07/08/09

Alma Pátria - 19: Conjunto António Mafra - Sete e pico

Conjunto António Mafra - Sete e Pico

Não consegui determinar a data da primeira edição desta cantiga do Conjunto António Mafra. Um tom brejeiro e uma certa crítica dos costumes não afastaram este grupo das emissões da Rádio portuguesa. Este é um outro lado da Alma Pátria, o qual vai ganhar desenvolvimento em canções de teor brejeiro, ainda mais ao gosto popular, depois do 25 de Abril de 1974. Para dizer a verdade, não faço a mínima ideia do que hei-de dizer sobre este símbolo vindo do nosso passado.

Volta a Portugal - algumas memórias II

Antoine Houbrechts

Nos últimos dez anos, apenas dois portugueses ganharam a Volta a Portugal em bicicleta (Vítor Gamito e Nuno Ribeiro). Esta tendência é, porém, relativamente recente. Até 1974 sódois estrangeiros tinham ganho a Volta. Em 1973, o espanhol Jesus Manzaneque (Caves Messias). O primeiro estrangeiro a vencer a nossa Volta, a trigésima, foi o belga Antoine Houbrechts, no ano de 1967. Corria na altura pela Flandria, uma equipa também belga. Esta foto pertence a Houbrechts mas a correr numa outra equipa. Tanto quanto me lembro, a Flandria equipava de camisola vermelha com uma risca branca ao centro.

06/08/09

Alma Pátria - 18: Paulo de Carvalho - Corre Nina

Paulo de Carvalho - Corre Nina

Retornamos ao Festival RTP da canção, agora à edição de 1970. Paulo de Carvalho interpreta Corre Nina. Já não estamos perante o tipo de canção que marcou o país na década anterior. Parece aberto o caminho para uma nova geração já não de cançonetistas mas de cantores. A canção em causa, apesar disso, é francamente desinteressante e pouco adequada à voz do intérprete. Aliás, Paulo de Carvalho é para mim um mistério. Uma das vozes mais interessantes da música portuguesa, mas que falhou uma grande carreira. Não é que não tenha tido êxitos, mas nunca teve uma continuidade no tipo de música que fez.

O Averomundo a banhos


A culpa é dela, da minha neta Vera. Até vou à praia e há já quase duas semanas. De manhã cedo, levantamo-nos e por volta das nove hora lá vai tudo para a praia, com balde e todos os acessórios para a Verinha mexer na areia e na água. Estou reconciliado com a praia, desde que não se passe das onze horas e não se abuse do sol. Portanto, durante Agosto o averomundo é um blogue veraneante. Como o país, ele está a banhos e a bolas de Berlim, fresquinhas. A Vera terá mais atenção do que as postagens.

Volta a Portugal - algumas memórias I

Peixoto Alves
Peixoto Alves é o primeiro ciclista do Benfica de que me lembro ter ganho uma Volta a Portugal, no ano de 1965, ainda eu não tinha feito 9 anos. Isso quer dizer que, nos anos anteriores, o Benfica não ganhara qualquer Volta a Portugal. Desde 1959 que os vencedores eram corredores do Futebol Clube do Porto (Carlos Carvalho, Sousa Cardoso, Mário Silva, José Pacheco e Joaquim Leão, cf. aqui), com a excepção do ano de 1963 em que triunfou o sportinguista João Roque. De todos os ciclistas mencionados, o único de que não tenho memória certa é do portista Carlos Carvalho. Os outros lembro-me bem de eles correrem, o que não quer dizer que me lembre de eles terem ganho a Volta. O primeiro vencedor de que tenho memória é mesmo Peixoto Alves, não fosse ele do Benfica. Julgo que no ano seguinte já não correu, pois emigrara para França.

05/08/09

Alma Pátria - 17: João Maria Tudella - Kanimambo


João Maria Tudella - Kanimambo

Um novo retrato de Portugal do anos cinquenta e sessenta. João Maria Tudella nasce em Moçambique e é um cantor de síntese entre a cultura social vigente no Portugal metropolitano e a cultura dos portugueses presentes na então colónia portuguesa. Muitas das suas canções têm por tema Moçambique, as suas cidades e regiões. Kanimambo é o primeiro grande êxito do cantor, um êxito de 1959, mas que passou assiduamente na rádio durante muitos e muitos anos. Apresenta-se a capa do EP (45 rpm) com a montagem de uma foto posterior, do tempo dos festivais RTP da canção. Não faço ideia se a edição do disco tinha uma capa rígida de cartão e aquilo que vemos é apenas uma espécie de subcapa que quase todos os discos tinham.

71.ª Volta a Portugal em Bicicleta

Joaquim Agostinho
Começa hoje a Volta a Portugal em bicicleta. Embora já não me interesse pelo fenómeno, guardo sempre uma recordação grata do ciclismo. Como já disse uma vez, nos anos sessenta e setenta a Volta a Portugal era uma espécie de continuação, em bicicleta, do campeonato de futebol. Para isso contribuía a presença dos três grandes do futebol no ciclismo. Hoje já praticamente não há clubes na Volta, apenas marcas, mas ainda assim subsistem o Boavista, o Louletano e o Tavira, mas julgo que este Tavira não é o velho Ginásio de Tavira. De vez em quando, o Benfica tem uma crise hormonal e lá se lembra de compor uma equipa de ciclismo, como tributo à roda de bicicleta do seu emblema. Mas a coisa passa rápido, considerando o preço da aventura e da nostalgia. Daqui a pouco começa, então, a nossa pequena Volta, uma voltinha à nossa dimensão.

04/08/09

Pacheco Pereira em Santarém

Pacheco Pereira é o cabeça de lista do PSD pelo meu círculo eleitoral, o de Santarém. Do meu ponto de vista, o parlamento vai ficar mais rico com a presença de PP. No entanto, a figura do candidato está longe de ser, do ponto de vista eleitoral, interessante. Tem contra si o facto de não estar ligado ao distrito de Santarém, de surgir de supetão numa região que não conhece, ou conhece mal (por acaso já o vi há dias num conhecido restaurante do concelho de Alcanena, mas talvez estivesse só a passear). Também não lhe é favorável o facto de ser um intelectual e de tentar pensar pela própria cabeça. Como se sabe, não há partido algum que goste de gente que pense pela sua cabeça, mas regra geral os partidos gostam de ter uns intelectuais para mostrar ao povo e o povo desses partidos sente-se confortado. Mas as bases do PSD são uma emanação de um certo espírito anti-intelectual que grassou durante séculos no país, e o PSD não é um partido que goste de intelectuais, não lhe está no sangue. Duvido que os confrades laranjas do distrito de Santarém engulam a pílula. O presidente da distrital, Vasco Cunha, já ameaçou apresentar a demissão. Veremos se após as constituição das listas de candidatos, Manuela Ferreira Leite ainda tem soldados no terreno.

Alma Pátria - 16: José Viana - Fado do Cacilheiro


José Viana - Fado do Cacilheiro

José Viana não era propriamente falando um fadista. Fundamentalmente, foi um homem de teatro, de um teatro que terminou quando o regime salazarista se finou, o teatro de Revista. Este fado é uma das imagens de marca desse teatro e o principal título de glória do artista. O teatro de revista, uma manifestação eminentemente lisboeta, era uma espécie de oposição tolerada ao regime, apesar da censura feroz que se abatia sobre os gracejos mais ou menos brejeiros que os números de revista tinham. As piadas políticas, não passavam disso, eram indirectas, leves alusões que o público compreendia e das quais ria. Mas só rimos daquilo que toleramos e o regime sabia disso. Se permitia algumas gargalhadas sobre a sua idiossincrasia, era porque isso não o punha em causa, pelo contrário, servia como escape das tensões ocultas que atravessavam a sociedade. Por muito que isto possa chocar as leituras do teatro de revista como forma de oposição ao salazarismo, a verdade é que ele se inseria no Zeitgeist e o reforçava. Não resistiu à democracia.

Anda mal

Anda mal a dr.ª Ferreira Leite. Não é só o não ter sabido aproveitar a vantagem que as últimas eleições europeus lhe deram, mas também por causa das listas de deputados. Se é meritório querer alguma renovação, o mérito só será confirmado pela qualidade dos novos candidatos. Mas mal mesmo é querer introduzir na lista de Lisboa dois candidatos a braços com a Justiça. Há qualquer coisa que me escapa na raciocínio dos dirigentes políticos. Depois da condenação de um antigo dirigente, governante e autarca modelo do PSD, depois da conexão cada vez mais visível entre o BPN e antigas figuras gradas do PSD, não se percebe esta insistência. O capital de seriedade que a pessoa de Manuela Ferreira Leite representa esvai-se com a apresentação destas pessoas, por mais que se presuma, como se presume, a sua inocência. Grandeza teve-a Luís Marques Mendes, mas era excessiva para o PSD e para o país.

03/08/09

Alma Pátria - 15: Hermínia Silva - Fado da Sina

Hermínia Silva - Fado da Sina

Este Fado da sina pertence, segundo julgo, à banda sonora do filme Um Homem do Ribatejo, de Henrique Campos (1946). Interpretado por um dos nomes grandes do fado e da rádio portuguesa, Hermínia Silva, é também ele um repositório do topos ideológico que percorria Portugal nos anos quarenta. É evidente que esse topos não tem a sua origem nessa época. É provável que possa ter origem nas correntes políticas e sociais derrotadas pelo liberalismo e que tiveram em D. Miguel o seu representante. A sua permanência num Portugal rural só desapareceu com o fim desse mundo, nos anos noventa do século passado e a europeização da vida social portuguesa.

Vox populi, vox Dei

Curioso não é o facto de um antigo ministro ter sido condenado, em primeira instância e enquanto autarca (uma classe menor e mais atreita a confrontos com a Justiça entre a elite política), refira-se, a sete anos de prisão efectiva, embora se possa dizer que é um caso inusitado. Curioso é ler, no Público, a vox populi na caixa de comentários à notícia. É sempre edificante meditar estes comentários, lição segura do sentimento social que percorre a pátria. E como todos sabemos vox populi, vox Dei.

M. S. Lourenço - Ideologia igualitarista

Na minha experiência, um aluno que incorreu num disparate representou sempre para mim uma oportunidade de crescimento e não uma perda. Um aluno aprende ao ser-lhe mostrado o erro: a sua concentração aumenta, a sua atenção tem um foco e, em geral, erros que são corrigidos a tempo não são repetidos.

Estou a pressupor um caso padrão, de um aluno com uma inteligência média ou acima da média. Infelizmente, tive alguns alunos com uma inteligência abaixo da média, para os quais a situação de erro era tida como uma situação de pânico. Estes alunos são vítimas da ideologia igualitarista, segundo o qual todas as pessoas são igualmente inteligentes e tornam-se às vezes agressivos contra a disciplina quando descobrem que são menos inteligentes do que alguns dos seus colegas. Tentei travar a agressividade procurando mostrar que não é a disciplina que está errada mas antes a ideologia igualitarista. É do ponto de vista psicológico no entanto interessante constatar que algumas daquelas pessoas, que viveram na pele o erro da ideologia igualitarista, não a consideram por isso refutada e continuam a insurgir-se contra a disciplina.
[Pedro Tamen (2007). Uma entrevista a M. S. Lourenço]

M. S. Lourenço - O sentido da vida

Para voltar ao problema de base, a questão a colocar é a seguinte: Qual é a ideia de Brouwer que eu adoptei e fiz dela um factor de orientação para a minha vida?

A ideia básica é que neste momento da história da humanidade já se atingiu um estádio de hipertrofia de interacção social. Não se deve por isso colaborar numa expansão desta hipertrofia, a qual se destina a legitimar os objectivos triviais da civilização de massas. Deve-se por isso renunciar a posições de leadership na já descontrolada hipertrofia da civilização de massas, exercendo a mencionada abstinência de participação em cliques ou lobbies, quaisquer que eles sejam.

Sigo assim Spengler, Brouwer e Wittgenstein na convicção de que o nível de entropia na cultura actual, e o seu consequente processo de desintegração, é neste momento irreversível e que a explosão demográfica, a sobreprodução industrial e científica e a exploração criminosa da natureza atingiram as próprias condições físicas da sobrevivência no planeta. Assim a humanidade, depois da sua morte espiritual pelas mãos da indústria da cultura, terá a sua morte física pela impossibilidade de viver no planeta, e por isso a sua escatologia vai ser em tudo igual à de uma colónia de bactérias que desaparece da face da terra depois de cumprir um limitado ciclo de vida
. [Miguel Tamen (2007). Uma entrevista a M. S. Lourenço]

02/08/09

M. S. Lourenço

Acabo de ler no A Origem das Espécies uma nota sobre a morte de M. S. Lourenço, ocorrida ontem. Era um intelectual notável, poeta e filósofo. Fui seu aluno, em Lógica, nos anos oitenta, precisamente no ano em que retornou definitivamente a Portugal. Foi o grande patriarca da filosofia analítica em Portugal. A sua presença, aparentemente discreta no panorama cultural e filosófico português, é muito maior do que se pode imaginar, nomeadamente ao nível da Filosofia. Pode-se consultar a nota do Público, a referência da Wikippedia e a página pessoal de Manuel Lourenço dedicada à Filosofia da Matemática.

O amor pela rua

Reconheço ao dr. Louçã e aos seus confrades do Bloco de Esquerda talento. Conseguiram pegar em duas organizações esquerdistas antagónicas (trotskystas e estalinistas) mais uma composta por transfugas do PCP e cozinhar tudo num novo partido de esquerda com ar moderno. O dr. Louçã é bom analista do mercado político. Percebeu onde podia encontrar um nicho de mercado e tem-no explorado com eficiência. Os empresários portugueses , caso não fossem tão preconceituosos, muito teriam a aprender com ele. É evidente que os sinais de modernidade são postiços e, mal chegam as eleições, lá lhe foge o pé para a chinela. Segundo a Lusa, Francisco Louçã, defendeu hoje que o seu partido vai levar a cabo "uma campanha que atravessa as ruas do país", de forma a auscultar directamente a população. O populismo adora a rua e a esquerda que não deixa de sonhar com revoluções, mesmo que seja lá bem no inconsciente, baba-se com desfiles e bandeiras pelas ruas. Um país civilizado não teria campanha de rua. Seríamos poupados aos apertos de mão, abraços e beijos que as elites políticas resolvem distribuir de eleição em eleição pela plebe democrática, para parecerem populares. Ora, o que povo sonha mesmo não é que as elites sejam populares, mas o contrário, que os populares passem a fazer parte das elites. Coisa impossível fora da escandinávia, como se sabe. Era bom que os Louçãs dos vários partidos, quase todos os chefes políticos gostam da rua, se civilizassem e nos poupassem às suas auscultações.

Alma Pátria - 14: António Calvário - Oração

António Calvário - Oração

Música: João Nobre. Letra: Francisco Nicholson e Rogério Bracinha. Intérprete: António Calvário. Decididamente, o Alma Pátria teria de entrar alguma vez no Festival TV da Canção, o grande momento anual da música ligeira portuguesa, nos anos sessenta e princípio de setenta. As famílias juntavam-se para ver o Festival e, com as grelhas fornecidas pelos diários, seguiam o escrutínio até se apurar o vencedor. Oração é a primeira canção vencedora de um Festival, em 1964. António Calvário representou Portugal no Festival da Eurovisão e recebeu a excepcional pontuação de zero pontos. Enfim, um conspiração do cosmopolitismo europeu contra o nacional-cançonetismo. Seja como for, peço o favor de escutarem bem a canção. A atenção não deve ser apenas focada na música. A letra é mais uma lição de sociologia pátria. Aliás, o Festival TV da canção até ao 25 de Abril de 1974, bem como a sua relação com o público, seria matéria relevante para interessantes análises da nossa portugalidade.

Compra e venda de teses

O Expresso de ontem trazia, nas páginas 14 e 15 do primeiro caderno, um artigo intitulado Teses à venda na Net por 1500 euros. Depois descreve todo o negócio que gira em torno da produção de trabalhos, dissertações e teses. Alunos incapazes ou preguiçosos recorrem a terceiros para produzir os seus trabalhos académicos. Parece que o sucesso é acentuado. Segundo o penalista Costa Andrade, estas práticas não são crimes, apenas fraudes académicas. O mercado é grande e a concorrência entre os empresários de teses começa a fazer-se sentir. Tudo isto é absolutamente vergonhoso e deplorável e mostra aquilo que nós, portugueses, somos. Veja-se o que diz, segundo o Expresso, uma dessas empresárias: "Uma vez um professor viu o nosso anúncio na Net e ligou-me, fazendo-se passar por um aluno para ver se vendíamos mesmo os trabalhos prontos. No fim identificou-se e disse que o que fazíamos não era ético e estava muito errado. O senhor devia ser de outro planeta porque isto é do mais comum que há". Está aqui tudo. Está aqui a razão pela qual somos um povo quase miserável. Uma parte não quer trabalhar e paga para que lhe façam os trabalhos e aqueles que têm iniciativa preferem este tipo de acção imoral a lançar-se em qualquer coisa que crie riqueza efectiva. O ensino em Portugal desde o ensino básico às pós-graduações é, cada vez mais, uma fraude. Uma fraude académica, note-se.

O messias

Será este Jesus o verdadeiro salvador?

01/08/09

Liberdade de expressão

O regime venezuelano encerrou trinta e duas rádios e duas televisões críticas do regime. Como acontece quase sempre nestas coisas, a justificação dada nunca é a que realmente desencadeia o acto, mas qualquer coisa ligada à lei e ao direito. Mas não há nada como ouvir o director da Comissão Nacional de Telecomunicações da Venezuela para perceber as verdadeiras razões: "não é a liberdade de expressão a liberdade mais sagrada que pode existir". Estamos conversados, se preciso fosse acrescentar mais alguma coisa ao que já sabemos, sobre a natureza do regime de Chávez.