25/10/09

Impressões - XXI


Alfred Sisley, Dia de Viento en Veno (1882)

ardia o vento na coroa da tarde
mão presa na mão
sem pressa de liberdade
sem angústia por tal prisão

como folhas
os dedos tremiam
a humidade os acolhia

os campos podiam ceder
à luz da eternidade
as cidades arder
ao compasso da pulsação
mas o vento haveria de atear
o sangue que corria
do teu para o meu coração

Uma viagem no Barroco - 13 Franz Tunder - O Jesu dulcissime (1614 - 1667)


Franz Tunder - O Jesu dulcissime - MacLeod

Franz Tunder (1614 – November 5, 1667) was a German composer and organist of the early to middle Baroque era. He was an important link between the early German Baroque style which was based on Venetian models, and the later Baroque style which culminated in the music of J.S. Bach; in addition he was formative in the development of the chorale cantata.

Along with Heinrich Scheidemann and Matthias Weckmann, Tunder was one of the most important members of the North German organ school; however, few of his works are preserved. His surviving output suggests a marked preference for the chorale fantasia style, though he is also known for chorale versets, such as his setting of Jesus Christus unser Heiland, notable in particular for the opening pedal flourish (probably the earliest surviving example of an opening pedal solo in an organ work), a technique that was to be more fully exploited by Dietrich Buxtehude.

Notas da Wikipedia.

Gatos e vírus



Talvez o gato de Schrödinger, aquele que estaria ao mesmo tempo vivo e morto, possa ser substituído por um vírus. Não parece ser grande a promoção, coisa de cientistas espanhóis do Instituto Max Planck. Trata-se de uma experiência em mecânica quântica que pretende testar a sobreposição de estados, não com um pobre bichano, mas com um diabólico vírus. Mesmo para um ignorante da Mecânica Quântica, como este blogger, o artigo do Público é um prazer para a imaginação. Veja-se o debate entre os adeptos da escola de Copenhaga (Bohr e Heisenberg) e Schrödinger, isto para não falar da many-worlds interpretation, de Everett . Penso muitas vezes que se fosse hoje não teria feito Filosofia mas Física. Com a morte da religião e o envelhecimento da Filosofia, resta apenas a Física como a casa grande onde a imaginação pode encontrar um terreno fértil para os seus devaneios. Não se pense que estou a ironizar. A imaginação é o alicerce da razão. Talvez o acesso aos fundamentos da realidade necessite tanto, ou mais, da faculdade da imaginação como da do entendimento ou razão. E depois há qualquer coisa de literário em tudo isto, o que talvez nos obrigue a pensar nos limites das definições dos géneros literários. Não será a ciência ainda uma forma de literatura? A gesta do gato de Schrödinger, não deixaria de ser um belo título.

Um padre explosivo


Um padre septuagenário (curiosa forma de identificação) figura entre os quatro detidos pela GNR, no concelho de Boticas, por posse ilegal de armas, munições e explosivos. Pode haver várias explicações para o acontecido, para além daquela que nos diz que o senhor padre é inocente, presumido ou efectivo. Por exemplo, o padre, já septuagenário, poderia confundir armas de fogo com material pirotécnico para alegrar a festa na paróquia. Poderia, também, estar com medo e possuir armas para auto-defesa. Mais do que um crime, será então um pecado, a incapacidade de dar a outra face. Também se pode considerar, até pelo furor desencadeado por José Saramago, que haverá padres geneticamente descendentes de Abel e outros de Caim. Quem sabe se esta não será a melhor explicação?

24/10/09

Impressões - XX


Edgar Degas, Paisaje

nem animais embalsamados há
nesta paisagem tragada pelo ocre

se uma súbita voragem abria o coração
à lonjura do horizonte
os olhos perdiam-se no segredo
daquilo que lhes está mais próximo

não vale a pena trazer na face
o símbolo do infinito

as mãos pedem o limite de um corpo
a avara certeza da carne
mesmo morta
mesmo embalsamada

O caso Freeport e o fim do romancista



O notável no caso Freeport não é a longa demora do processo. Não é dos mais morosos na Justiça portuguesa. O que merece admiração, talvez louvor, é a narrativa que o suporta. Se observarmos um romance, ele tem, por norma, um autor. Este cria o narrador que conta a história, compondo as acções e os pensamentos das personagens. A composição é a arte suprema da narrativa romanesca. De certa maneira, um romance é uma coisa simples. Basta criar um bom narrador. Dependerá deste, passe a ironia, a qualidade da narrativa, fundada na arte da composição. No caso Freeport, não há autor. Não havendo autor, não há narrador. Mas apesar disso, existe narrativa, a qual possui uma intriga notável, onde as peripécias se sucedem como se tivessem sido criadas por um autêntico romancista, peripécias essas que vão atando o nó, sem que o leitor desprevenido consiga, apesar das revelações, antecipar qual vai ser o desenlace. Esta narrativa é a consumação da modernidade romanesca, pois cada personagem compõe autonomamente parte da história. Imprensa, Ministério Público, Polícia Judicária, arguidos, etc. vão propondo textos que acabam por se compor entre si e por si mesmos, de forma a que o nó seja cada vez mais cerrado e a narrativa possa prosseguir, como nas telenovelas ou nos antigos romances publicados em folhetins nos jornais. O caso Freeport é uma prova a favor do fim dos romancistas, mas não do romance. Hoje em dia, para haver um belo romance não é preciso autor, bastam as personagens. A narrativa escreve-se por si mesma. E no entanto, apesar do carácter admirável da ficção, todos temos a sensação, quiçá errónea, de que um processo judicial deveria obedecer a outro género literário que não o romance, mesmo que este seja auto-poiético.

23/10/09

Impressões - XIX


Benvenuto Benvenuti, I Cardi (1897)

queria para aquela deserto fugir
trocar o cheiro das frésias
pelo ardor do cardo
e esperar que um deus viesse
no naufrágio da tarde

mas a cidade tinha uma mão de aço
e um ogre em de cada porta
prendia o fugitivo na luz
das praças com que sonhara
na longínqua infância

Jornal Torrejano, 23 de Outubro de 2009



On-line está a edição semanal do Jornal Torrejano, aqui.

Italo Calvino - Os clássicos e a actualidade



O ideal talvez seja sentir o rumor que entra pela janela, que nos avisa dos engarrafamentos do trânsito e dos saltos meteorológicos, enquanto acompanhamos o discurso dos clássicos que soa clara e articulado no nosso gabinete. Mas também já é muito se para a maioria a presença dos clássicos se sentir como um ribombar longínquo fora do gabinete invadido pela actualidade como se fosse uma televisão a todo o volume. Acrescentemos portanto:

14. É clássico o que tiver tendência para relegar a actualidade para a categoria de ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não puder passar sem esse ruído.

15. É clássico o que persistir como ruído de fundo mesmo onde dominar a actualidade mais incompatível. [Italo Calvino (2009). Porquê Ler os Clássicos? Lisboa: Teorema, pp. 12]

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Eu diria ainda outra coisa. É clássico aquilo que nos permite ler o ruído da actualidade como ruído e como actualidade, que nos permite perceber que a cacofonia não é mais do que isso, que deixa ver o instante que impera no actual contra a sombra de eternidade que se desprende dos clássicos. Mas os clássicos ainda permitem outra coisa. Permitem vislumbrar aquelas obras que, sendo fruto da actualidade, trazem uma marca genética que as liga aos clássicos, e que assim têm todas as condições de filiação para se tornarem também eles parte da família, mesmo que aparentemente sejam filhos rebeldes. Tornar-se-ão filhos pródigos.

A diferença



Quando o primeiro governo Sócrates tomou posse havia uma grande expectativa. Os desafios eram, como hoje o são, grandes, mas também era grande a esperança que da esquerda viesse alguma coisa interessante. Todos sabemos o que se passou, independentemente das interpretações que se façam. Perante o novo governo há uma atitude diferente. Ninguém espera nada. O problema nem reside no facto de não ter maioria absoluta, mas no de toda a gente conhecer Sócrates e o núcleo duro governamental. As novidades não passam disso mesmo, novidades, amanhã estarão tão velhas como as não novidades. As únicas boas notícias são as que se referem à não recondução de certas personagens. Nem vale a pena dizer quais.

22/10/09

Benfica e Governo, num só dia



Consta que já temos governo. Uma espécie de evolução na continuidade, para falar à maneira de Marcello Caetano. Na Educação, confirma-se Isabel Alçada (licenciada em Filosofia, mas passou por Boston, péssimo sintoma). Teria preferido a Enid Blyton, mas não estava disponível. Azar de Jose Sócrates. Mas coisa séria mesmo é o triunfo do Benfica sobre o Everton. Confesso que cada vez compreendo menos a má disposição de Saramago contra a Bíblia. Não fora Jesus, e onde estaria o glorioso? Que ao menos ele continue a dar alegrias ao povo, pois do governo nada de bom se pode esperar.

21/10/09

Impressões - XVIII


Paul Cezanne, View of Auvers-sur-Oise (1873)

nada se prende ao olhar
ali nesse lugar tragado pela cor
sítio desmemoriado que arde
no lume do amanhecer

o desejo mais delicado
seria ainda um excesso

apenas o sopro do ar
basta para rasgar o coração
e semear de vísceras os campos
onde involuntário
pastoreio a minha solidão

O que se esconde no desemprego



O Público anuncia que a Delphi da Guarda vai despedir 500 trabalhadores (ver também aqui). Há no ficar sem trabalho qualquer coisa muito obscura. Não me estou a referir aqui à hipotética malevolência das classes exploradoras do trabalho de outrem, nem àqueles que deliberadamente querem ficar sem trabalho. Falo antes de uma experiência ontológica radical que se dá nesse acontecimento. É essa experiência que dinamiza as múltiplas atitudes políticas que são geradas em torno do desemprego. De certa maneira, um despedimento é uma espécie de condenação à morte. Esta condenação nem vem obrigatoriamente da entidade empregadora. É como se uma dada colónia de animais deparasse, de um momento para o outro, com o esgotamento das reservas alimentares do ambiente onde vive. Uma empresa deixar de ter mercado, sejam quais forem os motivos, é como o esgotamento das reservas alimentares de uma dada colónia animal. Esta condenação à morte proferida pelo mercado é, desta maneira, pensável em analogia com aquilo que acontece na natureza. Sendo assim, porém, ela abre um estranho "direito natural" àquele que é vítima de despedimento, um direito de lutar de qualquer maneira pela sua sobrevivência e a dos seus. Um despedimento suspende, do ponto de vista moral, a ordem cultural e com ela a ordem jurídica. Um despedimento que condena as pessoas ao não trabalho reinscreve as relações humanas na ordem da natureza, na ordem da luta pela sobrevivência, na guerra de todos contra todos. É por isto que a tentativa de certos sectores liberais de reduzir a sociedade ao mercado é dissolvente e perigosa. Os mecanismos do estado social, nomeadamente os da protecção no desemprego, mas não só, são fundamentais para evitar o retorno ao estado de natureza. Têm a função política de assegurar a ordem. O estado social ou o estado providência não nasceram de considerações de ordem moral, não nasceram da bondade do coração humano ou de uma utopia socialista. Nasceram do medo, nasceram como forma de evitar a guerra de todos contra todos. É a ameaça dessa guerra que devemos descortinar cada vez que se noticia este tipo de despedimento colectivo.

Isabel Alçada, com papas e bolos...



Nas especulações sobre o futuro governo feitas pelo i, o nome de Isabel Alçada é dado com certo na Educação. Aqueles que se interessam pelas questões educativas apenas se devem preocupar se o futuro ministo, seja ele quem for, vem para manter e continuar o trabalho de destruição da escola pública incrementado por Lurdes Rodrigues, ou se vem para tentar pôr cobro ao descalabro que dura há quase cinco anos. Se a pessoa é simpática e bonita, ou se escreve livros para criancinhas, ou se faz o pino às três da tarde, tudo isso é irrelevante. Vai continuar o predomínio do eduquês nas orientações da educação? Vai continuar a vigorar uma visão burocrática da escola em vez de uma visão de escola como centro de saber? O Estatuto do Aluno vai ser mantido como está? O Estatuto da Carreira Docente e a divisão da carreira em duas, bem como o modelo de avaliação de professores são para manter? O modelo de gestão, que submete o ensino e os professores, aos obscuros desígnios da "comunidade" local é para continuar? Aqui estão as matérias que interessam, o resto são papas e bolos para enganar tolos.

Senhor do destino


Manhã destinada a leituras várias. Estou há quase uma hora a ser bombardeado pelo legítimo desejo de um vizinho destruir e reconstruir a sua casa. Um bombardeamento contínuo de marteladas cai sobre mim, imobiliza-me, macera-me a cabeça, frita-me o cérebro em azeite bem quente. Parece que estou a trabalhar há 20 horas. Durante uns segundos o bombardeamento parou, mas retornou logo. Tento perceber o ritmo, perscrutar a variação da intensidade, encontrar um qualquer sinal que me anuncie o fim do tormento. Nada. Aquela ideia de que os homens são senhores do destino faz-me sorrir. Uma manhã já perdida, e ainda não são dez horas, e uma dor de cabeça ganha.

20/10/09

Impressões - XVII


Camille Pissarro, The Road to Louveciennes (1872)

de súbito entardeceu
ou talvez o sol se tivesse cansado
ou os meus olhos só vejam sombras
na vastidão da estrada

nada naquelas casas anuncia um futuro
apenas a erva rasa desenha
a luz que descobre
na escura mancha da tarde
um vestígio de humanidade

Não esquecer



Vi há pouco esta fotografia no Público e pensei que há coisas que um professor não deve esquecer. Não me estou a referir apenas aos desmandos de Lurdes Rodrigues na educação. A cobertura política que Cavaco Silva sempre deu às medidas que desfizeram a escola pública portuguesa também não deve ser esquecida.

Cláudio Magris - O rio e a identidade



Desde Heraclito, o rio é por excelência a figura que interroga a identidade, com a velha pergunta sobre se podemos ou não banhar-nos duas vezes nas suas águas, e Descartes, com o seu célebre pedaço de cera, começou a pensar por ideias claras e distintas sobre o rio, sobre o Danúbio, em Neuburg, a 10 de Novembro de 1619, na sua casa aquecida para o Inverno graças à munificência do Duque da Baviera.

19/10/09

Impressões - XVI


Edouard Manet, La Maison de Rueil (1882)

sonhava a casa como um navio
balançando em alto-mar
e nela o lume cantava
como ondas
sob a luz do temporal

das janelas vêm suspiros
o amor furtivo anuncia o dia
entre lençóis de linho
e a dor que se desprende
de uma ave ao cantar

Convicções



O meu problema não é a ausência de convicções. Eu tenho múltiplas e diferenciadas convicções, arrasto-as comigo, durmo com elas, passeio-as pela rua, chego a jantar com elas. O meu problema é diferente. Reside no simples facto de não acreditar em nenhuma das minhas convicções. Mas isso não é o pior. O pior é que eu não acredito mesmo em poder acreditar nessas convicções. Há um livro de Paul Ricoeur que me fascina desde que saiu, em 1995. Resultou de longas conversas com François Azouvi e Marc De Launay. O que me fascina não é o seu conteúdo, mas o título e aquilo que ele pressupõe. O livro chama-se A Crítica e a Convicção. O pressuposto é que o exercício crítico da Filosofia acaba por depurar as convicções, tornando o convicto mais convicto das suas convicções. O meu fascínio reside no simples facto de nenhuma convicção que eu possa ter resiste ao exercício da crítica. A crítica dissolve todas as convicções, todas as crenças, tudo aquilo que tomamos por verdadeiro. Por isso protesto pela dissolução niilista da verdade, protesto contra o relativismo. Mas não creio sequer no meu protesto, não passa de um gesto inútil.