17/09/09

Materiais de Construção - 8. Quartzo

rio de cristal
leve vestígio
de diamante
fogo e prodígio

Uma viagem no Barroco - 12 Giuseppe Tartini - Sonata in G Minor - Devil's Trill (1692 - 1770).

Giuseppe Tartini - Sonata in G Minor - Devil's Trill


Ontem foi proposto um compositor coevo do nascimento do Barroco. Hoje, a proposta é a de um compositor que ainda aparece arrolado no Barroco mas cuja música já não soa, pelo menos a um diletante como o autor deste blogue, a Barroco. Diria que é um compositor pós-Barroco. O aristocrata italiano (na verdade nasceu na República de Veneza, numa cidade, Piran, que hoje faz parte da Eslovénia), Giuseppe Tartini, foi violinista e compositor. A sua obra mais conhecida é a sonata Devil's Trill (Trilo do Diabo). Uma obscura lenda, porventura originada, ou adornada, por Madame Blavatsky, diz que a peça resultou de um sonho de Tartini, onde o diabo aparecia aos pés da cama tocando violino. Lendas à parte, a peça do vídeo tem ao violino não o diabo mas Itzhak Perlman.

A complacência

A complacência com os outros ou a mais completa indisponibilidade para a sua compreensão têm uma origem comum, a auto-complacência. Mas a auto-complacência não deve ser entendida como benevolência ou benignidade perante si mesmo. Todos temos o dever de ser benévolos e benignos connosco, mas não complacentes. A auto-complacência deve ser entendida como uma condescendência consigo, num suportar com indiferença o que em si deveria ser insuportável. Foi através dela que me descobri radicalmente português. Isso não significa uma legitimação da minha auto-complacência, apenas me integra numa comunidade de atitude, apenas me dá uma família de gesto. A indiferença com que suporto o que em mim deveria ser insuportável dissolve o padrão que me leva a considerar insuportável certas coisas. A indiferença é uma estratégia de dissolução do elevado e da produção de condescendência com o que não merece benevolência. A indiferença produz a remitência do irremissível. Sempre fiquei seduzido por uma das ideias centrais da ética kantiana, nomeadamente na Fundamentação da Metafísica dos Costumes. A ideia da natureza irremitente da razão. Temos o dever de não condescender connosco, o dever exige, sem remissão possível, a nossa absoluta submissão. O meu fascínio nasce precisamente da minha natureza inclinada à remitência de mim mesmo. Por isso sou com os outros, o mais das vezes, completamente complacente e, ao mesmo tempo, completamente indisponível.

Inclinação rosa

A coisa inclina-se para o PS. Não me parece que a polémica do TGV e o acinte com os espanhóis tenham beneficiado a dr.ª Manuela Ferreira Leite. O TGV é uma promessa de emprego e de maior integração no espaço europeu. A despesa é sempre uma despesa futura e, como tal, invisível. Depois, os portugueses acham que os espanhóis vivem melhor do que eles, e não compreendem a irritação com quem nos compra parte importante do que produzimos. Mas talvez o problema principal resida ainda noutro lugar. Gostemos ou não, percebe-se o caminho que Sócrates quer. Mas para onde nos quer levar o PSD? A obscuridade da sua campanha e dos seus desígnios transparece nos resultados desta sondagem. Ninguém está disposto a dar-lhe um cheque em branco. O voto de protesto contra Sócrates junta-se no BE. Doze por cento das intenções de voto, depois da "derrota" de Louçã perante Sócrates, é obra. Veremos como as coisas evoluem.

Imprudências

A prudência teria aconselhado a dr.ª Manuela Ferreira Leite a deixar António Preto e Helena Lopes da Costa fora das listas de deputados. Enfrentam processos, onde são presumidos inocentes, mas esse estatuto, o de presumidamente inocente, não é politicamente um bom cartão de visita. A situação complicou-se com a história das quotas pagas (aqui e aqui). A história já foi desmentida pelos visados. Mas não interessa se a história é verdadeira ou falsa. Para o cidadão comum, a vida partidária é de uma obscuridade total e, por isso, as coisas mais mirabolantes tornam-se verosímeis. E nem vale a pena a dr.ª Ferreira Leite vir derramar a dor por isto vir à luz a dias do acto eleitoral. Quando esperava ela que isso acontecesse? Depois?

16/09/09

Os homens da luta e a inquietante estranheza

Das Unheimlich é um termo alemão que fez fortuna a partir de um artigo homónimo de Sigmund Freud. Unheimlich traduz-se por inquietante estranheza. É algo que é, ao mesmo tempo, excessivamente familiar e desconhecido. Poderíamos dizer que é aquilo que sendo tão familiar se tornou desconhecido. Quando emerge, porém, provoca o pavor. É assim a manifestação do que se recalcou, e essa manifestação resulta de uma espécie de quebra da nossa descrição causal do mundo. Perante a a manifestação desse qualquer coisa a reacção é de uma inquietante estranheza, como se algo se viesse abater sobre nós.

Perante a irrupção de Neto e Falâncio, os "homens da luta" de megafone em riste, foi certamente isso que aconteceu aos dirigentes socialistas e a Sócrates. A emergência do recalcado. Aquelas figuras não faziam parte daquele lugar nem deste tempo. Mas ali estavam, ridículos e rascas, com o megafone na mão e viola em punho. A boa consciência não gosta deste tipo de humor selvático, quase dionisíaco, e isso manifestou-se nos comentários na imprensa e nos blogues. Mas este tipo de humor é muito mais radical do que aquele que agora é incensado. A radicalidade funda-se numa estranheza inquietante que nos traz um mundo que preferíamos não ver, o mundo que afundámos no inconsciente. Enquanto o humor eleitoral dos Gatos visa iluminar as personalidades, este tipo rasca de humor visa -las em causa. O discurso de Sócrates sobre a tolerância é, naquelas circunstâncias, absolutamente patético e, nesse seu pathos, absolutamente risível. Aqueles não eram seus rivais políticos, aqueles Neto e Falâncio nasceram da cratera que se abrira na sua própria personalidade perplexa perante a manifestação do recalcado. Aquele humor não provoca riso, provoca medo. E é o medo que fala quando se comenta com desdém a proeza dos humoristas. Mas o facto é que, contrariamente a outros, despertaram o cómico e o risível.

Materiais de Construção - 7. Ferro

centro da terra
seta de aço
trazendo a morte
mata o cansaço

Uma viagem no Barroco - 11 Gregorio Allegri - Miserere Mei Deus (1582 - 1652).

Gregorio Allegri - Miserere Mei Deus


Onde começa e onde acaba uma determinada época? Por exemplo, aquilo que é dado a ouvir hoje data do tempo em que o Barroco incoava, mas deveria soar, na época, como uma música verdadeiramente conservadora. Não soa a música barroca, mas este Miserere Mei Deus é uma grande peça musical. O compositor italiano, Gregorio Allegri, foi padre e pertenceu à escola de compositores de Roma. Estudou com um grande amigo de Palestrina, Giovani Maria Nanini. Interpretação do Kings College Chapel Choir, dirigido por Stephen Cleobury.

A inquietante realidade

A acção dos humoristas do Vai Tudo Abaixo, no Seixal, mostrou os limites dos Gatos Fedorentos. Tornou evidente como o seu humor deixou de ser corrosivo, embora possa ser inteligente. É um humor com o qual o sistema e o regime vivem bem, de tal maneira que as personagens principais fazem já parte do próprio programa, como se se legitimassem mutuamente, humoristas e dirigentes políticos. Mas esta arriscada prestação na arruada do PS, pouco dada a ser compreendida pelo cidadão comum, despe as figuras públicas da sua aura e coloca-as perante uma estranha e inquietante realidade, que não é outra senão a própria realidade. Sócrates mal deve ter respirado. Não há nada que um político em busca de votos mais deteste do que a realidade (por exemplo, esta).

A imaginação pura

Um artista tem uma imaginação prática. Ela impele-o para a realização, para a transformação da matéria em novos objectos, singulares e irrepetíveis, se ele é efectivamente artista. A imaginação prática do artista é um imaginação produtora, demiúrgica. Eu também sou um ser de imaginação, mas a minha não é prática. Ela é um nevoeiro onde fico retido. Nada nela me impele a agir, a transformar, a tornar concreto. Sofro de imaginação pura, de uma imaginação que odeia o concreto e o concretizar-se. Uma imaginação pura é uma imaginação sonâmbula. Sofrer de sonambulismo é um destino tão nobre como outro qualquer, como o de ser artista, por exemplo. Desde sempre me lembro de sofrer de uma imaginação assim, sonâmbula, de uma imaginação que armadilha o corpo, que rompe os laços com o real, que destrói, uma a uma, as fibras da vontade. Por vezes finjo que sou um ser da razão, mas isso é apenas um penoso exercício exterior, uma máscara social, o mínimo que me permite pagar as contas. Para além disso, há apenas um nevoeiro de imagens sortidas, de coisas que vão e que vêm, de um fascínio que me prende na quietude dos dias. Talvez exista, ou tenha existido, algum povo assim. Esse seria o meu povo. [16 de Setembro de 2009]

Um teste

Considerando que os Gatos de José Sócrates são os mesmos de Manuela Ferreira Leite, o que pode explicar tão grande diferença de audiência? É um programa de humor e pode supor-se, considerando o tipo de personalidade de Manuela Ferreira Leite, que o auditório buscasse um momento supremo de divertimento pela humilhação de uma avó pelos netos. Pelo menos seria isso que se desejaria lá para o Largo do Rato. Mas pode não ser isso. Uma grande curiosidade sobre alguém que aparenta reserva. Os espectadores talvez estivessem a fazer um teste. Será que a senhora reservada, quase tímida, se aguenta numa situação difícil? Esta audiência não me parece lá grande notícia para o engenheiro Sócrates.

Os mistérios dos votos socialistas

Parece que a Europa se vai submeter a mais um mandato do dr. Barroso, um dos fugitivos do pântano da piolheira, para sintetizar o pensamento sobre a pátria de dois governantes com um século de diferença. O curioso de tudo isto reside no facto dos socialistas portugueses e espanhóis, como que rendidos a uma união socialista ibérica, irem votar no homem. Os portugueses porque ele é português, os espanhóis vá-se lá saber porquê. Talvez seja o TGV, quem sabe? Dos socialistas portugueses só há uma que não vota em Barroso, a dr. Ana Gomes. Serão desavenças de quando ainda eram os dois jovens militantes marxistas-leninistas-maoístas? Ou será que os voos da CIA e o apoio de Barroso a Bush a afectaram mais a ela do que aos outros socialistas portugueses? Já agora, alguém explica o que é que Portugal ganhou, a não ser ter-se livrado dele, com o dr. Barroso na Europa? Para quê este voto patriótico, ainda por cima num partido tão internacionalista (ele é Obama para cá, Sarkozy para lá, Zapatero para o TGV, etc.)?

15/09/09

Materiais de Construção - 6. Argila

promessa de casa
vertigem de lama
resto de terra e água
que a mão derrama

Uma viagem no Barroco - 10 Tomaso Albinoni - Concerto em ré menor, para trompete (1671 - 1751).

Tomaso Albinoni - Concerto em ré menor, para trompete


Tomaso Giovanni Albinoni foi, fundamentalmente um compositor veneziano de óperas. Atribuem-se-lhe mais de oitenta. Hoje é conhecido, principalmente, pela sua música instrumental, nomeadamente os concertos para oboé. Vídeo de hoje: Albinoni Concerto em ré menor, para trompete. Trompete-Maurice André. Orquestra Filarmónica de Londres. Maestro-Jesus Lopez-Cobos.

Polémica tonta

Quem diria que umas eleições em 2009 iriam descambar nisto e nisto? Tanta parolice para quê? Para quê invocar Obama, Sarkozy e Zapatero, por um lado, ou então um qualquer e dúbio interesse português, por outro? O TGV tornou-se a bandeira da negação da política na actual campanha eleitoral. Em vez de se discutirem os problemas efectivos do país, usa-se o TGV para uma polémica tonta, como se o PS e o PSD tivessem, sobre as questões da política internacional, posições diferentes. Seja como for, mas isto é apenas um mero feeling, desconfio que o nacionalismo anti-TGV não vai render votos. O PSD pode arriscar-se a pagar caro o devaneio anti-espanhol. Mas isto é um feeling.

Liturgia dramática

Esta liturgia, apesar de cansativa, não deixa de ser dramática. Contrariamente ao que por aí se pensa, o PCP é um partido exactamente igual aos outros, composto por seres humanos como os outros, com defeitos e virtudes idênticos aos dos membros dos outros partidos. No entanto, há nele toda uma manobra de ocultação e de dissimulação. Os militantes comunistas fingem não ter aspirações individuais, nem ambições pessoais, fingem não querer deter o poder ou ser reconhecidos como chefes, a não ser que uma qualquer entidade mágica, talvez um Espírito Santo materialista, os indique para tal. Quando isso não acontece, ou aguardam uma nova decisão do Espírito Santo ou saem da organização. Mas por isso, quando há militantes que saem do partido, tal como acontece agora com Domingos Lopes, nunca invocam motivações pessoais. Precisam de toda uma rábula ideológica para baterem com a porta, como se estivesse em causa uma decisiva doutrina teológica que pudesse salvar ou condenar o mundo à perdição ou salvação eternas. Domingos Lopes não sabia há muito tudo o que indica na carta de despedida? A única coisa que está em causa é que perdeu. Outros foram mais fortes e mais consequentes na administração das suas ambições. Ambições, sim. Porque estas não são apenas aquelas que fazem parte da panóplia de ambições do burguês. Ser chefe, ter voz, ser reconhecido como líder, etc., fazem parte das ambições humanas que estão por detrás da militância comunista e de todas as outras. Como a luta das subjectividades, dentro de uma organização comunista, é disfarçada pelo putativo interesse do colectivo, cada vez que um derrotado sai, parece que o mundo vai acabar, parece que o que está em jogo é de uma tal importância que ele não pode fazer outra coisa senão abandonar, com sentimento de traição, mas com a consciência do dever de denúncia cumprido, os seus camaradas, efectivamente inimigos. No fundo, um apóstata nunca se reconhece como autor da apostasia. São sempre os outros, os que ficam, os verdadeiros apóstatas. Dizer isto não significa dizer mal dos comunistas. Significa apenas integrá-los na família humana a que eles pertencem, com as suas ambições, desejos recalcados, silêncios, interditos, vitórias e derrotas pessoais. Estulta é a pretensão de que não são exactamente pessoas como as outras. Adenda: as reacções mostram bem o sorriso de quem ganhou. É a vida.

O futuro

A condição histórica é a natureza do homem fora do estado paradisíaco. Submetido ao tempo, o homem soçobra sob o jugo terrível do império do futuro. Este sempre foi visto como uma ameaça, o cumprimento de uma sentença de condenação à morte, inapelável. A modernidade, porém, subverte esta experiência arcaica e faz do futuro um lugar radioso, o sítio onde se cumprem todas as expectativas. Assim se percebe, por exemplo, a natureza do homem revolucionário, e eu já fui um revolucionário, embora diletante e falhado. Quer destruir o presente – toda a ordem da presença é abominável – para que o futuro se realize. Por isso, deixa atrás de si um rasto interminável de sangue. O futuro nunca deixou de ser o lugar da morte. [15 de Setembro de 2009]

14/09/09

A senhora

Acordou agora para criticar a outra senhora. Mas a sonolência que lhe infecta as pálpebras não o deixa perceber que, na piolhice em que deu a actual República, Manuela Ferreira Leite é a senhora, por antonomásia. Eu nem votarei nela, mas esse gracejo identificando-a com o antigo regime faz-me lembrar o tempo em que quem não fosse do PC ou da extrema-esquerda era fascista, incluindo o paizinho do dr. João Soares. Mais valia ter continuado a dormir.

Não fora isso

Ainda bem que o presidente Barack Obama prolongou o embargo a Cuba por mais um ano. Imaginemos o que aconteceria aos Estados Unidos e ao mundo se ele não tivesse tido tão preclaro gesto. Os comunistas cubanos, aproveitando o fim simbólico do embargo, pois ele continuaria na prática, começariam a tecer terríveis planos para invadir os EUA, sabotar a economia internacional, pôr fim à globalização. Não fora o gesto do Presidente Obama, o mundo livre soçobraria com uma terrível epidemia provinda do comunismo cubano. E se eles, os cubanos, continuam castristas, então que morram de fome, de doença, que vão para as profundas dos infernos. Já o comunismo Chinês é doce e suave e não há embargo que o valha. Esse não representa ameaça para ninguém.

Materiais de Construção - 5. Cal



estranha poeira
quase marmórea
traço rasurado
no vão da história