30/05/09
Manifestação de professores
Hoje uma nova manifestação de professores. Estão na rua dezenas de milhares de professores. Mas, nesta altura do campeonato, tudo isso pode ter pouco relevo. A esperança de algum bom senso no sector só chegará se, nas próximas eleições, o Partido Socialista perder a maioria absoluta. Caso contrário, caso os portugueses ofereçam a Sócrates uma nova maioria absoluta, os professores bem podem desesperar. O inferno burocrático cairá inexoravelmente em cima deles até que a profissão esteja completa e totalmente irreconhecível. Parece faltar pouco, mas é melhor que os professores comecem a perceber o que os espera com nova vitória socialista. Não vai ser nada de suave, podem crer.
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29/05/09
Beethoven - Fidelio - Waltraud Meier
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Talvez esteja a ficar velho
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Sondagens caminham para a normalidade
Com a aproximação das eleições europeias, as sondagens começam a tornar-se mais fiáveis e a acordar-se com o expectável. Nesta última sondagem, o PS chega aos 35,5%, o PSD aos 32,5%. Uma distância normal para o actual quadro político. Normal é também o PCP reaparecer como terceira força política (9,2%), mesmo à frente do BE (8,8%). Nunca me pareceu que o Bloco tivesse élan suficiente para ultrapassar o PCP. O eleitorado comunista é muito mais fixo do que o volátil eleitorado do BE. Também sempre me custou a crer no anunciado desaparecimento do CDS-PP. Os actuais 6,5% são muito mais realistas do que anteriores sondagens que apontavam para a casa dos 2%. Enfim, caminhamos para a insuportável normalidade.
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A roubalheira
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Jornal Torrejano, 29 de Maio de 2009

Já está on-line a edição semanal do Jornal Torrejano. Clicar aqui para ir até lá.
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28/05/09
Metamorfoses XXII
estão podres as maçãs
e a poeira acumulou-se na biblioteca
um cristo cansado olha-me da desolação da cruz
e todo o seu silêncio embaraçado
parece a longa confissão de quem perdeu a luz
os adolescentes adolescem lá fora
e carregam nas hormonas a dor que deus lhes deu
gritam correm berram silvam
pois o corpo pesa-lhes na leveza do vazio
a que dantes chamavam alma e agora cio
vou deixar as sombras flutuar
e contar as mãos não vá ter perdido alguma
agarro uma velha camisa esburacada
onde esboço para deus o itinerário
e descubro uma ponte há muito cortada
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Richard Wagner - Tristan und Isolde (Liebestod) - Waltraud Meier
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A perturbação do meretíssimo
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O esquecimento da Europa
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Afinal também perdeu a opinião pública
Em 2006, a ministra da Educação atribuiu o elevado insucesso escolar e a pouca qualificação dos alunos ao trabalho dos professores e ao funcionamento das escolas. Foi o ponto alto da escalada do ME contra os seus próprios professores. Pouco tempo depois, Maria de Lurdes Rodrigues, sem qualquer resquício de vergonha ou sinal de arrependimento, proclama que "admito que perdi os professores mas ganhei a opinião pública". Só esta afirmação seria suficiente, numa democracia minimamente exigente, para demitir a senhora. O curioso, porém, é que além de perder radicalmente os professores, a senhora enganou-se sobre a opinião pública. Segundo uma sondagem da Visão desta semana, os principais responsáveis pelo que vai mal na educação são os governantes e o Ministério da Educação, logo seguidos pelos alunos que, segundo a opinião pública, não querem estudar. Os professores, segundo a mesma sondagem, são os menos responsáveis pelo caos em que a educação caiu em Portugal.
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27/05/09
Metamorfoses XXI
há em mim uma recordação de lepra nas cidades
as pústulas que cobrem o asfalto e saltam para casa
o barulho da sineta que me bate no peito
e anuncia ao mundo o perigo de contágio
nesses dias eu somava sobre o mapa impérios
e desenhava a estratégia dos exércitos
em grandes folhas brancas onde poisavam moscas –
logo morriam sob o ímpeto desta mão
não havia êxtases nem relâmpagos pelos céus
apenas o desconsolo da vida que corre
a doença que toma conta de cada casa
e escava os alicerces até que tudo na noite grite
assim crescia a lepra nos ombros da cidade
onde me sentava pelo chão à tua espera
ignorando de onde vinhas pois a rosa-dos-ventos
secara quando a noite morreu na madrugada
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Michel Camilo y Tomatito - Bésame Mucho (1999)
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A irracionalidade da razão
Vi há pouco, na SIC, um programa sobre o estado da justiça em Portugal. Talvez porque esteja demasiado sensível ao assunto, mas o que mais me sensibilizou foi a intervenção de um juiz que lamentava não poder proferir sentenças como o fazem os seus colegas anglo-saxónicos. Uma sentença que lá ocupa duas páginas, cá precisa de centenas. Portugal vive uma paranóia burocrática. Conheço-a muito bem a partir da profissão de professor. A escola portuguesa é irmã gémea dos tribunais portugueses: papéis, papéis, papéis. Isto tem um divertido efeito perverso. Burocracia designa, segundo Max Weber, a organização racional do Estado. Mas em Portugal a burocracia é sinónimo da irracionalidade que se apossou das instituições e da própria sociedade. Decididamente, nós portugueses não temos jeito para a racionalidade. Quando nos pomos a organizar racionalmente seja o que for, o que cresce é a irracionalidade, a paranóia e o devaneio burocráticos. Ao menos, poderíamos ser irracionais sem papéis. Estes, porém, são necessários para nos podermos convencer, erradamente, que somos racionais. Não somos.
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A menina russa
A mais recente telenovela jurídica, a da menina russa, teve um importante desenvolvimento político. Os ditos pais afectivos preparavam-se para um episódio em solo russo, a convite de uma televisão russa, as televisões adoram telenovelas. A embaixada russa, certamente por não gostar de telenovelas, não deu o visto de entrada ao pobre casal português. Dir-se-á que é uma atitude pouco democrática das autoridades russas, ainda por cima essa coisa de nacionalismo já não se usa. Mas talvez valha a pena meditar se a atitude russa não representará o futuro das relações internacionais, sem as ilusões bonançosas ocidentais.
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26/05/09
Metamorfoses XX
range a mesa onde escrevo
e tudo treme na impetuosa noite
este sonho persegue-me há tantos anos
que dele fiz a minha morada
sem paredes brancas nem trepadeiras nas janelas
casa citadina coberta de fuligem
e do ronco obsceno dos carros na madrugada
o coração bate ao som dos cães vadios
e se em mim ainda ladram recordações
é porque deixei de tomar os medicamentos
o esquecimento foi decrescendo
até a memória se tornar um mar bravio –
inunda as areias escava as arribas
apita-me no sonho como uma sirene portuária
pudesse empacotá-la na dialéctica de hegel
ou converter-me à filosofia analítica
talvez os testículos me doessem menos
e a minha mão deixasse de sangrar
nas tardes onde me sento à janela
para ver passar o rio do esquecimento
na memória que não posso matar
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Knabenchor Hannover - Schütz - Opus ultimum
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Bode expiatório
O dr. Oliveira e Costa foi ao parlamento falar. Aquilo que ele disse mostra, pelo menos, uma coisa: onde chegou a democracia portuguesa sob a regência do bloco central. Azar o dele, Oliveira e Costa, que está preso. Parece, no entanto, um bode expiatório, uma espécie de cristo que está a ser sacrificado para salvar, talvez mesmo redimir, outros (quantos outros?) que o deveriam acompanhar. A vida é dura.
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O período do Terror
Nada melhor para elevar o nível das campanhas eleitorais do que a existência de candidatos cultos. Parece que o professor Vital Moreira, candidato do PS ao parlamento europeu, embevecido com a Ministra da Educação e fiel ao seu passado revolucionário, entoa loas à revolução que vai pela educação. Sei, por exemplo, que o professor de Coimbra adora o conceito de escola a tempo inteiro, conceito absolutamente totalitário e de acordo com os ideais que ele partilhou na sua juventude, e aos quais parece não ter renegado por completo. Mas culto mesmo e dotado de espírito é o candidato Rangel, do PSD. Se Vital acha que estamos a viver uma revolução na educação, então a fase que atravessamos é a do Terror. Engana-se, porém, numa coisa: o Terror não dura apenas há ano e meio. Dura já há quatro longos anos e, curiosamente, começou a ser meticulosamente preparado pela burocracia ministerial no tempo do ministro Roberto Carneiro, quando nos governava o PSD e o professor Cavaco. Cultos, sim, mas de memória curta.
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25/05/09
Metamorfoses XIX
cansei-me de ser culto
e de todos os livros que já li
melhor fora que tivesse gasto a vida
pela areia da praia
ou de cabelo ao vento
personagem de anúncio
de um produto primaveril
melhor fora que não soubesse ler
e ficasse tarde fora a remoer o almoço
ou então perdido num café de aldeia
ouvisse os loucos da minha infância
e com eles aprendesse de cor
a sabedoria da sua loucura
quero lá saber de ideias e de imperativos
rio-me se oiço falar de teorias
acendo o farol para os barcos não naufragarem
e vestido entro no mar
para os peixes não me reconhecerem
sento-me e ponho os pés sobre a mesa
e se vejo um livro que se ateia
logo estremeço
pois já me oiço ressonar
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Assanhado - Jacob do Bandolim
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Marcadores: Música
Roubo de provas judiciais
Não, não caro leitor, este blogue não se tornou um lugar de reflexão sobre assuntos judiciais. Mas haverá cidadão comum que não ande preocupado com o estado da instituição? Para além da fragilidade que o aparelho de justiça, devido à acção de alguns dos seus agentes, tem dado mostras, agora até a fragilidade física o atingiu: provas judiciais roubadas de um edifício do Ministério da Justiça. Se nem as provas judiciais estão guardadas convenientemente, o que se poderá pensar do resto. A continuar assim, não restará, dentro em breve, pedra sobre pedra no edifício judicial português.
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Marcadores: Justiça
Evolução na descontinuidade...
Quarenta anos de reforma educativa chegaram aqui. Em França, como em Portugal. Este cartoon explica à evidência o que ninguém quer ver: o que significa introduzir os pais na escola. Contrariamente ao que prometia Marcelo Caetano, durante a sua primavera política, por sinal em 1969, na educação não houve evolução na continuidade. A descontinuidade foi tão radical que tudo na escola se inverteu. Em Portugal, o desastre começou mesmo com Marcelo Caetano.
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24/05/09
Metamorfoses XVIII
sob o jugo das paredes caminha o herói
traceja linhas e chama-lhes esperança
mas tudo no corpo o trai
as vísceras revolteiam enfadadas
pois o cheiro a decomposição
vem fazê-lo mergulhar num mar de asco
como se a terra não fosse mais
do que aquele labirinto sulfuroso
a metáfora moribunda do inferno
os músculos desagregam-se com lentidão
mas cada passo é mais incerto
e a coragem que enchia o peito
joga-a agora o vento pelo chão
não se lembra das terras sombrias
nem da enseada onde a mãe o gerou
caminha quase parado
e desespera dentro da couraça de ferro
não há deus que por ele venha
nem porta que para a luz se abra
tão imenso caminha o herói
e não sabe ainda o desenlace fatal
a cada volta do labirinto enegrece o destino
e quando a besta horrível cai
é a sua pele que vê rasgada
e o grito animal que pelo mundo ecoa
é apenas o seu próprio ponto final
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Fisher-Dieskau/ Richter - Schubert Lieder - 1: Am Fenster
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Humanização do trabalho
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Contas da bola
Se as dívidas dos clubes de futebol são assim em Espanha, imagine-se como serão, com a devida proporção, em Portugal. E se a falta de controlo da Liga Espanhola é aquela que é referida, como será no nosso país? Às vezes, acho que o mundo dos negócios e o mundo da bola não fazem lá um casamento muito razoável.
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Não basta ser
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Marcadores: Justiça
23/05/09
Metamorfoses XVII
desta porta avista-se um traço de rancor
as janelas abertas sobre a paliçada do medo
os vidros partidos pela inclemência da música
e a calvície que tomou conta das casas
não vale a pena olhar para os astros
e saber se a conjugação dos planetas era favorável
o barco foi aparelhado e já voga mar dentro
sem marujos de papel ou capitão que o dirija
mandei derreter a bússola para poder cantar
os últimos mapas entreguei-os num bar
em troca de vinho e da ternura de uma puta
que me aquecesse por instantes o coração
por isso já nada quero saber da história
mesmo quando a cerveja me tolda a cabeça
queimo extático cada um destes livros
para ver a carícia do fogo no papel a arder
depois em descuido sopro para o chão a cinza
e espero que me insultem ao virar da esquina
sempre queimei três mil anos de labor humano
ao menos podia usar o papel para limpar o cu
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Carlos Paredes - Coimbra e o Mondego
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Belenenses ao fundo
O Belenenses é o meu segundo clube, depois do Benfica. Agora caiu, mais uma vez, na Liga de Honra, se é que uma liga secundária se pode chamar de honra. É pena, o Belenenses faz parte da história do futebol português e a liga principal sem ele fica mais pobre. Mas o Belenenses é um exemplo de como um clube grande (eu sou do tempo em que o Belenenses era considerado um dos quatro grandes) se pode tornar pequeno, até no número de simpatizantes. Espero que volte depressa. O Benfica deveria meditar nisto.
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Os advogados e o Zeitgeist
Por que será que ao lermos isto, mais isto, mais isto e ainda isto ficamos com a nítida sensação, mais uma vez, de que Justiça, em Portugal, não passa de uma mixordice inqualificável? Na luta que atravessa e parte a Ordem dos Advogados, por mais explicações marxianas que se possam adiantar, ficamos com a sensação de que todos têm razão. Em quê? No mal que cada protagonista diz dos outros. Já nem os advogados são como antigamente... Parece que também eles entraram num reality show. Pelo menos, têm a vantagem de se terem adaptado ao Zeitgeist.
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A simples mercadoria
A procura de homens regula necessariamente a produção de homens como de qualquer outra mercadoria. Se a oferta excede por muito a procura, então parte dos trabalhadores cai na penúria ou na fome. Assim, a existência do trabalhador encontra-se reduzida às mesmas condições que a existência de qualquer outra mercadoria. O trabalhador tornou-se urna mercadoria e terá muita sorte se puder encontrar um comprador. E a procura, de que depende a vida do trabalhador, é determinada pelo capricho dos ricos e dos capitalistas.
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Afinal não era só a esquerda...
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22/05/09
Metamorfoses XVI
tudo se desvanece nesta hora de cinza
a mão que estendias e as grandes palavras
– um dia deram-mas como se fossem um deus
ou colírio contra a indigestão talvez o mau-olhado –
e também a esperança de um crepúsculo
ou de uma manhã pintada de glória
num daqueles mausoléus onde dormem os pardais
foi assim que eu pensei a cadência das estrofes
enquanto meditava no calor e cuspia para o chão
esperando que o polícia me prendesse
e se tornasse pública a minha irrisão
eu rei de todas as sarjetas e buda da estrumeira
declaro a minha santidade nos cantos de cada prédio
ou na espiral de vento que me arrasta o cérebro
já nem postos de gasolina há pela cidade
onde comprar combustível para incendiar roma
ou aquecer-me nas noites invernosas a vir
fosse eu o anjo da história e ter-me-ia suicidado
para que os homens cantassem o sossego das horas
mas deus riu-se do desejo e aliviou-me da cruz
para que morra ao rebolar-me inerte pelas lixeiras
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Kenny Garrett in Paris with Miles Davis
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Que saudades...
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Jornal Torrejano, 22 de Maio de 2009
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21/05/09
Metamorfoses XV
não me lembrava que em veneza havia
um inverno branco a cantar sobre o regaço
de quem perdido entre carros adormecidos
caminha deserdado para o anoitecer
nessa terra não há frutos maduros
nem uma praia marejada por canaviais
o último construtor de herbários
retirou-se exausto para longe do mar
que deuses do prazer invocaremos agora
se as portas dos bares estão fechadas
e nos hotéis restam apenas alguns hóspedes
presos à caligrafia de um sonho derradeiro
sonâmbulo rastejo entre semáforos
e entrego a pele febril ao nevão do dia
não espero nem lua nem sol
nem que respondas à minha pergunta
pudesse ser uma âncora sobre a terra
ou um vómito azedo ao crepúsculo
pudesse ter uma gota de sangue nas veias
ou um punho decepado pela noite
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Bodhisattva in metro
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Marcadores: Ocasionália, Sociedade
Morte e falecimento
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Marcadores: Ocasionália
Paisagem e despovoamento
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Marcadores: Memorália
20/05/09
Metamorfoses XIV
foi assim que encerrei o ciclo das cores
deitado no chão e comendo a poeira
ou bebendo a água estagnada nas ruas
inventei um universo de vidro
e em todas as chagas fiz jorrar o álcool
para poder gritar enquanto olhava
a cidade carbonizada pelo esquecimento
nada sei do plástico destas cadeiras
nem da estrutura atómica da melancolia
caminho de mão estendida
mas o olhar nunca foca um horizonte
acumulei tanta sabedoria
para agora vir proclamar o esquecimento
entre pequenos incêndios que alastram
e uma precária paixão tardia
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Chet Baker - Almost blue
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Marcadores: Música
A Igreja e o sexo
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Marcadores: Religião
19/05/09
Metamorfoses XIII
as gruas perdidas pela cidade
ó ruínas de um tempo que anoiteceu
houve um dia que os homens amaram
o ferro e o aço
e sonharam vulcões
onde construíram a eternidade
ao som de uma fanfarra de metal
mas o patíbulo chegou
e os corpos balançam agora
nus e hirtos
em gruas esquecidas
a entupir o trânsito
à hora de ponta matinal
não se fale mais em extinção
nem se pronuncie a palavra
que esquecemos
que os corpos baloicem
ao vento
e como cristo
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Flagstad and Melchior - Tristan and Isolde "Love Duet" (parte)
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Marcadores: Música
Remédio para a crise de vocações
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18/05/09
Metamorfoses XII
não haverá colheitas este ano
as sementes lançadas à terra coalharam
e no lugar da vida cresceu uma cidade de cristal
aí os vagabundos encontram pela noite
camas de pedra onde dormem se chove
mas já não estamos em tempo de nostalgia
aqueles que aqui vivem apenas a cidade sabem
e o luar que vêem nunca os recorda
aquela lua amarela contra as trevas do céu
ou o rumor do vento na sombra das árvores
há uma vasta arquitectura grafitada em papel
um risco de saliva lembra a infância
onde a noite vinha sempre enfeitada de néon
e um barulho surdo era tudo o que havia
para oferecer à futura melancolia do passado
uma lâmpada ilumina assim o meu fracasso
e traz-me todo para esta cidade sem paisagem
os olhos encovados contam prédios desertos
e abandonado entre carros apodrecidos
faço o mapa vazio de cada lugar que perdi
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Immanuel Kant Song
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A magna questão de dizer obrigado
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Marcadores: Educação
17/05/09
Metamorfoses XI
na esquadria da folha ou no rectângulo ao centro
na imagem que se tem da periferia
ou no sonho que se ergue pela noite
– diante de um espelho manchado pelo fumo –
descubro o meu cansaço de homem moderno
cheio de razões de papel e de quadrículas
onde inscrevo as rodas de carvão
que alumiam as mãos ensanguentadas
sou o mais moderno dos modernos
aquele que caiu para além de toda a modernidade
e sigo a velejar teorias ou a sulcar um mar de névoa
para descobrir o destino e nele nada encontrar
nem um deus nem um homem nem um pássaro
apenas casas de pedra de onde roubaram
o colmo que cobria como se fora um telhado
as pequenas histórias sem heróis nem vilões
que faziam do mundo a paisagem vazia
farta de progressos cansada de revoluções
apenas um amontoado de canas junto à estrada
dobradas pelo ar deslocado dos carros em fúria
enquanto nós sonâmbulos cantávamos
de esquina em esquina um cântico cruel
e abraçávamos fiéis as poucas putas
que deus como um sinal nos enviava
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Benedictine monks of Ampleforth Abbey - Night Prayer
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Marcadores: Música
Provas de aferição
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O vate político
Acabou-se o suspense sobre o destino do vate político de Águeda. Deu em nada como era de esperar, pois Alegre não tinha nada para dar. Ser uma espécie de consciência ética de esquerda dentro do Partido Socialista é ser rigorosamente nada.
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Marcadores: Política
16/05/09
O futuro da pátria
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Marcadores: Política
O lupanar da Juventude Preservativa
Anda indignada a Juventude Socialista com o conservadorismo de muitos deputados, incluindo uma percentagem considerável de socialistas. Num assomo de consciência, os senhores deputados acham que distribuir preservativos na escola é excessivo. Eu só posso estar de acordo com esta rapaziada que pulula na jota do PS. Se o seu governo destruiu a escola enquanto local de saber, se transformou os professores, como diz o Zé Ricardo (o seu a seu dono), em meros auxiliares de acção educativa, se entregaram a direcção das escolas à voragem das caciques municipais, e até os regedores de aldeia querem mandar no ensino, podemos dar um passo em frente.
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15/05/09
Metamorfoses X
chegaram os dias difíceis
as estrelas andam por aí
perdidas ao deus dará
cansadas de iluminar a terra
ou de nortear quem ao mar vá
enternecidos os delinquentes
começaram por empilhar pedras
e logo nasceu um rio de serpentes
a vaga sensação de leveza
que ao céu roubava fronteira
vidro aço as asas de um anjo
o coração fremente
naquele itinerário sem fim
e de repente a manhã vem
e despede-se de mim
lá em baixo rente ao chão
há bancos vazios
e os pássaros sem asas
sobem cantando para o céu
roucos pesados frios
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Marin Marais - Chaconne in G-major (second book)
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Não me fodam!
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Marcadores: Estado de espírito
Luís Campos e Cunha - Bela Vista, sem dúvida
Por outro lado, a educação passou a ser neutra em valores. Não deu quadros morais de referência que permitissem distinguir o essencial do acessório. Na televisão uma senhora queixava-se da falta de apoios sociais. Mas já tinha um apartamento dado pela Câmara, a casa estava descuidada e desarrumada (de quem era a culpa?), e tinha duas grandes motas estacionadas na sala! Prioridades de quem tem os valores de pernas para o ar.
Também não é claro que a abordagem no ensino fosse a correcta: estes delinquentes certamente começaram por roubar uma insignificância qualquer a um colega e não foram punidos de forma equivalente. Falou-se com eles ou fechou-se os olhos para não os traumatizar e, com isso, deu-se a ideia de que a malvadez compensa. Roubar passou a ser permitido aos 7 anos e dez anos mais tarde temos as quadrilhas que temos.
A justiça, cada vez mais injusta, deixou de actuar em tempo e afastou o castigo do crime. Ou seja, não desincentivou actos ilegais e confirmou a (falta de) educação que receberam.
Mas há mais responsáveis: ministros da defesa. Há uns anos, sem se medirem as consequências, acabou-se com o serviço militar obrigatório (SMO). Primeiro, esta medida foi vista como uma medida de esquerda e foi uma grande conquista das "jotas" dos partidos; no entanto, o SMO foi, historicamente, uma conquista da esquerda para evitar as guardas pretorianas. Quem não conhece a história faz destas coisas. Segundo, o SMO obrigava os recrutas a viverem um ano com regras estritas, com responsabilização e com punições imediatas correspondentes para os prevaricadores. Terceiro, as Forças Armadas eram a melhor escola de formação profissional. Ninguém saía sem um ofício e aprendia a viver com regras. O SMO poderia ser dispendioso mas uma análise social custo-benefício deveria amplamente justificar esses custos.
Sem ensino pré-primário, uma escola sem moral, uma ideologia de facilitismo e de irresponsabilidade, bairros sociais que são guetos, integração social e moral impossível e uma sociedade avessa a impor valores, conduziram a esta situação socialmente explosiva. E para percebermos o que se passa, nem falei da Crise. Neste caso não há crise, há uma catástrofe social cozinhada em lume brando nos últimos 30 anos da nossa política.
A polícia pode resolver este caso mas nunca ela poderá resolver o problema. Resolver o problema passaria por reconhecer os erros que os políticos que têm estado no poder não reconhecem. Seria exigir o impossível. O Bairro da Bela Vista é, de facto, uma bela vista sobre a nossa sociedade. [Luís Campos e Cunha, Público de 15 de Maio de 2009]
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Jornal Torrejano, 15 de Maio de 2009
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Ares de virgem e pudor de carmim
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Marcadores: Política
14/05/09
Metamorfoses IX
apenas um halo breve e impreciso
o risco de sombra inquieto
a melancolia de um domingo à tarde
o mundo gira agora em torno de que eixo
perguntaste como se os meus olhos
não fossem rasos e negros de carvão
o ruído que nasce naquele silêncio
traz a unção de uma voz ensanguentada
é tudo tão abstracto – suspira –
cortaram as árvores e deixaram secar
os miosótis entre o cheiro a borracha
e a pedra lacerada pelo frio que vem
perderam assim todo o pudor
e cavalgam pelas ruas vazias de onde
os últimos homens foram expulsos
entre braços decepados – tão inertes –
e enxames de varejeiras viscosas
que zunem no espelho do anoitecer
não vale a pena encher de ar os pulmões
e cantar aqueles hinos que então havia
as paredes estão cansadas de tanta cal
e o risco que te fazia esvoaçar os cabelos
há muito que esfriou naquela casa
onde a luz rufava despertando a noite
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Frank Sinatra - My Way
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João Aguiar - Os perdigogos
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Marcadores: Comentário, Educação, Política
Por que é a esquerda, em matéria de educação, tão estúpida?
Pergunto-me, muitas vezes, por que terá a esquerda de ser tão estúpida. Eu já tinha lido sobre o assunto no Ponteiros Parados, agora vejo as reacções à imposição, por parte de uma escola, de um código de vestuário, no Diário de Notícias. Que os alunos protestem, é coisa compreensível. Faz bem à saúde, e torna-os mais activos e despertos para o mundo, desde que obedeçam. Que a deputada do Bloco de Esquerda, Ana Drago (que até fez um bom trabalho sobre os professores e o conflito na educação) venha dizer que a imposição de um dress code (será que me estou a tornar um João Carlos Espada?) é um "inusitado atentado à liberdade individual, cujo cariz autoritário merece o mais profundo repúdio" é a prova da incompreensão profunda do que é a liberdade, do que é a escola e do que é a sociedade.
De facto, é preciso que as escolas definam não só normas de comportamento, mas que não tenham pejo em definir um código de vestuário. Ninguém questiona que os jogadores de futebol tenham um código de vestuário em campo. Não basta ir com a camisola da mesma cor. Vão todos vestidos segundo um código estrito. Mesmo fora do campo, por exemplo nas deslocações das equipas, os jogadores de futebol dos grandes clubes seguem um rigoroso código de vestuário. O mesmo se passa em muitos locais de trabalho e em muitas instituições. Por que razão não poderá a escola pública (a privada fá-lo há muito) regular a forma como alunos, professores e funcionários se apresentam? A escola não impede ninguém de se vestir como quiser no espaço público, mas a escola não é um espaço público completamente aberto. É (ou deveria ser) um espaço onde se formam cidadãos através da transmissão de conhecimentos e de regras de comportamento adequadas à aquisição desses conhecimentos. Regras essas que são essenciais para o futuro comportamento em sociedade. Algum tipo de vestuário que os alunos levam para dentro da escola é mesmo uma forma de contestar o papel da escola e o papel do saber. A escola não pode tolerar isso, e tem-no tolerado demais em Portugal, graças ao tipo de ideias que a dr.ª Drago defende e que pululam na cabeça de muita gente de esquerda.
Mas uma escola mais regulada não é inimiga dos alunos das estratos sociais mais desfavorecidos. Pelo contrário, a regulação que a escola exerce, ou deveria exercer, fornece um conjunto de ferramentas comportamentais que ajudam esses alunos a terem êxito, ferramentas essas que muitas vezes a família não pode ou não é capaz de dar. A liberdade da dr.ª Drago é a "liberdade" aparente das classes médias. A criança pode apresentar-se como lhe apetecer, até como sinal de distinção dos outros, pois em casa tem alguém que lhe fornece, quando chegar a hora, as regras e os códigos necessários para se comportar de forma a alcançar sucesso.
Esta retórica pseudo-liberal de esquerda tem sido, também ela, responsável pela decadência do ensino em Portugal. Tem sido responsável pela manutenção de centenas de milhares de cidadãos na situação de indigência e de pobreza em que estão ou em que construíram a sua vida, sem que a escola, devido à anomia reinante, lhes tenha dado o essencial para saírem da situação onde se encontravam à partida. Sim, estas tontices de pseudo-esquerda têm contribuído para o mal e a pobreza de muita gente. A "liberdade" da dr.ª Drago é inimiga dos alunos mais desfavorecidos, daqueles que precisam de regras, mesmo no vestuário, para poderem sair da situação onde se encontram. Não basta, mas ajuda.
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O princípio de realidade
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Marcadores: Política
13/05/09
Metamorfoses VIII
assim te dei o paraíso – esta terra de sal
onde as sombras são pequenas mãos gravadas
na estrutura flexível do porão – viajantes
para que terra vos leva a pressa
para um enorme armazém
onde almas empilhadas se contam
entre destroços de navios e restos de chapa incendiada
não vos vim falar de horizontes
nem tenho no coração a piedade que me ensinaram
comprei na vastidão do deserto uma espada
e suspendo-a por cima da cabeça
ali fica fazendo sombra sobre o terror
que agora vos enche de compaixão
cuspirei na mão que me estendem
e farei um mapa dos naufrágios
os barcos partiram para lugar incerto
mas os deuses sabiam o destino perpétuo
e acenderam um farol de tristeza
na rota escura onde a morte te espera
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