06/07/09
A autonomia do ensino superior
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05/07/09
Luta de classes
O campo da luta de classes não tem fim. Está enganado quem pensa que ele se restringe ao mundo do trabalho, aos campos e fábricas, onde burgueses e proletários se defrontam eternamente. Não, todos os aspectos da vida são palco de uma luta fracturante. Veja-se a alteração da estratégia onomástica das classes populares. Segundo o Público, o povo começa a apropriar-se dos nomes que até há bem pouco tempo pertenciam às melhores famílias da pátria. Em 2008, os seis nomes femininos mais escolhidos foram Maria, Beatriz, Ana, Leonor, Mariana e Matilde. No masculino, as opções recaíram em João, Rodrigo, Martim, Diogo, Tiago e Tomás. Esta popularização dos nomes associados a certas elites é um manobra táctica de grande significado simbólico. Ao desapossar as boas famílias da exclusividade e da diferenciação que um nome tradicional traz, as classes populares estão a obrigar as elites a refugiarem-se, para se diferenciarem, nas Cátias, nas Vanessas, nas Irinas, nos Rubens, nos Márcios, nos Fábios. Quem, nos dias de hoje, vai chamar ao seu filho Martim ou Matilde? Como se vê, não há tréguas nesta eterna luta entre diferenciadores e igualitaristas.
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Jorge Carreira Maia
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Marcadores: Vida Material
Da vida do espírito - LER
A LER já foi uma das revistas mais belas que se publicaram. A nova série não tem a qualidade plástica da anterior, mas mesmo assim é uma belíssima revista. Num mundo de imagens, a LER trata de objectos e pessoas estranhos, livros e leitores. Talvez no futuro a revista seja considerada uma revista de Arqueologia e de Pré-História. O número de Julho traz na capa Vasco Pulido Valente e lá dentro uma entrevista com ele. Só isto justifica os 5 euros que custa. Pulido Valente diz mal de muita gente (Saramago - uma derivação da literatura da América Latina, Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís), mas explica por que razão ela não poderia nunca ser escritor. Para ser escritor é necessário ter uma voz e ele apenas tem uma vozinha. Na LER há muitas coisas mais sobre livros, saliento apenas o extracto de uma reedição de Eduardo Lourenço, Esquerda na Encruzilhada ou fora da História? (1986) Haverá temática política mais actual?
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Marcadores: Vida do Espírito
Da vida material - Wine (Junho)
A Wine é uma revista de vinhos que vai já no n.º 36 (Junho). Não é apenas pela elegante concepção que vale a pena comprar a revista. Fala-nos do mundo dos vinhos e da gastronomia, coisas indissociáveis. Este número traz uma reportagem com seis produtores de Alvarinho, aquele vinho extraordinário que só se produz, a partir da casta do mesmo nome, nos concelhos de Monção e Melgaço. É verdade, no outro lado da fronteira também há, mas adquire aí o estranho nome de Albariño e não sei se é do nome, se da nacionalidade, aquilo não sabe ao mesmo. Vale também a pena, neste número, ler a opinião de Charles Metcalfe sobre os vinhos do Porto de 2007 (Após esta prova de vinhos do Porto, se disser que atrobuí 90 ou mais pontos a 25 dos 42 vinhos presentes talvez dê um indício do meu entusiasmo...). Não esquecer ainda o trabalho sobre a cozinha beirã. Mas toda a revista é um prazer e há a oportunidade de descobrir o que há de mais dinâmico, em Portugal, no mundo dos vinhos. E nunca esquecer a divisa que se está a apossar do averomundo: não há nada mais espiritual do que a vida material.
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Marcadores: Vida Material
Da vida material - Blue Cooking (Junho)
Já tinha visto cá por casa a Blue Cooking, mas desatento como sou não tinha passado os olhos pela revista. Hoje, porém, calhou pegar na de Junho. Desde a concepção gráfica até às receitas sugeridas, passando pela crítica, a Blue Cooking é um belo e adequado objecto. Isso mesmo, um objecto material que dá prazer tocar, olhar e imaginar aquilo que poderemos saborear. Pecado da gula? Pelo contrário, introdução à redenção. Não foi numa ceia, a última, que o Cristo preparou a redenção da humanidade sob o império do pão e do vinho? Os tempos tornaram-se mais complexos e a perseguição dos dietistas quase se tornou direito constitucional. Mas há que resistir, enquanto se pode. Deixo aqui duas sugestões da Blue Cooking de Junho. Uma sopa de abacate e camarão e uma salada de vegetais queijo feta. Receitas? Bem, isso já me ultrapassa e sempre se pode consultar a própria revista.
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Marcadores: Vida Material
04/07/09
O estudo da SEDES
O estudo efectuado pela SEDES sobre o actual estado do regime político tem aspectos, ligados à questão do poder, bem desagradáveis. Tanto o poder judicial como o poder político recebem uma avaliação bastante negativa. Esta avaliação confirma apenas a percepção comum de um real e efectivo afastamento entre as elites político-judiciais e o povo que elas, putativamente, deveriam representar e defender.
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03/07/09
A renúncia de Maria João Pires
Maria João Pires, segundo noticia o Público, vai renunciar à nacionalidade portuguesa. Torna-se apenas e só cidadã brasileira. A causa é o ter-se cansado "dos coices e pontapés que tem recebido do Governo português", a propósito do projecto de Belgais. Não faço ideia de quem tem razão, se a pianista, se o governo. Estes projectos utópicos sempre me pareceram excessivos e inadequados à realidade portuguesa. Mas isso é irrelevante. O que merece nota é a reacção de muita gente na caixa de comentários do Público. Ali está o pior de nós. E eu não acho que se deva ter uma reverência especial por quem quer que seja, nem acho que o Estado tem de alimentar os devaneios dos nossos artistas. Mas em muitos daqueles comentário, e já ultrapassaram os 400, ressuma a pura inveja e a ódio àquilo que é grande, e Maria João Pires, mesmo que Belgais seja um utopia sem sentido, é uma grande pianista. É por isso, e não pela falência de Belgais, que Portugal nunca deixará de ser um Portugal dos pequeninos.
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Marcadores: Sociedade
Grandes Armazens do Chiado
O fascínio do passado reside na sua imperfectibilidade. Eu sei que as nossas representações desse passado são perfectíveis, mas o passado em si é absolutamente perfeito e como tal imposível de aperfeiçoar. Quando nos deparamos com algo vindo do passado, a primeira coisa que damos conta é da sua absoluta superioridade relativamente ao presente. Nisto não há nostalgia, mas apenas a constatação de um facto. O presente não passa de um híbrido entre o que está concluído e o que está em aberto. O passado, pelo contrário, é um animal de raça pura, de pedigree assegurado, nele não há possibilidades em aberto, tudo está fechado, concluído, feito, perfeito. Por exemplo, estas imagens que recolhi no Beautiful Century (um blogue a visitar regularmente) são a prova do que está dito. Comecemos então a digressão pelos Grandes Armazéns do Chiado, no ano da graça de 1910. Esta primeira imagem diz respeito à back cover do winter catalog, como escreve a autora do blogue. Em 1910, os Grandes Armazéns do Chiado eram um império distribuído pelo país fora. Aveiro, Braga, Faro, Coimbra, Evora (sem acento), Portalegre, Covilhã, Lisboa, Porto, Setubal (sem acento), Vizeu (assim mesmo), Funchal, Caldas, Beja, S. Miguel. Tenho a ideia de ver antigas fotografias de Torres Novas com uma agência dos Grandes Armazéns do Chiado, na praça 5 de Outubro. Como se vê, a proliferação dos hipermercados não é uma invenção do eng.º Belmiro de Azevedo. Já no tempo da Monarquia isso acontecia. Uma viagem atenta pelos desenhos não deixa de ser particularmente interessante. Toda uma lição de sociologia pátria está ali inscrita. Atente-se apenas nas figuras humanas das imagens referentes a Lisboa e à Covilhã. O que me fascina, porém, é a ortografia. Falo menos na acentuação, muito diferente da nossa, mas da grafia de certas palavras. Por exemplo, paiz em vez de país, ou succursaes em vez de sucursais. Que distância e que distinção.
a tirar medidas, para depois se efectuarem encomendas de roupa. A elegância era assinalável. O que se podia encomendar? As senhoras, capas e confecções, vestidos, calçado, chapéus e luvas; os homens, camisas, casacos, collarinhos e colletes (o duplo "l" como sintoma de civilização), calça (no singular) e essa inesquecível peça de lingerie masculina que dá pelo nome de ceroulas, cujas medidas são as das calças. Também há fatos para os meninos e vestidos para as meninas. Mas o supremo encanto da página é os plissés (mais tarde falava-se em plissados). Dois tipos de plissés, os Soleil e os accordeon (os primeiros com letra maiúscula e os segundos com minúscula), ou deitado. São executados nos ateliês da casa. Também há recortagem (mas aqui falta-me a cultura para perceber se diz respeito aos plissés ou não) à machina, o que é bem diferente de recortagem à máquina, coisa mais ligado à metalurgia e à metalomecânica.
França, onde se diz satin, e tem a sua origem no árabe zaituni referente à cidade chinesa Zaitun, onde o tecido era fabricado. E no simples setim temos uma prática ancestral de globalização que nos faz sonhar com desertos e rotas da seda, camelos e oásis, estreitas sendas e longos poentes. Nada mais evidente, porém, do que a adjectivação do setim, liberty. Que propriedade que não a liberdade poderá vir ao espírito quando se pensa em setim ou mesmo em cetim? Um setim liberty com enchimento francez duvet. Duvet? Claro, duvet a palavra francesa para penugem, para o conjunto de penas que enchem o edredon. Uma coisa é ter um edredon de penas e outra, totalmente diferente, é possuir um edredon duvet, ainda por cima com setim liberty. Repare-se como a vida material é tão pouco material, como ela depende do espírito. Talvez não exista coisa mais espiritual do que a vida material. Mas não deixemos passar em claro um pormenor significativo: o enchimento duvet, que já não é um enchimento qualquer, é feito segundo os preceitos da hygiene. Não é apenas a nobreza do "y" que nos cativa e que indica o caminho de degradação popular que vai da era da hygiene aos nossos rudes tempos da higiene. Há ali toda uma dedução de carácter kantiano, que pressupõe o imperativo categórico do respeito pela pessoa enquanto fim em si mesmo, para chegar aos preceitos que defendem essa pessoa através da hygiene do enchimento francez duvet. Que tempos!
e grão não levantam o problema da diferença ontológica. São o que são e não têm qualificativo. Diríamos que são transversais. Já o feijão é diferente. Há o feijão suisso (assim mesmo), o frageolet, o soisson e o cabreiro, e por mais caro que seja o cabreiro, alguém de boas famílias o pedirá? Pelo contrário, um feijão frageolet ou soisson é digno de ser encomendado pelas melhores famílias da pátria. Novidade ou quase deveria ser o vinho engarrafado. O Carcavellos, branco (150 réis) ou tinto (120 réis), era vendido em garrafões ou barris de 5 litros. Uma elegante garrafa enrolhada e capsulada automaticamente do Carcavellos brancos custava 100 réis. A manteiga era vendida em lata, manteiga do Dão ou manteiga da Praia d'Ancora. O café Princeza era vendido em lindas latas axaroadas (não sabe o que é? nós também não). A página 31 do catálogo de inverno dos Grandes Armazéns do Chiado é uma introdução, delicada mas informativa, à dieta das classes médias no início da República ou no fim da Monarquia, conforme preferir.
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Marcadores: Memorália, Ocasionália
Jornal Torrejano, 03 de Julho de 2009
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02/07/09
O gesto do dr. Pinho
Para dizer a verdade, estes corninhos do ministro Manuel Pinho foram o seu grande gesto político. Como em Portugal nunca se reconhece o mérito onde ele existe, o pobre Pinho lá teve de pedir a demissão. O pessoal do PS anda de cabeça perdida, nem o electrónico engenheiro civil independente consegue evitar distúrbios. O cheiro a derrota é uma coisa horrível. Nada pior para a sanidade mental do que o odor a cadáver. Não me digam que vamos ter de aturar os PSD impantes com uma maioria absoluta.
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Marcadores: Política
Quanto vale o voto dos professores?
A política absolutamente abstrusa de Sócrates e de Lurdes Rodrigues abriu caminho para o PSD tentar penetrar no professorado. As quatro áreas de que fala Manuela Ferreira Leite são aceites por todos os professores, ou quase: estatuto do aluno; estatuto da carreira docente; sistema de avaliação docente; desburocratização do ensino. Tudo isso deverá ser mexido e alterado radicalmente. Mas os professores não se devem precipitar. Devem também perguntar o que pensa ela do destino do ensino público, e da actual forma de gestão das escolas e do papel das autarquias nessa gestão. Devem, ainda, perceber como se pretende concretizar as alterações naquelas áreas. Por exemplo, não estou a ver como uma avaliação externa dos professores, feita por empresas (e há empresas muito interessadas em fazê-la) não implique um calvário burocrático ainda maior do que o desenhado por Lurdes Rodrigues e Valter Lemos. E eu sei muito bem do que estou a falar. Já chega de ingenuidade.
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A trapalhada continua
Parece estar confirmada a trapalhada das eleições no Benfica. A sofreguidão de Luís Filipe Vieira, a tentativa de evitar o surgimento de uma alternativa credível levou ao actual estado. Parece que apenas Bruno Carvalho, não faço ideia quem seja, está em condições de ir a votos. Quem se lembra de um presidente do Benfica como António Borges Coutinho só pode mesmo rir ou então chorar.
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Marcadores: Futebol
Outro símbolo
Eu não sou favorável a que a banca seja, na sua totalidade ou mesmo na sua maioria, pública. O papel do Estado não é negociar com o dinheiro, embora possa necessitar, como forma de regulação, da posse de um banco, como a CGD. Dito isto, gostava de fazer uma digressão na memória e ir aos primeiros tempos do BCP. Lembram-se como ele era incensado? Lembram-se como a sua política laboral não levantava problemas e era mesmo aplaudida. Era o banco da moda e representava uma certa atitude no país. Dito de outra maneira, o BCP representava uma certa cultura. Houve muita gente que nunca se cansou de sublinhar a diferença entre o BCP e a banca pública. Essa gente não deveria vir agora explicar a história do BCP, estabelecer a relação entre aquele começo e os dias de hoje? Não será legítimo perguntar se no início não estava já contido aquilo que o tempo veio a manifestar? O BCP é outro dos símbolos do regime.
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Um símbolo
De um arguido deve presumir-se a sua inocência. Dias Loureiro não é excepção. Mas a sua trajectória não deixa de ser um caso interessante e um símbolo da evolução do regime democrático em Portugal. Da provinciana Coimbra para Lisboa através da política. Da política para o mundo dos negócios através ainda da política. Do mundo dos negócios para os problemas com a Justiça através desse mesmo mundo dos negócios. Nas mãos do PS e do PSD, a democracia portuguesa tornou-se isto, um imenso pântano onde política e negócios se confundem e onde o país vai definhando a cada dia que passa. É possível que este tipo de condutas seja a norma na vida política. Sendo assim, porém, não consigo compreender como há ainda gente que, não estando envolvida na política, toma partido com veemência a favor ou contra um dos partidos da área da governação. A única atitude que me parece cada vez mais razoável, por parte dos cidadãos, é a crítica feroz a quem está na área do poder. A crítica significa o desejo de limitar a acção de quem "pode" ao que é essencial. Os cidadãos comuns só têm duas formas de acção política: votar e criticar. Considerando o que se tem passado, deveríamos pensar, enquanto cidadãos, que todos os governantes são culpados de abuso do poder até prova em contrário. Mas não será isto uma inversão da norma jurídica que se aplica a qualquer cidadão? Aparentemente, sim. Mas os detentores do poder não são cidadãos comuns, têm um poder de tal modo excessivo sobre todos nós, onde se inscreve o poder de fazer a lei, que há que defender a comunidade e os indivíduos da acção de quem "pode".
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Marcadores: Política
A estratégia socialista
Há duas coisas em que o actual Partido Socialista é excelente. A primeira é a propaganda através dos brinquedos tecnológicos. A segunda é isto: "Socialistas, diz o Público, centram estratégia na destruição do “falar verdade” de Manuela Ferreira Leite." Se o PSD se deixar arrastar para este tipo de coisas, então perderá alguma vantagem que, de momento, possa ter. O que se passa? O país está perante duas imagens, a de José Sócrates e a de Ferreira Leite. A imagem de Sócrates, como pessoa politicamente credível, caiu quase até ao grau zero, durante o mandato. Por outro lado, Ferreira Leite tem uma imagem de pessoa séria, credível, de pessoa que não pisa o risco seja no que for. É esta imagem que o PS se propõe destruir. Veremos qual a solidez da Presidente do PSD e da equipa que a aconselha. Mas isto é também uma terrível confissão por parte do PS. A confissão de que a imagem de Sócrates, ao nível da credibilidade, é irrecuperável. A única esperança é denegrir a imagem da concorrência, fazer uma campanha negra, o que para um partido que esteve no poder 4 anos não deixa de ser um triste sintoma.
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Marcadores: Política
01/07/09
Metamorfoses L
Alfred Schnittke – Piano Concerto no. 2
imensas eram as ruas desabitadas
tinham cheiro a clorofórmio
e das janelas pendiam sacos de plástico
farrapos de roupas a ondular ao vento
molas de plástico a que o sol comera a cor
se alguém as percorria ao entardecer
ou ousava ali parar na noite escura
elas uivavam como se tivessem vida
ou uma memória animal as habitasse
e lhes desse voz na praia do silêncio
nas calçadas crescem ervas esquivas
símbolos de uma vida ressequida
– sussurram se lhes bate o vento –
são bandeiras de uma pátria vazia
onde há muito secaram os últimos rios
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
A trapalhada das eleições
Onde chegou o meu velho Benfica? A trapalhada inaudita das eleições poderá lançar o clube num autêntico caos. Havia um tempo em que o clube não dava um único passo que não estivesse juridicamente fundado. Agora não parece um clube desportivo mas um clube de aventuras. Com uma nova época a começar, com milhões de euros gastos mais um vez, o clube arrisca-se a não ter uma cabeça que não seja motivo de troça e de condescendência dos seus principais adversários. Mas o que se está a passar é um novo sinal da fragilidade que tomou conta da instituição. Se o clube estivesse forte, certas candidaturas folclóricas não passariam disso mesmo, o folclore que sempre existe em instituições democráticas. Mais uma época perdida e ainda não começou.
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Marcadores: Futebol
Paranóia
Há quase dois anos escrevi aqui isto. De então para cá, a paranóia do inquérito não abrandou, pelo contrário. Ontem fui com a minha mulher a uma empresa privada fazer uma operação no carro dela. No fim, entre milhares de papéis, lá veio o famoso questionário de avaliação. Era solicitada a fazer a avaliação do processo. Se alguém vem cá a casa fazer um serviço relativo ao telefone ou à Internet, sou logo solicitado a preencher, se assim o quiser, um questionário de avaliação do desempenho.
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Marcadores: Sociedade
Sarkozy - cultura e civilização
Esta intervenção do Presidente francês é um exemplo claro e distinto do problema aqui focado sobre a distinção, segundo Leo Strauss, entre cultura e civilização. É provável que a tradição inglesa jamais venha a pôr o problema neste pé, é provável que exista em Inglaterra um espírito de tolerância para com as diferenças culturais e uma aceitação do multi-culturalismo que não é exibida aqui por Sarkozy. Mas também é provável que esse espírito se funde na condescendência e, em última análise, no desprezo pela sorte daquelas que estão submetidas à cultura vigente em certos meios sociais muçulmanos. A aparente intolerância de Sarkozy revela um profundo respeito pelas liberdades individuais e, fundamentalmente, pela liberdade da mulher. E há uma coisa em que Sarkozy tem razão. Não devemos ter vergonha dos nossos valores nem de os defender. Acrescento eu: esses valores têm um carácter universal e visam o respeito pelos indivíduos, independentemente da cultura ou da religião de origem. São valores que promovem a civilização, tal como Leo Strauss a entende, mesmo que para isso combatam certo tipo de valores culturais.
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