14/09/09

Uma viagem no Barroco - 09 Alessandro Scarlatti - Concerto n° 6 in E major (1660 - 1725).

Alessandro Scarlatti - Concerto n° 6 in E major


Não confundamos este Scarlatti, Alessandro, com o outro, Domenico, filho do primeiro, e compositor da corte portuguesa. Alessandro Scarlatti ficou famoso pelas suas óperas e cantatas de câmara. A música de Scarlatti estabelece um elo de conexão entre o primeiro barroco italiano e a música clássica do século XVIII, cujo expoente máximo é Mozart. Neste vídeo não se identifica o grupo musical dirigido po Ottavio Dantone.

A regência da amargura

Estamos em maré eleitoral. A política concerne ao nosso ser mais profundo ou é apenas uma governação de máscaras? Ela diz respeito ao homem expulso do paraíso. Mas aqui surgem todos os perigos. Uns, perante a posição extra-paradisíaca do homem, fazem da governação uma gestão do inferno. Outros fazem da política uma viagem de retorno ao paraíso, de onde Deus nos expulsou. Não são diferentes dos primeiros. Estar fora do paraíso não é necessariamente habitar no inferno. Pode ser amarga a vida quando se descobre o despejo divino e a imutabilidade desse decreto, mas nem a felicidade nem a infelicidade são os objectivos da política. Sensato será fazer da governação a mera regência da amargura. [14 de Setembro de 2009]

Explicar a coisa mesma

Para o cidadão comum, a história do TGV é absolutamente esotérica. A multiplicidade de posições é uma coisa boa, mas os argumentos sobre essas posições ainda são mais obscuros e esotéricos do que a própria história do TGV(aqui, aqui e aqui). O que os eleitores gostariam de perceber mais claramente é a relação entre custo do empreendimento e o seu benefício, ou qual será o preço a pagar por não realizar a obra. O que se dispensa, claramente, é um conflito bacoco entre um nacionalismo serôdio e um pós-nacionalismo armado ao modernaço. Os dois grandes partidos do poder que expliquem o TGV em si e não façam discursos sobre princípios de filosofia política de trazer na algibeira. Importam-se de explicar a coisa mesma?

Avaliação e mutilação da vida

É inevitável, assim, que a avaliação, como um diagrama transversal a toda a sociedade, tenda a transformar todas as relações humanas em relações funcionais de poder. O preço pago por esta tecnologia biopolítica é, evidentemente, a mutilação de uma vida mais rica, a diminuição brutal dos possíveis, a restrição do aleatório, do acaso, da imprevisibilidade. Como estes serão também transformados em funções — a famosa «criatividade» no trabalho, nas empresas, nos serviços, na publicidade, nos média —, os próprios factores aparentemente incodificáveis serão avaliados, quantificados, normalizados.
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Em Busca da Identidade é o último ensaio de José Gil sobre o ser português. O último capítulo, "A avaliação e a identidade", é uma reflexão sobre a questão da avaliação e o seu rebatimento na formação da subjectividade e da identidade. Essa reflexão tem como núcleo central a iluminação daquilo que se esconde por detrás da avaliação de professores, introduzida pelo governo ainda em funções. E o que está em causa efectivamente, não é melhorar o sistema de ensino, mas aquilo que José Gil diz neste excerto, "a mutilação de uma vida mais rica, a diminuição brutal dos possíveis, a restrição do aleatório, do acaso, da imprevisibilidade." O processo não visa produzir professores cultural e existencialmente mais ricos, mais bem preparados, mas o contrário. Mutilar a vida dos professores como caminho para mutilação da vida dos alunos. É isto que está em causa e não mais do que isto.

13/09/09

Materiais de Construção - 4. Chumbo

seda pesada
inclina a terra
presa ao segredo
que nele encerra

Dizer mal dos espanhóis...

Más companhias e maus conselhos também para as bandas da dr.ª Ferreira Leite. Quem lhe disse que ganhava votos brandindo o medo dos espanhóis? Já ninguém sabe História e se lembra dos Filipes, o Hóquei Patins já não é o que era e qualquer um vai ali a Espanha. O mal é esse, ir a Espanha e ver como é. Muitos, embora não o digam, têm pena de não ser espanhóis. Portanto, se quer ganhar votos ao eng.º Sócrates, não diga mal dos espanhóis nem das ligações a Espanha. Nacionalismo a esta hora não cai bem entre a plebe democrática. Se ainda se pudesse fechar a fronteira...

Uma viagem no Barroco - 08 Jan Pieterszoon Sweelinck - Hexachord Fantasia (1562 - 1621).

Jan Pieterszoon Sweelinck - Hexachord Fantasia


Uma Viagem no Barroco vai hoje de jornada até aos Países Baixos. Jan Pieterszoon Sweelinck foi um pedagogo, organista e compositor holandês. É um compositor de transição entre a música do Renascimento e a do Barroco. Reconhecido com um grande compositor de música para instrumentos de teclado, um dos mais importantes antes de JS Bach, também compôs música vocal, mais de 250 obras, entre canções, madrigais, motetes e Salmos. A Hexachord Fantasia é interpretada por Ernst Stolz em cravo.

Ministros novos?

O eng.º Sócrates anda mal aconselhado. Acusam-no de, ontem, após o debate com a dr.ª Ferreira Leite, ter prometido um governo novo com ministros novos em todas as pastas. Certamente, perante o desespero de alguns incumbentes, emendou a mão. Haverá um governo novo, com ministros novos, mas não todos. Sossega os atingidos na dignidade ministerial e na excelência da sua acção. Mas, estratégicamente falando, é um erro. Se Sócrates for convidado a formar governo é porque ganhou as eleições. E como todos sabemos em equipa que ganha não se mexe. Era isto que deveria ter dito. Os ministros agradeciam, Sócrates passava por bem-educado e pessoa agradecida, e nós, eleitores, ficávamos esclarecidos.

O meu lugar

Nunca soube lá muito bem qual o meu lugar no mundo. A evidência da posição foi sempre para mim um mistério. Não é que não tenha feito tentativas, múltiplas, para me posicionar. Mas o estar em posição sempre me cansou. Talvez a fadiga resida numa debilidade física e tudo se circunscreva à falta de ginásio. Ter um lugar no mundo implica ter uma posição e ser incansável na manutenção do posto. A minha fadiga, mesmo se física, sempre foi acompanhada, porém, por um des-crédito. Quanto mais quis acreditar mais desacreditei. No cerne de tudo, fundamentalmente daquilo que defendi ou defendo, sempre descobri o irrisório. O irrisório nasce da tensão entre não ter lugar e o querer ter uma posição. Desde que fui expulso do paraíso, não eu mas Adão e Eva por mim, que vivo no não-lugar do irrisório. O irrisório cresceu quando os homens, expulsos do paraíso, pensaram que tinham uma posição na Terra e essa posição era o seu lugar. [13 de Setembro de 2009]

12/09/09

Materiais de Construção - 3. Mármore

fruto de pedra
voto de luz
olhar de fogo
mar que seduz

Uma viagem no Barroco - 07 Marc-Antoine Charpentier - Te Deum, H 146 (1643 - 1704).

Marc-Antoine Charpentier - Te Deum, H 146


Uma Viagem no Barroco desloca-se hoje da música de origem germânica para a música francesa, para o compositor Marc-Antoine Charpentier, um dos grandes nome do barroco musical francês. Ao consultar, na Internet, a sua biografia descobre-se que nunca trabalhou na corte de Luís XIV, tendo, em contrapartida trabalhado para Teatro, com Molière. O leitor, mesmo que nunca tenha escutado uma obra de Charpentier, certamente reconhecerá o prelúdio, ou parte dele, deste Te Deum, uma obra que o autor considerava particularmente belicosa. Le Parlement de Musique (Mathilde Etienne, Ariane Wohlhuter, James Oxley, Thomas Van Essen, Bertrand Chuberre), Dir: Martin Gester.

Envelhecer

No outro dia acabei por fazer 53 anos. Em dias como esses, sempre surge, insidiosa, a pergunta sobre o que é envelhecer. Envelhecemos quando o nosso discurso se torna completamente metonímico. Indisciplinada, a mente pensa por contiguidade, a essência da metonímia, associa os assuntos, as ideias, os conceitos uns com os outros por essa relação de lateralidade. Mas um exercício de censura, socialmente exigido, leva-nos a que o discurso se foque num objecto e siga nessa focalização. Envelhecer mata a censura e liberta a manifestação metonímica do discurso. Sub-repticiamente começa-se a falar com os outros, deixando o discurso deslizar de assunto para assunto, num encadeamento que ameaça ser infinito. Eis os primeiros sinais, o triunfo da contiguidade metonímica da fala sobre o encadeamento lógico da comunicação. Envelhecer é o triunfo da contiguidade sobre a fixidez de uma posição, a transição do discurso do elemento sólido para o elemento líquido. Liquefeita a fala, encerramo-nos nela. Envelhecer é ficar cerrado na liquidez interminável da fala. É assim que me vejo já. [12 de Setembro de 2009]

You want to know what I make?

Recebi isto via e-mail, enviado por Victor da Rosa, um torrejano professor da Universidade de Ottawa, Canadá. Não resisti a publicar, agradecendo desde já ao ilustre remetente.

The dinner guests were sitting around the table discussing life. One man, a CEO, decided to explain the problem with education. He argued, 'What's a kid going to learn from someone who decided his best option in life was to become a teacher?' He reminded the other dinner guests what they say about teachers: 'Those who can, do. Those who can't, teach.' To emphasize his point he said to another guest; 'You're a teacher, Bonnie. Be honest. What do you make?' Bonnie, who had a reputation for honesty and frankness replied, 'You want to know what I make? (She paused for a second, then began...) 'Well, I make kids work harder than they ever thought they could. I make a C+ feel like the Congressional Medal of Honor. I make kids sit through 40 minutes of class time when their parents can't make them sit for 5 without an I Pod, Game Cube, or movie rental. You want to know what I make?' (She paused again and looked at each and every person at the table.) ''I make kids wonder. I make them question. I make them apologize and mean it. I make them have respect and take responsibility for their actions. I teach them to write and then I make them write. Keyboarding isn't everything. I make them read, read, read. I make them show all their work in math. They use their God-given brain, not the man-made calculator. I make my students from other countries learn everything they need to know in English while preserving their unique cultural identity. I make my classroom a place where all my students feel safe. I make them understand that if they use the gifts they were given, work hard, and follow their hearts, they can succeed in life.' (Bonnie paused one last time, then continued.) Then, when people try to judge me by what I make, with me knowing money isn't everything, I can hold my head up high and pay no attention because they are ignorant... You wanted to know what I make? I MAKE A DIFFERENCE! ‘What do you make, Mr. CEO?' His jaw dropped, he went silent. THIS IS WORTH SENDING TO EVERY TEACHER YOU KNOW,as well as: all your "PERSONAL TEACHERS" in friends and family.

Devaneios

É o que dá haver eleições. Agora, o engenheiro Sócrates, coitado, sofre de delírio. Quer lutar contra a direita nas áreas da Saúde e da Educação. Caso não houvesse eleições, algumas vez lhe ocorreria tal devaneio? Durante anos, aqueles em que, por castigo dos deuses, ele foi o timoneiro da pátria, nunca lhe ocorreu tal coisa. Não é que, por exemplo, uma política de esquerda seja boa em matéria de educação. Não é! (Neste blogue ainda se usa ponto de exclamação!) Sabemos que em matéria de educação, o delírio, à esquerda, é total. Mas em vez destas parlapatices da luta conta a direita, o importante seria dar seriedade e credibilidade a esses serviços públicos, em vez de os fazer joguetes de interesses estranhos. Se toda a gente percebe que por detrás da saúde se movem forças poderosíssimas, pouca gente percebe que o mesmo se passa na educação, e neste caso, essas forças não são obviamente os professores, mas aqueles que vivem da balbúrdia que a inovação educativa, tão ao gosto de Sócrates, introduz nas escolas públicas. Gente que, por certo, terá os seus filhos e netos bem recatados em colégios particulares. (Imagem "pedida" de empréstimo ao Jumento)

11/09/09

Diplomas e dieta light

Este post do Zé Ricardo, como todos os outros, merece ser lido e não treslido. Não é uma apologia da escola do Estado Novo, mas um protesto contra a erosão educativa que a democracia fez crescer em Portugal. Mas ele lembrou-me de uma coisa. Hoje, dia do diploma, uma aluna minha do 12.º ano (foi minha aluna durante três anos), foi reconhecida como a melhor aluna do ensino secundário da minha escola. Acho que se vai candidatar a uma faculdade de arquitectura com média de 19,2 valores. Esta aluna, no ano lectivo que terminou, fez-me, como todos os seus colegas, três trabalhos de investigação sobre as obras que leccionámos. Esses trabalhos não foram copiados nem feitos por terceiro. Sei disso, porque os alunos tiveram de discutir publicamente os trabalhos comigo. O primeiro trabalho versava a teoria da reminiscência em Platão. A aluna trabalhou o Fédon e o Ménon (que leu em Inglês). O segundo trabalho versava sobre o problema da moral e da política em tensão com a questão da Paz Perpétua, de Kant. A aluna leu Locke, Carta sobre a Tolerância, e Kant, A Paz Perpétua. O terceiro trabalho foi uma reflexão sobre o conceito de civilização trágica, em Nietzsche. Todos estes trabalhos teriam, numa gradução em Filosofia, uma nota acima da média. Mas esta não foi a única aluna a trabalhar a um nível muito elevado. Tive, na mesma turma, outros alunos com desempenhos altíssimos. O problema está em que a cultura deste grupo de alunos é radicalmente estranha à generalidade dos outros e à escola que a democracia impôs. A possibilidade destes alunos descobrirem um apoio na escola reside apenas no simples facto de encontrarem à sua frente professores que valorizem o saber, a cultura, a ciência, as artes. Ora se olharmos para o perfil de professor que este governo implantou (um burocrata, cheio de estratégias vazias e pouco saber científico), percebemos que o dia do diploma apenas serve para ocultar a traição que está a ser feita aos alunos que querem levar a vida a sério. O bom professor da socióloga Rodrigues é pesadamente formado em burocracia, e do ponto de vista intelectual e cultural tem o estrito dever de seguir uma dieta absolutamente light.

Materiais de Construção - 2. Âmbar

nascido em silêncio
rosto do passado
memória de ouro
um anjo cansado

Uma viagem no Barroco - 06 Heinrich Schütz - Meine Seele erhebt Herren (SWV 344) (1585 - 1672).

Heinrich Schütz - Meine Seele erhebt Herren (SWV 344)


Heinrich Schutz disputa com Dietrich Buxtehude o honroso título de melhor compositor alemão antes de JS Bach. Influenciado por Gabrieli e Monteverdi, é um compositor essencialmente de temática sacra. Pelo menos foi essa que lhe sobreviveu. A peça escolhida para hoje, uma belíssima peça, é Meine Seele erhebt Herren (SWV 344). Maria Cristina Kiehr (Soprano) e o Concerto Vocale. Direcção de René Jacobs. Uma sugestão de audição: The Seven Last Words of Jesus Christ on the Cross.

Quem vai à frente?

Empate técnico entre PS e PSD a duas semanas das eleições. Apesar de tudo, não estou muito convencido do desempenho eleitoral do PSD. O PS está a oito pontos da maioria absoluta de 2005. Está a pagar o facto de ter alienado o seu eleitorado natural, julgando que a direita lhe ia cair nos braços. Já se sabe que não vai. Mas no quadro da sondagem, onde o PS tem 37% dos votos e PSD+CDS obtêm 41%, o papel dos derrotados do 25 de Novembro de 1975 (BE e PCP) pode ser decisivo na governabilidade do país. Segundo a sondagem quase 20% dos eleitores estão dispostos a dar o seu voto à esquerda do PS. Neste momento, são eles que lideram as eleições.

Jornal Torrejano, 11 de Setembro de 2009


On-line está já a edição de 11 de Setembro de 2009 do Jornal Torrejano. Se clicar aqui, vai até .

10/09/09

Optimismo e educação

Sócrates diz que as coisas estão a melhorar. Os gramas que retiraram o país da recessão técnica são o combustível do optimismo com o qual o eng.º Sócrates pretende inundar a pátria, nesta época pós-estival. Mas não há optimismo que o seja se não estiver escorado numa reforma educativa. A educação está para o optimismo como a febre e a diarreia estão para a gripe A. Por isso, Jaime Gama e José Sócrates não se cansaram de lembrar as magníficas reformas do governo na área educativa ou a supina importância da educação para os destinos da pátria. Há uma coisa, porém, que está efectivamente a melhorar: o clima para a reeleição de Sócrates. Há qualquer coisa muito desagradável no ar. As oposições parecem estar a perder gás. Posso estar muito enganado, mas os tempos não são os de Ferreira Leite, nem Ferreira Leite pertence já a este tempo.