13/10/09

Joseph Maistre - Da natureza das acções humanas


Enfim, há acções desculpáveis, louváveis mesmo segundo o ponto de vista humano, e que são infinitamente criminosas. Se, por exemplo, nos dizem: Abracei do boa-fé a Revolução francesa, por um amor puro da liberdade e da minha pátria. Acreditei, na minha alma e na minha consciência, que ela conduziria à reforma dos abusos e à felicidade pública. Nada temos a apontar. Mas o olho, para quem todos os corações são diáfanos, vê a fibra culpada, descobre numa discórdia ridícula, num pequeno melindre do orgulho, numa paixão baixa ou criminosa, o primeiro motivo destas resoluções que se quereriam mostrar ilustres aos olhos dos homens. E para ele a mentira da hipocrisia enxertada sobre a traição é mais um crime [Joseph Maistre, Considérations sur la France].
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Quem viveu politicamente os conturbados anos de 1974 a 1976, quantas vezes não deparou com situações destas? Quantas vezes não vi a inveja brilhar por detrás de certas opções e compromissos políticos? Quantas vezes não vi o despeito de um protagonista ao ser preterido, na economia da vida de um partido, por outro. Mesmo se eu olhar para o meu coração, tão imaturo à época, estou longe de lá encontrar apenas candura e idealismo altruísta. A participação nas revoluções políticas, bem como na vida política em geral, não é um exercício ascético de purificação. Quem está na política não visa a glória dos altares, mas o poder. Fundamentalmente o seu poder.

12/10/09

Impressões - X


Claude Monet, Cap Martin, near Menton (1884)

as velhas árvores
são como o ombro de um anjo
reclinadas para água
deixando uma sombra pairar
na luz da madrugada

prefiro as montanhas – dizias
enquanto o olhar se perdia
na rasura da planície
e tudo caía para o poente
para a suja traição da noite

Comparar o comparável



Chegou o momento anual de excitação jornalística com os rankings de exames. Sempre defendi a publicitação dos resultados e considero os rankings um instrumento de trabalho com alguma utilidade, mesmo se comparam o incomparável. Mas o que os jornais poderiam fazer, com efectiva utilidade, era comparar, por exemplo, a evolução da lista das 50 ou 100 escolas com melhores resultados (e com um número significativo de provas), nos últimos 10 anos (haverá já rankings de tantos anos?). Poderiam mostrar como se comportam nessa lista as escolas públicas depois de tanta inovação da socióloga Rodrigues. Isso seria comparar o comparável. Seria também informativo e, porventura, edificante.

Adenda: ver no Profavaliação e no Aventar já algum tratamento nesse sentido.

O tempo das metáforas



A metáfora é o resultado da acção da imaginação produtora, como diria Kant. E imaginação é coisa que não falta ao sagaz, tão sagaz quanto o divino Ulisses, professor Rebelo de Sousa. Para falar da liderança do seu partido, para manter em alerta o espectador, tece um véu de metáforas, umas piores que outras. Há que sarar feridas há muito abertas, alvitra. Consta que também quer estancar a balcanização do partido. Mas, fundamentalmente, quer uma solução madura para o seu PSD. O problema é se as feridas já gangrenaram, ou se os grupos balcânicos possuem demasiadas armas e não sabem o que fazer com elas, ou se a solução madura estiver praticamente podre. O mal das metáforas é introduzirem um elemento de ambiguidade no discurso que permite dizer tudo e o seu contrário. Chegou o tempo do fogo-de-artifício.

O futuro autárquico de Torres Novas



António Rodrigues ganhou novamente em Torres Novas, manteve o score das últimas eleições. Por muito que as oposições não compreendam, uma vitória acima de 50% diz claramente aquilo que os eleitores querem. Mas esta vitória é o começo de uma renovação no panorama autárquico local. Rodrigues não se poderá recandidatar. À esquerda, na CDU e no BE, as soluções estão gastas. Também à direita, isto é, no PSD, o actual presidente da concelhia mostrou pouca capacidade para entrar no eleitorado. Estes quatro anos vão ser um compasso de espera, mesmo para os socialistas. Há uma oportunidade para as oposições, nomeadamente para o PSD e para a CDU, entrarem no eleitorado que tem pertencido a António Rodrigues. Precisam, porém, de perceber as novas realidades sociais do concelho. Mesmo o PS tem um grave problema, o de encontrar um sucessor credível ao actual presidente. Quatro anos são muito tempo, mas as próximas eleições autárquicas, para quem as quiser ganhar, são já amanhã. O fundamental, porém, é que os partidos compreendam que chegou a hora de uma nova geração de políticos locais. António Rodrigues quando chegou à Câmara ainda não deveria ter quarenta anos. É nessa faixa etária, gente com energia e novas ideias, que os partidos devem procurar os seus futuros candidatos.

11/10/09

Impressões - IX


Pere Ysern Alié, Esbozo del cuadro "La Bohemia" (1901)

pede-se sempre demasiado à vida
um lugar perfeito
a sombra a suavizar o sol
o amor supremo
a banhar-nos de felicidade

ela oferece-nos um banco de jardim
para vermos o tempo desvanecer-se
o infindável fluir das estações
a face dos que passam
o alívio de quem sentado espera

Do exercício da arrogância



É preciso uma dose de arrogância enorme para alguém se candidatar a um cargo público com a suposição de ser capaz de resolver os problemas da comunidade ou dos outros. A candidatura, toda a candidatura, é um exercício paranóico de arrogância. Não basta a mera auto-estima, a confiança em si. Todo o poder, sem excepção, se funda na arrogância, exprime-se através da altivez e da sobranceria, por vezes, se conveniente, através do desprezo. Aquele que luta pela conquista ou manutenção do poder não é apenas audaz, é presunçoso e, muitas vezes ou sempre, insolente. A verdadeira virtude política não passa de um repositório de qualidades para a prática do mal. Não por acaso, o poder é o lugar do mal e o poder absoluto o do mal absoluto.

Pior, porém, do que o homem de acção é aquele que escreve sobre o devir do mundo e aquilo que deve ser esse mundo e a acção dos homens nele. Se a arrogância do político é, invariavelmente, enorme, a do intelectual – do universitário ao mero escrevinhador de blogues ou de crónicas de jornal – é sem medida. Que pretensão é aquela que habita a vontade de alguém para ter a veleidade de querer dizer como é a realidade? Que pretensão é a que reside num mero ser humano, limitado às suas faculdades de animal racional, para proclamar o que deve ser? Para esse devaneio irracional, para esse supino exercício de arrogância, foi aplicado, com propriedade, o termo estultícia. Mas esta não é apenas o sintoma de uma imbecilidade, mas o sinal de uma loucura que larva no coração de alguém.

Na verdade, se aqueles que lutam pelo poder deveriam estar todos no presídio, o lugar dos intelectuais deveria ser o hospício. São todos, de uma maneira ou de outra, incuráveis e irrecuperáveis.

10/10/09

Impressões - VIII


Francis Picabia, Amanecer en la bruma, Montiguy

não sei a distância
a que fica a tua morada
nem os olhos
vêem além da bruma

quando saías
para apanhar bagas
ainda em mim
uma voz cantava

mas tudo se extingue
na imensidão da manhã
as folhas tecidas na noite
o rasto de algum animal

ou a desolação
com que despediste
o teu do meu coração

Será que Queiroz vai ganhar?



Portugal 3 - Hungria 0. O averomundo não é um especial adepto de Carlos Queiroz, mas hoje há que lhe dar os parabéns. A selecção fez o que tinha de fazer, ganhar. Ainda por cima marcou golos. Simão jogou muito bem, também Pedro Mendes e Bruno Alves. Liedson fez bem o seu papel. Portugal não foi brilhante, mas estamos todos cansados de derrotas com exibições brilhantes. Bom seria que Carlos Queiroz demonstrasse, primeiro com o apuramento e depois no Mundial, que é um treinador de equipas adultas e não apenas um condutor de jovens promessas. Será que ele vai ganhar essa aposta?

Outra vez dia de reflexão



Muito gostamos nós de reflectir. Ainda há duas semanas, faz hoje, estávamos a reflectir na magna questão de como não dar uma maioria absoluta a nenhum partido. Hoje reflectimos sobre como vamos amanhã entregar os três votos a que temos direito nas autárquicas. Esta tripla possibilidade, se o legislador fosse coerente, obrigaria a três dias de reflexão, o que implicaria o fim da campanha eleitoral na quarta-feira passada. Não teria sido pior nem mais incivilizado, e com três dias de reflexão não tardaria a brotar entre o povo português verdadeiros e autênticos filósofos, coisa que nunca houve.

O Malho, um santuário digno de peregrinação



De vez e quando fala-se por aqui, no averomundo, de algumas experiências gastronómicas. A maior parte delas, no entanto, não vêm parar aqui. Não porque sejam más, mas porque a minha memória é má. Esqueço-me. Mas há uma injustiça, uma grande injustiça, que hoje vou reparar. Numa aldeia improvável, com o nome ainda mais improvável de Malhou, há - contra todas as probabilidades - um belo restaurante. O nome também é improvável, o Malho. Restaurante e aldeia fazem parte do concelho de Alcanena, situados na estrada, não menos improvável, que liga esta vila à de Pernes, no concelho de Santarém.

Na peregrinação gastronómica desta sexta-feira, foi a este santuário que se foi orar, mais uma vez. O que deram os deuses em troca? Para além das entradas, talvez o menos interessante mas ainda assim bastante boas (calhou esta noite pataniscas de bacalhau, croquetes, fígado em vinagrete e cogumelos em azeite e alho), começou-se com uns belos filetes de corvina acompanhados com um arroz de grelos, estando os primeiros suculentíssimos, despojados da gordura dos fritos, e o arroz bem malandrinho, sápido, sem excesso de sabor a grelos, num equilíbrio entre o sabor do mar e o do campo. Depois, a viagem levou-nos a um folhado de perdiz selvagem, com o folhado crocante e recheado, para além da perdiz, com legumes, tudo numa perfeita harmonia, sem exageros retóricos nem manias nouvelle cuisine, como o exige a tradição que vem dos antigos gregos. Tudo isto acompanhado por tinto do Ribatejo (não se bebe branco por aqui e aposta-se muito nos tintos do Ribatejo), um Quinta da Alorna Reserva, o qual estava ao nível da refeição. Por fim, a sobremesa calhou ser, entre as várias hipóteses, um folhado de maçã acompanhado com gelado de nata, o qual não desmereceu da corvina ou da perdiz.

Nesta zona, refiro-me ao concelho de Torres Novas e aos que o rodeiam, como Alcanena, Tomar, Ourém, aqui incluindo Fátima, Entroncamento, Golegã, Abrantes, VN da Barquinha, Constância, Chamusca, até Alpiarça e Almeirim, não conhece este blogger melhor casa para comer do que o Malho, mesmo se se tem de penar uns minutos na estrada, ou arremedos dela, que liga Alcanena ao Malhou. Mesmo que o futuro Presidente da Câmara de Alcanena não mande arranjar a via, vale a pena o sacrifício. E quem gostar de peixe, como se gosta por aqui, no averomundo, o Malho é, apesar da lonjura do mar, um sítio a ter em conta, mais do que muitas zonas pesqueiras.

09/10/09

Impressões - VII


Clara Southern, An Old Bee Farm (1900)

há coisas que preferimos não recordar
certas palavras ouvidas
um amor recusado
as imagens do mundo que sonhámos
serem as do passado

na clareira da memória então erguemos
um muro de terra
e deixamos o vento bater
à espera que a erosão o abra
para aquilo que perdemos

Uma visão de Torres Novas



A edição semanal, em papel, do Jornal Torrejano traz, a propósito das eleições autárquicas, um conjunto de dados sócio-demográficos de Torres Novas e dos vários concelhos envolventes. Cansado, entretive-me a estabelecer uma relação entre número de eleitores e número de licenciados - vamos admitir que todos os licenciados dos concelhos são eleitores nesses mesmos concelhos. Os resultados são curiosos. Vejamos a percentagem de eleitores licenciados: Alcanena – 8,3%; Constância – 7,1%; Entroncamento – 16,9%; Golegã – 8,7%; Torres Novas – 11,9%; VN da Barquinha – 9,8%.

Quem conhece estes concelhos percebe de imediato o peso de duas coisas. Por um lado, a dimensão do concelho; por outro, a sua natureza urbana ou rural. Entroncamento, apesar de não ser o concelho com mais população, é aquele que é completamente urbano. Isso explica a grande diferença na percentagem de licenciados relativamente a Torres Novas. Talvez existam outras razões. Julgo, porém, que entre essas muitas razões há uma, quase subterrânea, que terá uma importância não irrelevante. Trata-se de o Entroncamento ter tido ensino liceal público uns anos antes de Torres Novas. Isso gerou um outro tipo de relação com o saber, relação essa que se foi transmitindo de geração em geração.

Estes dados mostram, por outro lado, a pouca capacidade de Torres Novas fixar gente com formação superior. Significa isso que o tipo de trabalho existente é ainda pouco exigente e pouco diferenciado. Também se percebe, por aí, que Torres Novas não tenha, ainda hoje, uma classe média social e culturalmente diferenciada, como se o concelho continuasse a ser uma emanação de um mundo essencialmente rural e operário. Esta é a grande desvantagem de Torres Novas. Não tem massa crítica suficiente, mesmo comparado com outros concelhos semelhantes, mas com burguesias locais mais fortes e tradicionais. Torres Novas precisa de formar os seus jovens e de os fixar, eles ou outros. Pena os partidos políticos terem mais que fazer do que pensar nestas coisas. A própria transferência da FERSANT para Santarém tem um significado que não convirá desligar daquilo que aqui se disse.

Com amigos assim...



Com amigos assim, Santana Lopes não precisa de inimigos. Carmona Rodrigues sugere que se terá confundido um telefonema pessoal e de amigo com um telefonema político. Esta visão não deixa de ser interessante. Enquanto amigo, Carmona vota em Santana Lopes, mas enquanto político não, presume-se. Como o voto é um acto político, logo... Percebe-se a ânsia de Santana Lopes. As sondagens não auguram nada de bom, e se Santana perder em Lisboa, não perde só a câmara da capital. Perde também a esperança de um futuro político. É a vida, como diria o outro.

Carmona, depois de ter dito que nao apoiava politicamente Santana, decidiu participar, como amigo, numa arruada do mesmo Santana. De facto, com tantas eleições, uma pessoa fica confusa. Esperemos que ele não venha dizer que na arruada não era ele que estava, mas apenas um holograma que lhe fugira ao controlo.

Jornal Torrejano, 9 de Outubro de 2009



Em linha encontra-se já a edição semanal do Jornal Torrejano. Clicando aqui, vai até .

08/10/09

Impressões - VI


Jaime Morera y Galicia, Aldea bretona (1884-1890)

a incúria a que tudo chegou
para quê falar
das folhas perenes
ou contar as promessas eternas
que um dia te fizeram

primeiro um leve deslizar de terras
depois o vento sopra
e no coração abre-se
uma cratera onde murcham
os lírios que plantaste

O problema do pântano



Sócrates só fala das soluções de governo após as autárquicas. Solução sensata. Imaginemos que além do Porto, o PS perde Lisboa. Foi assim, mas com uma maioria relativa bem mais confortável que a actual, que Guterres descobriu o pântano e entregou a governação a Durão Barroso. Sócrates não abandonará o governo que ainda não formou, mas terá uma força diferente caso ganhe ou perca Lisboa. Se perder, o pântano crescerá.

Joseph Maistre - Apologia do Jogo



Tudo se reduz então a este grande problema, para aquele que quer empregar os seus semelhantes em proveito próprio: Encontrar homens que o orgulho os incita a servir-me e cujo interessa não os afasta de mim. Por consequência, tudo se reduz a conhecer um grande número de homens. - Jogai então muito, para que vos vejam. Qualquer outro meio é fraco em comparação com o jogo - Para se ser da casa, nada há melhor, e a maioria das ligações vêm dele. Aliás, que coisas úteis nascem desta feliz instituição! O conhecimento inuitivo dos números não se adquire melhor em qualquer outro lado. O jogo dá sobretudo o hábito dos juízos rápidos. A ocasião é um pássaro que é preciso matar em pleno voo. Daí, diga-se de passagen, vem o embaraço do sábio que só dispara sobre um alvo parado. Para se decidir no momento, não conheço melhor mestre que o jogo, como não há melhor para formar o espírito. Aquilo que Cícero dizia da seita filosófica que tinha abraçado, «Nós seguimos as verosimilhanças!» deve ser a divisa do homem sensato para regular a sua conduta, porque a vida inteira não passa de um cálculo de probabilidades; é necessária uma precisão maravilhosa de espírito para tomar decisões muitas vezes sem reflexão. Não percebo como se chegou a atribuir à lógica o poder de rectificar o espírito. Nada é mais falso. A lógica ensina-nos a conhecer a natureza do raciocínio que fizemos, nunca nos ensina a produzi-lo [Joseph de Maistre, Six Paradoxes à Madame la Marquise de Nav...]

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Eis uma belíssima apologia do senso comum e da sagacidade nas relações práticas. O que pode espantar à nossa moralidade é o método proposto, o jogo. Mas com Maistre estamos naquele limiar em que a aristocracia e a burguesia se cruzavam na rua do poder, uns para sair outros para entrar. Ele, um aristocrata recente, apesar da sua posição contra-revolucionária, não deixava de ter sido já educado no espírito de cálculo introduzido pelo pensamento moderno. Nesta apologia do jogo, cruzam-se a sagacidade do nobre Ulisses e o cálculo daqueles que querem pôr os seus semelhantes ao seu serviço. Eis um reaccionário moderno. Mas o que é mais interessante é que Maistre, Joseph, é um grande escritor.

Uma antevisão


As preocupações da FENPROF, com os professores ou técnicos das Actividades de Enriquecimento Curricular, são justíssimas. O que se está a passar ultrapassa muitas vezes os limites da decência. Mais, o que cabe perguntar é se isto não é, ou não pode vir a ser, um balão de ensaio para o futuro laboral dos professores, uma espécie de antevisão do enorme inferno que os espera. Estas coisas nunca se fazem todas de uma vez, vão-se fazendo de forma transversal, umas vezes pela direita outras pela esquerda moderna.

07/10/09

Impressões - V


Pere Ysern Alié, Bailarinas (1920-1925)

pássaros errantes
flocos de neve
não são corpos
os corpos que vejo

será o ardil de um deus
ou a terra a erguer-se
para a madrugada?

apenas um segredo de fogo
a latir no serralho da infância

A Itália resiste



A Itália resiste. Tribunal Constitucional italiano anula lei que dava imunidade a Berlusconi. Mas qualquer coisa está muito doente por ali. Como podem os italianos tolerar que Berlusconi diga que o Tribunal Constitucional é um instrumento da esquerda? Como aceitaram uma lei que conferia ao primeiro-ministro um estatuto fundado num privilégio inaceitável numa república democrática, um estatuto que, apesar do silêncio, fazia já da Itália uma não democracia ou uma pós-democracia?

Um país de vigilantes



A cibervigilância feita pelos próprios cidadãos está a ganhar terreno no Reino Unido. Todos aqueles que queiram, a partir de casa, vigiar determinado local público (a partir das imagens recolhidas em directo por câmaras de segurança instaladas in loco) poderão ganhar cerca de mil euros por mês com esta actividade, que funciona através de um sistema de pontos. Acho sempre salutar estas notícias vindas velha Albion. A ideia da mais velha democracia, do profundo respeito pelas liberdades individuais, da crítica sobranceira aos outros países, nunca verdadeiramente cultores da democracia à inglesa, e acima de tudo a anglofilia parola que, a coberto do nosso singular liberalismo estatal, grassa por cá fazem-me sempre sorrir perante notícias como estas. É um facto que a segurança é um problema em muitos países ocidentais, mas transformar a Internet num mundo de vídeovigilância e todos os cidadãos em candidatos a polícias talvez nos  obrigue a repensar qual o verdadeiro referente para a alegoria de Orwell. A mais velha democracia está a transformar-se de civilização de comerciantes  em país de vigilantes. Não sei se isto tem a ver alguma coisa com a leitura de Sir Karl Popper.

Percepções singulares



O apoio do Dr. Carvalho da Silva, líder da CGTP, à candidatura de António Costa à Câmara de Lisboa, bem como os anteriores apoios de José Saramago e de Carlos do Carmo, não esconde a realidade. Esta realidade tem duas vertentes. Por um lado, há em muita gente à esquerda do PS, a percepção de que a candidatura de Pedro Santana Lopes e a coligação CDS-PSD são para ser levadas a sério. Por outro, estas percepções singulares, que suspeito também existirem no próprio PS, não são suficientes para comover os dirigentes das três grandes forças de esquerda para encontrarem um programa comum para a cidade de Lisboa. Toda a gente ficou a pesar a importância dos seus votos e a ponderar sobre a linha justa da esquerda. Se o Dr. Santana Lopes se tornar, dia 11 de Outubro, o novo Presidente da Câmara da capital, não se queixem. Mais, se isso acontecer terão de o suportar, depois de amanhã, na luta pela governação. Em Portugal, a memória é curta e o homem amadureceu.

Joseph Maistre - Mediocridade e superioridade



A mediocridade é muito amável, Senhora Marquesa! Ela não causa inveja a ninguém, ela nunca contradiz. Ela não vê dificuldades em nada, porque ela não compreende nada. Na verdade, poder-se-ia dizer dela o que se diz da caridade: Ela é paciente, nunca é temerária. Ela sofre tudo, crê em tudo, espera tudo, suporta tudo.

A superioridade tem, infelizmente e por norma geral, quase todas as qualidades opostas. É muitas vezes dura, imperiosa, insuportável (insupportante), zombadora, mesmo se desnecessário. Não é raro vê-la conseguir chocar tanto aquilo que se lhe assemelha, como aquilo que é bem diferente dela.

(...)

Conheceis, sem dúvida, a anedota de um ministro espanhol a quem o Rei tinha pedido o projecto de uma carta importante. O monarca, após tê-lo lido, tirou um outro do seu bolso, que tinha feito pessoalmente, e rasgou-o dizendo: O vosso é melhor. O ministro, ao retirrar-se, encontrou um conhecido, e disse-lhe, completamente assustado: Meu amigo, estou perdido. O meu senhor acabou de descobrir que tenho mais espírito que ele. [Joseph de Maistre, Six Paradoxes à Madame la Marquise de Nav...]

06/10/09

Impressões - IV


Van Gogh, Boulevard de Clichy (1887)

um sopro de luz
e o silêncio regressa
à margem
de onde te oiço

tão irremediável
é o passado -

os passos que deste
as ruas cobertas de poeira
o ventre rasgado
de onde nasciam
os despojos de uma vida

Amália Rodrigues - Povo que lavas no rio


Da pobreza envergonhada ao ajuste directo



O país da pobreza envergonhada. Um país europeu onde a Cáritas vai distribuir tickets restaurant de cinco, dez e quinze euros para as pessoas poderem comer sem ter de enfrentar o opróbrio da sua situação. Mas este extraordinário país é também o país do ajuste directo, nas obras públicas, certamente para agilizar a iniciativa empresarial. Seria interessante investigar como tanta agilização, como agora dizem, produz tanta vergonha, ou falta dela. Depende do lugar em que se está ou onde se caiu.

Imagem do Alvorecer.

William Carlos Williams - Proletarian Portrait



Tradução de um poema do poeta norte-americamo William Carlos Williams, Proletarian Portrait (Retrato Proletário).

A big young bareheaded woman
in an apron

Her hair slicked back standing
on the street

One stockinged foot toeing
The sidewalk

Her shoe in her hand. Looking
intently into it

She pulls out the paper insole
to find the nail

That has been hurting her

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Uma jovem e enorme mulher sem chapéu
e de avental

O cabelo liso sobre as costas
mesmo na rua

Um pé forte a pairar
sobre o passeio

Tem o sapato na mão. Olha
atentamente para ele

Puxa a palmilha de papel
para encontrar o prego

Era isso que a feria

A gestão pelo terror


A demissão do número dois da France Telecom, Louis Pierre Wenes, após o suicídio de 24 colaboradores da empresa, em dezoito meses, é uma tentiva de ocultar a natureza das coisas. Os sindicatos acusam Wenes de ter introduzido a gestão pelo terror. O problema, porém, não reside em Wenes, mas na própria natureza da economia mundial. Ela é pensada em analogia com a lei da natureza, onde só sobrevive o mais forte. Este acontecimento revela também outra coisa. Os trabalhadores europeus estiveram, durante décadas, resguardados daquilo que acontecia noutros lados. Com a abertura das fronteiras, com a expansão do comércio mundial, com a concorrência levada ao extremo, os europeus não percebem o que lhes está a acontecer. Não apenas irão ficar cada vez mais pobres, mesmo que as economias nacionais fiquem mais ricas, como os regimes de trabalho serão cada vez mais duros e prolongados. O tempo das amplas classes médias europeias chegou ao fim. Sem o contraponto dos regimes comunistas e o medo que estes geravam, a essência da economia de mercado revela-se em toda a sua natureza. Dentro desta natureza está a consideração de que os homens não são mais do que mão-de-obra, isto é, mercadoria que se compra, vende e joga no lixo, quando não é precisa.

05/10/09

Impressões - III


Paul Helleu – Autumn at Versailles (1897)

tudo se entrega
ao fulgor da queda

as folhas cansadas de estio
a luz vinda do outono

ou a música
com que orfeu matou
o amor de eurídice

A Dra. Manuela e o Prof. Marcelo



Deixem ficar a Dra. Manuela que está muito bem, é assim que Marcelo Rebelo de Sousa trata a dr.ª Ferreira Leite. Nem quis acreditar. Mas a notícia ainda acrescenta: "Eu não estou nada disponível, nem tenho que estar disponível. A Dra. Manuela vai continuar o seu mandato até ao final". É irrelevante que o Prof. Rebelo de Sousa esteja disponível ou não. O relevo vai para a forma como ele, segundo esta notícia do Público, se refere à líder do seu próprio partido, a Dra. Manuela. E não se pode pensar que o Prof. Rebelo de Sousa desconhece o sentido deste tratamento tão ao gosto popular. Ao subtrair os apelidos, desfaz, aparentando carinho e proximidade ao linguajar do povo, por completo a personagem. Poder-se-á dizer que o próprio Marcelo Rebelo de Sousa é conhecido por Prof. Marcelo. É um facto, mas também é verdade que nunca chegou a primeiro-ministro, pecisamente por não passar, já na altura, do Prof. Marcelo.

Educação e soberania



Hoje é dia mundial do professor. Acho lamentável a existência deste dia, não porque os professores não mereçam respeito - eu sou professor -, mas porque a sua existência significa que qualquer coisa está mal na relação entre professores e comunidades. O Público apresenta um trabalho interessante sobre a dimensão humana de uma professor exemplar. Exemplar até por aquilo que rejeita ao dizer: "Não, não quero saber que notas tiveram." Isto vai ao arrepio das teorias em vigor, mas mostra a grandeza de um professor. Ele ensina quem se apresenta à sua frente para aprender, independente da origem e do passado. Numa perspectiva menos pessoal e mais política, deixo, como participação neste dia mundial da minha profissão, os dois últimos parágrafos de um artigo, em fase de publicação, sobre o mito do Protágoras, de Platão. Defendo ali o papel da educação na soberania política. Por extensão, posso afirmar que os professores são produtores do desejo de soberania. Sem ela  - logo, sem eles -, nas sociedades modernas não haveria políticos, nem magistrados, nem polícias, nem forças armadas.

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Esta necessidade de fabricar ficcionalmente, através da educação, o desejo de viver numa comunidade política independente prende-se, por outro lado, com o desiderato da imortalidade que subjaz a cada comunidade política. O problema nasce, como sublinha Hannah Arendt, da questão da natalidade. A mutabilidade contínua da composição da comunidade política, devido à incidência dos processos demográficos, conduz à necessidade de preparar os neo-natos para a vida nessa comunidade, transmitindo-lhes um determinado currículo. Para que a comunidade seja imortal, para que ela não pereça às mãos da dissensão interna ou da incúria perante o inimigo externo, é preciso preparar as novas gerações nos valores da geração presente, a qual retém a tradição vinda do passado. Esses valores são expressos pelos termos aidôs (respeito) e dike (justiça), mas, como já se viu, Protágoras, no mito, deixa-os em aberto não lhe dando uma definição.



O mais importante será, então, olhar para a abertura semântica desses conceitos como um espaço a ser preenchido continuamente pela operatividade dos homens na vida comum. Isso não significa que esses termos sejam, para falar à maneira de Sausurre, uma espécie de significados sem significantes. A sua significância efectiva-se a cada momento da vida na cidade e ao efectivar-se tem a função reguladora dessa mesma vida, assegurando a sua indefinida renovação, a qual absorve a novidade que a renovação biológica da espécie representa. Dessa forma, e com o papel central da educação, assegura-se a continuidade da comunidade soberana. Contra os desígnios do tempo, as comunidades tecem, mediadas pela educação da razão, a teia da sua imortalidade. Esta é a resposta à derrelicção originária, ao esquecimento de Epimeteu, esse supremo e benevolente benfeitor da humanidade.

Modernidade: aceleração e destruição



A burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, por conseguinte as relações de produção, por conseguinte todas as relações sociais. A conservação, sem alterações, do antigo modo de produção era, pelo contrário, a condição primeira de existência de todas as anteriores classes industriais. O permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos distinguem a época da burguesia de todas as outras. Todas as relações fixas e enferrujadas, com o seu cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas as recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se (Obras Escolhidas de Marx e Engels, Tomo I, Edições Avante, pp. 109/10).

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Esta leitura de Marx sobre o papel social das classes empresariais modernas, a que ele dá o singular nome de burguesia, é uma radiografia – melhor, uma ecografia – da natureza da modernidade. A revolução permanente não é uma descoberta do marxismo, ou do trotskismo, mas do mundo empresarial moderno. A dissolução dos costumes e a destruição das tradições são exigências do modo de produção dito capitalistas. A burguesia, usando a nomenclatura marxiana, não é, por essência, conservadora. Pelo contrário, devido a tudo o que Marx aí explica, ela tem sempre um papel revolucionário de destruição das concepções e das representações que o homem faz da realidade. Ela, pela sua acção social, gera sempre uma espécie de terramoto epistemológico, onde se vê, lançados por terra, os antigos edifícios do saber e do representar. Esta essência revolucionária está assente em dois alicerces. O primeiro diz respeito ao tempo. A necessidade de revolução permanente do modo de produção e dos mercados gera uma percepção do tempo singular. O tempo social torna-se cada vez mais rápido e afastado da própria capacidade humana. A aceleração do tempo produtivo e de consumo torna as pessoas rapidamente obsoletas, incapazes de acompanhar os ritmos poiéticos e as próprias concepções que lhes subjazem. O segundo é o niilismo. A verdadeira natureza do desenvolvimento empresarial não reside na produção, mas na destruição. Para que novos produtos se imponham ou sejam consumidos, é necessário que os outros sejam abandonados e/ou destruídos. A capacidade produtiva é apenas um epifenómeno do niilismo presente no mundo empresarial moderno. A essência é a destruição, o reduzir à insignificância o produto ontem lançado. Aceleração do tempo e destruição contínua são, objectivamente, os produtos da modernidade. O diagnóstico de Marx está absolutamente certo, a terapia proposta é, porém, completamente inadequada, até porque não há qualquer terapia, a não ser o impossível retorno às formas de vida conservadoras e aristocráticas.

O costume e a lei



Por que é que as condenações não conseguem impedir candidaturas? - Pergunta o Público. Por uma questão de cultura do país. Não é apenas a malevolência dos políticos que está em causa. São os próprios eleitores, como se diz na peça, que elegem candidatos com processos e mesmo condenados. Isto constitui o costume. A lei, feita pelos políticos, é de tal maneira artificiosa que acaba por dar corpo ao costume, e se a lei não bastar, haverá sempre juízes que acabarão por fazer com que a interpretação da lei e os nossos ricos costumes locais coincidam. Esperar que um dia haja uma lei que seja clara e distinta e que não permita aquilo que agora acontece é esperar que deixemos de ser portugueses. Dito doutra maneira, mais vale esperar sentado.

Uma ontologia fatídica



Começa hoje a contagem decrescente para as comemorações do primeiro século da República portuguesa. O evento tem passado despercebido, fora algumas bravatas infantis dos pequenos sectores monárquicos existentes. A questão, porém, é se valeu a pena. Terá valido a pena substituir a Monarquia pela República? Terá valido a pena os quase dezasseis anos de agitação política da I República, os quarenta e oito anos de ditadura do Estado Novo, os anos do PREC e, por fim, os cerca de trinta anos de democracia rotativista? Se a Monarquia não tem caído há noventa e nove anos, o país teria caminhado de maneira diferente e melhor? Não teria sido derrubada pouco depois? Conjecturas que nunca poderão ser confirmadas nem refutadas. Aquilo que se sabe, contudo, do liberalismo monárquico, do rotativismo entre progressistas e regeneradores, da forma como os políticos, acolitados pelos reis, distribuíam entre os seus cargos e prebendas, não augurava nada de bom para o Reino de Portugal. Há uma espécie de ontologia fatídica que nos prende à nossa maneira de ser, independentemente do regime. Se essa não for alterada, e nada garante que o seja, República ou Monarquia é indiferente. A coisa funcionará sempre mal.

Adenda: o Presidente da República apelou hoje, como lhe competia, para a união em torno dos "grandes ideais republicanos". Mas como iremos nós deixar de ser aquilo que somos?

04/10/09

Impressões - II

James Ensor, Bathing Hut (1876)

não tragas a ferida
para junto do mar

cobre as pústulas
de erva e sal
e esconde a dor
nos favos do horizonte

água não há
que lave
tamanha agonia

O fim da aparência sagrada



Por causa desta notícia do Público, sobre os médicos cubanos a exercer em Portugal, e do nosso post O destino dos médicos, não é descabido citar Marx, o Marx do Manifesto do Partido Comunista (Obras Escolhidas de Marx e Engels, Tomo I, Edições Avante, pp. 109). Não há nada como voltar aos clássicos. Então oiçamo-lo...

«[A burguesia] Resolveu a dignidade pessoal no valor da troca, e no lugar de um sem-número de liberdades legítimas e estatuídas colocou a liberdade única, sem escrúpulos, do comércio. Numa palavra, no lugar da exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas, colocou a exploração seca, directa, despudorada, aberta.

A burguesia despiu todas as actividades até aqui veneráveis e estimadas com piedosa reverência da sua aparência sagrada. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela.»

As coisas são o que são. Ler Marx não faz mal a ninguém, mesmo aos não marxistas, como é o caso do autor deste blogue. É sempre um choque com a realidade. E a realidade é sempre chocante, como se irá começar a perceber, entre as classes médias, em breve. Não deixa, porém, de ser simbólico que o processo de proletarização dos médicos em Portugal ganhe incremento - ele já começou há mais tempo - com pessoas vindas de um país cuja elite política é cultora de Marx.

Emily Dickinson - 739



Tradução de outro poema de Emily Dickinson, o 739.

I many times thought Peace had come
When Peace was far away –
As Wrecked Men – deem they sight the Land –
At the Centre of the Sea –

And struggle slacker – but to prove
As hopelessly as I –
How many the fictious Shores –
Before the Harbor be –

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Pensei tantas vezes a Paz virá
Estando a Paz tão distante –
Como Náufragos – imaginam avistar a Terra –
No Meio do Mar –

E lutam impotentes – para revelar
Tão sem ânimo quanto eu –
Todos os Litorais fictícios –
Que antes do Porto há –

Mercedes Sosa, Gracias a la Vida



O Público noticia a morte de La Negra, a conhecida cantora folk Mercedes Sosa. Juntamente com os Parra (Violeta, Isabel, Angél), Vítor Jara e Atahualpa Yupanki, formava um grupo de vozes latino-americanas que marcou o imaginário da esquerda em todo o mundo. Em tempos onde o ideário que foi o de Sosa entrou em refluxo, mesmo que ele seja irrecuperável, como tudo o que tem o seu tempo histórico, convém não esquecer a realidade, a triste e pesada realidade, que lhe deu origem e o sustentou durante décadas, a opressão e as escandalosas desigualdades sociais da América Latina. E continuar a ouvir a poderosa voz de Mercedes Sosa.

O destino dos médicos



Os médicos portugueses estão chocados com as condições de quase escravatura dos seus colegas cubanos a exercer no sul do nosso país. Para além de razões puramente humanitárias, têm razões pessoais. Este é o destino que se prepara para a classe em Portugal, como já acontece noutros lados. Depois dos professores, chegou a vez da proletarização dos médicos. Vai ser mais insidiosa, levará mais tempo, mas far-se-á através das inelutáveis leis do mercado. A ideia central subjacente a tudo isto é a contínua concentração do dinheiro nas mãos de alguns e a destruição desse cancro europeu que são as classes médias. Os proletários de hoje já não são as pessoas que trabalham na ferrugem, nos teares, na construção civil. Os proletários têm cursos superiores, mestrados e doutoramentos.

03/10/09

Impressões - I

Camille Pissarro, A Square at La Roche-Guyon (1867)

o rasto de areia
na silhueta da tarde

um grito de carvão
assoma à porta
suspira
vê o sol declinar

a noite virá
cobrir de sombras
os vultos perdidos
à luz solar


A rejeição


Terá o PSD percebido por que motivo perdeu as eleições? O pior que lhe pode acontecer é pensar que a acção de Cavaco, no caso das putativas escutas, ou a idade e pouco capacidade comunicativa da dr.ª Ferreira Leite são explicações suficientes para o facto do PSD não ter conseguido tirar provento do descontentamento com o governo de Sócrates. A verdadeira razão, aquela que é mais substancial, reside no facto de as pessoas terem medo do PSD. Medo de quê? De certa maneira, daquilo que poderíamos chamar programa oculto. Mesmo que isso seja ilusório, o eleitorado desconfia que o PSD, mal se apanhe no poder, irá destruir, sob o nome do défice, da eficácia e da iniciativa privada, o pouco que os portugueses têm do Estado social, a Saúde e a Educação. O PSD prometeu menos Estado. Tirando alguns liberais - muitos dos quais vivem desse mesmo Estado -, os portugueses desconfiam que esse menos Estado significará que muitos serviços públicos sofríveis irão parar à voragem daqueles nossos empresários habituados a viver destas iniciativas políticas, que lhes permitem bons lucros a troco de risco quase nulo e de serviços que passam de sofríveis a maus. Foi isto que afastou os portugueses do PSD. Se a direita e o PSD querem voltar ao poder, terão de deixar de assustar as pessoas. A liberalização da saúde e da educação, seja qual for a forma que tome, não tem de ser obrigatoriamente o programa da direita. Pelo contrário, há um espaço enorme a ser preenchido aí, nomeadamente na luta contra os maus serviços que se prestam, o combate às políticas de facilidade na educação ou de pouca atenção aos doentes na saúde. As pessoas percebem isso e estão dispostas a votar nisso. O que não estão dispostas é a embarcar em novas aventuras privatizadoras. Esta foi a causa da rejeição do PSD. Partido que, rejeitado pelo eleitorado e talvez pouco iluminado pela razão, pensa já em apresentar uma moção de rejeição do programa do governo. Portanto, parece que tudo aponta para fazer de Sócrates uma vítima. Ele não se fará rogado.

Um suspiro de alívio


Não foi Bruxelas nem o dr. Barroso que suspiraram de alívio com a vitória do sim na Irlanda (ver aqui ou aqui o resultado final). Foram os irlandeses. Perante a possibilidade de terem de repetir o referendo até ele dar os resultados pretendidos, um cansaço inútil, os irlandeses respiraram aliviados, ao fazerem a vontade dos tratadistas de Lisboa. Descobriram nos últimos tempos que a democracia só vale quando os resultados são os esperados pela nomenclatura europeia. Depois, as aves de rapina habituais entoam os seus cantos agoirentos sobre a precária democraticidade da União, o desinteresse dos cidadãos, o sentimento de egoísmo dos povos, etc. A democracia é uma coisa excelente, pena é o povo poder votar.

E o refugiado?


Esta hipótese é mais aceitável para os sectores socratistas que a de Manuel Alegre, mas é pouco convincente. Gama, mesmo com um Cavaco ferido ou um outro candidato de direita, tem muitas possibilidades de perder. Mas para além de Gama, e se Cavaco não recuperar dos efeitos da sua conduta no caso das escutas, António Guterres será um nome mais apetecível e com mais capacidade de atracção. É natural que ele comece a sentir-se demasiado refugiado na missão dos refugiados. Improvável é um apoio do PS, nestas circunstâncias, a Manuel Alegre. O desastre de Cavaco é também o desastre de Alegre.

02/10/09

A força do Brasil


Esta atribuição do Jogos Olímpicos de 2016 ao Rio de Janeiro é sintomática do imenso poder do Brasil. Nem a insegurança crónica da cidade, nem a falta de infra-estruturas, nem o facto do Brasil organizar em 2014 o Mundial de Futebol, nada disso foi suficiente para desviar o evento para Madrid. Os brasileiros comemoram o facto cheios de orgulho patriótico. O que é curioso no meio de tudo isto é que, enquanto entre os europeus grassa a retórica contra o Estado-Nação, as potências emergentes não dispensam o orgulho nacional e muito menos o Estado-Nação. Um dia os europeus terão de se interrogar se as construções teóricas que visam decretar o fim do Estado-Nação não terão sido armas para desestruturar o próprio poderio europeu. Olhemos para as potência emergentes. China, Rússia, Índia, Brasil. Quem ali está interessado em destruir o Estado-Nação?

Estou deprimido

Estou deprimido! Por causa desta notícia do Público sobre a nossa tetravó Ardi. A depressão não é por ter enriquecido o álbum de família, nem por esta nossa antepassada ser peluda, todos sabemos que naqueles tempos não havia tempo para ir a depiladora. Mais macaca peluda menos macaco, a família já não pode ficar mais descomposta do que está. O que me deprime é isto: Pensava-se, por exemplo, que o antepassado comum aos homens e aos chimpanzés teria sido um ágil trepador, conseguindo pendurar-se nos ramos das árvores, baloiçar-se e saltar de árvore em árvore tal como os chimpanzés de hoje. E também que, tal como eles, caminhava apoiado nos nós dos dedos das mãos. Mas não foi nada disso que os investigadores descobriram ao examinarem Ardi. Como explica ainda o comunicado acima referido, quando se encontravam no chão, os hominídeos de Ardipithecus caminhavam erguidos, apoiados nas suas duas pernas (isto é sugerido pela anatomia dos pés). Uma outra ideia estabelecida pode, aliás, estar em causa aqui: a que supõe que o bipedismo dos hominídeos nasceu quando eles se lançaram para espaços mais abertos, para a savana e não quando ainda viviam na floresta. Os Ardipithecus eram “bípedes facultativos”, dizem os investigadores. Quer dizer que os antepassados comuns a nós e aos grandes primatas eram mais parecidos connosco do que com eles? Quer dizer que eles mudaram mais do que nós? Quer dizer que nada garante que, num futuro mais ou menos longínquo, os nossos netos não sejam uma espécie de grandes orangotangos? Uma pessoa deprime-se, não é?

Paul Verlaine - Agnus Dei

Paul Verlaine (1844 - 1896)


Um poema, e respectiva tradução, do simbolista francês Paul Verlaine, Agnus Dei.

L'agneau cherche l'amère bruyère,
C'est le sel et non le sucre qu'il préfère,
Son pas fait le bruit d'une averse sur la poussière.

Quand il veut un but, rien ne l'arrête,
Brusque, il fonce avec de grands coups de sa tête,
Puis il bêle vers sa mère accourue inquiète...

Agneau de Dieu, qui sauves les hommes,
Agneau de Dieu, qui nous comptes et nous nommes,
Agneau de Dieu, vois, prends pitié de ce que nous sommes.

Donne-nous la paix et non la guerre,
Ô l'agneau terrible en ta juste colère.
Ô toi, seul Agneau, Dieu le seul fils de Dieu le Père.

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O cordeiro procura a amarga esteva,
É sal e não açúcar o que prefere
O seu passo soa como chuva sobre poeira.

Quando quer um fim, nada o pára,
Brusco, avança, golpeando com a cabeça,
Depois bale para a mãe que inquieta acorreu...

Cordeiro de Deus, que salvas os homens,
Cordeiro de Deus, que os contas e nomeias,
Cordeiro de Deus, vê, tem piedade do que somos.

Dá-nos paz e não guerra,
Ó cordeiro terrível em tua justa cólera,
Ó tu, único Cordeiro, Deus, o único filho de Deus Pai.

Conflito das interpretações


No Portugal dos Pequeninos, João Gonçalves escreve isto: Quando se candidatou, Cavaco disse que, perante a mesma informação, era perfeitamente natural que duas pessoas diferentes pudessem convergir. A informação era - é - o país, a sua situação, à luz do que está a acontecer, o seu empobrecimento diário. Este é o grande problema. Cavaco ao dizer o que disse estava a desvirtuar a realidade, e muito provavelmente sabia-o. Perante a mesma informação o que existe é uma diversidade de leituras. É esta a essência da democracia. O que Cavaco fez, ao dizer o que disse na altura, foi uma tentativa de condicionar o adversário, Sócrates. Só há uma informação, essa informação só tem uma leitura, o leitor por excelência sou eu, Cavaco, o outro, Sócrates, se quiser ler bem, terá de ler como eu. Foi assim que Cavaco, ao longo da sua carreira política, foi afastando adversários do caminho. Mas isto é, ao mesmo tempo, uma falsificação da realidade e uma boa jogada política. Serviu-se da sua autoridade para limitar o poder de Sócrates. Este, enquanto não se pôde libertar do abraço, foi dizendo que sim, até dar o grito do Ipiranga. Aqui não há heróis nem vilões. Cada um joga com as armas que tem. O que acho reprovável é a estratégia de tentar fazer passar alguns pelos maus da fita absolutos, enquanto se incensa outros, como se fossem a encarnação do Senhor. Lamentavelmente, não são. Perante a mesma informação, o natural é não haver convergência, mas conflito de interpretações. A hermenêutica explica isso, e não serve apenas para exegese biblíca ou para a leitura dos filósofos.

Cooperação institucional - II


Estariam os jornalistas à espera que os protagonistas, Sócrates e Cavaco, dissessem outra coisa? Cada um, depois da fase mais intensa do jogo, devido ao magno problema das escutas (não é ironia, porque há ali, seja o que for que haja, qualquer coisa muito desagradável), volta àquele estado em que o silêncio ajuda a compreender não apenas como as peças estão distribuídas no tabuleiro, mas também o desenvolvimento possível dos lances futuros. As interpretações das partes são diferentes. Sócrates acha que ganhou um Bispo. Cavaco, porém, estará convencido de que apenas sacrificou o Bispo para evitar perder a Dama ou para alcançar ganhos em próximos lances. Armados destas interpretações, os jogadores concentram-se nas jogadas a vir, um pensando como recuperar e o outro como solidificar a vantagem. E os interesses do país? Esses são como o tabuleiro do Xadrez, sem ele não há jogo, embora ninguém jogue por amor ao tabuleiro.

Jornal Torrejano, 2 de Outubro de 2009

On-line está a edição semanal do Jornal Torrejano. É só clicar aqui.

01/10/09

Fortuna


A política é, por muito que isso magoe as boas pessoas, um jogo. E o jogadores deverão saber cultuar a deusa Fortuna, para que a cornucópia da abundância se derrame sobre eles. Como interpretar, porém, quando um jogador falha o kayros, o tempo certo do acontecer? Por exemplo, se esta notícia sobre o crescimento económico tivesse chegado uns dias antes, ou esta sobre o desemprego, ou esta fragilidade presidencial se tivesse revelado, em todo o esplendor, há uma semana atrás, a sorte de Sócrates seria a mesma? Não estaria o país confrontado com uma nova maioria absoluta do PS? Quando o jogador não acerta com o tempo, com o momento certo, é porque a deusa o quis castigar. Assim foi com Sócrates. Primeiro, a Fortuna castigou-o, agora, que está em situação difícil, parece querer estender-lhe a cornucópia. Nada pior para um mortal, porém, que pensar que os bons acontecimentos são mérito seu. Não são. Apenas os deuses e os ventos estiveram de feição. Eles, ventos e deuses, são inconstantes, sopram onde querem. A técnica, política neste caso, é necessária mas não suficiente. A Fortuna tem sempre a sua palavra. Mas poderá um engenheiro perceber isto?

O problema da verdade


Rasputine

Uma mulher confessou que, a primeira vez que fez amor com ele, teve um orgasmo tão violento que desmaiou. Talvez a sua potência como amante também tenha uma explicação física. O assassino de Rasputine e alegado amante homossexual, Felix Yusupov, declarava que as suas façanhas se explicavam por uma grande verruga situada estrategicamente no pénis, que tinha um tamanho excepcional. Por outro lado, há provas para sugerir que Rasputine era de facto impotente e que, apesar de se ter deitado com muitas mulheres, teve sexo com muito poucas. Em resumo, era um grande devasso mas não um grande amante. Quando Rasputine foi submetido a exames médicos, após ter sido apunhalado, numa tentativa de assassinato em 1914, descobriu-se que os seus genitais eram tão pequenos e enrugados, que o médico duvidou que ele fosse mesmo capaz do acto sexual. O próprio Rasputine vangloriava-se, noutra altura, ao monge Iliodoro, de poder deitar-se com mulheres sem sentir paixão, pois o seu ‘pénis não funcionava’. [Orlando Figes (1997). A People Tragedy. London: Pimlico, pp. 32]