24/09/09

O que se aproxima



Nova sondagem, agora com o método de simulação de voto em urna fechada. O PS ainda pode ter maioria absoluta? Pode, a sua campanha, altamente profissional, está num crescendo. O PSD acabou. Está atado à asfixia democrática, à demissão do assessor do Presidente, à ausência de uma alternativa política diferente da do PS, à obscuridade de um programa vazio, do qual as pessoas tiveram medo. Nem a prestação de Ferreira Leite nos Gatos Fedorentos lhe salva a alma. Bloco e PCP ficaram presos às nacionalizações. Essa história vai custar-lhe muitos votos. Pode ser que Paulo Portas salve a alma. Talvez lhe esteja reservado um papel maior do que os votos que terá. Como sempre, o PS, na altura dos votos, namora à esquerda, e na altura da governação deita-se com a direita, se precisar. Caso não precise, o onanismo basta-lhe. Um resumo das várias sondagens aqui.

Geoffrey Hill . The Minor Prophets

Geoffrey Hill (1932 - )
Joel in particular; between the Porch
and the Altar – something about dancing
or not dancing. No, weeping; but in the Bible
there’s só much about dance; often of ill omen;
the threats of scorched earth and someone who resembles
the Scorpion King. They should film Joel:
A fire devoureth before them; and behind
them a flame burneth.

[The Minor Prophets, in A Treatise of Civil Power]

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Joel em particular; entre o Pórtico
e o Altar – qualquer coisa sobre dançar
ou não dançar. Não, o pranto; mas na Bíblia
há tanto sobre dançar; muitas vezes de mau presságio;
as ameaças da terra devastada e de alguém que parece
o Rei Escorpião. Deviam filmar Joel:
um fogo devorador à sua frente; e atrás
uma chama a arder.

Afinal, foi o vate

Afinal, foi o vate que uniu o Partido Socialista e gerou esta suposta onda de vitória esmagadora. Quem o diz é Alberto Martins. É provável que a participação de Alegre na campanha tenha feito estragos no pretenso eleitorado bloquista. Mas a fidelidade de Manuel Alegre a Sócrates, pois é disso, e não de outra coisa, que se trata, que compensações lhe trará? Uma governação mais à esquerda? Nem os mais angélicos o crêem. Se os socialista de Sócrates obtiverem uma maioria absoluta, tornarão a fazer aquilo que nem a direita sonha. Uma porta aberta para uma candidatura a Belém? Mas depois da história das escutas, a candidatura à esquerda passou a ser muito apetecível. Por exemplo, Guterres não andará já cansado de tanto refugiado? Talvez tenha chegado o tempo de Manuel Alegre se deixar de política. Escreva uma auto-biografia, por exemplo.

Sorrisos no Largo do Rato

Se estes resultados não estão muitos desfasados da realidade, então os socialistas ainda podem acreditar numa maioria absoluta. A campanha, que tem roçado a pura nulidade, tem-lhes corrido bem. O PSD afundou-se na obscuridade do seu programa, no facto de não dizer ao que vinha, de não apresentar nada de consistentemente diferente do PS. De facto, o grande drama do PSD é que Sócrates seria o seu chefe natural, mas ele está noutro sítio. Por outro lado, o embate entre Sócrates e Louçã fez mais estragos no BE do que aquilo que se dá a entender. Conheço gente, da classe média, que estava para votar BE e que, após o debate, decidiram votar PS. E de onde vêm os eleitores do BE? Da classe média. Sócrates foi um péssimo governante, mas em campanha é bastante bom. A máquina do PS está muito afinada e ali ninguém brinca aos políticos. Querem o poder e querem-no a sério. As sondagens são um espelho disso, e ainda falta o rebatimento da decisão presidencial de despedir o assessor para a comunicação. Será que vamos ter estes senhores mais quatro anos com maioria absoluta? Há sorrisos no Largo do Rato, e estão já a encomendar o champanhe.

23/09/09

Social-democracia

Não sei o que se passa comigo, mas hoje estou destinado a estar de acordo com Louçã e Jerónimo de Sousa. É evidente que se o PSD ganhar as eleições não virá mal maior ao país do que se for o PS. Não voltaríamos ao fascismo - o que seria isso nos dias de hoje? - nem a uma situação de irrisão da democracia maior do que aquela em que se vive hoje. O papão do fascismo lançado pelos socialistas é tão credível quanto parece ser a história das escutas. Mas o que há a sublinhar é a natureza tão cordata, tão social-democrata, de Jerónimo de Sousa. No fundo, o regime é uma espécie de união nacional social-democrata, ora com tonalidades mais populares-cristãs, ora com pinturas mais marxistas, mas no fundo tudo gente cordata, amiga do Bernstein e do renegado Kautsky. Não quer dizer que uns não sonhem em ser liberais e outros revolucionários, mas a fazenda não dá para outro fato que não o social-democrata. Um dia destes, ainda veremos, com toda a naturalidade, o PCP e o BE no governo da nação. Acho que já faltou mais.

A crise mais grave

Por muito que não se goste de Louçã, e eu não sou um particular adepto do estilo e das ideias, aquilo que Louçã diz sobre o Presidente faz todo o sentido. Já vi insultos na blogosfera e nos comentários nos jornais on-line, mas é como matar o mensageiro por causa da desagradável mensagem que traz. Seja o que for o que se passa é muito grave. O silêncio de Cavaco é inexplicável. A continuidade de Cavaco em Belém, continuidade escorada na força e autoridade política incontestável, está dependente daquilo que ele tiver a dizer sobre o despedimento de Fernando Lima. Só isso. Pelo menos nisto, estou de acordo com o líder do BE. E há uma coisa que aqueles que gostam muito de falar na crise do regime agora não dizem. Esta crise, que tem a Presidência no epicentro, é a mais grave de toda a vida do regime.

Nunca mais acaba

Nunca mais acaba. Deve ser este o pensamento da dr.ª Ferreira Leite. Uma campanha difícil, uma campanha onde nada de importante a separava do seu adversário directo, uma campanha fundada essencialmente na oposição pessoal, uma campanha centrada em irrelevâncias. Agora, a dias do fim, quando as coisas não estavam nem bem nem mal, a decisão do presidente tornou negro o cenário. Neste momento, haverá já muito gente, no Largo do Rato, a sonhar com maiorias absolutas. Portanto, o desespero não está no PS. Aí pode haver exaltação, o retorno da arrogância, os dentes que começam a sair da boca. Desespero tem uma tonalidade mais laranja. Bom seria que o PSD tentasse, nestes três dias, centrar a campanha em algo mais substancial. O problema é que ninguém descortina o quê. O mais grave é que Sócrates não só ganha estas eleições, como fica numa posição tal que, mesmo com maioria relativa, terá espaço de manobra suficiente para enfrentar novas eleições, daqui a dois anos, caso sejam convocadas devido à instabilidade política que possa advir destas. Há um problema no PSD. Durante o consulado de Cavaco criou-se no espírito dos militantes do partido a ideia de que tinham um direito divino a exercerem o poder. Isso ainda não lhes passou. Mas se, para a época, a máquina política do PSD era relativamente profissional, hoje em dia, como se tem visto, não passa de um conjunto de diletantes, a brincar aos políticos contra gente que leva o poder demasiado a sério.

Xeque ao rei

Têm razão Pacheco Pereira e Luís Filipe Menezes. De facto, Cavaco Silva está, com a demissão de Lima e o silêncio subsequente, a interferir na campanha, e a interferir, neste caso, auxiliando os socialistas. O problema, porém, é que o seu silêncio anterior, para não dizer a sua posição equívoca, sobre as supostas escutas da sua casa civil era também uma interferência, uma interferência que favorecia objectivamente o PSD e a tese da asfixia democrática. Nessa altura, ninguém no PSD achou que havia interferência. Mas Cavaco demitiu Fernando Lima e remete-se, agora, ao silêncio porque a isso foi obrigado. O jogo mudou de feição, o adversário foi mais talentoso e colocou o Presidente numa situação muito incómoda. Quem observa de fora percebe que Cavaco está refém do governo (aqui, por exemplo). A benevolência com que os dirigentes do Partido Socialista estão a tratar o assunto publicamente não significa outra coisa. Porque ou Cavaco tem ainda um trunfo na mão e demonstra que estava efectivamente sob vigilância - mas como se explicaria então a demissão de Fernando Lima? -, ou então a sua posição no xadrez político é muito frágil, demasiado frágil. Poder-se-á dizer que os socialistas deram um ameaçador xeque ao rei. Não foi um xeque-mate, mas é muito duvidoso que o sacrifício de um peão seja suficiente para salvar a corte.

22/09/09

Não é verdade

Não podia dizer outra coisa, mas o que diz não é verdade. A demissão de Fernando Lima e o silêncio do Presidente da República prejudicam directamente a campanha do PSD. A dr.ª Ferreira Leite podia não estar a falar do caso das supostas escutas a Belém, mas a verdade é que a opinião pública vai ligar com muita facilidade o caso aos interesses eleitorais do PSD, até porque a suspeição das escutas, mesmo que nunca se falasse disso abertamente, era um exemplo que estava na mente dos eleitores para exemplificar a célebre asfixia democrática. Mas as aparências mudaram. Sócrates não surge como vilão, mas como vítima, e Manuela Ferreira Leite dificilmente, neste jogo de espelhos, se livrará de ser vista como beneficária da suposta vilania de que Sócrates é alvo. Começamos todos a perceber que esta campanha eleitoral é das mais sujas de que há memória. Seja como for, Sócrates recebeu uma dádiva com a demissão de Fernando Lima. Isso afecta o PSD.

Duas questões

Este editorial do Público deveria separar duas coisas. Por um lado, estão as questões de deontologa da profissão de jornalista e o comportamento das várias partes comunicacionais, digamos assim, envolvidas. Aí, porém, não basta bater no DN. É preciso explicar muitas coisas, nomeadamente por que razão um assessor político, não interessa de quem, tem o caminho tão aberto para soprar na orelha de jornalistas supostos factos. Ninguém acha que isto deva ser explicado, porque toda a gente pensa que isso é o pão nosso de cada dia. A comunicação social sai deste episódio bastante mal e não é só o DN, sublinhe-se de novo. O Público não sai melhor.

Por outro lado, há o caso do Presidente. A demissão de Fernando Lima não explica nada. Como as coisas estão, o Presidente terá de esclarecer se sabia ou não da missão de Fernando Lima, há 18 meses atrás. Caso não soubesse, não se percebe a razão por que não desmentiu os rumores que circulavam, tendo mesmo um comportamento ambíguo. Caso soubesse, terá de explicar por que agiu dessa maneira. As alternativas não são muito simpáticas. Ou participou numa invenção com vista a prejudicar uma das partes do jogo político, e aqui Cavaco Silva a única coisa que tem a fazer é abandonar a presidência, ou está profundamente convencido de que algo anormal aconteceu e que as instituições já não funcionam de forma regular para assegurar uma investigação independente, e aqui estamos num quadro em que a democracia já não funciona. Ora o papel do Presidente é assegurar o normal funcionamento das instituições. Resumo: ou ignorância dos factos e comportamento pouco sensato; ou participação numa invenção que põe em causa a normal disputa partidária; ou um quadro geral de perversão e dissolução das instituições. Seja qual for a realidade, Cavaco Silva tem de se explicar rapidamente. Quanto mais tempo demorar, mais o capital de confiança que o rodeava se diluirá.

21/09/09

Deveria estar grata

Não percebo o azedume da dr.ª Manuela Ferreira Leite com o dr. Mário Soares. Ela deveria estar agradecida. As acusações de Mário Soares, ao chamar-lhe ou fanática ou irresponsável, são tão inverosímeis que acabam por jogar a favor da candidata do PSD. Aliás, a gratidão deveria ser imensa, pois o azedume de Soares para com ela acaba por compensar uma parte daquilo que ela vai perder com a demissão de Fernando Lima e o desenvolvimento do caso das escutas ao Presidente. Com a asfixia democrática atingida com um tiro no porta-aviões, não há nada melhor do que ser vítima da pesporrência dos adversários. Em vez de mandar recados, deveria estar grata.

Para quê?

O afastamento de Fernando Lima, por Cavaco Silva, da assessoria para a comunicação social deveu-se a quê? Terá sido Fernando Lima incompetente ao deixar demasiadas pegadas no seu caminho? Terá sido despudoradamente inventivo e criado uma ficção para criar problemas ao primeiro-ministro? Será apenas o bode expiatório, aquele que deverá "morrer" pela salvação de outros? Tudo isto é possível, mas há uma coisa que parece clara. Ao despedir Fernando Lima no momento em que o faz, Cavaco dá uma ajuda à campanha de Sócrates e abre mais uma ferida na campanha do PSD. A história das escutas presidenciais fazia parte do cenário da asfixia democrática no continente. Esta decisão presidencial mostra um continente menos asfixiado na democracia. Sócrates agradece, mas há uma coisa que fica por esclarecer. Não tanto o porquê da decisão, mas o para quê. Cavaco não é pessoa para dar ponto sem nó. O que pretende ele com este acto? Libertou-se de Lima para quê?

20/09/09

Irrelevância

Eu sei que foi uma infeliz conjugação de acasos e de boas vontades de amigos de há muitos anos, talvez nem tão boas quanto isso, de me inserir num círculo mais amplo de debate filosófico que me levaram a isto. Estou, devido a um compromisso assim arranjado, a escrever um artigo sobre o Protágoras, de Platão. Melhor, estou a escrever o artigo a partir dele, do mito que o sofista narra para justificar que a excelência política (aretē) pode e dever ser ensinada. A única coisa que eu constatei até agora, depois de ter o artigo esboçado e de o estar a redigir na forma final, é a irrelevância das minhas ideias sobre o assunto que me propus escrever. A única coisa para que servirá o artigo é para aumentar o lixo publicado. Não fora tão complacente, teria dito não. Não à participação no projecto (cheguei a dar uma aula na Faculdade de Ciências sobre o assunto), não à escrita do artigo, não à contribuição para o aumento da poluição cognitiva que infesta este malfadado planeta. Tão irrelevante como este artigo é aquilo que escrevo por aqui. A única coisa que, neste caso, não me condena em absoluto é que o que escrevo no blogue não é publicado em papel. Não contribuo para desflorestação do planeta. Valha-me isso.

O astro

Muitos são os dotes do dr. Paulo Portas, mas agora descobrimos a sua verdadeira natureza. Uma maioria silenciosa pensa como ele, diz. Como sabe? Se essa maioria é silenciosa, não fala, não se exprime, não comunica. Só os dotes telepáticos do dr. Portas podem explicar tal sabedoria. Aquela olhar profundo não é outra coisa senão uma espécie de insight na mente dos eleitores. Portanto, o dr. Portas é, mais do que um chefe político, um verdadeiro telepata, e o melhor mesmo, se quer preservar os seus segredos mais íntimos, é não se cruzar com tamanho astro da vidência.

19/09/09

Simónides de Céos


A pintura é uma poesia silenciosa e a poesia, uma pintura que fala.

Quem semeou ventos...

Eis uma proeza de Sócrates e de Lurdes Rodrigues. Conseguiram uma manifestação não apenas contra o governo mas contra o próprio Partido Socialista. Partidarizaram, pela negativa, toda uma classe profissional. Professores calculam, distrito a distrito, qual o voto útil contra o PS. Esta manifestação, como esse cálculo, nunca deveriam acontecer, não porque não façam sentido - fazem-no até demais - mas porque as políticas educativas que os geraram, e geraram o ódio de um sector profissional ao partido que teria mais apoio dentro desse sector, nunca deveriam ter sido sequer pensadas, quanto mais postas em execução. Diferentemente de muitas outras manifestações, os 1500 ou 2000 professores que se manifestaram hoje em Lisboa representam o pensamento de mais de 95% do professorado. Enquanto professor, desejo um tempo em que cada um de nós possa tornar a optar segundo uma óptica não corporativa, optar segundo a sua visão da sociedade e do bem comum, onde a educação seja apenas uma vertente do voto. Mas os portugueses deverão perceber aquilo que foi feito. Os professores foram escolhidos, pelo governo do Partido Socialista, para serem o bode expiatório, cujo sacrifício deveria redimir a pátria, no pequeno pensamento dos conselheiros estratégicos do governo. E enquanto a opinião pública parecia dar cobertura aos desmandos do governo na educação, não faltou voz forte, punho de aço, humilhação das pessoas, não faltou um clima de desprezo e de ódio ao professor do ensino público. A proletarização dos professores (um dos objectivos do governo), a reforma "compulsiva" de muitos dos mais velhos (outro dos objectivos da agenda "oculta"), a criação de uma estrutura burocrática pesada dentro das escolas para justificar a divisão da profissão em duas, as medidas de irresponsabilização dos estudantes, a entrega não muito subrepetícia das escolas à voragem dos políticos locais são motivos mais do que suficientes para os professores terem um objectivo negativo no acto eleitoral: fazer perder o maior número de votos possível ao partido do governo. Isto nunca deveria acontecer. Mas aquelas políticas, cujo fim último é fazer da escola pública um serviço de terceira categoria, muito menos. Votar contra o PS tornou-se não apenas um imperativo que visa defender os professores, mas também e fundamentalmente um imperativo que visa defender aqueles que justificam a existência de professores, os alunos. Quem semeou ventos...

Jogos florais

Vejamos se percebemos o que está dito aqui: «O mesmo artigo (do Correio da Manhã) acrescenta ainda que "o assunto não foi tratado nem ao nível do Ministério Público nem da Polícia Judiciária, por a Presidência da República entender que as mesmas poderiam não garantir a 'confidencialidade' do acto".» Não há nada a explicar? Se o próprio Presidente da República desconfia da Polícia Judiciária e do Ministério Ppúblico, como poderão pensar de maneira diferente os cidadãos? Esta nota de rodapé, dentro da balbúrdia da campanha eleitoral, não é coisa sem importância. O mais alto magistrado da nação desconfia dos órgãos de investigação, da sua capacidade de manterem o segredo. Mas o que transparece é que a expressão "confidencialidade do acto" é apenas uma metáfora. A política, em Portugal, está tornar-se numa sessão de jogos florais, onde a linguagem vai da ironia para a metáfora, desta de novo para a ironia, como se o exercício tropológico fosse a máscara para o medo de dizer o que se pensa.

Confirmações

Esta nova sondagem confirma várias coisas, apesar de ligeiramente diferente das anteriores. Em primeiro lugar, o PS está longe da maioria absoluta. Mesmo que ganhe as eleições, ficará à mercê das circunstâncias. Em segundo lugar, o PSD não arranca de onde estava, pouco ganha com a contestação a Sócrates. Por fim, o BE perfila-se como o mais provável vencedor das eleições, mesmo que fique em terceiro e pouco acima dos 10%.

As alternativas



Depois de ler este e-mail, não importa que já tenha 17 meses, e de ler isto, e mais isto, e ainda isto, para além das reacções dos partidos parlamentares e do próprio Público, parece que alguma coisa se está a passar. Ou temos um Presidente paranóico, e por isso deveria demitir-se, ou um governo perverso, que, sendo-o, deveria ser demitido, ou assessores e jornalistas com uma imaginação delirante, que, se asim for, deveriam ser despedidos. Ou então somos todos tontos, e o melhor será entregar isto a um agência internacional dedicada à protecção de animais de circo. Mas como tudo isto se passa em Portugal, quando acabar a batalha eleitoral, fortemente acintosa, como muito bem nota Vasco Pulido Valente, tudo acabará como se não tivesse acontecido nada.

18/09/09

Um retrato do país

"Estudo conclui que maiores hospitais do SNS são ineficazes e sugere que as reformas do Governo podem não estar a seguir o melhor caminho". A saúde em Portugal tornou-se um verdadeiro drama. Quem não tem dinheiro para recorrer à caríssima medicina privada, a generalidade dos portugueses, sujeita-se àquilo que os serviços públicos têm para dar. E o que têm para dar é cada vez menos. Por exemplo, como terá evoluído o número de pessoas sem médico de família (neste concelho, parece ter aumentado substancialmente)? Depois, a política de concentração seguida está a esvaziar muitas unidades hospitalares e a criar monstros de ineficácia. Por fim, nem para isto há sequer dinheiro (isto, por exemplo), pois mesmo os serviços que se prestam, com os atrasos e condições que se conhecem, custam uma fatia orçamental excessiva para o país. O Serviço Nacional de Saúde sempre foi o retrato fiel do país que somos. Os interesses que o sugam, aqueles que gostavam de se apoderar das unidades de saúde, a incapacidade de organizar e tornar eficiente uma instituição do bem comum, o drama das gentes que apenas a ele podem recorrer. No meio de tudo isto, há milhares de excelentes profissionais que devem desesperar da situação a que se chegou, há vocações desgastadas pela ineficácia e pela intromissão constante dos reformadores.