14/08/09

Alma Pátria - 25: Filarmónica Fraude - 25


Filarmónica Fraude - 25

Uma fraude que nasceu em 1968 e terminou em 1969. Nasceu, segundo parece, entre o Entroncamento e Tomar. A Filarmónica Fraude representou um corte com o tipo de música que se praticava em Portugal, combinando o ritmo da pop ou o rock progressivo com a música tradicional portuguesa. Não consegui nenhum vídeo com os grandes temas da banda, nomeadamente Flor de Laranjeira e Menino. Aliás, este tema, 25, uma referência à guerra colonial, foi o único vídeo disponível que encontrei e diz respeito a uma das faixas do único álbum do grupo, Epopeia.

Volta a Portugal - algumas memórias IX/X

Joaquim Andrade e Venceslau Fernandes

No ciclismo nacional, para além dos três grandes do futebol, há equipas que fazem parte da mitologia da disciplina. Já aqui falámos do velho Ginásio de Tavira. Podia falar no Águias de Alpiarça, em cuja pista, ainda muito novo, cheguei a ver provas. Mas talvez o mais mítico desses clubes seja o Sangalhos. O grande corredor da terra bairradina foi, sem qualquer dúvida, Alves Barbosa (ganhou as Voltas de 1951, 56 e 58 e participou no Tour), mas dele não me lembro enquanto corredor. As minhas figuras míticas do Sangalhos são os irmãos Oliveira (Herculano e Celestino) e Joaquim Andrade. Este ganhou a volta de 1969, a segunda que era disputada por Joaquim Agostinho. Junto, neste post, outro grande ciclista que correu pelo Sangalhos (embora tivesse corrido por muitos outros clubes, entre eles o curioso Benfica de Luanda), Venceslau Fernandes. Ambos, Andrade e Fernandes, nasceram no ano de 1945, mas Venceslau só venceu Volta em 1984, correndo por uma marca, a Ajacto.

Do novo regime

Ainda não consegui compreender, certamente por limitação minha, a ânsia que existe em certos sectores por aquilo a que chamam um novo regime, ou outro regime, ou outra coisa. A ideia do novo regime, de um regime presidencialista, é uma reformulação do messianismo sebástico. Mas, para além da referência à mitografia nacional, o que mais pode oferecer um novo regime? Não pode alterar o povo que somos, e logo aí 95% da virtude do novo regime se desvanecem. Restam 5%. Dizem respeito ao pastor do povo, o miraculado Presidente a vir com o novo regime. Mas onde iríamos nós buscar essa ditosa pessoa que nos salvaria de nós próprios? Não estou a ver onde, a não ser à classe política, às gentes que pululam no PS e no PSD. Com um novo regime, como é moda agora querer, a vigorar, talvez o Presidente-Rei e primeiro-ministro se chamasse José Sócrates. Um Sócrates ainda mais exuberante, sem o contraponto de Belém nem o aborrecimento de ter de ouvir seriamente os deputados, valham estes o que valerem. O problema fundamental não é de regime. Os mesmos vícios e as mesmas escassas virtudes estiveram presente no constitucionalismo monárquico, na primeira República, no Estado Novo, na República actual. O que variou foi o uso do cajado pelo pastor, umas vezes mais brando, outras mais duro. A essência não muda, pois como se sabe, desde o velho Platão, as essências são eternas e imutáveis.

13/08/09

Alma Pátria - 24: Alfredo Marceneiro - Amor de Mãe


Alfredo Marceneiro - Amor de Mãe

Depois do interregno de ontem, volta o Alma Pátria com um nome grande do fado, Alfredo Marceneiro. Aqui não é o lugar para contar a história dos artistas seleccionados, nem o blogger tem competência para o fazer (pode ver aqui uma pequena biografia do grande Marceneiro). Não identifiquei o autor, talvez seja o próprio Marceneiro, mas a letra deste fado é uma nova e exuberante lição de sociologia pátria. "Há vários amores na vida / Lindos como o amor perfeito / Belos como a Vénus querida / De tantos que a vida tem / Só um adoro e respeito / É o santo amor de mãe". Elucidativo.

Volta a Portugal - algumas memórias VII/VIII

Leonel Miranda & Fernando Mendes
Como ontem, devido a um imprevisto, não foi possível vir ao blogue, faço hoje, para compensar, uma heresia e junto um corredor do Sporting e outro do Benfica, nesta peregrinação à minha memória ciclística. São dois nomes grandes do pelotão dos anos sessenta e início de setenta. Leonel Miranda nunca ganhou a Volta a Portugal. Fernando Mendes ganhou em 1974, no ano da Revolução. Em compensação, Leonel Miranda ganhou o Prémio da Montanha (1967), a classificação por pontos (1968, 69 e 70 - Mendes ganhou em 72, 73 e 74). Ambos ganharam uma vez a classificação das metas volantes. Outra coisa que ambos tiveram em comum foi o terem sido ensombrados pelo fenómeno Joaquim Agostinho. Não fora isso, e os seus nomes seriam ainda maiores no panorama do ciclismo nacional.

Tratar da vidinha

Sabe-se que os inovadores da pátria não gostam de Medina Carreira. É um pessimista e catastrofista, etc., etc., etc., dizem. Como também não sou especialmente adepto do optimismo, escuto e leio sempre com atenção o que diz este antigo ministro. Por exemplo, vale a pena ler isto: «Sempre que um partido em Portugal tem maioria absoluta, os deputados ficam reduzidos a zero. Se tem maioria relativa, há estas contendas brutais em que o PSD está metido porque sabem que sem ir ao Governo não têm lugares para tratar da vida e dos negócios. E, portanto, digladiam-se para ver se têm acesso aos lugarzitos que restam». Ou então isto: «É para empregar os primos, os tios, para fazer negócios de auto-estradas e outras coisas no género. Portugal hoje é um grande BPN». O problema dos inovadores da pátria é que eles pertencem a este tipo de gente que Medina Carreira denuncia. O seu optimismo é optimismo que advém da expectativa da política lhe abrir outros horizontes, e ninguém está a pensar em horizontes espirituais. O pessoal quer é tratar da vida, isto é, da sua vidinha.

11/08/09

Alma Pátria - 23: Simone de Oliveira - Desfolhada Portuguesa

Simone de Oliveira - Desfolhada Portuguesa

Simone de Oliveira é uma presença constante, desde os finais dos anos cinquenta, no panorama da cultura popular portuguesa. De certa forma, ela acompanha a evolução da vida social e política portuguesa. Começa a sua preparação, enquanto cançonetista, numa "escola" do regime, o Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional. A sua estreia, como cantora, dá-se em 1958. Onze anos depois, vence o Festival RTP com uma canção, Desfolhada Portuguesa, escrita pelo poeta e letrista comunista José Carlos Ary dos Santos. O delicioso desta história reside no facto da afirmação, no corpo do poema, "quem faz um filho, fá-lo por gosto" tem gerado controvérsia, o que levou a que se considerasse a letra como muito ousada. Curioso também é ter passado na censura. Estávamos a começar a primavera marcelista e havia um certo amaciamento, que desapareceu rapidamente, do regime. Já agora, note-se a força que emana de Simone de Oliveira.

Volta a Portugal - algumas memórias VI

Américo Silva

Américo Silva ganhou a Volta a Portugal de 1968, envergando a camisola do Sport Lisboa e Benfica. Curiosamente essa Volta foi dominada pelo Sporting. Ganhou por equipas, ganhou no Prémio da Montanha com um tal Leonel Moreira (mas não sei se este nome está correcto, se não será Leonel Miranda) e ganhou a classificação por pontos, através de Leonel Miranda. E o Sporting teve ainda uma outra vitória na Volta desse ano. A estreia do super Joaquim Agostinho, que ficou em segundo lugar. Valeu aos benfiquistas, como eu, a classe de Américo Silva e a conquista das metas volantes pelo inevitável Pedro Moreira.

10/08/09

Será que somos normais?

Muitas vezes tenho a estranha sensação de que nós, portugueses, sofremos de uma qualquer anormalidade. Dito de outra maneira, não somos bons da cabeça. Nas estradas, constatamos isso com frequência. Agora, teve de vir a ministra da Saúde chamar a atenção para comportamentos anti-sociais de certos adultos, comportamentos esses que visam propagar entre crianças o vírus da gripe A, segundo parece, como retaliação. Este tipo de comportamento não é criminalizado? Quando nem a boa educação, coisa de que uma parte dos portugueses não faz ideia do que é, nem os imperativos da consciência moral são suficientes para travar certos actos, deve ser o Direito a fazê-lo.

Volta a Portugal - algumas memórias V

Jorge Corvo

Apesar de ter terminado a sua carreira em 1967, lembro-me perfeitamente de Jorge Corvo fazer parte do pelotão da Volta à Portugal. Recordo-me, também, de ler nos jornais desportivos (li-os desde muito cedo, embora já não olhe para eles há muitos anos) que o tavirense era um grande corredor. Nunca ganhou a nossa Volta, embora tivesse obtido três segundos lugares. Fazia parte de uma equipa mítica do ciclismo nacional, o Ginásio de Tavira. Quem quiser saber um pouco mais de Jorge Corvo poder consultar aqui.

Alma Pátria - 22: Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula


Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula

Este vídeo pertence a uma apresentação de Os Conchas (José Manuel Aguiar de Concha e Fernando Gaspar) na RTP, em 1960. O Rock'n' Roll estava no auge da sua popularidade nos EUA e as novas gerações europeias ansiavam pela americanização, vista talvez como uma certa libertação dos constrangimentos que a velha Europa impunha. Portugal, apesar da ditadura do Prof. Salazar, não ficou imune. Os Conchas são uma prova disso. A capa apresentada não corresponde às canções do vídeo. Pertence ao primeiro EP gravado pelo duo, mas um EP partilhado com Daniel Bacelar. Duas canções para Os Conchas, duas para Daniel Bacelar. Era equitativo e o vinil estava caro.

09/08/09

A ETA de novo

Esta notícia e mais esta mostram que a organização separatista basca ETA continua bem viva. Espanha já tentou tudo, desde a repressão franquista, ao olho por olho e dente por dente do tempo de González, à repressão democrática com Aznar e ao diálogo com Zapatero, mas os resultados são pura e simplesmente nulos. Há problemas que são insolúveis e a ETA parece ser um deles. Se o Estado espanhol quisesse correr riscos talvez houvesse uma possibilidade de deslegitimar completamente a ETA. Se permitisse um referendo sobre o País Basco, um referendo não nacional mais autonómico, talvez a ETA perdesse e ficasse deslegitimada aos olhos das novas gerações. Isso é, porém, um risco. Em primeiro lugar, porque nada garante que uma derrota da ETA nas urnas a levasse a depor definitivamente as armas e os atentados terroristas. Em segundo lugar, poderia acontecer uma coisa paradoxal: o País Basco votar pela continuação na coroa espanhola e outras autonomias exigirem o referendo mas com resultado diverso. A ETA está para Espanha como o Médio-Oriente para o mundo. São problemas insolúveis.

Hermann Hesse

Não há nada melhor, para um blogger veraneante, do que as efemérides. Sempre dão motivo para que se blogue qualquer coisa. Hermann Hess morreu faz hoje precisamente quarenta e sete anos, eis a efeméride. É um autor que a morte não apagou. Os seus livros continuam a traduzir-se e a vender. O que terei lido dele? Tanto quanto recordo, li o inevitável Siddhartha, Narciso e Goldmundo, Ele e o Outro, Lobo das Estepes e Jogo das Contas de Vidro. Todos estas obras deram-me prazer ao lê-las e talvez tenham contribuído para um certo auto-conhecimento. Essa é uma das funções fundamentais da literatura, possibilitar ao leitor o reconhecimento de si mesmo. Mas é também com Hermann Hesse que faço uma outra experiência fundamental da literatura: o do limite da obra. Quando tentei uma releitura de obras como o Lobo das Estepes ou Jogo das Contas de Vidro, obras de que tinha gostado particularmente, não o consegui fazer. As obras tinham-se tornado, para mim, desadequadas, como se a experiência ontológica que elas permitem estivesse há muito ultrapassada. Isso manifestava-se em cada linha do texto, em cada imagem apresentada. Esta experiência não se deve confundir com uma outra corrente em literatura, a experiência da datação da obra. Certas obras fazem sentido na sua época, mas não contêm em si um princípio de universalidade e tornam-se, passado algum tempo, ilegíveis. Esta é uma experiência mais de carácter social e tem uma dimensão quase objectiva. A outra experiência é subjectiva, não depende das metamorfoses sociais, mas das transformações pelas quais passa o sujeito que lê.

Alma Pátria - 21: Luís Cília - Canto do Desertor


Luís Cília - Canto do desertor

A pátria, in illo tempore, tinha uma alma oculta, uma alma que não podia manifestar-se na Rádio e na Televisão portuguesas, mas manifestava-se, por exemplo, na televisão francesa. Era uma alma recalcada. A voz de Luís Cília - não é uma grande voz, mas é uma voz de que gosto bastante pelo seu timbre nostálgico - era uma das vozes dessa alma abscôndita, que atravessava o país pelo silêncio da noite. Aqui canta uma canção contra a guerra colonial. O original em disco é de 1964 e a gravação que se apresenta, em condições não muito boas, é de 1966. Pelo que se percebe da imagem da capa, no canto superior direito, o disco foi editado pela célebre editora discográfica de gauche Le Chant du Monde.

Volta a Portugal - algumas memórias IV

João Roque


Eis um dos grandes ciclistas portugueses dos anos sessenta, João Roque. Ganhou a Volta a Portugal em bicicleta em 1963, e era sempre um dos grandes candidatos à vitória final na Volta. À escala nacional, era um dos grandes contra-relogistas. Tenho a memória, talvez incorrecta, de ter sido João Roque quem descobriu o super Joaquim Agostinho. Pelo menos eram ambos do concelho de Torres Vedras. Pode-se ver mais informação sobre João Roque aqui.

08/08/09

A exclusão de João Lobo Antunes

Mais uma história mal contada. A não recondução do Professor João Lobo Antunes para o Conselho de Bioética mostra a natureza do governo de Sócrates. A atitude é de tal maneira descabida que a deputada socialista Maria de Belém Roseira admite que, se soubesse que o governo não reconduziria Lobo Antunes, ela própria o proporia. Não é apenas a afronta ao Presidente da República que está em causa. O pior é que este governo parece não tolerar ninguém que tenha alguma estatura moral, que se tenha distinguido pela qualidade do seu trabalho. O gesto é político, mas a sua leitura deve ser mais ampla. Ele é sintoma da ânsia da actual direcção socialista em destruir tudo o que não seja meramente rasteiro. No fundo, é a tal inveja de que falou José Gil.

Volta a Portugal - algumas memórias III

Joaquim Leão

Joaquim Leão é um dos nomes mais antigos do ciclismo nacional, de que me recordo em actividade. Ciclista do Futebol Clube do Porto, ganhou a volta de 1964, tinha apenas 21 anos. Nas voltas posteriores, era sempre apontado no lote dos favoritos, mas nunca mais retornou ao primeiro lugar da nossa Volta. No Paixão pelo Porto pode ver-se aqui e aqui mais algumas referências sobre um dos grandes nomes do ciclismo português da década de sessenta.

Alma Pátria - 20: Raul Solnado - A Guerra de 1908


Raul Solnado - A Guerra de 1908

Palavra de honra que tinha programado, lá mais para a frente, este post sobre o Raul Solnado. Mas tendo ele morrido hoje, antecipei-o. Quantas vezes terá passado esta historieta humorística na rádio portuguesa de illo tempore? Bem, não é música, mas é como se fosse. É o humor que era permitido. Raul Solnado, porém, não é um homem do antigo regime, aliás como muitos outras figuras que passam pelo Alma Pátria. Pelo contrário, ele é uma das faces da democracia portuguesa. E acima de tudo, Raul Solnado era uma pessoa de bem. Isso é o mais importante.

Bartolomeu de Gusmão - A passarola


Passam hoje 300 anos da experiência com aeróstatos de Bartolomeu de Gusmão. Segundo Rómulo de Carvalho, poder-se-ia atribuir a Bartolomeu de Gusmão a invenção desses objectos. Talvez os chineses não concordem com a perspectiva. Seja como for, mesmo que este desenho produzido pelo próprio Gusmão pouco tenha a ver com o aeróstato real de há 300 anos, estamos perante uma belíssima estampa da época. O texto de Rómulo de Carvalho, no De Rerum Natura, explica o desenho, a forma como apareceu e a razão da sua publicação na Áustria. Explica também outras coisas.

07/08/09

Alma Pátria - 19: Conjunto António Mafra - Sete e pico

Conjunto António Mafra - Sete e Pico

Não consegui determinar a data da primeira edição desta cantiga do Conjunto António Mafra. Um tom brejeiro e uma certa crítica dos costumes não afastaram este grupo das emissões da Rádio portuguesa. Este é um outro lado da Alma Pátria, o qual vai ganhar desenvolvimento em canções de teor brejeiro, ainda mais ao gosto popular, depois do 25 de Abril de 1974. Para dizer a verdade, não faço a mínima ideia do que hei-de dizer sobre este símbolo vindo do nosso passado.

Volta a Portugal - algumas memórias II

Antoine Houbrechts

Nos últimos dez anos, apenas dois portugueses ganharam a Volta a Portugal em bicicleta (Vítor Gamito e Nuno Ribeiro). Esta tendência é, porém, relativamente recente. Até 1974 sódois estrangeiros tinham ganho a Volta. Em 1973, o espanhol Jesus Manzaneque (Caves Messias). O primeiro estrangeiro a vencer a nossa Volta, a trigésima, foi o belga Antoine Houbrechts, no ano de 1967. Corria na altura pela Flandria, uma equipa também belga. Esta foto pertence a Houbrechts mas a correr numa outra equipa. Tanto quanto me lembro, a Flandria equipava de camisola vermelha com uma risca branca ao centro.

06/08/09

Alma Pátria - 18: Paulo de Carvalho - Corre Nina

Paulo de Carvalho - Corre Nina

Retornamos ao Festival RTP da canção, agora à edição de 1970. Paulo de Carvalho interpreta Corre Nina. Já não estamos perante o tipo de canção que marcou o país na década anterior. Parece aberto o caminho para uma nova geração já não de cançonetistas mas de cantores. A canção em causa, apesar disso, é francamente desinteressante e pouco adequada à voz do intérprete. Aliás, Paulo de Carvalho é para mim um mistério. Uma das vozes mais interessantes da música portuguesa, mas que falhou uma grande carreira. Não é que não tenha tido êxitos, mas nunca teve uma continuidade no tipo de música que fez.

O Averomundo a banhos


A culpa é dela, da minha neta Vera. Até vou à praia e há já quase duas semanas. De manhã cedo, levantamo-nos e por volta das nove hora lá vai tudo para a praia, com balde e todos os acessórios para a Verinha mexer na areia e na água. Estou reconciliado com a praia, desde que não se passe das onze horas e não se abuse do sol. Portanto, durante Agosto o averomundo é um blogue veraneante. Como o país, ele está a banhos e a bolas de Berlim, fresquinhas. A Vera terá mais atenção do que as postagens.

Volta a Portugal - algumas memórias I

Peixoto Alves
Peixoto Alves é o primeiro ciclista do Benfica de que me lembro ter ganho uma Volta a Portugal, no ano de 1965, ainda eu não tinha feito 9 anos. Isso quer dizer que, nos anos anteriores, o Benfica não ganhara qualquer Volta a Portugal. Desde 1959 que os vencedores eram corredores do Futebol Clube do Porto (Carlos Carvalho, Sousa Cardoso, Mário Silva, José Pacheco e Joaquim Leão, cf. aqui), com a excepção do ano de 1963 em que triunfou o sportinguista João Roque. De todos os ciclistas mencionados, o único de que não tenho memória certa é do portista Carlos Carvalho. Os outros lembro-me bem de eles correrem, o que não quer dizer que me lembre de eles terem ganho a Volta. O primeiro vencedor de que tenho memória é mesmo Peixoto Alves, não fosse ele do Benfica. Julgo que no ano seguinte já não correu, pois emigrara para França.

05/08/09

Alma Pátria - 17: João Maria Tudella - Kanimambo


João Maria Tudella - Kanimambo

Um novo retrato de Portugal do anos cinquenta e sessenta. João Maria Tudella nasce em Moçambique e é um cantor de síntese entre a cultura social vigente no Portugal metropolitano e a cultura dos portugueses presentes na então colónia portuguesa. Muitas das suas canções têm por tema Moçambique, as suas cidades e regiões. Kanimambo é o primeiro grande êxito do cantor, um êxito de 1959, mas que passou assiduamente na rádio durante muitos e muitos anos. Apresenta-se a capa do EP (45 rpm) com a montagem de uma foto posterior, do tempo dos festivais RTP da canção. Não faço ideia se a edição do disco tinha uma capa rígida de cartão e aquilo que vemos é apenas uma espécie de subcapa que quase todos os discos tinham.

71.ª Volta a Portugal em Bicicleta

Joaquim Agostinho
Começa hoje a Volta a Portugal em bicicleta. Embora já não me interesse pelo fenómeno, guardo sempre uma recordação grata do ciclismo. Como já disse uma vez, nos anos sessenta e setenta a Volta a Portugal era uma espécie de continuação, em bicicleta, do campeonato de futebol. Para isso contribuía a presença dos três grandes do futebol no ciclismo. Hoje já praticamente não há clubes na Volta, apenas marcas, mas ainda assim subsistem o Boavista, o Louletano e o Tavira, mas julgo que este Tavira não é o velho Ginásio de Tavira. De vez em quando, o Benfica tem uma crise hormonal e lá se lembra de compor uma equipa de ciclismo, como tributo à roda de bicicleta do seu emblema. Mas a coisa passa rápido, considerando o preço da aventura e da nostalgia. Daqui a pouco começa, então, a nossa pequena Volta, uma voltinha à nossa dimensão.

04/08/09

Pacheco Pereira em Santarém

Pacheco Pereira é o cabeça de lista do PSD pelo meu círculo eleitoral, o de Santarém. Do meu ponto de vista, o parlamento vai ficar mais rico com a presença de PP. No entanto, a figura do candidato está longe de ser, do ponto de vista eleitoral, interessante. Tem contra si o facto de não estar ligado ao distrito de Santarém, de surgir de supetão numa região que não conhece, ou conhece mal (por acaso já o vi há dias num conhecido restaurante do concelho de Alcanena, mas talvez estivesse só a passear). Também não lhe é favorável o facto de ser um intelectual e de tentar pensar pela própria cabeça. Como se sabe, não há partido algum que goste de gente que pense pela sua cabeça, mas regra geral os partidos gostam de ter uns intelectuais para mostrar ao povo e o povo desses partidos sente-se confortado. Mas as bases do PSD são uma emanação de um certo espírito anti-intelectual que grassou durante séculos no país, e o PSD não é um partido que goste de intelectuais, não lhe está no sangue. Duvido que os confrades laranjas do distrito de Santarém engulam a pílula. O presidente da distrital, Vasco Cunha, já ameaçou apresentar a demissão. Veremos se após as constituição das listas de candidatos, Manuela Ferreira Leite ainda tem soldados no terreno.

Alma Pátria - 16: José Viana - Fado do Cacilheiro


José Viana - Fado do Cacilheiro

José Viana não era propriamente falando um fadista. Fundamentalmente, foi um homem de teatro, de um teatro que terminou quando o regime salazarista se finou, o teatro de Revista. Este fado é uma das imagens de marca desse teatro e o principal título de glória do artista. O teatro de revista, uma manifestação eminentemente lisboeta, era uma espécie de oposição tolerada ao regime, apesar da censura feroz que se abatia sobre os gracejos mais ou menos brejeiros que os números de revista tinham. As piadas políticas, não passavam disso, eram indirectas, leves alusões que o público compreendia e das quais ria. Mas só rimos daquilo que toleramos e o regime sabia disso. Se permitia algumas gargalhadas sobre a sua idiossincrasia, era porque isso não o punha em causa, pelo contrário, servia como escape das tensões ocultas que atravessavam a sociedade. Por muito que isto possa chocar as leituras do teatro de revista como forma de oposição ao salazarismo, a verdade é que ele se inseria no Zeitgeist e o reforçava. Não resistiu à democracia.

Anda mal

Anda mal a dr.ª Ferreira Leite. Não é só o não ter sabido aproveitar a vantagem que as últimas eleições europeus lhe deram, mas também por causa das listas de deputados. Se é meritório querer alguma renovação, o mérito só será confirmado pela qualidade dos novos candidatos. Mas mal mesmo é querer introduzir na lista de Lisboa dois candidatos a braços com a Justiça. Há qualquer coisa que me escapa na raciocínio dos dirigentes políticos. Depois da condenação de um antigo dirigente, governante e autarca modelo do PSD, depois da conexão cada vez mais visível entre o BPN e antigas figuras gradas do PSD, não se percebe esta insistência. O capital de seriedade que a pessoa de Manuela Ferreira Leite representa esvai-se com a apresentação destas pessoas, por mais que se presuma, como se presume, a sua inocência. Grandeza teve-a Luís Marques Mendes, mas era excessiva para o PSD e para o país.

03/08/09

Alma Pátria - 15: Hermínia Silva - Fado da Sina

Hermínia Silva - Fado da Sina

Este Fado da sina pertence, segundo julgo, à banda sonora do filme Um Homem do Ribatejo, de Henrique Campos (1946). Interpretado por um dos nomes grandes do fado e da rádio portuguesa, Hermínia Silva, é também ele um repositório do topos ideológico que percorria Portugal nos anos quarenta. É evidente que esse topos não tem a sua origem nessa época. É provável que possa ter origem nas correntes políticas e sociais derrotadas pelo liberalismo e que tiveram em D. Miguel o seu representante. A sua permanência num Portugal rural só desapareceu com o fim desse mundo, nos anos noventa do século passado e a europeização da vida social portuguesa.

Vox populi, vox Dei

Curioso não é o facto de um antigo ministro ter sido condenado, em primeira instância e enquanto autarca (uma classe menor e mais atreita a confrontos com a Justiça entre a elite política), refira-se, a sete anos de prisão efectiva, embora se possa dizer que é um caso inusitado. Curioso é ler, no Público, a vox populi na caixa de comentários à notícia. É sempre edificante meditar estes comentários, lição segura do sentimento social que percorre a pátria. E como todos sabemos vox populi, vox Dei.

M. S. Lourenço - Ideologia igualitarista

Na minha experiência, um aluno que incorreu num disparate representou sempre para mim uma oportunidade de crescimento e não uma perda. Um aluno aprende ao ser-lhe mostrado o erro: a sua concentração aumenta, a sua atenção tem um foco e, em geral, erros que são corrigidos a tempo não são repetidos.

Estou a pressupor um caso padrão, de um aluno com uma inteligência média ou acima da média. Infelizmente, tive alguns alunos com uma inteligência abaixo da média, para os quais a situação de erro era tida como uma situação de pânico. Estes alunos são vítimas da ideologia igualitarista, segundo o qual todas as pessoas são igualmente inteligentes e tornam-se às vezes agressivos contra a disciplina quando descobrem que são menos inteligentes do que alguns dos seus colegas. Tentei travar a agressividade procurando mostrar que não é a disciplina que está errada mas antes a ideologia igualitarista. É do ponto de vista psicológico no entanto interessante constatar que algumas daquelas pessoas, que viveram na pele o erro da ideologia igualitarista, não a consideram por isso refutada e continuam a insurgir-se contra a disciplina.
[Pedro Tamen (2007). Uma entrevista a M. S. Lourenço]

M. S. Lourenço - O sentido da vida

Para voltar ao problema de base, a questão a colocar é a seguinte: Qual é a ideia de Brouwer que eu adoptei e fiz dela um factor de orientação para a minha vida?

A ideia básica é que neste momento da história da humanidade já se atingiu um estádio de hipertrofia de interacção social. Não se deve por isso colaborar numa expansão desta hipertrofia, a qual se destina a legitimar os objectivos triviais da civilização de massas. Deve-se por isso renunciar a posições de leadership na já descontrolada hipertrofia da civilização de massas, exercendo a mencionada abstinência de participação em cliques ou lobbies, quaisquer que eles sejam.

Sigo assim Spengler, Brouwer e Wittgenstein na convicção de que o nível de entropia na cultura actual, e o seu consequente processo de desintegração, é neste momento irreversível e que a explosão demográfica, a sobreprodução industrial e científica e a exploração criminosa da natureza atingiram as próprias condições físicas da sobrevivência no planeta. Assim a humanidade, depois da sua morte espiritual pelas mãos da indústria da cultura, terá a sua morte física pela impossibilidade de viver no planeta, e por isso a sua escatologia vai ser em tudo igual à de uma colónia de bactérias que desaparece da face da terra depois de cumprir um limitado ciclo de vida
. [Miguel Tamen (2007). Uma entrevista a M. S. Lourenço]

02/08/09

M. S. Lourenço

Acabo de ler no A Origem das Espécies uma nota sobre a morte de M. S. Lourenço, ocorrida ontem. Era um intelectual notável, poeta e filósofo. Fui seu aluno, em Lógica, nos anos oitenta, precisamente no ano em que retornou definitivamente a Portugal. Foi o grande patriarca da filosofia analítica em Portugal. A sua presença, aparentemente discreta no panorama cultural e filosófico português, é muito maior do que se pode imaginar, nomeadamente ao nível da Filosofia. Pode-se consultar a nota do Público, a referência da Wikippedia e a página pessoal de Manuel Lourenço dedicada à Filosofia da Matemática.

O amor pela rua

Reconheço ao dr. Louçã e aos seus confrades do Bloco de Esquerda talento. Conseguiram pegar em duas organizações esquerdistas antagónicas (trotskystas e estalinistas) mais uma composta por transfugas do PCP e cozinhar tudo num novo partido de esquerda com ar moderno. O dr. Louçã é bom analista do mercado político. Percebeu onde podia encontrar um nicho de mercado e tem-no explorado com eficiência. Os empresários portugueses , caso não fossem tão preconceituosos, muito teriam a aprender com ele. É evidente que os sinais de modernidade são postiços e, mal chegam as eleições, lá lhe foge o pé para a chinela. Segundo a Lusa, Francisco Louçã, defendeu hoje que o seu partido vai levar a cabo "uma campanha que atravessa as ruas do país", de forma a auscultar directamente a população. O populismo adora a rua e a esquerda que não deixa de sonhar com revoluções, mesmo que seja lá bem no inconsciente, baba-se com desfiles e bandeiras pelas ruas. Um país civilizado não teria campanha de rua. Seríamos poupados aos apertos de mão, abraços e beijos que as elites políticas resolvem distribuir de eleição em eleição pela plebe democrática, para parecerem populares. Ora, o que povo sonha mesmo não é que as elites sejam populares, mas o contrário, que os populares passem a fazer parte das elites. Coisa impossível fora da escandinávia, como se sabe. Era bom que os Louçãs dos vários partidos, quase todos os chefes políticos gostam da rua, se civilizassem e nos poupassem às suas auscultações.

Alma Pátria - 14: António Calvário - Oração

António Calvário - Oração

Música: João Nobre. Letra: Francisco Nicholson e Rogério Bracinha. Intérprete: António Calvário. Decididamente, o Alma Pátria teria de entrar alguma vez no Festival TV da Canção, o grande momento anual da música ligeira portuguesa, nos anos sessenta e princípio de setenta. As famílias juntavam-se para ver o Festival e, com as grelhas fornecidas pelos diários, seguiam o escrutínio até se apurar o vencedor. Oração é a primeira canção vencedora de um Festival, em 1964. António Calvário representou Portugal no Festival da Eurovisão e recebeu a excepcional pontuação de zero pontos. Enfim, um conspiração do cosmopolitismo europeu contra o nacional-cançonetismo. Seja como for, peço o favor de escutarem bem a canção. A atenção não deve ser apenas focada na música. A letra é mais uma lição de sociologia pátria. Aliás, o Festival TV da canção até ao 25 de Abril de 1974, bem como a sua relação com o público, seria matéria relevante para interessantes análises da nossa portugalidade.

Compra e venda de teses

O Expresso de ontem trazia, nas páginas 14 e 15 do primeiro caderno, um artigo intitulado Teses à venda na Net por 1500 euros. Depois descreve todo o negócio que gira em torno da produção de trabalhos, dissertações e teses. Alunos incapazes ou preguiçosos recorrem a terceiros para produzir os seus trabalhos académicos. Parece que o sucesso é acentuado. Segundo o penalista Costa Andrade, estas práticas não são crimes, apenas fraudes académicas. O mercado é grande e a concorrência entre os empresários de teses começa a fazer-se sentir. Tudo isto é absolutamente vergonhoso e deplorável e mostra aquilo que nós, portugueses, somos. Veja-se o que diz, segundo o Expresso, uma dessas empresárias: "Uma vez um professor viu o nosso anúncio na Net e ligou-me, fazendo-se passar por um aluno para ver se vendíamos mesmo os trabalhos prontos. No fim identificou-se e disse que o que fazíamos não era ético e estava muito errado. O senhor devia ser de outro planeta porque isto é do mais comum que há". Está aqui tudo. Está aqui a razão pela qual somos um povo quase miserável. Uma parte não quer trabalhar e paga para que lhe façam os trabalhos e aqueles que têm iniciativa preferem este tipo de acção imoral a lançar-se em qualquer coisa que crie riqueza efectiva. O ensino em Portugal desde o ensino básico às pós-graduações é, cada vez mais, uma fraude. Uma fraude académica, note-se.

O messias

Será este Jesus o verdadeiro salvador?

01/08/09

Liberdade de expressão

O regime venezuelano encerrou trinta e duas rádios e duas televisões críticas do regime. Como acontece quase sempre nestas coisas, a justificação dada nunca é a que realmente desencadeia o acto, mas qualquer coisa ligada à lei e ao direito. Mas não há nada como ouvir o director da Comissão Nacional de Telecomunicações da Venezuela para perceber as verdadeiras razões: "não é a liberdade de expressão a liberdade mais sagrada que pode existir". Estamos conversados, se preciso fosse acrescentar mais alguma coisa ao que já sabemos, sobre a natureza do regime de Chávez.

A silly season e a importância de Joana Amaral Dias

Continua acesa a polémica em torno do convite ou não convite dirigido a Joana Amaral Dias, antiga deputada do Bloco de Esquerda, pelo Partido Socialista ou um por qualquer secretário de Estado. A história em si não merece qualquer comentário. Todos já percebemos que as hostes do engenheiro andam muito preocupadas em arranjar cromos de esquerda para completar a caderneta. É normal, faz parte da estratégia política e da forma como se tenta enganar o eleitorado. O que eu não percebo é a importância dada à senhora. Eu sei que o pai dela é um psicanalista importante, tanto quanto um psicanalista o pode ser em Portugal, mas a ela nunca lhe ouvi uma palavra interessante sobre que assunto for. A senhora, do ponto de vista político, é absolutamente irrelevante. Só a falta de assunto e o início da silly season poderão explicar tanto tempo gasto com o seu putativo convite. E diz o PS que tem ideias, o que aconteceria se ele não as tivesse...

Alma Pátria - 13: Carlos Ramos - Não Venhas Tarde

Carlos Ramos - Não Venhas Tarde

Não consegui encontrar a data de criação deste fado cantado por Carlos Ramos. Também não encontrei, na Internet, a capa da gravação original. Carlos Ramos faz parte de um trio de vozes masculinas muito interessantes, que deviam estar no auge na altura em que nasci, em meados dos anos cinquenta. Para além de Ramos, refiro-me a Max e a Alfredo Marceneiro. Este Não Venhas Tarde é um retrato social do país que então éramos. Não me refiro à infidelidade, pois essa é, como o amor, eterna. Refiro-me ao tipo de relação homem mulher subjacente ao texto. O homem cindido entre o puro amor e o desejo erótico, cada um deles representado por um tipo de mulher, como se a sua coincidência numa única fosse impossível. Esta ideologia era também subjacente ao regime político que se vivia na altura. Não estou a dizer que foi o regime que a produziu. Diria até o contrário: é este tipo de ideologia social que acaba por permitir e mesmo requerer o tipo de regime que se vivia. Dito isto, repito: Carlos Ramos tinha uma voz assinalável

31/07/09

Estatutos

O Presidente da República acabou de promulgar o Estatuto dos Médicos. Ora este Estatuto consagra a carreira única. Como pode um governo como actual fazer este Estatuto e um Presidente como Cavaco Silva aprová-lo sem o mais ligeiro arrepio na consciência. Quando foi o Estatuto dos professores do ensino inferior, aqui d'el-rei que há que diferenciar, distinguir, dividir a carreira em duas. O Presidente nem tugiu nem mugiu e acarinhou a socióloga Rodrigues. Como se pode tratar dois corpos da função pública de forma tão diferenciada? Mais, se numa destas funções havia lugar para alguma diferenciação seria na dos médicos e não na dos professores. Estes fazem todos o mesmo, desde que começam a carreira até que a acabam. Há em Portugal, dentro das elites políticas, uma atitude bem negativa relativamente aos professores portugueses. Tratam-nos como se fossem portugueses de segunda, apesar de constituírem um dos corpos profissionais com maior formação e que recebem maior reconhecimento da opinião pública. É evidente que eu não protesto contra a carreira única dos médicos. O que eu não percebo, a não ser por oportunismo político e por preconceito social, a discriminação de que os professores são alvo. Enfim, estatutos.

Alma Pátria - 12: The Sheiks - Missing You

The Sheiks - Missing You

Para não se pensar que a Alma Pátria é apenas um repositório de canções românticas, nacional-conçonetismo e faduncho, aqui fica uma das primeiras bandas rock portuguesas que atingiu um reconhecimento nacional assinalável. The Sheiks, assim mesmo como The Beatles ou The Rolling Stones, foram formados em 1963. Em 1964 a banda estabiliza com a sua formação mais conhecida: Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Fernando Chaby e Edmundo Silva. Cantavam essencialmente em inglês e tentavam integrar o movimento de música pop-rock que emergira em Inglaterra. A canção Missing You é um êxito da banda datado de 1965, tem 44 anos. O tempo passa.

Jornal Torrejano, 31 de Julho de 2009


Mais uma semana, mais uma edição on-line do Jornal Torrejano.

30/07/09

Estatuto dos Açores

O Tribunal Constitucional, felizmente, veio pôr cobro aos devaneios sobre o Estatuto dos Açores. Há uma coisa que me leva a ser cada vez menos adepto da regionalização e até das próprias autonomias. Por detrás de todo estes movimentos, o que se move sempre, de forma silenciosa e com insídia, é a destruição do Estado central. A metáfora que os políticos usam para a destruição do Estado português é a da autonomia progressiva. O que significa isso? Literalmente significa que progressivamente as regiões se tornarão autónomas, isto é, capazes de dar a lei a si mesmas. Isto quer dizer apenas uma coisa: independência. Amanhã, se este pobre país, for regionalizado, como quer o PS, também as regiões irão reivindicar uma autonomia progressiva. Primeiro, serão super-autarquias, depois numa qualquer revisão constitucional, os grandes partidos, em obediência aos caciques locais, transformarão aquelas super-autarquias em regiões, mais tarde em regiões autónomas, e a pequena república portuguesa não tardará a tornar-se um estado federal. Daqui à desagregação é um passo. Estranho país este em que todos parecem querer depender do Estado e, ao mesmo tempo, destruir esse mesmo Estado. Talvez o objectivo seja a existência um estado em cada canto do rectângulo. Andou bem, muito bem, Cavaco Silva.

Alma Pátria - 11: Max - A Rosinha dos Limões


Max - A Rosinha dos Limões

Estas músicas que vêm construindo Alma Pátria relacionam-se comigo de maneiras diferentes. Algumas acho-as absolutamente detestáveis, outras têm, a meus olhos, uma certa graça, outras ainda são por mim reconhecidas como muito boas, mesmo que não sejam nem nunca tenham sido a "minha" música. É o caso desta A Rosinha dos Limões, de Artur Ribeiro (não encontrei vídeo disponível), na voz de Max (Maximiano Sousa), um grande artista madeirense. Não consegui encontrar a capa da gravação original da canção por Max, nem tive tempo para procurar datas e outras informações. Mas a canção e a voz de Max valem por si.

Sócrates tem ideias

O Magnífico e Meretíssimo e Eminentíssimo e Excelentíssimo e Santíssimo líder, que Deus por desfastio deu a este pobre país, anda exultante. Causa próxima dessa exaltação? Constataram os membros da congregação que tinham ideias, enquanto, segundo os mesmos constatadores, os membros e a chefe da outra irmandade não têm ideias. Sobre este súbito amor da confraria da rosa ao idealismo, apetece dizer apenas duas coisas: primeira, saberão eles o que são ideias? Não estarão a confundir ideias com umas noções vagas sobre as maldades que preparam para o futuro deste pobre povo? Ter uma ideia é já de si uma coisa bem difícil, ter várias é digno de um filósofo do top-ten da filosofia, ter ideias operativas então é um achado; segunda, há ainda que distinguir uma outra coisa: há ideias boas e ideias más. Mesmo que o clube do eminente Sócrates tenha ideias, coisa a provar, nada garante que elas sejam boas, como se viu durante os quatro últimos e dolorosos anos. Sempre seria mais digno que o PS exultasse por outra coisa, não me ocorre nada, mas com paciência talvez se encontre um motivo que não seja de todo descabido. Bem podiam ir de férias.

Exames: isto cansa!

Saíram os resultados da segunda fase dos exames nacionais do ensino secundário e lá volta o charivari em torno do tema. Segundo o Público, os resultados das principais disciplinas são mais baixos agora do que na primeira fase. Como o ME utilizou os exames como forma de fazer política, agora teve de encontrar umas explicações mirabolantes para justificar que os resultados não se devem à sua extraordinária e criativa política educativa. Parece que os culpados são os malditos alunos externos. O Público lembra, porém, que as associações profissionais consideraram os exames da segunda fase mais difíceis do que os da primeira.

Tudo isto já cansa e serve apenas para ocultar a realidade educativa. Muitos alunos que frequentam o ensino secundário "via de ensino" não o deveriam frequentar, ponto final. Deveriam estar em cursos profissionalizantes. Serve também para ocultar uma outra coisa: o amadorismo com que são concebidos os exames em Portugal. E a culpa não é de quem os produz, mas de quem dirige todo o sistema. Para realizar provas equivalentes ao longo dos anos, provas que permitam comparações, é necessário um aturado trabalho de análise e interpretação curriculares e a produção de milhares de itens (bancos de itens) testados. Só na posse desses materiais e de uma orientação que vise a comparação do desempenho curricular dos alunos, ao longo de vários anos, é que se poderão produzir exames minimamente fiáveis e comparáveis. Todo o chinfrim que se produz sempre que saem as notas de exame só serve para tapar a incompetência política e o amadorismo profissional com que a avaliação externa das aprendizagens é feita neste belo e solarengo jardim. Repito: isto cansa!

29/07/09

Alma Pátria - 10: Trio Odemira - Cartas de Amor

Trio Odemira - Cartas de Amor

O Trio Odemira é um pilar essencial do imaginário musical do nosso país. Está em actividade desde os anos cinquenta e teve nas décadas de cinquenta e de sessenta o seu apogeu. Era presença assídua na rádio e os seus êxitos musicais foram muitos. Não consegui determinar o ano da edição do EP Trovas Populares, onde está Cartas de Amor, mas, segundo a Wikipedia, a gravação foi feita entre 1955 e 1967. Refira-se que este universo musical não existia apenas em Portugal. A América Latina, incluindo aí o Brasil, a Europa e os EUA tinham muita música desta, uma música bem feita, uma música dirigida, através da Rádio, às classes populares. Também tinham outras coisas. Era isso que nos faltava.

Análises teratológicas

Estamos a chegar à essência da coisa. Quando se fala em economia e política ou, na versão iluminista, em economia-política, devemos perguntar qual a ciência que trata dessa equívoca combinação. Ora a ciência da essência da economia-política é a teratologia. Teratologia?, pergunta quase indignado o leitor. Sim, é verdade a teratologia investiga as anomalias, malformações, deformações, monstros e monstruosidades em geral (ver aqui), portanto é um ramo da medicina. Em Portugal, porém, foi necessário um transfert para incluir nessa digníssima ciência o monstro das contas públicas, vulgarmente conhecido pelo défice. Ricardo Reis, não confundir com o heterónimo de Fernando Pessoa, diligente investigador de monstruosidades estudou a alimentação do monstro nos últimos 24 anos. Descobriu que os governos do PSD são mais amiguinhos do monstro do que os do PS; descobriu também que o próprio Professor Cavaco não era nenhum poupadinho, mas gastava que se fartava. Estas coisas já se sabiam. Por exemplo, seria interessante investigar a correlação entre a despesa pública e as maiorias absolutas do professor Cavaco. É preciso, por outro lado, não esquecer que a relativa contenção dos governos PS não se deve a uma virtude substancial dos rapazes da rosa, mas às imposições leoninas de Bruxelas. Mas a coisa que todos temos de saber é a seguinte: o défice não cresce apenas por desperdício. O monstro é criador, cria aquilo que não existe em Portugal: classes médias. Como a sociedade civil se mostra impotente para fabricar amplas e sólidas classes médias, como existem por essa Europa fora, tem sido o Estado a fabricá-las: professores, médicos, enfermeiros, militares, juízes e magistrados, técnicos superiores disto e daquilo, etc. Fora disto praticamente já não há classe média. Um exemplo. Antigamente os pequenos comerciantes com as suas lojas de mercearia formavam uma sólida, embora pouco extensa classe média. Viviam de uma concorrência respeitosa e pouco agressiva. Essa gente desapareceu. As grandes superfícies acabaram com ela e o grosso do dinheiro concentrou-se nas mãos de uma meia dúzia de grandes empresários da distribuição. Quem fala em mercearias, fala no resto. O resultado é sempre o mesmo: concentração do dinheiro nas mãos de pouco, crescimento da proletarização, necessidade do Estado fabricar classes médias. O monstro do Estado cresce porque há outros monstros, talvez bem mais poderosos, que aniquilam as classes médias civis. Ora, sem classes médias, sejam produzidas pelo Estado ou pela sociedade, a comunidade estará quase sempre à beira da guerra civil, ou da revolução, se preferirem a metáfora astronómica. O monstro de que falou o professor Cavaco foi inventado por ele quando, usando a metáfora do ciclismo, quis pôr Portugal no pelotão da frente. O que fez ele? Inventou o que não havia: classes médias amplas. Pagas por quem? Pelo Estado. Pobre Leviatã que paga tantas coisas.

28/07/09

Metamorfoses LX

Roger Sessions – Symphony No. 6

as leves flutuações da madeira
sobre a dureza trazida pela canícula
são mãos de seda que se atam
em torno do pescoço que transpira

o peito aquietou-se
perdeu o sinal de vida
não é pássaro
nem animal bravio
aquele que já não respira

perdeu o mundo
quem o mundo não teve
apenas um fardo de palha
e um rumor de bandeiras
se os olhos se erguiam para a vida

na flutuação da canícula
zumbem insectos pelo ar
pousam na pele que transpira
ou caem exaustos
sobre a boca que já não respira

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Com Metamorfoses LX conclui-se este ciclo de poesia. Agora, todo o conjunto vai entrar em trabalho oficinal para ver o que acontece. Se o blogue não vai de férias, vai a poesia no blogue. Voltará mais tarde.