19/10/09

Leituras superficiais



A Igreja Católica tem uma funda sabedoria dada por dois mil anos de existência, mas os judeus são muito mais antigos e, por isso mesmo, mais sábios. Veja-se, por exemplo, o que o rabino Eliezer di Martino, responsável pela comunidade judaica de Lisboa, disse sobre o livro de Saramgo. José Saramago “não conhece a Bíblia nem a sua exegese”, fazendo “leituras superficiais das narrativas da Bíblia”. Eliezer di Martino recolocou a discussão no seu devido lugar. Depois, como resposta à afirmação de Saramago de que «o livro possa incomodar os judeus, mas isso pouco me importa», disse que «continuamos (os judeus) a existir e a acreditar naquele livro [Bíblia] desde há milhares de anos, embora tenhamos ataques e perseguições precisamente por acreditarmos». E encerrou qualquer tipo de polémica com o escritor.

Será a sorte grande?



Bósnia-Herzegovina. Talvez tenha saído a sorte grande a Carlos Queiroz. Esperemos bem que sim. Uma fase final sem Portugal seria desagradável. De certa maneira, habituámo-nos, nos últimos tempos, à presença da selecção Portuguesa nesse género de eventos. Façamos figas para que não haja surpresas, daquelas que tantas vezes nos acontecem, e não sejamos vítimas de algum desvario balcânico. O terreno é fértil em armadilhas.

18/10/09

Impressões - XV


Francis Picabia, Saint-Tropez, vista de la Citadelle (1909)

o passado é sempre tão perfeito
traz uma luz consumada
e em cada figura repousa
um lastro de tempo
entre erva queimada

mas não há sombra nem água
ou vida desmedida
apenas o sussurro de algum fantasma
nos desperta para aquilo
que já foi vida

Coimbra fantasmática


Hoje estive mais uma vez em Coimbra. Sentei-me numa esplanada da Visconde da Luz para tomar café, deambulei por ruas e ruelas, espantei-me, de novo, pela visceral beleza de tudo aquilo. Almocei junto ao rio, num belo espaço, bem cuidado, nas margens do Mondego, postas à disposição de conimbricenses e de forasteiros. Vi a recuperação de imensas casas na cidade antiga, tudo com bom gosto, equilíbrio, sem rupturas na harmonia do povoado. Mas, apesar de tudo isto, a cidade parecia um paraíso de fantasmas. O comércio fechado, por ser domingo, afastou as gentes dali. O pior é, todavia, a ausência de turistas, de gente vinda do estrangeiro para se perder por aquelas ruelas. Coimbra merecia ser "vendida" de uma forma mais agressiva. Um domingo não tem de ser um dia onde a vida da cidade fecha para descanso. Lisboa deve ter estado, como é habitual, cheia de estrangeiros. Coimbra merecia igual sorte.

O exercício da banalidade



O que me espanta não é o ateísmo militante de Saramago, uma ateísmo que roça o proselitismo. É um direito seu exactamente igual ao dos crentes  militantes e proselitistas. O que me acaba sempre por desapontar é a banalidade dos ataques à religião, a incompreensão do fenómeno e das raízes racionais que estão presentes na ideia de Deus. Compreender a religião e a ideia de Deus não implica acreditar ou não nelas, mas tentar uma aproximação racional ao fenómeno religioso. O que está muito longe de acontecer com Saramago, como se prova por isto: «O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!» Isto está ao nível das crises religiosas da adolescência.

O gosto pelas metáforas mortas



Que um poeta metaforize, ninguém estranha. É a sua a maneira  de dar a ver o mundo de uma forma inesperada. Que os políticos sejam dados à metafórica leva-nos, pelo menos, a franzir o sobrolho. Isto não apenas pela fraca qualidade das metáforas (quase sempre metáforas mortas) a que recorrem, mas porque com elas, contrariamente aos poetas, pretendem ocultar sempre qualquer coisa. Sócrates, perante a nova situação de governação em minoria, metaforizou: Já fui rico e já fui pobre. Prefiro ser rico. O que se oculta aqui? Não claramente o desejo de mandar sem entraves. Ele está bem expresso na sua preferência por ser rico. O que se oculta é aquilo que está por detrás do jogo «já fui rico e já fui pobre», cuja enunciação nos leva a pensar que isso são coisas que acontecem, fruto do acaso da vida. O que se oculta, então, foi a forma como Sócrates dilapidou a riqueza que tinha, como foi perdulário durante a última governação. Sócrates oculta que a sua actual pobreza se deve então a forma como agiu. Não foi o acaso nem um decreto arbitrário das potências infernais que o conduziram ao lugar onde está. Foi ele e as suas políticas.

16/10/09

Impressões - XIV


Joaquin Sorolla y Bastida, Paisaje de S. Sebastián

quando o dia chegava
o ar marítimo trazia as últimas névoas
para envolver de segredos
casas, caminhos e animais

assim os furtava
aos veraneantes ocasionais
que trazem em cada algibeira
o cansaço com que infestam
o desamparado tempo
pela terra inteira

Sem retorno



A senhora ministra da educação afirmou hoje que as escolas enfrentam “obstáculos e dificuldades” sem paralelo na história do sector para conseguirem responder ao alargamento da escolaridade obrigatória para os 12 anos. Enumerou algumas dificuldades, incensou, embora enviesadamente, a medida por si tomada e não esqueceu a banalidade. "Não podemos desistir de nenhum dos nossos jovens, nenhuma criança, adolescente ou jovem pode ser deixado para trás”. Tudo isto é muito bonito e comovedor. Pena é que a senhora tenha criado tão grandes obstáculos à disciplina nas escolas, que tenha desprezado o problema, tenha desautorizado os professores e acobertado os comportamentos menos adequados dos alunos. Há uma coisa, porém, que ninguém diz. Os alunos que querem trabalhar e aprender, mas cujas famílias não têm dinheiro para colégios privados, ou não os há onde vivem, quem os protege? Esta medida, por mais encantadora que seja, vai criar muitos problemas não às escolas, mas a esses alunos que precisam, para aprender, de um ambiente escolar saudável. É muito bonito dizer que há grandes desafios para as escolas enfrentarem, como se tudo estivesse na mão dos homens. Todos nós sabemos como isto vai acabar. Quem se interessa, já viu este filme no estrangeiro. Como em certos países ocidentais, a escola pública portuguesa vai definhar no caos, na indisciplina, na irrelevância. Em França, por exemplo, começaram agora a pagar a esse adoráveis adolescentes para ver se eles concordam em ir às aulas. A senhora ministra lançou a confusão, da qual não haverá retorno, e vai-se embora, esperemos.

Pena é que o senhor Mário Nogueira também não a acompanhe. O dirigente da Fenprof interpretou as palavras da ministra como “uma espécie de testamento político”. A ministra “conseguiu fazer um discurso completo de despedida sem ter uma referência elogiosa para os professores, o que também não é de espantar, foi assim todo o tempo, durante estes quatro anos”. Meus Deus, perante a anunciação do caos que vai acontecer em muitas escolas, a única coisa que lhe ocorre é que a senhora ministra, que nem mãe castigadora, não fez uma referência elogiosa aos professores. Parece que se sente abandonado. Se a ministra me elogiasse, eu desconfiaria imediatamente da qualidade do meu trabalho. Há coisas que só a psicanálise explica.

O problema



O problema está mesmo aqui. Uma notícia do Público diz-nos que os indicadores de conjuntura mostram aumento do ritmo da retoma. Uma outra, porém, estabelece o horizonte do quadro de recuperação: 18 por cento dos portugueses são pobres e a situação tende a piorar. Como em tudo o mais, as boas notícias neste país nunca são para todos. A economia irá recuperar mais rapidamente do que se esperava, mas a pobreza irá também aumentar. Este é o problema. Uma parte cada vez maior da comunidade portuguesa mostra-se incapaz de se integrar nos novos tempos.

Jornal Torrejano, 18 de Setembro de 2009



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15/10/09

Impressões - XIII


Eugene Louis Boudin, El Puerto de La Havre (1888)

a caligrafia desenhada pelos barcos
sobre o rumor das águas
anuncia o perfume de certas mulheres
ao saírem de casa nas tardes
em que as paisagens se cobrem de invernos

não basta a lucidez nem o apuro dos sentidos
para o reconhecer
é preciso saber acender o lume
e esperar que o véu da paixão
caia irremediável sobre o anoitecer

Contar com o ovo...



Sócrates vai formar um governo minoritário. O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista rejeitaram, por princípio, qualquer coligação. Toda a gente está a contar os votos futuros, mas os eleitores também percebem o que se está a passar. Teria sido ocasião para, com amplas cedências de lado a lado, se construir  uma alternativa política. Sócrates tem má fama na esquerda? É um facto, mas a política não se faz de estados de alma nem de preconceitos morais. Pode ser que me engane, mas a esquerda à esquerda do PS vai pagar duramente o fecho negocial que patenteou perante o país. Ao menos, deveria ter obrigado o PS a negociar. O tempo do cinismo, o tempo em que o não assumir responsabilidades dá votos começa a findar. A retórica da esquerda de confiança e da estabilidade social começa a ser escassa para justificar tantos votos. Mais do que o PC, o BE que se cuide. Toda a gente está contar com o ovo no dito da galinha, talvez se enganem.

Que maçada



Que maçada! Ser deputado numa hora destas, era o que faltava. Certamente haverá razões ponderosas para que o antigo ministro da Educação renunciar ao cargo de deputado trinta minutos depois de tomar posse. Enquanto estas não se conhecerem, os eleitores de Braga, e do resto do país, têm todo o direito de pensar que Deus Pinheiro não tem o mínimo respeito por eles, nem pelo parlamento, nem pelo regime democrático, nem pelo país. Os partidos políticos deveriam auscultar claramente os seus candidatos para que estas coisas não acontecessem. Pior é se o PSD sabia já da possibilidade disto vir a suceder. Para o lugar do sénior Deus Pinheiro entra o júnior Pedro Rodrigues, dirigente da JSD. Este, considerando o pobre currículo, deve querer manter o lugar.

14/10/09

Impressões - XII


Diego Rivera, Casa sobre el puente (1909)

a quieta cor do dia
desenha uma súbita jura de água
e aí ficamos presos
a sonhar gôndolas
naquelas terras onde as não há

nas paredes a caliça anuncia
o charco do futuro
e em cada janela avista-se
a promessa oculta
de um inútil homicídio

Veremos



Portugal cumpriu. Ganhou por 4-0 aos amigos malteses. Mas aquilo que se viu, nomeadamente na segunda parte, não deixa ninguém muito tranquilo para o play-off. Como disse o Toni, que é um péssimo comentador mas sabe muito de futebol, Hungrias e Maltas acabaram. Queiroz tem um mês para pôr Portugal na África do Sul. Veremos.

O futuro pesa



Este é um dos problemas maiores do país. Perspectiva-se mais uma quebra de natalidade para este ano. É como se Portugal estivesse cansado e a comunidade decidisse, inconscientemente, suicidar-se. Talvez novecentos anos de história cansem, mas não é o passado que pesa, é o futuro. Para os portugueses o futuro é uma carga enorme, desmesurada. Olho para a maioria dos alunos que vejo na minha e noutras escolas, e o que vejo? Gente exausta, sem perspectivas, sem vontade, sem rumo, sem desejo. Quando chegarem à idade razoável de ter filhos, estarão demasiado cansados para os fazer. Isto não vai acabar bem.

A essência da história




Que se suba até ao berço das nações, ou que se desça até aos nossos dias, que se examine os povos em todas as posições possíveis, desde o estado de barbárie até ao de civilização mais refinada, encontrar-se-á sempre a guerra. Por esta causa, que é a principal, e por todas aquelas que se lhe juntam, a efusão de sangue humano nunca está suspensa no universo: umas vezes ela é mais fraca sobre uma superfície maior, outras é mais forte numa superfície mais pequena, de maneira que ela é quase constante. Mas de tempos a tempos há acontecimentos extraordinários que a aumentam prodigiosamente, como as guerras púnicas, os triunviratos, as vitórias de César, a irrupção dos bárbaros, as cruzadas, as guerras religiosas, a sucessão de Espanha, a Revolução francesa, etc. Se houvesse uma tabela de massacres como há tabelas meteorológicas, quem sabe se não se descobriria, ao fim de alguns séculos de observação, a lei que os rege? [Joseph de Maistre, Considérations sur la France]

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Para além de mostrar a essência da História universal, a guerra e a efusão de sangue humano, Maistre faz, meio ironicamente, uma curiosa sugestão. Construir tabelas de observação dos massacres em analogia com as tabelas feitas na meteorologia. Esta aproximação a uma certa cientificidade da História, feita em finais do século XVIII, é muito mais interessante do que a de Marx, feita posteriormente. Marx e Engels estavam fascinados pelo desenvolvimento da Física e da Química, e sonhavam com uma legalidade histórica idêntica àquela que determina os acontecimentos naturais. A irónica proposta de Maistre abre a História não à necessidade, presente nas leis da Física clássica de Newton, mas à probabilidade e à previsão, como acontece com a meteorologia. O que faz dele, epistemologicamente,  um contemporâneo. Um mistério, este de um reaccionário ser mais moderno do que os revolucionários posteriores.

13/10/09

Era inevitável



Era inevitável que o ex-jovem Passos Coelho viesse falar com voz grossa. Segundo a sua opinião, Manuela Ferreira Leite não tem condições para estar à frente do partido. Mais, ele quer regener, logo regenerar, o partido, "renovar discursos e práticas". Só estas palavras deveriam ser o suficiente para os seus companheiros - é assim que se conhecem na congregação - o mandarem calar e nunca mais lhe permitirem abrir a boca. Não vai acontecer, pois os partidos políticos tornaram-se o local ideal para dizer banalidades sem sentido. Seja como for, há uma coisa que dá razão a Passos Coelho. Se o ex-jovem Sócrates chegou onde chegou, por que não há-de ele chegar a um sítio semelhante. Mal por mal, as metáforas do prof. Marcelo.

Impressões - XI


Pierre-August Renoir, Banks of the Seine at Champrosay (1876)

aceitamos o tempo como oferenda
e não vemos a garra erguida
na água que corre
nem sabemos a cor que terá
ao perder-se no estuário

às vezes tomamos uma ponte
e pensamos que nos furtámos
ao fascínio do rio
mas as margens não são habitação
e logo nos devolvem à viagem

Joseph Maistre - Da natureza das acções humanas


Enfim, há acções desculpáveis, louváveis mesmo segundo o ponto de vista humano, e que são infinitamente criminosas. Se, por exemplo, nos dizem: Abracei do boa-fé a Revolução francesa, por um amor puro da liberdade e da minha pátria. Acreditei, na minha alma e na minha consciência, que ela conduziria à reforma dos abusos e à felicidade pública. Nada temos a apontar. Mas o olho, para quem todos os corações são diáfanos, vê a fibra culpada, descobre numa discórdia ridícula, num pequeno melindre do orgulho, numa paixão baixa ou criminosa, o primeiro motivo destas resoluções que se quereriam mostrar ilustres aos olhos dos homens. E para ele a mentira da hipocrisia enxertada sobre a traição é mais um crime [Joseph Maistre, Considérations sur la France].
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Quem viveu politicamente os conturbados anos de 1974 a 1976, quantas vezes não deparou com situações destas? Quantas vezes não vi a inveja brilhar por detrás de certas opções e compromissos políticos? Quantas vezes não vi o despeito de um protagonista ao ser preterido, na economia da vida de um partido, por outro. Mesmo se eu olhar para o meu coração, tão imaturo à época, estou longe de lá encontrar apenas candura e idealismo altruísta. A participação nas revoluções políticas, bem como na vida política em geral, não é um exercício ascético de purificação. Quem está na política não visa a glória dos altares, mas o poder. Fundamentalmente o seu poder.