O ubíquo e conspícuo Moita Flores veio anunciar ao mundo que não votaria na dr.ª Ferreira Leite, mas espera que o PSD de Santarém continue a apoiar a sua independente candidatura à câmara local. Este intelectual do regime, que transpira palavras de ética por todos os ecrãs que apanha a jeito, deveria pura e simplesmente não aceitar candidatar-se pelo partido chefiado pela senhora que parece abominar. Se as pessoas não gostam de um partido ou do chefe, o caminho é ir para outro lado, ou ficar quietas em casa à espera que as chamem para comentar mais um crime ou um jogo de futebol.
Uma fraude que nasceu em 1968 e terminou em 1969. Nasceu, segundo parece, entre o Entroncamento e Tomar. A Filarmónica Fraude representou um corte com o tipo de música que se praticava em Portugal, combinando o ritmo da pop ou o rock progressivo com a música tradicional portuguesa. Não consegui nenhum vídeo com os grandes temas da banda, nomeadamente Flor de Laranjeira e Menino. Aliás, este tema, 25, uma referência à guerra colonial, foi o único vídeo disponível que encontrei e diz respeito a uma das faixas do único álbum do grupo, Epopeia.
No ciclismo nacional, para além dos três grandes do futebol, há equipas que fazem parte da mitologia da disciplina. Já aqui falámos do velho Ginásio de Tavira. Podia falar no Águias de Alpiarça, em cuja pista, ainda muito novo, cheguei a ver provas. Mas talvez o mais mítico desses clubes seja o Sangalhos. O grande corredor da terra bairradina foi, sem qualquer dúvida, Alves Barbosa (ganhou as Voltas de 1951, 56 e 58 e participou no Tour), mas dele não me lembro enquanto corredor. As minhas figuras míticas do Sangalhos são os irmãos Oliveira (Herculano e Celestino) e Joaquim Andrade. Este ganhou a volta de 1969, a segunda que era disputada por Joaquim Agostinho. Junto, neste post, outro grande ciclista que correu pelo Sangalhos (embora tivesse corrido por muitos outros clubes, entre eles o curioso Benfica de Luanda), Venceslau Fernandes. Ambos, Andrade e Fernandes, nasceram no ano de 1945, mas Venceslau só venceu Volta em 1984, correndo por uma marca, a Ajacto.
Ainda não consegui compreender, certamente por limitação minha, a ânsia que existe em certos sectores por aquilo a que chamam um novo regime, ou outro regime, ou outra coisa. A ideia do novo regime, de um regime presidencialista, é uma reformulação do messianismo sebástico. Mas, para além da referência à mitografia nacional, o que mais pode oferecer um novo regime? Não pode alterar o povo que somos, e logo aí 95% da virtude do novo regime se desvanecem. Restam 5%. Dizem respeito ao pastor do povo, o miraculado Presidente a vir com o novo regime. Mas onde iríamos nós buscar essa ditosa pessoa que nos salvaria de nós próprios? Não estou a ver onde, a não ser à classe política, às gentes que pululam no PS e no PSD. Com um novo regime, como é moda agora querer, a vigorar, talvez o Presidente-Rei e primeiro-ministro se chamasse José Sócrates. Um Sócrates ainda mais exuberante, sem o contraponto de Belém nem o aborrecimento de ter de ouvir seriamente os deputados, valham estes o que valerem. O problema fundamental não é de regime. Os mesmos vícios e as mesmas escassas virtudes estiveram presente no constitucionalismo monárquico, na primeira República, no Estado Novo, na República actual. O que variou foi o uso do cajado pelo pastor, umas vezes mais brando, outras mais duro. A essência não muda, pois como se sabe, desde o velho Platão, as essências são eternas e imutáveis.
Depois do interregno de ontem, volta o Alma Pátria com um nome grande do fado, Alfredo Marceneiro. Aqui não é o lugar para contar a história dos artistas seleccionados, nem o blogger tem competência para o fazer (pode ver aqui uma pequena biografia do grande Marceneiro). Não identifiquei o autor, talvez seja o próprio Marceneiro, mas a letra deste fado é uma nova e exuberante lição de sociologia pátria. "Há vários amores na vida / Lindos como o amor perfeito / Belos como a Vénus querida / De tantos que a vida tem / Só um adoro e respeito / É o santo amor de mãe". Elucidativo.
Como ontem, devido a um imprevisto, não foi possível vir ao blogue, faço hoje, para compensar, uma heresia e junto um corredor do Sporting e outro do Benfica, nesta peregrinação à minha memória ciclística. São dois nomes grandes do pelotão dos anos sessenta e início de setenta. Leonel Miranda nunca ganhou a Volta a Portugal. Fernando Mendes ganhou em 1974, no ano da Revolução. Em compensação, Leonel Miranda ganhou o Prémio da Montanha (1967), a classificação por pontos (1968, 69 e 70 - Mendes ganhou em 72, 73 e 74). Ambos ganharam uma vez a classificação das metas volantes. Outra coisa que ambos tiveram em comum foi o terem sido ensombrados pelo fenómeno Joaquim Agostinho. Não fora isso, e os seus nomes seriam ainda maiores no panorama do ciclismo nacional.
Simone de Oliveira é uma presença constante, desde os finais dos anos cinquenta, no panorama da cultura popular portuguesa. De certa forma, ela acompanha a evolução da vida social e política portuguesa. Começa a sua preparação, enquanto cançonetista, numa "escola" do regime, o Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional. A sua estreia, como cantora, dá-se em 1958. Onze anos depois, vence o Festival RTP com uma canção, Desfolhada Portuguesa, escrita pelo poeta e letrista comunista José Carlos Ary dos Santos. O delicioso desta história reside no facto da afirmação, no corpo do poema, "quem faz um filho, fá-lo por gosto" tem gerado controvérsia, o que levou a que se considerasse a letra como muito ousada. Curioso também é ter passado na censura. Estávamos a começar a primavera marcelista e havia um certo amaciamento, que desapareceu rapidamente, do regime. Já agora, note-se a força que emana de Simone de Oliveira.
Américo Silva ganhou a Volta a Portugal de 1968, envergando a camisola do Sport Lisboa e Benfica. Curiosamente essa Volta foi dominada pelo Sporting. Ganhou por equipas, ganhou no Prémio da Montanha com um tal Leonel Moreira (mas não sei se este nome está correcto, se não será Leonel Miranda) e ganhou a classificação por pontos, através de Leonel Miranda. E o Sporting teve ainda uma outra vitória na Volta desse ano. A estreia do super Joaquim Agostinho, que ficou em segundo lugar. Valeu aos benfiquistas, como eu, a classe de Américo Silva e a conquista das metas volantes pelo inevitável Pedro Moreira.
Muitas vezes tenho a estranha sensação de que nós, portugueses, sofremos de uma qualquer anormalidade. Dito de outra maneira, não somos bons da cabeça. Nas estradas, constatamos isso com frequência. Agora, teve de vir a ministra da Saúde chamar a atenção para comportamentos anti-sociais de certos adultos, comportamentos esses que visam propagar entre crianças o vírus da gripe A, segundo parece, como retaliação. Este tipo de comportamento não é criminalizado? Quando nem a boa educação, coisa de que uma parte dos portugueses não faz ideia do que é, nem os imperativos da consciência moral são suficientes para travar certos actos, deve ser o Direito a fazê-lo.
Apesar de ter terminado a sua carreira em 1967, lembro-me perfeitamente de Jorge Corvo fazer parte do pelotão da Volta à Portugal. Recordo-me, também, de ler nos jornais desportivos (li-os desde muito cedo, embora já não olhe para eles há muitos anos) que o tavirense era um grande corredor. Nunca ganhou a nossa Volta, embora tivesse obtido três segundos lugares. Fazia parte de uma equipa mítica do ciclismo nacional, o Ginásio de Tavira. Quem quiser saber um pouco mais de Jorge Corvo poder consultar aqui.
Este vídeo pertence a uma apresentação de Os Conchas (José Manuel Aguiar de Concha e Fernando Gaspar) na RTP, em 1960. O Rock'n' Roll estava no auge da sua popularidade nos EUA e as novas gerações europeias ansiavam pela americanização, vista talvez como uma certa libertação dos constrangimentos que a velha Europa impunha. Portugal, apesar da ditadura do Prof. Salazar, não ficou imune. Os Conchas são uma prova disso. A capa apresentada não corresponde às canções do vídeo. Pertence ao primeiro EP gravado pelo duo, mas um EP partilhado com Daniel Bacelar. Duas canções para Os Conchas, duas para Daniel Bacelar. Era equitativo e o vinil estava caro.
Esta notícia e mais esta mostram que a organização separatista basca ETA continua bem viva. Espanha já tentou tudo, desde a repressão franquista, ao olho por olho e dente por dente do tempo de González, à repressão democrática com Aznar e ao diálogo com Zapatero, mas os resultados são pura e simplesmente nulos. Há problemas que são insolúveis e a ETA parece ser um deles. Se o Estado espanhol quisesse correr riscos talvez houvesse uma possibilidade de deslegitimar completamente a ETA. Se permitisse um referendo sobre o País Basco, um referendo não nacional mais autonómico, talvez a ETA perdesse e ficasse deslegitimada aos olhos das novas gerações. Isso é, porém, um risco. Em primeiro lugar, porque nada garante que uma derrota da ETA nas urnas a levasse a depor definitivamente as armas e os atentados terroristas. Em segundo lugar, poderia acontecer uma coisa paradoxal: o País Basco votar pela continuação na coroa espanhola e outras autonomias exigirem o referendo mas com resultado diverso. A ETA está para Espanha como o Médio-Oriente para o mundo. São problemas insolúveis.
Não há nada melhor, para um blogger veraneante, do que as efemérides. Sempre dão motivo para que se blogue qualquer coisa. Hermann Hess morreu faz hoje precisamente quarenta e sete anos, eis a efeméride. É um autor que a morte não apagou. Os seus livros continuam a traduzir-se e a vender. O que terei lido dele? Tanto quanto recordo, li o inevitável Siddhartha, Narciso e Goldmundo, Ele e o Outro, Lobo das Estepes e Jogo das Contas de Vidro. Todos estas obras deram-me prazer ao lê-las e talvez tenham contribuído para um certo auto-conhecimento. Essa é uma das funções fundamentais da literatura, possibilitar ao leitor o reconhecimento de si mesmo. Mas é também com HermannHesse que faço uma outra experiência fundamental da literatura: o do limite da obra. Quando tentei uma releitura de obras como o Lobo das Estepes ou Jogo das Contas de Vidro, obras de que tinha gostado particularmente, não o consegui fazer. As obras tinham-se tornado, para mim, desadequadas, como se a experiência ontológica que elas permitem estivesse há muito ultrapassada. Isso manifestava-se em cada linha do texto, em cada imagem apresentada. Esta experiência não se deve confundir com uma outra corrente em literatura, a experiência da datação da obra. Certas obras fazem sentido na sua época, mas não contêm em si um princípio de universalidade e tornam-se, passado algum tempo, ilegíveis. Esta é uma experiência mais de carácter social e tem uma dimensão quase objectiva. A outra experiência é subjectiva, não depende das metamorfoses sociais, mas das transformações pelas quais passa o sujeito que lê.
A pátria, in illo tempore, tinha uma alma oculta, uma alma que não podia manifestar-se na Rádio e na Televisão portuguesas, mas manifestava-se, por exemplo, na televisão francesa. Era uma alma recalcada. A voz de Luís Cília - não é uma grande voz, mas é uma voz de que gosto bastante pelo seu timbre nostálgico - era uma das vozes dessa alma abscôndita, que atravessava o país pelo silêncio da noite. Aqui canta uma canção contra a guerra colonial. O original em disco é de 1964 e a gravação que se apresenta, em condições não muito boas, é de 1966. Pelo que se percebe da imagem da capa, no canto superior direito, o disco foi editado pela célebre editora discográfica de gaucheLe Chant du Monde.
Eis um dos grandes ciclistas portugueses dos anos sessenta, João Roque. Ganhou a Volta a Portugal em bicicleta em 1963, e era sempre um dos grandes candidatos à vitória final na Volta. À escala nacional, era um dos grandes contra-relogistas. Tenho a memória, talvez incorrecta, de ter sido João Roque quem descobriu o super Joaquim Agostinho. Pelo menos eram ambos do concelho de Torres Vedras. Pode-se ver mais informação sobre João Roque aqui.
Mais uma história mal contada. A não recondução do Professor João Lobo Antunes para o Conselho de Bioética mostra a natureza do governo de Sócrates. A atitude é de tal maneira descabida que a deputada socialista Maria de Belém Roseira admite que, se soubesse que o governo não reconduziria Lobo Antunes, ela própria o proporia. Não é apenas a afronta ao Presidente da República que está em causa. O pior é que este governo parece não tolerar ninguém que tenha alguma estatura moral, que se tenha distinguido pela qualidade do seu trabalho. O gesto é político, mas a sua leitura deve ser mais ampla. Ele é sintoma da ânsia da actual direcção socialista em destruir tudo o que não seja meramente rasteiro. No fundo, é a tal inveja de que falou José Gil.
Joaquim Leão é um dos nomes mais antigos do ciclismo nacional, de que me recordo em actividade. Ciclista do Futebol Clube do Porto, ganhou a volta de 1964, tinha apenas 21 anos. Nas voltas posteriores, era sempre apontado no lote dos favoritos, mas nunca mais retornou ao primeiro lugar da nossa Volta. No Paixão pelo Porto pode ver-se aqui e aqui mais algumas referências sobre um dos grandes nomes do ciclismo português da década de sessenta.
Palavra de honra que tinha programado, lá mais para a frente, este post sobre o Raul Solnado. Mas tendo ele morrido hoje, antecipei-o. Quantas vezes terá passado esta historieta humorística na rádio portuguesa de illo tempore? Bem, não é música, mas é como se fosse. É o humor que era permitido. Raul Solnado, porém, não é um homem do antigo regime, aliás como muitos outras figuras que passam pelo Alma Pátria. Pelo contrário, ele é uma das faces da democracia portuguesa. E acima de tudo, Raul Solnado era uma pessoa de bem. Isso é o mais importante.
Passam hoje 300 anos da experiência com aeróstatos de Bartolomeu de Gusmão. Segundo Rómulo de Carvalho, poder-se-ia atribuir a Bartolomeu de Gusmão a invenção desses objectos. Talvez os chineses não concordem com a perspectiva. Seja como for, mesmo que este desenho produzido pelo próprio Gusmão pouco tenha a ver com o aeróstato real de há 300 anos, estamos perante uma belíssima estampa da época. O texto de Rómulo de Carvalho, no De Rerum Natura, explica o desenho, a forma como apareceu e a razão da sua publicação na Áustria. Explica também outras coisas.
Escarnecido, abandonado, sofrer mil vezes no tempo. Nada ter, nada poder, nada ser, eis o meu esplendor. (Angelus Silesius, Cherubinisher Wandersmann, II, 244)