14/07/09

Trabalhos de feitiçaria

Por causa deste senhor e da senhora que superintende a educação chegou ao que chegou. Um dos aspectos mais graves é a contínua politização, entendida aqui como luta político-partidária, dos resultados dos exames nacionais. Aquilo que deveria ser motivo de reflexão serena e um indicador socialmente útil transformou-se, devido a certas feitiçarias dos nossos feiticeiros-mores, num espaço estéril de polémica e numa telenovela ao nível daquelas que a Justiça proporciona para gáudio da comunicação social e de nós, pobres indígenas, que não temos nada com que nos entreter. Ontem saíram os resultados dos exames do 9.º ano e logo a maga chefe veio anunciar que o país se deveria congratular com tais resultados, talvez organizar umas festas dos santos populares tão ao gosto das comunidades educativas, digo eu. Já a Associação de Professores de Português exige que o Ministério da Educação, isto é, a Confraria Nacional de Mágicos e Feiticeiros, explique a queda dos resultados, os quais apesar de caírem ainda merecem que o país se congratule com eles, segundo a Maga-Chefe. Portanto, os professores de português que se preparem. Se o PS ganhar as eleições com maioria absoluta lá vão apanhar com mais um daqueles extraordinários planos de salvação, como o que impera na Matemática. A educação tornou-se o refúgio dos amantes do plano. Todos os que adoravam os planos quinquenais soviéticos ou os planos de fomento do Estado Novo Salazarista encontraram um ninho e um nicho para aplicarem as suas inovadoras ideias sobre planeamento e planificação, em última análise ideias que conduzem à terraplanagem do saber e ao achatamento e à rasura do que deveria ser elevado.

O amor pela esquerda

Por causa da candidatura do dr. Costa à Câmara de Lisboa e do não entendimento do PS com o PCP e o BE, Sócrates vem lembrar que nunca houve vitórias da esquerda com o enfraquecimento do PS. Até pode ser verdade, mas como pode estar tão preocupado com a esquerda um homem que, durante todo uma legislatura, não tomou uma medida de esquerda, salvo aquelas que fazem parte do folclore fracturante e mesmo essas só quando ainda pensava que era mais forte do que Cavaco Silva? Ouvir Sócrates falar de esquerda, mesmo a mim que, sendo de esquerda, sou-o de uma forma particularmente moderada, dá vontade de rir. O PSD de MFL teria governado mais à esquerda do que o PS de Sócrates e, porventura, ter-se-ia exibido menos ao lados dos poderosos do dinheiro. Teria mais pudor e a séria vigilância do PS, que na oposição é um feroz cavaleiro defensor dos pobres e oprimidos, embora no governo seja um agente eficaz da produção da pobreza e da opressão. O eng.º Sócrates devia, assim, fazer um favor a todos os portugueses não usando a palavra esquerda, se não toda a gente desata a rir, até o pessoal de direita. Se Sócrates quer fazer um favor à esquerda, então que se demita de Secretário-Geral do PS e leve com ele toda aquela gente que pulula na sua direcção.

13/07/09

Marguerite Duras - India Song 2

Não, o filme de Marguerite Duras, India Song, não envelheceu. Os trinta e quatro anos que passaram não lhe trouxeram rugas nem cabelos brancos. É tão verosímil, ou inverosímil, hoje como o deve ter sido em 1975. A questão que se pode colocar é se aquele objecto é, de facto, um objecto pertencente à categoria “cinema”.

Marguerite Duras diz: “Como eu tenho uma espécie de desgosto em relação ao cinema que tem sido feito, enfim, da maior parte do cinema que tem sido feito, eu queria retomar o cinema do zero, numa gramática bem primitiva… bem simples, bem primária: recomeçar tudo”.

Em India Song as vozes estão deslocadas dos corpos. Os corpos pairam em cenários difusos, são transformados em fantasmas. Os fantasmas aparecem mas não falam. A palavra, seja diálogo ou narrativa, é exterior, uma espécie de comentário à dança corporal que as imagens exibem. Aqui há a conexão com o cinema primitivo, o cinema mudo onde as imagens são acompanhadas ou comentadas por uma música exterior. No filme de Duras, é a própria palavra que é exterior. Na tradição grega, a grandeza do herói reside tanto nas grandes acções como nas grandes palavras, prática e teoria conjugavam-se para tornar memorável, e por isso imortal, um homem.

O cinema, porém, é um produto moderno e a modernidade vive da separação, do cisma entre teoria e prática [em Descartes é tão luminoso o cisma que o filósofo se vê obrigado a adoptar uma moral (princípios práticos) provisória]. A verdadeira essência do cinema é essa separação entre o agir e o falar, por isso o cinema verdadeiro é o cinema mudo, onde apenas existe a mobilização dos agentes para e na acção. Percebemos assim uma estranha conexão entre o agir moderno e o agente fantasmático, como se toda a natureza do homem moderno fosse a de um fantasma, cuja imagem aparece, é literalmente aparição, mas não tem voz.

Mas não é a modernidade o “lugar” onde todos têm voz, onde todos acedem ao espaço público? Onde todos têm voz, já ninguém tem voz. A voz é um princípio aristocrático e não democrático. Mas na modernidade, essa modernidade cuja essência se revela numa arte mecânica como o cinema (que “estranhas” relações se podem estabelecer entre a mecânica e a cinemática), não se disseram e não se dizem coisas interessantes? Sim, mas Duras mostra no filme, de uma forma cruel, o alcance do dizer moderno: puro comentário. A voz na modernidade é comentário, sobreposição nascida da separação, voz que vem do além. Na modernidade não há heróis, pois às grandes acções não correspondem grandes palavras.

India Song é uma história de amor. Não. É um comentário narrativo a uma história de amor. Melhor, é um exercício cinematográfico que tenta conjugar o que não tem conjugação: a história e o amor. Não há histórias de amor. Onde penetrou a história morreu o amor. O filme de Duras fala-nos de tudo isso: da separação entre palavra e corpo agente, entre história e amor, entre modernidade e pré-modernidade (a Índia, o Ganges, os leprosos, tudo isso que já não vemos, apenas suspeitamos), fala-nos essencialmente da mortalidade a que estão confinados, por terem perdido a voz, os que cometem grandes acções.

12/07/09

Marguerite Duras - India Song

Este fim-de-semana o averomundo tem feito gazeta. Bem podia, agora, sentar-me e escrever um ou dois postais para dar vida a este sítio. Mas vou antes lá para dentro ver isto. Não vi na devida altura, em 1975 ou 1976. Comprei-o há dias. Temo, porém, que o filme tenha envelhecido de tal maneira que hoje já não faça sentido. Como muitos dos que têm formação em Filosofia, habituei-me a não dar importância às datas de edição e publicação dos objectos culturais. Platão ou Aristóteles são tão actuais hoje como no tempo deles. Mas esta actualidade acrónica de certos objectos culturais só funciona mesmo com aqueles que são universais. Verei daqui a duas horas se o filme de Duras se aguenta com mais de 30 anos em cima.

10/07/09

Metamorfoses LIV

Morton Feldman – Instruments

nada trago no súbito coração
as ervas foram cortadas
e da ceifa não restou sombra
ou voz delicada e breve
que pudesse dizer teu nome

o mundo é uma colecção de ruínas
pequenas conchas partidas
sobre canaviais incendiados
e barcos pelo mar à deriva

tenho tudo isso nesta fotografia

guardo-a para os dias felizes
quando o coração se ilumina
e só sombras crescem
na viagem em que desfaleço

Argumentos de autoridade

Por que razão será tudo tão mau em Portugal? Como é notório, sou um leitor atento e interessado no que escreve Vasco Pulido Valente. Mas a crónica de hoje no Público (sem link) é um exemplo da nulidade da opinião. Esta nulidade nem vem da matéria em questão, mas da forma como é apresentada. Trata da direita em Portugal e do mérito do CDS. O artigo apresenta quatro razões para o facto de a direita, neste caso o CDS, ser relativamente fraca em Portugal (1.ª - a falta de legitimidade democrática dos seus fundadores; 2.ª O não ter entrado nos governos provisórios pós-25 de Abril; 3.ª A passividade e o oportunismo que a ditadura incutiu na direita; 4.ª O carácter miserável e inigualitário do país ser adverso à direita. Até aqui tudo, apesar de discutível, é compreensível. O que é incompreensível é o corolário final. Cito: "Só que os tempos mudam e o CDS merece crescer. Esperemos que Paulo Portas consiga o improvável." VPV não apresenta um único argumento em que fundamente esta conclusão final. Explica a falta de mérito originário do CDS, mas não mais do que isso. Relativamente ao suposto mérito do CDS, apenas fornece um hipotético argumento: os tempos mudam. O facto de os tempos mudarem não justifica nada, nem o merecimento do CDS crescer nem o seu contrário. Isto não é sério. É apenas a expressão de um desejo, o que é uma característica do género literário a que chamamos "opinião". No entanto, faz parte da retórica desse género a apresentação de razões que justifiquem os nossos desejos apresentados como teses razoáveis. E VPV não o faz. A sua tese funda-se apenas na autoridade que ele próprio representa, portanto uma falácia. Isto não respeita os leitores.

Uma epifania

Há notícias que são uma epifania. Epifania não de um deus, mas da nossa natureza eternamente 'tuga'. Esta história mostra que há alguma coisa que em nós, portugueses, não funciona. Não é apenas a necessidade de durante anos e anos se torturar os outros sem qualquer razão ou sentido, mas o julgar-se acima da lei e das disposições que regem a vida em comum. Não é só no caso dos vizinhos ruidosos, é em todo o lado da vida social, nomeadamente no comportamento que se tem ao volante de um automóvel. De facto, existe uma subcultura que acha que tem o direito de partilhar dos benefícios da vida em comum, mas que julga não ter qualquer tipo de deveres para com esse viver em comum. Estes comportamentos, contudo, são apoiados numa justiça tão lenta que os prevaricadores se acham omnipotentes. Como é possível que um processo sobre um conflito com a vizinhança por causa do ruído nocturno demore quase oito anos a estar definitivamente resolvido?

Novas Oportunidades em avaliação

Há muito que não dou qualquer crédito, em termos educacionais ou políticos, ao Engenheiro Roberto Carneiro. A sua imensa obra, infelizmente ela é imensa, na área da educação teve um efeito político maléfico, e é o menos que se poderá dizer, sobre o sistema educativo nacional. O facto de ter aceite o papel de avaliador-mor das Novas Oportunidades não reforçou o prestígio nem dele nem dessa invenção saída das mentes brilhantes que conduzem a propaganda socialista. Ora, perante a evidência de as Novas Oportunidades terem pouco impacto no mercado de trabalho, o que diz a avaliação dirigida por Roberto Carneiro? Leia-se isto: "Contudo, para os autores, os ganhos na auto-estima dos participantes é um dos efeitos que mais compensaram e que poderão mudar as empresas."

As Novas Oportunidades são assim uma espécie de psicanálise para os pobres. Não tornam as pessoas mais eficientes e mais preparadas, mas resolvem os traumas de infância, as frustrações sociais, algum complexo de édipo não desfeito. Não havendo evidências sobre a repercussão de tão extravagante programa no mundo do trabalho, para onde ele supostamente se dirigiria, os avaliadores externos especulam sobre a relação entre os ganhos na auto-estima e a futura mudança das empresas. O nível da avaliação roça então a leitura do voo das aves, das entranhas dos pássaros, ou das cartas do Tarot.

Mas o "estudo" não poderia deixar de tocar os sistemas tradicionais de ensino e sobre eles verter o já tradicional fel que infesta as mentes sócio-eduquesas. "80 por cento dos que completarem o programa consideram que o ensino é igual ou melhor que o regular."

Seria interessante saber o percurso escolar desses 80% no ensino regular, bem como a sua atitude em sala de aula e perante o trabalho que a escola regular exigia. Que validade tem esta apreciação feita por pessoas que não frequentaram o ensino regular ou que tiveram insucesso nele? A avaliação que permite respostas destas também faz parte do programa de elevação da auto-estima? O que pretende a equipa do Engenheiro Carneiro? Propor a transformação do ensino regular em cursos das Novas Oportunidades?

É pena que o Engenheiro Roberto Carneiro tenha perdido uma nova oportunidade para estar calado e não fazer mais mal do que já fez ao sistema educativo nacional. É pena...

Justiça e Preconceito

O que diríamos da Justiça Portuguesa se o caso Nicolas Bento se tivesse passado em Portugal? Talvez por se tratar de um emigrante, ainda por cima com um estranho nome, Amilton Nicolas Bento, talvez por cansaço com casos mediáticos na Justiça, talvez por o processo ter decorrido na sagrada e intocável Albion, a sua condenação a prisão perpétua não indignou muitos dos habituais indignados de serviço. E no entanto, se olharmos para aquilo que os jornais dizem, muitas dúvidas se levantam relativamente à bondade e à qualidade da Justiça britânica. O mínimo que se pode dizer é que deveria ter funcionado, desde o início, o velho princípio in dubio pro reo. Mas isso seria o mínimo, como o veio a reconhecer a própria Justiça inglesa. A pergunta que apetece fazer é então a seguinte: quanto terá pesado, no processo original, o preconceito contra o estrangeiro imigrado? Esta pergunta é legitimada pela simples constatação de a condenação estar fundada em "provas" tão frágeis como aqueles que ditaram, em primeira instância, a sorte de Nicolas Bento. O que levanta, mais uma vez, o problema da preparação dos agentes judiciais. O velho filósofo francês, Gaston Bachelard, recomendava que todos os cientistas deveriam fazer uma espécie de psicanálise antes de iniciarem o trabalho de investigação, para depurarem as suas teorias de preconceitos produtores de erro. Se isso é pertinente para o caso da ciência, o que dizer no caso da Justiça? É que esta para ser justa necessita de se fundar na verdade dos acontecimentos, e a verdade ou a falsidade do que se estabelece como facto pode ter consequências demasiado desastrosas para a vida de um ser humano.

Jornal Torrejano, 10 de Julho de 2009


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09/07/09

Metamorfoses LIII

Andrzej Panufnik – Sinfonia Votiva

ardeu a mesa onde cantaste o amor
a cinza é a deusa que resta
mais a vazia mão estendida para os varais
neles o tempo atrela a vida inteira

os jardins que foram os teus
são estranha propriedade –
exóticos senhores
cultivam frutos e flores
suspensos no delírio
que um dia te movera

nem vale a pena abrir para a desmesura
os olhos tomados pelo espanto
a história é uma herança de dissabores
e as flores da manhã sempre murcham
na infinita quietação da tarde

A gripe avança

A coisa começa a tornar-se desagradável. Nas últimas vinte e quatro horas foram confirmados mais dez caso de gripe A. A progressão da doença parece acelerar-se. A princípio, tinha a ideia de que era uma coisa longínqua e os primeiros casos por cá não passavam, havia essa sensação, de casos esporádicos. Agora a velocidade de propagação parece não parar de aumentar. Penso no romance de Albert Camus, A Peste. A cidade de Oran, une ville ordinaire et rien de plus qu'une préfecture française de la cotê algérienne, é tomada pela peste bubónica. Para proteger o mundo da epidemia, a cidade, essa cidade vulgar, é fechada. Simples. Pena é que fora da imaginação literária isso não seja possível fazer. Até os vírus gostam da globalização.

A caixa de Pandora ambiental

O grande problema das economias de mercado reside no ambiente. Este parece, até agora, um limite intransponível para a voracidade do homo faber. O modelo de vida que resulta do desenvolvimento económico das nações assenta na contínua subida do consumo, de forma a que se gere uma contínua subida da produção, o que origina riqueza e emprego, os quais produzem estabilidade social e política. Mas este aumento de produção implica o consumo sempre maior de energia. O nó górdio parece estar aqui. Ou o desenvolvimento da ciência e da tecnologia permite, em tempo útil, encontrar energias limpas e baratas (um desejo do tipo sol na eira e chuva no nabal), ou todo o modo de vida dos países ricos, emergentes e pobres terá de mudar drasticamente. É preciso compreender bem uma coisa: o consumo frenético e excessivo é o que permite às sociedades modernas e em vias de modernização subsistirem. Uma retracção da procura e uma prática generalizada da poupança seriam uma catástrofe social e política, com um desemprego incontrolável e a pauperização generalizada das populações. Por isso, pode-se perceber as reticências da China e da Índia em reduzir em 50%, até 2050, a emissão de gases com efeito de estufa. Agora que descobriram as virtualidades do capitalismo ocidental parece não estarem interessadas em partilhar os problemas que esse mesmo capitalismo traz. Aquilo que está em jogo, porém, é a possibilidade de, no futuro, ainda existir vida humana digna desse nome sobre o planeta, para falar à maneira de Hans Jonas. Nós, ocidentais, abrimos a caixa de Pandora e agora falta-nos poder para a fechar.

Os conflitos na China

Para uma primeira compreensão dos actuais conflitos na China, ler isto no Público.

Do estado de espírito ao carácter

O que distingue o PS do PSD? Sócrates esclarece: uma questão de atitude. O combate eleitoral está reduzido à escolha de um estado de espírito ou a uma inclinação psicológica. Sócrates conseguiu reduzir o velho Partido Socialista ao grau zero da política. Não é uma escolha entre projectos diferentes e alternativos, não é uma escolha entre diferentes interesses a defender, não. Segundo o secretário-geral do PS, há que escolher entre “quem tem confiança no país, vontade e ambição” e quem faz da “resignação, pessimismo e negativismo” uma “linha política”. O que Sócrates confessa, então, é que entre o PS e o PSD não há qualquer diferença, tirando o suposto estado de espírito que dá matéria à tal atitude. Mas perguntará o leitor e não haverá diferença entre o Estado social do PS e o Estado imprescindível do PSD? Tirando a formulação vocabular não haverá grande diferença. Aliás ambas as formulações são equívocas e, em última análise, idiotas. Não há Estado, seja mínimo ou máximo, que não seja social. Não há Estado que não seja imprescindível, tudo dependendo da pergunta 'imprescindível para quê?' Sócrates corre, porém, um risco. E se os eleitores em vez de quererem comparar estados de espírito, sempre passageiros e efémeros, preferirem comparar o carácter dos candidatos a primeiro-ministo, sempre mais estáveis e cristalizados?

08/07/09

Metamorfoses LII

Jorge Peixinho – Sobreposições

um sangue sonâmbulo viaja no rumor
dos teus passos e em cada sonho
sobrepõe-se à sombra da melancolia
onde ergues uma vida de cansaços

e grita esse sangue no terror da noite
chama com voz de zinco
os que te amamentaram
quando a terra ainda tinha rios de leite
e das colmeia corria doce o mel

frágil melancolia onde te sonhas
aí dependuraste as últimas bandeiras
mas o prazo chegou a coberto dos dias
e restam-te apenas mastro vazios
de onde levaram pátrias e fronteiras

A cidade de Torres Novas

Faz hoje 24 anos que a vila de Torres Novas foi elevada à categoria de cidade. Confesso que isso nunca me aqueceu nem arrefeceu, mas hoje tomei a decisão de não esquecer a efeméride. Quem quiser saber alguma coisa sobre o concelho que tem por sede Torres Novas pode ir até à página da Câmara Municipal. Pode ver que somos uma antiquíssima comunidade, muito anterior à fundação de Portugal e que está na primeira linha dessa fundação. Isso é uma coisa que deve orgulhar os torrejanos. Está inscrito na memória genética, bem como o rio Almonda, o Castelo e o foral outorgado por Sancho I, em 1 de Outubro 1190, data assinalada como a da fundação do município. O resto são coisas que vêm e vão, mas que sem essa estrutura mais arcaica são apenas risíveis.

Bento XVI- Encíclica Caritas in Veritate

A nova encíclica papal, Caritas en Veritate, é uma importante reflexão sobre a questão social e mais uma prova da profundidade intelectual de Joseph Ratzinger (quem está atento à filosofia percebe mesmo como o diálogo com pensadores ateus, por exemplo, Jürgen Habermas, se encontra plasmado na carta encíclica. De certa maneira, este documento é uma releitura, à luz da contemporaneidade, da encíclica de Paulo VI, Populorum progressio. O texto é composto, para além da Introdução e Conclusão, por seis capítulos. Os seus títulos são elucidativos do desígnio de Ratzinger. Cap. I - A MENSAGEM DA POPULORUM PROGRESSIO; Cap. II - O DESENVOLVIMENTO HUMANO NO NOSSO TEMPO; Cap. III - FRATERNIDADE,DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO E SOCIEDADE CIVIL (veja-se a análise muito pertinente sobre o mercado, a sua função, a sua importância e os seus limites. Veja-se, também, como se distingue os vários níveis de justiça e como a justiça comutativa, inerente às relações de mercado, não anula, pelo contrário, acentua a necessidade da justiça distributiva e da justiça social. Quem achava Ratzinger um fascista, ou um cripto-agente do capitalismo selvagem, deve ficar espantado com esta doutrina social bem à esquerda, mais à esquerda que o nosso engenheiro e o seu partido. Todo o capítulo é, porém, uma lição de teoria política que deve deixar os nossos pseudo-liberais de cabelos no ar.); Cap. IV - DESENVOLVIMENTO DOS POVOS, DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE; Cap. V - A COLABORAÇÃO DA FAMÍLIA HUMANA (Bento XVI escreve aqui: A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros); Cap. VI - O DESENVOLVIMENTO DOS POVOS E A TÉCNICA (aqui há uma importante reflexão sobre a questão da técnica. Escreve Ratzinger: desenvolvimento tecnológico pode induzir à ideia de auto-suficiência da própria técnica, quando o homem, interrogando-se apenas sobre o como, deixa de considerar os muitos porquês pelos quais é impelido a agir. Por isso, a técnica apresenta-se com uma fisionomia ambígua. Nascida da criatividade humana como instrumento da liberdade da pessoa, pode ser entendida como elemento de liberdade absoluta; aquela liberdade que quer prescindir dos limites que as coisas trazem consigo).

Um texto a ler aqui.

A feitiçaria do Ministério da Educação

Quando se começa a cair não há possibilidade de suster a queda, e quanto mais se faz para a evitar mais se acelera o processo de decadência. O actual Ministério da Educação armou-se em feiticeiro e andou durante quatro anos a brincar aos feitiços e à magia (bem negra a magia, por sinal). Como sempre acontece com os aprendizes de feiticeiro, não demorou até que o feitiço se voltasse contra os próprios. Depois de ter politizado, governamentalizado e partidarizado os resultados dos exames, e os próprios exames, o Ministério da Educação não quer arcar com as responsabilidades dos insucessos. A preclara Maria de Lurdes Rodrigues acha que os resultados da Matemática se devem à comunicação social, e o extraordinário mágico Valter Lemos acusa a SPM, entre outros agentes inimigos, pela queda dos resultados. Já não falo na honestidade intelectual que deveria pautar esta gente, mas o próprio interesse político aconselhava a não cair no ridículo. Mas pessoas que sempre agiram, durante quatro anos, sem qualquer tipo de verticalidade política não conseguem sequer perceber quando chegou a hora de estar calados. Que esta gente se estatele e parta bem os ossinhos da sua carreira política é muito bem feito, mas que tudo isso seja feito à custa da destruição de uma profissão, a de professor, e dos alunos é que é absolutamente inconcebível. Seja quem for que vier a seguir não será grande coisa, mas esta gente tem de ser corrida, custe o que custar. A sua presença no governo, porém, deve perdurar na memória de todos nós durante muitos e longos anos, como exemplo do que há de mais negativo e prepotente ao nível da governação educativa. O país começa a ficar farto de aprendizes de feiticeiro.

06/07/09

Metamorfoses LI

Karlheiz Stockhausen – Gesang der Junglinge

os anjos calaram-se perderam a língua
pedras silenciosas na viuvez da planície
olham imponderáveis o horizonte
presos em suas asas de rosmaninho

vêm de mãos fechadas e corpo vazio
e na alma trazem um canal de tulipas
por onde sopram um vento negro e frio

são anjos da tempestade sem esplendor
e riem na tarde cansada ao passar o umbral
que separa do gélido céu a terra ardente

navegam nas águas de paraísos perdidos
e trazem na testa uma estrela de seda
onde vemos se de olhos puros e erguidos
um risco de carvão na frágil labareda

Vergílio Ferreira - História

Política. É a forma mais à mão de se ser História, Mónica, de ter a História a trabalhar por conta, de empernar talvez com ela e ir com ela para a cama, mesmo que depois nos corneie — e desculpa a metáfora (é metáfora?) É a forma mais visível de o destino parecermos nós e mesmo de não haver mais História depois de nós para historiar. Porque nós estamos no limite e o que se segue já não existe, que engraçado. E se existe é na forma de lhe darmos ordens para cumprir depois, meter o futuro aos varais ao nosso mundo. Porque entretanto a História foi-lhes tramando a vida na própria vida que engendraram e o futuro a vem a fazer-lhes em cima — desculpa, querida. [Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra. Quetzal: 84]

Entrevista a José Gil

A autonomia do ensino superior

Stephen P. Heyneman é consultor de Política Educativa Internacional, tem estado a estudar o sistema de ensino superior português e dá uma entrevista ao Público. Deve ser lida por aquilo que diz e por aquilo que anuncia sem dizer. Gostemos ou não do que diz, e eu não gosto de algumas coisas, o caminho do ensino superior vai ser mais ou menos aquele que propõe. Quando não há dinheiro, fala-se muito em autonomia. Esta, porém, tem o seu preço que as partes ainda não parecem disposta a pagar, mas não terão alternativa. Relativamente ao ensino não superior, é correcta a sua perspectiva sobre a aventura governativa do Magalhães.

05/07/09

Luta de classes

O campo da luta de classes não tem fim. Está enganado quem pensa que ele se restringe ao mundo do trabalho, aos campos e fábricas, onde burgueses e proletários se defrontam eternamente. Não, todos os aspectos da vida são palco de uma luta fracturante. Veja-se a alteração da estratégia onomástica das classes populares. Segundo o Público, o povo começa a apropriar-se dos nomes que até há bem pouco tempo pertenciam às melhores famílias da pátria. Em 2008, os seis nomes femininos mais escolhidos foram Maria, Beatriz, Ana, Leonor, Mariana e Matilde. No masculino, as opções recaíram em João, Rodrigo, Martim, Diogo, Tiago e Tomás. Esta popularização dos nomes associados a certas elites é um manobra táctica de grande significado simbólico. Ao desapossar as boas famílias da exclusividade e da diferenciação que um nome tradicional traz, as classes populares estão a obrigar as elites a refugiarem-se, para se diferenciarem, nas Cátias, nas Vanessas, nas Irinas, nos Rubens, nos Márcios, nos Fábios. Quem, nos dias de hoje, vai chamar ao seu filho Martim ou Matilde? Como se vê, não há tréguas nesta eterna luta entre diferenciadores e igualitaristas.

Da vida do espírito - LER

A LER já foi uma das revistas mais belas que se publicaram. A nova série não tem a qualidade plástica da anterior, mas mesmo assim é uma belíssima revista. Num mundo de imagens, a LER trata de objectos e pessoas estranhos, livros e leitores. Talvez no futuro a revista seja considerada uma revista de Arqueologia e de Pré-História. O número de Julho traz na capa Vasco Pulido Valente e lá dentro uma entrevista com ele. Só isto justifica os 5 euros que custa. Pulido Valente diz mal de muita gente (Saramago - uma derivação da literatura da América Latina, Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís), mas explica por que razão ela não poderia nunca ser escritor. Para ser escritor é necessário ter uma voz e ele apenas tem uma vozinha. Na LER há muitas coisas mais sobre livros, saliento apenas o extracto de uma reedição de Eduardo Lourenço, Esquerda na Encruzilhada ou fora da História? (1986) Haverá temática política mais actual?

Da vida material - Wine (Junho)

A Wine é uma revista de vinhos que vai já no n.º 36 (Junho). Não é apenas pela elegante concepção que vale a pena comprar a revista. Fala-nos do mundo dos vinhos e da gastronomia, coisas indissociáveis. Este número traz uma reportagem com seis produtores de Alvarinho, aquele vinho extraordinário que só se produz, a partir da casta do mesmo nome, nos concelhos de Monção e Melgaço. É verdade, no outro lado da fronteira também há, mas adquire aí o estranho nome de Albariño e não sei se é do nome, se da nacionalidade, aquilo não sabe ao mesmo. Vale também a pena, neste número, ler a opinião de Charles Metcalfe sobre os vinhos do Porto de 2007 (Após esta prova de vinhos do Porto, se disser que atrobuí 90 ou mais pontos a 25 dos 42 vinhos presentes talvez dê um indício do meu entusiasmo...). Não esquecer ainda o trabalho sobre a cozinha beirã. Mas toda a revista é um prazer e há a oportunidade de descobrir o que há de mais dinâmico, em Portugal, no mundo dos vinhos. E nunca esquecer a divisa que se está a apossar do averomundo: não há nada mais espiritual do que a vida material.

Da vida material - Blue Cooking (Junho)

Já tinha visto cá por casa a Blue Cooking, mas desatento como sou não tinha passado os olhos pela revista. Hoje, porém, calhou pegar na de Junho. Desde a concepção gráfica até às receitas sugeridas, passando pela crítica, a Blue Cooking é um belo e adequado objecto. Isso mesmo, um objecto material que dá prazer tocar, olhar e imaginar aquilo que poderemos saborear. Pecado da gula? Pelo contrário, introdução à redenção. Não foi numa ceia, a última, que o Cristo preparou a redenção da humanidade sob o império do pão e do vinho? Os tempos tornaram-se mais complexos e a perseguição dos dietistas quase se tornou direito constitucional. Mas há que resistir, enquanto se pode. Deixo aqui duas sugestões da Blue Cooking de Junho. Uma sopa de abacate e camarão e uma salada de vegetais queijo feta. Receitas? Bem, isso já me ultrapassa e sempre se pode consultar a própria revista.

04/07/09

O estudo da SEDES

O estudo efectuado pela SEDES sobre o actual estado do regime político tem aspectos, ligados à questão do poder, bem desagradáveis. Tanto o poder judicial como o poder político recebem uma avaliação bastante negativa. Esta avaliação confirma apenas a percepção comum de um real e efectivo afastamento entre as elites político-judiciais e o povo que elas, putativamente, deveriam representar e defender.

Desde o final dos anos 80 que os portugueses são dos europeus mais insatisfeitos com a sua democracia. Os anos decorridos desde então não melhoraram, pelo contrário, a percepção que se tem do regime. Sobre isto há duas maneiras de interpretar a causa dessa insatisfação. Poder-se-á sempre invocar a tradicional estranheza nacional relativamente aos valores da liberdade, mas essa será uma má explicação. A segunda forma é olhar para o afastamento entre elites e povo. É esta a perspectiva confirmada pelo estudo do SEDES. A justiça é sentida como profundamente classista, e o poder político como defesa e promoção dos interesses privados dos próprios políticos. Esta percepção, caso não estivéssemos na União Europeia, já teria motivado e legitimado tentações militares, o que mostra uma outra vertente do problema. A União Europeia tem-se tornado uma almofada protectora da indigência da classe política nacional.

03/07/09

A renúncia de Maria João Pires

Maria João Pires, segundo noticia o Público, vai renunciar à nacionalidade portuguesa. Torna-se apenas e só cidadã brasileira. A causa é o ter-se cansado "dos coices e pontapés que tem recebido do Governo português", a propósito do projecto de Belgais. Não faço ideia de quem tem razão, se a pianista, se o governo. Estes projectos utópicos sempre me pareceram excessivos e inadequados à realidade portuguesa. Mas isso é irrelevante. O que merece nota é a reacção de muita gente na caixa de comentários do Público. Ali está o pior de nós. E eu não acho que se deva ter uma reverência especial por quem quer que seja, nem acho que o Estado tem de alimentar os devaneios dos nossos artistas. Mas em muitos daqueles comentário, e já ultrapassaram os 400, ressuma a pura inveja e a ódio àquilo que é grande, e Maria João Pires, mesmo que Belgais seja um utopia sem sentido, é uma grande pianista. É por isso, e não pela falência de Belgais, que Portugal nunca deixará de ser um Portugal dos pequeninos.

Grandes Armazens do Chiado

O fascínio do passado reside na sua imperfectibilidade. Eu sei que as nossas representações desse passado são perfectíveis, mas o passado em si é absolutamente perfeito e como tal imposível de aperfeiçoar. Quando nos deparamos com algo vindo do passado, a primeira coisa que damos conta é da sua absoluta superioridade relativamente ao presente. Nisto não há nostalgia, mas apenas a constatação de um facto. O presente não passa de um híbrido entre o que está concluído e o que está em aberto. O passado, pelo contrário, é um animal de raça pura, de pedigree assegurado, nele não há possibilidades em aberto, tudo está fechado, concluído, feito, perfeito. Por exemplo, estas imagens que recolhi no Beautiful Century (um blogue a visitar regularmente) são a prova do que está dito. Comecemos então a digressão pelos Grandes Armazéns do Chiado, no ano da graça de 1910. Esta primeira imagem diz respeito à back cover do winter catalog, como escreve a autora do blogue. Em 1910, os Grandes Armazéns do Chiado eram um império distribuído pelo país fora. Aveiro, Braga, Faro, Coimbra, Evora (sem acento), Portalegre, Covilhã, Lisboa, Porto, Setubal (sem acento), Vizeu (assim mesmo), Funchal, Caldas, Beja, S. Miguel. Tenho a ideia de ver antigas fotografias de Torres Novas com uma agência dos Grandes Armazéns do Chiado, na praça 5 de Outubro. Como se vê, a proliferação dos hipermercados não é uma invenção do eng.º Belmiro de Azevedo. Já no tempo da Monarquia isso acontecia. Uma viagem atenta pelos desenhos não deixa de ser particularmente interessante. Toda uma lição de sociologia pátria está ali inscrita. Atente-se apenas nas figuras humanas das imagens referentes a Lisboa e à Covilhã. O que me fascina, porém, é a ortografia. Falo menos na acentuação, muito diferente da nossa, mas da grafia de certas palavras. Por exemplo, paiz em vez de país, ou succursaes em vez de sucursais. Que distância e que distinção.

Já imaginou a inexistência do pronto-a-vestir? Talvez. Concebeu um mundo de alfaiates, modistas e costureirinhas a receber nos seus ateliês particulares os clientes. Sim, isso é verdade, ainda me lembro bem desse mundo ser praticamente dominante, mas em 1910 a vida material era já muito mais complexa. Veja-se esta página, a 33 do catálogo dos Grandes Armazéns do Chiado. Ensina a tirar medidas, para depois se efectuarem encomendas de roupa. A elegância era assinalável. O que se podia encomendar? As senhoras, capas e confecções, vestidos, calçado, chapéus e luvas; os homens, camisas, casacos, collarinhos e colletes (o duplo "l" como sintoma de civilização), calça (no singular) e essa inesquecível peça de lingerie masculina que dá pelo nome de ceroulas, cujas medidas são as das calças. Também há fatos para os meninos e vestidos para as meninas. Mas o supremo encanto da página é os plissés (mais tarde falava-se em plissados). Dois tipos de plissés, os Soleil e os accordeon (os primeiros com letra maiúscula e os segundos com minúscula), ou deitado. São executados nos ateliês da casa. Também há recortagem (mas aqui falta-me a cultura para perceber se diz respeito aos plissés ou não) à machina, o que é bem diferente de recortagem à máquina, coisa mais ligado à metalurgia e à metalomecânica.


A página 32 do catálogo de inverno de 1910, um catálogo imaginado em plena Monarquia, e que entrou em vigor no início da República, traz-nos os edredons. Quase todos de setim liberty e com enchimento duvet francez. Quantos enigmas aqui? Hoje escrevemos cetim. A palavra chegou até nós vinda de França, onde se diz satin, e tem a sua origem no árabe zaituni referente à cidade chinesa Zaitun, onde o tecido era fabricado. E no simples setim temos uma prática ancestral de globalização que nos faz sonhar com desertos e rotas da seda, camelos e oásis, estreitas sendas e longos poentes. Nada mais evidente, porém, do que a adjectivação do setim, liberty. Que propriedade que não a liberdade poderá vir ao espírito quando se pensa em setim ou mesmo em cetim? Um setim liberty com enchimento francez duvet. Duvet? Claro, duvet a palavra francesa para penugem, para o conjunto de penas que enchem o edredon. Uma coisa é ter um edredon de penas e outra, totalmente diferente, é possuir um edredon duvet, ainda por cima com setim liberty. Repare-se como a vida material é tão pouco material, como ela depende do espírito. Talvez não exista coisa mais espiritual do que a vida material. Mas não deixemos passar em claro um pormenor significativo: o enchimento duvet, que já não é um enchimento qualquer, é feito segundo os preceitos da hygiene. Não é apenas a nobreza do "y" que nos cativa e que indica o caminho de degradação popular que vai da era da hygiene aos nossos rudes tempos da higiene. Há ali toda uma dedução de carácter kantiano, que pressupõe o imperativo categórico do respeito pela pessoa enquanto fim em si mesmo, para chegar aos preceitos que defendem essa pessoa através da hygiene do enchimento francez duvet. Que tempos!

Como já foi dito, nada há mais espiritual do que a vida material, e esta não é nada se não tiver em conta aquilo que nos alimenta. Por exemplo, lentilhas, ervilhas, favas e grão não levantam o problema da diferença ontológica. São o que são e não têm qualificativo. Diríamos que são transversais. Já o feijão é diferente. Há o feijão suisso (assim mesmo), o frageolet, o soisson e o cabreiro, e por mais caro que seja o cabreiro, alguém de boas famílias o pedirá? Pelo contrário, um feijão frageolet ou soisson é digno de ser encomendado pelas melhores famílias da pátria. Novidade ou quase deveria ser o vinho engarrafado. O Carcavellos, branco (150 réis) ou tinto (120 réis), era vendido em garrafões ou barris de 5 litros. Uma elegante garrafa enrolhada e capsulada automaticamente do Carcavellos brancos custava 100 réis. A manteiga era vendida em lata, manteiga do Dão ou manteiga da Praia d'Ancora. O café Princeza era vendido em lindas latas axaroadas (não sabe o que é? nós também não). A página 31 do catálogo de inverno dos Grandes Armazéns do Chiado é uma introdução, delicada mas informativa, à dieta das classes médias no início da República ou no fim da Monarquia, conforme preferir.


Como vê, caro leitor, o passado é absoltamente imperfectível, pois ele é belo e perfeito. E é de tal maneira perfeito que basta umas quantas páginas de um catálogo comercial para deixar manifesta a sua inexcedível beleza. O que nos dá a esperança de, quando formos definitivamente passado, a beleza nos tocar.

Jornal Torrejano, 03 de Julho de 2009

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02/07/09

O gesto do dr. Pinho

Para dizer a verdade, estes corninhos do ministro Manuel Pinho foram o seu grande gesto político. Como em Portugal nunca se reconhece o mérito onde ele existe, o pobre Pinho lá teve de pedir a demissão. O pessoal do PS anda de cabeça perdida, nem o electrónico engenheiro civil independente consegue evitar distúrbios. O cheiro a derrota é uma coisa horrível. Nada pior para a sanidade mental do que o odor a cadáver. Não me digam que vamos ter de aturar os PSD impantes com uma maioria absoluta.

Quanto vale o voto dos professores?

A política absolutamente abstrusa de Sócrates e de Lurdes Rodrigues abriu caminho para o PSD tentar penetrar no professorado. As quatro áreas de que fala Manuela Ferreira Leite são aceites por todos os professores, ou quase: estatuto do aluno; estatuto da carreira docente; sistema de avaliação docente; desburocratização do ensino. Tudo isso deverá ser mexido e alterado radicalmente. Mas os professores não se devem precipitar. Devem também perguntar o que pensa ela do destino do ensino público, e da actual forma de gestão das escolas e do papel das autarquias nessa gestão. Devem, ainda, perceber como se pretende concretizar as alterações naquelas áreas. Por exemplo, não estou a ver como uma avaliação externa dos professores, feita por empresas (e há empresas muito interessadas em fazê-la) não implique um calvário burocrático ainda maior do que o desenhado por Lurdes Rodrigues e Valter Lemos. E eu sei muito bem do que estou a falar. Já chega de ingenuidade.

A trapalhada continua

Parece estar confirmada a trapalhada das eleições no Benfica. A sofreguidão de Luís Filipe Vieira, a tentativa de evitar o surgimento de uma alternativa credível levou ao actual estado. Parece que apenas Bruno Carvalho, não faço ideia quem seja, está em condições de ir a votos. Quem se lembra de um presidente do Benfica como António Borges Coutinho só pode mesmo rir ou então chorar.

Outro símbolo

Eu não sou favorável a que a banca seja, na sua totalidade ou mesmo na sua maioria, pública. O papel do Estado não é negociar com o dinheiro, embora possa necessitar, como forma de regulação, da posse de um banco, como a CGD. Dito isto, gostava de fazer uma digressão na memória e ir aos primeiros tempos do BCP. Lembram-se como ele era incensado? Lembram-se como a sua política laboral não levantava problemas e era mesmo aplaudida. Era o banco da moda e representava uma certa atitude no país. Dito de outra maneira, o BCP representava uma certa cultura. Houve muita gente que nunca se cansou de sublinhar a diferença entre o BCP e a banca pública. Essa gente não deveria vir agora explicar a história do BCP, estabelecer a relação entre aquele começo e os dias de hoje? Não será legítimo perguntar se no início não estava já contido aquilo que o tempo veio a manifestar? O BCP é outro dos símbolos do regime.

Um símbolo

De um arguido deve presumir-se a sua inocência. Dias Loureiro não é excepção. Mas a sua trajectória não deixa de ser um caso interessante e um símbolo da evolução do regime democrático em Portugal. Da provinciana Coimbra para Lisboa através da política. Da política para o mundo dos negócios através ainda da política. Do mundo dos negócios para os problemas com a Justiça através desse mesmo mundo dos negócios. Nas mãos do PS e do PSD, a democracia portuguesa tornou-se isto, um imenso pântano onde política e negócios se confundem e onde o país vai definhando a cada dia que passa. É possível que este tipo de condutas seja a norma na vida política. Sendo assim, porém, não consigo compreender como há ainda gente que, não estando envolvida na política, toma partido com veemência a favor ou contra um dos partidos da área da governação. A única atitude que me parece cada vez mais razoável, por parte dos cidadãos, é a crítica feroz a quem está na área do poder. A crítica significa o desejo de limitar a acção de quem "pode" ao que é essencial. Os cidadãos comuns só têm duas formas de acção política: votar e criticar. Considerando o que se tem passado, deveríamos pensar, enquanto cidadãos, que todos os governantes são culpados de abuso do poder até prova em contrário. Mas não será isto uma inversão da norma jurídica que se aplica a qualquer cidadão? Aparentemente, sim. Mas os detentores do poder não são cidadãos comuns, têm um poder de tal modo excessivo sobre todos nós, onde se inscreve o poder de fazer a lei, que há que defender a comunidade e os indivíduos da acção de quem "pode".

A estratégia socialista

Há duas coisas em que o actual Partido Socialista é excelente. A primeira é a propaganda através dos brinquedos tecnológicos. A segunda é isto: "Socialistas, diz o Público, centram estratégia na destruição do “falar verdade” de Manuela Ferreira Leite." Se o PSD se deixar arrastar para este tipo de coisas, então perderá alguma vantagem que, de momento, possa ter. O que se passa? O país está perante duas imagens, a de José Sócrates e a de Ferreira Leite. A imagem de Sócrates, como pessoa politicamente credível, caiu quase até ao grau zero, durante o mandato. Por outro lado, Ferreira Leite tem uma imagem de pessoa séria, credível, de pessoa que não pisa o risco seja no que for. É esta imagem que o PS se propõe destruir. Veremos qual a solidez da Presidente do PSD e da equipa que a aconselha. Mas isto é também uma terrível confissão por parte do PS. A confissão de que a imagem de Sócrates, ao nível da credibilidade, é irrecuperável. A única esperança é denegrir a imagem da concorrência, fazer uma campanha negra, o que para um partido que esteve no poder 4 anos não deixa de ser um triste sintoma.

01/07/09

Metamorfoses L

Alfred Schnittke – Piano Concerto no. 2

imensas eram as ruas desabitadas
tinham cheiro a clorofórmio
e das janelas pendiam sacos de plástico
farrapos de roupas a ondular ao vento
molas de plástico a que o sol comera a cor

se alguém as percorria ao entardecer
ou ousava ali parar na noite escura
elas uivavam como se tivessem vida
ou uma memória animal as habitasse
e lhes desse voz na praia do silêncio

nas calçadas crescem ervas esquivas
símbolos de uma vida ressequida
– sussurram se lhes bate o vento –
são bandeiras de uma pátria vazia
onde há muito secaram os últimos rios

A trapalhada das eleições

Onde chegou o meu velho Benfica? A trapalhada inaudita das eleições poderá lançar o clube num autêntico caos. Havia um tempo em que o clube não dava um único passo que não estivesse juridicamente fundado. Agora não parece um clube desportivo mas um clube de aventuras. Com uma nova época a começar, com milhões de euros gastos mais um vez, o clube arrisca-se a não ter uma cabeça que não seja motivo de troça e de condescendência dos seus principais adversários. Mas o que se está a passar é um novo sinal da fragilidade que tomou conta da instituição. Se o clube estivesse forte, certas candidaturas folclóricas não passariam disso mesmo, o folclore que sempre existe em instituições democráticas. Mais uma época perdida e ainda não começou.

Paranóia

Há quase dois anos escrevi aqui isto. De então para cá, a paranóia do inquérito não abrandou, pelo contrário. Ontem fui com a minha mulher a uma empresa privada fazer uma operação no carro dela. No fim, entre milhares de papéis, lá veio o famoso questionário de avaliação. Era solicitada a fazer a avaliação do processo. Se alguém vem cá a casa fazer um serviço relativo ao telefone ou à Internet, sou logo solicitado a preencher, se assim o quiser, um questionário de avaliação do desempenho.

Estou farto. Se as empresas querem avaliar os seus funcionários que o façam, mas não incomodem os clientes, mesmo sob o pretexto de que a resposta é livre (era melhor que o não fosse...), com os seus problemas. Esta paranóia burocrática é insuportável. Como cliente, posso avaliar o desempenho negativo de uma operação de três maneiras. A primeira, é pedir o livro de reclamações; a segunda, é falar para um superior hierárquico do funcionário; a terceira, é não comprar mais nenhum produto ou serviço na empresa. Avalio positivamente sempre que volto como cliente. Não preciso de preencher questionários idiotas.

As empresas que pedem para que o cliente faça uma avaliação formal da relação que manteve com ela são empresas que não pensam no cliente, mas apenas nelas e na sua incapacidade de fazerem uma boa avaliação do seu desempenho. São as empresas que terão de descobrir como agradar aos clientes sem os incomodar com isso. A paranóia da avaliação tornou-se um caso psiquiátrico. E, como se vê, o problema tanto afecta as instituições públicas como as privadas. Só falta a resposta à questão sacramental: quem está a ganhar dinheiro com o fomento desta doença?

Sarkozy - cultura e civilização


Esta intervenção do Presidente francês é um exemplo claro e distinto do problema aqui focado sobre a distinção, segundo Leo Strauss, entre cultura e civilização. É provável que a tradição inglesa jamais venha a pôr o problema neste pé, é provável que exista em Inglaterra um espírito de tolerância para com as diferenças culturais e uma aceitação do multi-culturalismo que não é exibida aqui por Sarkozy. Mas também é provável que esse espírito se funde na condescendência e, em última análise, no desprezo pela sorte daquelas que estão submetidas à cultura vigente em certos meios sociais muçulmanos. A aparente intolerância de Sarkozy revela um profundo respeito pelas liberdades individuais e, fundamentalmente, pela liberdade da mulher. E há uma coisa em que Sarkozy tem razão. Não devemos ter vergonha dos nossos valores nem de os defender. Acrescento eu: esses valores têm um carácter universal e visam o respeito pelos indivíduos, independentemente da cultura ou da religião de origem. São valores que promovem a civilização, tal como Leo Strauss a entende, mesmo que para isso combatam certo tipo de valores culturais.

A irritação socialista com Cavaco

Segundo o Público, os socialistas andam irritados com Cavaco e as críticas começam a ser públicas. Quem tem paciência já para esta farsa? Cavaco não foi eleito com o beneplácito do excelso engenheiro e a conivência do dr. Mário Soares? Quem anda na política, aos anos que andam Sócrates e Soares, sabe muito que a candidatura de Mário Soares só tinha uma finalidade objectiva: permitir a eleição de Cavaco Silva e a consequente não eleição de Manuel Alegre. Nem Soares nem qualquer dirigente importante do PS alguma vez acreditou na possibilidade de reeleição do antigo presidente.

Nos cálculos da elite dirigente dos socialistas acreditava-se ao mesmo tempo em várias coisas estúpidas. Em primeiro lugar, acreditava-se que Cavaco seria mais dócil com o "espírito reformista", que atafulhava as cabeças "pensantes" do PS, do que Manuel Alegre. Em segundo lugar, acreditava-se que o desconchavo do PSD seria permanente. Em terceiro lugar, acreditava-se que o tempo de Cavaco tinha passado e que a subtileza da máquina de propaganda socialista seria o suficiente para impor respeito a um Cavaco tido por pouco mais do que um labrego.

Mas Cavaco, desde que saiu de S. Bento, tem uma agenda própria e tem uma virtude política que é de sublinhar: a paciência. Esperou pacientemente que passassem os 10 anos de Jorge Sampaio. Esperou, depois de eleito, que a arrogância da tropa socratista fosse tornando Sócrates em personagem detestável. Esperou, com não menos paciência, que o PSD arrumasse a casa segundo os seus, de Cavaco, desígnios. Agora, o tempo e o espírito do momento jogam a seu favor. Por que razão se haveria de calar? Soares calou-se quando Cavaco era primeiro-ministro?

Não sei o que é mais de espantar, se a irritação presente com o Presidente, se a estupidez originária que levou ao sub-reptício apoio da direcção do PS a Cavaco. Era claro que Cavaco não ia para Belém brincar às casinhas. Ele queria ordenar o país segundo a sua visão, sem ter de aturar a máquina partidária do PSD, que o aborrece de morte. Por outro lado, Cavaco queria e quer ajustar as contas consigo mesmo. Ele sabe que os seus mandatos como primeiro-ministro, independentemente do foguetório e do incenso, foram muito piores do que por aí se diz. Ele sabe que é responsável por muito do pior que aconteceu em Portugal depois da entrada na CEE. Seja como for, Sócrates está à beira de descobrir que é um menino do coro deslumbrado com os seus fatos armani e os seus electronic toys ao pé do velho Cavaco Silva.

Da pequena glória

Esta notícia não é agradável para o jogador mais caro da história do futebol mundial. Por muito aborrecida que seja a pressão a que se está sujeito devido aos delírios dos adeptos, um jogador de futebol deve saber comportar-se. Não apenas porque esse é o dever de todos nós, mas ainda pelo facto de Cristiano Ronaldo viver dos delírios e das fantasias dos adeptos. É isso que lhe paga o ordenado, e este não será tão pequeno quanto isso. Se a notícia é verdadeira, há que juntar o facto muito desagradável de a agressão ser dirigida a uma rapariga, ainda por cima menor. Se Cristiano Ronaldo não souber cuidar da vida, é possível que esta, até aqui tão generosa, deixe de cuidar dele. Às vezes, há coisas que cheiram a tragédia, apesar de o presente só mostrar o lado paradisíaco e glorioso. Quem diria ao bravo e glorioso Agamémnon que, ao regressar à pátria, depois da vitória em Tróia, o esperavam a traição da mulher e a morte violenta? De glórias feitas em pó e de riquezas transformadas em miséria está o futebol cheio.

30/06/09

Metamorfoses XLIX

Tristan Murail – Le Lac pour ensemble

o medo avança entre cartas trocadas
e um desejo de consolo a abrir o coração
não vale a pena deitar a mão ao gargalo
há muito que o álcool se evaporou
deixando um odor a madeira velha
no abismo grudado ao fundo da garrafa

um itinerário livre nas águas
o remo preso na ânsia da mão
assim vai o remador na senda da tarde
e tacteia os céus com olhos fechados
para não ver a melancolia do azul
ou o vazio onde floresce o pavor

não há astúcia que pare o bater do coração
nem nuvem que sombreie o sol
apenas se ouve o latejar dos remos
e o desconcerto da ave que grita
como se o peito fosse seca argila
e o ar pedra que no céu a vai matar

A coisa começa a manifestar-se

Se o leitor for paciente e demorar algum tempo a olhar as imagens que a televisão transmite sobre o PSD, descobrirá que o mal já se move por lá. Não atente a Manuela Ferreira Leite, passe antes os olhos pela envolvência. Toda a pesporrência socrática, toda a arrogância que tomou conta da governação socialista, aflora agora nas hostes laranja, porventura ainda mais enfatuada. Ainda não é óbvia. É mais a forma como se olha, alguns gestos não controlados, o tom de voz que começa tornar-se imperativo, as certezas que parecem aflorar naqueles cérebros, tudo indicadores do que vem aí, se o PSD formar governo. Ainda não conhecemos o programa eleitoral, mas o estilo está completamente definido. Se a hora chegar, serão exactamente iguais aos socialistas. Não sei como é nos outros países democráticos, mas em Portugal as elites políticas não se sentem nem se pensam como servidoras do povo. O poder é o lugar de uma estranha exibição do ego, o exercício de vaidades incomensuráveis, o palco para a manifestação universal das suas pequenas pessoas. Saberá essa gente que ministro vem do latim ministru, que significa servidor? Saberá essa gente que primeiro-ministro é apenas o primeiro-servidor? Em Portugal, o poder é o lugar onde gente absolutamente indiferenciada pensa que pode tornar-se diferenciada. Em Portugal, com honrosa excepções, o poder é o lugar do parvenu. E o que é um parvenu com poder?

Le Sacre Du Printemps by Pina Bausch Wuppertal Dance Theater

Pina Bausch morreu hoje, tinha 68 anos.

O caso Elisa

A candidatura de Elisa Ferreira à câmara do Porto é um símbolo daquilo que é hoje o Partido Socialista. O Porto é a segunda cidade do país, e uma candidatura à sua câmara implica que o candidato assuma de alma e coração, sem reservas mentais, a entrega a essa candidatura. No momento em que Elisa Ferreira aceita ser também candidata ao parlamento europeu o seu destino no Porto ficou praticamente traçado. Os portuenses parecem não estar interessados em quem procura um lugar de destaque político a qualquer preço. Nem a subtil sugestão de aproximação ao FCP os comove. O Partido Socialista é cada vez mais visto como uma agência de empregos políticos, um partido sem alma, sem princípios, um partido preso à voragem do poder a todo o custo. No Porto, as sondagens são letais para o PS. O que irá acontecer em Lisboa? Será que o Partido Socialista vai ter a capacidade de transformar o dr. Santana Lopes num génio da política e num mago da gestão autárquica?

O princípio do ressentimento

Graças ao Zé Ricardo cheguei a esta notícia. Quando era novo, devo ter defendido coisas deste género ou piores. Hoje, porém, estes ajustes de contas com o passado e os mortos cheiram-me mal, por muito putrefactos que já fossem os mortos ainda em vida. Depois de Ferrol, terra de nascimento de Francisco Franco, agora é Madrid que retira os títulos honoríficos outorgados ao ditador. Neste acto há poucas coisas ou nenhumas que mereçam louvor. O ditador está morto e não se pode defender. A virtude da coragem está fora desta acção. Mas será uma acção justa? Aparentemente seria, mas nunca será capaz de apagar a mancha de ser uma acção ditada pelo vencedor do momento. Deste ponto de vista, a proposta da Esquerda Unida é idêntica àquela que, nos tempos do franquismo, atribuiu os títulos a Franco. O pior de tudo, porém, é que estas acções são o fruto do ressentimento contra o passado. A Espanha teve uma história e ela foi o que foi. Apagá-la simbolicamente, como nós o fizemos com o dr. Salazar, ainda é uma forma de derrota e de submissão ao espírito do vencedores de então. Se um povo é autenticamente livre não precisa de apagar o passado, nem de "des"-crever aquilo que a história, para o bem e para o mal, escreveu. De certa forma, este acto é uma pequena vitória do velho ditador, que se tornou agora "vítima" dos re-escritores da história. O ressentimento nunca é um bom conselheiro.

Leo Strauss - Cultura e civilização

Aliás, a palavra cultura deixa na indeterminação qual a coisa que se deve cultivar (o sangue e a terra ou o espírito), enquanto o termo civilização designa imediatamente o processo que visa a fazer do homem um cidadão e não um escravo, um homem das cidades e não um rústico, um amante da paz e não da guerra, um ser civilizado e não um vadio. Uma comunidade tribal pode muito bem ter uma cultura, isto é, produzir hinos, cânticos, ornamentos para o seu vestuário e para as suas armas, olaria, danças, e fruir de tudo isso. Não poderá, todavia, ser civilizada. Interrogo-me se o facto do homem ocidental ter perdido muito do seu orgulho anterior, o orgulho tranquilo e apropriado de ser civilizado, não é um fundamento da actual ausência de resistência ao niilismo (Leo Strauss, Sur le nihilisme allemand).
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A conferência Sur le nihilisme allemand foi pronunciada em 1941. Strauss encontrava-se já nos EUA e assistia de longe ao domínio do nazismo sobre a sua pátria. A conferência é uma análise do niilismo alemão que de certa forma está na origem do fenómeno nazi. O que me interessa, porém, sublinhar é a velha distinção entre cultura e civilização e perguntar se, nas actuais sociedades, não estamos a assistir a uma regressão da civilização em detrimento da cultura. O multiculturalismo tem sido usado como arma de arremesso para fazer recuar os processos civilizacionais, entendidos estes à luz das palavras de Leo Strauss: tornar o homem num cidadão e não num escravo. Perceber isso, por seu turno, exige interrogar a conexão entre as sociedades liberais e o niilismo, o que implica ainda uma outra interrogação: o que torna o conceito de cidadão, nas sociedades actuais, tão frágil e permeável ao não civilizado, ao não cívico? Será o seu carácter, nas sociedades modernas, puramente formal? Será a sua conexão com uma organização política, o Estado-Nação, que se encontra sob fogo de estruturas políticas infra-estaduais (as regiões e os municípios) e supra-estaduais (a União Europeia, por exemplo)? Será a própria natureza ontológica do cidadão, o que implica a investigação daquilo que faz com que um cidadão seja um cidadão, isto é, a sua essência? Seja qual for a questão que se coloque como determinante daquilo que dá que pensar, o texto de Strauss abre para uma reflexão sobre a conexão entre cidadania e niilismo, desviando este último conceito da área ética e da filosofia da cultura, para o introduzir na reflexão sobre o político.

29/06/09

Metamorfoses XLVIII

Igor Stravinsky – The Rite of Spring

estes estranhos animais cujo nome se apagou
correm desfigurados pela luz da floresta
trazem mãos de água e deslizam pela sombra
ao tocar no musgo que de verde cobre o chão

tocam tambores na casa dos guardas
anunciam o frémito por dentro do sangue
traçam ondas de cal no interior das grutas
onde dormem homens perdidos no tempo

insectos acordam de um longo sono
e chupam o sangue de vítimas servis
são uma labareda de cinza no horizonte
e cantam ao zumbir das pequenas asas

ergue-se inteira uma paisagem de papel
e nela componho a floresta de seda
homens e animais bebidos pelo esquecimento
a premeditação de um longo homicídio

e tudo se perde na férvida escuridão
um paraíso de tílias a perfeição dos plátanos
talvez as tuas palavras trémulas
se me olhas com a primavera na mão