14/07/09

O amor pela esquerda

Por causa da candidatura do dr. Costa à Câmara de Lisboa e do não entendimento do PS com o PCP e o BE, Sócrates vem lembrar que nunca houve vitórias da esquerda com o enfraquecimento do PS. Até pode ser verdade, mas como pode estar tão preocupado com a esquerda um homem que, durante todo uma legislatura, não tomou uma medida de esquerda, salvo aquelas que fazem parte do folclore fracturante e mesmo essas só quando ainda pensava que era mais forte do que Cavaco Silva? Ouvir Sócrates falar de esquerda, mesmo a mim que, sendo de esquerda, sou-o de uma forma particularmente moderada, dá vontade de rir. O PSD de MFL teria governado mais à esquerda do que o PS de Sócrates e, porventura, ter-se-ia exibido menos ao lados dos poderosos do dinheiro. Teria mais pudor e a séria vigilância do PS, que na oposição é um feroz cavaleiro defensor dos pobres e oprimidos, embora no governo seja um agente eficaz da produção da pobreza e da opressão. O eng.º Sócrates devia, assim, fazer um favor a todos os portugueses não usando a palavra esquerda, se não toda a gente desata a rir, até o pessoal de direita. Se Sócrates quer fazer um favor à esquerda, então que se demita de Secretário-Geral do PS e leve com ele toda aquela gente que pulula na sua direcção.

13/07/09

Marguerite Duras - India Song 2

Não, o filme de Marguerite Duras, India Song, não envelheceu. Os trinta e quatro anos que passaram não lhe trouxeram rugas nem cabelos brancos. É tão verosímil, ou inverosímil, hoje como o deve ter sido em 1975. A questão que se pode colocar é se aquele objecto é, de facto, um objecto pertencente à categoria “cinema”.

Marguerite Duras diz: “Como eu tenho uma espécie de desgosto em relação ao cinema que tem sido feito, enfim, da maior parte do cinema que tem sido feito, eu queria retomar o cinema do zero, numa gramática bem primitiva… bem simples, bem primária: recomeçar tudo”.

Em India Song as vozes estão deslocadas dos corpos. Os corpos pairam em cenários difusos, são transformados em fantasmas. Os fantasmas aparecem mas não falam. A palavra, seja diálogo ou narrativa, é exterior, uma espécie de comentário à dança corporal que as imagens exibem. Aqui há a conexão com o cinema primitivo, o cinema mudo onde as imagens são acompanhadas ou comentadas por uma música exterior. No filme de Duras, é a própria palavra que é exterior. Na tradição grega, a grandeza do herói reside tanto nas grandes acções como nas grandes palavras, prática e teoria conjugavam-se para tornar memorável, e por isso imortal, um homem.

O cinema, porém, é um produto moderno e a modernidade vive da separação, do cisma entre teoria e prática [em Descartes é tão luminoso o cisma que o filósofo se vê obrigado a adoptar uma moral (princípios práticos) provisória]. A verdadeira essência do cinema é essa separação entre o agir e o falar, por isso o cinema verdadeiro é o cinema mudo, onde apenas existe a mobilização dos agentes para e na acção. Percebemos assim uma estranha conexão entre o agir moderno e o agente fantasmático, como se toda a natureza do homem moderno fosse a de um fantasma, cuja imagem aparece, é literalmente aparição, mas não tem voz.

Mas não é a modernidade o “lugar” onde todos têm voz, onde todos acedem ao espaço público? Onde todos têm voz, já ninguém tem voz. A voz é um princípio aristocrático e não democrático. Mas na modernidade, essa modernidade cuja essência se revela numa arte mecânica como o cinema (que “estranhas” relações se podem estabelecer entre a mecânica e a cinemática), não se disseram e não se dizem coisas interessantes? Sim, mas Duras mostra no filme, de uma forma cruel, o alcance do dizer moderno: puro comentário. A voz na modernidade é comentário, sobreposição nascida da separação, voz que vem do além. Na modernidade não há heróis, pois às grandes acções não correspondem grandes palavras.

India Song é uma história de amor. Não. É um comentário narrativo a uma história de amor. Melhor, é um exercício cinematográfico que tenta conjugar o que não tem conjugação: a história e o amor. Não há histórias de amor. Onde penetrou a história morreu o amor. O filme de Duras fala-nos de tudo isso: da separação entre palavra e corpo agente, entre história e amor, entre modernidade e pré-modernidade (a Índia, o Ganges, os leprosos, tudo isso que já não vemos, apenas suspeitamos), fala-nos essencialmente da mortalidade a que estão confinados, por terem perdido a voz, os que cometem grandes acções.

12/07/09

Marguerite Duras - India Song

Este fim-de-semana o averomundo tem feito gazeta. Bem podia, agora, sentar-me e escrever um ou dois postais para dar vida a este sítio. Mas vou antes lá para dentro ver isto. Não vi na devida altura, em 1975 ou 1976. Comprei-o há dias. Temo, porém, que o filme tenha envelhecido de tal maneira que hoje já não faça sentido. Como muitos dos que têm formação em Filosofia, habituei-me a não dar importância às datas de edição e publicação dos objectos culturais. Platão ou Aristóteles são tão actuais hoje como no tempo deles. Mas esta actualidade acrónica de certos objectos culturais só funciona mesmo com aqueles que são universais. Verei daqui a duas horas se o filme de Duras se aguenta com mais de 30 anos em cima.

10/07/09

Metamorfoses LIV

Morton Feldman – Instruments

nada trago no súbito coração
as ervas foram cortadas
e da ceifa não restou sombra
ou voz delicada e breve
que pudesse dizer teu nome

o mundo é uma colecção de ruínas
pequenas conchas partidas
sobre canaviais incendiados
e barcos pelo mar à deriva

tenho tudo isso nesta fotografia

guardo-a para os dias felizes
quando o coração se ilumina
e só sombras crescem
na viagem em que desfaleço

Argumentos de autoridade

Por que razão será tudo tão mau em Portugal? Como é notório, sou um leitor atento e interessado no que escreve Vasco Pulido Valente. Mas a crónica de hoje no Público (sem link) é um exemplo da nulidade da opinião. Esta nulidade nem vem da matéria em questão, mas da forma como é apresentada. Trata da direita em Portugal e do mérito do CDS. O artigo apresenta quatro razões para o facto de a direita, neste caso o CDS, ser relativamente fraca em Portugal (1.ª - a falta de legitimidade democrática dos seus fundadores; 2.ª O não ter entrado nos governos provisórios pós-25 de Abril; 3.ª A passividade e o oportunismo que a ditadura incutiu na direita; 4.ª O carácter miserável e inigualitário do país ser adverso à direita. Até aqui tudo, apesar de discutível, é compreensível. O que é incompreensível é o corolário final. Cito: "Só que os tempos mudam e o CDS merece crescer. Esperemos que Paulo Portas consiga o improvável." VPV não apresenta um único argumento em que fundamente esta conclusão final. Explica a falta de mérito originário do CDS, mas não mais do que isso. Relativamente ao suposto mérito do CDS, apenas fornece um hipotético argumento: os tempos mudam. O facto de os tempos mudarem não justifica nada, nem o merecimento do CDS crescer nem o seu contrário. Isto não é sério. É apenas a expressão de um desejo, o que é uma característica do género literário a que chamamos "opinião". No entanto, faz parte da retórica desse género a apresentação de razões que justifiquem os nossos desejos apresentados como teses razoáveis. E VPV não o faz. A sua tese funda-se apenas na autoridade que ele próprio representa, portanto uma falácia. Isto não respeita os leitores.

Uma epifania

Há notícias que são uma epifania. Epifania não de um deus, mas da nossa natureza eternamente 'tuga'. Esta história mostra que há alguma coisa que em nós, portugueses, não funciona. Não é apenas a necessidade de durante anos e anos se torturar os outros sem qualquer razão ou sentido, mas o julgar-se acima da lei e das disposições que regem a vida em comum. Não é só no caso dos vizinhos ruidosos, é em todo o lado da vida social, nomeadamente no comportamento que se tem ao volante de um automóvel. De facto, existe uma subcultura que acha que tem o direito de partilhar dos benefícios da vida em comum, mas que julga não ter qualquer tipo de deveres para com esse viver em comum. Estes comportamentos, contudo, são apoiados numa justiça tão lenta que os prevaricadores se acham omnipotentes. Como é possível que um processo sobre um conflito com a vizinhança por causa do ruído nocturno demore quase oito anos a estar definitivamente resolvido?

Novas Oportunidades em avaliação

Há muito que não dou qualquer crédito, em termos educacionais ou políticos, ao Engenheiro Roberto Carneiro. A sua imensa obra, infelizmente ela é imensa, na área da educação teve um efeito político maléfico, e é o menos que se poderá dizer, sobre o sistema educativo nacional. O facto de ter aceite o papel de avaliador-mor das Novas Oportunidades não reforçou o prestígio nem dele nem dessa invenção saída das mentes brilhantes que conduzem a propaganda socialista. Ora, perante a evidência de as Novas Oportunidades terem pouco impacto no mercado de trabalho, o que diz a avaliação dirigida por Roberto Carneiro? Leia-se isto: "Contudo, para os autores, os ganhos na auto-estima dos participantes é um dos efeitos que mais compensaram e que poderão mudar as empresas."

As Novas Oportunidades são assim uma espécie de psicanálise para os pobres. Não tornam as pessoas mais eficientes e mais preparadas, mas resolvem os traumas de infância, as frustrações sociais, algum complexo de édipo não desfeito. Não havendo evidências sobre a repercussão de tão extravagante programa no mundo do trabalho, para onde ele supostamente se dirigiria, os avaliadores externos especulam sobre a relação entre os ganhos na auto-estima e a futura mudança das empresas. O nível da avaliação roça então a leitura do voo das aves, das entranhas dos pássaros, ou das cartas do Tarot.

Mas o "estudo" não poderia deixar de tocar os sistemas tradicionais de ensino e sobre eles verter o já tradicional fel que infesta as mentes sócio-eduquesas. "80 por cento dos que completarem o programa consideram que o ensino é igual ou melhor que o regular."

Seria interessante saber o percurso escolar desses 80% no ensino regular, bem como a sua atitude em sala de aula e perante o trabalho que a escola regular exigia. Que validade tem esta apreciação feita por pessoas que não frequentaram o ensino regular ou que tiveram insucesso nele? A avaliação que permite respostas destas também faz parte do programa de elevação da auto-estima? O que pretende a equipa do Engenheiro Carneiro? Propor a transformação do ensino regular em cursos das Novas Oportunidades?

É pena que o Engenheiro Roberto Carneiro tenha perdido uma nova oportunidade para estar calado e não fazer mais mal do que já fez ao sistema educativo nacional. É pena...

Justiça e Preconceito

O que diríamos da Justiça Portuguesa se o caso Nicolas Bento se tivesse passado em Portugal? Talvez por se tratar de um emigrante, ainda por cima com um estranho nome, Amilton Nicolas Bento, talvez por cansaço com casos mediáticos na Justiça, talvez por o processo ter decorrido na sagrada e intocável Albion, a sua condenação a prisão perpétua não indignou muitos dos habituais indignados de serviço. E no entanto, se olharmos para aquilo que os jornais dizem, muitas dúvidas se levantam relativamente à bondade e à qualidade da Justiça britânica. O mínimo que se pode dizer é que deveria ter funcionado, desde o início, o velho princípio in dubio pro reo. Mas isso seria o mínimo, como o veio a reconhecer a própria Justiça inglesa. A pergunta que apetece fazer é então a seguinte: quanto terá pesado, no processo original, o preconceito contra o estrangeiro imigrado? Esta pergunta é legitimada pela simples constatação de a condenação estar fundada em "provas" tão frágeis como aqueles que ditaram, em primeira instância, a sorte de Nicolas Bento. O que levanta, mais uma vez, o problema da preparação dos agentes judiciais. O velho filósofo francês, Gaston Bachelard, recomendava que todos os cientistas deveriam fazer uma espécie de psicanálise antes de iniciarem o trabalho de investigação, para depurarem as suas teorias de preconceitos produtores de erro. Se isso é pertinente para o caso da ciência, o que dizer no caso da Justiça? É que esta para ser justa necessita de se fundar na verdade dos acontecimentos, e a verdade ou a falsidade do que se estabelece como facto pode ter consequências demasiado desastrosas para a vida de um ser humano.

Jornal Torrejano, 10 de Julho de 2009


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09/07/09

Metamorfoses LIII

Andrzej Panufnik – Sinfonia Votiva

ardeu a mesa onde cantaste o amor
a cinza é a deusa que resta
mais a vazia mão estendida para os varais
neles o tempo atrela a vida inteira

os jardins que foram os teus
são estranha propriedade –
exóticos senhores
cultivam frutos e flores
suspensos no delírio
que um dia te movera

nem vale a pena abrir para a desmesura
os olhos tomados pelo espanto
a história é uma herança de dissabores
e as flores da manhã sempre murcham
na infinita quietação da tarde

A gripe avança

A coisa começa a tornar-se desagradável. Nas últimas vinte e quatro horas foram confirmados mais dez caso de gripe A. A progressão da doença parece acelerar-se. A princípio, tinha a ideia de que era uma coisa longínqua e os primeiros casos por cá não passavam, havia essa sensação, de casos esporádicos. Agora a velocidade de propagação parece não parar de aumentar. Penso no romance de Albert Camus, A Peste. A cidade de Oran, une ville ordinaire et rien de plus qu'une préfecture française de la cotê algérienne, é tomada pela peste bubónica. Para proteger o mundo da epidemia, a cidade, essa cidade vulgar, é fechada. Simples. Pena é que fora da imaginação literária isso não seja possível fazer. Até os vírus gostam da globalização.

A caixa de Pandora ambiental

O grande problema das economias de mercado reside no ambiente. Este parece, até agora, um limite intransponível para a voracidade do homo faber. O modelo de vida que resulta do desenvolvimento económico das nações assenta na contínua subida do consumo, de forma a que se gere uma contínua subida da produção, o que origina riqueza e emprego, os quais produzem estabilidade social e política. Mas este aumento de produção implica o consumo sempre maior de energia. O nó górdio parece estar aqui. Ou o desenvolvimento da ciência e da tecnologia permite, em tempo útil, encontrar energias limpas e baratas (um desejo do tipo sol na eira e chuva no nabal), ou todo o modo de vida dos países ricos, emergentes e pobres terá de mudar drasticamente. É preciso compreender bem uma coisa: o consumo frenético e excessivo é o que permite às sociedades modernas e em vias de modernização subsistirem. Uma retracção da procura e uma prática generalizada da poupança seriam uma catástrofe social e política, com um desemprego incontrolável e a pauperização generalizada das populações. Por isso, pode-se perceber as reticências da China e da Índia em reduzir em 50%, até 2050, a emissão de gases com efeito de estufa. Agora que descobriram as virtualidades do capitalismo ocidental parece não estarem interessadas em partilhar os problemas que esse mesmo capitalismo traz. Aquilo que está em jogo, porém, é a possibilidade de, no futuro, ainda existir vida humana digna desse nome sobre o planeta, para falar à maneira de Hans Jonas. Nós, ocidentais, abrimos a caixa de Pandora e agora falta-nos poder para a fechar.

Os conflitos na China

Para uma primeira compreensão dos actuais conflitos na China, ler isto no Público.

Do estado de espírito ao carácter

O que distingue o PS do PSD? Sócrates esclarece: uma questão de atitude. O combate eleitoral está reduzido à escolha de um estado de espírito ou a uma inclinação psicológica. Sócrates conseguiu reduzir o velho Partido Socialista ao grau zero da política. Não é uma escolha entre projectos diferentes e alternativos, não é uma escolha entre diferentes interesses a defender, não. Segundo o secretário-geral do PS, há que escolher entre “quem tem confiança no país, vontade e ambição” e quem faz da “resignação, pessimismo e negativismo” uma “linha política”. O que Sócrates confessa, então, é que entre o PS e o PSD não há qualquer diferença, tirando o suposto estado de espírito que dá matéria à tal atitude. Mas perguntará o leitor e não haverá diferença entre o Estado social do PS e o Estado imprescindível do PSD? Tirando a formulação vocabular não haverá grande diferença. Aliás ambas as formulações são equívocas e, em última análise, idiotas. Não há Estado, seja mínimo ou máximo, que não seja social. Não há Estado que não seja imprescindível, tudo dependendo da pergunta 'imprescindível para quê?' Sócrates corre, porém, um risco. E se os eleitores em vez de quererem comparar estados de espírito, sempre passageiros e efémeros, preferirem comparar o carácter dos candidatos a primeiro-ministo, sempre mais estáveis e cristalizados?

08/07/09

Metamorfoses LII

Jorge Peixinho – Sobreposições

um sangue sonâmbulo viaja no rumor
dos teus passos e em cada sonho
sobrepõe-se à sombra da melancolia
onde ergues uma vida de cansaços

e grita esse sangue no terror da noite
chama com voz de zinco
os que te amamentaram
quando a terra ainda tinha rios de leite
e das colmeia corria doce o mel

frágil melancolia onde te sonhas
aí dependuraste as últimas bandeiras
mas o prazo chegou a coberto dos dias
e restam-te apenas mastro vazios
de onde levaram pátrias e fronteiras

A cidade de Torres Novas

Faz hoje 24 anos que a vila de Torres Novas foi elevada à categoria de cidade. Confesso que isso nunca me aqueceu nem arrefeceu, mas hoje tomei a decisão de não esquecer a efeméride. Quem quiser saber alguma coisa sobre o concelho que tem por sede Torres Novas pode ir até à página da Câmara Municipal. Pode ver que somos uma antiquíssima comunidade, muito anterior à fundação de Portugal e que está na primeira linha dessa fundação. Isso é uma coisa que deve orgulhar os torrejanos. Está inscrito na memória genética, bem como o rio Almonda, o Castelo e o foral outorgado por Sancho I, em 1 de Outubro 1190, data assinalada como a da fundação do município. O resto são coisas que vêm e vão, mas que sem essa estrutura mais arcaica são apenas risíveis.

Bento XVI- Encíclica Caritas in Veritate

A nova encíclica papal, Caritas en Veritate, é uma importante reflexão sobre a questão social e mais uma prova da profundidade intelectual de Joseph Ratzinger (quem está atento à filosofia percebe mesmo como o diálogo com pensadores ateus, por exemplo, Jürgen Habermas, se encontra plasmado na carta encíclica. De certa maneira, este documento é uma releitura, à luz da contemporaneidade, da encíclica de Paulo VI, Populorum progressio. O texto é composto, para além da Introdução e Conclusão, por seis capítulos. Os seus títulos são elucidativos do desígnio de Ratzinger. Cap. I - A MENSAGEM DA POPULORUM PROGRESSIO; Cap. II - O DESENVOLVIMENTO HUMANO NO NOSSO TEMPO; Cap. III - FRATERNIDADE,DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO E SOCIEDADE CIVIL (veja-se a análise muito pertinente sobre o mercado, a sua função, a sua importância e os seus limites. Veja-se, também, como se distingue os vários níveis de justiça e como a justiça comutativa, inerente às relações de mercado, não anula, pelo contrário, acentua a necessidade da justiça distributiva e da justiça social. Quem achava Ratzinger um fascista, ou um cripto-agente do capitalismo selvagem, deve ficar espantado com esta doutrina social bem à esquerda, mais à esquerda que o nosso engenheiro e o seu partido. Todo o capítulo é, porém, uma lição de teoria política que deve deixar os nossos pseudo-liberais de cabelos no ar.); Cap. IV - DESENVOLVIMENTO DOS POVOS, DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE; Cap. V - A COLABORAÇÃO DA FAMÍLIA HUMANA (Bento XVI escreve aqui: A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros); Cap. VI - O DESENVOLVIMENTO DOS POVOS E A TÉCNICA (aqui há uma importante reflexão sobre a questão da técnica. Escreve Ratzinger: desenvolvimento tecnológico pode induzir à ideia de auto-suficiência da própria técnica, quando o homem, interrogando-se apenas sobre o como, deixa de considerar os muitos porquês pelos quais é impelido a agir. Por isso, a técnica apresenta-se com uma fisionomia ambígua. Nascida da criatividade humana como instrumento da liberdade da pessoa, pode ser entendida como elemento de liberdade absoluta; aquela liberdade que quer prescindir dos limites que as coisas trazem consigo).

Um texto a ler aqui.

A feitiçaria do Ministério da Educação

Quando se começa a cair não há possibilidade de suster a queda, e quanto mais se faz para a evitar mais se acelera o processo de decadência. O actual Ministério da Educação armou-se em feiticeiro e andou durante quatro anos a brincar aos feitiços e à magia (bem negra a magia, por sinal). Como sempre acontece com os aprendizes de feiticeiro, não demorou até que o feitiço se voltasse contra os próprios. Depois de ter politizado, governamentalizado e partidarizado os resultados dos exames, e os próprios exames, o Ministério da Educação não quer arcar com as responsabilidades dos insucessos. A preclara Maria de Lurdes Rodrigues acha que os resultados da Matemática se devem à comunicação social, e o extraordinário mágico Valter Lemos acusa a SPM, entre outros agentes inimigos, pela queda dos resultados. Já não falo na honestidade intelectual que deveria pautar esta gente, mas o próprio interesse político aconselhava a não cair no ridículo. Mas pessoas que sempre agiram, durante quatro anos, sem qualquer tipo de verticalidade política não conseguem sequer perceber quando chegou a hora de estar calados. Que esta gente se estatele e parta bem os ossinhos da sua carreira política é muito bem feito, mas que tudo isso seja feito à custa da destruição de uma profissão, a de professor, e dos alunos é que é absolutamente inconcebível. Seja quem for que vier a seguir não será grande coisa, mas esta gente tem de ser corrida, custe o que custar. A sua presença no governo, porém, deve perdurar na memória de todos nós durante muitos e longos anos, como exemplo do que há de mais negativo e prepotente ao nível da governação educativa. O país começa a ficar farto de aprendizes de feiticeiro.

06/07/09

Metamorfoses LI

Karlheiz Stockhausen – Gesang der Junglinge

os anjos calaram-se perderam a língua
pedras silenciosas na viuvez da planície
olham imponderáveis o horizonte
presos em suas asas de rosmaninho

vêm de mãos fechadas e corpo vazio
e na alma trazem um canal de tulipas
por onde sopram um vento negro e frio

são anjos da tempestade sem esplendor
e riem na tarde cansada ao passar o umbral
que separa do gélido céu a terra ardente

navegam nas águas de paraísos perdidos
e trazem na testa uma estrela de seda
onde vemos se de olhos puros e erguidos
um risco de carvão na frágil labareda

Vergílio Ferreira - História

Política. É a forma mais à mão de se ser História, Mónica, de ter a História a trabalhar por conta, de empernar talvez com ela e ir com ela para a cama, mesmo que depois nos corneie — e desculpa a metáfora (é metáfora?) É a forma mais visível de o destino parecermos nós e mesmo de não haver mais História depois de nós para historiar. Porque nós estamos no limite e o que se segue já não existe, que engraçado. E se existe é na forma de lhe darmos ordens para cumprir depois, meter o futuro aos varais ao nosso mundo. Porque entretanto a História foi-lhes tramando a vida na própria vida que engendraram e o futuro a vem a fazer-lhes em cima — desculpa, querida. [Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra. Quetzal: 84]