27/06/09

O caminho do PSD



Já aqui escrevi, várias vezes, que simpatizo com Manuela Ferreira Leite. Enquanto acho insuportáveis pessoas como José Sócrates, Lurdes Rodrigues ou Valter Lemos, acho a actual líder do PSD uma figura humana muito mais interessante e da qual me sinto muito mais próximo. Simpatizar com uma pessoa, porém, não é simpatizar com as suas políticas.

O Expresso, de hoje, traz já as linhas gerais do que vai ser o programa do PSD. Fala em 'Estado imprescindível'. O que significa isto? Apenas a demissão do Estado na área dos direitos sociais. Diz o Expresso: "Na Saúde e na Educação, os sociais-democratas preconizam que se alargue progressivamente o regime de liberdade de escolha entre operadores públicos e privados." Quem acompanha estas coisas, percebe aquilo que vai acontecer, caso o PSD governe. Os serviços públicos vão diminuir ainda mais de qualidade e prepara-se a entrega de hospitais e escolas públicas à voracidade dos interesses privados. Como se tem descoberto, esses interesses têm pouco interesse no bem público e mais nos seus negócios. Como todos sabemos, privatizar nestas áreas significa piorar o que se oferece aos cidadãos.

Do ponto de vista de Educação, aquele que melhor conheço, o que se está a preparar, então, é um novo terramoto no ensino público. Em tempos, a direita poderia ser um factor interessante de consolidação e de qualificação do ensino público. Mas isso era no tempo em que a direita era conservadora e defendia o Estado-nação. Hoje, rendeu-se ao folclore do liberalismo e à retórica do Estado mínimo. Mesmo os ensinamentos da crise mundial não parecem comovê-la.

Por que defendo a intervenção do Estado na área da Educação? Por dois motivos essenciais:


1. A educação é um elemento central da soberania dos Estados. A educação, e isso foi percebido muito cedo pelos filósofos gregos, é estruturante na vida política e cívica. A saúde ainda se pode dizer que é um problema privado. Na educação, isso é impossível. Veja-se a ideia da escolaridade obrigatória. Nas sociedades modernas, o consenso social que permite que elas funcionem é fabricado nas escolas, através de complexos processos de transmissão curricular. Na educação, como na Justiça, na Segurança ou na Defesa, há um interesse específico do Estado e da Nação: é ela que permite instituir continuamente o desejo de soberania.

2. A educação pode ser um caminho para uma certa equidade social. Para tal, é preciso que exista uma educação de qualidade. Ora, essa custa dinheiro e, tirando os colégios dirigidos às elites sociais, não é rentável. Se se persistir na ideia de privatizar a educação, sabemos que haverá escolas privadas a receber subsídios do Estado e a fornecer serviços muito piores do que aqueles que as escolas públicas fornecem. O fosso social tornar-se-á bem maior do que já é.

As intenções do PSD são perigosas. Um programa de direita, na área da educação, não deveria obviamente proibir o ensino privado. Mas deveria cuidar do ensino público de forma a torná-lo melhor, mais exigente, mais rigoroso e mais disciplinado. As escolas públicas têm forças suficientes para dar uma volta ao que se passa na educação. Precisam, porém, de políticas centrais claras e objectivas. Não precisam de mais confusão. Precisam de diferenciação dos percursos escolares, precisam de selecção de professores e também dos percursos dos alunos, precisam de avaliação rigorosa dos alunos. Não precisam de revoluções, sejam socialistas ou liberais. Confesso, porém, que espero o pior do PSD, nesta área. A educação é um lugar maldito, onde os políticos acham que devem exercitar as suas utopias privadas, ao arrepio daquilo que é o saber acumulado por quem trabalha na área. Ganhe o PS ou o PSD, os governantes irão continuar a destabilizar as escolas e a torná-las em sítios irracionais. Foi o que sempre fizeram, desde que sou professor.

A queda

Se há duas personagens que marcam o estilo e a natureza do actual governo, elas são o primeiro-ministro, José Sócrates, e a ministra da Educação, Lurdes Rodrigues. Têm muitas coisas em comum, desde um certo provincianismo, embora tratado de formas diferentes, até à arrogância, passando pele inflexibilidade, fundamentalmente quando pensam que estão perante os mais fracos.

Os sinais da queda de ambos têm vindo a crescer, embora ainda não seja claro que isso aconteça. Sócrates vê, pela primeira vez, o PSD de Ferreira Leite ultrapassar o PS nas intenções de voto. As sondagens valem o que valem, mas é sempre mais agradável aparecer em primeiro lugar do que em segundo. E uma coisa é já evidente: o PSD pode ganhar as eleições legislativas. Outro sintoma da queda de Sócrates é a história do veto governamental à compra de parte da TVI pela PT. Para Sócrates, colocar a PT na TVI seria um passo interessante para fazer calar certos telejornais particularmente desagradáveis. Mas o governo, devido à intervenção do Presidente da República, foi obrigado a recuar. Também a animação do caso Freeport, apesar do primeiro-ministro não ter sido visado, está longe de ser benéfica para o PS.

Relativamente à ministra da Educação, os tempos também não têm sido favoráveis. A senhora pode falar sobre os bons resultados do sistema educativo, mas ninguém, tirando os acólitos de serviço, acredita na veracidade da coisa. Todos desconfiam, e certamente com alguma razão, da qualidade dos exames e das Provas de Aferição. Mas não bastava isso, um estudo da Deloitte vem mostrar que uma das grandes medidas de combate aos professores (sim, o ME teve por missão combater os seus professores), as quotas na avaliação, é uma especificidade portuguesa, inventada pela actual equipa, na sua política de suave e disfarçado terror dentro das escolas.

O Partido Socialista ainda pode reverter a situação, mas que ele merece um grande castigo, isso merece-o. Não é que a alternativa seja interessante. Nós já sabemos o que é um país governado por Cavaco (sim, será Cavaco a governar a partir de Belém), Ferreira Leite e Portas. Mas o Partido Socialista precisa de uma purga, precisa de limpar toda uma cultura absolutamente inaceitável que se instalou no partido e, através dele, no Estado central e nas autarquias. Não sei se o PS tem capacidade de regeneração, ou se a doença que o afecta se tornou crónica. Mas um tratamento na oposição não lhe fará, por certo, nada mal. Bem precisa e o país também. Mas ainda não é líquido que isso aconteça.

Isabel Hormigo - Exames ou trivialidades?

Olhando para muitos dos exames actuais, há quem diga que as perguntas são hoje mais fáceis do que o eram há dez ou 20 anos. Praticamente todos estão de acordo neste ponto, excepto algumas pessoas que têm responsabilidades no sistema educativo e que têm estado envolvidas nas sucessivas reformas do ensino. Existe uma contradição curiosa: umas vezes diz-se que o "quadro cognitivo" se tornou diferente com o acesso de todos à educação e que, por isso, não se pode ser hoje tão exigente como antigamente se era. Outras vezes diz-se que o ensino actual é mais avançado e exigente, pois se pede aos estudantes uma atitude interpretativa e crítica, e não a memorização de factos ou a capacidade de cálculo.A realidade é que, sem conhecer factos e sem capacidade de cálculo, não se sabe como se pode ter uma atitude interpretativa e crítica. E a realidade também é que basta abrir algumas provas de há 20 anos e algumas actuais para ficarmos preocupados. Seria bom conhecer melhor em que medida o nível de exigência dos exames se degradou, se é que, como julgamos, se degradou de facto continuamente. Mas para isso seria necessário um estudo comparativo sério, que não se conhece. Não negando uma evolução dos exames, que acompanhou alguma evolução dos programas e dos tempos e nos trouxe tópicos mais actuais e contextos mais modernos, há traços muito preocupantes nas provas actuais. O primeiro é o seu diminuto grau de exigência. O segundo é a insistência infantilizante na contextualização, que é inimiga da capacidade de abstracção. O terceiro é a trivialidade extrema dos cálculos e procedimentos testados. Os últimos exames de Matemática do 9.º ano aproximam-se perigosamente de ser apenas testes que basta ter bom senso para resolver e em que a matemática se reduz a banalidades.Vivemos num mundo moderno que não se compadece com a ignorância técnica e com a incompetência. Quem compete com os jovens que estamos a educar são os da Europa, da Ásia e de todo o mundo. A educação é fundamental para o nosso desenvolvimento e a matemática uma alavanca decisiva desse progresso. Não podemos continuar prisioneiros de ideias pedagógicas retrógradas que atrasam o nosso ensino. Há a tentação de pensar que temos à nossa frente todo o tempo do mundo. Não o temos. Todos os anos, meses e dias que se percam na educação são décadas de atraso do país. Não vale a pena fingir. [Público, de hoje]

26/06/09

Metamorfoses XLV

Bruno Maderna – Biogramma

florescem agora os jacarandás
vieram depois dos castanheiros
e pintam no céu uma ilusão de vida
a promessa de um arco-íris que não virá

com essas mentiras construímos a vida
erguemo-las como hóstias consagradas
carne de um deus cansado
por cansaço se entregou

de que te vale falar de esperança
e colher as pétalas que a tímida flor
pelo chão deixa cair

avança põe um pé no caminho
não perguntes a que destino leva
nem queiras na terra deixar vestígio

O espectáculo da Justiça

Se há uma coisa que me impressiona no caso Freeport, e há bem mais que uma, é o espectáculo da Justiça. Este caso já devia ter sido investigado e resolvido há muito. Não o foi. Agora assistimos a um processo de constituição de arguidos como se assistíssemos a uma telenovela. No episódio de hoje, descobrimos o sexto arguido, José Inocêncio, antigo presidente socialista da Câmara de Alcochete. É evidente que este tipo de administração do suspense, este enrolar da intriga, tem consequências políticas e vai desgastando o Partido Socialista. Não é que o PS, pela forma como tem embrulhado a Justiça, não o mereça. Merece. Mas a decência das instituições passava bem sem o triste espectáculo do Freeport. E aqui não me estou a referir apenas ao processo do licenciamento. Estou a falar do andamento do processo judicial. O que nos reservará o próximo episódio?

O novo Provedor de Justiça


Quando o PS e o PSD decidiram tratar seriamente do caso, a figura do futuro Provedor de Justiça emergiu sem dificuldade. Alfredo José de Sousa reúne, segundo o Público, o consenso dos dois maiores partidos e, por certo, não será mal recebido pelos restantes. Mas como explicar a humilhação infligida a Nascimento Rodrigues e, de certa maneira, a Jorge Miranda? A facilidade com que chegaram a este nome de consenso prova que, anteriormente, os dois maiores partidos estavam longe de agir com boa-fé política. E nesse devaneio pouco se importaram com o estado de saúde do ex-Provedor ou com a necessidade de dar credibilidade ao cargo. É com isto que lentamente se vai corroendo a legitimidade das instituições.

Adenda - Post corrigido graças a José Trincão Marques. De facto, havia uma lamentável troca entre Alfredo de Sousa e Alfredo José de Sousa (cf. explicação nos comentários).

Jornal Torrejano, 26 de Junho de 2009


Em linha está a edição semanal do Jornal Torrejano.

25/06/09

Metamorfoses XLIV

Emmanuel Nunes – Tissures

a fragrância tecida nas folhas dos limoeiros
abre-se na tarde sobre ruas sonâmbulas
de onde partiram os últimos moradores

as casas são agora vísceras ao sol
entranhas que a vida recusou
vidros partidos cal carcomida
trave que cede ou telhados em ruína

a tudo isto juntas pelo cuidado da mão
e num bordado de linha clara
ergues paisagens de glória ausente
o fogo apagado as cinzas tão frias
e os animais a passear no desterro
de onde ninguém os recolherá

voltas para recompor as imagens
teces com barro a canção do destino
mas tudo cede à gravidade
e entrega-se ao precário silêncio da areia

ainda oiço o gorgolejar da vida ao naufragar
no pântano viscoso e espesso do tempo

avanço uma mão mas logo a retiro
o medo tomou-me conta das faces
e pulsa em cada célula do coração

O mais antigo instrumento musical conhecido


Segundo o Público, este é o instrumento musical mais antigo, que se conhece. Esta flauta terá cerca de 35 000 anos, é feita de osso de grifo e foi encontrada numa gruta na Alemanha. O que é curioso neste achado é a percepção de uma clara linha de continuidade entre esta flauta arcaica e as modernas flautas. Para além disso, a nossa imaginação é impelida para trás na ânsia de imaginar aquilo que teria antecedido este instrumento, pois o que vemos é apenas um momento já sofisticado de algo que começou muito antes. Como soaria, que tipo de música esses nossos antepassados fariam e em que ocasiões?

Como se produz o niilismo em educação?


O niilismo pode ser entendido, de uma forma muito geral, como a desvalorização de todos os grandes valores tradicionais. Mais, o niilismo é a morte do próprio sentido das coisas. De certa forma, as sociedades modernas e contemporâneas são produtoras de niilismo. A sua essência é a contínua desvalorização dos valores, a destruição dos núcleos de sentido que constituem as tradições humanas. Como se produz o niilismo?

Olhemos para a notícia que origina o post anterior. Um dito especialista canadiano em tecnologia assiste em Portugal a uma aula e conta "como os alunos recorreram à Internet para resolver uma questão colocada pelo professor: para saber o que era um equinócio, grupos de alunos pesquisaram a informação e quem a descobriu primeiro explicou-a aos colegas".

Quem é professor percebe, de imediato, que o acontecimento é absolutamente banal. O que aconteceu com a Internet poderia acontecer com enciclopédias em papel, com livros da especialidade, com um texto dado pelo professor ou com o próprio manual da disciplina. Mas este acontecimento banal, acontecimento que apenas prolonga uma forma de trabalhar antiga é visto como um acontecimento excepcional, inovador e símbolo de uma revolução a fazer.

O que significa aqui "revolução"? Destruição da tradição de ensino, destruição dos valores que permitiram construir o conhecimento, incluindo o conhecimento que deu origem aos computadores e à Internet. A partir deste exemplo absolutamente marginal, erige-se toda uma concepção de ensino que é apresentada como inovadora, mas da qual é erradicado de facto todo o acto de ensinar. Fazer a vontade a este senhor Tapscott significa reduzir toda a tradição de ensino a zero e com isso reduzir o ensino à pura nulidade. O professor já não ensina. Mas compreende-se, se não se for ideologicamente cego, que concomitantemente também o aluno não aprende. E é isto que está a emergir em muitos sítios do Ocidente.

Não pense o leitor que sou retrógrado tecnológico. Sou dos professores mais antigos a usar computador em tarefas educativas. Incremento o uso da Internet na pesquisa e das ferramentas que ela disponibiliza como apoio à aprendizagem. Isso, porém, não implica qualquer dissolução da minha responsabilidade última em ensinar os meus alunos, de viva voz, falando com eles, expondo e discutindo, reflectindo em conjunto. É para isto que servem os professores, não para gerir aprendizagem ou a utilização de gadgets.

Estes inovadores tecnológicos, estes inspectores Gadgets, que pululam em torno da educação, são um dos principais perigos para o futuro do Ocidente. São portadores de uma barbárie que visa reduzir a nada tudo o que construímos. Não sei se o Ocidente terá forças para resistir a esta barbárie nascida no seio da própria ciência, nascida de uma perversão ideológica que existe na transformação do conhecimento científico em tecnologia. O próprio poder político ocidental se transformou numa fonte de barbárie e de produção de niilismo. Se não for possível parar esta gente, então pagaremos muito caro a nossa impotência.

Educação: Portugal na vanguarda


Consta que o senhor Don Tapscott é especialista em tecnologia. Compreende-se que fique fascinado com o desempenho das máquinas e com as extraordinárias aulas onde o professor deixa de ensinar e se transforma num técnico de gestão de engenhos informáticos. Compreende-se mesmo que o senhor queira vender ao Presidente americano a extraordinária ideia que descobriu em Portugal. Ideia aliás que os americanos já conhecem e já ensaiaram há muito. Também se sabe que muitas escolas americanas, depois de terem feito a experiência, decidiram proibir os computadores em sala de aula. Aliás, como o senhor reconhece no artigo, os estudos sobre a presença de computadores em sala de aula foram inconclusivos. E isso é o mínimo que se pode dizer.

Este tipo de comentários servem, porém, para sustentar um equívoco tremendo que se instalou no ensino em Portugal. Nós não estamos na vanguarda de coisa nenhuma, ou se estamos na vanguarda de alguma coisa é a do niilismo educativo. Tudo se está a tornar mais irrelevante e menos exigente. Os especialistas podem especular sobre o que lhes apetecer, mas a percepção que existe nas escolas é bem diferente. Os próprios alunos sentem isso. Já aprenderam, por exemplo, que o calendário eleitoral e a própria luta política têm efeitos específicos sobre o grau de dificuldade dos exames. Há coisa que os alunos aprendem depressa.

É evidente que precisamos de professores que dominem bem as ferramentas tecnológicas. Mas isso é uma exigência idêntica àquela que existia antes. Os professores tinham obrigação de dominar bem o uso de enciclopédias, dicionários, modelos de investigação, etc. Mas isso não os fazia bons professores, embora pudesse ajudar. Ser professor não é uma questão tecnológica e a qualidade do ensino não tem relação directa com o uso da tecnologia disponível. O ensino funda-se numa relação entre professor e aluno, e essa relação é uma forma de mediação do saber. Aquele que sabe transmite o saber ao que não sabe. É nesta relação que se constitui as relações culturais, uma das quais é a do saber.

Mas o que mais me espanta é o actual entusiasmo, fundado na existência da internet, com o autodidactismo. Este há muito que tinha má fortuna. Agora recrudesce fundado num devaneio tecnológico, como se o saber não fosse uma tradição humana e como se as tradições humanas pudessem ser transmitidas de outra forma que não a do contacto directo entre seres humanos. Mas o problema de tudo isto reside na classe política, muitas vezes inculta ou embasbacada com gadgtes. Na ânsia de mostrar serviço, não hesitam em fazer das escolas o laboratório das suas utopias pessoais. O senhor Don Tapscott acha que as escolas americanas devem entrar no século XXI, imitando as escolas portuguesas (ele não sabe o que são as escolas portuguesas, nem sequer aquela que viu). Isto deve encantar o engenheiro Sócrates e talvez comova o senhor Obama. Mas, na verdade, o que o ensino ocidental precisa é de meditar na experiência clássica dos gregos. Não para a decalcar, mas para perceber a filiação e os fundamentos do ensino ocidental, e para saber conjugar as transformações sociais e técnicas com o núcleo central da nossa tradição de ensino. Sobre isto, é provável que o senhor Tapscott pouco tenha a dizer, e desconfio que aos nossos políticos uma coisa dessas deva parecer absolutamente arcaica e sem sentido. Há muito que eles deixaram de entender o que significa a palavra princípios.

Jorge Miranda retira candidatura


Jorge Miranda retirou a sua candidatura a Provedor da Justiça. Fê-lo por uma causa nobre. Não concordou que houvesse disciplina de voto na próxima tentativa de eleição. Jorge Miranda é uma das figuras mais respeitadas e mais respeitáveis da democracia portuguesa. Seria, por certo, um excelente Provedor e dignificaria o cargo, como, aliás, o tem feito Nascimento Rodrigues. Posso admitir com boa vontade que nós, portugueses, talvez o merecêssemos enquanto Provedor. Mas a verdade que ele não mereceria ser confundido com as pobres personagens que tomaram conta do regime democrático e que, com afinco e persistência, o estão a conduzir para o abismo. Há alturas que a grandeza não se deve misturar com a pequenez.

24/06/09

Metamorfoses XLIII

Philip Glass – Metamorphosis

no limiar da sombra há um animal
touro feroz sobre a planície cresce
quando se cavalga pela terra manchega
e o sol oferece a calma da exaustão

um milhafre cruza os céus de fogo
e um frémito varre toda a terra nua
não há cavalo nem cavaleiro que a dobre
apenas a sombra do touro a apazigua

as poucas árvores por deus ali abandonadas
são símbolos de água a voz do paraíso
dia após dia o transportamos aos ombros
como se fosse não prémio mas castigo

e na indiferença desta tarde infernal
onde tudo suspendeu o movimento
descubro no lugar do bem o sopro do mal
e na mudança o princípio do esquecimento

A Antígona de Teerão

Neda Agha-Soltan

É este o rosto da jovem mulher iraniana que se vê morrer durante uma manifestação em Teerão (ver o vídeo do Telegraph). Olhamo-la e vemos nele uma nova personificação de Antígona. Sempre que encontramos uma Antígona, sabemos que estamos perante a tirania. O destino de todas as antígonas é dar o seu sangue pela liberdade e é essa dádiva que torna a sua beleza misteriosa e inconfundível. São mães que nunca tiveram filhos, mas trazem nas entranhas essa coisa extrordinária que é o desejo de ser livre.

A data das eleições


Quando não há problemas, nós temos a capacidade de os inventar só para nos entretermos neste tempo estival. Sobre a questão da coincidência ou não das eleições legislativas e autárquicas, os dois argumentos opostos parecem-me risíveis. Defender a mesma data para ambas as eleições com uma justificação económica não é um argumento civicamente nobre. Pode dizer-se sempre que a democracia é mais importante do que esse gasto adicional. Mas defender que a data deve ser diferente pois estamos perante eleições diferentes e campanhas eleitorais diferentes é um argumento que pressupões várias coisas. Em primeiro lugar, pressupõe que as magníficas ideias que pululam nas campanhas eleitorais nos interessam e que a generalidade do povo português presta alguma atenção aos devaneios que os partidos políticos apresentam na ânsia de chegar ao poder. Em segundo lugar, mesmo que todos nós estivéssemos interessados nas extraordinárias ideias que habitam aquelas cabeças, isso não teria de significar que não conseguíssemos destrinçar claramente entre uma eleição onde os portugueses vão escolher um governo e aquela onde vão escolher autarcas. Nós sabemos muito bem quem são uns e outros. Sabemos os poderes que ambos têm e não nos falta capacidade para, caso estejamos interessados, sintonizar o nosso cérebro ora na campanha para as legislativas, ora nos debates locais. Apesar de tudo, não somos assim tão estúpidos.

23/06/09

Metamorfoses XLII

Gavin Bryars – Farewell to Philosophy

no farol cor de malva crescem flores silvestres
à minuciosa luz do entardecer
os barcos tecem redes pequenas armadilhas
onde aprisionam as águas até que o porto
os devore na sombra que desagua na noite

um sino repica ao longe e escutam-se passos
na pressa que levam partilham o medo da solidão
e se sulcam as ruas onde se ouve o marulhar das águas
é para as infestar de geada e restos de sal

a película de seda escura que cobre o horizonte
rasga-se se o farol rodopia e por um instante a ilumina
traçando um cone de luz promessa de um dia nítido
sem a gangrena que a tudo escurece

não falemos em extinção nem na ânsia
que toma os membros os inclina e joga pelo chão
deixemos apenas as flores crescer no farol de malva
para gritarem quando chegar o calor do estio
deixemos apenas a luz sucumbir no terror da mão

Do equívoco do privilégio


A política tem destas coisas. Os espanhóis na tentativa de atrair cérebros estrangeiros para o seu país inventaram um regime especial de impostos. Estão agora a descobrir que os grandes beneficiários da imaginação política são os jogadores de futebol estrangeiros a actuar em Espanha. Enquanto os jogadores espanhóis pagam um imposto na ordem dos 43% sobre o que ganham, os estrangeiros limitam-se a pagar 24%. A perturbação introduzida pelas contratações de Kaká e de Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid veio agudizar a consciência do logro e pôr a nu a infracção a um dos princípios fundamentais, eu diria que é um princípio de valor universal, das sociedades burguesas, o princípio da iniquidade dos privilégios.

Nada disto, porém, se deve confundir com a discussão sem sentido sobre se deve haver um tecto para as contratações de jogadores. Apenas o mercado deve regular esse tecto. O que não pode haver é distorções no mercado e num mesmo país jogadores de futebol serem taxados de modo diferente apenas porque uns nasceram em Espanha e outros no estrangeiro. Devido ao peso económico das competições europeias seria curial, para não distorcer o mercado e a concorrência entre equipas, que os países europeus caminhassem, através de acordos, para uma tributação dos salários com pouca margem de diferença.

A saga continua...

Hoje foi dia de exame de Matemática B (ensino secundário). A saga continua. Ler aqui a opinião da SPM.

Os balanços da senhora ministra


A senhora ministra da Educação faz balanço positivo da época de exames e congratula-se com o profissionalismo das partes envolvidas. É comovente tanta atenção e tanta motivação positiva dispensada às partes. Parece que vamos ter resultados bons, o que será já uma consolidação do trabalho vindo do ano passado.

O que eu não percebo é a estratégia tão arrevesada seguida para atingir tão nobres fins. No fundo, fazer novo estatuto da carreira docente, ter que suportar greves e manifestações a roçar a unanimidade albanesa do professorado foi um suplício desnecessário. Bastava a senhora ministra ter orientado politicamente a política de exames como orientou e ter ameaçado os professores com a sua responsabilização pelo facto dos alunos não quererem estudar. Os resultados seriam os que vamos ter, brilhantes, e não haveria tanto cansaço e tanto desgaste político.

Os pais que interessam, aqueles que têm dinheiro e vivem em Lisboa e Porto, há muito que têm os filhos nos colégios privados e não são afectados pelas políticas da senhora ministra. Os outros têm direito ao sucesso nas notas. Contentem-se com isso. Que os filhos tenham um bom ensino não está inscrito na carta dos seus direitos. As boas universidades, as que exigem conhecimento, não são para os filhos deles.

Como professor há uma coisa, porém, que não me deixa de intrigar. Se compararmos os actuais exames com os anteriores, verificamos que os maus resultados que havia não se deviam aos professores, mas às equipas de exames que faziam provas demasiado difíceis para os alunos. Não compreendo como é que essas equipas não foram duramente castigadas e por que motivo se perseguiu e vilipendiou na praça pública toda a classe docente. Afinal, a culpa não era dos professores. Há sempre qualquer coisa na lógica deste Ministério da Educação que me escapa.

22/06/09

Metamorfoses XLI

Olivier Messiaen - Quator pour la fin du temps

a cidade desfalece ao crepúsculo
casas caídas ruínas vindas da terra jubilosa
a visão solar do casario ao longe
as árvores ressequidas pelo calor de junho
e o insuportável cristal a tudo deixa ver

um cheiro a urina seca vem das esquinas
aqui e ali miam gatos vadios pardos cansados
à luz dos candeeiros chega a liturgia da noite
ilumina as velhas paredes do castelo
onde cessaram de repente todos os combates

sigo com atenção o lento trabalho do bolor
um exército de cavaleiros azuis invade a laranja
delimita o território conquistado
traça universos de morte na madeira das casas
anuncia na língua dos profetas o porvir

entro num café ainda aberto as mesas vazias
no balcão estão copos sujos cascas de tremoços
– um súbito clarão atravessa a rua e logo um carro o segue –
a televisão grita no silêncio furioso da sala
e numa cadeira de fórmica o dono dormita babando-se

é tarde as cores esbatem-se num cinza matizado
das paredes das casas vêm ondas de calor
aqui e ali ouvem-se vozes e uma bicicleta passa
corta o ar quente e perde-se na curva ao entrar
nos meus olhos abertos para a cegueira que os contamina