21/08/09

Alma Pátria - 32: Petrus Castrus - Marasmo


Petrus Castrus - Marasmo

A Alma Pátria recua até o ano de 1971. A influência das banda de rock progressivo começava a fazer ouvir-se, por exemplo, na música do Quarteto 1111. Marasmo é o título do primeiro single do grupo Petrus Castrus, um grupo de José e Pedro Castro, onde tocaram múltiplos músicos, entre 1971 e 1978, com destaque para, logo no início, Júlio Pereira. O título do disco, Marasmo, não deixa de ser uma referência ao ambiente social que o país vivia no início da década de setenta, uma referência também ao sentimento de um ego esmagado pela totalidade social. Um retrato da pátria focado de um outro horizonte.

Feridas abertas

Parece que Pacheco Pereira terá admitido que a inclusão de António Preto é uma ferida aberta nas listas de candidatos a deputados pelo PSD. Usa mesmo uma linguagem esotérica, falando na cessidade de engolir sapos com a finalidade de correr com o grupo de Sócrates do poder. Como ressalta do que venho a escrever neste blogue, não morro de simpatias pelo engenheiro Sócrates e o seu grupo, acho mesmo que se ele se fosse embora seria uma bênção para o país e para o próprio Partido Socialista. Mas não confundamos as coisas. As listas do PSD é que têm dois candidatos arguidos em processos judiciais, sendo um desses processos muito pouco simpático. Pacheco Pereira deveria interrogar-se sobre o exemplo que o seu partido, pelo qual ele aceita candidatar-se mesmo assim, dá ao país. Uma coisa é a presunção de inocência, e toda a gente é inocente até prova em contrário. Outra coisa é a oportunidade política. Não compreendo, e no país ninguém compreende, o convite que Manuela Ferreira Leite endereçou a essas duas pessoas. Ainda mais incompreensível é o facto de eles terem aceite. Depois de António Vitorino ter abandonado um governo do eng.º Guterres por uma mera suspeita num assunto fiscal (ainda por cima infundada), depois da batalha travada por Luís Marques Mendes, enquanto presidente do PSD, para evitar candidatos com problemas com a Justiça, a decisão de Manuela Ferreira Leite representa um recuso inaceitável. Se havia alguma coisa que Manuela Ferreira Leite poderia apresentar era uma imagem de pessoa séria. A sua decisão, aos olhos da opinião pública, não veio consolidar essa imagem. Feridas abertas? Sim, e talvez essas feridas possam custar uma derrota eleitoral.

Jornal Torrejano, 21 de Agosto de 2009

Está on-line a edição semanal do Jornal Torrejano. É só clicar aqui e vai até .

20/08/09

Alma Pátria - 31: Fernando Tordo - Tourada


Fernando Tordo - Tourada

Vencedora do Festival RTP da canção, 1973. Como explicar que esta letra, de José Carlos Ary dos Santos (não tem interesse enquanto poeta, mas foi um grande letrista), passe pela censura, se apresente a concurso na televisão da ditadura, e ganhe? Só há uma explicação. Uma parte substancial do país já tinha percebido que o regime se tinha transformado numa enorme tourada. Esta canção é uma autêntica canção de intervenção, uma canção que anunciava os tempos que estavam para vir. Se não tivesse mais nenhum interesse, mas ela possui outros, interessaria enquanto facto profético anunciador do amanhã, quase dos amanhãs que cantam. Quem diria?

Toque de finados

O Dr. Mário Soares, na Visão desta semana, escreve um artigo com o título "Marx saiu do purgatório?" O texto possui a leveza inerente à estação em que estamos, leveza habitual no autor. A dada altura diz: "A crise de 2008-2009, em que nos encontramos, representou, contudo, o toque de finados do neoliberalismo e parece ter retirado do purgatório Karl Marx". Tirando o facto de Mário Soares se ter equivocado relativamente à saída de Marx do purgatório (não foi a crise financeira que o tirou de lá, foi o Vaticano que acabou com o purgatório e transferiu as almas que lá se encontravam para outros recantos do além), há uma coisa que me faz uma grande confusão. Como se pode afirmar que a actual crise representa o toque de finados do neoliberalismo? Como explicar a tão rápida resposta dos mercados à crise? Como explicar a forma organizada como os Estados vieram em socorro do modelo económico em desgraça? Aquilo que potencia o chamado neoliberalismo continua a vigorar, gostemos ou não. Os mercados nacionais continuarão abertos, a mão-de-obra oriental continuará a produzir o empobrecimento das classes médias europeias, o trabalho, físico ou intelectual, não deixará de ser considerado mercadoria, agora uma mercadoria à escala global. O capital financeiro não deixará de ter um papel preponderante na economia global. Esta crise assemelha-se mais a uma doença provocado por um vírus oportunista, mas debelável, do que a uma fase terminal do neoliberalismo. Pode ser que Marx, com a ajuda de Ratzinger, tenha sido transferido para o céu, para um dos andares térreos, claro, sempre é um materialista. Mas pensar que vamos amanhã ao funeral do neoliberalismo é uma ilusão inútil, que os portugueses perceberão imediatamente a seguir às próximas eleições, ganhe quem ganhar.

19/08/09

Alma Pátria - 30: Teresa Tarouca - Meu Bergantim


Teresa Tarouca - Meu Bergantim

Hoje a Alma Pátria faz uma incursão no fado de natureza aristocrática. O fado desde há muito que conjuga duas fortes raízes, a popular, de que é representante, por exemplo, Alfredo Marceneiro, e a aristocrática, onde sobressai o nome de Maria Teresa de Noronha. Também Teresa Tarouca possui uma ascendência aristocrática, bisneta dos condes de Tarouca, e faz parte dessa fileira de fadistas. O material existente no You Tube é francamente restrito e não foi possível apresentar um fado mais tradicional. Ficamos então com o Meu Bergantim, que era o que estava disponível.

Da dissolução da Pólis

O lamento tradicional de que o marxismo carece de toda a reflexão política autónoma, tende a impressionar-nos como sendo uma força, e não uma fraqueza. Pois o marxismo não é uma filosofia política; embora exista, sem dúvida, uma prática marxista da política, o pensamento político marxista, quando não é prático, tem exclusivamente a ver com a organização da sociedade e com o modo de as pessoas cooperarem na organização da producão. A crença neoliberal de que, no capitalismo, só o mercado interessa é, portanto, um parente próximo da concepção marxista de que, para o socialismo, o que importa é a planificação: nenhum deles tem tempo para disquisições políticas legítimas. Temos muito em comum com os neoliberais, na realidade, virtualmente tudo - excepto o essencial! [Frederic Jameson, Postmodernism: Or, the Cultural Logic of Late Capitalism]
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Para lá do carácter provocador ou chocante da afirmação de Jameson, há uma coisa que permanece um facto: tanto o liberalismo como o marxismo visam a destruição do político. Aquilo que marca a modernidade e a própria pós-modernidade é a aversão à dimensão política da existência humana e a proposição, explicitamente ou não, de utopias onde o Estado é dissolvido. Não esqueçamos o seguinte: toda a violência que o Estado exerceu, no chamado socialismo real, tinha por fim atingir a sociedade sem classes, onde o Estado desapareceria. Também a retórica liberal do Estado mínimo almeja a desarticulação do Estado e sonha com um paraíso onde só existam consumidores e relações livres entre consumidores. Liberais, socialistas e comunistas, de formas diferentes, todos eles visam a anarquia, a supressão de uma ordem onde as comunidades se organizam segundo estruturas políticas. Contrariamente, porém, ao pensamento de Jameson, aquilo que separa os neoliberais dos marxistas não é o essencial, mas o acessório, a organização da produção e da distribuição de bens. No essencial, estão unidos, pois a essência do homem é impensável sem a dimensão política. Esta não é uma excrescência, mas a condição de possibilidade da existência e persistência do humano. O que descobrimos assim é um longo projecto de desarticulação do homem, um projecto emergente na modernidade (talvez a visão mecanicista do homem que vai de Descartes a de La Mettrie seja um símbolo percursor), mas que a pós-modernidade vem deliberadamente acentuar. Mais interessante do que o debate sobre a ruptura entre moderno e pós-moderno, debate centrado, por exemplo, na diferenciação e autonomia das esferas (religião, política, arte, ciência) inerente à modernidade e na actual des-diferenciação e hibridação pós-moderna, é a reflexão sobre o pós-moderno como momento de intensificação paroxística de tendências dissolventes libertadas com a modernidade. Tendências essas que têm dois pólos particularmente significativos no marxismo e no liberalismo, independentemente das múltiplas formas que ambos vão tomando.

18/08/09

Alma Pátria - 29: João Villaret - Cântico Negro (José Régio)


João Villaret - Cântico Negro

Hoje a Alma Pátria sai dos caminhos da canção e entra nos da declamação. A rádio in illo tempore passava poesia. Recordo Villaret e também Manuel Lereno. João Villaret morre em 1961. Se olharmos para a capa do disco "João Villaret no São Luís" há qualquer coisa que é inconcebível. Em plena ditadura, um actor consegue encher um teatro apenas para ser ouvido a declamar poesia. Mais, esse mesmo actor tinha um programa semanal na RTP, de larga audiência, onde dizia os grandes poetas. Esse mundo acabou. Ainda David Mourão-Ferreira e Mário Viegas tiveram programas do género, mas tudo isso está definitivamente morto, no contexto cultural pós-moderno em que vivemos. No vídeo, um poema de José Régio, um poema que li muitas vezes e que ouvi também muitas vezes declamado pelo meu colega de escola Luís Filipe Pisco. Dizia-o bem.

Ainda não perdeu o jeito



Como se pode constatar aqui, Cavaco Silva ainda não perdeu o jeito. Sabe muito e sempre soube resguardar-se. É um adversário terrível, só dá a cara quando tem a certeza da vitória. Uns rapazes do PS, gente que até pela idade deveria ter mais tino e saber com quem se metiam, acusaram o Presidente ou a Presidência de tomar partido nas eleições. A resposta foi brutal: denúncia de uma restrição das liberdades. Cavaco precisa de correr com Sócrates. Se Sócrates torna a ganhar, a sua recandidatura é irrelevante. Mas se Manuela Ferreira Leite formar governo, Cavaco volta ao centro da decisão política, por intermédio de terceiros. Aí, faz sentido retornar à Presidência. Seja como for, até ao dia das eleições não faltarão golpes e contra-golpes. Mas esta polarização é falsa. Ambos os bandos defendem, com nuances, coisas muito semelhantes. O que está em jogo não são programas adversos, mas apenas empregos e capacidade para os distribuir.

17/08/09

O discurso sobre o filho-da-puta


Este post, infelizmente, não é uma homenagam ao texto de Alberto Pimenta. Antes fosse. Aqui, no 31 de Armada (junte-se também isto), aquele blogue de rapazes monárquicos, está o resumo, com os respectivos links, da essência da discussão política em Portugal. Como as partes em confronto não têm ideias divergentes, nem qualquer tipo de ideia, haveria de chegar o momento em que a realidade deveria vir ao de cima. Como se manifestou a realidade? Num arraial de filho-da-puta para cá, filho-da-puta para lá. Que não se contrarie ninguém. Mas, atenção, num país como o nosso, o filho-da-puta é um crónico vencedor. Portanto, não se percebe por que razão se há-de estar a atribuir antecipadamente a vitória ao campo adversário.

Equilibrar o barco

Na década de oitenta, uma Direita vitoriosa passou à ofensiva. No mundo anglo-saxónico, os regimes de Reagan e Tatcher, após terem enfraquecido o mundo operário, reduziram a regulamentação e a redistribuição. Alastrando desde a Inglaterra ao continente europeu, a privatização do sector público, os cortes na despesa social e elevados níveis de desemprego suscitaram uma nova norma de desenvolvimento neoliberal, que viria a ser implementado pelos partidos da Esquerda não menos do que pela Direita. No final da década, a missão desempenhada, no pós-guerra, pela social-democracia na Europa Ocidental - o Estado-providência baseado no pleno emprego e no provimento universal - fora, em grande parte, abandonada pela Internacional Socialista. [Perry Anderson (1998). As Origens da Pós-Modernidade. Lisboa: Edições 70, pp. 122]
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O que assistimos com a governação Sócrates foi a realização em Portugal daquilo que outros partidos da Internacional Socialista já tinham feito: trair a sua própria tradição e abandonar o pacto social-democrata que eles, juntamente com a democracia-cristã, tinham construído em nome de uma sociedade equilibrada. Isto coloca claramente um problema a esses mesmos partidos: para que servem eles? De certa forma, o espectro político europeu tornou-se redundante. Os partidos políticos da área de governo têm as mesmas políticas. Contrariamente ao que se quer fazer crer, não há qualquer alternativa para as próximas eleições. PSD e PS representam absolutamente a mesma coisa e os mesmos interesses, obedecem aos mesmo imperativos, possuem as mesmas fidelidades, servem os mesmo senhores, ajoelham perante os mesmo ídolos. Aí não há alternativa. O problema remanescente tem a ver com os eleitores da esquerda democrática. Não se revêm nas formações de inspiração marxista-leninista, mas também não se revêm nas sociedades que os partidos da Internacional Socialista estão a construir, sociedades acintosamente injustas, sociedades de uma diferença de classes abissal. Para esses, a única saída é a radicalização do voto. Se a esquerda democrática colapsou e se converteu aos ideários da direita, com o fanatismo dos conversos, resta apenas tentar equilibrar o barco.

Alma Pátria - 28: Tristão da Silva - Aquela Janela Virada para o Mar


Tristão da Silva - Aquela janela virada para o mar

Quem fez o upload deste vídeo para o You Tube diz que Tristão da Silva terá escrito esta canção enquanto estava preso, por ser oposicionista à ditadura. Não consegui confirmar a história. Existem algumas pequenas biografias na rede, mas em nenhuma delas consegui encontrar referência a esse facto. Seja verdade ou seja apenas uma ficção, o facto é que esta canção passava bastante na rádio nos tempos do dr. Salazar. É uma das canções que dão a imagem de marca do cantor e faz claramente parte da alma pátria.

Vida, sociedade, prestação de provas

No De Rerum Natura encontrei este texto de Francesco Alberoni sobre os exames:

A vida, na sua essência, na sua estrutura, é projecto e risco. Há sempre um momento em que ficamos suspensos à espera (...). Não compreendo os pedagogos que pretendem acabar com os exames nas escolas. O exame é parte integrante da educação. Não compreendo os pais que pretendem evitar esse stress aos filhos. Viver significa prever, calcular, dominar o stress.

Só quando temos que enfrentar um exame é que nós nos apercebemos do que podíamos e devíamos ter feito. Antes tendemos a deixar-nos embalar pelas ilusões, a imaginar o mundo como gostaríamos que fosse (...). Em todas as alturas, devemos procurar adquirir sempre o estado de espírito próprio do dia que antecede a batalha, para ver se não nos enganámos em nada, se não nos esquecemos de um pormenor importante (...) Devemos reproduzir o melhor possível a realidade, a angústia da realidade, a incerteza da realidade (...). Só (...) aceitando até ao fim o difícil exame, nós podemos correr o risco do futuro.” [Francesco Alberoni (1995). O Optimismo. Lisboa: Bertrand, pp. 84-85]
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Aquilo que o sociólogo italiano escreve já foi o mais puro senso comum. Era uma evidência que iluminava o comportamento de uma comunidade. O que merece meditação, antes de mais, é a forma como essa evidência foi corroída e se dissolveu. Uma grande guerra ideológica foi lançada contra o bom senso comunitário, tornou incerto o que é uma experiência estruturante da humanidade, seja nas sociedades modernas, seja nas sociedades tradicionais, seja nas sociedades arcaicas. Prestar provas (sejam exames ou provas iniciáticas) é o fundamento da integração das novas gerações nas respectivas sociedades. Mas a prestação de provas é também uma demarcação. Prestar provas e ficar aprovado significa que se deixou qualquer coisa para trás, que se saltou um obstáculo, que se cresceu. A destruição dos exames foi uma, entre outras, estratégias para a contínua infantilização das sociedades ocidentais. Na ideologia que certos pedagogos e muitas famílias ostentam, descobre-se uma resistência ao tornar-se adulto, ao crescer, como se a criança e o jovem pudessem viver eternamente na despreocupação e na irresponsabilidade. Este impulso da irresponsabilização emana directamente das novas formas de capitalismo, as quais exigem uma massa amorfa de consumidores, de gente que se relaciona com os artefactos, pertençam eles ao mundo material ou ao imaterial, como as crianças se relacionam com os brinquedos.

Contrariamente ao que pensa a esquerda sobre a educação, o fim dos exames, o fim da prestação de provas, não significa uma maior facilidade na produção da igualdade social. Pelo contrário, este tipo de ideologia não é emancipatório, mas propício a uma reestruturação dos sistemas de ensino, onde os filhos das elites têm acesso, através dos colégios privados e confessionais, a um ensino exigente e rigoroso, e os filhos da plebe democrática têm a escola pública como lugar de gozo e de prazer, lugar de irresponsabilidade social e pessoal. A política educativa seguida nos últimos quatro anos, pela mão dos socialistas, teve como finalidade impor este modelo profundamente classista, o qual começou a ganhar forma com a Reforma Roberto Carneiro, nos tempos em que Cavaco Silva era primeiro-ministro. Não por acaso, Cavaco Silva cobriu todos os desmandos da equipa de Lurdes Rodrigues. Por detrás da retórica da sociedade do conhecimento, por detrás do incenso às novas tecnologias, o que está em jogo é uma brutal divisão social, cujo núcleo central reside na negação aos alunos das escolas públicas o direito a um ensino exigente, rigoroso, de alta qualidade. E isso exige, concomitantemente, se não o fim dos exames, a sua irrelevância.

16/08/09

Nuno Ribeiro

Nuno Ribeiro

Esta casa não está transformada num blogue de ciclismo. Mas ter andado todo o tempo da Volta a fazer postagens sobre ciclismo e não haver uma referência à Volta deste ano, parece-me excessivo. É um facto que há muitos anos deixei de me interessar por este desporto, como pela generalidade dos outros. A paixão desportiva tem a sua pátria nessa terra encantada que é a infância e a adolescência. Depois, ou se desenvolve a razão e se olha com outros olhos as competições desportivas, ou a pessoa recusa-se a crescer e prolonga até à morte a atitude agonística presente em toda a paixão pelo desporto. Calhou-me, talvez com pouco mérito meu, a primeira hipótese. Olho com alguma razoabilidade para o fenómeno desportivo e, confesso, que ele já pouco me emociona. Mas essa terra encantada da infância persiste dentro de nós e é ela que me chama quando escrevo sobre o ciclismo. É também uma outra coisa. O ciclismo, aliás como o futebol, vieram até mim por intermédio do meu pai. Escrever sobre estas coisas é uma forma de me sentir próximo dele, uma espécie de culto aos mortos, aos mortos significantes. Aqui fica, assim, a homenagem ao homem que hoje ganhou a nossa pequena Volta. Não será pior nem melhor que os meus heróis de há quarenta anos, mas nunca terá lugar, por culpa da idade que tenho, no panteão da minha memória.

Alma Pátria - 27: Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

Voltamos à face oculta da alma pátria. Como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira chega à canção de intervenção pela mediação do fado de Coimbra. Entre 1960 e 1962, grava quatro EP's (discos com 4 faixas), todos eles dedicados à canção de Coimbra. A sua orientação como cantor de intervenção surge de forma nítida no quinto EP, editado no ano de 1963, Trova do Vento que Passa, onde todos os poemas cantados são de Manuel Alegre. Consta que foi um grande êxito comercial. O que é interessante na música portuguesa é o paradoxo de o sebastianismo e a saudade, manifestações ideológicas conectadas com a direita, terem encontrado as suas mais autênticas vozes em cantores de intervenção, como Luís Cília, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.

Volta a Portugal - algumas memórias XIII

Joaquim Agostinho

Há nomes grandes no ciclismo português que traçam a rota da modalidade no nosso país, nomes como José Maria Nicolau, Alfredo Trindade, Ribeiro da Silva, Alves Barbosa ou Marco Chagas (aquele que mais vezes, quatro, venceu a Volta a Portugal). Joaquim Agostinho, porém, foi o único ciclista português de classe internacional. Venceu três Voltas a Portugal, alcançou um segundo lugar na Vuelta a Espanha e dois terceiros no Tour. Era, no seu tempo, um dos grandes nomes do pelotão internacional. Quando morreu, aos 41 anos e vítima de um estúpido acidente numa prova, ainda competia, como se quisesse compensar ter começado tão tarde (aos 25 anos) na modalidade. Aqui termina, com o fim da Volta logo à tarde, esta deambulação pela minha memória do ciclismo nacional.

15/08/09

Quarenta anos de Woodstock

Jimi Hendrix - Purple Haze at Woodstock 1969

The Who - My Generation [Woodstock 1969]

Jefferson Airplane Saturday Afternoon Woodstock 1969

As efemérides são sempre amigas dos bloggers falhos de imaginação. Passam hoje 40 anos do Woodstock. Podemos dizer que o evento condensou toda uma cultura juvenil que se foi formando ao longo da década de sessenta. De certa maneira é o sumário do passado e um programa de futuro. Quarenta anos depois, o mundo que é o nosso é o que aquela gente e muitos dos que gostariam de lá ter estado formataram. Não se pode dizer que seja um mundo brilhante, mas há uma coisa de que não podemos acusar a geração do Woodstock: falta de eficiência. O niilismo e o relativismo que a animava foram eficientemente disseminados e tomaram conta do Ocidente.

Alma Pátria - 26: Fernando Farinha - O Meu Destino & Sempre Linda


Fernando Farinha - O Meu Destino - Sempre Linda

Fernando Farinha era um dos fenómenos da Rádio nos anos sessenta e, presumo, cinquenta. Era conhecido como o Miúda da Bica, referência ao bairro da Bica, Lisboa, para onde veio residir em criança, vindo do Barreiro. Começou a cantar muito cedo. Esta gravação parece ter sido feito quando ele tinha apenas 11 anos. É uma curiosidade, pois trata-se de um velho 78 rpm. Eis como soava, mais ou menos, um disco nos finais dos anos trinta ou início dos quarente.

Volta a Portugal - algumas memórias XI/XII

Mário Silva e Pedro Moreira

Junto aqui dois ciclistas bem presentes na minha memória. Têm palmarés dissemelhantes, melhor o do portista, mas como o blogue é meu, junto quem me apetecer. Mário Silva ganhou a Volta (1961) muito novo, tinha apenas 21 anos. Na Volta do ano seguinte ganhou o Prémio da Montanha. Na altura, era sempre apontado como um dos candidatos ao triunfo na prova, mas o melhor que alcançou foi um 3.º lugar. António Pedro Moreira nunca obteve uma classificação brilhante na Volta a Portugal (o melhor que conseguiu foi um 7.º lugar), mas está associado na minha memória às metas volantes, um enigmático prémio existente na Volta a Portugal, não sei se noutras. Ganhou o prémio das metas volantes três vezes (1966, 67 e 68). Ganhou ainda a classificação por pontos (camisola verde) em 1966. Ambos eram nomes emblemáticos dos respectivos clubes.

A paródia pós-moderna

A Condição Pós-moderna, escrita como uma encomenda oficial, restringe-se essencialmente ao destino epistemológico das ciências naturais - a cujo respeito, como Lyotard mais tarde confessou, o seu conhecimento era menos do que limitado. O que ele entreviu nelas foi um pluralismo cognitivo, baseado na noção - inédita para os públicos franceses, embora já há muito estereotipada para os anglo-saxonicos - dos diferentes e incomensuráveis jogos linguísticos. A incoerência da concepção original de Wittgenstein, muitas vezes notada, foi apenas acrescida pela afirmação de Lyotard de que tais jogos eram autárcicos e agonísticos, como se pudesse haver um conflito naquilo que não possui uma medida comum. A influência subsequente do livro esteve, neste sentido, em relação inversa ao seu interesse intelectual, quando se converteu na inspiração de um relativismo vulgar que, muitas vezes - aos olhos quer dos amigos, quer dos inimigos - passa pela marca do pós-modernismo. [Perry Anderson, As Origens da Pós-Modernidade. Lisboa: Ed. 70, pp. 39/40]


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Esta mesma marca de irrelevância intelectual de um dos mais famosos livros sobre a pós-modernidade é assumida pelo próprio Lyotard: "Inventei histórias, referi-me a um rol de livros que nunca lera, aparentemente causou impressão nas pessoas, mas tudo se resume a um pouco de paródia... É o pior dos meus livros; quase todos são maus, mas este é o pior": [Lotta Poética, Terceira Série, Vol. l, N° l, Janeiro 1987, p. 82 (idem, pp. 39)].


Há, no entanto, qualquer coisa no livro de Lyotard que é pregnante. Essa força advém-lhe do próprio carácter paródico. Lyotard podia saber pouco do que falava no seu célebre relatório, podia ter inventado histórias, podia citar livros que nunca lera, mas isso não torna a sua obra menos significativa relativamente ao espírito pós-moderno. Pelo contrário, o livro como atitude intelectual parece ser o resumo da pós-modernidade, do carácter paródico em que a própria vida e o saber se tornaram. A pós-modernidade é esse momento que, após a solidez material do mundo moderno, tudo se dissolve, se torna leve e risível.


A risibilidade da existência só encontra o seu outro na risibilidade do saber, de um saber que cresce exponencialmente, mas com o qual os seres humanos são cada vez menos sábios e menos humanos. Um relatório sobre o destino epistemológico das ciências naturais pode ser um motivo tão válido como uma investigação sobre colecções de cromos da bola para evidenciar o carácter risível do mundo. Lyotard escolhe muito bem a palavra paródia, evitando a referência directa à comédia. Esta deve ser sempre pensada na sua relação ancestral com a tragédia. A segunda, no dizer de Aristóteles, trata dos homens superiores, enquanto a primeira trata dos homens comuns ou inferiores.


Ora a paródia pós-moderna trata da ausência dos próprios homens, superiores ou inferiores, do mundo da vida. Ela assinala o lugar onde o homem se ausentou de si mesmo, dissolveu-se, reduziu-se a uma condição onde inferior e superior apenas fazem sentido entendidos num contexto zoológico. No entanto, não se deve interpretar o zoológico como referência a uma ciência, ainda que taxionómica, como a Zoologia. Deve ser ligado àquilo que entendemos quando escutamos a expressão "jardim zoológico". Ali os animais são criados em cativeiro para exposição pública. A pós-modernidade refere-se ao momento em que o mundo da vida se resume a um jardim zoológico, onde diferentes espécies de macacos se exibem perante outros macacos. A paródia é o contexto da risibilidade do animal humano reduzido ao horizonte dos seus apetites naturais. Um deles é exibir-se paroxisticamente perante o próximo. A característica essencial, porém, da paródia é o seu carácter de reinterpretação de um original. Agora os animais humanos parodiam o homem que um dia foram.