17/09/09

Uma viagem no Barroco - 12 Giuseppe Tartini - Sonata in G Minor - Devil's Trill (1692 - 1770).

Giuseppe Tartini - Sonata in G Minor - Devil's Trill


Ontem foi proposto um compositor coevo do nascimento do Barroco. Hoje, a proposta é a de um compositor que ainda aparece arrolado no Barroco mas cuja música já não soa, pelo menos a um diletante como o autor deste blogue, a Barroco. Diria que é um compositor pós-Barroco. O aristocrata italiano (na verdade nasceu na República de Veneza, numa cidade, Piran, que hoje faz parte da Eslovénia), Giuseppe Tartini, foi violinista e compositor. A sua obra mais conhecida é a sonata Devil's Trill (Trilo do Diabo). Uma obscura lenda, porventura originada, ou adornada, por Madame Blavatsky, diz que a peça resultou de um sonho de Tartini, onde o diabo aparecia aos pés da cama tocando violino. Lendas à parte, a peça do vídeo tem ao violino não o diabo mas Itzhak Perlman.

A complacência

A complacência com os outros ou a mais completa indisponibilidade para a sua compreensão têm uma origem comum, a auto-complacência. Mas a auto-complacência não deve ser entendida como benevolência ou benignidade perante si mesmo. Todos temos o dever de ser benévolos e benignos connosco, mas não complacentes. A auto-complacência deve ser entendida como uma condescendência consigo, num suportar com indiferença o que em si deveria ser insuportável. Foi através dela que me descobri radicalmente português. Isso não significa uma legitimação da minha auto-complacência, apenas me integra numa comunidade de atitude, apenas me dá uma família de gesto. A indiferença com que suporto o que em mim deveria ser insuportável dissolve o padrão que me leva a considerar insuportável certas coisas. A indiferença é uma estratégia de dissolução do elevado e da produção de condescendência com o que não merece benevolência. A indiferença produz a remitência do irremissível. Sempre fiquei seduzido por uma das ideias centrais da ética kantiana, nomeadamente na Fundamentação da Metafísica dos Costumes. A ideia da natureza irremitente da razão. Temos o dever de não condescender connosco, o dever exige, sem remissão possível, a nossa absoluta submissão. O meu fascínio nasce precisamente da minha natureza inclinada à remitência de mim mesmo. Por isso sou com os outros, o mais das vezes, completamente complacente e, ao mesmo tempo, completamente indisponível.

Inclinação rosa

A coisa inclina-se para o PS. Não me parece que a polémica do TGV e o acinte com os espanhóis tenham beneficiado a dr.ª Manuela Ferreira Leite. O TGV é uma promessa de emprego e de maior integração no espaço europeu. A despesa é sempre uma despesa futura e, como tal, invisível. Depois, os portugueses acham que os espanhóis vivem melhor do que eles, e não compreendem a irritação com quem nos compra parte importante do que produzimos. Mas talvez o problema principal resida ainda noutro lugar. Gostemos ou não, percebe-se o caminho que Sócrates quer. Mas para onde nos quer levar o PSD? A obscuridade da sua campanha e dos seus desígnios transparece nos resultados desta sondagem. Ninguém está disposto a dar-lhe um cheque em branco. O voto de protesto contra Sócrates junta-se no BE. Doze por cento das intenções de voto, depois da "derrota" de Louçã perante Sócrates, é obra. Veremos como as coisas evoluem.

Imprudências

A prudência teria aconselhado a dr.ª Manuela Ferreira Leite a deixar António Preto e Helena Lopes da Costa fora das listas de deputados. Enfrentam processos, onde são presumidos inocentes, mas esse estatuto, o de presumidamente inocente, não é politicamente um bom cartão de visita. A situação complicou-se com a história das quotas pagas (aqui e aqui). A história já foi desmentida pelos visados. Mas não interessa se a história é verdadeira ou falsa. Para o cidadão comum, a vida partidária é de uma obscuridade total e, por isso, as coisas mais mirabolantes tornam-se verosímeis. E nem vale a pena a dr.ª Ferreira Leite vir derramar a dor por isto vir à luz a dias do acto eleitoral. Quando esperava ela que isso acontecesse? Depois?

16/09/09

Os homens da luta e a inquietante estranheza

Das Unheimlich é um termo alemão que fez fortuna a partir de um artigo homónimo de Sigmund Freud. Unheimlich traduz-se por inquietante estranheza. É algo que é, ao mesmo tempo, excessivamente familiar e desconhecido. Poderíamos dizer que é aquilo que sendo tão familiar se tornou desconhecido. Quando emerge, porém, provoca o pavor. É assim a manifestação do que se recalcou, e essa manifestação resulta de uma espécie de quebra da nossa descrição causal do mundo. Perante a a manifestação desse qualquer coisa a reacção é de uma inquietante estranheza, como se algo se viesse abater sobre nós.

Perante a irrupção de Neto e Falâncio, os "homens da luta" de megafone em riste, foi certamente isso que aconteceu aos dirigentes socialistas e a Sócrates. A emergência do recalcado. Aquelas figuras não faziam parte daquele lugar nem deste tempo. Mas ali estavam, ridículos e rascas, com o megafone na mão e viola em punho. A boa consciência não gosta deste tipo de humor selvático, quase dionisíaco, e isso manifestou-se nos comentários na imprensa e nos blogues. Mas este tipo de humor é muito mais radical do que aquele que agora é incensado. A radicalidade funda-se numa estranheza inquietante que nos traz um mundo que preferíamos não ver, o mundo que afundámos no inconsciente. Enquanto o humor eleitoral dos Gatos visa iluminar as personalidades, este tipo rasca de humor visa -las em causa. O discurso de Sócrates sobre a tolerância é, naquelas circunstâncias, absolutamente patético e, nesse seu pathos, absolutamente risível. Aqueles não eram seus rivais políticos, aqueles Neto e Falâncio nasceram da cratera que se abrira na sua própria personalidade perplexa perante a manifestação do recalcado. Aquele humor não provoca riso, provoca medo. E é o medo que fala quando se comenta com desdém a proeza dos humoristas. Mas o facto é que, contrariamente a outros, despertaram o cómico e o risível.

Materiais de Construção - 7. Ferro

centro da terra
seta de aço
trazendo a morte
mata o cansaço

Uma viagem no Barroco - 11 Gregorio Allegri - Miserere Mei Deus (1582 - 1652).

Gregorio Allegri - Miserere Mei Deus


Onde começa e onde acaba uma determinada época? Por exemplo, aquilo que é dado a ouvir hoje data do tempo em que o Barroco incoava, mas deveria soar, na época, como uma música verdadeiramente conservadora. Não soa a música barroca, mas este Miserere Mei Deus é uma grande peça musical. O compositor italiano, Gregorio Allegri, foi padre e pertenceu à escola de compositores de Roma. Estudou com um grande amigo de Palestrina, Giovani Maria Nanini. Interpretação do Kings College Chapel Choir, dirigido por Stephen Cleobury.

A inquietante realidade

A acção dos humoristas do Vai Tudo Abaixo, no Seixal, mostrou os limites dos Gatos Fedorentos. Tornou evidente como o seu humor deixou de ser corrosivo, embora possa ser inteligente. É um humor com o qual o sistema e o regime vivem bem, de tal maneira que as personagens principais fazem já parte do próprio programa, como se se legitimassem mutuamente, humoristas e dirigentes políticos. Mas esta arriscada prestação na arruada do PS, pouco dada a ser compreendida pelo cidadão comum, despe as figuras públicas da sua aura e coloca-as perante uma estranha e inquietante realidade, que não é outra senão a própria realidade. Sócrates mal deve ter respirado. Não há nada que um político em busca de votos mais deteste do que a realidade (por exemplo, esta).

A imaginação pura

Um artista tem uma imaginação prática. Ela impele-o para a realização, para a transformação da matéria em novos objectos, singulares e irrepetíveis, se ele é efectivamente artista. A imaginação prática do artista é um imaginação produtora, demiúrgica. Eu também sou um ser de imaginação, mas a minha não é prática. Ela é um nevoeiro onde fico retido. Nada nela me impele a agir, a transformar, a tornar concreto. Sofro de imaginação pura, de uma imaginação que odeia o concreto e o concretizar-se. Uma imaginação pura é uma imaginação sonâmbula. Sofrer de sonambulismo é um destino tão nobre como outro qualquer, como o de ser artista, por exemplo. Desde sempre me lembro de sofrer de uma imaginação assim, sonâmbula, de uma imaginação que armadilha o corpo, que rompe os laços com o real, que destrói, uma a uma, as fibras da vontade. Por vezes finjo que sou um ser da razão, mas isso é apenas um penoso exercício exterior, uma máscara social, o mínimo que me permite pagar as contas. Para além disso, há apenas um nevoeiro de imagens sortidas, de coisas que vão e que vêm, de um fascínio que me prende na quietude dos dias. Talvez exista, ou tenha existido, algum povo assim. Esse seria o meu povo. [16 de Setembro de 2009]

Um teste

Considerando que os Gatos de José Sócrates são os mesmos de Manuela Ferreira Leite, o que pode explicar tão grande diferença de audiência? É um programa de humor e pode supor-se, considerando o tipo de personalidade de Manuela Ferreira Leite, que o auditório buscasse um momento supremo de divertimento pela humilhação de uma avó pelos netos. Pelo menos seria isso que se desejaria lá para o Largo do Rato. Mas pode não ser isso. Uma grande curiosidade sobre alguém que aparenta reserva. Os espectadores talvez estivessem a fazer um teste. Será que a senhora reservada, quase tímida, se aguenta numa situação difícil? Esta audiência não me parece lá grande notícia para o engenheiro Sócrates.

Os mistérios dos votos socialistas

Parece que a Europa se vai submeter a mais um mandato do dr. Barroso, um dos fugitivos do pântano da piolheira, para sintetizar o pensamento sobre a pátria de dois governantes com um século de diferença. O curioso de tudo isto reside no facto dos socialistas portugueses e espanhóis, como que rendidos a uma união socialista ibérica, irem votar no homem. Os portugueses porque ele é português, os espanhóis vá-se lá saber porquê. Talvez seja o TGV, quem sabe? Dos socialistas portugueses só há uma que não vota em Barroso, a dr. Ana Gomes. Serão desavenças de quando ainda eram os dois jovens militantes marxistas-leninistas-maoístas? Ou será que os voos da CIA e o apoio de Barroso a Bush a afectaram mais a ela do que aos outros socialistas portugueses? Já agora, alguém explica o que é que Portugal ganhou, a não ser ter-se livrado dele, com o dr. Barroso na Europa? Para quê este voto patriótico, ainda por cima num partido tão internacionalista (ele é Obama para cá, Sarkozy para lá, Zapatero para o TGV, etc.)?

15/09/09

Materiais de Construção - 6. Argila

promessa de casa
vertigem de lama
resto de terra e água
que a mão derrama

Uma viagem no Barroco - 10 Tomaso Albinoni - Concerto em ré menor, para trompete (1671 - 1751).

Tomaso Albinoni - Concerto em ré menor, para trompete


Tomaso Giovanni Albinoni foi, fundamentalmente um compositor veneziano de óperas. Atribuem-se-lhe mais de oitenta. Hoje é conhecido, principalmente, pela sua música instrumental, nomeadamente os concertos para oboé. Vídeo de hoje: Albinoni Concerto em ré menor, para trompete. Trompete-Maurice André. Orquestra Filarmónica de Londres. Maestro-Jesus Lopez-Cobos.

Polémica tonta

Quem diria que umas eleições em 2009 iriam descambar nisto e nisto? Tanta parolice para quê? Para quê invocar Obama, Sarkozy e Zapatero, por um lado, ou então um qualquer e dúbio interesse português, por outro? O TGV tornou-se a bandeira da negação da política na actual campanha eleitoral. Em vez de se discutirem os problemas efectivos do país, usa-se o TGV para uma polémica tonta, como se o PS e o PSD tivessem, sobre as questões da política internacional, posições diferentes. Seja como for, mas isto é apenas um mero feeling, desconfio que o nacionalismo anti-TGV não vai render votos. O PSD pode arriscar-se a pagar caro o devaneio anti-espanhol. Mas isto é um feeling.

Liturgia dramática

Esta liturgia, apesar de cansativa, não deixa de ser dramática. Contrariamente ao que por aí se pensa, o PCP é um partido exactamente igual aos outros, composto por seres humanos como os outros, com defeitos e virtudes idênticos aos dos membros dos outros partidos. No entanto, há nele toda uma manobra de ocultação e de dissimulação. Os militantes comunistas fingem não ter aspirações individuais, nem ambições pessoais, fingem não querer deter o poder ou ser reconhecidos como chefes, a não ser que uma qualquer entidade mágica, talvez um Espírito Santo materialista, os indique para tal. Quando isso não acontece, ou aguardam uma nova decisão do Espírito Santo ou saem da organização. Mas por isso, quando há militantes que saem do partido, tal como acontece agora com Domingos Lopes, nunca invocam motivações pessoais. Precisam de toda uma rábula ideológica para baterem com a porta, como se estivesse em causa uma decisiva doutrina teológica que pudesse salvar ou condenar o mundo à perdição ou salvação eternas. Domingos Lopes não sabia há muito tudo o que indica na carta de despedida? A única coisa que está em causa é que perdeu. Outros foram mais fortes e mais consequentes na administração das suas ambições. Ambições, sim. Porque estas não são apenas aquelas que fazem parte da panóplia de ambições do burguês. Ser chefe, ter voz, ser reconhecido como líder, etc., fazem parte das ambições humanas que estão por detrás da militância comunista e de todas as outras. Como a luta das subjectividades, dentro de uma organização comunista, é disfarçada pelo putativo interesse do colectivo, cada vez que um derrotado sai, parece que o mundo vai acabar, parece que o que está em jogo é de uma tal importância que ele não pode fazer outra coisa senão abandonar, com sentimento de traição, mas com a consciência do dever de denúncia cumprido, os seus camaradas, efectivamente inimigos. No fundo, um apóstata nunca se reconhece como autor da apostasia. São sempre os outros, os que ficam, os verdadeiros apóstatas. Dizer isto não significa dizer mal dos comunistas. Significa apenas integrá-los na família humana a que eles pertencem, com as suas ambições, desejos recalcados, silêncios, interditos, vitórias e derrotas pessoais. Estulta é a pretensão de que não são exactamente pessoas como as outras. Adenda: as reacções mostram bem o sorriso de quem ganhou. É a vida.

O futuro

A condição histórica é a natureza do homem fora do estado paradisíaco. Submetido ao tempo, o homem soçobra sob o jugo terrível do império do futuro. Este sempre foi visto como uma ameaça, o cumprimento de uma sentença de condenação à morte, inapelável. A modernidade, porém, subverte esta experiência arcaica e faz do futuro um lugar radioso, o sítio onde se cumprem todas as expectativas. Assim se percebe, por exemplo, a natureza do homem revolucionário, e eu já fui um revolucionário, embora diletante e falhado. Quer destruir o presente – toda a ordem da presença é abominável – para que o futuro se realize. Por isso, deixa atrás de si um rasto interminável de sangue. O futuro nunca deixou de ser o lugar da morte. [15 de Setembro de 2009]

14/09/09

A senhora

Acordou agora para criticar a outra senhora. Mas a sonolência que lhe infecta as pálpebras não o deixa perceber que, na piolhice em que deu a actual República, Manuela Ferreira Leite é a senhora, por antonomásia. Eu nem votarei nela, mas esse gracejo identificando-a com o antigo regime faz-me lembrar o tempo em que quem não fosse do PC ou da extrema-esquerda era fascista, incluindo o paizinho do dr. João Soares. Mais valia ter continuado a dormir.

Não fora isso

Ainda bem que o presidente Barack Obama prolongou o embargo a Cuba por mais um ano. Imaginemos o que aconteceria aos Estados Unidos e ao mundo se ele não tivesse tido tão preclaro gesto. Os comunistas cubanos, aproveitando o fim simbólico do embargo, pois ele continuaria na prática, começariam a tecer terríveis planos para invadir os EUA, sabotar a economia internacional, pôr fim à globalização. Não fora o gesto do Presidente Obama, o mundo livre soçobraria com uma terrível epidemia provinda do comunismo cubano. E se eles, os cubanos, continuam castristas, então que morram de fome, de doença, que vão para as profundas dos infernos. Já o comunismo Chinês é doce e suave e não há embargo que o valha. Esse não representa ameaça para ninguém.

Materiais de Construção - 5. Cal



estranha poeira
quase marmórea
traço rasurado
no vão da história

Uma viagem no Barroco - 09 Alessandro Scarlatti - Concerto n° 6 in E major (1660 - 1725).

Alessandro Scarlatti - Concerto n° 6 in E major


Não confundamos este Scarlatti, Alessandro, com o outro, Domenico, filho do primeiro, e compositor da corte portuguesa. Alessandro Scarlatti ficou famoso pelas suas óperas e cantatas de câmara. A música de Scarlatti estabelece um elo de conexão entre o primeiro barroco italiano e a música clássica do século XVIII, cujo expoente máximo é Mozart. Neste vídeo não se identifica o grupo musical dirigido po Ottavio Dantone.

A regência da amargura

Estamos em maré eleitoral. A política concerne ao nosso ser mais profundo ou é apenas uma governação de máscaras? Ela diz respeito ao homem expulso do paraíso. Mas aqui surgem todos os perigos. Uns, perante a posição extra-paradisíaca do homem, fazem da governação uma gestão do inferno. Outros fazem da política uma viagem de retorno ao paraíso, de onde Deus nos expulsou. Não são diferentes dos primeiros. Estar fora do paraíso não é necessariamente habitar no inferno. Pode ser amarga a vida quando se descobre o despejo divino e a imutabilidade desse decreto, mas nem a felicidade nem a infelicidade são os objectivos da política. Sensato será fazer da governação a mera regência da amargura. [14 de Setembro de 2009]

Explicar a coisa mesma

Para o cidadão comum, a história do TGV é absolutamente esotérica. A multiplicidade de posições é uma coisa boa, mas os argumentos sobre essas posições ainda são mais obscuros e esotéricos do que a própria história do TGV(aqui, aqui e aqui). O que os eleitores gostariam de perceber mais claramente é a relação entre custo do empreendimento e o seu benefício, ou qual será o preço a pagar por não realizar a obra. O que se dispensa, claramente, é um conflito bacoco entre um nacionalismo serôdio e um pós-nacionalismo armado ao modernaço. Os dois grandes partidos do poder que expliquem o TGV em si e não façam discursos sobre princípios de filosofia política de trazer na algibeira. Importam-se de explicar a coisa mesma?

Avaliação e mutilação da vida

É inevitável, assim, que a avaliação, como um diagrama transversal a toda a sociedade, tenda a transformar todas as relações humanas em relações funcionais de poder. O preço pago por esta tecnologia biopolítica é, evidentemente, a mutilação de uma vida mais rica, a diminuição brutal dos possíveis, a restrição do aleatório, do acaso, da imprevisibilidade. Como estes serão também transformados em funções — a famosa «criatividade» no trabalho, nas empresas, nos serviços, na publicidade, nos média —, os próprios factores aparentemente incodificáveis serão avaliados, quantificados, normalizados.
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Em Busca da Identidade é o último ensaio de José Gil sobre o ser português. O último capítulo, "A avaliação e a identidade", é uma reflexão sobre a questão da avaliação e o seu rebatimento na formação da subjectividade e da identidade. Essa reflexão tem como núcleo central a iluminação daquilo que se esconde por detrás da avaliação de professores, introduzida pelo governo ainda em funções. E o que está em causa efectivamente, não é melhorar o sistema de ensino, mas aquilo que José Gil diz neste excerto, "a mutilação de uma vida mais rica, a diminuição brutal dos possíveis, a restrição do aleatório, do acaso, da imprevisibilidade." O processo não visa produzir professores cultural e existencialmente mais ricos, mais bem preparados, mas o contrário. Mutilar a vida dos professores como caminho para mutilação da vida dos alunos. É isto que está em causa e não mais do que isto.

13/09/09

Materiais de Construção - 4. Chumbo

seda pesada
inclina a terra
presa ao segredo
que nele encerra

Dizer mal dos espanhóis...

Más companhias e maus conselhos também para as bandas da dr.ª Ferreira Leite. Quem lhe disse que ganhava votos brandindo o medo dos espanhóis? Já ninguém sabe História e se lembra dos Filipes, o Hóquei Patins já não é o que era e qualquer um vai ali a Espanha. O mal é esse, ir a Espanha e ver como é. Muitos, embora não o digam, têm pena de não ser espanhóis. Portanto, se quer ganhar votos ao eng.º Sócrates, não diga mal dos espanhóis nem das ligações a Espanha. Nacionalismo a esta hora não cai bem entre a plebe democrática. Se ainda se pudesse fechar a fronteira...

Uma viagem no Barroco - 08 Jan Pieterszoon Sweelinck - Hexachord Fantasia (1562 - 1621).

Jan Pieterszoon Sweelinck - Hexachord Fantasia


Uma Viagem no Barroco vai hoje de jornada até aos Países Baixos. Jan Pieterszoon Sweelinck foi um pedagogo, organista e compositor holandês. É um compositor de transição entre a música do Renascimento e a do Barroco. Reconhecido com um grande compositor de música para instrumentos de teclado, um dos mais importantes antes de JS Bach, também compôs música vocal, mais de 250 obras, entre canções, madrigais, motetes e Salmos. A Hexachord Fantasia é interpretada por Ernst Stolz em cravo.

Ministros novos?

O eng.º Sócrates anda mal aconselhado. Acusam-no de, ontem, após o debate com a dr.ª Ferreira Leite, ter prometido um governo novo com ministros novos em todas as pastas. Certamente, perante o desespero de alguns incumbentes, emendou a mão. Haverá um governo novo, com ministros novos, mas não todos. Sossega os atingidos na dignidade ministerial e na excelência da sua acção. Mas, estratégicamente falando, é um erro. Se Sócrates for convidado a formar governo é porque ganhou as eleições. E como todos sabemos em equipa que ganha não se mexe. Era isto que deveria ter dito. Os ministros agradeciam, Sócrates passava por bem-educado e pessoa agradecida, e nós, eleitores, ficávamos esclarecidos.

O meu lugar

Nunca soube lá muito bem qual o meu lugar no mundo. A evidência da posição foi sempre para mim um mistério. Não é que não tenha feito tentativas, múltiplas, para me posicionar. Mas o estar em posição sempre me cansou. Talvez a fadiga resida numa debilidade física e tudo se circunscreva à falta de ginásio. Ter um lugar no mundo implica ter uma posição e ser incansável na manutenção do posto. A minha fadiga, mesmo se física, sempre foi acompanhada, porém, por um des-crédito. Quanto mais quis acreditar mais desacreditei. No cerne de tudo, fundamentalmente daquilo que defendi ou defendo, sempre descobri o irrisório. O irrisório nasce da tensão entre não ter lugar e o querer ter uma posição. Desde que fui expulso do paraíso, não eu mas Adão e Eva por mim, que vivo no não-lugar do irrisório. O irrisório cresceu quando os homens, expulsos do paraíso, pensaram que tinham uma posição na Terra e essa posição era o seu lugar. [13 de Setembro de 2009]

12/09/09

Materiais de Construção - 3. Mármore

fruto de pedra
voto de luz
olhar de fogo
mar que seduz

Uma viagem no Barroco - 07 Marc-Antoine Charpentier - Te Deum, H 146 (1643 - 1704).

Marc-Antoine Charpentier - Te Deum, H 146


Uma Viagem no Barroco desloca-se hoje da música de origem germânica para a música francesa, para o compositor Marc-Antoine Charpentier, um dos grandes nome do barroco musical francês. Ao consultar, na Internet, a sua biografia descobre-se que nunca trabalhou na corte de Luís XIV, tendo, em contrapartida trabalhado para Teatro, com Molière. O leitor, mesmo que nunca tenha escutado uma obra de Charpentier, certamente reconhecerá o prelúdio, ou parte dele, deste Te Deum, uma obra que o autor considerava particularmente belicosa. Le Parlement de Musique (Mathilde Etienne, Ariane Wohlhuter, James Oxley, Thomas Van Essen, Bertrand Chuberre), Dir: Martin Gester.

Envelhecer

No outro dia acabei por fazer 53 anos. Em dias como esses, sempre surge, insidiosa, a pergunta sobre o que é envelhecer. Envelhecemos quando o nosso discurso se torna completamente metonímico. Indisciplinada, a mente pensa por contiguidade, a essência da metonímia, associa os assuntos, as ideias, os conceitos uns com os outros por essa relação de lateralidade. Mas um exercício de censura, socialmente exigido, leva-nos a que o discurso se foque num objecto e siga nessa focalização. Envelhecer mata a censura e liberta a manifestação metonímica do discurso. Sub-repticiamente começa-se a falar com os outros, deixando o discurso deslizar de assunto para assunto, num encadeamento que ameaça ser infinito. Eis os primeiros sinais, o triunfo da contiguidade metonímica da fala sobre o encadeamento lógico da comunicação. Envelhecer é o triunfo da contiguidade sobre a fixidez de uma posição, a transição do discurso do elemento sólido para o elemento líquido. Liquefeita a fala, encerramo-nos nela. Envelhecer é ficar cerrado na liquidez interminável da fala. É assim que me vejo já. [12 de Setembro de 2009]

You want to know what I make?

Recebi isto via e-mail, enviado por Victor da Rosa, um torrejano professor da Universidade de Ottawa, Canadá. Não resisti a publicar, agradecendo desde já ao ilustre remetente.

The dinner guests were sitting around the table discussing life. One man, a CEO, decided to explain the problem with education. He argued, 'What's a kid going to learn from someone who decided his best option in life was to become a teacher?' He reminded the other dinner guests what they say about teachers: 'Those who can, do. Those who can't, teach.' To emphasize his point he said to another guest; 'You're a teacher, Bonnie. Be honest. What do you make?' Bonnie, who had a reputation for honesty and frankness replied, 'You want to know what I make? (She paused for a second, then began...) 'Well, I make kids work harder than they ever thought they could. I make a C+ feel like the Congressional Medal of Honor. I make kids sit through 40 minutes of class time when their parents can't make them sit for 5 without an I Pod, Game Cube, or movie rental. You want to know what I make?' (She paused again and looked at each and every person at the table.) ''I make kids wonder. I make them question. I make them apologize and mean it. I make them have respect and take responsibility for their actions. I teach them to write and then I make them write. Keyboarding isn't everything. I make them read, read, read. I make them show all their work in math. They use their God-given brain, not the man-made calculator. I make my students from other countries learn everything they need to know in English while preserving their unique cultural identity. I make my classroom a place where all my students feel safe. I make them understand that if they use the gifts they were given, work hard, and follow their hearts, they can succeed in life.' (Bonnie paused one last time, then continued.) Then, when people try to judge me by what I make, with me knowing money isn't everything, I can hold my head up high and pay no attention because they are ignorant... You wanted to know what I make? I MAKE A DIFFERENCE! ‘What do you make, Mr. CEO?' His jaw dropped, he went silent. THIS IS WORTH SENDING TO EVERY TEACHER YOU KNOW,as well as: all your "PERSONAL TEACHERS" in friends and family.

Devaneios

É o que dá haver eleições. Agora, o engenheiro Sócrates, coitado, sofre de delírio. Quer lutar contra a direita nas áreas da Saúde e da Educação. Caso não houvesse eleições, algumas vez lhe ocorreria tal devaneio? Durante anos, aqueles em que, por castigo dos deuses, ele foi o timoneiro da pátria, nunca lhe ocorreu tal coisa. Não é que, por exemplo, uma política de esquerda seja boa em matéria de educação. Não é! (Neste blogue ainda se usa ponto de exclamação!) Sabemos que em matéria de educação, o delírio, à esquerda, é total. Mas em vez destas parlapatices da luta conta a direita, o importante seria dar seriedade e credibilidade a esses serviços públicos, em vez de os fazer joguetes de interesses estranhos. Se toda a gente percebe que por detrás da saúde se movem forças poderosíssimas, pouca gente percebe que o mesmo se passa na educação, e neste caso, essas forças não são obviamente os professores, mas aqueles que vivem da balbúrdia que a inovação educativa, tão ao gosto de Sócrates, introduz nas escolas públicas. Gente que, por certo, terá os seus filhos e netos bem recatados em colégios particulares. (Imagem "pedida" de empréstimo ao Jumento)

11/09/09

Diplomas e dieta light

Este post do Zé Ricardo, como todos os outros, merece ser lido e não treslido. Não é uma apologia da escola do Estado Novo, mas um protesto contra a erosão educativa que a democracia fez crescer em Portugal. Mas ele lembrou-me de uma coisa. Hoje, dia do diploma, uma aluna minha do 12.º ano (foi minha aluna durante três anos), foi reconhecida como a melhor aluna do ensino secundário da minha escola. Acho que se vai candidatar a uma faculdade de arquitectura com média de 19,2 valores. Esta aluna, no ano lectivo que terminou, fez-me, como todos os seus colegas, três trabalhos de investigação sobre as obras que leccionámos. Esses trabalhos não foram copiados nem feitos por terceiro. Sei disso, porque os alunos tiveram de discutir publicamente os trabalhos comigo. O primeiro trabalho versava a teoria da reminiscência em Platão. A aluna trabalhou o Fédon e o Ménon (que leu em Inglês). O segundo trabalho versava sobre o problema da moral e da política em tensão com a questão da Paz Perpétua, de Kant. A aluna leu Locke, Carta sobre a Tolerância, e Kant, A Paz Perpétua. O terceiro trabalho foi uma reflexão sobre o conceito de civilização trágica, em Nietzsche. Todos estes trabalhos teriam, numa gradução em Filosofia, uma nota acima da média. Mas esta não foi a única aluna a trabalhar a um nível muito elevado. Tive, na mesma turma, outros alunos com desempenhos altíssimos. O problema está em que a cultura deste grupo de alunos é radicalmente estranha à generalidade dos outros e à escola que a democracia impôs. A possibilidade destes alunos descobrirem um apoio na escola reside apenas no simples facto de encontrarem à sua frente professores que valorizem o saber, a cultura, a ciência, as artes. Ora se olharmos para o perfil de professor que este governo implantou (um burocrata, cheio de estratégias vazias e pouco saber científico), percebemos que o dia do diploma apenas serve para ocultar a traição que está a ser feita aos alunos que querem levar a vida a sério. O bom professor da socióloga Rodrigues é pesadamente formado em burocracia, e do ponto de vista intelectual e cultural tem o estrito dever de seguir uma dieta absolutamente light.

Materiais de Construção - 2. Âmbar

nascido em silêncio
rosto do passado
memória de ouro
um anjo cansado

Uma viagem no Barroco - 06 Heinrich Schütz - Meine Seele erhebt Herren (SWV 344) (1585 - 1672).

Heinrich Schütz - Meine Seele erhebt Herren (SWV 344)


Heinrich Schutz disputa com Dietrich Buxtehude o honroso título de melhor compositor alemão antes de JS Bach. Influenciado por Gabrieli e Monteverdi, é um compositor essencialmente de temática sacra. Pelo menos foi essa que lhe sobreviveu. A peça escolhida para hoje, uma belíssima peça, é Meine Seele erhebt Herren (SWV 344). Maria Cristina Kiehr (Soprano) e o Concerto Vocale. Direcção de René Jacobs. Uma sugestão de audição: The Seven Last Words of Jesus Christ on the Cross.

Quem vai à frente?

Empate técnico entre PS e PSD a duas semanas das eleições. Apesar de tudo, não estou muito convencido do desempenho eleitoral do PSD. O PS está a oito pontos da maioria absoluta de 2005. Está a pagar o facto de ter alienado o seu eleitorado natural, julgando que a direita lhe ia cair nos braços. Já se sabe que não vai. Mas no quadro da sondagem, onde o PS tem 37% dos votos e PSD+CDS obtêm 41%, o papel dos derrotados do 25 de Novembro de 1975 (BE e PCP) pode ser decisivo na governabilidade do país. Segundo a sondagem quase 20% dos eleitores estão dispostos a dar o seu voto à esquerda do PS. Neste momento, são eles que lideram as eleições.

Jornal Torrejano, 11 de Setembro de 2009


On-line está já a edição de 11 de Setembro de 2009 do Jornal Torrejano. Se clicar aqui, vai até .

10/09/09

Optimismo e educação

Sócrates diz que as coisas estão a melhorar. Os gramas que retiraram o país da recessão técnica são o combustível do optimismo com o qual o eng.º Sócrates pretende inundar a pátria, nesta época pós-estival. Mas não há optimismo que o seja se não estiver escorado numa reforma educativa. A educação está para o optimismo como a febre e a diarreia estão para a gripe A. Por isso, Jaime Gama e José Sócrates não se cansaram de lembrar as magníficas reformas do governo na área educativa ou a supina importância da educação para os destinos da pátria. Há uma coisa, porém, que está efectivamente a melhorar: o clima para a reeleição de Sócrates. Há qualquer coisa muito desagradável no ar. As oposições parecem estar a perder gás. Posso estar muito enganado, mas os tempos não são os de Ferreira Leite, nem Ferreira Leite pertence já a este tempo.

Materiais de Construção - 1. Vidro


sombra de areia
luz de vitral
jogo de quartzo
casa de sal


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No averomundo, inicia-se hoje a publicação de um ciclo de pequenos poemas, com o título Materiais de Construção. Os poemas são constituídos apenas por uma estrofe de quatro versos tetrassílabos ou pentassílabos. As traduções não desaparecerão, mas o seu ritmo de publicação tornar-se-á mais lento.

Uma viagem no Barroco - 05 Heinrich Ignaz Franz Biber - "Missa Salisburgensis" - Kyrie (1644 - 1704).

Heinrich Ignaz Franz Biber - Missa Salisburgensis - Kyrie



A sugestão de hoje, nesta viagem pelo barroco musical, é o extraordinário Kirye da Missa Salisburgensis, do compositor boémio-austríaco Heinrich Ignaz Fraz Biber. Biber é um dos grandes compositores para violino. Esta interpretação da Missa Salisburgensis é do Musica Antiqua Köln, dirigido por Reinhard Goebel, e Gabrieli Consort & Players, dirigido por Paul McCreesh. Se me fosse permitida uma sugestão, não deixaria de recomendar vivamente as Mystery Sonatas, de Biber.

Da necessidade da conservação

Esta retórica da esquerda dá-me vontade de vomitar. Em primeiro lugar, pelo mero motivo que tende a diabolizar a conservação. Ser conservador, hoje em dia e num mundo tão perecível, é fundamental. As dinâmicas sociais introduzidas pelo capitalismo, entre elas a destruição das famílias, apelam a um pensamento conservador. Este não é reaccionário. Pelo contrário, pode até ser um lugar onde se faça frente à voragem introduzida pela vida económica. Em segundo lugar, não compreendo por que razão terá a esquerda de ser a favor do casamento homossexual, por que motivo terá ela de transformar uniões de facto numa espécie de casamento subreptício, por que há-de criar ainda mais condições para legitimar a pulverização das famílias tradicionais provocada pelo desenvolvimento capitalista? Nunca compreendi o fascínio da esquerda pelo niilismo das causas fracturantes. A esquerda ainda não percebeu que a sua grande função é conservar algumas das construções que a humanidade tem feito? O capitalismo, esse sim, é revolucionário. Vive da morte e da destruição que toda a inovação representa. Precisa de um contraponto e esse só o vejo num pensamento efectivamente conservador.

Pensamento único

A SIC, num daqueles devaneios românticos que, em épocas eleitorais, chegam às redacções das televisões, achou por bem mostrar os chefes partidários naquilo a que chamam a vida para além da política. Não tinha visto nenhum desses programas, mas ontem, devido ao Hungria - Portugal, acabei por ir para a frente do televisoro e ver o programa referente a Francisco Louçã. A reportagem sobre a suposta vida privada de dirigentes públicos é entrecortada pelos comentários de dois supostos especialistas. No caso, o antigo jornalista Mário Bettencourt Resendes e um especialista de marketing ou de comunicação, um Duarte qualquer coisa (este qualquer coisa não é irónico, apenas não consigo recordar o nome do senhor). Os comentários de ontem roçaram o ridículo, pois a única coisa que transpareceu foi o desejo de ambos mostrarem bem que não votarão em Louçã, coisa aliás muito legítima, mas sem nexo na situação e na função em que se encontravam. Mas o patético deu-se quando o tal Duarte qualquer coisa não apenas fica espantado que o dr. Louçã tenha escrito tantos livros (será possível um esquerdista escrever tantos livros?), como ainda se atreve a perguntar se é plausível que, num mundo de economia global, os alunos da Universidade respeitem o professor Louçã, com as suas ideias. Pasmei! Como é possível achar que só há uma maneira de pensar a economia, como se ela fosse uma espécie de mecânica clássica, cujas leis eram tidas como universais? Como é possível não saber que, em muitas Universidades das mais reputados da Europa e dos EUA, existem grandes professores de Economia de extracção marxista, como o dr. Louçã? Pode-se não gostar de Francisco Louçã, e eu não gosto particularmente, mas dizer coisas destas revela o quê?

Para os mais distraídos

Para os mais distraídos. Quem pensava que o apertar orçamental era coisa do passado, o senhor Trichet veio lembrar o credo que anima a sua fé. Por cá, mal acabe a pandemia eleitoral, voltará a retórica da consolidação orçamental, da redução do défice, da perseguição aos funcionários públicos, talvez aumentos mais ou menos encapotados de impostos, embora o senhor Trichet ache já são demasiados, etc., etc. Independentemente de quem ganhar as eleições, voltará a velha política, aquela que Sócrates andou a vender durante quase todo o mandato, seja pela mão do próprio, seja pela da dr.ª Ferreira Leite. Portanto, preparemo-nos.

Top ten


Eu sei que é desagradável, que deixa alguma gente indisposta, mas o glorioso, no século passado, fez parte do top ten do futebol europeu. O pior é o século XXI, mas ainda há 90 anos para assegurar a manutenção.

09/09/09

Uma viagem no Barroco - 04 Jean Baptiste Lully - Ballet de Arts, 1. L´Agriculture (1632 - 1687).

Jean Baptiste Lully - Ballet de Arts, L´Agriculture I

Uma visão pastoral do éden, onde pastores e pastoras vivem em paz e em felicidade. Esta temática é já fundamental no Renascimento e no período de nascimento da Ópera. Nietzsche, em Origem da Tragédia, não se cansa de mostrar o ridículo que seria estabelecer uma identidade entre o estado de natureza pastoral e aquele que representariam os míticos sátiros, adoradores de Diónisos. Com a transição e sedimentação do Barroco, o idílio pastoral não desaparece. Aqui temos uma emergência dessa cosmovisão numa peça do compositor francês Jean-Baptiste de Lully. Mas curiosamente a obra denomina-se Ballet des Arts, sendo a primeira a Agricultura. Na obra encontramos outras artes, desde a caça à guerra, passando pela ourivesaria ou a cirurgia. Eram os tempos modernos que se afirmavam.

Aproximações

Segundo o inquérito Transatlantic Trends 2009, as opiniões públicas europeias estão mais próximas de Obama do que estavam de Bush, embora menos entusiásticas as dos países da Europa central e de leste. Percebe-se pelo carisma do presidente americano, por uma aparente inflexão na política externa, mais retórica do que real e, um dado que não deve ser subestimado, pelas preocupações internas de Obama com o serviço nacional de saúde, algo que os cidadãos da velha Europa prezam e cuja destruição, por ventos vindos do outro lado do Atlântico, é temida. É como se Obama, com a sua política de saúde, se quisesse chegar mais à Europa.

Curioso nos resultados é a reacção dos portugueses, contrariamente aos europeus e mais próxima dos americanos, aos gastos governamentais com a crise financeira. Importante seria saber qual o peso que a intervenção do Estado no BPN, e a própria crise do BPP, têm na opinião dos portugueses.

Um retrato

Um retrato fiel do país. Até ao final do ano o fisco vai vender 75 000 automóveis penhorados em execução fiscal. Pensar que isto é o resultado da crise financeira e económica internacional seria prova de ingenuidade. O cruzamento de fisco por pagar e automóveis é uma expressão da natureza lusitana. Os deveres fiscais são coisas incompreensíveis, boas para os tansos, mas nada melhor do que um automóvel para comprovar o sucesso na vida. Ambas as coisas são, porém, a capa de uma realidade mais substancial, a nossa atávica pobreza. Gostamos de viver como europeus desenvolvidos, mas não gostamos de estudar, trabalhar e pensar à sua maneira. De certa forma, acha-se que se tem direito a tudo, sem deveres para nada.

Robert Frost - Dust of Snow

Robert Frost

Continuamos na poesia norte-americana. Hoje, um poema de Robert Frost (1874 - 1963), Dust of Snow (Flocos de neve)

The way a crow
Shook down on me
The dust of snow
From a hemlock tree

Has given my heart
A change of mood
And saved some part
Of a day I had rued.

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Na rua um corvo
Sobre mim sacudiu
Os flocos de neve
De um abeto frio

Deu-se no coração
Uma mudança de ar
E salvou-se parte
De uma dia de penar.

08/09/09

A grande batalha destas eleições

Contrariamente ao que parece, a grande batalha política destas eleições não se trava entre PSD e PS. Trava-se à esquerda, trava-se pela redefinição do peso específico de cada uma das partes que constituem essa esquerda. A entrevista de Jerónimo de Sousa, ao Público, é sintomática das esperanças que habitam no coração da esquerda que, nos últimos trinta anos, esteve arredada da condução do país. A possibilidade de acordo com o PS é uma questão académica, diz o líder comunista, mas há questões académicas que se tornam, em conformidade com as circunstâncias, em questões reais. Basta para tal uma maioria muito relativa do PS, um reforço substancial dos partidos à sua esquerda, um parlamento claramente inclinado à esquerda. Esta possibilidade, porém, pode conduzir a um acordo à esquerda, mas também pode fracturar o Partido Socialista. Noutras circunstâncias, os socialistas inclinaram-se para a direita (CDS e PSD), mas hoje será isso possível? À esquerda, a correlação de forças, expressão tão do agrado do PCP, traz uma esperança de demover os corações socialistas. E não nos esqueçamos de uma coisa, o PCP sabe muito bem como e onde há-de ceder para ganhar alguma coisa.

Dias felizes

8 de de Setembro de 1958