17/08/09

Alma Pátria - 28: Tristão da Silva - Aquela Janela Virada para o Mar


Tristão da Silva - Aquela janela virada para o mar

Quem fez o upload deste vídeo para o You Tube diz que Tristão da Silva terá escrito esta canção enquanto estava preso, por ser oposicionista à ditadura. Não consegui confirmar a história. Existem algumas pequenas biografias na rede, mas em nenhuma delas consegui encontrar referência a esse facto. Seja verdade ou seja apenas uma ficção, o facto é que esta canção passava bastante na rádio nos tempos do dr. Salazar. É uma das canções que dão a imagem de marca do cantor e faz claramente parte da alma pátria.

Vida, sociedade, prestação de provas

No De Rerum Natura encontrei este texto de Francesco Alberoni sobre os exames:

A vida, na sua essência, na sua estrutura, é projecto e risco. Há sempre um momento em que ficamos suspensos à espera (...). Não compreendo os pedagogos que pretendem acabar com os exames nas escolas. O exame é parte integrante da educação. Não compreendo os pais que pretendem evitar esse stress aos filhos. Viver significa prever, calcular, dominar o stress.

Só quando temos que enfrentar um exame é que nós nos apercebemos do que podíamos e devíamos ter feito. Antes tendemos a deixar-nos embalar pelas ilusões, a imaginar o mundo como gostaríamos que fosse (...). Em todas as alturas, devemos procurar adquirir sempre o estado de espírito próprio do dia que antecede a batalha, para ver se não nos enganámos em nada, se não nos esquecemos de um pormenor importante (...) Devemos reproduzir o melhor possível a realidade, a angústia da realidade, a incerteza da realidade (...). Só (...) aceitando até ao fim o difícil exame, nós podemos correr o risco do futuro.” [Francesco Alberoni (1995). O Optimismo. Lisboa: Bertrand, pp. 84-85]
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Aquilo que o sociólogo italiano escreve já foi o mais puro senso comum. Era uma evidência que iluminava o comportamento de uma comunidade. O que merece meditação, antes de mais, é a forma como essa evidência foi corroída e se dissolveu. Uma grande guerra ideológica foi lançada contra o bom senso comunitário, tornou incerto o que é uma experiência estruturante da humanidade, seja nas sociedades modernas, seja nas sociedades tradicionais, seja nas sociedades arcaicas. Prestar provas (sejam exames ou provas iniciáticas) é o fundamento da integração das novas gerações nas respectivas sociedades. Mas a prestação de provas é também uma demarcação. Prestar provas e ficar aprovado significa que se deixou qualquer coisa para trás, que se saltou um obstáculo, que se cresceu. A destruição dos exames foi uma, entre outras, estratégias para a contínua infantilização das sociedades ocidentais. Na ideologia que certos pedagogos e muitas famílias ostentam, descobre-se uma resistência ao tornar-se adulto, ao crescer, como se a criança e o jovem pudessem viver eternamente na despreocupação e na irresponsabilidade. Este impulso da irresponsabilização emana directamente das novas formas de capitalismo, as quais exigem uma massa amorfa de consumidores, de gente que se relaciona com os artefactos, pertençam eles ao mundo material ou ao imaterial, como as crianças se relacionam com os brinquedos.

Contrariamente ao que pensa a esquerda sobre a educação, o fim dos exames, o fim da prestação de provas, não significa uma maior facilidade na produção da igualdade social. Pelo contrário, este tipo de ideologia não é emancipatório, mas propício a uma reestruturação dos sistemas de ensino, onde os filhos das elites têm acesso, através dos colégios privados e confessionais, a um ensino exigente e rigoroso, e os filhos da plebe democrática têm a escola pública como lugar de gozo e de prazer, lugar de irresponsabilidade social e pessoal. A política educativa seguida nos últimos quatro anos, pela mão dos socialistas, teve como finalidade impor este modelo profundamente classista, o qual começou a ganhar forma com a Reforma Roberto Carneiro, nos tempos em que Cavaco Silva era primeiro-ministro. Não por acaso, Cavaco Silva cobriu todos os desmandos da equipa de Lurdes Rodrigues. Por detrás da retórica da sociedade do conhecimento, por detrás do incenso às novas tecnologias, o que está em jogo é uma brutal divisão social, cujo núcleo central reside na negação aos alunos das escolas públicas o direito a um ensino exigente, rigoroso, de alta qualidade. E isso exige, concomitantemente, se não o fim dos exames, a sua irrelevância.

16/08/09

Nuno Ribeiro

Nuno Ribeiro

Esta casa não está transformada num blogue de ciclismo. Mas ter andado todo o tempo da Volta a fazer postagens sobre ciclismo e não haver uma referência à Volta deste ano, parece-me excessivo. É um facto que há muitos anos deixei de me interessar por este desporto, como pela generalidade dos outros. A paixão desportiva tem a sua pátria nessa terra encantada que é a infância e a adolescência. Depois, ou se desenvolve a razão e se olha com outros olhos as competições desportivas, ou a pessoa recusa-se a crescer e prolonga até à morte a atitude agonística presente em toda a paixão pelo desporto. Calhou-me, talvez com pouco mérito meu, a primeira hipótese. Olho com alguma razoabilidade para o fenómeno desportivo e, confesso, que ele já pouco me emociona. Mas essa terra encantada da infância persiste dentro de nós e é ela que me chama quando escrevo sobre o ciclismo. É também uma outra coisa. O ciclismo, aliás como o futebol, vieram até mim por intermédio do meu pai. Escrever sobre estas coisas é uma forma de me sentir próximo dele, uma espécie de culto aos mortos, aos mortos significantes. Aqui fica, assim, a homenagem ao homem que hoje ganhou a nossa pequena Volta. Não será pior nem melhor que os meus heróis de há quarenta anos, mas nunca terá lugar, por culpa da idade que tenho, no panteão da minha memória.

Alma Pátria - 27: Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

Voltamos à face oculta da alma pátria. Como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira chega à canção de intervenção pela mediação do fado de Coimbra. Entre 1960 e 1962, grava quatro EP's (discos com 4 faixas), todos eles dedicados à canção de Coimbra. A sua orientação como cantor de intervenção surge de forma nítida no quinto EP, editado no ano de 1963, Trova do Vento que Passa, onde todos os poemas cantados são de Manuel Alegre. Consta que foi um grande êxito comercial. O que é interessante na música portuguesa é o paradoxo de o sebastianismo e a saudade, manifestações ideológicas conectadas com a direita, terem encontrado as suas mais autênticas vozes em cantores de intervenção, como Luís Cília, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.

Volta a Portugal - algumas memórias XIII

Joaquim Agostinho

Há nomes grandes no ciclismo português que traçam a rota da modalidade no nosso país, nomes como José Maria Nicolau, Alfredo Trindade, Ribeiro da Silva, Alves Barbosa ou Marco Chagas (aquele que mais vezes, quatro, venceu a Volta a Portugal). Joaquim Agostinho, porém, foi o único ciclista português de classe internacional. Venceu três Voltas a Portugal, alcançou um segundo lugar na Vuelta a Espanha e dois terceiros no Tour. Era, no seu tempo, um dos grandes nomes do pelotão internacional. Quando morreu, aos 41 anos e vítima de um estúpido acidente numa prova, ainda competia, como se quisesse compensar ter começado tão tarde (aos 25 anos) na modalidade. Aqui termina, com o fim da Volta logo à tarde, esta deambulação pela minha memória do ciclismo nacional.

15/08/09

Quarenta anos de Woodstock

Jimi Hendrix - Purple Haze at Woodstock 1969

The Who - My Generation [Woodstock 1969]

Jefferson Airplane Saturday Afternoon Woodstock 1969

As efemérides são sempre amigas dos bloggers falhos de imaginação. Passam hoje 40 anos do Woodstock. Podemos dizer que o evento condensou toda uma cultura juvenil que se foi formando ao longo da década de sessenta. De certa maneira é o sumário do passado e um programa de futuro. Quarenta anos depois, o mundo que é o nosso é o que aquela gente e muitos dos que gostariam de lá ter estado formataram. Não se pode dizer que seja um mundo brilhante, mas há uma coisa de que não podemos acusar a geração do Woodstock: falta de eficiência. O niilismo e o relativismo que a animava foram eficientemente disseminados e tomaram conta do Ocidente.

Alma Pátria - 26: Fernando Farinha - O Meu Destino & Sempre Linda


Fernando Farinha - O Meu Destino - Sempre Linda

Fernando Farinha era um dos fenómenos da Rádio nos anos sessenta e, presumo, cinquenta. Era conhecido como o Miúda da Bica, referência ao bairro da Bica, Lisboa, para onde veio residir em criança, vindo do Barreiro. Começou a cantar muito cedo. Esta gravação parece ter sido feito quando ele tinha apenas 11 anos. É uma curiosidade, pois trata-se de um velho 78 rpm. Eis como soava, mais ou menos, um disco nos finais dos anos trinta ou início dos quarente.

Volta a Portugal - algumas memórias XI/XII

Mário Silva e Pedro Moreira

Junto aqui dois ciclistas bem presentes na minha memória. Têm palmarés dissemelhantes, melhor o do portista, mas como o blogue é meu, junto quem me apetecer. Mário Silva ganhou a Volta (1961) muito novo, tinha apenas 21 anos. Na Volta do ano seguinte ganhou o Prémio da Montanha. Na altura, era sempre apontado como um dos candidatos ao triunfo na prova, mas o melhor que alcançou foi um 3.º lugar. António Pedro Moreira nunca obteve uma classificação brilhante na Volta a Portugal (o melhor que conseguiu foi um 7.º lugar), mas está associado na minha memória às metas volantes, um enigmático prémio existente na Volta a Portugal, não sei se noutras. Ganhou o prémio das metas volantes três vezes (1966, 67 e 68). Ganhou ainda a classificação por pontos (camisola verde) em 1966. Ambos eram nomes emblemáticos dos respectivos clubes.

A paródia pós-moderna

A Condição Pós-moderna, escrita como uma encomenda oficial, restringe-se essencialmente ao destino epistemológico das ciências naturais - a cujo respeito, como Lyotard mais tarde confessou, o seu conhecimento era menos do que limitado. O que ele entreviu nelas foi um pluralismo cognitivo, baseado na noção - inédita para os públicos franceses, embora já há muito estereotipada para os anglo-saxonicos - dos diferentes e incomensuráveis jogos linguísticos. A incoerência da concepção original de Wittgenstein, muitas vezes notada, foi apenas acrescida pela afirmação de Lyotard de que tais jogos eram autárcicos e agonísticos, como se pudesse haver um conflito naquilo que não possui uma medida comum. A influência subsequente do livro esteve, neste sentido, em relação inversa ao seu interesse intelectual, quando se converteu na inspiração de um relativismo vulgar que, muitas vezes - aos olhos quer dos amigos, quer dos inimigos - passa pela marca do pós-modernismo. [Perry Anderson, As Origens da Pós-Modernidade. Lisboa: Ed. 70, pp. 39/40]


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Esta mesma marca de irrelevância intelectual de um dos mais famosos livros sobre a pós-modernidade é assumida pelo próprio Lyotard: "Inventei histórias, referi-me a um rol de livros que nunca lera, aparentemente causou impressão nas pessoas, mas tudo se resume a um pouco de paródia... É o pior dos meus livros; quase todos são maus, mas este é o pior": [Lotta Poética, Terceira Série, Vol. l, N° l, Janeiro 1987, p. 82 (idem, pp. 39)].


Há, no entanto, qualquer coisa no livro de Lyotard que é pregnante. Essa força advém-lhe do próprio carácter paródico. Lyotard podia saber pouco do que falava no seu célebre relatório, podia ter inventado histórias, podia citar livros que nunca lera, mas isso não torna a sua obra menos significativa relativamente ao espírito pós-moderno. Pelo contrário, o livro como atitude intelectual parece ser o resumo da pós-modernidade, do carácter paródico em que a própria vida e o saber se tornaram. A pós-modernidade é esse momento que, após a solidez material do mundo moderno, tudo se dissolve, se torna leve e risível.


A risibilidade da existência só encontra o seu outro na risibilidade do saber, de um saber que cresce exponencialmente, mas com o qual os seres humanos são cada vez menos sábios e menos humanos. Um relatório sobre o destino epistemológico das ciências naturais pode ser um motivo tão válido como uma investigação sobre colecções de cromos da bola para evidenciar o carácter risível do mundo. Lyotard escolhe muito bem a palavra paródia, evitando a referência directa à comédia. Esta deve ser sempre pensada na sua relação ancestral com a tragédia. A segunda, no dizer de Aristóteles, trata dos homens superiores, enquanto a primeira trata dos homens comuns ou inferiores.


Ora a paródia pós-moderna trata da ausência dos próprios homens, superiores ou inferiores, do mundo da vida. Ela assinala o lugar onde o homem se ausentou de si mesmo, dissolveu-se, reduziu-se a uma condição onde inferior e superior apenas fazem sentido entendidos num contexto zoológico. No entanto, não se deve interpretar o zoológico como referência a uma ciência, ainda que taxionómica, como a Zoologia. Deve ser ligado àquilo que entendemos quando escutamos a expressão "jardim zoológico". Ali os animais são criados em cativeiro para exposição pública. A pós-modernidade refere-se ao momento em que o mundo da vida se resume a um jardim zoológico, onde diferentes espécies de macacos se exibem perante outros macacos. A paródia é o contexto da risibilidade do animal humano reduzido ao horizonte dos seus apetites naturais. Um deles é exibir-se paroxisticamente perante o próximo. A característica essencial, porém, da paródia é o seu carácter de reinterpretação de um original. Agora os animais humanos parodiam o homem que um dia foram.

14/08/09

O comentador que o país consagrou

O ubíquo e conspícuo Moita Flores veio anunciar ao mundo que não votaria na dr.ª Ferreira Leite, mas espera que o PSD de Santarém continue a apoiar a sua independente candidatura à câmara local. Este intelectual do regime, que transpira palavras de ética por todos os ecrãs que apanha a jeito, deveria pura e simplesmente não aceitar candidatar-se pelo partido chefiado pela senhora que parece abominar. Se as pessoas não gostam de um partido ou do chefe, o caminho é ir para outro lado, ou ficar quietas em casa à espera que as chamem para comentar mais um crime ou um jogo de futebol.

Alma Pátria - 25: Filarmónica Fraude - 25


Filarmónica Fraude - 25

Uma fraude que nasceu em 1968 e terminou em 1969. Nasceu, segundo parece, entre o Entroncamento e Tomar. A Filarmónica Fraude representou um corte com o tipo de música que se praticava em Portugal, combinando o ritmo da pop ou o rock progressivo com a música tradicional portuguesa. Não consegui nenhum vídeo com os grandes temas da banda, nomeadamente Flor de Laranjeira e Menino. Aliás, este tema, 25, uma referência à guerra colonial, foi o único vídeo disponível que encontrei e diz respeito a uma das faixas do único álbum do grupo, Epopeia.

Volta a Portugal - algumas memórias IX/X

Joaquim Andrade e Venceslau Fernandes

No ciclismo nacional, para além dos três grandes do futebol, há equipas que fazem parte da mitologia da disciplina. Já aqui falámos do velho Ginásio de Tavira. Podia falar no Águias de Alpiarça, em cuja pista, ainda muito novo, cheguei a ver provas. Mas talvez o mais mítico desses clubes seja o Sangalhos. O grande corredor da terra bairradina foi, sem qualquer dúvida, Alves Barbosa (ganhou as Voltas de 1951, 56 e 58 e participou no Tour), mas dele não me lembro enquanto corredor. As minhas figuras míticas do Sangalhos são os irmãos Oliveira (Herculano e Celestino) e Joaquim Andrade. Este ganhou a volta de 1969, a segunda que era disputada por Joaquim Agostinho. Junto, neste post, outro grande ciclista que correu pelo Sangalhos (embora tivesse corrido por muitos outros clubes, entre eles o curioso Benfica de Luanda), Venceslau Fernandes. Ambos, Andrade e Fernandes, nasceram no ano de 1945, mas Venceslau só venceu Volta em 1984, correndo por uma marca, a Ajacto.

Do novo regime

Ainda não consegui compreender, certamente por limitação minha, a ânsia que existe em certos sectores por aquilo a que chamam um novo regime, ou outro regime, ou outra coisa. A ideia do novo regime, de um regime presidencialista, é uma reformulação do messianismo sebástico. Mas, para além da referência à mitografia nacional, o que mais pode oferecer um novo regime? Não pode alterar o povo que somos, e logo aí 95% da virtude do novo regime se desvanecem. Restam 5%. Dizem respeito ao pastor do povo, o miraculado Presidente a vir com o novo regime. Mas onde iríamos nós buscar essa ditosa pessoa que nos salvaria de nós próprios? Não estou a ver onde, a não ser à classe política, às gentes que pululam no PS e no PSD. Com um novo regime, como é moda agora querer, a vigorar, talvez o Presidente-Rei e primeiro-ministro se chamasse José Sócrates. Um Sócrates ainda mais exuberante, sem o contraponto de Belém nem o aborrecimento de ter de ouvir seriamente os deputados, valham estes o que valerem. O problema fundamental não é de regime. Os mesmos vícios e as mesmas escassas virtudes estiveram presente no constitucionalismo monárquico, na primeira República, no Estado Novo, na República actual. O que variou foi o uso do cajado pelo pastor, umas vezes mais brando, outras mais duro. A essência não muda, pois como se sabe, desde o velho Platão, as essências são eternas e imutáveis.

13/08/09

Alma Pátria - 24: Alfredo Marceneiro - Amor de Mãe


Alfredo Marceneiro - Amor de Mãe

Depois do interregno de ontem, volta o Alma Pátria com um nome grande do fado, Alfredo Marceneiro. Aqui não é o lugar para contar a história dos artistas seleccionados, nem o blogger tem competência para o fazer (pode ver aqui uma pequena biografia do grande Marceneiro). Não identifiquei o autor, talvez seja o próprio Marceneiro, mas a letra deste fado é uma nova e exuberante lição de sociologia pátria. "Há vários amores na vida / Lindos como o amor perfeito / Belos como a Vénus querida / De tantos que a vida tem / Só um adoro e respeito / É o santo amor de mãe". Elucidativo.

Volta a Portugal - algumas memórias VII/VIII

Leonel Miranda & Fernando Mendes
Como ontem, devido a um imprevisto, não foi possível vir ao blogue, faço hoje, para compensar, uma heresia e junto um corredor do Sporting e outro do Benfica, nesta peregrinação à minha memória ciclística. São dois nomes grandes do pelotão dos anos sessenta e início de setenta. Leonel Miranda nunca ganhou a Volta a Portugal. Fernando Mendes ganhou em 1974, no ano da Revolução. Em compensação, Leonel Miranda ganhou o Prémio da Montanha (1967), a classificação por pontos (1968, 69 e 70 - Mendes ganhou em 72, 73 e 74). Ambos ganharam uma vez a classificação das metas volantes. Outra coisa que ambos tiveram em comum foi o terem sido ensombrados pelo fenómeno Joaquim Agostinho. Não fora isso, e os seus nomes seriam ainda maiores no panorama do ciclismo nacional.

Tratar da vidinha

Sabe-se que os inovadores da pátria não gostam de Medina Carreira. É um pessimista e catastrofista, etc., etc., etc., dizem. Como também não sou especialmente adepto do optimismo, escuto e leio sempre com atenção o que diz este antigo ministro. Por exemplo, vale a pena ler isto: «Sempre que um partido em Portugal tem maioria absoluta, os deputados ficam reduzidos a zero. Se tem maioria relativa, há estas contendas brutais em que o PSD está metido porque sabem que sem ir ao Governo não têm lugares para tratar da vida e dos negócios. E, portanto, digladiam-se para ver se têm acesso aos lugarzitos que restam». Ou então isto: «É para empregar os primos, os tios, para fazer negócios de auto-estradas e outras coisas no género. Portugal hoje é um grande BPN». O problema dos inovadores da pátria é que eles pertencem a este tipo de gente que Medina Carreira denuncia. O seu optimismo é optimismo que advém da expectativa da política lhe abrir outros horizontes, e ninguém está a pensar em horizontes espirituais. O pessoal quer é tratar da vida, isto é, da sua vidinha.

11/08/09

Alma Pátria - 23: Simone de Oliveira - Desfolhada Portuguesa

Simone de Oliveira - Desfolhada Portuguesa

Simone de Oliveira é uma presença constante, desde os finais dos anos cinquenta, no panorama da cultura popular portuguesa. De certa forma, ela acompanha a evolução da vida social e política portuguesa. Começa a sua preparação, enquanto cançonetista, numa "escola" do regime, o Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional. A sua estreia, como cantora, dá-se em 1958. Onze anos depois, vence o Festival RTP com uma canção, Desfolhada Portuguesa, escrita pelo poeta e letrista comunista José Carlos Ary dos Santos. O delicioso desta história reside no facto da afirmação, no corpo do poema, "quem faz um filho, fá-lo por gosto" tem gerado controvérsia, o que levou a que se considerasse a letra como muito ousada. Curioso também é ter passado na censura. Estávamos a começar a primavera marcelista e havia um certo amaciamento, que desapareceu rapidamente, do regime. Já agora, note-se a força que emana de Simone de Oliveira.

Volta a Portugal - algumas memórias VI

Américo Silva

Américo Silva ganhou a Volta a Portugal de 1968, envergando a camisola do Sport Lisboa e Benfica. Curiosamente essa Volta foi dominada pelo Sporting. Ganhou por equipas, ganhou no Prémio da Montanha com um tal Leonel Moreira (mas não sei se este nome está correcto, se não será Leonel Miranda) e ganhou a classificação por pontos, através de Leonel Miranda. E o Sporting teve ainda uma outra vitória na Volta desse ano. A estreia do super Joaquim Agostinho, que ficou em segundo lugar. Valeu aos benfiquistas, como eu, a classe de Américo Silva e a conquista das metas volantes pelo inevitável Pedro Moreira.

10/08/09

Será que somos normais?

Muitas vezes tenho a estranha sensação de que nós, portugueses, sofremos de uma qualquer anormalidade. Dito de outra maneira, não somos bons da cabeça. Nas estradas, constatamos isso com frequência. Agora, teve de vir a ministra da Saúde chamar a atenção para comportamentos anti-sociais de certos adultos, comportamentos esses que visam propagar entre crianças o vírus da gripe A, segundo parece, como retaliação. Este tipo de comportamento não é criminalizado? Quando nem a boa educação, coisa de que uma parte dos portugueses não faz ideia do que é, nem os imperativos da consciência moral são suficientes para travar certos actos, deve ser o Direito a fazê-lo.

Volta a Portugal - algumas memórias V

Jorge Corvo

Apesar de ter terminado a sua carreira em 1967, lembro-me perfeitamente de Jorge Corvo fazer parte do pelotão da Volta à Portugal. Recordo-me, também, de ler nos jornais desportivos (li-os desde muito cedo, embora já não olhe para eles há muitos anos) que o tavirense era um grande corredor. Nunca ganhou a nossa Volta, embora tivesse obtido três segundos lugares. Fazia parte de uma equipa mítica do ciclismo nacional, o Ginásio de Tavira. Quem quiser saber um pouco mais de Jorge Corvo poder consultar aqui.

Alma Pátria - 22: Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula


Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula

Este vídeo pertence a uma apresentação de Os Conchas (José Manuel Aguiar de Concha e Fernando Gaspar) na RTP, em 1960. O Rock'n' Roll estava no auge da sua popularidade nos EUA e as novas gerações europeias ansiavam pela americanização, vista talvez como uma certa libertação dos constrangimentos que a velha Europa impunha. Portugal, apesar da ditadura do Prof. Salazar, não ficou imune. Os Conchas são uma prova disso. A capa apresentada não corresponde às canções do vídeo. Pertence ao primeiro EP gravado pelo duo, mas um EP partilhado com Daniel Bacelar. Duas canções para Os Conchas, duas para Daniel Bacelar. Era equitativo e o vinil estava caro.

09/08/09

A ETA de novo

Esta notícia e mais esta mostram que a organização separatista basca ETA continua bem viva. Espanha já tentou tudo, desde a repressão franquista, ao olho por olho e dente por dente do tempo de González, à repressão democrática com Aznar e ao diálogo com Zapatero, mas os resultados são pura e simplesmente nulos. Há problemas que são insolúveis e a ETA parece ser um deles. Se o Estado espanhol quisesse correr riscos talvez houvesse uma possibilidade de deslegitimar completamente a ETA. Se permitisse um referendo sobre o País Basco, um referendo não nacional mais autonómico, talvez a ETA perdesse e ficasse deslegitimada aos olhos das novas gerações. Isso é, porém, um risco. Em primeiro lugar, porque nada garante que uma derrota da ETA nas urnas a levasse a depor definitivamente as armas e os atentados terroristas. Em segundo lugar, poderia acontecer uma coisa paradoxal: o País Basco votar pela continuação na coroa espanhola e outras autonomias exigirem o referendo mas com resultado diverso. A ETA está para Espanha como o Médio-Oriente para o mundo. São problemas insolúveis.

Hermann Hesse

Não há nada melhor, para um blogger veraneante, do que as efemérides. Sempre dão motivo para que se blogue qualquer coisa. Hermann Hess morreu faz hoje precisamente quarenta e sete anos, eis a efeméride. É um autor que a morte não apagou. Os seus livros continuam a traduzir-se e a vender. O que terei lido dele? Tanto quanto recordo, li o inevitável Siddhartha, Narciso e Goldmundo, Ele e o Outro, Lobo das Estepes e Jogo das Contas de Vidro. Todos estas obras deram-me prazer ao lê-las e talvez tenham contribuído para um certo auto-conhecimento. Essa é uma das funções fundamentais da literatura, possibilitar ao leitor o reconhecimento de si mesmo. Mas é também com Hermann Hesse que faço uma outra experiência fundamental da literatura: o do limite da obra. Quando tentei uma releitura de obras como o Lobo das Estepes ou Jogo das Contas de Vidro, obras de que tinha gostado particularmente, não o consegui fazer. As obras tinham-se tornado, para mim, desadequadas, como se a experiência ontológica que elas permitem estivesse há muito ultrapassada. Isso manifestava-se em cada linha do texto, em cada imagem apresentada. Esta experiência não se deve confundir com uma outra corrente em literatura, a experiência da datação da obra. Certas obras fazem sentido na sua época, mas não contêm em si um princípio de universalidade e tornam-se, passado algum tempo, ilegíveis. Esta é uma experiência mais de carácter social e tem uma dimensão quase objectiva. A outra experiência é subjectiva, não depende das metamorfoses sociais, mas das transformações pelas quais passa o sujeito que lê.

Alma Pátria - 21: Luís Cília - Canto do Desertor


Luís Cília - Canto do desertor

A pátria, in illo tempore, tinha uma alma oculta, uma alma que não podia manifestar-se na Rádio e na Televisão portuguesas, mas manifestava-se, por exemplo, na televisão francesa. Era uma alma recalcada. A voz de Luís Cília - não é uma grande voz, mas é uma voz de que gosto bastante pelo seu timbre nostálgico - era uma das vozes dessa alma abscôndita, que atravessava o país pelo silêncio da noite. Aqui canta uma canção contra a guerra colonial. O original em disco é de 1964 e a gravação que se apresenta, em condições não muito boas, é de 1966. Pelo que se percebe da imagem da capa, no canto superior direito, o disco foi editado pela célebre editora discográfica de gauche Le Chant du Monde.

Volta a Portugal - algumas memórias IV

João Roque


Eis um dos grandes ciclistas portugueses dos anos sessenta, João Roque. Ganhou a Volta a Portugal em bicicleta em 1963, e era sempre um dos grandes candidatos à vitória final na Volta. À escala nacional, era um dos grandes contra-relogistas. Tenho a memória, talvez incorrecta, de ter sido João Roque quem descobriu o super Joaquim Agostinho. Pelo menos eram ambos do concelho de Torres Vedras. Pode-se ver mais informação sobre João Roque aqui.

08/08/09

A exclusão de João Lobo Antunes

Mais uma história mal contada. A não recondução do Professor João Lobo Antunes para o Conselho de Bioética mostra a natureza do governo de Sócrates. A atitude é de tal maneira descabida que a deputada socialista Maria de Belém Roseira admite que, se soubesse que o governo não reconduziria Lobo Antunes, ela própria o proporia. Não é apenas a afronta ao Presidente da República que está em causa. O pior é que este governo parece não tolerar ninguém que tenha alguma estatura moral, que se tenha distinguido pela qualidade do seu trabalho. O gesto é político, mas a sua leitura deve ser mais ampla. Ele é sintoma da ânsia da actual direcção socialista em destruir tudo o que não seja meramente rasteiro. No fundo, é a tal inveja de que falou José Gil.

Volta a Portugal - algumas memórias III

Joaquim Leão

Joaquim Leão é um dos nomes mais antigos do ciclismo nacional, de que me recordo em actividade. Ciclista do Futebol Clube do Porto, ganhou a volta de 1964, tinha apenas 21 anos. Nas voltas posteriores, era sempre apontado no lote dos favoritos, mas nunca mais retornou ao primeiro lugar da nossa Volta. No Paixão pelo Porto pode ver-se aqui e aqui mais algumas referências sobre um dos grandes nomes do ciclismo português da década de sessenta.

Alma Pátria - 20: Raul Solnado - A Guerra de 1908


Raul Solnado - A Guerra de 1908

Palavra de honra que tinha programado, lá mais para a frente, este post sobre o Raul Solnado. Mas tendo ele morrido hoje, antecipei-o. Quantas vezes terá passado esta historieta humorística na rádio portuguesa de illo tempore? Bem, não é música, mas é como se fosse. É o humor que era permitido. Raul Solnado, porém, não é um homem do antigo regime, aliás como muitos outras figuras que passam pelo Alma Pátria. Pelo contrário, ele é uma das faces da democracia portuguesa. E acima de tudo, Raul Solnado era uma pessoa de bem. Isso é o mais importante.

Bartolomeu de Gusmão - A passarola


Passam hoje 300 anos da experiência com aeróstatos de Bartolomeu de Gusmão. Segundo Rómulo de Carvalho, poder-se-ia atribuir a Bartolomeu de Gusmão a invenção desses objectos. Talvez os chineses não concordem com a perspectiva. Seja como for, mesmo que este desenho produzido pelo próprio Gusmão pouco tenha a ver com o aeróstato real de há 300 anos, estamos perante uma belíssima estampa da época. O texto de Rómulo de Carvalho, no De Rerum Natura, explica o desenho, a forma como apareceu e a razão da sua publicação na Áustria. Explica também outras coisas.

07/08/09

Alma Pátria - 19: Conjunto António Mafra - Sete e pico

Conjunto António Mafra - Sete e Pico

Não consegui determinar a data da primeira edição desta cantiga do Conjunto António Mafra. Um tom brejeiro e uma certa crítica dos costumes não afastaram este grupo das emissões da Rádio portuguesa. Este é um outro lado da Alma Pátria, o qual vai ganhar desenvolvimento em canções de teor brejeiro, ainda mais ao gosto popular, depois do 25 de Abril de 1974. Para dizer a verdade, não faço a mínima ideia do que hei-de dizer sobre este símbolo vindo do nosso passado.

Volta a Portugal - algumas memórias II

Antoine Houbrechts

Nos últimos dez anos, apenas dois portugueses ganharam a Volta a Portugal em bicicleta (Vítor Gamito e Nuno Ribeiro). Esta tendência é, porém, relativamente recente. Até 1974 sódois estrangeiros tinham ganho a Volta. Em 1973, o espanhol Jesus Manzaneque (Caves Messias). O primeiro estrangeiro a vencer a nossa Volta, a trigésima, foi o belga Antoine Houbrechts, no ano de 1967. Corria na altura pela Flandria, uma equipa também belga. Esta foto pertence a Houbrechts mas a correr numa outra equipa. Tanto quanto me lembro, a Flandria equipava de camisola vermelha com uma risca branca ao centro.

06/08/09

Alma Pátria - 18: Paulo de Carvalho - Corre Nina

Paulo de Carvalho - Corre Nina

Retornamos ao Festival RTP da canção, agora à edição de 1970. Paulo de Carvalho interpreta Corre Nina. Já não estamos perante o tipo de canção que marcou o país na década anterior. Parece aberto o caminho para uma nova geração já não de cançonetistas mas de cantores. A canção em causa, apesar disso, é francamente desinteressante e pouco adequada à voz do intérprete. Aliás, Paulo de Carvalho é para mim um mistério. Uma das vozes mais interessantes da música portuguesa, mas que falhou uma grande carreira. Não é que não tenha tido êxitos, mas nunca teve uma continuidade no tipo de música que fez.

O Averomundo a banhos


A culpa é dela, da minha neta Vera. Até vou à praia e há já quase duas semanas. De manhã cedo, levantamo-nos e por volta das nove hora lá vai tudo para a praia, com balde e todos os acessórios para a Verinha mexer na areia e na água. Estou reconciliado com a praia, desde que não se passe das onze horas e não se abuse do sol. Portanto, durante Agosto o averomundo é um blogue veraneante. Como o país, ele está a banhos e a bolas de Berlim, fresquinhas. A Vera terá mais atenção do que as postagens.

Volta a Portugal - algumas memórias I

Peixoto Alves
Peixoto Alves é o primeiro ciclista do Benfica de que me lembro ter ganho uma Volta a Portugal, no ano de 1965, ainda eu não tinha feito 9 anos. Isso quer dizer que, nos anos anteriores, o Benfica não ganhara qualquer Volta a Portugal. Desde 1959 que os vencedores eram corredores do Futebol Clube do Porto (Carlos Carvalho, Sousa Cardoso, Mário Silva, José Pacheco e Joaquim Leão, cf. aqui), com a excepção do ano de 1963 em que triunfou o sportinguista João Roque. De todos os ciclistas mencionados, o único de que não tenho memória certa é do portista Carlos Carvalho. Os outros lembro-me bem de eles correrem, o que não quer dizer que me lembre de eles terem ganho a Volta. O primeiro vencedor de que tenho memória é mesmo Peixoto Alves, não fosse ele do Benfica. Julgo que no ano seguinte já não correu, pois emigrara para França.

05/08/09

Alma Pátria - 17: João Maria Tudella - Kanimambo


João Maria Tudella - Kanimambo

Um novo retrato de Portugal do anos cinquenta e sessenta. João Maria Tudella nasce em Moçambique e é um cantor de síntese entre a cultura social vigente no Portugal metropolitano e a cultura dos portugueses presentes na então colónia portuguesa. Muitas das suas canções têm por tema Moçambique, as suas cidades e regiões. Kanimambo é o primeiro grande êxito do cantor, um êxito de 1959, mas que passou assiduamente na rádio durante muitos e muitos anos. Apresenta-se a capa do EP (45 rpm) com a montagem de uma foto posterior, do tempo dos festivais RTP da canção. Não faço ideia se a edição do disco tinha uma capa rígida de cartão e aquilo que vemos é apenas uma espécie de subcapa que quase todos os discos tinham.

71.ª Volta a Portugal em Bicicleta

Joaquim Agostinho
Começa hoje a Volta a Portugal em bicicleta. Embora já não me interesse pelo fenómeno, guardo sempre uma recordação grata do ciclismo. Como já disse uma vez, nos anos sessenta e setenta a Volta a Portugal era uma espécie de continuação, em bicicleta, do campeonato de futebol. Para isso contribuía a presença dos três grandes do futebol no ciclismo. Hoje já praticamente não há clubes na Volta, apenas marcas, mas ainda assim subsistem o Boavista, o Louletano e o Tavira, mas julgo que este Tavira não é o velho Ginásio de Tavira. De vez em quando, o Benfica tem uma crise hormonal e lá se lembra de compor uma equipa de ciclismo, como tributo à roda de bicicleta do seu emblema. Mas a coisa passa rápido, considerando o preço da aventura e da nostalgia. Daqui a pouco começa, então, a nossa pequena Volta, uma voltinha à nossa dimensão.

04/08/09

Pacheco Pereira em Santarém

Pacheco Pereira é o cabeça de lista do PSD pelo meu círculo eleitoral, o de Santarém. Do meu ponto de vista, o parlamento vai ficar mais rico com a presença de PP. No entanto, a figura do candidato está longe de ser, do ponto de vista eleitoral, interessante. Tem contra si o facto de não estar ligado ao distrito de Santarém, de surgir de supetão numa região que não conhece, ou conhece mal (por acaso já o vi há dias num conhecido restaurante do concelho de Alcanena, mas talvez estivesse só a passear). Também não lhe é favorável o facto de ser um intelectual e de tentar pensar pela própria cabeça. Como se sabe, não há partido algum que goste de gente que pense pela sua cabeça, mas regra geral os partidos gostam de ter uns intelectuais para mostrar ao povo e o povo desses partidos sente-se confortado. Mas as bases do PSD são uma emanação de um certo espírito anti-intelectual que grassou durante séculos no país, e o PSD não é um partido que goste de intelectuais, não lhe está no sangue. Duvido que os confrades laranjas do distrito de Santarém engulam a pílula. O presidente da distrital, Vasco Cunha, já ameaçou apresentar a demissão. Veremos se após as constituição das listas de candidatos, Manuela Ferreira Leite ainda tem soldados no terreno.

Alma Pátria - 16: José Viana - Fado do Cacilheiro


José Viana - Fado do Cacilheiro

José Viana não era propriamente falando um fadista. Fundamentalmente, foi um homem de teatro, de um teatro que terminou quando o regime salazarista se finou, o teatro de Revista. Este fado é uma das imagens de marca desse teatro e o principal título de glória do artista. O teatro de revista, uma manifestação eminentemente lisboeta, era uma espécie de oposição tolerada ao regime, apesar da censura feroz que se abatia sobre os gracejos mais ou menos brejeiros que os números de revista tinham. As piadas políticas, não passavam disso, eram indirectas, leves alusões que o público compreendia e das quais ria. Mas só rimos daquilo que toleramos e o regime sabia disso. Se permitia algumas gargalhadas sobre a sua idiossincrasia, era porque isso não o punha em causa, pelo contrário, servia como escape das tensões ocultas que atravessavam a sociedade. Por muito que isto possa chocar as leituras do teatro de revista como forma de oposição ao salazarismo, a verdade é que ele se inseria no Zeitgeist e o reforçava. Não resistiu à democracia.

Anda mal

Anda mal a dr.ª Ferreira Leite. Não é só o não ter sabido aproveitar a vantagem que as últimas eleições europeus lhe deram, mas também por causa das listas de deputados. Se é meritório querer alguma renovação, o mérito só será confirmado pela qualidade dos novos candidatos. Mas mal mesmo é querer introduzir na lista de Lisboa dois candidatos a braços com a Justiça. Há qualquer coisa que me escapa na raciocínio dos dirigentes políticos. Depois da condenação de um antigo dirigente, governante e autarca modelo do PSD, depois da conexão cada vez mais visível entre o BPN e antigas figuras gradas do PSD, não se percebe esta insistência. O capital de seriedade que a pessoa de Manuela Ferreira Leite representa esvai-se com a apresentação destas pessoas, por mais que se presuma, como se presume, a sua inocência. Grandeza teve-a Luís Marques Mendes, mas era excessiva para o PSD e para o país.

03/08/09

Alma Pátria - 15: Hermínia Silva - Fado da Sina

Hermínia Silva - Fado da Sina

Este Fado da sina pertence, segundo julgo, à banda sonora do filme Um Homem do Ribatejo, de Henrique Campos (1946). Interpretado por um dos nomes grandes do fado e da rádio portuguesa, Hermínia Silva, é também ele um repositório do topos ideológico que percorria Portugal nos anos quarenta. É evidente que esse topos não tem a sua origem nessa época. É provável que possa ter origem nas correntes políticas e sociais derrotadas pelo liberalismo e que tiveram em D. Miguel o seu representante. A sua permanência num Portugal rural só desapareceu com o fim desse mundo, nos anos noventa do século passado e a europeização da vida social portuguesa.

Vox populi, vox Dei

Curioso não é o facto de um antigo ministro ter sido condenado, em primeira instância e enquanto autarca (uma classe menor e mais atreita a confrontos com a Justiça entre a elite política), refira-se, a sete anos de prisão efectiva, embora se possa dizer que é um caso inusitado. Curioso é ler, no Público, a vox populi na caixa de comentários à notícia. É sempre edificante meditar estes comentários, lição segura do sentimento social que percorre a pátria. E como todos sabemos vox populi, vox Dei.

M. S. Lourenço - Ideologia igualitarista

Na minha experiência, um aluno que incorreu num disparate representou sempre para mim uma oportunidade de crescimento e não uma perda. Um aluno aprende ao ser-lhe mostrado o erro: a sua concentração aumenta, a sua atenção tem um foco e, em geral, erros que são corrigidos a tempo não são repetidos.

Estou a pressupor um caso padrão, de um aluno com uma inteligência média ou acima da média. Infelizmente, tive alguns alunos com uma inteligência abaixo da média, para os quais a situação de erro era tida como uma situação de pânico. Estes alunos são vítimas da ideologia igualitarista, segundo o qual todas as pessoas são igualmente inteligentes e tornam-se às vezes agressivos contra a disciplina quando descobrem que são menos inteligentes do que alguns dos seus colegas. Tentei travar a agressividade procurando mostrar que não é a disciplina que está errada mas antes a ideologia igualitarista. É do ponto de vista psicológico no entanto interessante constatar que algumas daquelas pessoas, que viveram na pele o erro da ideologia igualitarista, não a consideram por isso refutada e continuam a insurgir-se contra a disciplina.
[Pedro Tamen (2007). Uma entrevista a M. S. Lourenço]

M. S. Lourenço - O sentido da vida

Para voltar ao problema de base, a questão a colocar é a seguinte: Qual é a ideia de Brouwer que eu adoptei e fiz dela um factor de orientação para a minha vida?

A ideia básica é que neste momento da história da humanidade já se atingiu um estádio de hipertrofia de interacção social. Não se deve por isso colaborar numa expansão desta hipertrofia, a qual se destina a legitimar os objectivos triviais da civilização de massas. Deve-se por isso renunciar a posições de leadership na já descontrolada hipertrofia da civilização de massas, exercendo a mencionada abstinência de participação em cliques ou lobbies, quaisquer que eles sejam.

Sigo assim Spengler, Brouwer e Wittgenstein na convicção de que o nível de entropia na cultura actual, e o seu consequente processo de desintegração, é neste momento irreversível e que a explosão demográfica, a sobreprodução industrial e científica e a exploração criminosa da natureza atingiram as próprias condições físicas da sobrevivência no planeta. Assim a humanidade, depois da sua morte espiritual pelas mãos da indústria da cultura, terá a sua morte física pela impossibilidade de viver no planeta, e por isso a sua escatologia vai ser em tudo igual à de uma colónia de bactérias que desaparece da face da terra depois de cumprir um limitado ciclo de vida
. [Miguel Tamen (2007). Uma entrevista a M. S. Lourenço]

02/08/09

M. S. Lourenço

Acabo de ler no A Origem das Espécies uma nota sobre a morte de M. S. Lourenço, ocorrida ontem. Era um intelectual notável, poeta e filósofo. Fui seu aluno, em Lógica, nos anos oitenta, precisamente no ano em que retornou definitivamente a Portugal. Foi o grande patriarca da filosofia analítica em Portugal. A sua presença, aparentemente discreta no panorama cultural e filosófico português, é muito maior do que se pode imaginar, nomeadamente ao nível da Filosofia. Pode-se consultar a nota do Público, a referência da Wikippedia e a página pessoal de Manuel Lourenço dedicada à Filosofia da Matemática.

O amor pela rua

Reconheço ao dr. Louçã e aos seus confrades do Bloco de Esquerda talento. Conseguiram pegar em duas organizações esquerdistas antagónicas (trotskystas e estalinistas) mais uma composta por transfugas do PCP e cozinhar tudo num novo partido de esquerda com ar moderno. O dr. Louçã é bom analista do mercado político. Percebeu onde podia encontrar um nicho de mercado e tem-no explorado com eficiência. Os empresários portugueses , caso não fossem tão preconceituosos, muito teriam a aprender com ele. É evidente que os sinais de modernidade são postiços e, mal chegam as eleições, lá lhe foge o pé para a chinela. Segundo a Lusa, Francisco Louçã, defendeu hoje que o seu partido vai levar a cabo "uma campanha que atravessa as ruas do país", de forma a auscultar directamente a população. O populismo adora a rua e a esquerda que não deixa de sonhar com revoluções, mesmo que seja lá bem no inconsciente, baba-se com desfiles e bandeiras pelas ruas. Um país civilizado não teria campanha de rua. Seríamos poupados aos apertos de mão, abraços e beijos que as elites políticas resolvem distribuir de eleição em eleição pela plebe democrática, para parecerem populares. Ora, o que povo sonha mesmo não é que as elites sejam populares, mas o contrário, que os populares passem a fazer parte das elites. Coisa impossível fora da escandinávia, como se sabe. Era bom que os Louçãs dos vários partidos, quase todos os chefes políticos gostam da rua, se civilizassem e nos poupassem às suas auscultações.

Alma Pátria - 14: António Calvário - Oração

António Calvário - Oração

Música: João Nobre. Letra: Francisco Nicholson e Rogério Bracinha. Intérprete: António Calvário. Decididamente, o Alma Pátria teria de entrar alguma vez no Festival TV da Canção, o grande momento anual da música ligeira portuguesa, nos anos sessenta e princípio de setenta. As famílias juntavam-se para ver o Festival e, com as grelhas fornecidas pelos diários, seguiam o escrutínio até se apurar o vencedor. Oração é a primeira canção vencedora de um Festival, em 1964. António Calvário representou Portugal no Festival da Eurovisão e recebeu a excepcional pontuação de zero pontos. Enfim, um conspiração do cosmopolitismo europeu contra o nacional-cançonetismo. Seja como for, peço o favor de escutarem bem a canção. A atenção não deve ser apenas focada na música. A letra é mais uma lição de sociologia pátria. Aliás, o Festival TV da canção até ao 25 de Abril de 1974, bem como a sua relação com o público, seria matéria relevante para interessantes análises da nossa portugalidade.

Compra e venda de teses

O Expresso de ontem trazia, nas páginas 14 e 15 do primeiro caderno, um artigo intitulado Teses à venda na Net por 1500 euros. Depois descreve todo o negócio que gira em torno da produção de trabalhos, dissertações e teses. Alunos incapazes ou preguiçosos recorrem a terceiros para produzir os seus trabalhos académicos. Parece que o sucesso é acentuado. Segundo o penalista Costa Andrade, estas práticas não são crimes, apenas fraudes académicas. O mercado é grande e a concorrência entre os empresários de teses começa a fazer-se sentir. Tudo isto é absolutamente vergonhoso e deplorável e mostra aquilo que nós, portugueses, somos. Veja-se o que diz, segundo o Expresso, uma dessas empresárias: "Uma vez um professor viu o nosso anúncio na Net e ligou-me, fazendo-se passar por um aluno para ver se vendíamos mesmo os trabalhos prontos. No fim identificou-se e disse que o que fazíamos não era ético e estava muito errado. O senhor devia ser de outro planeta porque isto é do mais comum que há". Está aqui tudo. Está aqui a razão pela qual somos um povo quase miserável. Uma parte não quer trabalhar e paga para que lhe façam os trabalhos e aqueles que têm iniciativa preferem este tipo de acção imoral a lançar-se em qualquer coisa que crie riqueza efectiva. O ensino em Portugal desde o ensino básico às pós-graduações é, cada vez mais, uma fraude. Uma fraude académica, note-se.

O messias

Será este Jesus o verdadeiro salvador?

01/08/09

Liberdade de expressão

O regime venezuelano encerrou trinta e duas rádios e duas televisões críticas do regime. Como acontece quase sempre nestas coisas, a justificação dada nunca é a que realmente desencadeia o acto, mas qualquer coisa ligada à lei e ao direito. Mas não há nada como ouvir o director da Comissão Nacional de Telecomunicações da Venezuela para perceber as verdadeiras razões: "não é a liberdade de expressão a liberdade mais sagrada que pode existir". Estamos conversados, se preciso fosse acrescentar mais alguma coisa ao que já sabemos, sobre a natureza do regime de Chávez.

A silly season e a importância de Joana Amaral Dias

Continua acesa a polémica em torno do convite ou não convite dirigido a Joana Amaral Dias, antiga deputada do Bloco de Esquerda, pelo Partido Socialista ou um por qualquer secretário de Estado. A história em si não merece qualquer comentário. Todos já percebemos que as hostes do engenheiro andam muito preocupadas em arranjar cromos de esquerda para completar a caderneta. É normal, faz parte da estratégia política e da forma como se tenta enganar o eleitorado. O que eu não percebo é a importância dada à senhora. Eu sei que o pai dela é um psicanalista importante, tanto quanto um psicanalista o pode ser em Portugal, mas a ela nunca lhe ouvi uma palavra interessante sobre que assunto for. A senhora, do ponto de vista político, é absolutamente irrelevante. Só a falta de assunto e o início da silly season poderão explicar tanto tempo gasto com o seu putativo convite. E diz o PS que tem ideias, o que aconteceria se ele não as tivesse...

Alma Pátria - 13: Carlos Ramos - Não Venhas Tarde

Carlos Ramos - Não Venhas Tarde

Não consegui encontrar a data de criação deste fado cantado por Carlos Ramos. Também não encontrei, na Internet, a capa da gravação original. Carlos Ramos faz parte de um trio de vozes masculinas muito interessantes, que deviam estar no auge na altura em que nasci, em meados dos anos cinquenta. Para além de Ramos, refiro-me a Max e a Alfredo Marceneiro. Este Não Venhas Tarde é um retrato social do país que então éramos. Não me refiro à infidelidade, pois essa é, como o amor, eterna. Refiro-me ao tipo de relação homem mulher subjacente ao texto. O homem cindido entre o puro amor e o desejo erótico, cada um deles representado por um tipo de mulher, como se a sua coincidência numa única fosse impossível. Esta ideologia era também subjacente ao regime político que se vivia na altura. Não estou a dizer que foi o regime que a produziu. Diria até o contrário: é este tipo de ideologia social que acaba por permitir e mesmo requerer o tipo de regime que se vivia. Dito isto, repito: Carlos Ramos tinha uma voz assinalável