairar
na luz da madrugada

prefiro as montanhas – dizias
enquanto o olhar se perdia
na rasura da planície
e tudo caía para o poente
para a suja traição da noite

Comparar o comparável



Chegou o momento anual de excitação jornalística com os rankings de exames. Sempre defendi a publicitação dos resultados e considero os rankings um instrumento de trabalho com alguma utilidade, mesmo se comparam o incomparável. Mas o que os jornais poderiam fazer, com efectiva utilidade, era comparar, por exemplo, a evolução da lista das 50 ou 100 escolas com melhores resultados (e com um número significativo de provas), nos últimos 10 anos (haverá já rankings de tantos anos?). Poderiam mostrar como se comportam nessa lista as escolas públicas depois de tanta inovação da socióloga Rodrigues. Isso seria comparar o comparável. Seria também informativo e, porventura, edificante.

Adenda: ver no Profavaliação e no Aventar já algum tratamento nesse sentido.

O tempo das metáforas



A metáfora é o resultado da acção da imaginação produtora, como diria Kant. E imaginação é coisa que não falta ao sagaz, tão sagaz quanto o divino Ulisses, professor Rebelo de Sousa. Para falar da liderança do seu partido, para manter em alerta o espectador, tece um véu de metáforas, umas piores que outras. Há que sarar feridas há muito abertas, alvitra. Consta que também quer estancar a balcanização do partido. Mas, fundamentalmente, quer uma solução madura para o seu PSD. O problema é se as feridas já gangrenaram, ou se os grupos balcânicos possuem demasiadas armas e não sabem o que fazer com elas, ou se a solução madura estiver praticamente podre. O mal das metáforas é introduzirem um elemento de ambiguidade no discurso que permite dizer tudo e o seu contrário. Chegou o tempo do fogo-de-artifício.

O futuro autárquico de Torres Novas



António Rodrigues ganhou novamente em Torres Novas, manteve o score das últimas eleições. Por muito que as oposições não compreendam, uma vitória acima de 50% diz claramente aquilo que os eleitores querem. Mas esta vitória é o começo de uma renovação no panorama autárquico local. Rodrigues não se poderá recandidatar. À esquerda, na CDU e no BE, as soluções estão gastas. Também à direita, isto é, no PSD, o actual presidente da concelhia mostrou pouca capacidade para entrar no eleitorado. Estes quatro anos vão ser um compasso de espera, mesmo para os socialistas. Há uma oportunidade para as oposições, nomeadamente para o PSD e para a CDU, entrarem no eleitorado que tem pertencido a António Rodrigues. Precisam, porém, de perceber as novas realidades sociais do concelho. Mesmo o PS tem um grave problema, o de encontrar um sucessor credível ao actual presidente. Quatro anos são muito tempo, mas as próximas eleições autárquicas, para quem as quiser ganhar, são já amanhã. O fundamental, porém, é que os partidos compreendam que chegou a hora de uma nova geração de políticos locais. António Rodrigues quando chegou à Câmara ainda não deveria ter quarenta anos. É nessa faixa etária, gente com energia e novas ideias, que os partidos devem procurar os seus futuros candidatos.

11/10/09

Impressões - IX


Pere Ysern Alié, Esbozo del cuadro "La Bohemia" (1901)

pede-se sempre demasiado à vida
um lugar perfeito
a sombra a suavizar o sol
o amor supremo
a banhar-nos de felicidade

ela oferece-nos um banco de jardim
para vermos o tempo desvanecer-se
o infindável fluir das estações
a face dos que passam
o alívio de quem sentado espera

Do exercício da arrogância



É preciso uma dose de arrogância enorme para alguém se candidatar a um cargo público com a suposição de ser capaz de resolver os problemas da comunidade ou dos outros. A candidatura, toda a candidatura, é um exercício paranóico de arrogância. Não basta a mera auto-estima, a confiança em si. Todo o poder, sem excepção, se funda na arrogância, exprime-se através da altivez e da sobranceria, por vezes, se conveniente, através do desprezo. Aquele que luta pela conquista ou manutenção do poder não é apenas audaz, é presunçoso e, muitas vezes ou sempre, insolente. A verdadeira virtude política não passa de um repositório de qualidades para a prática do mal. Não por acaso, o poder é o lugar do mal e o poder absoluto o do mal absoluto.

Pior, porém, do que o homem de acção é aquele que escreve sobre o devir do mundo e aquilo que deve ser esse mundo e a acção dos homens nele. Se a arrogância do político é, invariavelmente, enorme, a do intelectual – do universitário ao mero escrevinhador de blogues ou de crónicas de jornal – é sem medida. Que pretensão é aquela que habita a vontade de alguém para ter a veleidade de querer dizer como é a realidade? Que pretensão é a que reside num mero ser humano, limitado às suas faculdades de animal racional, para proclamar o que deve ser? Para esse devaneio irracional, para esse supino exercício de arrogância, foi aplicado, com propriedade, o termo estultícia. Mas esta não é apenas o sintoma de uma imbecilidade, mas o sinal de uma loucura que larva no coração de alguém.

Na verdade, se aqueles que lutam pelo poder deveriam estar todos no presídio, o lugar dos intelectuais deveria ser o hospício. São todos, de uma maneira ou de outra, incuráveis e irrecuperáveis.

10/10/09

Impressões - VIII


Francis Picabia, Amanecer en la bruma, Montiguy

não sei a distância
a que fica a tua morada
nem os olhos
vêem além da bruma

quando saías
para apanhar bagas
ainda em mim
uma voz cantava

mas tudo se extingue
na imensidão da manhã
as folhas tecidas na noite
o rasto de algum animal

ou a desolação
com que despediste
o teu do meu coração

Será que Queiroz vai ganhar?



Portugal 3 - Hungria 0. O averomundo não é um especial adepto de Carlos Queiroz, mas hoje há que lhe dar os parabéns. A selecção fez o que tinha de fazer, ganhar. Ainda por cima marcou golos. Simão jogou muito bem, também Pedro Mendes e Bruno Alves. Liedson fez bem o seu papel. Portugal não foi brilhante, mas estamos todos cansados de derrotas com exibições brilhantes. Bom seria que Carlos Queiroz demonstrasse, primeiro com o apuramento e depois no Mundial, que é um treinador de equipas adultas e não apenas um condutor de jovens promessas. Será que ele vai ganhar essa aposta?

Outra vez dia de reflexão



Muito gostamos nós de reflectir. Ainda há duas semanas, faz hoje, estávamos a reflectir na magna questão de como não dar uma maioria absoluta a nenhum partido. Hoje reflectimos sobre como vamos amanhã entregar os três votos a que temos direito nas autárquicas. Esta tripla possibilidade, se o legislador fosse coerente, obrigaria a três dias de reflexão, o que implicaria o fim da campanha eleitoral na quarta-feira passada. Não teria sido pior nem mais incivilizado, e com três dias de reflexão não tardaria a brotar entre o povo português verdadeiros e autênticos filósofos, coisa que nunca houve.

O Malho, um santuário digno de peregrinação



De vez e quando fala-se por aqui, no averomundo, de algumas experiências gastronómicas. A maior parte delas, no entanto, não vêm parar aqui. Não porque sejam más, mas porque a minha memória é má. Esqueço-me. Mas há uma injustiça, uma grande injustiça, que hoje vou reparar. Numa aldeia improvável, com o nome ainda mais improvável de Malhou, há - contra todas as probabilidades - um belo restaurante. O nome também é improvável, o Malho. Restaurante e aldeia fazem parte do concelho de Alcanena, situados na estrada, não menos improvável, que liga esta vila à de Pernes, no concelho de Santarém.

Na peregrinação gastronómica desta sexta-feira, foi a este santuário que se foi orar, mais uma vez. O que deram os deuses em troca? Para além das entradas, talvez o menos interessante mas ainda assim bastante boas (calhou esta noite pataniscas de bacalhau, croquetes, fígado em vinagrete e cogumelos em azeite e alho), começou-se com uns belos filetes de corvina acompanhados com um arroz de grelos, estando os primeiros suculentíssimos, despojados da gordura dos fritos, e o arroz bem malandrinho, sápido, sem excesso de sabor a grelos, num equilíbrio entre o sabor do mar e o do campo. Depois, a viagem levou-nos a um folhado de perdiz selvagem, com o folhado crocante e recheado, para além da perdiz, com legumes, tudo numa perfeita harmonia, sem exageros retóricos nem manias nouvelle cuisine, como o exige a tradição que vem dos antigos gregos. Tudo isto acompanhado por tinto do Ribatejo (não se bebe branco por aqui e aposta-se muito nos tintos do Ribatejo), um Quinta da Alorna Reserva, o qual estava ao nível da refeição. Por fim, a sobremesa calhou ser, entre as várias hipóteses, um folhado de maçã acompanhado com gelado de nata, o qual não desmereceu da corvina ou da perdiz.

Nesta zona, refiro-me ao concelho de Torres Novas e aos que o rodeiam, como Alcanena, Tomar, Ourém, aqui incluindo Fátima, Entroncamento, Golegã, Abrantes, VN da Barquinha, Constância, Chamusca, até Alpiarça e Almeirim, não conhece este blogger melhor casa para comer do que o Malho, mesmo se se tem de penar uns minutos na estrada, ou arremedos dela, que liga Alcanena ao Malhou. Mesmo que o futuro Presidente da Câmara de Alcanena não mande arranjar a via, vale a pena o sacrifício. E quem gostar de peixe, como se gosta por aqui, no averomundo, o Malho é, apesar da lonjura do mar, um sítio a ter em conta, mais do que muitas zonas pesqueiras.

09/10/09

Impressões - VII


Clara Southern, An Old Bee Farm (1900)

há coisas que preferimos não recordar
certas palavras ouvidas
um amor recusado
as imagens do mundo que sonhámos
serem as do passado

na clareira da memória então erguemos
um muro de terra
e deixamos o vento bater
à espera que a erosão o abra
para aquilo que perdemos

Uma visão de Torres Novas



A edição semanal, em papel, do Jornal Torrejano traz, a propósito das eleições autárquicas, um conjunto de dados sócio-demográficos de Torres Novas e dos vários concelhos envolventes. Cansado, entretive-me a estabelecer uma relação entre número de eleitores e número de licenciados - vamos admitir que todos os licenciados dos concelhos são eleitores nesses mesmos concelhos. Os resultados são curiosos. Vejamos a percentagem de eleitores licenciados: Alcanena – 8,3%; Constância – 7,1%; Entroncamento – 16,9%; Golegã – 8,7%; Torres Novas – 11,9%; VN da Barquinha – 9,8%.

Quem conhece estes concelhos percebe de imediato o peso de duas coisas. Por um lado, a dimensão do concelho; por outro, a sua natureza urbana ou rural. Entroncamento, apesar de não ser o concelho com mais população, é aquele que é completamente urbano. Isso explica a grande diferença na percentagem de licenciados relativamente a Torres Novas. Talvez existam outras razões. Julgo, porém, que entre essas muitas razões há uma, quase subterrânea, que terá uma importância não irrelevante. Trata-se de o Entroncamento ter tido ensino liceal público uns anos antes de Torres Novas. Isso gerou um outro tipo de relação com o saber, relação essa que se foi transmitindo de geração em geração.

Estes dados mostram, por outro lado, a pouca capacidade de Torres Novas fixar gente com formação superior. Significa isso que o tipo de trabalho existente é ainda pouco exigente e pouco diferenciado. Também se percebe, por aí, que Torres Novas não tenha, ainda hoje, uma classe média social e culturalmente diferenciada, como se o concelho continuasse a ser uma emanação de um mundo essencialmente rural e operário. Esta é a grande desvantagem de Torres Novas. Não tem massa crítica suficiente, mesmo comparado com outros concelhos semelhantes, mas com burguesias locais mais fortes e tradicionais. Torres Novas precisa de formar os seus jovens e de os fixar, eles ou outros. Pena os partidos políticos terem mais que fazer do que pensar nestas coisas. A própria transferência da FERSANT para Santarém tem um significado que não convirá desligar daquilo que aqui se disse.

Com amigos assim...



Com amigos assim, Santana Lopes não precisa de inimigos. Carmona Rodrigues sugere que se terá confundido um telefonema pessoal e de amigo com um telefonema político. Esta visão não deixa de ser interessante. Enquanto amigo, Carmona vota em Santana Lopes, mas enquanto político não, presume-se. Como o voto é um acto político, logo... Percebe-se a ânsia de Santana Lopes. As sondagens não auguram nada de bom, e se Santana perder em Lisboa, não perde só a câmara da capital. Perde também a esperança de um futuro político. É a vida, como diria o outro.

Carmona, depois de ter dito que nao apoiava politicamente Santana, decidiu participar, como amigo, numa arruada do mesmo Santana. De facto, com tantas eleições, uma pessoa fica confusa. Esperemos que ele não venha dizer que na arruada não era ele que estava, mas apenas um holograma que lhe fugira ao controlo.

Jornal Torrejano, 9 de Outubro de 2009



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08/10/09

Impressões - VI


Jaime Morera y Galicia, Aldea bretona (1884-1890)

a incúria a que tudo chegou
para quê falar
das folhas perenes
ou contar as promessas eternas
que um dia te fizeram

primeiro um leve deslizar de terras
depois o vento sopra
e no coração abre-se
uma cratera onde murcham
os lírios que plantaste

O problema do pântano



Sócrates só fala das soluções de governo após as autárquicas. Solução sensata. Imaginemos que além do Porto, o PS perde Lisboa. Foi assim, mas com uma maioria relativa bem mais confortável que a actual, que Guterres descobriu o pântano e entregou a governação a Durão Barroso. Sócrates não abandonará o governo que ainda não formou, mas terá uma força diferente caso ganhe ou perca Lisboa. Se perder, o pântano crescerá.

Joseph Maistre - Apologia do Jogo



Tudo se reduz então a este grande problema, para aquele que quer empregar os seus semelhantes em proveito próprio: Encontrar homens que o orgulho os incita a servir-me e cujo interessa não os afasta de mim. Por consequência, tudo se reduz a conhecer um grande número de homens. - Jogai então muito, para que vos vejam. Qualquer outro meio é fraco em comparação com o jogo - Para se ser da casa, nada há melhor, e a maioria das ligações vêm dele. Aliás, que coisas úteis nascem desta feliz instituição! O conhecimento inuitivo dos números não se adquire melhor em qualquer outro lado. O jogo dá sobretudo o hábito dos juízos rápidos. A ocasião é um pássaro que é preciso matar em pleno voo. Daí, diga-se de passagen, vem o embaraço do sábio que só dispara sobre um alvo parado. Para se decidir no momento, não conheço melhor mestre que o jogo, como não há melhor para formar o espírito. Aquilo que Cícero dizia da seita filosófica que tinha abraçado, «Nós seguimos as verosimilhanças!» deve ser a divisa do homem sensato para regular a sua conduta, porque a vida inteira não passa de um cálculo de probabilidades; é necessária uma precisão maravilhosa de espírito para tomar decisões muitas vezes sem reflexão. Não percebo como se chegou a atribuir à lógica o poder de rectificar o espírito. Nada é mais falso. A lógica ensina-nos a conhecer a natureza do raciocínio que fizemos, nunca nos ensina a produzi-lo [Joseph de Maistre, Six Paradoxes à Madame la Marquise de Nav...]

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Eis uma belíssima apologia do senso comum e da sagacidade nas relações práticas. O que pode espantar à nossa moralidade é o método proposto, o jogo. Mas com Maistre estamos naquele limiar em que a aristocracia e a burguesia se cruzavam na rua do poder, uns para sair outros para entrar. Ele, um aristocrata recente, apesar da sua posição contra-revolucionária, não deixava de ter sido já educado no espírito de cálculo introduzido pelo pensamento moderno. Nesta apologia do jogo, cruzam-se a sagacidade do nobre Ulisses e o cálculo daqueles que querem pôr os seus semelhantes ao seu serviço. Eis um reaccionário moderno. Mas o que é mais interessante é que Maistre, Joseph, é um grande escritor.

Uma antevisão


As preocupações da FENPROF, com os professores ou técnicos das Actividades de Enriquecimento Curricular, são justíssimas. O que se está a passar ultrapassa muitas vezes os limites da decência. Mais, o que cabe perguntar é se isto não é, ou não pode vir a ser, um balão de ensaio para o futuro laboral dos professores, uma espécie de antevisão do enorme inferno que os espera. Estas coisas nunca se fazem todas de uma vez, vão-se fazendo de forma transversal, umas vezes pela direita outras pela esquerda moderna.

07/10/09

Impressões - V


Pere Ysern Alié, Bailarinas (1920-1925)

pássaros errantes
flocos de neve
não são corpos
os corpos que vejo

será o ardil de um deus
ou a terra a erguer-se
para a madrugada?

apenas um segredo de fogo
a latir no serralho da infância

A Itália resiste



A Itália resiste. Tribunal Constitucional italiano anula lei que dava imunidade a Berlusconi. Mas qualquer coisa está muito doente por ali. Como podem os italianos tolerar que Berlusconi diga que o Tribunal Constitucional é um instrumento da esquerda? Como aceitaram uma lei que conferia ao primeiro-ministro um estatuto fundado num privilégio inaceitável numa república democrática, um estatuto que, apesar do silêncio, fazia já da Itália uma não democracia ou uma pós-democracia?

Um país de vigilantes



A cibervigilância feita pelos próprios cidadãos está a ganhar terreno no Reino Unido. Todos aqueles que queiram, a partir de casa, vigiar determinado local público (a partir das imagens recolhidas em directo por câmaras de segurança instaladas in loco) poderão ganhar cerca de mil euros por mês com esta actividade, que funciona através de um sistema de pontos. Acho sempre salutar estas notícias vindas velha Albion. A ideia da mais velha democracia, do profundo respeito pelas liberdades individuais, da crítica sobranceira aos outros países, nunca verdadeiramente cultores da democracia à inglesa, e acima de tudo a anglofilia parola que, a coberto do nosso singular liberalismo estatal, grassa por cá fazem-me sempre sorrir perante notícias como estas. É um facto que a segurança é um problema em muitos países ocidentais, mas transformar a Internet num mundo de vídeovigilância e todos os cidadãos em candidatos a polícias talvez nos  obrigue a repensar qual o verdadeiro referente para a alegoria de Orwell. A mais velha democracia está a transformar-se de civilização de comerciantes  em país de vigilantes. Não sei se isto tem a ver alguma coisa com a leitura de Sir Karl Popper.

Percepções singulares



O apoio do Dr. Carvalho da Silva, líder da CGTP, à candidatura de António Costa à Câmara de Lisboa, bem como os anteriores apoios de José Saramago e de Carlos do Carmo, não esconde a realidade. Esta realidade tem duas vertentes. Por um lado, há em muita gente à esquerda do PS, a percepção de que a candidatura de Pedro Santana Lopes e a coligação CDS-PSD são para ser levadas a sério. Por outro, estas percepções singulares, que suspeito também existirem no próprio PS, não são suficientes para comover os dirigentes das três grandes forças de esquerda para encontrarem um programa comum para a cidade de Lisboa. Toda a gente ficou a pesar a importância dos seus votos e a ponderar sobre a linha justa da esquerda. Se o Dr. Santana Lopes se tornar, dia 11 de Outubro, o novo Presidente da Câmara da capital, não se queixem. Mais, se isso acontecer terão de o suportar, depois de amanhã, na luta pela governação. Em Portugal, a memória é curta e o homem amadureceu.

Joseph Maistre - Mediocridade e superioridade



A mediocridade é muito amável, Senhora Marquesa! Ela não causa inveja a ninguém, ela nunca contradiz. Ela não vê dificuldades em nada, porque ela não compreende nada. Na verdade, poder-se-ia dizer dela o que se diz da caridade: Ela é paciente, nunca é temerária. Ela sofre tudo, crê em tudo, espera tudo, suporta tudo.

A superioridade tem, infelizmente e por norma geral, quase todas as qualidades opostas. É muitas vezes dura, imperiosa, insuportável (insupportante), zombadora, mesmo se desnecessário. Não é raro vê-la conseguir chocar tanto aquilo que se lhe assemelha, como aquilo que é bem diferente dela.

(...)

Conheceis, sem dúvida, a anedota de um ministro espanhol a quem o Rei tinha pedido o projecto de uma carta importante. O monarca, após tê-lo lido, tirou um outro do seu bolso, que tinha feito pessoalmente, e rasgou-o dizendo: O vosso é melhor. O ministro, ao retirrar-se, encontrou um conhecido, e disse-lhe, completamente assustado: Meu amigo, estou perdido. O meu senhor acabou de descobrir que tenho mais espírito que ele. [Joseph de Maistre, Six Paradoxes à Madame la Marquise de Nav...]

06/10/09

Impressões - IV


Van Gogh, Boulevard de Clichy (1887)

um sopro de luz
e o silêncio regressa
à margem
de onde te oiço

tão irremediável
é o passado -

os passos que deste
as ruas cobertas de poeira
o ventre rasgado
de onde nasciam
os despojos de uma vida

Amália Rodrigues - Povo que lavas no rio


Da pobreza envergonhada ao ajuste directo



O país da pobreza envergonhada. Um país europeu onde a Cáritas vai distribuir tickets restaurant de cinco, dez e quinze euros para as pessoas poderem comer sem ter de enfrentar o opróbrio da sua situação. Mas este extraordinário país é também o país do ajuste directo, nas obras públicas, certamente para agilizar a iniciativa empresarial. Seria interessante investigar como tanta agilização, como agora dizem, produz tanta vergonha, ou falta dela. Depende do lugar em que se está ou onde se caiu.

Imagem do Alvorecer.

William Carlos Williams - Proletarian Portrait



Tradução de um poema do poeta norte-americamo William Carlos Williams, Proletarian Portrait (Retrato Proletário).

A big young bareheaded woman
in an apron

Her hair slicked back standing
on the street

One stockinged foot toeing
The sidewalk

Her shoe in her hand. Looking
intently into it

She pulls out the paper insole
to find the nail

That has been hurting her

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Uma jovem e enorme mulher sem chapéu
e de avental

O cabelo liso sobre as costas
mesmo na rua

Um pé forte a pairar
sobre o passeio

Tem o sapato na mão. Olha
atentamente para ele

Puxa a palmilha de papel
para encontrar o prego

Era isso que a feria

A gestão pelo terror


A demissão do número dois da France Telecom, Louis Pierre Wenes, após o suicídio de 24 colaboradores da empresa, em dezoito meses, é uma tentiva de ocultar a natureza das coisas. Os sindicatos acusam Wenes de ter introduzido a gestão pelo terror. O problema, porém, não reside em Wenes, mas na própria natureza da economia mundial. Ela é pensada em analogia com a lei da natureza, onde só sobrevive o mais forte. Este acontecimento revela também outra coisa. Os trabalhadores europeus estiveram, durante décadas, resguardados daquilo que acontecia noutros lados. Com a abertura das fronteiras, com a expansão do comércio mundial, com a concorrência levada ao extremo, os europeus não percebem o que lhes está a acontecer. Não apenas irão ficar cada vez mais pobres, mesmo que as economias nacionais fiquem mais ricas, como os regimes de trabalho serão cada vez mais duros e prolongados. O tempo das amplas classes médias europeias chegou ao fim. Sem o contraponto dos regimes comunistas e o medo que estes geravam, a essência da economia de mercado revela-se em toda a sua natureza. Dentro desta natureza está a consideração de que os homens não são mais do que mão-de-obra, isto é, mercadoria que se compra, vende e joga no lixo, quando não é precisa.

05/10/09

Impressões - III


Paul Helleu – Autumn at Versailles (1897)

tudo se entrega
ao fulgor da queda

as folhas cansadas de estio
a luz vinda do outono

ou a música
com que orfeu matou
o amor de eurídice

A Dra. Manuela e o Prof. Marcelo



Deixem ficar a Dra. Manuela que está muito bem, é assim que Marcelo Rebelo de Sousa trata a dr.ª Ferreira Leite. Nem quis acreditar. Mas a notícia ainda acrescenta: "Eu não estou nada disponível, nem tenho que estar disponível. A Dra. Manuela vai continuar o seu mandato até ao final". É irrelevante que o Prof. Rebelo de Sousa esteja disponível ou não. O relevo vai para a forma como ele, segundo esta notícia do Público, se refere à líder do seu próprio partido, a Dra. Manuela. E não se pode pensar que o Prof. Rebelo de Sousa desconhece o sentido deste tratamento tão ao gosto popular. Ao subtrair os apelidos, desfaz, aparentando carinho e proximidade ao linguajar do povo, por completo a personagem. Poder-se-á dizer que o próprio Marcelo Rebelo de Sousa é conhecido por Prof. Marcelo. É um facto, mas também é verdade que nunca chegou a primeiro-ministro, pecisamente por não passar, já na altura, do Prof. Marcelo.