11/09/09

Jornal Torrejano, 11 de Setembro de 2009


On-line está já a edição de 11 de Setembro de 2009 do Jornal Torrejano. Se clicar aqui, vai até .

10/09/09

Optimismo e educação

Sócrates diz que as coisas estão a melhorar. Os gramas que retiraram o país da recessão técnica são o combustível do optimismo com o qual o eng.º Sócrates pretende inundar a pátria, nesta época pós-estival. Mas não há optimismo que o seja se não estiver escorado numa reforma educativa. A educação está para o optimismo como a febre e a diarreia estão para a gripe A. Por isso, Jaime Gama e José Sócrates não se cansaram de lembrar as magníficas reformas do governo na área educativa ou a supina importância da educação para os destinos da pátria. Há uma coisa, porém, que está efectivamente a melhorar: o clima para a reeleição de Sócrates. Há qualquer coisa muito desagradável no ar. As oposições parecem estar a perder gás. Posso estar muito enganado, mas os tempos não são os de Ferreira Leite, nem Ferreira Leite pertence já a este tempo.

Materiais de Construção - 1. Vidro


sombra de areia
luz de vitral
jogo de quartzo
casa de sal


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No averomundo, inicia-se hoje a publicação de um ciclo de pequenos poemas, com o título Materiais de Construção. Os poemas são constituídos apenas por uma estrofe de quatro versos tetrassílabos ou pentassílabos. As traduções não desaparecerão, mas o seu ritmo de publicação tornar-se-á mais lento.

Uma viagem no Barroco - 05 Heinrich Ignaz Franz Biber - "Missa Salisburgensis" - Kyrie (1644 - 1704).

Heinrich Ignaz Franz Biber - Missa Salisburgensis - Kyrie



A sugestão de hoje, nesta viagem pelo barroco musical, é o extraordinário Kirye da Missa Salisburgensis, do compositor boémio-austríaco Heinrich Ignaz Fraz Biber. Biber é um dos grandes compositores para violino. Esta interpretação da Missa Salisburgensis é do Musica Antiqua Köln, dirigido por Reinhard Goebel, e Gabrieli Consort & Players, dirigido por Paul McCreesh. Se me fosse permitida uma sugestão, não deixaria de recomendar vivamente as Mystery Sonatas, de Biber.

Da necessidade da conservação

Esta retórica da esquerda dá-me vontade de vomitar. Em primeiro lugar, pelo mero motivo que tende a diabolizar a conservação. Ser conservador, hoje em dia e num mundo tão perecível, é fundamental. As dinâmicas sociais introduzidas pelo capitalismo, entre elas a destruição das famílias, apelam a um pensamento conservador. Este não é reaccionário. Pelo contrário, pode até ser um lugar onde se faça frente à voragem introduzida pela vida económica. Em segundo lugar, não compreendo por que razão terá a esquerda de ser a favor do casamento homossexual, por que motivo terá ela de transformar uniões de facto numa espécie de casamento subreptício, por que há-de criar ainda mais condições para legitimar a pulverização das famílias tradicionais provocada pelo desenvolvimento capitalista? Nunca compreendi o fascínio da esquerda pelo niilismo das causas fracturantes. A esquerda ainda não percebeu que a sua grande função é conservar algumas das construções que a humanidade tem feito? O capitalismo, esse sim, é revolucionário. Vive da morte e da destruição que toda a inovação representa. Precisa de um contraponto e esse só o vejo num pensamento efectivamente conservador.

Pensamento único

A SIC, num daqueles devaneios românticos que, em épocas eleitorais, chegam às redacções das televisões, achou por bem mostrar os chefes partidários naquilo a que chamam a vida para além da política. Não tinha visto nenhum desses programas, mas ontem, devido ao Hungria - Portugal, acabei por ir para a frente do televisoro e ver o programa referente a Francisco Louçã. A reportagem sobre a suposta vida privada de dirigentes públicos é entrecortada pelos comentários de dois supostos especialistas. No caso, o antigo jornalista Mário Bettencourt Resendes e um especialista de marketing ou de comunicação, um Duarte qualquer coisa (este qualquer coisa não é irónico, apenas não consigo recordar o nome do senhor). Os comentários de ontem roçaram o ridículo, pois a única coisa que transpareceu foi o desejo de ambos mostrarem bem que não votarão em Louçã, coisa aliás muito legítima, mas sem nexo na situação e na função em que se encontravam. Mas o patético deu-se quando o tal Duarte qualquer coisa não apenas fica espantado que o dr. Louçã tenha escrito tantos livros (será possível um esquerdista escrever tantos livros?), como ainda se atreve a perguntar se é plausível que, num mundo de economia global, os alunos da Universidade respeitem o professor Louçã, com as suas ideias. Pasmei! Como é possível achar que só há uma maneira de pensar a economia, como se ela fosse uma espécie de mecânica clássica, cujas leis eram tidas como universais? Como é possível não saber que, em muitas Universidades das mais reputados da Europa e dos EUA, existem grandes professores de Economia de extracção marxista, como o dr. Louçã? Pode-se não gostar de Francisco Louçã, e eu não gosto particularmente, mas dizer coisas destas revela o quê?

Para os mais distraídos

Para os mais distraídos. Quem pensava que o apertar orçamental era coisa do passado, o senhor Trichet veio lembrar o credo que anima a sua fé. Por cá, mal acabe a pandemia eleitoral, voltará a retórica da consolidação orçamental, da redução do défice, da perseguição aos funcionários públicos, talvez aumentos mais ou menos encapotados de impostos, embora o senhor Trichet ache já são demasiados, etc., etc. Independentemente de quem ganhar as eleições, voltará a velha política, aquela que Sócrates andou a vender durante quase todo o mandato, seja pela mão do próprio, seja pela da dr.ª Ferreira Leite. Portanto, preparemo-nos.

Top ten


Eu sei que é desagradável, que deixa alguma gente indisposta, mas o glorioso, no século passado, fez parte do top ten do futebol europeu. O pior é o século XXI, mas ainda há 90 anos para assegurar a manutenção.

09/09/09

Uma viagem no Barroco - 04 Jean Baptiste Lully - Ballet de Arts, 1. L´Agriculture (1632 - 1687).

Jean Baptiste Lully - Ballet de Arts, L´Agriculture I

Uma visão pastoral do éden, onde pastores e pastoras vivem em paz e em felicidade. Esta temática é já fundamental no Renascimento e no período de nascimento da Ópera. Nietzsche, em Origem da Tragédia, não se cansa de mostrar o ridículo que seria estabelecer uma identidade entre o estado de natureza pastoral e aquele que representariam os míticos sátiros, adoradores de Diónisos. Com a transição e sedimentação do Barroco, o idílio pastoral não desaparece. Aqui temos uma emergência dessa cosmovisão numa peça do compositor francês Jean-Baptiste de Lully. Mas curiosamente a obra denomina-se Ballet des Arts, sendo a primeira a Agricultura. Na obra encontramos outras artes, desde a caça à guerra, passando pela ourivesaria ou a cirurgia. Eram os tempos modernos que se afirmavam.

Aproximações

Segundo o inquérito Transatlantic Trends 2009, as opiniões públicas europeias estão mais próximas de Obama do que estavam de Bush, embora menos entusiásticas as dos países da Europa central e de leste. Percebe-se pelo carisma do presidente americano, por uma aparente inflexão na política externa, mais retórica do que real e, um dado que não deve ser subestimado, pelas preocupações internas de Obama com o serviço nacional de saúde, algo que os cidadãos da velha Europa prezam e cuja destruição, por ventos vindos do outro lado do Atlântico, é temida. É como se Obama, com a sua política de saúde, se quisesse chegar mais à Europa.

Curioso nos resultados é a reacção dos portugueses, contrariamente aos europeus e mais próxima dos americanos, aos gastos governamentais com a crise financeira. Importante seria saber qual o peso que a intervenção do Estado no BPN, e a própria crise do BPP, têm na opinião dos portugueses.

Um retrato

Um retrato fiel do país. Até ao final do ano o fisco vai vender 75 000 automóveis penhorados em execução fiscal. Pensar que isto é o resultado da crise financeira e económica internacional seria prova de ingenuidade. O cruzamento de fisco por pagar e automóveis é uma expressão da natureza lusitana. Os deveres fiscais são coisas incompreensíveis, boas para os tansos, mas nada melhor do que um automóvel para comprovar o sucesso na vida. Ambas as coisas são, porém, a capa de uma realidade mais substancial, a nossa atávica pobreza. Gostamos de viver como europeus desenvolvidos, mas não gostamos de estudar, trabalhar e pensar à sua maneira. De certa forma, acha-se que se tem direito a tudo, sem deveres para nada.

Robert Frost - Dust of Snow

Robert Frost

Continuamos na poesia norte-americana. Hoje, um poema de Robert Frost (1874 - 1963), Dust of Snow (Flocos de neve)

The way a crow
Shook down on me
The dust of snow
From a hemlock tree

Has given my heart
A change of mood
And saved some part
Of a day I had rued.

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Na rua um corvo
Sobre mim sacudiu
Os flocos de neve
De um abeto frio

Deu-se no coração
Uma mudança de ar
E salvou-se parte
De uma dia de penar.

08/09/09

A grande batalha destas eleições

Contrariamente ao que parece, a grande batalha política destas eleições não se trava entre PSD e PS. Trava-se à esquerda, trava-se pela redefinição do peso específico de cada uma das partes que constituem essa esquerda. A entrevista de Jerónimo de Sousa, ao Público, é sintomática das esperanças que habitam no coração da esquerda que, nos últimos trinta anos, esteve arredada da condução do país. A possibilidade de acordo com o PS é uma questão académica, diz o líder comunista, mas há questões académicas que se tornam, em conformidade com as circunstâncias, em questões reais. Basta para tal uma maioria muito relativa do PS, um reforço substancial dos partidos à sua esquerda, um parlamento claramente inclinado à esquerda. Esta possibilidade, porém, pode conduzir a um acordo à esquerda, mas também pode fracturar o Partido Socialista. Noutras circunstâncias, os socialistas inclinaram-se para a direita (CDS e PSD), mas hoje será isso possível? À esquerda, a correlação de forças, expressão tão do agrado do PCP, traz uma esperança de demover os corações socialistas. E não nos esqueçamos de uma coisa, o PCP sabe muito bem como e onde há-de ceder para ganhar alguma coisa.

Dias felizes

8 de de Setembro de 1958

Uma viagem no Barroco - 03 Jacopo Peri - Io, che d'alti sospir vaga e di pianti (Euridice) (1561 - 1633).

Jacopo Peri - Io, che d'alti sospir vaga e di pianti (Euridice)


Para hoje, em Uma Viagem no Barroco, uma figura de transição entre a estética musical do Renascimento e a do Barroco. Jacopo Peri disputa com Monteverdi a honra de ter sido o inventor da ópera, embora o assunto seja controvertido. Teria escrito uma primeira ópera, Dafne, por volta de 1597. A peça musical de hoje faz parte da primeira obra musical reconhecida como ópera e que chegou até nós, Euridice, apresentada em 1600. Peri associado ao um patrono musical florentino, Jacopo Corsi, tentam recrear a antiga tragédia grega. Mesmo para um diletante, a sonoridade musical das obras de Jacopo Peri está mais próxima do cânone renascentista do que do barroco.

Wallace Stevens - The death of a soldier

Wallace Stevens
Para hoje a tradução de um poema do poeta norte-americano Wallace Stevens (1879 - 1955), The death of a soldier (A morte de um soldado)

Life contracts and death is expected,
As in a season of autumn.
The soldier falls.

He does not become a three-days personage,
Imposing his separation,
Calling for pomp.

Death is absolute and without memorial,
As in a season of autumn,
When the wind stops,

When the wind stops and, over the heavens,
The clouds go, nevertheless,
In their direction.

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A vida decai e a morte irrompe no horizonte,
Como nos dias de Outono.
O soldado tomba.

A queda não o torna uma personalidade,
Que imponha a sua partida,
E requeira pompa.

A morte é absoluta e sem comemoração,
Como nos dias de Outono,
Quando o vento pára.

Quando o vento pára, sobre os céus,
As nuvens seguem, ainda,
O seu caminho.

Uma tristeza

A cegueira da justiça é o símbolo mais apropriado para a situação do Freeport. A cegueira não significa a independência da instituição, mas a incapacidade para ver uma coisa que se mete pelos olhos dentro: a intromissão, através de manobras enviesadas, do poder judicial na luta política. O que se diz aqui tanto serve para a justiça portuguesa como para as informações vindas de Inglaterra. Que notícia é esta em plena campanha eleitoral? Serve quem? Há muito que o caso Freeport deveria estar resolvido, ainda por cima um caso que já assombrou, ao de leve, a campanha eleitoral anterior. Há muito fumo, demasiados foguetes e gente a lançar fogos ou a fazer de bombeiro. Mas o que seria mesmo bom é que a Justiça e a investigação criminal em Portugal não fosse o exercício diletante em que parece terem-se tornado. Se há altos responsáveis suspeitos de conduta dolosa que sejam levados a julgamento, mas tentar condicionar resultados eleitorais através deste tipo de manobras está longe de ser um exercício salutar de democracia. Adicionalmente, leva o cidadão comum a perguntar, sempre que existam casos que envolvam políticos ou responsáveis do futebol, pela cor política ou clubística dos investigadores, dos magistrados e dos juízes. Uma tristeza.

A sombra do poder

Tem havido por parte de alguns comentadores com renome na praça uma óbvia incapacidade para perceber o fenómeno do crescimento político do PCP e do BE. Perante tal coisa, descrevem os cenários apocalíticos que poderão acontecer caso os votos de protesto contra Sócrates se dirijam para aquelas duas forças políticas. Mas há, nessa retórica, uma batota evidente. Escamoteia que o Muro de Berlim já caiu e a União Soviética se dissolveu, ilude o facto de estas duas forças políticas, para além da retórica para consumo interno, terem programas absolutamente social-democratas (o do PCP mais moderno, o do BE mais pós-moderno), esquece que nenhum desses partidos tem a possibilidade objectiva de nos separar da Europa. Mas estas ilusões não deixam perceber uma outra realidade. A realidade de que esses partidos estão mais próximos do poder do que nunca. Veja-se no Público a entrevista de Francisco Louçã e, por outro lado, o tom cordato e inteligente de Jerónimo Sousa nos debates. Ambos sabem muito bem que têm uma hipótese, talvez não excessivamente grande, de chegar ao poder, neste momento, e influenciar o rumo da política portuguesa. Mas também há outra coisa que é esquecida: o país está como está graças às políticas do PSD e do PS. Talvez isso comece a cansar os eleitores e a fazer germinar neles a necessidade de uma efectiva alternativa política. A entrevista de Ferro Rodrigues, dada há uns tempos, merece mais atenção do que se pensa. Também é possível pensar um PS sem as políticas socráticas.

Responsabilidades e deveres

Esta controvérsia nos EUA está a esconder uma coisa essencial. O importante não é o facto de alguns sectores conservadores americanos contestarem o discurso do presidente aos alunos, no início do ano lectivo. Estamos nos EUA e tudo, na vida política, tem um calor que se desconhece pela Europa. O importante, porém, é que o presidente americano se dirija aos estudantes para lhes falar de responsabilidade, para dizer que eles não devem abandonar a escola e que devem estudar. Há por aí, por vezes, uma certa tentação de homologar o engenheiro Sócrates ao presidente Obama. Para além do ridículo da coisa, a questão da educação mostra que pertencem a dois planetas completamente distintos. Em Portugal, o engenheiro Sócrates e a socióloga Rodrigues desresponsabilizaram os alunos até não mais poderem, inventaram um estatuto do aluno que quase elimina a ideia de dever por parte dos alunos, criaram um estatuto do professor e uma avaliação, agora em versão simplex, que transfere as responsabilidades dos alunos, famílias e sociedade para cima única e exclusivamente dos professores. Há coisas que não se percebem à primeira vista, mas a formação de Obama e de Sócrates, ou até de Cavaco, faz toda a diferença. Podem ser discutíveis as soluções que Obama propõe, mas elas resultam de um pensamento ilustrado e global dos problemas. E este, o problema da relação das novas gerações com a escola, é um dos mais importantes problemas do Ocidente. Parece que, para Obama, não se resolve imolando os professores na praça pública, mas lembrando aos alunos as suas responsabilidades e deveres.

07/09/09

Sempre que abre a boca...

Sabemos que a Madeira tem um estatuto regional, e o dr. Alberto João Jardim tem um especial. Contrariamente a qualquer outro político, João Jardim pode dizer o que lhe apetecer. O pobre Manuel Pinho fez uns corninhos semi-inocentes para o líder da bancada do PCP e teve de se demitir, o dr. Jardim diz isto e os mesmos que enterraram Pinho na sua vileza devem achar Jardim um homem muito espirituoso. Talvez seja este o exemplo que a dr. Manuela Ferreira Leite quer trazer para o país. Mas enquanto isso enche de gáudio os sociais-democratas madeirenses, e porventura os continentais, os indecisos pensam três vezes antes de votar PSD. O dr. Jardim está para o PSD como a socióloga Rodrigues está para o PS: sempre que abrem a boca os respectivos partidos perdem votos.

Uma viagem no Barroco - 02 Carlos Seixas - Sinfonia para cordas e baixo contínuo em Si bemol Maior (1704 - 1742).

Carlos Seixas - Sinfonia para cordas e baixo contínuo em Si bemol Maior

Também houve grande música barroca em Portugal. No domínio das teclas, o grande nome do barroco português é Carlos Seixas. Muito do seu trabalho perdeu-se no terramoto de 1755. Em Lisboa, conheceu Domenico Scarlatti, mas a sua música foi influenciada fundamentalmente pelo Empfindsamer Stil, de origem germânica (ver aqui uma discussão do estilo e da sua relação com os movimentos musicais coevos; aqui, a presença de Carlos Seixas dentro desse movimento). A Sinfonia para cordas e baixo contínuo em Si bemol Maior é uma peça em três movimentos (1 - Allegro; 2 - Adagio; 3 - Minuet: Allegro). Norwegian Baroque; Orchestra Direction - Ketil Haugsand. Cf. aqui outras informações.

Jorge Sena - Camões dirige-se aos seu contemporâneos

Jorge de Sena

Por causa disto, recorda-se o poema de Sena (in Metamorfoses):

Podereis roubar-me tudo:
As ideias, as palavras, as imagens,
E também as metáforas, os temas, os motivos,
Os símbolos, e a primazia
Nas dores sofridas de uma língua nova,
No entendimento de outros, na coragem
De combater, julgar, de penetrar
Em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
Suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
Outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
Será terrível. Não só quando
Vossos netos não souberem já quem sois
Terão de me saber melhor ainda
Do que fingis que não sabeis,
Como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
Reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
Tido por meu, contado como meu,
Até mesmo aquele pouco e miserável
Que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu, E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

William Carlos Williams

Para começar a semana a tradução de um poema do poeta modernista americano, William Carlos Williams (1883 - 1973), Mujer. Apesar do título continuamos com gatos.

Oh, black Persian cat!
Was not your life
already cursed offspring?
We took you for rest to that old
Yankee farm, – so lonely
and with so many field mice
in the long grass –
and you return to us
in this condition – !

Oh, black Persian Cat

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Ó, sinistro gato persa!
Não foi a tua vida
já um fruto amaldiçoado?
Levámos-te para o sossego da velha
quinta Ianque, – tão solitária
e com tantos ratos do campo
pela relva descuidada –
e tu voltas para nós
neste estado – !

Ó, sinistro gato persa!

O culto das ossadas

Nisto, somos peritos. Primeiro perseguimos ou exilamos, desprezamos enquanto a vida pulsa. Parece que temos uma deficiência genética que nos impede de reconhecer a grandeza, ou que nos leva a invejá-la e a persegui-la. Jorge Sena é um dos grandes poetas do Século XX português e escreveu um dos romances mais importantes, se não o mais importante, desse mesmo século, Sinais de Fogo. Quantas pessoas ainda lerão a poesia de Jorge de Sena? Quantos conhecerão o seu romance? Alguém se preocupe que a literatura de Sena desapareça por falta de leitores? Mas importar ossadas é qualquer coisa que dá vida ao mortos que pululam no poder.

Diletantismo

É o que acontece quando se precisa de Alberto João Jardim. Usar um carro do Estado em acções de campanha eleitoral partidária (do PSD, claro), na Madeira, pode não ter repercussões políticas na região, mas no continente a tarefa não se vai tornar mais fácil. Aqui não chega o vociferar de Alberto João Jardim. Com as sondagens longe de ser simpáticas, este incidente vai ser explorado e bem pela concorrência. Com amigos como Alberto João Jardim, a líder do PSD nem precisa de inimigos. Até custa a crer em tanto diletantismo.

Adenda: por causa disto, não julgo necessário qualquer alteração ao dito anteriormente. Apenas, uma nota: era bom que toda a classe política usasse como princípio a contenção, se o exercício roçasse o ascetismo não se perderia nada, no uso de bens públicos para fins particulares ou partidários, que não deixam de ser particulares.

Revelações

É complexo, para o cidadão comum, o mundo da economia. O clima económico, o que significará esta metáfora metereológica?, parece que melhorou, pelo quarto mês consecutivo. Mas enquanto o clima da economia nacional se adentra pela Primavera e, sorridente, anuncia o Verão, os indivíduos parecem estar a sucumbir às gripes da estação, como se pode ver pela Rodhe, pela Qimonda solar, ou pelo agravamento da queda dos negócios na indústria, durante o mês de Julho. A empresas vão à falência, o sector industrial vende cada vez menos, perde emprego e baixa os salários, mas as expectativas económicas não param de subir. Das duas uma, ou os agentes económicos não são muito racionais, ou a Economia é um saber esotérico, onde a razão foi suspensa em nome de uma qualquer revelação. Talvez quando Portugal não tiver produção industrial, como já não tem produção agrícola, a nossa economia seja um sucesso.

06/09/09

Uma viagem no Barroco - 01 Dietrich Buxtehude (1637 - 1707).

Buxtehude: 6. Membra Jesu Nostri, Ad cor / René Jacobs

O averomundo começa hoje uma viagem ao Barroco musical. E para iniciar o caminho foi escolhido o compositor germano-dinamarquês Dietrich Buxtehude. A peça Ad cor (ao coração) faz parte de um ciclo de sete cantatas, compostas por Buxtehude em 1680, denominado Membra Jesu Nostri (os membros de Nosso Senhor Jesus Cristo). Schola Cantorum Basiliensis. Maria Cristina Kiehr (Soprano). Rosa Dominguez (Soprano). Andreas Scholl (Alto). Gerd Türk (Tenor). Ulrich Messthaler (Basse). Dir. René Jacobs [Informação aqui, onde se poderão ouvir outras cantatas do mesmo ciclo]. A audição tornará evidente o acerto da escolha, passe a imodéstia. Esta é a grande música do Ocidente.

Um equívoco

Um equívoco e uma perda de tempo: Ministério Público está a investigar 700 casos de corrupção. Em Portugal, contrariamente ao que se diz levianamente, não há corrupção. Apenas se fazem uns favores em troca de outros favores, tudo num clima de amizade familiar. A economia do dom, que assim floresce, não pode ter o terrível nome de corrupção. Pelo contrário, dela resulta o fortalecimento dos laços familiares e inter-familiares. Por que razão, por exemplo, um decisor público, como agora se diz, há-de entregar certa empreitada a alguém que desconhece? A coisa deve ficar na família, entre amigos e vizinhos. Chamar a esta solidariedade grupal corrupção é mesmo coisa de educação protestante, algo que pode funcionar lá para o norte da Europa, sítio onde, como se sabe, não há grande apreço pela família. Portanto, coisa de gente pouco temente a Deus e pouco amiga do seu amigo. Será justo que o Ministério Público desbarate o dinheiro dos contribuintes, ao perder tempo a investigar uma coisa que nem existe?

Charles Baudelaire - Les chats

Charles Baudelaire

Para hoje uma tradução de um poema de Baudelaire, Les chats (Os gatos).

Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres ;
L'Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin ;

Leurs reins féconds sont pleins d'étincelles magiques,
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

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Amantes ardentes e austeros sábios
Amam igualmente, ao envelhecer,
Gatos pujantes e doces, orgulho familiar.
Como eles, são friorentos e sedentários.

Amigos da ciência e da volúpia
Procuram o silêncio e o horror das trevas;
O Érebo tomá-los-ia como servos da morte
Se à servidão pudessem dobrar o orgulho.

Quando meditam, tomam nobres atitudes,
Enormes esfinges dilatadas no fundo da solidão,
Parecem adormecidas num sonho infinito;

Os férteis rins, cheios de mágicas centelhas,
E fragmentos de ouro e fina areia
Cintilam vagamente no olhar extasiado.

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Não se respeitou a métrica original, tendo-se recorrido, na tradução, ao verso livre. Optou-se por uma tentativa de captar o núcleo noemático do pensamento poético, em lugar de plasmar os aspectos formais. Opção discutível, mas quase inevitável para quem tem formação em Filosofia. Também são discutíveis algumas das soluções de tradução encontradas, se alguém quiser contra-propor, esteja à vontade.

Crédito mal parado

Má memória tem o dr. Costa. Hoje, na Convenção Nacional do PS, disse que quem não quer um governo de direita tem de votar PS. Foi isso precisamente o que fizeram, há quatro anos, muitas pessoas que não queriam um governo de direita. O que fez o PS com o crédito de esquerda que lhe foi dado? Tornou-o em crédito mal parado, um crédito verdadeiramente tóxico. As pessoas votaram no PS não para que ele fizesse uma revolução ou que nos guiasse na senda do socialismo. Votaram para que a sociedade portuguesa fosse mais equilibrada, menos injusta, para que o serviço público servisse melhor os cidadãos. Valeu a pena? Nem uma alma generosa e grande acha que valeu a pena. A direita não teria sido capaz de uma política tão injusta, tão subserviente dos fortes e poderosos, uma política tão pouco de esquerda, como aquela que os socialistas levaram a efeito nos últimos quatro anos. A retórica de um governo de esquerda protagonizado pelo PS foi chão que deu uvas, como o o próprio dr. Costa sabe. Mas disse o que o auditório queria ouvir e o futuro, como se sabe, e mesmo para um ateu, só a Deus pertence.

05/09/09

A selecção e a aritmética



Chegou o momento em que selecção já não depende de si mesma. Nunca vi um país em que as pessoas tivessem tantas dificuldades em matemática e que, ao mesmo tempo, tanto gostassem de fazer contas. Pelo menos na aritmética deveríamos ser bons.

Emily Dickinson - 288

Emily Dickinson
Para hoje a tradução, bem difícil, de um poema da poetisa norte-americana Emily Dickinson. O poema n.º 288.

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

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Sou Ninguém! Quem és tu?
És – Ninguém – Também?
Então formamos um par!
Nada contes! Eles anunciá-lo-iam – bem sabes!

Que monótono – ser – Alguém!
Que banal – como a Rã –
Dizer o nome – por todo o Junho –
Para um charco boquiaberto!
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Das discutíveis soluções encontradas para os problemas que o poema coloca, refiro aquela que menos me agrada. A tradução de How public, no sexto verso, por Que banal. A tradução de Ana Luísa Amaral por Que vulgar não resolve também o problema. Ambas as traduções perdem a referência ao domínio público, à esfera pública oposta à esfera íntima, referência essa presente no texto de E. Dickinson. Todo o poema gira em torno do conflito publicidade vs intimidade. Ainda pensei em traduzir por Que publicidade, mas a actual conotação da palavra oculta o sentido mais original que tomou no Iluminismo, nomeadamente em Kant. É contra esse sentido, de certa forma, que o poema é escrito, demarcando uma área de intimidade que deve ser preservada da publicidade que o dizer, o anunciar, o contar, implicam.

Vítimas sacrificiais

A crise na educação introduzida pelo actual governo está a ter consequências que roçam o caricato. Os professores, por mão dos movimentos independentes, voltam à rua a uma semana das eleições. Fazem-no porque há razões ponderosas, criadas por este governo. Mas este apelo dos movimentos independentes de professores é uma espécie de apelo partidário ao contrário. É um apelo contra o Partido Socialista, uma intervenção directa na campanha eleitoral. Enquanto professor, teria gostado que as coisas não chegassem aqui. A função docente é estruturante na transmissão do desejo de soberania às jovens gerações, na construção das condições que possibilitem, no futuro, que os portugueses queiram continuar a viver uns com os outros. Por isso, ela está muito acima da luta partidária. É inquietante que os professores, em período eleitoral, tenham necessidade de se manifestar contra um dos partidos centrais da vida democrática. Chega a ser cómico, por outro lado, aquilo que hoje o Expresso revela. Os professores são, de longe, a classe profissional mais citada nos programas eleitorais das principais forças partidárias. Tudo isto manifesta o desconcerto a que se chegou. Seria bom para todos, incluindo os professores, que houvesse menos referências a eles nos jornais, nos programas eleitorais, onde quer que fosse. Seria sinal de que a violenta política de perseguição que os atingiu teria sido ultrapassada, seria sinal de que estariam fundamentalmente preocupados com a sua função. Mas é preciso não esquecer que a guerra não foi começada pelos professores. O conflito foi desencadeado pelo governo, que escolheu os professores como vítimas sacrificiais a imolar pelo desconchavo da sociedade civil e política.

04/09/09

Explicado às crianças

Aqui o caso Manuela Moura Guedes explicado às crianças. Também para adultos, caso as respectivas mamãs tenham sofrido de falta de iodo na gravidez. Quem não perceber, pode passar uns tempos a tentar ler o Príncipe, de Maquiavel.

Walt Whitman - O Captain! My Captain!

Walt Whitman

Hoje um poema de Walt Whitman escrito em 1865, aquando do assassinato de Abraham Lincoln. O Captain! My Captain!

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.


O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up -- for you the flag is flung -- for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths -- for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.


My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

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A tradução pessoal do poema de Walt Whitman, Ó Capitão! Meu Capitão! (aqui pode ler uma outra tradução do mesmo poema, da autoria de Maria de Lurdes Guimarães).

Ó Capitão! meu Capitão! a nossa terrível viagem está feita,
O barco cruzou cada tormenta, alcançámos o prémio desejado,
O porto está próximo, oiço sinos, o povo exulta,
Enquanto olhos seguem a quilha segura, o sinistro e audacioso navio;
Mas ó coração! coração! coração!
Ó as gotas vermelhas do sangue
No convés onde jaz o meu Capitão,
Caído, frio e morto.

Ó Capitão! meu capitão! levanta-te e ouve os sinos;
Levanta-te – por ti, agita-se a bandeira – por ti, toca o clarim,
Para ti ramos de flores e grinaldas com fitas – por ti, praias cheias de gente,
Por ti, chama a multidão ondulante, voltam-se os rostos ansiosos;
Aqui Capitão! querido pai!
Este braço debaixo da tua cabeça!
Será algum sonho que no convés,
Estejas caído, frio e morto.

O meu capitão não responde, os lábios estão pálidos e quietos,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O barco ancorou seguro e incólume, a viagem está feita e acabada,
Da terrível viagem, o barco voltou, a meta alcançada;
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu, com andar fúnebre,
Percorro o convés onde jaz o meu Capitão,
Caído, frio e morto.

Afinal é do iodo

Tanto mistério em relação ao baixo desempenho dos portugueses em matéria de estudos, tantas estratégias, aulas de substituição, apoios pedagógicos, tanto esforço ministerial e tudo para nada. O problema é do iodo ou da falta dele. "A baixa de iodo na gravidez pode condicionar alterações no desenvolvimento intelectual das crianças no futuro." Oitenta por cento das grávidas, segundo um estudo nacional, têm níveis de ingestão de iodo baixos. Bem me parecia que tínhamos um qualquer problema... Enfim, mais valia que o governo tivesse fornecido iodo às futuras mães, em vez daquilo que semeou pelas escolas deste país. Com tanta falta de iodo, como poderíamos ficar bem classificados nos estudos internacionais sobre educação?

Jogos florais



Um novo mistério assola a pátria. Quem suspendeu o telejornal de Manuela Moura Guedes? Parece que na TVI ninguém sabe de nada. Entre os meus conhecidos também ninguém se acusa. Estamos em época de jogos florais, há um prémio para quem apresentar a melhor narrativa sobre o estranho caso do afastamento da jornalista desbocada. O Earl Stanley Gardner está proibido de concorrer.

Pouco entusiasmo

Começa-se a perceber o óbvio. Os sinais de retoma da economia mundial, apesar da profundidade da crise, estão a esbater o o entusiasmo reformista que atingiu, no auge da crise, as administrações dos países mais ricos. No fundo, há quem pense que o que aconteceu foi apenas devido a uma distracção de uns quantos, e que, hoje em dia, foram desenvolvidos mecanismos económico e políticos que permitem enfrentar com êxito situações críticas como a que se vive. Se assim é, por que razão haveria de se mexer na estrutura internacional que começou a ser desenhada por Thatcher e Reagan? Mas não é apenas os sinais de retoma da economia (sinais aliás contraditórios, segundo alguns analistas) que estão a esfriar o entusiasmo dos políticos nas reformas. É a própria ideologia com que olham o mundo e os interesses a que ela corresponde. Os sinais de retoma são apenas sinais, e podem ser lidos de maneira contraditória. O que vai ser determinante é o escopo ideológico e os interesses que aí se representam, e que estruturam as decisões a tomar. O entusiasmo reformista não nasceu de uma outra compreensão da relação entre economia, política e sociedade, nasceu do pânico. Debelado o pânico, o paciente esquece a medicação.

Jornal Torrejano, 4 de Setembro de 2009


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03/09/09

Vantagens adicionais

Disto e disto gosta o Partido Socialista. Estas histórias de Alexandre Relvas e de Manuela Moura Guedes têm a vantagem de evitar que se olhe para o que foi a governação socialista, para os resultados efectivos das políticas adoptadas, para a regressão social a que o país foi conduzido. Podem parecer, à primeira vista, negativas para o governo, mas o seu potencial de auto-vitimização governamental é uma vantagem adicional. Parece que uma enorme fronda se levantou contra o príncipe acusando-o de não gostar da liberdade. Há sempre a esperança de que os eleitores tenham pena dos humilhados e ofendidos, dos poderosos cheios de bondade a quem a maldade mundana decidiu perseguir. Até ao dia das eleições, a quantos números destes iremos assistir?

O outro lado

"A Grécia é cada vez mais o epicentro do terrorismo na Europa - muito por culpa da hiperactividade de grupos de extrema-esquerda de inspiração anarquista ou marxista." A História ensina pouco aos homens. Sempre que as sociedades se desequilibram e se tornam excessivamente inigualitárias, a violência volta à cena política como um dos actores fundamentais. Os atentados que têm ocorrido na Grécia podem ser lidos de duas maneiras. A primeira, como uma especificidade grega. A segundo, como sinal dos tempos que esperam a Europa. Quando a classe dirigente europeia desistiu do projecto de construção de sociedades mais equilibradas, onde as desigualdades sociais existissem apenas na justa medida, estava-se a criar condições para que o terrorismo, algo que a Europa está muito longe de desconhecer, voltasse. Contrariamente ao que disse, em Fevereiro aquando de outro atentado, Michalis Chrysohoides, ministro grego responsável pela ordem pública, não é Cabul que deve servir de referência comparativa ao que se passa na Grécia. Basta olhar um pouco para trás e não faltarão exemplos na nossa boa e velha Europa. Estes atentados são apenas o outro lado das políticas que têm vindo a ser seguidas, uma espécie de negativo.

Langston Hughes - HOMECOMING

James Langston Hughes

Hoje a tradução de um poema de um escritor americano, James Langston Hughes (1902 - 1967). Título: HOMECOMING

I went back in the alley
And I opened up my door.
All her clothes was gone:
She wasn’t home no more.

I pulled back the covers,
I made down the bed.
A whole lot of room
Was the only thing I had.

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Agora o exercício de tradução:

VOLTAR A CASA

Na viela, voltei atrás
E abri a minha porta.
A sua roupa fora-se:
Ela já não estava.

Tirei a coberta,
Caí na cama.
Um quarto inteiro
Era só o que tinha.

Notícias do bloqueio

A suspensão do Jornal Nacional, de Manuela Moura Guedes, e a concomitante demissão da direcção de informação da TVI são coisas muito desagradáveis. Que desculpas haverá para suspender o único boletim informativo claramente oposto ao actual poder político? Parece que Portugal continua a viver um défice de liberdade e que as únicas notícias verdadeiras são as notícias do bloqueio. É verdade, já me esquecia, parece que estamos em maré eleitoral.

Ganhar ou perder eleições

Este texto do i diz o essencial do que está em jogo nas próximas eleições. Muito provavelmente, o pior que pode acontecer a um partido é ganhá-las. Uma maioria relativa, em tempos de crise e com o desemprego como ameaça permanente, cria condições para uma nova eleição, onde o partido vencedor em 27 de Setembro tem grandes possibilidades de ser altamente penalizado, depois de ter penado durante meses uma prolongada agonia. Uma maioria absoluta agora, porém, levaria a uma governação hiper-musculada, independentemente de ser o PS ou o PSD os vencedores. Veremos qual vai ser a opção dos portugueses. A quem quererão eles fazer mal dando-lhe uma vitória relativa.

Sobre a tradução de "Tyger! Tyger! burning bright"

A tradução do primeiro verso do poema de William Blake, The Tyger (ver mais abaixo), levanta alguns problemas que merecem meditação. O verso diz Tyger! Tyger! burning bright. A tradução apresentada foi Tigre! Tigre! ardência luminosa. A opção foi tomar burning como substantivo adjectivado por bright, daí a opção por ardência luminosa. Enquanto adjectivo, a tradução literal de bright seria brilhante ou resplandecente, o que daria o seguinte verso: Tigre! Tigre! ardência brilhante/resplandecente. Esta opção pareceu-me poeticamente mais frágil do que a apresentada, pois a ardência luminosa contrasta fortemente com o segundo verso Nas florestas da noite (In the forests of the night).

Traduzir burning por ardência implica várias coisas: 1.ª, ardência é a essência ou qualidade daquilo que arde; 2.ª a essência do que arde é luminosa e não apenas brilhante, o que significa que a essência se manifesta em sua luz, contrastando com a dupla negação da luz presente no segundo verso através dos substantivos florestas e noite, que reforçam a ideia de ausência de luz; 3.ª a expressão ardência luminosa (burning bright) tem um carácter metafórico em relação a Tigre. Podemos ler que o Tigre é uma ardência luminosa, ele não é um mero animal, nem uma mera coisa que arde e brilha, mas uma essência que faz com que o fogo e a luz sejam aquilo que são.

Foram estas as razões da tradução apresentada. Poderia ter seguido outro caminho e considerar burning e bright como dois adjectivos. A tradução seria, então, a seguinte: Tigre! Tigre! ardente luminoso (ou brilhante/resplandecente). Mas aqui perder-se-ia a força da metáfora anterior que reenvia para o domínio da essência. O tigre seria, nesta tradução, apenas um objecto puramente físico que arde e dá luz ou brilha.

Há, no entanto, uma outra tradução, menos literal, muito interessante. Vejamos os dois primeiros versos do poema: Tigre! Tigre! fogo que arde / Nas florestas da noite (Tyger! Tyger! burning bright / In the forests of the night). Esta tradução, por si só, parece-me menos interessante do que a apresentada, ganha, no entanto, um especial sentido dentro do contexto da língua e cultura portuguesas. A referência à metáfora camoniana, Amor é fogo que arde…, introduz um jogo semântico que revoluciona a compreensão de todo o poema de W. Blake. A predicação (fogo que arde) comum aos dois processos metafóricos (Amor é fogo que arde…; Tigre! Tigre! fogo que arde) permite fazer um curto-circuito interpretativo e apresentar o próprio tigre como uma metáfora do amor, e dessa forma ler de uma outra maneira o poema do autor romântico inglês. Prefiro a tradução de burning bright por ardência luminosa, mas traduzir por fogo que arde não deixa de abrir caminhos de leitura bem interessantes, nomeadamente para uma leitura que ponha em tensão o poema de William Blake com o de Camões. A literatura não é outra coisa senão este jogo de viagens intergalácticas.

02/09/09

O princípio de autoridade

Tentemos perceber o que está em questão. Segundo o Público, o Cardeal Patriarca, D. José Policarpo, terá repreendido bispos e padres que, no trabalho pastoral, decidem pela própria cabeça. Se há uma coisa que é clara na Igreja Católica é o princípio de autoridade. A subjectividade dos membros da Igreja, incluindo o clero, deve submeter-se à autoridade do Vaticano e da hierarquia. A Igreja Católica não é uma organização democrática, onde a liberdade de opinião seja um valor fundamental. A liberdade está submetida, através do princípio de obediência, à autoridade. Caso contrário, não estaríamos perante a tradição católica, mas numa espécie de Igreja protestante. Aí sim, a autoridade perdeu o valor central. É ainda nesta perspectiva que se deve ler a seguinte constatação de D. José Policarpo: "muitas vezes o pastor assemelha-se mais a um gestor de empresas do que ao pastor que conhece as pessoas, com os seus problemas próprios e o seu ritmo de caminhada". Todos sabemos como o espírito empresarial do capitalismo moderno está ligado à ética protestante. De certa maneira, entre o catolicismo e o capitalismo, por muito estranho que possa parecer, sempre houve um contencioso irresolúvel. Esse contencioso reside no valor da decisão individual, na afirmação da subjectividade em detrimento da comunidade. Mas será curial a Igreja adoptar esta posição? Se olharmos a partir do Zeitgeist, nada é mais errado. Mas se olharmos para a História, descobrimos que o princípio de autoridade é o que mantém viva a Igreja Católica há já 2000 anos.

William Blake - The Tyger

William Blake

Hoje uma arriscada tradução de um poema, talvez o mais célebre, de William Blake, The Tyger (O Tigre).

Tyger! Tyger! burning bright,
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire in thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand, and what dread feet?

What the hammer? What the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the Lamb, make thee?

Tyger! Tyger! burning bright,
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

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Agora, a experiência de tradução, sem qualquer comentário, embora muito se pudesse discutir.

Tigre! Tigre! ardência luminosa
Nas florestas da noite,
Que mão ou olho imortal
Pôde forjar tão terrível simetria?

Em que céus ou abismos distantes
Ardeu o fogo dos teus olhos?
Em que asas ousou elevar-se?
Que mão se atreveu a prendê-lo?

E que força, e que arte,
Teceram o vigor do teu coração?
E quando ele começou a pulsar,
Que terrível mão e que terríveis pés?

Que martelo? Que grilhões?
De que fornalha saiu o teu cérebro?
Que bigorna? Que energia pavorosa
Ousou abraçar esse terror fatal?

Quando as estrelas lançaram seus dardos,
E regaram o céu com suas lágrimas,
Sorriu Ele ao ver o Seu trabalho?
Quem criou o Cordeiro, a ti te criou?

Tigre! Tigre! ardência luminosa
Nas florestas da noite,
Que mão ou olho imortal
Pôde forjar tão terrível simetria?

Comunicação brilhante



Os governantes socialistas, ontem o primeiro-ministro e hoje a ministra da educação, descobriram que não sabiam comunicar. Mas até nisto estão enganados. Como já se disse aqui, comunicam muito bem. Todos nós percebemos o que queriam e aquilo a que vinham. O mal não é comunicacional, mas substancial. O conteúdo das políticas educativas é que é problemático. Portanto, a senhora ministra e o senhor primeiro-ministro escusam de contratar aulas de apoio em língua portuguesa para aprender a comunicar. Comunicaram de forma brilhante. Por isso a reacção foi a que foi. Esperemos que a generalidade dos portugueses também tenha percebido, e os devolva para a bancada da oposição.

Sócrates, os professores e a delicadeza

Mas será que o engenheiro Sócrates acha que somos parvos? Veja-se a desfaçatez da personagem (Público): "talvez não tivesse havido suficiente delicadeza no tratamento com os professores". Delicadeza suficiente? Uma campanha verdadeiramente negra contra toda uma classe profissional, levada deliberadamente a efeito, uma campanha insultuosa e indigna que nunca se viu no país. Uma campanha que visava isolar os professores e mostrá-los como indigentes à opinião pública, em primeiro lugar, para lhes destruir a carreira que tinham, para proletarizar as novas gerações de professores, e, em segundo lugar, para criar uma escola pública miserável intelectual e cientificamente, uma escola pública destinada à plebe democrática, uma escola pública que assegure a continuação e o aprofundamento das desigualdades sociais. Sim, é isto que está em causa, proteger quem está nos colégios das elites da concorrência dos alunos da escola pública.

Não contente com isso, sem um pingo de vergonha na cara, diz: "Porventura falhámos aí nessa forma de nos explicarmos. Deixar criar a ideia de que nós fizemos isso contra os professores é tão infantil, nunca esteve no nosso espírito. Se isso aconteceu, farei tudo o que estiver ao meu alcance para corrigir isso". Já começo a ficar farto desta cassete, as medidas eram boas, não as soubemos foi explicar. É preciso dizer claramente a verdade: a generalidade das medidas eram efectivamente más e as boas foram mal realizadas. A política educativa foi toda ela um desastre executado num clima de arrogância e de ofensa ao professorado.

Mas as políticas de educação não foram apenas más para os professores. Para os alunos da escola pública elas são um desastre inominável. O Estatuto do Aluno é um hino à irresponsabilidade, as avaliações externas tornaram-se um momento de gargalhada nacional, a não revisão do currículo do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico é uma ofensa à inteligência. O clima criado na escola com a avaliação de professores gerou ainda uma mais ampla complacência com a falta de trabalho dos alunos. Sim, os professores foram gravemente lesados por Sócrates e pela socióloga Rodrigues, mas os alunos foram-no ainda muito mais, embora eles e a família não percebam. Nós, professores, arcamos com o prejuízo já hoje, mas os alunos vão arcar com ele no futuro.

As políticas, contrariamente ao que Sócrates e os apaniguados cães-de-fila dizem, foram muito bem explicadas. Todos nós, professores ou não, entendemos o que se queria. O problema não está na explicação, nem no carácter do engenheiro Sócrates ou na idiossincrasia da socióloga Rodrigues. O problema é mesmo as políticas, a prática de engenharia social, o clima deliberadamente criado para isolar os professores, uma das classes mais bem vistas na opinião pública, do resto da população. O que foi feito contra os professores foi arquitectado e pensado. Só que o cálculo dos spin doctors governamentais saiu errado, e a bomba rebentou-lhes na mão. Até esses já não sabem calcular. Precisam de umas Novas Oportunidades, na oposição. Há muitos, muitos anos, que sou um fiel eleitor do Partido Socialista. Não tornarei a votar PS, enquanto persistir na memória um traço desta gente que nos governou nos últimos quatro anos.

01/09/09

70 anos, a invasão da Polónia


Há 70 anos, as tropas de Hitler invadiam a Polónia e davam início à II Guerra Mundial. Como olhar para esse acontecimento que não existiu? Quero dizer que não existiu para a generalidade dos portugueses vivos. Como é que nós que não temos a experiência da guerra, mesmo aqueles que participaram nas guerras coloniais dos anos sessenta e setenta do século passado, podemos pensar esse acontecimento absoluto? Muitas vezes penso no assunto, penso como me comportaria no momento em que a guerra estivesse sobre mim, rodeando-me de combates, fazendo entrar no meu quotidiano a estranha racionalidade da violência irracional.

Recordo-me da minha experiência, há dois anos atrás, numa das praias normandas onde se deu o desembarque dos aliados no Dia D, ou na estranha experiência dos cemitérios de guerra espalhados pela belíssima Normandia. A única coisa que me ocorria, na altura, é que a maioria dos que ali combateram, e morreram, e estão sepultados, eram mais novos que os meus filhos, e estes ainda são bastante novos. Esta estranha reacção do espírito tornava, porém, claro aquilo que há de mais violentamente pornográfico na guerra, a morte das novas gerações, a morte dos filhos no lugar dos pais. Quando mandamos os nossos filhos morrer antes de nós alguma coisa vai mal. Há 70 anos começou uma segunda ceifa da juventude europeia. A Europa, a velha e bela Europa, ainda não se refez.

Percy B. Shelley - Epitaph

Percy Bysshe Shelley

Um pequeno poema de Percy Bysshe Shelley, EPITAPH (Epitáfio):

These are two friends whose lives were undivided;
So let their memory be, now they have glided
Under the grave; let not their bones be parted,
For their two hearts in life were single-hearted.

Agora, a tradução:

Estes são dois amigos cujas vidas foram indivisas;
Assim seja a sua memória, agora que deslizaram
Para a sepultura; não separem as suas ossadas,
Pois em vida fiéis foram os seus dois corações.

Nota: O último verso, For their two hearts in life were single-hearted, reclama uma tradução diferente da apresentada. O adjectivo single-hearted pode traduzir-se por fiel, sincero, honesto, etc. Mas podemos pensar de uma forma mais radical e ver nesse termo composto um processo de produção (como se, sublinho o como se, hearted fosse um particípio passado do hipotético verbo to heart, verbo que expressaria a acção de tornar-se coração) de um coração singular, único. É como se a fidelidade ou a sinceridade que se expressa em single-hearted, ambas de natureza dialógica e relacional, se fundassem na auto-produção de um coração único, singular. A fidelidade ou a sinceridade teriam assim o seu fundamento numa comunidade de coração, numa comunhão de afecções. Isto permite traduzir o verso final de Epitáfio assim: “Pois em vida de dois corações fizeram um.” Uma outra possibilidade , ainda mais interessante, seria esta: “Pois em vida os seus corações tornaram-se um.”

A opção por “Pois em vida de dois corações fizeram um” ou por “Pois em vida os seus corações tornaram-se um” liga-se àquilo que se valoriza na leitura poética. A última opção acentua o papel dinâmico da metonímia “hearts” (toma-se a parte, o coração, pelo todo, pelo indivíduo), dinamismo presente no texto de Shelley. São os corações que se tornam, durante a vida, num só. A primeira opção, “Pois em vida de dois corações fizeram apenas um”, introduz um jogo interpretativo onde a “metonímia” é transformada numa metáfora (corações, hearts, agora remeteria para o campo da afecção, para o domínio do sentimento) e são os sujeitos, subentendidos no verso, que operam (fizeram) a metamorfose dos dois corações num único.

Esta opção introduz uma dinâmica racional, uma espécie de razão prática que determina as metamorfoses do afecto, enquanto a manutenção da função metonímica de corações (hearts) liberta o acontecer da fusão dos corações de uma premeditação ou de uma representação racional a priori. Essa libertação é produzida pelo efeito de ocultação que reside na metonímia. Sabemos que a metonímia assenta numa relação de contiguidade entre o tropo expresso (hearts/corações) e o termo que ele substitui (os indivíduos que possuem aqueles corações). Essa contiguidade mantém a relação ao mesmo tempo que a oculta. Esta tensão produz um halo que des-racionaliza o verso, retira-lhe a alusão à vontade (a razão prática), criando uma atmosfera afectivamente dinâmica, que é, julgo, mais fiel ao espírito poético de Shelley.

Leia-se, então, toda a tradução com as duas possibilidades:

Estes são dois amigos cujas vidas foram indivisas;
Assim seja a sua memória, agora que deslizaram
Para a sepultura; não separem as suas ossadas,
Pois em vida os seus corações tornaram-se um.

ou:

Estes são dois amigos cujas vidas foram indivisas;
Assim seja a sua memória, agora que deslizaram
Para a sepultura; não separem as suas ossadas,
Pois em vida de dois corações fizeram um.

Pura reacção

Este artigo de Francisco Camacho, no i, retrata um dos tiques fundamentais da política portuguesa, desde o tempo de Cavaco. Diz Camacho: "A candidata a primeiro-ministro também faz mal em ceder a maniqueísmos. Se Sócrates fala em casamento gay, lá vem a família (...); se Sócrates faz campanhas para encher o olho, então Manuela diz que, do lado dela, não haverá espectáculo." Os políticos candidatos passam a vida a reagir aos anteriores. Cavaco apresentou-se como reacção a Soares. Guterres foi o anti-Cavaco, por excelência. Durão Barroso era a negação do diálogo de Guterres. Santana Lopes não sabia o que era e Sócrates não queria ser, ao mesmo tempo, nem o Santana nem o Guterres. Isto mostra, porém, a fragilidade da preparação dos nossos políticos. No fundo, são puramente reactivos, não têm autonomia de pensamento. Oitenta por cento do seu programa é a negação do governante anterior e os outros vinte por cento são futilidades para encher o papel. Este é também o problema de Manuela Ferreira Leite. O seu programa mínimo foi desenhado por Sócrates. Ela pretende ser o negativo do engenheiro, só isso. Pode dar para ganhar? Pode, já deu várias vezes. Não dá, depois, para governar, mas isso é já uma coisa menos importante.

A magia das previsões

Uma das crenças mais arreigadas do senso comum é o da bondade das previsões, então se suspeitarmos que elas se fundam em dados estatísticos... Desde que a Física se tornou uma Física matemática, com Galileu e Newton, que o homem aprendeu a prever, com alguma fiabilidade, certos acontecimentos físicos. Isso, por exemplo, permite colocar uma avião no ar, electricidade em casa, etc., etc. Entusiasmados com o sucesso da Física, os homens ocidentais deitaram-se a fazer previsões sobre tudo, nomeadamente sobre os acontecimentos sociais. Por exemplo, os economistas têm como principal fonte de prazer, eu diria de um prazer quase sexual, fazer previsões que vão alterando. Prevêem tudo, desde a taxa de inflação atá ao PIB. Na verdade, acabaram, por exemplo, por não prever a crise financeira que, segundo parece, estava diante dos olhos de toda a gente. Mas a prática da adivinhação não se resume à economia. Agora é no campo da Saúde, onde não há dia em que não sejamos brindados com previsões sobre o surto epidémico de uma doença qualquer. Agora é a Gripe A. A Direcção Geral de Saúde estima que 11% dos portuguesas irão ser atingidos pelo vírus nas estações frias. Aguardamos, com natural ansiedade, as próximas revisões, em alta ou em baixa, para nos tranquilizarmos e sabermos que o nosso mundo, enquadrado na sabedoria da previsão, ainda continua o mesmo. Para que serve a constante divulgação deste tipo de dados? O que pode fazer o cidadão comum com esta extraordinária informação? Nada. Mas por que estamos sempre a ser bombardeados por previsões ditas científicas? Pelo mesmo motivo que os homens de outrora iam consultar o oráculo de Delfos, uma bola de cristal, o voo das aves ou as entranhas de um animal sacrificado: construir um esquema de crenças que permitam dominar o futuro. Este, todavia, mantém-se inalteravelmente obscuro e nunca esclarece a face com que se vai apresentar diante dos atónitos seres humanos. Felizmente.