10/05/09

Bloco central



A criatura que Deus, com a minha cumplicidade e para castigo dos nossos pecados, nos deu como grande timoneiro da pátria veio aqui, a Torres Novas, dizer que a questão do bloco central é uma ilusão. A pobre Dr.ª Manuela Ferreira Leite também já desmentiu essa hipótese.

Mas expliquem-me lá, por favor, como os interesses que se agregam em torno da governação se vão defender, caso não haja uma maioria absoluta (esta pode ser PS apenas, pode ser PSD+CDS, ou PS+CDS)? Aliás já ouvi, no outro dia, o senhor Van Zeller, da CIP, dizer que nada de maiorias absolutas, que o governo não a merece pelo comportamento que tem tido. Ora, considerando que os interesses daqueles que se movem em torno do poder são grandes, como se poderá dar estabilidade à defesa desses interesses? Certamente não será fazendo depender o governo do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista. Portanto, o bloco central, seja ele formal ou informal, é uma inevitabilidade, caso não haja maioria absoluta. Aliás aquilo que divide o pessoal do PS e o do PSD é nada, por muito que isso aborreça a Dr.ª Ferreira Leite. O resto são exercícios de trapezistas para eleitores incautos.

09/05/09

Metamorfoses IV

Virginia Lasheras - Camino y Gloria (1989)

esses eram os tempos onde pairava
suspensa sobre a multidão
a cornucópia da abundância

saíamos pelas ruas e bebíamos vinho novo
não havia na pedra a feroz geometria
nem se pronunciava a palavra futuro
ou de deus se sabia a perpétua perdição

tudo era uma noite incendiada

se íamos de bar em bar
líamos versos ao acaso
e tu dançavas – pés exaustos
saia itinerante –
e eu cantava o rumor que da lua havia
sobre a paisagem de pedra
ali mesmo
na fronteira – dizias –
onde se esmagava cada um
daqueles tão pobres dias

Ella Fitzgerald : One note Samba (scat singing) 1969

O país do medo


Manuela Ferreira Leite disse, no almoço comemorativo dos 35 anos do PSD, que hoje se vive de novo um clima de medo em Portugal. Medo de perder o emprego, medo de perder o negócio. Será pena que os portugueses julguem que esta denúncia de inscreve apenas no quadro da luta partidária. Não inscreve. O que a líder do PSD diz começa a ser o retrato de um país sufocado e subjugado pelo poder. Se olharmos para as escolas, por exemplo, descobrimos que, assim que o novo modelo de gestão estiver em vigor, não haverá professor que faça uma crítica ao director escolhido, à gestão da escola, aos modelos pedagógicos em vigor, à qualidade científica do que se faz. As escolas, mas estas são apenas um exemplo do que se passa nos resto das instituições, vão ser o lugar de um corpo docente domesticado, medroso, de joelho dobrado pelos novos poderes instituídos. Mais, em breve, todos esses poderes estarão controlados pelas câmaras municipais. A liberdade de ensino está moribunda em Portugal. O Partido Socialista não teve o mínimo pejo de fazer isto na educação. Nem um estremecimento perpassou naquelas consciências. Quando o corpo docente deixa de ser constituído por homens e mulheres livres, como poderão os professores formar, modelar com o seu exemplo, os futuros homens e mulheres livres? E se as novas gerações não são formados no exemplo da liberdade, que país e sociedade livre e responsável se espera para o futuro? Mas as escolas são apenas um exemplo, repito. É provável até que a Dr.ª Manuela Ferreira Leite nem perceba a profundidade do mal que se está a instalar no país.

08/05/09

Metamorfoses III

Clara Gangutia - Bilbao (2000)

soubera eu a verdade
e talvez me sentasse naquela mesa
a olhar as auto-estradas
tão vazias vão elas no seu caminhar

se alguém me falasse
– uma mulher outrora ardente –
eu ficaria ali
e extasiado riria
como se tivesse febre
ou uma palavra me partisse um dente

sou de todas as cidades que não habito
apenas estrangeiro me sinto
naquela que me coube
e ando de coração rasgado
por todas as casas onde não vivi

glória nas alturas digo então
se olho da terra abstracta
e vejo como cavaleiros esvoaçantes
os prédio de vidro e betão
que de tão leves e frios
se erguem ambulantes do chão

soubera eu a verdade
e não haveria mesa onde me sentasse
apenas uma estrada
e por ela iria
para não mais caminhar

Jan Garbarek & The Hilliard Ensemble - Parce Mihi Domine

A lei e a instituição



"A tirania é um regime onde há muitas leis e poucas instituições, a democracia é um regime onde há muitas instituições e muito poucas leis (Gilles Deleuze)." O equacionamento entre lei e instituição, proposto por Deleuze, é muito interessante para compreender a ligação de um povo aos regimes políticos. Se olharmos para o caso português, apesar de mais de 30 anos de vida democrática, encontramos uma tendência clara. Por um lado, não apenas sentimos as nossas instituições como frágeis, como percebemos que a nossa vida é pouco enquadrada institucionalmente, isto é, possuímos poucas instituições. Por outro, a tentação dos governos é produzir legislação sem parar, tentando regular aquilo que não se consegue instituir. Posso dar um exemplo que conheço bem, mas é apenas um exemplo entre muitos outros. As escolas públicas portuguesas são instituições frágeis, pouco autónomas, profundamente dependentes do poder central (amanhã serão dependentes dos regedores instalados nos municípios), mas a legislação sobre a escola é praticamente infinita. A ideia é mesmo essa: regular através do poder coercitivo da lei em vez de instituir, o que exigiria liberdade e responsabilidade daqueles que participassem na vida da instituição. Mas a escola é apenas um exemplo, que eu conheço bem, da vida social portuguesa.

O que a meditação de Deleuze nos diz deixa-nos perplexos. Onde nasce essa perplexidade? No olhar que deitamos ao nosso regime político. Por que razão? Pelo facto de ele ser, formalmente, uma democracia, mas na sua essência corresponder aos traços da tirania. Existe liberdade de expressão (embora aqui e ali ameaçada por diversos poderes, não apenas o político), existem eleições livres, não há polícia política nem censura. Formalmente, somos um país bem democrático. Mas a fraqueza das nossas instituições, a pobreza daquilo a que agora se chama sociedade civil (quando o termo surge em John Locke tinha uma conotação oposta à actual: sociedade civil era a sociedade política oposta às sociedades religiosas) por oposição ao peso regulador do Estado na vida das pessoas, aliada à necessidade das elites políticas tentarem, através da lei, criar e e regular um país que só existe nas suas cabeças, transformam a nossa democracia formal numa tirania adocicada, paternalista e imbecilizadora da comunidade.

A equação de Deleuze permite-nos assim perceber uma outra equação que nos diz respeito, a equação entre a capacidade instituidora de um povo e a vontade legisladora das elites políticas. O que cabe perguntar é se a pouca capacidade instituidora dos portugueses se deve à forte vontade legisladora dos políticos, ou se esta é o mero resultado da fragilidade do poder instituidor do povo. Quando se fala em crise do regime, fala-se de outra coisa. Fala-se, por exemplo, da menoridade das elites, da corrupção, etc. Mas o cerne da crise do regime político português é bem mais fundo e prende-se à equação entre capacidade instituidora (produtora de instituições) do povo e vontade legisladora das elites. É aqui que está o problema. O que nos permite perceber que a crise do regime é muito mais do que uma crise política. É uma crise de um povo enquanto povo, da difícil relação deste com os seus poderes e capacidades próprios, bem como com a lei e a vontade legisladora e reguladora das elites políticas. O problema não reside apenas nestas, embora também lá se encontre. Mas concentrar a atenção nos problemas conjunturais ou na culpabilidade única da classe política é tapar o sol com uma peneira.

Há um problema anterior, um problema que se manifestou já no apoio que D. Miguel teve na sua luta contra o liberalismo do seu irmão, D. Pedro, no regicídio, na instituição de uma república puramente jacobina e partidocrática, no 28 de Maio e no consequente triunfo do salazarismo. Esta longa tradição, à direita e à esquerda, não morreu no 25 de Abril de 74. Pelo contrário, metamorfoseou-se de diversas maneiras e assenhoreou-se completamente do poder político. É este problema que merece ser pensado, pois ele gangrena a vida nacional e as possibilidades de uma verdadeira vida democrática.

Jornal Torrejano, 08 de Maio de 2009


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07/05/09

Metamorfoses II

Bill Jacklin - Before the Hurricane Regent Street (1988)

bate grossa a chuva no metal
e o ranger do acrílico
faz sob o império do vento
uma sinfonia de cristal

gloriosa vida citadina
de pássaros estrangulados pela calçada
deixem-me ir nesses autocarros
a ouvir o estrondear dos motores
entre os gritos dos passageiros
que caem mortos de terror

respiro molhado pela chuva
um ar quente de combustão
e vejo raparigas inquietas
antecipando já o seu ser
de mulheres tristes em roupão

espero que venha a tempestade
e limpe rua a rua a cidade
fumo um cigarro
e caminho sob a chuva grossa
como se não tivesse pele
ou me fosse interdita a vaidade

Chico Buarque - Joana Francesa

Sobre posters, cartazes e Ideias


Por causa do post anterior onde se dava conta do blogue Rato's Movie Posters, fui levado à reflexão sobre essa estranha relação entre o cinema e os posters ou cartazes em que ele se faz anunciar. Estes podem tornar-se uma paixão. Que poder terão eles para desencadear esse tipo de paixão e para que a indústria cinematográfica não os dispense na publicitação dos seus produtos?

Como também se disse no post anterior, há uma estranha perversidade nesta relação entre o cinema e os cartazes onde ele se anuncia (isto é, se noticia na esfera pública) e apresenta (isto é, onde ele se torna presente). O cinema parece-nos mais próximo da vida, pois imita o movimento que habita esta. A imagem combinada com o movimento, a imagem que se move, é mimésis da existência dos homens, da sua acção. O cinema, enquanto forma de expressão artística, parece ultrapassar as limitações de artes anteriores como o romance e a pintura. Mostra-nos as imagens que o romance apenas descreve, dá-nos o movimento que a pintura, em aparência, suspende. Por que precisará ele então, para se anunciar e tornar presente, da fixidez do poster/cartaz?

Hipótese: a verdade de um filme encontra-se toda no cartaz que o anuncia e o torna presente. O cartaz não é um resumo do filme. O filme é que é a explicação, no tempo, de um cartaz. O cartaz, na sua fixidez, é uma imitação da eternidade; o filme, não passa de mimésis da temporalidade. Do ponto de vista do processo de produção, o filme é anterior ao cartaz que o resume; mas, do ponto de vista ontológico, o cartaz é anterior ao filme.

Estas reflexões inusitadas levam-nos a tocar a teoria platónica das Ideias. Estas são eternas e imutáveis, e constituem o modelo que dá realidade às coisas sensíveis, ao mundo dos seres onde nos encontramos. Também o cartaz é a a Ideia ou Paradigma que dá o ser ao próprio filme. Aqui encontramos um caminho de disputa com a estética platónica. Os produtos artísticas não são, como pensava Platão, cópias das cópias (objectos sensíveis) da realidade. Não são fantasmas de fantasmas, são verdadeiras Ideias, paradigmas segundo os quais a vida no mundo sensível decorre. O poster cinematográfico é a Ideia que dá ser a um filme, que por sua vez é Ideia que dá ser à vida quotidiana dos homens. Na eterna imutabilidade de um poster cinematográfico, concentra-se toda a possibilidade da existência. A Ideia platónica não é outra coisa do que a sublimação da obra de arte num mundo imaginário. A diferença pode encontrar-se no facto de a Ideia excluir de si todo o movimento, as obras de arte, na sua fixidez, contêm em si, de forma potencial, o movimento que a vida dará corpo.

Rato's Movie Posters


Eis um blogue para quem gosta de cinema. Não de uma forma completamente habitual, mas para quem gosta de cinema também a partir dos posters a que ele dá origem. Rato's Movie Posters é, para esses, um blogue a visitar obrigatoriamente. Ver as imagens das imagens. Eis uma interessante forma de perversidade. O cinema é o triunfo, contra a pintura e a fotografia, da imagem que se move. É nisto que reside a perversidade: olhar a imagem fixa que nos anuncia a imagem que se move. A não perder, absolutamente.

06/05/09

Metamorfoses I

Ángel Orcajo - Arquitecturas IV (1986)

pela afiada esquina onde se desfaz o tempo
sopra um ardor de fuligem branca
e os povos esquecidos da transumância
ganham asas e cantam ao fim da tarde

onde havia fantasmas de seda
e rebanhos de metal
há agora um presépio de origami

sentado espero que o cansaço vá
e sou todo eu citadino
e se vejo o ronco azul de um carro
viro os olhos
e dobro uma folha de papel

Soft Machine Tale of Taliesin

De novo a questão da liberdade


A denúncia que faz Rosário Gama, militante socialista apoiante de Manuel Alegre e presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Infanta D. Maria, não é uma novidade absoluta. Refiro-me à difícil relação do actual Partido Socialista com as liberdades. É verdade que houve um momento decisivo em que o Partido Socialista teve um papel central na defesa das liberdades e da democracia em Portugal. E acredito que o que levou Mário Soares e os seus camaradas de então a afrontar o PCP e a extrema-esquerda não foi apenas o anti-comunismo, mas um genuíno apego à liberdade e à democracia representativa de tipo ocidental. Mas essa posição não apaga um vínculo longínquo do PS com a tradição jacobina e republicana, existente na I República. Ora, essa I República foi tudo menos democrática. Ela foi uma espécie de sucessivas ditaduras partidocráticas. É esse vírus jacobino que tomou conta do Partido Socialista, um partido dirigido já por gente que tem poucas ou nenhumas referências pessoais aos tempos da ditadura. Se para Mário Soares a liberdade era a essência do regime a construir, um bem inegociável, para o actual PS, a diminuição aqui e ali da liberdade, é um acidente aceitável, pois a liberdade deixou de ser um bem essencial e passou a ser um bem funcional, que se pode manipular conforme as circunstâncias. É provável que esta atitude tenha já começado na governação de Guterres, de forma mais suave. Escavando bem, talvez se encontrassem aí já os sintomas do jacobinismo que haveria de vir. A filiação do Partido Socialista nessa tradição não deve ser posta de lado para compreender aquilo que se tem passado nos últimos anos. Se olharmos para a história dos grandes partidos políticos portugueses, descobrimos, sem surpresa, que as suas ligações estruturais à liberdade são muito ténues. Até certa altura, só o PS era excepção. Mas isso acabou há muito. Na verdade, a liberdade nunca foi um bem muito querido pelos portugueses.

03/05/09

O declínio da liberdade de imprensa



Vão maus os tempos para a liberdade de imprensa. Só 17% dos habitantes do mundo beneficiam de uma imprensa livre. Portanto, a liberdade de imprensa é um luxo, um artigo raro. Isso mostra também a profunda dificuldade que o poder tem em lidar com a opinião livre. Mesmo nas democracias, com a excepção daquelas que estão há muito consolidadas, a tentação do poder político é diminuir a liberdade de expressão. Nós conhecemos, nestes últimos anos, algumas ameaças disso. Mas o mais curioso é aquilo que o Público relata: «O relatório nota que a Itália e Israel desceram da categoria de "países livres" para a de "países parcialmente livres", no que é entendido pelos autores do documento como um exemplo do declínio da liberdade de imprensa em regimes democráticos.» Israel poderemos perceber, mas a civilizada Itália? Retenham-se duas ideias: países parcialmente livres e declínio da liberdade de imprensa em regimes democráticos. Iremos continuar a ouvir falar delas.

01/05/09

O preço da abjuração


O Dr. Vital Moreira foi hoje agredido e insultado durante a manifestação da CGTP, para a qual tinha sido convidado. Segundo o próprio, isso terá acontecido pelo facto de ele ser um ex-militante do PCP. Para além da supina estupidez que é agredir ou insultar alguém devido às suas ideias ou à mudança das suas ideias, há uma coisa que merece ser sublinhada: a natureza religiosa das organizações políticas modernas. Assim como em certas áreas do Islão, a conversão a uma outra religião implica uma condenação à morte, também na vida partidária o grau de fidelidade ao ideário manifesta-se neste tipo de violência. Vital Moreira não é um mero dissidente partidário. É um homem que abjurou a fé onde cresceu. Isto, na mentalidade religiosa de alguns militantes, tem um preço que, ao que parece, eles estão desejosos de cobrar.

30/04/09

De crise em crise...



A crise gripal veio juntar-se à crise económica e financeira que atinge o mundo. Ao medo do empobrecimento juntou-se o terror da morte. Estes acontecimentos são reveladores de algo que o nosso modo de vida civilizado tende a escamotear: a natureza intrinsecamente insegura e enigmática da vida. Por muito que as nossas construções intelectuais e a nossa acção tentem fazer para obviar a esse carácter estranho da existência num corpo dotado de vida, as situações de crise, ainda por cima se são globalizadas, vêm mostrar a desmesura das pretensões do homem moderno, do homem que tudo quer pôr em segurança, como se a vida pudesse ser resguarda por uma qualquer companhia seguradora.

Perante as pandemias gripal e a financeira que atingem agora a comunidade global dos homens, nada melhor do que olhar para a própria palavra crise e entender o que nela está a ser dito e pensado, desde a antiguidade clássica. A palavra grega κρίσις (krisis), palavra que deu origem ao nosso vocábulo, significa, para além de crise, "acção ou faculdade de separar, de discernir"; "luta, litígio, processo"; "decisão, juízo, sentença"; "resultado, desenlace". Como se percebe, o campo semântico é muito mais complexo do que aquilo que estamos habituados a pensar quando empregamos a palavra crise.

Sublinharia r a dimensão judicativa presente na ideia de crise. Todas as crises são uma espécie de litígio em forma processual, no qual deve interferir uma faculdade de julgar (discernir), que acabará por pronunciar uma sentença, um juízo, uma decisão. Por norma, nas crises vemos apenas a sua superfície, isto é, a perturbação que elas introduzem no decurso normal das coisas. Recusa-se, o hábito instalado, a ver mais do que isso e não percebe ou, de certa maneira, não quer perceber, que aquela crise é de facto um processo onde as nossas opções vitais e sociais, existenciais em suma, estão a ser julgadas. É evidente que na experiência helénica da κρίσις (krisis) ressoa toda uma ambiência metafísica, presente por exemplo no fragmento de Anaximandro, que submete os homens e até os deuses ao juízo da Moïra. Dito de outra maneira, todas as crises são um julgamento divino. Não por acaso, elas foram sempre e em todo o lado vistas como esse julgamento e a execução de uma sentença ditada pelo divino.

Esta visão metafísica, tão estranha ao nosso modo de pensar, não é outra coisa, porém, do que uma "divinização" das potências naturais, vitais e sociais que o homem não controla e que as sente separadas de si e opostas a si mesmo. Este reconhecimento tradicional é um escândalo para a consciência moderna. Nós hoje, graças ao papel da ciência, podemos explicar tudo. A verdade, no entanto, é que a humanidade, em cada grande crise, não deixa de sentir confusamente que potências que ela não controla se voltam contra ela. Se nas sociedade não modernas, os acontecimentos críticos poderiam ser sentidos com dor e até com um sentimento de injustiça, nelas não faltava, todavia, a clara noção de se estar perante um julgamento. Nós, homens modernos, sentimos a dor, a injustiça do estado crítico, mas não compreendemos sequer que estamos a ser julgados, e julgados pelas potências naturais, vitais e sociais que nos rodeiam e que já não são, por nós, percebidas enquanto potências, encadeados que estamos pelo clarão do nosso poder científico. Na máxima clareza que a ciência proporciona esconde-se uma zona de sombra, prelúdio das trevas mais intensas que a razão não domina. Mas talvez seja nessa zona de penumbra que o homem possa aceder àquilo que da crise poderá resultar. Pois toda a crise significa também um resultado que se alcança, um desenlace que supera o estado crítico e relança a existência noutro patamar.

27/04/09

A gripe suína

Andávamos todos preocupados com a gripe das aves. Esta, porém, tem teimado em manter-se numa situação estacionária. Mas para demonstrar que são falíveis os cálculos humanos, a natureza decidiu presentear a espécie com uma nova ameaça de pandemia, a gripe suína. De um dia para o outro, esta forma de gripe saiu do anonimato e causou dezenas de mortos no México e está a contaminar pessoas aqui e ali. A modernidade criou a ilusão da segurança. Pensamos que, usando o cálculo e a diligência, conseguimos eficazmente resguardar a humanidade das ameaças que a natureza traz consigo. Não conseguimos. E quando esquecemos a nossa frágil condição e a impotência estrutural que a constitui, quando não nos cansamos de exibir o nosso desmedido orgulho, a natureza lá encontra maneira de nos pôr no nosso devido lugar, o de animais dotados de um corpo mortal.

26/04/09

Kay Starr - The Wheel Of Fortune 1952

O limite da coisa


No discurso do 25 de Abril, o Presidente da República, perante os tempos difíceis que se vivem, apelou à concertação de esforços dos vários protagonistas da cena política. Este apelo inócuo não deixa de ser um poderoso revelador da realidade política nacional. Revela não só a impotência perante um destino sobre o qual não temos mão (a crise financeira internacional), mas também o esgotamento político a que se chegou. Se perante o inelutável nada se pode fazer para evitar que ele se manifeste, já a forma como se lida com ele e a forma como se pensa o país e se opera dentro dele depende da liberdade dos protagonistas. Mas a liberdade tem um peso tão grande como o destino fáctico. O peso de mostrar aquilo que se vale. Ora os protagonistas que têm animado a cena política desde há muito valem tendencialmente nada. Não compreendo como é que uma soma de nulidades pode dar mais do que uma nulidade. Talvez precisássemos de uma bela crise política para arejar a casa. Mas também é verdade que a substituição de umas quantas nulidades que nos dirigem ou pretendem vir a fazê-lo não significa que os hipotéticos substitutos fossem menos nulos. Esta sim é a nossa mais verdadeira e autêntica crise.

25/04/09

Händel - Messiah "But who may abide", Emma Kirkby

O largo dr. Salazar


Se hoje houve homenagem grande ao 25 de Abril e à democracia portuguesa, ela foi involuntária e de onde menos se esperava. Como quase todos sabemos, o dr. Salazar era uma pessoa honesta e amiga duma concepção de Portugal quase ao nível da Idade Média. Detestava a democracia, não gostava da vida citadina, sentia-se particularmente indisposto com a liberdade, procurava por todos os meios que as pessoas não tivessem ideias e, se por um acaso malévolo do destino as tivessem, que as não discutissem. No dia que se comemora a transição à democracia, um presidente de câmara, falho de grandes ideias, decidiu inaugurar, na sede do concelho onde o nosso pequeno ditador nasceu, um largo com o nome da personagem. Não sei o que iria na cabeça daquelas pessoas. Mas terão elas percebido que com aquele gesto prestavam a maior das homenagens ao regime nascido a 25 de Abril, ao mesmo tempo que tornavam evidente a peqenez da estatura moral do homem que pastoreou Portugal durante décadas? Se um descendente do ditador ainda nos governasse no espírito do seu antepassado, seria possível inaugurar um largo dr. Álvaro Cunhal, ou dr. Mário Soares, ou até dr. Sá Carneiro? Todos sabemos a resposta. Tenho pena daqueles devotos do dr. Salazar, incluindo o torrejano das lápides, pela homenagem involuntária que prestaram ao 25 de Abril e à vida democrática.

História narrativa



Em consequência da Segunda Guerra Mundial, a perspectiva que a Europa oferecia era de miséria e desolação. As fotografias e os documentários da época mostram torrentes deploráveis de civis desamparados, viajando em carroças através de paisagens bombardeadas, por cidades devastadas e campos áridos. Crianças órfãs vagueiam desoladas à frente de grupos de mulheres exaustas, vasculhando destroços de casas em ruínas. Deportados com as cabeças rapadas e internados em campos de concentração, vestindo pijamas às riscas, olham apaticamente para a câmara, esfomeados e doentes. Até mesmo os eléctricos, seguindo irregularmente ao longo das linhas danificadas, movidos por uma corrente eléctrica intermitente, parecem traumatizados pelos rebentamentos das granadas. Tudo e todos - com a notável excepção das bem alimentadas forças de ocupação aliadas - parecem gastos, sem recursos, exaustos.

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Este é o primeiro parágrafo do livro Capítulo I, Legado de Guerra, do livro Pós-Guerra - História da Europa desde 1945 (Ed. 70). Um belíssimo começo a fazer jus ao título da colecção, "História Narrativa". Talvez as análises marxianas e estruturais tenham sentido, mas a História para falar aos homens, para falar à dimensão histórica dos homens, não pode perder a sua natureza narrativa. Dizer a história dos homens é modelar o tempo, e este só se deixa aperceber através das intrigas onde se manifestou. Um livro cujo primeiro capítulo começa assim, não dá vontade de pôr de lado.

Um momento do calendário litúrgico

Saí há pouco. Fui comprar os jornais e à farmácia. Encontro alguém, conhecido há muitos anos, dos tempos do PREC. Como eu levava a Vera (a minha neta) comigo ficamos a trocar umas generalidades de ocasião. Quando nos despedimos, essa pessoa diz: Bom 25 de Abril! Apesar da minha perplexidade, respondi: Bom 25 de Abril!

Por que razão fiquei perplexo? Nunca me tinha ocorrido que se pudesse desejar um bom 25 de Abril a alguém. Nunca o tinha feito. O 25 de Abril é uma data cívica e inscreve-se no calendário das comemorações públicas e políticas. Apesar da sua importância, ele tem a ver com a nossa pessoa exterior. No fundo, é um acontecimento superficial, como os acontecimentos histórico-políticos o são. Quando cheguei a casa, fiquei a pensar se os franceses se desejam mutuamente um bom 14 de Julho, ou os americanos, um bom 4 de Julho. É possível que isso aconteça, mas...

Entendo que se deseje um bom Natal ou uma boa Páscoa. São festas religiosas e, fundadas ou não numa ilusão metafísica, elas estão relacionadas com aquilo que há de mais fundo no ser humano. Estão, pelo menos, ao nível da festa de aniversário. Mas, um bom 25 de Abril, um bom 5 de Outubro, um bom 1.º de Dezembro, farão sentido? Esta minha perplexidade, porém, não deixa de ter um limite. No fundo, os grandes acontecimentos políticos têm todos eles uma dimensão religiosa, são uma espécie de consumação de uma vontade divina, que transforma mesmo os ateus mais renitentes em crentes dogmáticos. Talvez estas datas façam parte de um calendário litúrgico oculto e sejam emanação de estranhos poderes metafísicos.

O fantasma do acontecer



Cumpre-se mais um ano do 25 de Abril. O curioso para mim, que vivi intensamente a data e os tempos posteriores, é as metamorfoses da consciência do acontecimento. Nem nós nem a história do país nos mantivemos estáticos, e ao longo dos anos, a percepção do acontecimento foi-se alterando em conformidade com a nossa própria evolução e a evolução do país. Isto é inevitável e mesmo nas abordagens históricas de cariz mais científico, será muito difícil ao historiador, por mais precauções epistemológicas que use, fugir à sua consciência e à circunstância em que vive. Veja-se, por exemplo, o artigo de Vasco Pulido Valente, no Público de hoje (sem link).

De certa maneira, o 25 de Abril não existe. Nisso, partilha o destino de todos os acontecimentos históricos: dissolver-se no momento em que se tornam factos. A facticidade é morte e petrificação. Um acontecimento acontece e nesse acontecer desaparece. Resta a memória dos indivíduos e da colectividade. Mas a memória não é a coisa mesma. Não passa de uma imagem fantasmática daquilo que já não é mais do que um fantasma. Nessas memórias fantasmáticas, que habitam a consciência dos indivíduos, imiscuem-se sempre os seus interesses próprios (interesses pessoais, políticos, sociais, económicos, etc.), que fornecem uma linha que permite transformar essas imagens fantasmáticas em narrativas acomodadas a esses interesses. E que não haja ilusões: não há ninguém que não tenha interesses e que seja portador da narrativa verdadeira sobre o fantasma de um acontecimento.

Se estou profundamente de acordo com o diagnóstico que Vasco Pulido Valente sobre o pós-25 de Abril (acordo contra o eu que eu era naquela altura), se para mim, talvez por outros motivos, a data não é dia de festa, não deixa de ser um dia de alegria e de alívio. De certa maneira, gostamos sempre de reencontrar na memória esses momentos que manifestavam a nossa mais pura inocência. Ainda mais, se nós julgamos que essa nossa inocência dos 17 anos coincidia também com a inocência geral de um povo com 850 anos de história.

24/04/09

Da nossa meritocracia

Imagem retirada do Mentes Brilhantes

A propósito da passagem de mais um ano do 25 de Abril, a SIC apresentou ontem uma reportagem onde questionava, sobre as virtudes e os problemas da nossa democracia, alguns estrangeiros residentes em Portugal. Duas respostas prenderam a minha atenção. Uma senhora inglesa, cujo nome não retive, dizia que o principal problema de Portugal residia na inexistência de um ethos meritocrático. Ao contrário de Inglaterra, ter mérito em Portugal não chega, ou não é condição, para desempenhar determinados cargos mais elevados, contrariamente ao que se passa no Reino Unido. Por outro lado, o escritor norte-americano Richard Zimmler, residente no Porto, dizia que em Portugal havia mais liberdade do que nos EUA para fazer certas coisas: conduzir a 180 km/h, beber três whiskies e pegar no carro, ou copiar nos exames, coisa que o atormentava particularmente.

A senhora inglesa, talvez para ser simpática para connosco, emitiu a ideia de que estaríamos a caminho da meritocracia; seria uma questão de tempo. Claramente, a senhora não entende o povo que somos. Enquanto a batota e a trapaça for tão ampla como hoje, na escola ou na vida social, não se caminhará para aquilo que ela chama meritocracia. Por outro lado, Portugal não é um país desprovido de ethos meritocrático. Inconscientemente, mas muitas vezes de forma consciente, os portugueses valorizam o mérito do trapaceiro, do batoteiro, do que se safa aproveitando os brandos costumes, explorando as obscuridades na lei, daquele que, sem grandes talentos, tem conhecimentos certos ou fez um percurso, cheio de truques e alçapões, numa das juventudes partidárias que interessa. Esse é o mérito que reconhecemos e, de facto, invejamos.

Até aos 18 anos...


A frequência obrigatória da escola vai agora até aos 18 anos. Na Europa, com a excepção da Hungria e da Bélgica, também até aos 18 anos, todos os outros países têm os 16 anos como limite de obrigatoriedade. A nomenclatura educacional do regime aplaude. Os sindicatos, para além dos inevitáveis mas, são a favor e os representantes dos pais são a favor, inevitavelmente sem mas... Tirando os alunos, e estes pelos motivos de que se suspeita, ninguém se interroga verdadeiramente sobre a bondade da medida. Será bondosa a medida, num país que ainda não conseguiu fazer cumprir a escolaridade básica obrigatória? Será bondosa a medida, fundamentalmente na relação do indivíduo com a sua liberdade? Aos dezasseis anos, dever-se-á ter a liberdade de optar por seguir a escola ou não, dever-se-á ter a liberdade de arcar com o peso das escolhas que se faz. Será bondosa a medida, relativamente ao que vão ser as escolas secundárias com gente que as não quer frequentar? Ah, sim. A ministra conta com os professores para alterarem o mundo e a realizarem os seus devaneios. Uma das coisas que me tornou o Partido Socialista absolutamente odioso é a sua tentação a engenharia social. De um partido da liberdade, passou a ser um partido que quer impor pela coacção da lei o pequeno mundo que habita na cabeça dos seus dirigentes e dos governantes que escolheu. Por muito que se teça loas ao progressismo da medida, ela apenas faz parte de um conjunto mais amplo que tem por finalidade travestir a realidade e evitar as políticas que poderiam efectivamente contribuir para a melhoria do ensino e da instrução dos portugueses.

Jornal Torrejano, 24 de Abril de 2009

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22/04/09

Tempos difíceis


O Banco de Portugal é sempre generoso. Há dias, depois de toda a gente perceber que a economia portuguesa se ia contrair fortemente, lá veio prever um recuo de 3,5%. Mas o FMI é menos generoso e os seus números são sensivelmente diferentes: 4,1% de queda do PIB e uma taxa de desemprego na ordem dos 11%. O primeiro-ministro, arrancado ao sonho que o sonambulismo do país lhe permitiu, veio dizer que temos de nos preparar para tempos muito difíceis em 2009. Preparar? Mas 1/3 de 2009 já passou. Daqui a "uns" dias é final de ano e uma nova era terá a sua aurora em Janeiro de 2010. A não ser que os tempos difíceis signifiquem que os portugueses, mais uma vez atacados de sonambulismo, se lembrem de dar uma nova maioria absoluta ao engenheiro Sócrates. Sim, isso seriam quatro anos de tempos particularmente difíceis, para os quais nem todo o 2009 chegaria como preparação.

21/04/09

Aula assistida



Ontem tive a minha primeira aula assistida. Sim, eu requisitei aulas assistidas, para além de ter entregue os objectivos. Isto, apesar de discordar total e frontalmente deste tipo de avaliação de professores, e esperar que ele seja substituído por um mais consentâneo com os interesses dos alunos. Este modelo visa, em última análise, consagrar um tipo de escola cuja finalidade é evitar que os alunos aprendam.

O curioso da minha experiência é a profunda desadequação da lei e da teoria subjacente à lei relativamente ao tipo de aula que eu faço. A aula foi de Filosofia do 12.º ano, aula centrada no capítulo VIII da Origem da Tragédia. Os meus alunos são bons e empenhados, desejosos de aprender, desejosos que se lhe abram caminhos. No fundo, é esse o papel da Filosofia. Mas toda a lógica da avaliação de professores parece centrar-se no tipo de relação professor-aluno que existe na educação pré-escolar e no primeiro ciclo do ensino básico. Muito daquilo que o Ministério acha relevante acontecer numa sala de aula, é perfeitamente irrelevante no 12.º ano, quando se trata com alunos pré-universitários. Aliás, deveria ser irrelevante já mesmo no 10.º ano.

A principal conclusão da experiência centra-se na necessidade de substituir a concepção de avaliação de professores e, antes de tudo o mais, substituir a concepção de escola que, como uma praga infernal, tombou sobre o sistema educativo português.

17/04/09

Do excesso de matemática



O Zé Ricardo escreveu um post, Matemania, onde, com razão, verberava a excessiva importância dada à Matemática no currículo escolar nacional. O problema não será apenas português, mas cá ele afecta os resultados escolares e impede muitos alunos de seguirem cursos e carreiras onde a Matemática tem um peso irrelevante. A dado momento é feita, mais uma vez com razão, uma comparação com a Teologia.

Descartes, também ele um matemático, é considerado o pai da modernidade, devido à sua filosofia. Há duas características dessa filosofia que se tornaram o programa central dessa mesma modernidade: a reflexividade (chego a uma verdade indubitável através de um processo de reflexão) e a matematização do real (a ideia de uma mathesis universalis). Estas ideias, mesmo depois do pensamento de Descartes ter declinado, se isso acontece com o pensamento dos grandes filósofos, foram-se tornando dominantes e o desenvolvimento da modernidade não tem sido outra coisa senão a invasão progressiva e a colonização das múltiplas esferas da vida por essas ideias.

A escola é um exemplo muito interessante. Não só o currículo das múltiplas áreas foi invadido pela matemática, como a própria praxis docente foi invadida pela reflexividade. Assim como o cerne do currículo é a matemática, o cerne da praxis de professor é a reflexão sobre a sua prática, através daquilo que se denomina auto-avaliação. Os processos de avaliação de professores, de avaliação de escolas, etc. são o desenvolvimento da ideia cartesiana de reflexividade, bem como a preponderância da matemática é o desenvolvimento da ideia de mathesis universalis, de uma matemática universal que permite submeter toda a realidade ao cálculo. Não por acaso, os processos de avaliação de escolas, de professores, mas também de empresas, de funcionários, etc., combinam a reflexividade, essa espécie de análise crítica do seu desempenho, com o cálculo matemático desse desempenho. Uma coisa requer a outra, pois elas emergiram juntas no momento inaugural da época moderna, em cuja luz ainda vivemos.

Quem pensa efectivamente o real pode perceber que a matemática não é precisa em todos os currículos, que a sua importância para a vida dos homens está sobreavaliada. Pode também dizer que a avaliação das funções e das instituições está longe de garantir aquilo que a ideologia dominante espera delas. Mas pensar é uma coisa estranha à vida quotidiana, mesmo de pessoas instruídas e que tomam decisões. Pensar implica pôr em causa os quadros mentais que servem para interpretar a realidade numa certa época histórica. São esses quadros mentais que iluminam o raciocínio e a acção dos homens.

A matemática e a "mania" das avaliações que agora pulula por todo o lado não são bem modas, no sentido usual do termo. Fazem parte de um projecto que se tem vindo a desenvolver há várias séculos. Mais, matemática e reflexividade-avaliadora são os fundamentos desse projecto. É esse projecto que ilumina, mesmo que os homens não tenham consciência disso, toda a vida, e que conduz o raciocinar, o deliberar, o decidir e o agir dos homens. É por esse motivo que o post do Zé Ricardo pode parecer estranho, como pode parecer estranho a afirmação de que a avaliação de professores ou de escolas não contribuirá para ter melhor professores ou melhores escolas. Estas afirmações, mesmo se verdadeiras, não são entendidas, pois estão em contradição com aquilo que, de forma mais clara ou mais obscura, dirige os homens nos tempos que são os nossos.

Interessante é, ainda, analogia com a Teologia. Esta era o fundamento e a luz do projecto medieval. A Idade Média não foi outra coisa senão o desenvolvimento de um projecto teológico inscrito no seu início, e que teve em Agostinho de Hipona o seu grande nome. Curiosamente, quando o desenvolvimento da Teologia, na primeira e segunda escolásticas, atinge o auge é quando a Idade Média começa a morrer. Não vivemos nós o tempo em que a matematização do real e a reflexividade colonizam toda a vida? Não será esta exuberância o sinal da sua morte próxima?

Da necessidade do juiz


Além disso, também não podemos conceber que a cada cidadão seja lícito interpretar os decretos ou direitos da cidade. Porque se tal fosse lícito a cada um, ele seria por isso mesmo juiz de si próprio, na medida em que cada um poderia, sem nenhuma dificuldade, desculpar ou doirar os seus actos com uma aparência de direito e, consequentemente, instituiria a vida de acordo com o seu engenho, o que é absurdo. [Espinosa, Tratado Político, cap. III, 4]

Jornal Torrejano, 17 de Abril de 2009


On-line está a edição desta semana do Jornal Torrejano. Clique aqui, para ir até .

16/04/09

Somewhere Over The Rainbow - Judy Garland

Para a leitora Maria Correia.

Por falar em crise moral

Naada melhor do que voltar a escutar este já "velho" vídeo: Mário Crespo entrevista Medina Carreira.

John Coltrane - My Favorite Things - 1961

Outro sintoma


As palavras de João Palma, novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, são eluciditavas do clima que se vive na Justiça em Portugal. Independentemente das razões que assistam ao magistrado, o cidadão comum, a cada dia que passa, cimenta a convicção de que a lei não só protege os mais poderosos como é feita propositadamente para isso. A crise económica tem vindo a tapar uma crise moral muito mais profunda, crise moral esta que tem os seus expoente nas áreas da Educação e, fundamentalmente, na Justiça, crise esta que ameaça minar a confiança dos cidadãos não apenas no actual regime, mas na própria democracia.

15/04/09

Jeff Beck - Somewhere Over the Rainbow

Não sei que estranhas coisas me passam pela cabeça para colocar no blogue vídeo destes.

A cegueira da nossa Justiça


Em Portugal, a cegueira da justiça não significa a sua independência. Significa apenas que a justiça é cega para a situação social daqueles que a ela recorrem. Veja-se o caso da queda da ponte de Entre-os-Rios. Morreram 59 pessoas, os familiares pedem justiça. São acusados umas figuras menores que o tribunal sensatamente absolve. Agora, os familiares das vítimas têm meio milhão de euros a pagar em custas judiciais. Moral da história: recorre à justiça apenas se fores rico, muito rico. A nossa justiça é cega para uns e vê bem de mais para outros. Mas a questão não está nos tribunais, mas naqueles que, em nome do povo, fazem as leis.

14/04/09

Händel - Aleluia

Nos 250 anos da morte de Händel.

Jennie Tourel - O sleep why dost thou leave me (Haendel)

A crise e a oportunidade


Ana Paula Vitorino, obscura secretária de Estado dos Transportes, com a finalidade de atrair os empresários brasileiros a Portugal, afirmou, numa feira internacional de logística, coisas como estas: «o Portugal de há 10 anos não existe mais»; «o Governo português está a transformar a crise numa oportunidade para dar um salto em frente para um patamar de maior competitividade»; «Temos neste momento um Portugal moderno e desburocratizado».

Sempre que leio coisas como estas, pergunto-me se existe alguém que se deixe convencer por estes lugares comuns. É evidente que o Portugal de há 10 anos não existe mais, como o de há cinco ou o de há três. Depois desta banalidade, alguém acreditará que por cá o governo está a transformar a crise numa oportunidade? Toda a gente sabe que essas coisas se lêem nos cursos e cursilhos de economia e de gestão. Transformar crises em oportunidades é um belo chavão, mas fazê-lo mesmo, acontece apenas nos casos excepcionais e estes são a excepção e não a regra. Tomara Portugal não ver desaparecer parte substancial da sua economia, quanto mais aproveitar a crise para se afirmar como país de economicamente de excepção e competitivo por excelência. Onde estão as evidências empíricas dessa transformação é coisa que nós, pobres portugueses, não sabemos e a senhora secretária de Estado esqueceu-se de informar. A não ser que as oportunidades sejam a desburocratização do país. Mas basta visitar uma escola, um hospital, uma instituição pública para perceber que a desburocratização só existe na imaginação fértil da gente do governo. Já estamos todos a ver os empresários brasileiros a tomar o avião para Portugal, para assim aproveitarem rapidamente a excepção que este paraíso tão ditoso, devido ao governo de tais filhos, é.
Adenda: quando escrevi o post, ainda não tinha lido isto. Parece que o país que está a transformar a crise numa oportunidade vai ver a sua economia recuar 3,5%, nas previsões sempre amigas do Banco de Portugal.

Quatro máximas de Thomas Merton


Esperar é arriscar ser decepcionado. Decidam-se a correr esse risco.

Um escritor de tal modo prudente que nunca escreve nada de criticável, nunca escreverá nada de lisível. Se desejam ajudar os outros, decidam-se a escrever coisas que certos condenarão.

Se não sabem duvidar, não podem ser homens de fé. Não podem ser homens de Deus se não são capazes de contestar o valor de um preconceito, seja um preconceito religioso. A fé não é uma aceitação cega e sem reserva, um juízo de facto. É uma decisão, um juízo aceite deliberadamente e inteiramente, à luz de uma verdade que não pode ser provada, e não a simples aceitação de uma decisão tomada por outrem.

O poeta entra em si mesmo para criar. O contemplativo entra em Deus para ser criado. [Thomas Merton, Semences de Contemplation]

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Estes pequenos textos interessam-me por dois motivos. Por um lado, pela fina intuição do acto literário que este monge trapista possuía. Em Semences de Contemplation (New Seeds of Contemplation, no original) há um conjunto relativamente largo de reflexões sobre o acto poético, a criatividade e a radical singularidade que deve ter o poeta, a qual é posta em paralelo com a radical singularidade que deve possuir o monge. Por outro, os textos de Merton - que leio há longos anos - abrem perspectivas de diálogo com o mundo moderno que não se encontram me muitos textos e tomadas de posição da Igreja Católica. Quando Merton diz que quem não sabe duvidar não pode ser um homem de fé, abre o caminho para o diálogo com a tradição da modernidade inaugurada por diferentes formas de cepticismo. Mas, fundamentalmente, abre as portas à conversação com um mundo em que a indiferença se traveste de dúvida. O que Merton mostra é que o cristianismo católico tem recursos suficientes para falar com o mundo actual, mesmo nas sociedades pós-modernas e hedonistas como são as nossas. Falta-lhe, porventura, a inteligência ou a vontade.

13/04/09

Pensar e falar

Com efeito, toda a degradação individual ou nacional é imediatamente anunciada por uma degradação rigorosamente proporcional na linguagem. Como poderia o homem perder uma ideia ou apenas a rectidão de uma ideia sem perder a palavra ou a justeza da palavra que a exprime? E, ao contrário, poderia ele pensar mais ou melhor sem o manifestar de imediato pela sua linguagem? [Joseph de Maistre, Les Soirées de Saint-Petersbourg. Deuxième entretien]
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A precisão da linguagem é a outra face da precisão do pensamento e não há pensamento rigoroso sem linguagem rigorosa. Quando a linguagem das novas gerações, e das mais velhas também, atinge o grau de degradação em que hoje se encontra, não é apenas a faculdade de falar que se encontra diminuída. É a faculdade de pensar, o entendimento, que perde os seus instrumentos e se degrada. A permissividade com que se trata a língua é o outro lado do desprezo social que se tem pelo acto de pensar. Mas é este acto de pensar que permite ao homem compreender o mundo, os seus semelhantes e a si mesmo. Mais: é pelo acto de pensar que afirma a sua diferença específica com os animais não racionais. A degradação da linguagem não é apenas uma degradação da nossa capacidade de comunicar ou exprimir o que se passa em nós, é uma degradação da nossa natureza, uma diminuição da nossa humanidade. Estudar gramática, aumentar o léxico, apreender a sua dimensão semântica, não são exercícios pueris, mas formas de nos tornarmos humanos.

12/04/09

Morton Feldman - Music: For Samuel Beckett - 1987

L'Aquila e o mal


O que se esconde por detrás desta desoladora foto da Reuters? Não é apenas o número de mortos ou a dor dos vivos, nem tão pouco o poder das forças naturais. Por detrás desta foto oculta-se o mistério do mal. Não me estou a referir a nenhum mal metafísico, a nenhum castigo divino. Estou a referir-me ao poder, ao poder humano. A esse poder que não quis escutar os avisos de quem estudava o fenómeno sísmico e a esse mesmo poder que é incapaz de fiscalizar e de punir aqueles que constroem contra as regras que esse mesmo poder impõe. O poder é o lugar do mal absoluto e esse mal tanto pode provir da acção como da omissão. O problema é que esse mal, em certos lugares da terra, se tornou tão banal que ninguém o percebe como um mal absoluto, ou mesmo como um mal. Mas a foto da Reuters, apesar das flores, é uma prova da sua existência.

Vida de Bo


Finalmente conseguimos infiltrar um agente nosso na Casa Branca. Graças aos bons serviços do senador do Massachusetts, Edward Kennedy (cf. Público), o agente secreto português, um cão de água denominado Bo (sigla secreta de Bola - o jornal mais lido pelos portugueses, presuma-se) foi conviver com a família Obama. A classe política portuguesa está orgulhosa do facto, embora não se refira a ele por motivos óbvios. Já bastou o escândalo das fotos públicas dos nossos agentes secretos. Sobre a missão confiada ao agente há várias versões controversas. As fontes mais seguras afirmam, porém, que o trabalho de Bo se destina a gravar e a transmitir para Portugal os ensaios que Obama faz em casa dos seus discursos. A finalidade é retirar slogans que se adaptem a Portugal e apresentá-los antecipadamente como criação nossa. As mesmas fontes garantiram, todavia, que não se pretende copiar as ideias que preenchem a retórica obamiana. Afirmaram que em Portugal as ideias não têm mercado, só os slogans nos interessam. Este pequeno e infeliz blogue partilha o agrado geral da nação perante o destino de Bo e anseia ver os primeiros frutos do seu trabalho já nas próximas eleições europeias. Com Bo na Casa Branca é o V Império que se torna realidade.

11/04/09

Corín Tellado

Ao passar pelo Público on-line, tive uma visitação do passado, ainda por cima uma visitação que veio mostrar a minha ignorância sobre um assunto que tinha uma substancial importância no tempo em que as coisas ainda tinham importância. O Público informou-me, então, da morte da escritora espanhola Corín Tellado. Lembro-me perfeitamente das revistas de fotonovelas com esse nome. Faziam parte do mundo feminino, talvez de certas classes sociais menos cultas, e eram lidas, in illo tempore, avidamente. Não sei se alguma vez toquei, estou a referir-me mesmo ao gesto físico de tocar, numa revista dessas, mas via-as pelas bancas de jornais e nas mãos de muitas raparigas e, claro está, nas mãos das sopeiras, classe social que a revolução dos cravos e a entrada para a CEE veio abolir quase por completo, tendo alterado o nome dos quadros remanescentes, digamos assim. Este era o acervo de informação que eu tinha. Faltava-me o essencial: Corín Tellado era mesmo uma escritora, o nome de uma pessoa que fazia, e muito bem, a vida a partir daquelas novelas. Consta que é a escritora de língua castelhana mais vendida, logo a seguir a Cervantes. Foi muito premiada e agraciada em Espanha e isso deve ter sido muito justo. No fundo, consolou milhões e milhões de corações. Hoje, que estou mais para velho do que para novo, vejo com outra compreensão as coisas. Aquilo que era puro lixo há 30 anos, percebo-o agora como a expressão da necessidade de consolo que todos os seres humanos têm. E, além do mais, um grande mercado para quem tiver o talento da consolação e o dom de consolar.

Arvo Part - Passio

Boa Páscoa

El Greco - Cristo Crucificado (1587-1596)

Depois de um longo interregno, este blogue volta. Talvez venha mais lento e mais espaçado. Ver-se-á. Mas volta com um admirável quadro de El Greco, uma pintura adequada aos dias de morte e ressurreição que vivemos, aos dias de Páscoa. É pela Páscoa que eu gostaria de recomeçar.

A Páscoa, tanto a dos judeus como a dos cristãos, tem no seu núcleo central a ideia de libertação e a da emancipação. Libertação dos judeus do cativeiro, emancipação dos cristãos do terror da morte eterna. Se há temática que marcou os últimos séculos foi essa, a da libertação e a da emancipação. Mesmo os movimentos mais radicalmente anticristãos, como o iluminismo e o marxismo, só são compreensíveis na sua filiação directa (mesmo que os seus fundadores o tivessem negado) no cristianismo, nomeadamente nos acontecimentos da Páscoa.

Mas, ao trazer hoje uma imagem do Cristo crucificado, gostaria de lembrar um outro aspecto que o tempo foi apagando, e que certa revivescência pagã, na qual não nos importamos de encontrar filiação, não sabe ou não quer saber. O sacrifício do Cristo tem um elevado significado civilizacional. Ao fazer da morte na cruz do seu fundador o núcleo central de uma nova religião, o cristianismo veio abolir e tornar execráveis as práticas de sacrifícios humanos, que existiam por toda a parte. Para o cristianismo só há um sacrifício válido, o do filho de Deus, e toda a morte de homem, ou mesmo de animais, se tornou inaceitável.

É certo que os cristão vivem a sua fé, quando a têm, centrados na promessa da ressurreição da carne, mas essa fé que se abre à controvérsia está assente num terreno civilizacional, o qual qualquer homem dotado de razão e boa vontade não pode diminuir a importância: o sacrifício humano é desagradável a Deus. Mesmo que o cristianismo só tivesse sido isto, já seria o bastante para o colocar como uma das forças mais poderosamente civilizadoras da humanidade e como um dos fundamentos de uma conduta racional entre os homens. Boa Páscoa.

24/03/09

Os dias de suspensão


Este blogger está inactivo. A verdade, porém, é que as pilhas de trabalhos para ler, avaliar e discutir com os alunos me têm roubado tempo e disposição. Em verdade, em verdade, vos digo: nada melhor do que uns testes para avaliar os alunos. O controlo da fraude faz-se na sala de aula. Depois corrigir testes é uma coisa, ler trabalhos é outra [e a preocupação coma fraude é pior do que a angústia do guarda-redes no momento do penálti (será assim que se escreve? Não, o dicionário da Porto-Editora grafa penalty)]. Quando os alunos fazem seriamente os trabalhos aprendem 100 vezes mais do que num teste, o problema é mesmo a seriedade com que alguns se entregam ao acto. Enfim, ossos do ofício, mas a verdade é que depois de ler tanta coisa que seria bom não se ter lido, pouco discernimento resta para passar pelo blogue. Vamos ver se a coisa começa a aliviar.

21/03/09

Um jogo de equívocos



O futebol é um jogo perverso. Mobiliza demasiadas emoções e demasiadas paixões, mobiliza grandes interesses, mas está sempre sujeito a um erro da equipa de arbitragem. O Benfica, o meu Benfica, ganhou a Taça da Liga (nem sei bem o que isso é) ao Sporting. Mas o golo do Benfica, aquele que empatou o jogo, nasceu de uma decisão errada da equipa de arbitragem. Não era já mais do que tempo de se começar a usar meios electrónicos para detecção da verdade de certas jogadas? Com o dinheiro envolvido e as emoções clubísticas sempre tão acirradas, o uso desses meios é quase uma obrigação para manter a paz pública, isto para além da verdade objectiva dos jogos. Os homens enganam-se. Em princípio, presume-se que os árbitros, mesmo enganando-se, estão subjectivamente convencidos da verdade das suas decisões. Mas não é disso que se trata, mas da verdade objectiva do jogo. Parece, porém, que existe uma verdadeira indústria, talvez um lobby poderoso, que vive das paixões propiciadas pelos enganos no futebol. Talvez seja ele que não está interessado no uso de meios electrónicos para auxílio da arbitragem. É por coisas destas que o futebol cada vez me interessa menos. No fundo, não passa de uma brincadeira de garotos, ou de homens que teimam em não deixar de ser garotos, onde o erro, a distracção e a batota, como nos jogos infantis, têm um papel preponderante na determinação do mérito. Perdoem-me os benfiquistas menos dados, em matéria clubística, ao uso da razão. Mas qual o prazer de ganhar quando há um engano que perverte a verdade? Mesmo que essa verdade não seja aquela que os adeptos do adversário, neste caso do Sporting, supõem na sua indignação.

Mudança na correlação de forças

Consta que o PS vai deixar cair dois diplomas (o do voto presencial dos emigrantes e o do pluralismo enão concentração dos media) vetados por Cavaco Silva. Não quer criar mais atritos com o Presidente. Este súbito ataque de harmonia institucional, depois do que se passou com o famigerado estatuto dos Açores, significa apenas que os socialistas começam a perceber que a maioria absoluta lhes pode escapar e que um conflito com Cavaco Silva não lhes rende um voto, nem à esquerda. Significa uma mudança na correlação de forças e nada mais do que isso.

20/03/09

O Provedor de Justiça


Se isto é verdade, então o PSD bem pode limpar as mãos à parede. Jorge Miranda tem todas as condições para ser, como Nascimento Rodrigues, um Provedor da Justiça ferozmente independente e sério. Miranda é um dos pais da constituição. Mas acima de tudo é um homem de bem, um homem que, para além da sua formação académica na área do Direito constitucional, é reconhecidamente uma pessoa honesta. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite que se deixe de estados de alma, reconheça, ao menos, que o PS teve, neste caso, golpe de asa. Mas sejamos prudentes. Vejamos o que os protagonistas têm para dizer nos próximos dias. Seja como for, se Jorge Miranda fosse o escolhido para Provedor de Justiça alguma coisa melhoraria na democracia portuguesa, ou pelo menos não pioraria.

Amália Rodrigues - Gaivota

Um novo começo


Até agora, as posições do Presidente americano, Barack Obama, têm mostrado que a troca de Bush pelo actual inquilino da Casa Brana tem sido bastante proveitosa para o mundo. A arrogância texana foi substituída pela inteligência. Veja-se o caso das relações com a Rússia, veja-se a posição de Obama perante o escândalo dos prémios de "produtividade" aos gestores da AIG, veja-se, agora, a mensagem dirigida ao povo e às autoridades iranianos. De facto, é necessário um novo começo. Com este gesto, longe de ser naïf, Obama encosta o regime de Teerão à parede. Já não há desculpa da arrogância e da prepotência americanas. É provável, mas apenas provável, que o mundo, desde que George W. Bush saiu da Casa Branca, se tenha tornado um pouco menos perigoso. Obama tem sido obreiro dessa transformação. Esperemos que os ventos lhe continuem a correr de feição. Nós, europeus, precisamos desesperadamente de uma América confiável e madura.

Jornal Torrejano, 20 de Março de 2009


No que toca à opinião, comece-se pelo cartoon de Hélder Dias. Na opinião escrita, Carlos Henriques escreve Benfica sem classe (estas as coisas a gente sabe, escusava de as ver escritas no jornal), Carlos Nuno, O Cine Clube, Francisco Almeida, Apenas Humano, Inês Vidal, Tartan e José Ricardo Costa, A Idade das Trevas.

Por esta semana está dada a notícia das notícias torrejanas. Bom fim-de-semana.

19/03/09

Argentino Luna

Prolegómenos à escravatura voluntária



Eu não esperaria que esta gente que governa tivesse um mínimo de decoro e respeito pelas pessoas. Quem inventou o concurso de professores titulares é capaz de tudo. Portanto, é capaz de criar uma situação de tal ordem na escola que, muitos professores em desespero de causa, peçam a aposentação com elevadas penalizações. Depois, é capaz de vir dizer que eles são necessários, desde que voluntários.

Há uma coisa, porém, que me intriga: O que terá a cara dos professores de diferente da de outros cidadãos? Fala-se que o Ministério da Saúde vai também recorrer a médicos aposentados, mas pagando-lhe. Por que motivo os professores hão-de ser voluntários nas escolas? Ainda por cima, se houver voluntários, estes terão de fazer um relatório crítico da sua actividade, uma espécie de auto-avaliação (a cabeça burocrática desta gente nunca pára de pensar). Este governo começou por baixar drasticamente os salários dos professores, como se eles fossem privilegiados relativamente a outros licenciados (a mais pura das mentiras), e agora acha que devem trabalhar gratuitamente. Parece que estamos perante os prolegómenos a uma nova prática de escravatura. A escravatura voluntária. O que vale é que o escravo tem o dever de fazer um relatório e de se auto-avaliar.

Joseph de Maistre - O estado habitual do género humano



A história prova, infelizmente, que a guerra é o estado habitual do género humano num certo sentido, isto é, o sangue humano deve correr sem interrupção sobre o globo, aqui ou ali, e a paz, para cada nação, é apenas um pequeno descanso.

Cita-se o encerramento do templo de Janus, sob Augusto, cita-se um ano do reino guerreiro de Carlos Magno (o ano de 790) onde ele não fez a guerra. Cita-se uma curta época depois da paz de Ryswicki, em 1697, e uma outra tão curta após a paz de Carlwotizz, em 1699, onde não houve guerra; não apenas na Europa, mas mesmo em todo o mundo conhecido.

Mas estas épocas são apenas momentos. [Joseph de Maistre, Considérations sur la France]