19/07/09

Projectos, objectivos, avaliação

Este senhor, João Tiago Silveira (JTS), é o novo porta-voz do PS, para além de secretário de Estado de não sei de quê. Substituiu Vitalino Canas na função e hoje dá uma entrevista ao DN. Para além de confessar que é amigo pessoal de Manuela Ferreira Leite e da conversa de pau que seria de esperar de alguém no cargo, há na entrevista um momento que mostra a essência do espírito do tempo que nos cabe viver.

O entrevistador diz: Desculpe a frontalidade, mas quando se olha para si tem mais "pinta" de CDS-PP do que de socialista, se é que se pode dizê-lo.

Responde JTS: Eu não estou muito preocupado com aquilo que aparento, estou preocupado é com os projectos que temos de concretizar, os objectivos que definimos e a avaliação que as pessoas farão na melhoria das suas condições de vida.

A partir daqui já não vale a pena ler nem mais uma linha do que o senhor possa dizer. E esta é apenas a primeira pergunta. Eis a trilogia: projectos, objectivos, avaliação. Com estas palavras não se pensa já absolutamente nada. São puros conceitos vazios, vocábulos aprendidos mecanicamente nos livros de gestão e, como as frases do camarada Mao, repetidos insaciavelmente por tudo o que é sítio da esfera política e económica. O valor destas palavras é idêntico ao daqueles gestos que os jogadores de futebol fazem quando entram em campo (benzem-se e beijam o dedo, apanham um pouco de relva, etc.), nulo. São palavras mágicas, utilizadas ritualmente para mostrar que se pertence a uma congregação, fazem parte da superstição que governa a vida comunitária. Todos os que as utilizam não pensam nada com elas, repito. E onde não há pensamento, a acção definha, morre de pobreza, dá lugar a patologias sociais. Esta gente mata a política, a economia, a vida social. Não há paciência.

18/07/09

Metamorfoses LVI

Luc Ferrari – Harmonie du Diable

não há palavras que possam dizer a secura
que uma mágoa desenha num rosto
não há flores que cubram o entardecer
se o vento corre por cima dos túmulos

um viajante come pelas tabernas
– no sarro do balcão servem copos de vinho –
ali espera que a solidão chegue
para ir dormir onde a noite o acolha

sonha então as mágoas que são as suas
e olha as longínquos constelações
anunciam no esplendor do céu
a chaga que no peito rasga o inferno

Um devaneio tipográfico

Quem era este senhor? Tinha por nome Claude Garamond (1480-1561). O que faz aqui o seu retrato? Para dizer a verdade está no lugar de um outro, o de Jakob Sabon, que não consegui. Mas a que propósito vem isto? Para dizer a verdade, vem a propósito do romance de Vergílio Ferreira que acabei de ler, na nova edição das obras completas lançada pela Quetzal. Na última página do livro, a editora coloca a seguinte nota:

«Em Nome da Terra, romance de Vergílio Ferreira, livro da série Obra Completa de Vergílio Ferreira, publicado por Quetzal Editores, foi composto em caracteres Sabon, originalmente criados em 1967 pelo alemão Jan Tschichold (Leipzig, 1902-Locarno, 1974) em homenagem ao trabalho tipográfico de Jakob Sabon (1535-1580), e inspirados nos tipos desenhados por Claude Garamond (Paris, 1480-1561), e foi impresso por Printer Portuguesa em papel Besaya/80 g em Maio de 2009, numa tiragem de 1500 exemplares.»

O que é a espessura da História? É isto mesmo. Um romance escrito no século XX é lido no século XXI, num livro composto em caracteres criados no século XX, em honra de um tipógrafo que viveu na segunda metade do século XVI, que se inspirou no trabalho de outro tipógrafo que viveu umas dezenas de anos antes. Contrariamente ao que a leviandade que tomou conta do mundo pensa, tudo o que fazemos se perde na noite do mundo. A noite do mundo é a História na sua espessura infinita. Nesta pequena nota tipográfica da Quetzal Editores, há toda uma história da tipografia que se entretece com a história da cultura e com a própria História dos homens.

Alma Pátria - 2: Duo Ouro Negro - Maria Rita


Duo Ouro Negro - Maria Rita

A cançoneta data de 1969 e Portugal era, na altura, um império colonial, talvez não tanto império nem lá muito colonial. Por cá dizia-se que tínhamos províncias ultramarinas. O Duo Ouro Negro era o resultado disso. Angolanos de nascimento, Milo e Raul Indipwo abrilhantavam a cena musical da metrópole, como então também se dizia. Maria Rita e as festas do S. João, no Porto, mais um centelha da alma pátria, em tonalidade colonial.

Ainda a proibição do comunismo

No sequência da boutade jardinista - a anunciar que nos encontramos já em plena silly season, como se o ano todo, na nossa paróquia, não fosse uma enorme, infinita silly season - alguns comentadores aproveitaram para achar (há por cá muitos especialistas em achamento) muito bem que se proibisse os partidos comunistas e afins. Em Portugal, isso representaria tirar a cerca de 20% dos portugueses representação partidária, o que geraria, como muito bem viu Vasco Pulido Valente, uma ditadura talvez mais feroz do que a de Salazar. Como será difícil acusarem-me de simpatias pró-comunistas ou pró-bloquistas, gostaria de sublinhar algumas coisas que foram propositadamente esquecidas.

Em primeiro lugar, refira-se que o comunismo foi uma enorme tragédia nos países onde tomou conta do poder. O comportamento de muitos governos comunistas foi da maior abjecção e o desprezo pela liberdade foi completo e total. Isso passou-se em Portugal? Não. Os comunistas portugueses ou os esquerdistas que deram origem ao BE mataram, perseguiram, prenderam pessoas, ou eliminaram as liberdades políticas? Não, os comunistas e esquerdistas portugueses nunca o fizeram. Mesmo no período mais quente do PREC, o que vai de 11 de Março a 25 de Novembro e 1975 (8 meses), para além da retórica e do enfrentamento político em manifestações de rua, nunca as liberdades foram suspensas e nunca os comunistas e afins controlaram efectivamente o poder. Podemos dizer que todos suspeitavam que o PCP e a extrema-esquerda queriam impor ao país uma ditadura, a chamada ditadura do proletariado. Provavelmente. Mas a verdade é que o não o fizeram. A verdade é que apenas se pode suspeitar de uma intenção. Mas ninguém pode ser condenado por uma intenção, nem se pode julgar intenções quando a elas não correspondem actos. Muito menos se pode julgar os comunistas e esquerdistas portugueses por aquilo que fizeram os seus congéneres na Rússia, na Albânia ou no Cambodja.

Em segundo lugar, o PCP, fundamentalmente, e alguns grupos de extrema-esquerda tiveram um papel importante na resistência à ditadura de Oliveira Salazar, essa sim anuladora das liberdades públicas. E se, em Portugal, houve organização política que se bateu pela liberdade foi o PCP. Objectivamente e olhando a factos, e não a intenções ou suspeições, os comunistas portugueses foram os grandes, mas não os únicos, opositores da ditadura e os que se bateram efectivamente pela conquista das liberdades políticas. Por outro lado, durante o regime democrático o PCP e o BE têm tido um comportamento político exemplar. Respeitam as liberdades políticas, dão voz a um número significativo de portugueses, desenvolvem, mais o PCP, um trabalho autárquico de qualidade, sinalizam as injustiças sociais, evitam mesmo que certos sectores do país se radicalizem e optem por formas acção anti-parlamentares.

Em terceiro lugar, cabe perguntar, então, por que existe ainda sectores de opinião que julgam dever proibir as organizações comunistas. A resposta não parece muito complexa. Há quem não perdoe o papel dos comunistas e da extrema-esquerda na oposição à ditadura de Salazar. Certos sectores da direita vivem ressabiados com esse papel. Mais, esses sectores nada têm no seu currículo que lhes dê pedigree democrático e liberal. Muitos filhos famílias, hoje convertidos ao liberalismo e à democracia, não encontram na sua história uma herança de homens livres. São filhos dos que apoiaram ou exerceram o poder na ditadura. Tão habituados estão ao pedigree social que não perdoam que outros tenham aquilo que eles não têm.

Há ainda um outro motivo, mais denso. A força insólita, num país europeu, das organizações com referências ao comunismo deve-se a uma sociedade profundamente injusta. O peso do PCP e do BE são sinal de uma sociedade onde um grupo relativamente restrito se apropriou do bem comum e onde a distribuição dos rendimentos é feita sempre contra os mais fracos. Seria óptimo, para a produção de boa consciência moral e da boa imagem social de certos sectores, que não tivessem de se confrontar - mesmo que isso pouco afecte a sua atitude - com a denúncia da injustiça, denúncia essa que traz sempre à consciência, por muito que ela ideologicamente se proteja, a sensação de rapina que os fortes exercem sobre os fracos.

Questão final: mas se a constituição proibe organizações fascistas, não deveria proibir organizações comunistas? Não. Portugal viveu sob uma ditadura para-fascista. Portugal nunca viveu numa ditadura comunista. É bom que não esqueçamos a evidência.

17/07/09

Alma Pátria - 1: Tony de Matos - Só nós dois é que sabemos


Tony de Matos - Só nós dois é que sabemos

Estamos em época estival. Aqui começa uma rubrica sobre a alma pátria, quero dizer da minha pátria, daquela onde cresci. Quando passar o calor, talvez eu esteja melhor. Por agora, recomendo apenas uma visão atenta do vídeo. Uma lição sobre sociologia pátria. Mais uma coisa: o Tony de Matos era artista a sério, apesar de eu, na altura, achar tudo aquilo execrável, ou não achar mesmo nada. A canção foi editada num EP, em 1962, ano em que entrei para a escola primária.

Uma pandemia

Devida a umas leituras irregulares que estou a fazer, deparei-me com os nomes de Sabbataï Zevi (1626-1676) e de Jackob Franck (1726-1791). O que têm estes homens em comum? Três coisas essenciais. São ambos judeus, ambos se declararam Messias, e ambos apostataram. O primeiro converteu-se ao Islão. O segundo, ao Cristianismo. A ideia de um Messias apóstata seduziu-me de imediato. Aliás, o próprio Cristianismo está fundado, para o judaísmo, num Messias apóstata, Jesus Cristo. Poder-se-ia meditar, à maneira de Jorge Luís Borges, sobre a estranha conexão entre a ideia de Salvador e a ideia de apóstata e concluir pela proposição lógica que toda a Salvação radica numa apostasia. Mas deixemos os devaneios da imaginação. O que descobri, já que nunca me tinha interessado muito pelo assunto, foi uma quantidade enorme de Messias (ver na Wikipedia a lista). E há Messias judaicos, mas também cristãos, muçulmanos e de combinação vária. E é aqui que descubro um Messias cristão com uma curiosa doutrina; melhor, com uma curiosa prática. Jesu Oyingbo declarou-se Messias em Lagos, na Nigéria. Até aqui tudo bem. Fundou a "New Jerusalem" em Maryland, Lagos. Segundo se lê na Wikipedia, era um homem muito dado a limpezas espirituais. Consta que manteve relações sexuais com todas as mulheres da sua comunidade (camp), incluindo as suas filhas. Razão? Nada que Freud possa explicar, apenas o desejo de limpeza espiritual. Mas para que o nosso espírito patriótico não fique desiludido também tivemos o nosso Messias. Bem, nosso não será, mas descendente de Marranos. Abraham Miguel Cardozo (1630-1706) nasceu em Espanha, mas descendente de judeus portugueses de Celorico. A sua história e o seu trânsito de mero profeta a Messias pode ser lida aqui. Tem muito de portuguesa. Esta coisa de alguém se declarar o Salvador e de as pessoas esperarem também o Salvador é estranha. Poderíamos pensar que fosse apenas uma mera patologia psico-social, mas a insistência com que aparecem os Messias somos levados a pensar estar perante uma pandemia.

A guerra dos contentores

É por estas e por outras semelhantes, umas mais pequenas e locais, outras maiores e nacionais, que o regime se está a corromper a cada dia que passa. O Tribunal de Contas arrasou 0 contrato de exploração do terminal de contentores de Alcântara, em Lisboa. O contrato foi feito entre o governo e uma empresa do grupo a que pertence Jorge Coelho, a Mota Engil. Não houve concurso público e os juízes do Tribunal de Contas consideram-no ruinoso para o Estado, isto é, para os contribuintes e a comunidade nacional. E dizem mais: só serviu os interesses do promotor. Chegou a altura do Partido Socialista ir a águas, nem que seja para o Cartaxo. Depois, deverá correr com a actual elite dirigente e, esperar talvez sem grande fé, que surja gente mais capaz e com outra visão do Estado. Se continuar assim, o Partido Socialista arrisca-se a ser conhecido, no futuro, não como o partido da liberdade, mas como o da ruína do Estado

Tao Te King - III


Não exaltes os homens de mérito
para que o povo não dispute.
Não valorizes os tesouros procurados
para que o povo os não cobice.
Não exibas o que provoca a inveja
para que a sua alma não seja atormentada.

O governo do santo
consiste em esvaziar o espírito do povo,
em encher a sua barriga,
em enfraquecer a sua ambição,
em fortificar os seus ossos.

O santo age por forma que o povo
não tenha nem saber nem desejo
e que a casta dos inteligentes não ouse agir.
Pratica o não agir,
tudo permanecerá em ordem.

Colher tempestades

Eis o admirável mundo novo que estamos a construir. Trabalhadores franceses ameaçam fazer explodir fábrica. Dir-se-á que é o resultado da crise económica, da recessão e do encurtamento do mercado. É verdade. Mas esta verdade é sempre uma verdade limitada. Há o desespero do momento, mas há o desconsolo acumulado de uma vida. Os trabalhadores europeus foram educados como pertencendo não a um proletariado desenraizado, mas a uma classe média emergente. A globalização remeteu-os para onde estavam os seus pais ou mesmo os seus avós. Ao mesmo tempo, aqueles que os remetiam para essa situação prosperavam. Perante um novo desenraizamento retornam as respostas explosivas. Quem semeia ventos colhe tempestades. Não acreditam, mas elas chegarão.

Jornal Torrejano, 17 de Julho de 2009

Já está disponível on-line a edição semanal do Jornal Torrejano. É só clicar aqui e vai até .

16/07/09

Metamorfoses LV

Hans Werner Henze – Symphony No. 10

por vezes os rios tinham uma história
escutávamo-la se o coração se calava
e a tarde caía lentamente
por detrás da cinza daqueles montes

tão estranhas elas eram
águas que corriam
barcos que retornavam do passado
a vida na rochosa oclusão das margens

sonhavam os barqueiros longas travessias
ao sol quebrado pelas árvores matinais
e um rumor louco ventava desmesurado
ou um passageiro caía nas águas mais frias

são agora uma longa enfermidade os rios
sem flores a secar pelas margens
sem nuvens espelhadas no ondular
com que caminhavam exactos para o mar.


O adversário de Jardim

Enquanto o homem se mantiver na Madeira, nós, os continentais ou cubanos, ainda nos podemos rir e galhofar com a personagem. Agora, em revisitação a um dos seus topos antigos, vem propor que a proibição do comunismo passe a vigorar na constituição. Ninguém leva isto a sério. Ninguém, não. O PSD e Manuela Ferreira Leite devem levar isto muito a sério. Se o PSD quiser ganhar as eleições legislativas precisa dos votos do centro e do centro-esquerda. Nestas áreas, não há ninguém que sustente tal coisa. Pelo contrário, muita gente dessa área, perante tal ameaça, preferirá dar o seu voto aos socialistas. O que significa tudo isto? Talvez que Alberto João Jardim não esteja nada interessado que Manuela Ferreira Leite ganhe. Complexo? Não, muito simples. Ganhem os socialistas ou o PSD as próximas eleições legislativas, há uma coisa que se mantém inalterável: a falta de dinheiro. É muito mais fácil, para Alberto João Jardim, fazer chantagem política com um governo adverso do que com um governo da mesma cor. O dr. Jardim anda nisto há muito tempo e sabe o que é essencial. Sabe perfeitamente que o comunismo não representa qualquer ameaça e sabe que falar em perseguição e proibição afasta eleitores do PSD. Portanto, a conclusão é muito simples.

15/07/09

Paolo Pavan - Inside

  

Cuba e Obama

Começou o degelo. Obama suspendeu por seis meses a lei de sanções a Cuba. Para o regime cubano esta boa vontade americana é muito mais perigosa do que o boicote e as duras sanções. Ao eliminar as razões de vitimização das elites políticas cubanas, Obama dá um passo decisivo para que a democracia ocidental se torne mais e mais apetecível a um povo com baixíssimo nível de vida e nula liberdade política. O povo cubano precisa de comer, os americanos precisam de pôr fim a muitos conflitos inúteis, os próprios dirigentes comunistas precisam de ter um futuro político para além da sombra de Fidel Castro. Tudo parece conjugar-se para um final feliz, embora lento. Com Bush filho os americanos tiveram 8 anos de exercício da força e de ausência de inteligência. Com Obama regressou a inteligência. Veremos o que o mundo e, neste caso, Cuba apreciam mais.

14/07/09

Intromissões inaceitáveis

Comecei por ler isto no Ponteiros Parados. Curioso, segui para aqui. Mas, embora hipertenso, não estava particularmente interessado em campanhas profilácticas, tais como a que está por detrás deste belo slogan "an orgasm a day keeps the doctor away" e que talvez visem assegurar o bem estar cardíaco das futuras gerações. Lastimo muito a sorte das mulheres frígidas e dos homens impotentes e já estou farto de polémicas sobre a educação sexual na escola. Por isso segui para aqui, onde leio isto: "PARENTS should avoid trying to convince their teenage children of the difference between right and wrong when talking to them about sex, a new government leaflet is to advise. " O que me choca não é tanto a ideia de que no processo de transmissão de valores morais, dentro da família, o sexo seja excluído. O que é mesmo chocante é a intervenção do governo. Depois, toda esta ideologia está assente num equívoco: que pode haver sexualidade humana sem valores morais. Nós, seres humanos, não somos nem puros animais que estejam aquém da moralidade, nem deuses que estejam para além dessa mesma moralidade. Há ainda uma outra coisa: se não são os pais a transmitir, relativamente à sexualidade, os seus valores de bem e de mal, onde as crianças e os jovens os vão buscar? No panfleto governamental, parece surgir a ideia de uma auto-descoberta, como se fosse possível o uso da razão sem uma educação da razão. Na verdade, o que é absolutamente imoral é um governo ocidental intrometer-se na educação moral dada pelas famílias e, ainda por cima, em nome do bom selvagenzinho do Rousseau. É pena que o Labour em vez de se preocupar com os problemas políticos, económicos e sociais de grande parte da população, se preocupe com a opinião que se possa transmitir sobre os negócios da cama. Claro, esta inaceitável intromissão na vida das pessoas é feita, como sempre, em nome da saúde. A saúde está para o ocidente como Alá para o mundo islâmico.

Palma Inácio

Morreu hoje, aos 87 anos, Hermínio da Palma Inácio, um dos mais conhecidos opositores à ditadura do Prof. Salazar. Os sectores mais comprometidos com o anterior regime gostavam de associá-lo com o assalto a bancos, o que é verdade. Mas não toda a verdade. Esses assaltos eram eminentemente políticos e serviam para financiar a luta armada contra a ditadura. Nasceu pobre e morreu pobre. Nunca foi um pragmático, apenas um herói romântico. Para a sua aura romântica contribuiu o facto de ter sido, na história mundial, o primeiro militante a desviar um avião para fins políticos. Mas nada de violências. O avião da TAP serviu para "lançar cerca de 100 mil panfletos com apelos à revolta popular contra a ditadura". Nada de explosões nem de choque contra torres. Mais do que um político, Palma Inácio foi um oposicionista e o 25 de Abril tornou-o politicamente irrelevante. Se fosse americano, seria candidato a personagem de Hollywood.

Não sire, é uma revolução!

Duc de Liancourt

O início da vitória burguesa e do poder do terceiro-estado. A 14 de Julho, o povo de Paris amotina-se. Dirige-se para a Bastilha que serve de arsenal. Com o entusiasmo os amotinados massacram o Marquês de Launay, governador da Bastilha. Depois, como a um povo em bando nunca falta criatividade, passeiam a cabeça de Launay, espetada numa lança, diante do Palais-Royal. A Bastilha tinha caído nas mãos da burguesia insurrecta. O Duque de Liancourt avisa o Rei, Luís XVI. Este pergunta: «Mas é uma revolta?» Responde de Liancourt: «Não sire, é uma revolução!» Foi há 220 anos.

Justiça célere

A contrastar com a nossa, a justiça iraniana é célere. Condenados ontem à morte, 13 dos 14 rebeldes sunitas foram executados hoje de manhã. Segundo o Público, os "14 rebeldes condenados ontem foram dados como estando “em guerra contra Deus” e sendo “corruptores na Terra” por terem participado nas acções do “grupo terrorista dirigido por Righi”. Mas tanto quanto se sabe, nenhum destes homens planeou um atentado contra Deus ou organizou um exército ou uma milícia para apanhar Deus desprevenido e matá-lo, coisa manifestamente impossível tendo em conta o conceito de Deus. Seja como for, o que nós notamos é que aquelas paragens, que já foram das mais civilizadas do planeta, há um desporto que ultrapassa em muito a popularidade do futebol: matar seres humanos. Sunitas e xiitas estão bem colocados na tabela classificativa, matando-se entre si com denodo e muito profissionalismo. Quando estão cansados de se matar entre si, param e tentam matar ocidentais. Caso não haja ali à mão nenhum, matam quem por lá aparecer. Umas vezes a táctica é o terrorismo de iniciativa particular, outras é o terror de Estado, com a Justiça, e célere que ela é como convém, a servir o Terror. E o melhor é não nos rirmos por cá. Católicos e protestantes já fizeram o mesmo e ainda agora a marcha dos Orange, em Belfast, Irlanda do Norte, provou os distúrbios e feridos tradicionais. Matar ou violentar em nome de Deus deve dar um gozo infinito. É o que dá quando o absoluto cai nas mãos de seres relativos.

Trabalhos de feitiçaria

Por causa deste senhor e da senhora que superintende a educação chegou ao que chegou. Um dos aspectos mais graves é a contínua politização, entendida aqui como luta político-partidária, dos resultados dos exames nacionais. Aquilo que deveria ser motivo de reflexão serena e um indicador socialmente útil transformou-se, devido a certas feitiçarias dos nossos feiticeiros-mores, num espaço estéril de polémica e numa telenovela ao nível daquelas que a Justiça proporciona para gáudio da comunicação social e de nós, pobres indígenas, que não temos nada com que nos entreter. Ontem saíram os resultados dos exames do 9.º ano e logo a maga chefe veio anunciar que o país se deveria congratular com tais resultados, talvez organizar umas festas dos santos populares tão ao gosto das comunidades educativas, digo eu. Já a Associação de Professores de Português exige que o Ministério da Educação, isto é, a Confraria Nacional de Mágicos e Feiticeiros, explique a queda dos resultados, os quais apesar de caírem ainda merecem que o país se congratule com eles, segundo a Maga-Chefe. Portanto, os professores de português que se preparem. Se o PS ganhar as eleições com maioria absoluta lá vão apanhar com mais um daqueles extraordinários planos de salvação, como o que impera na Matemática. A educação tornou-se o refúgio dos amantes do plano. Todos os que adoravam os planos quinquenais soviéticos ou os planos de fomento do Estado Novo Salazarista encontraram um ninho e um nicho para aplicarem as suas inovadoras ideias sobre planeamento e planificação, em última análise ideias que conduzem à terraplanagem do saber e ao achatamento e à rasura do que deveria ser elevado.