09/03/09

A virtude da honestidade


António Barreto escreveu, ontem, no Póblico o seguinte: «À honestidade aconteceu algo de parecido. A ponto de se considerar que uma pessoa honesta "é parva" e "não sabe da poda". Abundam os lugares-comuns que revelam que a honestidade não é um valor com muita saída. Quem defende a honestidade é considerado "ingénuo". De alguém que perde tempo a escrever sobre a necessidade da honestidade na vida pública se dirá simplesmente que perde tempo com "sermões". De um honesto se garante que nunca será rico nem irá muito longe na política. Um comerciante que não "mete a unha" é palerma. Um corretor de bolsa que não usa informação privilegiada e não manipula os concorrentes é um mau profissional. Um político que, antes das eleições, não esconde as dificuldades, para só as revelar depois de ganhar, é um "tonto" e deveria mudar de profissão. Um empresário que nada oculta aos trabalhadores é um "samaritano" sem killer instinct. Um estudante que copia ou plagia só merece condenação se for descoberto. Aliás, se for "apanhado", a complacência é de rigor

Por um acaso, numa das minhas aulas de hoje, a questão da honestidade na actividade escolar foi debatida. A necessidade de não copiar, de não plagiar, de não pedir aos primos licenciados que façam os trabalhos. Enfim a necessidade de evitar a batota, pois ela não só distorce a justiça entre alunos, como torna aquele que faz batota menos apto.

Houve duas coisas que me impressionaram. Em primeiro lugar, impressionou-me a complacência, para não dizer o desprezo, com que muitos alunos encaram o dever de honestidade e probidade intelectuais. Por mais que se explique, do ponto de vista ético e até do ponto de vista da utilidade pura e simples, eles não entendem a gravidade do acto de copiar, de entregar trabalhos feitos por outros, etc. Em segundo lugar, impressionou-me a intervenção de alguns alunos que subliminarmente deram a entender que percebiam muito bem as limitações dos professores para penalizar os alunos batoteiros.

As dificuldade de Portugal não são apenas económicas. As mais graves residem aqui, no desprezo pela honestidade. As escolas deveriam ser um lugar onde o desprezo que a comunidade tem pela virtude da honestidade seria duramente combatido. O que acontece, porém, é que a ideologia oficial manda abrir as escolas à comunidade, o que tem por consequência que a escola acabe por ser soterrada pela maneira como a comunidade vê o mundo e as relações sociais. O que este governo tem feito, ao nível do estatuto dos alunos, é acentuar as anteriores políticas de desresponsabilização das novas gerações, e por isso permitir que uma cultura, onde a honestidade não faz sentido, se solidifique cada vez mais no sistema de ensino.

Triste tristeza, por que és tão triste...


O actual regime político português está esgotado. Se dúvidas houvesse, bastaria ler as palavras do Presidente da República. Cavaco Silva disse estar «preocupado e até um pouco triste com a situação que o país atravessa». Desde quando a tristeza faz parte do jogo de linguagem da política? Haverá melhor prova de esgotamento do que a confissão de impotência presente nesta declaração? Repare-se na continuação do discurso do Presidente: «... mas continuo muito determinado em falar com os portugueses, conhecer as preocupações daqueles que têm dificuldades e estimular os que têm sucesso». Falar, conhecer, estimular são os verbos de uma confissão, de uma confissão de impotência que não é apenas a da limitação constitucional dos poderes presidenciais, mas do próprio regime. E o que pensa Cavaco fazer? Vai-se «manter no mesmo rumo, o de tentar dar confiança aos portugueses». Vai-nos dar mais do mesmo, daquilo que levou a esta "triste" situação, vai tentar (sic) dar confiança.

Cavaco não é exactamente como os outros políticos que pululam nos partidos governamentais. É mais honrado e mais atento aos valores do bem comum. O problema de Cavaco é que ele nunca passou de um contabilista, mesmo quando aprendeu os jogos esconsos da demagogia, na altura em que os dinheiros da CEE permitiam todos os delírios. Perdido o controlo na contabilidade, ele nada tem para dizer aos portugueses, aos portugueses que já não acreditam nas elites partidárias. A noite é cada vez mais escura.

O exemplo grego


Uma bomba explodiu em frente de um banco, em Atenas. É o segundo atentado nos últimos quatro dias. O caso grego não deixa de ser interessante. A contestação social gerada pela morte de um jovem não foi suficientemente percebida para lá das fronteiras helénicas. Não se tratou de uma revolta episódica. Pelo contrário, instalou-se um clima de contestação social global. Mas as coisas parecem não ficar por aí. Passou-se depois para a fase de pequenos actos criminosos (incêndios) contra instalações governamentais. Agora chegaram os atentados terroristas. Não nos esqueçamos, a Grécia é uma democracia e faz parte da União Europeia. Mas o problema não é apenas grego. O exemplo helénico tem condições sociais para alastrar a muitos países da União. A democracia não e um escudo contra a revolta gerada pela injustiça. Veremos.

08/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XVIII

(trabalhar no decalque de uma labareda,
a manhã um violino trespassando
as marés de simulacros.
e a garganta, presa a uma cascata,
de repente a já não poder mais:
arrancando ao som um acordo visceral, impetuoso –
e braços, pernas, cabelos todos
de regresso a um principiar de mundo,
vogais sem leme, sob o inexorável
recuo da boca, achando
o arquipélago final –
tantas vezes afundado no
sujo lacre da lucidez.)

Charles Aznavour - Que c'est triste Venise

Em busca do suicídio



Mário Nogueira emergiu, na crise que assola a educação, como a figura central da representação dos professores. Infelizmente! Esta ameaça de greve às avaliações mostra que a inteligência é coisa que não abunda lá para o lado dos sindicatos. Esta gente não terá percebido que na tentativa anterior de greve às avaliações, o governo trucidou os professores e abriu caminho para o conjunto de malfeitorias que se propôs fazer? Eu sei que há professores que defendem esse tipo de radicalização do conflito. Mas essa posição coloca os professores em maus lençóis. Em primeiro lugar, transforma o professor num mero assalariado, idêntico a qualquer outro que pode fazer greve em quaisquer circunstâncias. Isso significa que o professor não é um elemento central na constituição da comunidade e que não tem deveres especiais. Os professores que defendem isso, uma greve às avaliações, concordam tacitamente com a política governamental de proletarização da classe docente. Em segundo lugar, uma greve às avaliações, do ponto de vista táctico, é uma vitória para o governo. Mais uma vez terá oportunidade para isolar os professores, depois destes terem recuperado a simpatia da opinião pública.

Os sindicatos já erraram demasiado. Mesmo a recusa de negociar sem que o governo retirasse o actual modelo de avaliação foi um erro estratégico. Os sindicatos deveriam ter aceite o modelo e negociar a sua melhoria, a sua desburocratização e a eliminação de itens de avaliação absolutamente ridículos, como aqueles que dizem respeito à relação do professor com a escola ou com a comunidade. Mas este tipo de idiotices devem agradar tanto aos nossos sindicalistas como aos nossos decisores políticos. Não deixa de ser traumática para a classe docente estar entregue a pessoas como Lurdes Rodrigues, Valter Lemos, Jorge Pedreira, Mário Nogueira e a restante horda de sindicalistas.

07/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XVII

observa como o espanto
se desprende do jejum.
basta-te a tarde, o seu afago
a suspensas melodias,
o ainda sono de estenderes a nudez
pela profusão da infância.
talvez por isso o vinho se agarre tanto
ao nomadismo, e a noite se renda
a quem solta o lume por largos descampados,
cauterizando as constelações, a sabedoria
de quem primeiro soube beber
de um só hausto o firmamento.

Rytis Mazulis : Clavier of Pure Reason

PCP - 88 anos


Foi no Portugal dos Pequeninos que dei conta do aniversário do PCP. Ontem, o Partido Comunista Português fez 88 anos. Subscrevo o essencial daquele post de João Gonçalves. Quem me conhece há muitos anos sabe que militei fugazmente no PCP. Também sabe que há muitos anos que eu não me reconheço nem nos princípios teóricos-filosóficos do marxismo, nem na praxis dos partidos comunistas, qualquer que seja a sua orientação. Dito de outra maneira, não sou comunista nem gostaria de viver num regime comunista. Mas o PCP tem qualquer coisa que é exemplar na vida política portuguesa. Os seus militantes, genericamente, possuem convicções, lutam por elas, são gente honrada e tentam gerir a sua acção política pela interpretação que fazem do bem comum. Se os partidos da área da governação (PS, PSD e CDS-PP) tivessem idêntica atitude relativamente os ideais democráticos e republicanos e ao bem-comum, a democracia portuguesa não seria o pântano que é. Não sendo sequer simpatizante comunista, julgo, no entanto, que o PCP tem duas coisas essenciais a dar à sociedade portuguesa: 1. o seu exemplo relativo à forma de estar na política, batendo-se segundo princípios, convicções e causas, agindo de forma honrada e visando o bem-comum (de acordo com o que pensa ser o bem-comum); 2. dar voz a uma parte da população que a miséria política, económica e moral tende não apenas a empobrecer, mas a roubar-lhe a possibilidade de ter opinião e visibilidade política.

A sociedade portuguesa continua a dar razão de ser à existência do PCP.

EPHEMERA - biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira


Disponível em modo de blogue está EPHEMERA - biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira. Vale a pena ir lá, e passar algum tempo a explorar as coisas que por lá estão. Melhor do que aquilo que eu possa dizer são as palavras do próprio José Pacheco Pereira: «EPHEMERA tem como objectivo divulgar materiais da biblioteca e arquivo pessoais de José Pacheco Pereira, em particular dos diferentes espólios, doações, ofertas e aquisições que deles fazem parte. Na medida do possível, do tempo e das circunstâncias, todos estes materiais estão acessíveis aos investigadores que deles necessitem para o seu estudo e trabalho, nos condicionalismos normais de uma biblioteca e arquivos privados. Dada a dimensão e qualidade de alguns dos materiais, em particular as espécies únicas e as colecções especializadas inexistentes em bibliotecas e arquivos públicos, o meu objectivo, a prazo, é tornar disponível a todos este acervo.» Para além de EPHEMERA, José Pacheco Pereira mantém outros dois blogues: Abrupto e Estudos sobre o Comunismo.

06/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XVI

quando as lâmpadas se ferem, o frio
faz surpreendentes ditados
à sinuosa quietação dos lábios.
quando se respira
contra uma janela alta, mãos
mergulhadas no espanto,
a vida toda é isto, ali:
um vidro pulmonar, a paisagem
de tal modo unida ao fôlego
que ambos se indistinguem num mesmo correr
de aparições.

Arnett Cobb & Eddie "Lockjaw" Davis - Go Power

O direito de enterrar e honrar os mortos


Vale a pena ler o trabalho do Público sobre Khavaran, um lugar perto de Teerão, para onde foram despejados os cadáveres daqueles que o regime islâmico iraniano foi executando entre 1980 e 1988. Um lugar "onde as flores e as lágrimas estão proibidas". O horror descrito pelos entrevistados é inominável, mas as palavras da escritora Monireh Baradran deixaram-me absolutamente perplexo: "O direito de enterrar os mortos e de os honrar é, na minha opinião, mais importante do que o direito de cidadania." Não é apenas o sintoma de um desespero perante a ignomínia que nos toca, mas, mais do que todo o resto, é ouvir, em 2009, a voz de Antígona a exigir a sepultura e honras fúnebres para o seu irmão, como se a tragédia de Sófocles ainda fosse pregnante, como se o dever para com os mortos se tivesse de sobrepor aos deveres para com os vivos. Aqueles que acham que o Islão pode ser um útil "compagnon de route" na luta contra o Ocidente capitalista, deveriam, se não forem completamente pervertidos, meditar nas palavras destes iranianos a que o Público dá voz.

Jornal Torrejano, 06 de Março de 2009

Disponível na internet encontra-se a edição desta semana do Jornal Torrejano. Destaque para a decisão da Assembleia Municipal de Torres Novas: anulou a concessão de serviços de águas a privados. Referência também para a decisão da Câmara começar por pagar as dívidas com juros mais elevados.

Na opinião, comece-se por ler Carlos Henriques e Mau futebol no Porto-Sporting. Depois, pode ler Carlos Nuno, O engenheiro, Francisco Almeira, Desconhecido, Inês Vidal, Corrimão e José Ricardo Costa, Violência Doméstica.

Para a semana haverá mais Jornal Torrejano, assim o queiram os imortais. Bom fim-de-semana.

Haja esperança (II)

As sondagens parecem não correr de feição para o partido do governo. É já qualquer coisa. Isto não significa que Sócrates não possa a vir a obter uma maioria absoluta. Mas talvez os portugueses estejam a despertar de um sonho, e comecem a perceber que afinal era um pesadelo. Não é que o nível político das oposições seja sequer recomendável. Não é pior nem melhor do que o do governo, é igualmente medíocre. Mas uma situação confusa, talvez seja um princípio de saída. Alguma coisa terá de acontecer, alguma coisa será melhor do que o estado a que se chegou. Haja esperança.

Haja esperança (I)


Nem tudo corre pelo pior. Em 2008, nasceram mais bebés do que em 2007. Os números estão, agora, ao nível de 2006. O aumento de nascimentos, num país envelhecido como o nosso, é uma coisa salutar e que convém sublinhar, como se sublinhou aqui, em anos anteriores, o desastre demográfico. Este aumento pode não querer dizer nada, mas também pode representar um princípio de esperança. Por muito trabalho que dêem a educar, uma comunidade precisa desesperadamente de novos elementos. Caso contrário, morrerá. Haja esperança.

05/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XV

o que eu digo é: abre os ossos
com a leveza de um outono a tombar.
as palavras são globos subterrâneos,
vazios ao meio – têm de chegar à boca
como um extenso ritual a desfazer-se.
até à derradeira deserção.
o que eu digo: escreve
como se caçasses uma visão,
ou um fantástico animal
se conduzisse, incisivo, para o teu ventre,
e lhe tomasses o instinto como
se a morte fosse o destino desse amplexo.

Gotan Project - Milonga de amor

Democracia na era da suspeita



Historicamente, a democracia manifestou-se sempre tanto como uma promessa, tanto como um problema. Promessa de um regime harmonizado com as necessidades da sociedade, sendo esta última fundada sobre a realização de um duplo imperativo de igualdade e de autonomia. Problema de uma realidade, muitas vezes, bastante longe de satisfazer estes nobres ideais. O projecto democrático nunca deixou de ficar incompleto lá mesmo onde ele era proclamado, quer tenha sido grosseiramente pervertido, subtilmente contraído ou mecanicamente contrariado. No sentido mais forte do termo, nunca conhecemos regimes plenamente «democráticos». As democracias realmente existentes permaneceram inacabadas ou mesmo confiscadas, em proproções, segundo os casos, muito variáveis. Daí que os desencatamentos andem a par com as esperanças que fizeram nascer as rupturas com os mundos da dependência e do despotismo [Pierre Rosanvallon (2006). La contre-démocracie. La politique à l'âge de la défiance. Paris: Ed. du Seuil].

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Não se encontrará a nossa democracia perto do quadro descrito por Rosanvallon? Não se estará ela a tornar numa «democracia» confiscada. É certo que as instituições vão funcionando, mas vive-se um momento em que a tensão entre a esperança na democracia e a descrença (o autor fala em défiance - desconfiança, suspeita) nela parece estar a pender para o lado da suspeita. Muita gente começa a suspeitar da capacidade da democracia realizar as suas promessas.

O interesse do texto de Rosanvallon reside em chamar a atenção sobre o óbvio: a democracia realiza-se num cumprimento de um duplo imperativo, o da igualdade e o da autonomia, isto é, da liberdade. Durante os últimos decénios a querela entre igualdade e liberdade tem animado as discussões sobre filosofia política, tendo a consideração da igualdade sofrido um abalo, até como desforra dos tempos em que o igualitarismo marxista tomou conta de uma parte do mundo e arrastou uma parte substancial do Ocidente a inventar o Estado-Providência, uma forma democrática de assegurar uma certa igualdade entre os membros de uma sociedade.

O que interessa, neste momento em que as desigualdades entre os homens se acentuam, é chamar a atenção para uma outra perspectiva. A querela entre liberdade e igualdade sublinhou apenas os aspectos aparentemente incompatíveis entre ambas. Mas o que ficou recalcado foi o facto de liberdade e igualdade se requererem mutuamente. O perigo das desigualdades sociais acentuadas não é apenas do aumento do fosso entre ricos e pobres, mas o de abrir o caminho para uma efectiva eliminação da autonomia de larga massa de indivíduos e a consequente supressão da liberdade.

A democracia é promessa e problema. Promessa de uma sociedade mais justa, problema de encontrar a justa medida onde igualdade e liberdade se maximizem mutuamente. A suspeita que nasce sobre a democracia funda-se nessa clivagem entre igualdade e liberdade, clivagem que faz parecer que a liberdade apenas serve para que os mais fortes oprimam os mais fracos. Se não quisermos ver a liberdade suprimida, então será melhor que cuidemos e reinventemos novas formas de realizar os imperativos da democracia.

A feroz concorrência


O mercado em Portugal sempre foi uma armadilha para os portugueses. A concorrência deveria fazer baixar os preços e encontrar formas de melhor servir os consumidores. Mas, por cá, quanto mais concorrência existe, mais devagar descem os preços. Pelo menos, parece. Veja-se o caso dos lucros da Galp no último trimestre de 2008. O lento acerto no preço dos combustíveis, relativamente à evolução do preço internacional do petróleo, gerou um acréscimo dos lucros, segundo o Público, de 105 milhões de Euros. Dito de outra maneira, foram os consumidores penalizados em 105 milhões de euros, só nas compras efectuadas à Galp, pela concorrência feroz que existe no mercado português dos combustíveis. Depois, os nossos liberais ficam espantados pelas saudades dos consumidores dos tempos em que os preços eram tabelados politicamente. Vá lá saber-se por quê.

04/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XIV

a cabeça a despegar-se
da gasta dilação com que se prende ao corpo. com a faca
de nenhum gume: o poema. o sopro das próprias
fundações da carne –
que atira a cabeça para longe,
com a bússola da noite
a servir de antecâmara.
retira-se a cabeça: cirurgicamente,
como a chegada das estações. porque: quando chega
uma estação, a cabeça esvazia-se,
deixa-se inaugurar.
faz-se espaço. flui.
e o sangue a cavalo nessa nudez é o óbolo
para a mais vincada migração:
permanecer.

Patti Smith - Smells Like Teen Spirit

A crise contínua


Na Alemanha, o professor Cavaco Silva alertou para a necessidade de ser muito eficaz na resolução da actual crise, caso contrário, novas e mais graves crises se perfilarão no horizonte. Cavaco diz a que prioridade deverá ser “minimizar as consequências de escassez de crédito e restaurar a confiança nos mercados financeiros”. Acrescentou que "restringir de forma explícita ou implícita, o grau de abertura das economias será uma resposta tão contraproducente em termos económicos, como perigosa em termos políticos”. Mas como conseguir este duplo milagre?


Por tudo isto, as pessoas podem começar a perceber a realidade do que vem aí. Mais e mais desemprego, volatilização das classes médias, a manutenção da tendência globalizadora, o que implicará a subsquente baixa dos salários devido à concorrência das hiper-potências demográficas. E talvez tudo isso não passe de um cenário idílico. Nada, neste momento, nos garante de que não vai ser bem pior, que as tais crises mais graves de que fala o Presidente da República não sejam mesmo a realidade futura, mesmo que se aja bem, segundo o paradigma de Cavaco Silva. Talvez a crise contínua seja o destino próximo do Ocidente.

03/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XIII

subo ainda para o coração de treva
onde as portas se intersectam
(lâmpadas trazendo
à idade mínima do espanto
o peso nebular de um labirinto).
tudo conduz
à friável câmara
da voz, musical lume
cerrando nas paredes líquidas
as suas línguas de sombra, as suas danças sentadas
no degrau de uma cifra. acende-se
um cálice de orvalho nas volutas do sangue,
a palavra recolhe-se ao seu lugar mais tenso,
abre-se o tempo sazonado e vertical
à chegada dos rostos.

[Exit Music] - Brad Mehldau Trio

Desígnio Inteligente


O Zé Ricardo escreve aqui sobre o encontro a decorrer no Vaticano entre teólogos e cientistas a propósito dos 200 anos do nascimento Darwin e da teoria do "desígnio inteligente", uma teoria pseudo-científica que pretende ver na evolução das espécies um sinal do plano criador divino. Ele suspeita que a discussão está inquinada: «Digam o que disserem os eminentes cientistas, os teólogos irão sempre encontrar sinais de Deus na evolução das espécies pelo simples facto de desejarem aí ver sinais de Deus, visto que, para eles, o mundo não faz sentido sem sinais de Deus.» Mas se ele ler aqui descobrirá que os teólogos católicos mais depressa se acordarão com os cientistas do que com os defensores da teoria do "desígnio inteligente", de origem protestante e americana. Não quero dizer que não haja um ou outro católico que não gostasse de fundir ciência e crença religiosa, mas vejo com muita dificuldade o Vaticano cair nessa armadilha. É preciso não esquecer que a Igreja Católica possui muitas e fortíssimas universidades, produz muitos cientistas e que a tradição filosófica e o discurso racional são estruturantes do catolicismo. Como é que um intelectual notável como Ratzinger iria permitir que a fé e a crença em Deus dependessem de uma teoria que tem pretensões de ser científica? No Vaticano lê-se e estuda-se muito. A Igreja Católica dificilmente abandonará a diferenciação dos dois planos: o que é matéria de fé não é objecto de investigação empírica; a ciência não investiga o sobrenatural. Eu diria que este encontro talvez seja mais um sinal de conflito teológico entre duas versões do cristianismo do que uma tentativa da Igreja Católica cavalgar o triunfo de Darwin. Ela sabe que as vitórias humanas são sempre muito temporárias.

Sócrates está conseguir

Imagem do Raiva Escondida

O governo está a conseguir realizar a sua agenda. "Os portugueses vão ter das pensões mais baixas entre o conjunto dos 30 países mais desenvolvidos do mundo dentro de 20 anos, revela um relatório da OCDE". Parabéns a José Sócrates e ao seu excepcional governo. Talento não lhes falta. Com uma nova maioria absoluta vão conseguir aproximar o país do nível médio de desenvolvimento de África. Ditosa Pátria que tais filhos tens!

02/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XII

dedos abalados, um justo esquecimento a entrar
na flutuação das miragens. (cada passo,
desligado de mim, aplaude.)
como um correr de sinos sobre a pele,
a rebelde inflorescência, um rasgo de seiva
destravando a sonolência com que as mãos percorrem
o esboroado tecido do mundo.
onde as inteligências, em golfadas de discórdia
e impudor, se afundam na cegueira,
eu faço aparecer um vento
sem rasto para ouvidos (presos
à usada predação de um fim).
e é nesse vento discreto, talvez fundamental,
que se passeia o riso das coisas,
como um vestido de núpcias agarrado ao fogo
que cresce no âmago da primeira chuva.

Apocalypse Now..Ride Of The Valkyries (Richard Wagner)

Arte e guerra


Em 1871, Friedrich Nietzsche ainda frequentava o casal Wagner e via no compositor, Richard Wagner, o símbolo de uma nova era. Por isso, escreve nos finais daquele ano, um prefácio dedicado a Richard Wagner que antepõe à sua primeira grande obra, Origem da Tragédia. Os anos de 1870 e 1871 foram, na Alemanha, anos de intenso fervor patriótico. Uma guerra franco-prussiana terminou com a vitória do lado germânico, com enormes perdas territoriais por parte da França, para além de elevadas indemnizações a pagar por esta à Alemanha.

No prefácio em causa, Nietzsche refere os horrores da guerra e a exaltação patriótica, mas fá-lo para dizer que a problemática da sua obra é, de facto, tão ou mais importante para o destino da Alemanha do que os acontecimentos que a História dera a viver naqueles dois anos. E que tipo de problema subjaz a essa obra? Um problema estético.

Em plena euforia nacionalista, Nietzsche vem dizer que a questão fundamental que se coloca à Alemanha é uma questão artística. Todas as vezes que lecciono essa obra começo pela justificação que Nietzsche dá para semelhante tese: "proclamo a minha convicção profunda de que a arte é a missão suprema e a actividade essencialmente metafísica da vida humana".

Dito de outra maneira, o sentido da vida dos homens não é dado nem pela História, nem pela Religião, nem pela Ciência ou tão pouco pela Filosofia. É na arte que se consuma a essência do homem e é ela que o leva para além das aparências. A obra é um longo argumentário que pretende mostrar que na Alemanha estava a nascer uma nova civilização trágica, a partir do espírito da música, um espírito que ia de Bach a Wagner, passando por Beethoven.

A ilusão nietzschiana reside menos na leitura que faz da tragédia grega de Ésquilo e de Sófocles, do que na esperança de ser possível restaurar o velho espírito trágico dos gregos, antes deste ter sido contaminado pelo optimismo "científico" de Sócrates. Mas esta história de uma grande ilusão só fica completa se se souber que, por um lado, Wagner acabou por não se reconhecer no papel que Nietzsche lhe atribuía e que, por outro, a Alemanha acabou sempre por optar pelo poderio militar em vez da arte.

Se houve tragédia, não foi a da ressurreição do espírito da música, não foi o artifício de uma combinação estética entre espírito apolíneo e espírito dionisíaco, mas o barulho dos exércitos a desfilar, das bombas a rebentar, enfim, a tragédia de duas guerras mundiais, onde o estético cedeu lugar ao assassínio em massa.

No entanto, talvez haja neste obra de Nietzsche qualquer coisa de premonitório. O horror e o pessimismo dos estados dionisíacos mais violentos encarnaram na dança dos exércitos. Os bacantes entregavam-se ao fervor do sangue, esse filtro estranho mais poderoso do que o álcool, as drogas ou o sexo. Por duas vezes, no século passado, Diónisos é retalhado nos campos de batalha. Não houve véu apolíneo que ocultasse tamanho horror.

Guiné-Bissau e o som da música da História

Bandeira da Guiné-Bissau

Quando comecei a interessar-me por política, por volta do ano de 1973, a questão colonial era um problema nuclear em Portugal. Formado na escola oposicionista do Cine-Clube de Torres Novas, o meu idealismo juvenil logo se deixou arrebatar pela simpatia para com os movimentos libertadores. Entre eles, brilhava a grande altura, na época, o PAIGC. Quando Portugal reconheceu as independências das suas ex-colónias, rejubilei (como muitos outros e ao contrário também de muitos outros) com o acontecimento: o sentido da História cumpria-se, os povos libertavam-se da opressão colonial. E nós cantávamos ao som da Guiné-Bissau livre e independente.

Nem vale a pena falar do que foram os anos posteriores às independências das colónias. A guerra contra Portugal transformou-se, nas principais colónias, em guerra civil (umas mais quentes, outras mais frias e disfarçadas). Os acontecimentos de hoje com os assassinatos de Nino Vieira, o presidente da Guiné-Bissau, e do general Tagme Na Waie, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas mostram, mais uma vez, como o idealismo que nos coube em sorte na juventude pouco sabia da realidade do mundo, dos homens e da política.

Não é que eu ache que Portugal deveria ter continuado o esforço de guerra e tentado evitar a descolonização. Continuo a julgar que descolonizar era a única solução possível. O que não encontro, agora que estou a ficar velho, é motivo para aquele júbilo que acometeu tantos de nós. Se eu, na época, tivesse já sido instruído pela leitura de Hegel, talvez tivesse contido a alegria, pois saberia que o motor da História é sempre o negativo, a morte, a violência. Perante este cortejo de horrores, pode haver tudo menos vontade de rejubilar. Com o tempo, se não somos uns refinados filhos da puta (o leitor que me perdoe o excesso de linguagem), aprendemos que nunca se deve cantar e dançar ao som da música da História. É sempre uma marcha fúnebre.

01/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XI

o crepúsculo faz ascender aos ombros
a matriz radicular da claridade.
e os braços levitam, submergindo
no inacabado friso de mortos que
coroa o anoitecer.
do alto, a paisagem
soletra
uma cintura muda de cânticos,
cerrado, vertiginoso húmus.
adensando as cordas da respiração,
a concisa margem do silêncio,
e as ruas cobertas de uma neve
de que jamais serão o cálice.

Maria Callas - Otello: Ave Maria

Então, não havia de querer?

Segundo o Jornal de Notícias, o aparelho do Partido Socialista quer já para 2010 o referendo sobre a regionalização. Então, não havia de querer? Como se sabe, a oferta de lugares públicos é escassa para a voracidade dos aparelhos.

28/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro X

no compasso das mãos,
a intermitência
de um naufrágio
surpreendentemente compacto e claro.
ainda que a distância se feche,
e o vento
se cubra de insensatas multidões,
uma fronteira abalará
desde o âmago
a lápide do tempo.
onde mar e ouro se tocam,
e o sal
restitui à língua o impossível,

a indómita viagem
florescerá do infortúnio.

Insensatez - Nara Leão

Coisas dos congressos



Apesar de ter militado politicamente nos anos setenta do século passado, nunca participei em nenhum congresso partidário. De certa forma, eu tinha uma espécie de anjo-custódio que me protegia, inclusive dos meus desejos. Tendo a minha actividade política cessado por volta de 1977/78, nunca mais tive curiosidade por esse tipo de acontecimento, onde os delegados se reúnem em conclave para escolher ou aclamar o chefe. Com o tempo, esse tipo de assembleias foi-me parecendo cada vez mais pornográfico.

Ora, estava eu a ver as notícias na SIC, e lá apareceram umas imagens da reunião da ordem socialista para re-sagração do seu pastor. Tudo bem, uma pessoa percebe para o que serve aquilo. Mas há coisas, porém, que custam ver. Não me estou a referir àquele esforçado militante que desenhava uma curiosa teoria sexual ao arrepio das necessidades do PS [haja alguém que explique ao homem que aquilo é só para tirar uns votos aos gajos do BE] e protestava contra os casamentos gays, seja lá isso o que for. Também não me estou a referir ao dedicado militante açoreano que canta para alegrar a Dr.ª Edite Estrela, nem sequer ao discurso do Dr. António Costa. O que custa mesmo ver é um homem com o passado e o presente de Jaime Gama tecer loas ao pastor da congregação. Uma pessoa olha para ele e até parece ver que ele não acredita numa palavra que diz. Mas que ele as diz, lá isso diz.

A escola verdadeiramente pública

Liceu Nacional Sá da Bandeira, Santarém

Foi ali, no Liceu Nacional de Sá da Bandeira, em Santarém, que prestei provas para ver se era admitido no ensino liceal. Todos os candidatos tinham de fazer exame escrito e submeter-se a uma prova oral, onde professores do Liceu testavam o conhecimento e a destreza intelectual do candidato. Não me lembro rigorosamente de nada das provas escritas. Recordo-me, porém, de ter uma sensação de estar num edifício descomunal, se comparado com a escola primária de Torres Novas, de onde vinha. Tive a clara sensação de uma descontinuidade ontológica entre esses espaço escolares (sim, eu na altura não fazia sequer ideia que essa palavra existia, tinha apenas 9 anos). Ali, no Liceu, como se dizia em Santarém, eu estava noutra realidade, e isso era claramente pressentido por uma criança de 9 anos.

Lembro-me também da prova oral. Havia alunos, pais e professores a assistir às provas. Meu Deus, aquilo era mesmo a sério. Era um obstáculo e as várias equipas (sim, o aluno, os pais e o professor que o tinha preparado formavam uma equipa) torciam pelo seu candidato (o qual jogava apenas consigo mesmo) e ansiavam que ele saltasse o obstáculo. Fui interrogado sobre aspectos da Língua portuguesa, de História e de Geografia de Portugal (onde, na altura, se incluía as colónias). Lembro-me vagamente de estar perante mapas, a declinar rios e afluentes, produções e recursos. Mas o que recordo melhor é a parte referente à Matemática. Não da prova em si, mas da personagem do professor. Um homem grisalho, de face rubicunda, vestido com uma bata branca (talvez isso me tivesse desconcertado um pouco), um ar severo. Julgo que, durante a prova realizada no quadro, ele manejava um ponteiro de cana-da-índia, mas que ali tomava o singular sentido de um objecto que tivesse nascido da fusão de um bastão e de um ceptro real (de facto, aquele professor era um representante da autoridade - a do saber, claro - e da comunidade). Diz quem assistiu, que ele foi impiedoso e excessivo no interrogatório. Confesso que não faço ideia da veracidade do facto, sei apenas que sobrevivi. Quando saíram os resultados, eu era já outra pessoa. Tinha 9 anos, mas já não estava na escola primária. A cerimónia iniciática tinha-me conduzido, como a milhares de rapazes e raparigas com 9 e 10 anos, para um novo território e uma nova realidade. Eu tinha prestado provas numa escola verdadeiramente pública.

Aquela experiência do excesso (o espaço excessivo, a seriedade dos actos) não era traumática. Apenas tornava mais forte quem por ela passava. A única injustiça que existia no processo residia no facto de muitos estarem à partida excluídos da prova devido à sua origem social. Era isso que deveria ser corrigido. Mas o que aconteceu foi o contrário. Isso continuou a separar os alunos, mas os obstáculos que os tornavam melhores e mais fortes foram, um a um, removidos.

Este é o meu comentário ao texto do Zé Ricardo, no Jornal Torrejano e no Ponteiros Parados.

Um caminho perigoso


No abertura do congresso dos socialistas, José Sócrates voltou a falar de "campanhas negras" e da necessidade de "travar um combate decisivo" pela "decência da vida democrática", o que, como refere o Diário de Notícias, significa levar o caso Freeport a votos.

Mas este caminho, além de demagógico, é altamente perigoso para a democracia e, se ele for levado para a frente, Sócrates não estará a cuidar da "decência da vida democrática", mas a destruir a democracia. Esta assenta na separação entre o poder judicial e o poder executivo. O caso Freeport, tal como ele se está a desenrolar, é um caso de Justiça e não de plebiscito eleitoral.

Se Sócrates quer cuidar da democracia então que tome uma atitude semelhante aquela que tomou o seu camarada de partido, António Vitorino. Sob suspeita de uma irregularidade fiscal, pediu a demissão e na Justiça provou a sua inocência. António Vitorino defendeu a democracia. Sócrates não precisa de se demitir. Basta que não fale em "campanhas negras" e aguarde serenamente, sem apelo aos sentimentos de rebanho que há em todos os partidos políticos, o resultado das investigações judiciais. A retórica do "combate decisivo" é perigosa, muito perigosa, pois mobiliza paixões e oculta razões, nomeadamente a razão jurídica que deve resultar do processo judicial.

Todos temos o sentimento de que o caso Freeport tem um aproveitamento político, mas cada vez é menos claro quem é o efectivo beneficiário desse aproveitamento. Seja como for, estamos à porta de um novo passo para o abismo da democracia portuguesa, cada vez mais terceiro-mundista, cada vez menos europeia.

27/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro IX

de pulsos colados
à cópula das sombras, desço
das estações,
este confabulatório frio o decalque
do sangue no rigor mais íntimo
da escuridão.
sem cálculos,
à primeira pedra
guardo o detalhe,
os milénios, a confissão
de mínimas metamorfoses,
uma promessa de velocidade a engolir
no fogo a temperatura da ruína.
acompanhando a trajectória
demorada do súbito projéctil,
a voz
donde retirara a boca
parece entrar-me no corpo pela espinha,
como se procurasse
atingir-me na medida mesma
em que das minhas vísceras
a pedra se soltara tendo como
destino a minha própria imagem presa
à superfície convulsiva do meu nome.

Tell me the truth about love - Benjamin Britten

Carlos Abreu Amorim - Hino ao relativismo

A ministra inglesa das Crianças, Beverley Hughes, elaborou um panfleto que visa orientar as conversas sobre sexo entre pais e filhos. Trata-se de mais um marco na ingerência do Estado na função educacional das famílias.


O documento exorta os pais a não imprimirem nos filhos a distinção entre o bem e o mal no plano sexual. Os menores deverão formar os seus juízos sem intervenção parental: o contexto social e, sobretudo, o Estado encarregar-se-ão disso. Os pais poderão ter conversas ‘light’ sobre o tema mas nada de quererem transmitir valores e virtudes ou de traçar cenários incómodos face a opções que se sabem erradas.


Ou seja, o Governo trabalhista inglês quer que os pais deixem de o ser – só geram os filhos que, depois, ficam ao ‘Estado dará’. [Correio da Manhã, 25/02/09]

Jornal Torrejano, 27 de Fevereiro de 2009


Pouca opinião, esta semana, na edição digital do JT: Carlos Henriques escrever Deby emocionante, Inês Vidal, Onde está o PS? e José Ricardo Costa, 12 Medidas para Salvar a Escola Pública em Versão Simplex.

Para a semana haverá mais Jornal Torrejano. Bom fim-de-semana.

Detectives atrás dos filhos

Pais contratam detectives para controlar filhos, noticia o DN. Namoros, saídas, consumos de drogas, utilização da Internet, tudo isso é objecto de "investigação" do detective contratado. Os "psi" de serviço comentam: «O recurso a detectives "não faz sentido numa relação de pais e filhos", acredita Daniel Sampaio. "É quase psicótico os pais querem controlar o incontrolável", critica Rui Ferreira Nunes.» Mas a questão não é se o recurso a detectives faz ou não sentido ou se é a manifestação de um sintoma psicótico. O problema é outro: que tipo de sociedade construímos que obriga a este tipo de actos? Que tipo de sociedade é a nossa que ninguém controla as novas gerações? Que contributo deram para a situação muitos pais que agora se vêem obrigados a chamar os nossos Sherlocks? E que responsabilidade têm as teorias de muitos "psi" de serviço nos último 20 a 30 anos?

26/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro VIII

a voz regressa nua,
maculada, baça,
desabrochando no ventre
da maré vazante,
quando a incipiência das deambulações se apaga
e o riso se acama no seu berço:
uma explosão. medo.
na areia indecifrável,
um trilho de búzios desconexos,
a danação das línguas, vogais
rasgadas,
e o espumoso leite da noite
cercando o mergulho das mãos na claridade.

Clemencic Consort - Carmina Burana

O bispo iluminou-se

Afinal o bispo Williamson teve uma iluminação. Alguém lhe demonstrou, e em curto espaço de tempo, que o holocausto sempre existiu. A expulsão da Argentina, por motivos de opinião, foi um excesso inaceitável. Mas esta tão súbita iluminação sobre a verdade histórica do genocídio do povo judaico só me faz lembrar a iluminação, na estrada de Damasco, de Saulo de Tarso. Mais: o bispo obedeceu ao Papa e pediu desculpa por ter negado o holocausto (aqui). Parece que na Igreja Católica ainda há quem mande, isto para além de provocar iluminações súbitas. Nem sempre o princípio de autoridade é uma coisa má, pelo contrário.

Apontamentos para uma arte poética - III

A poesia, mesmo quando suspende a gramaticalidade usual, reforça a nossa percepção do mundo como uma evidente relação de causas e efeitos. Mas se a nossa visão do mundo como uma cadeia de conexões causais tem a sua raiz num hábito psicológico, como defende David Hume, não deveria a poesia visar um "para além" do hábito? A consumação da essência da poesia não seria permitir que a linguagem dissesse esse outro mundo que se oculta no hábito, hábito que nos obriga a associar os fenómenos em infinitas cadeias de causas e efeitos? Mas que mundo seria esse onde não existisse uma ligação entre os fenómenos? Esse mundo não é perceptível por nós, pois contraria a formatação psicológica com que apreendemos a realidade envolvente e mesmo a nossa realidade subjectiva. Se conseguirmos imaginar uma utilização poética da linguagem para além daquela que fazemos, poderemos pensar então numa poesia não-causal. Mas esta poesia teria de re-inventar a sintaxe, descativando-a das conexões causais. Esse seria um primeiro passo, para logo de seguida instituir novas formas de conexão não causais. Ou, no limite, marcar uma nova forma de discurso no qual estivesse ausente toda e qualquer conexão, para além da continuidade temporal e da contiguidade no espaço [continua]. [26/02/2009]

25/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro VII

a essência do lugar: um rasgo esquivo
na mancha da solidão.
e os dedos cavam as lâmpadas cujo
filamento é um sistema de relâmpagos.
estou à beira de um relâmpago: esta janela
bebendo a liquefacção de todos os invernos passados
a dançar dentro da chuva.
quando as oliveiras frias levantavam a sua lua de cânticos
e o fruto, o único fruto, era o assombro:
de repente, a cor dilatada dos pulmões
sustendo a respiração;
ou o adentrar das raízes do fogo
no extremo inconcluso da carne.
esta janela: e o grito estabelece-se
na pulsação migratória das minhas próprias mãos,
a princípio coberto da fuligem
dos dias que não sangram, depois
geométrico como se quisesse
levantar-se do seu húmus,
ou ser música. a memória desfaz-se,
e desfeita comanda a orquestra
do que é derradeiro, mínimo:
o diamante insular dos teus olhos
escorrendo da paragem do tempo,
a consumação das estrelas nesta chama a abandonar
a superfície do lume,
o vento acabado de sair
das vísceras de um litoral.

Diana Krall - A Case of You [Live]

Kjell Nordstrom - Inovação e emoção

Kjell Nordstrom

Kjell Nordstrom dá uma interessante entrevista ao Público, de hoje. Este professor universitário sueco é considerado como um dos grandes gurus do mundo dos negócios, e mesmo aqueles que não gostam de gurus nem do mundo dos negócios devem prestar-lhe alguma atenção. Este tipo de pessoas tem uma especial capacidade de orientar o olhar para aquilo que pode estar a chegar. Quais os traços fundamentais que se destacam na sua retórica sobre a saída da actual crise? A inovação e a emoção. Curiosamente são já os conceitos fundamentais que conduziram à crise em que estamos mergulhados. A produção do inédito e a substituição da razão pelo sentimento são os elementos estruturantes do Zeitgeist das últimas décadas. Quem pensar que a actual crise é uma janela aberta para um certo retorno de alguns valores ligados à racionalidade ocidental está redondamente enganado. A crise que se está a viver é um momento onde a aceleração dos processos iniciados com a modernidade se vai intensificar. Isto significa que a tensão do futuro sobre o presente vais ser ainda maior e que o pensamento dos actores sociais estará mais preso a imagens desse futuro do que à realidade efectiva do presente. Daí a importância da inovação e da emoção.

Mas se pensarmos na essência destes dois conceitos ficamos perplexos. Tanto um como o outro dissolvem aquilo que é essencial para o homem viver e para as comunidades se desenvolverem: a estabilidade. O que assegura a estabilidade é a solidez da tradição e a clareza da razão. Inovar significa destruir a tradição, substituir o testado pelo que é novo. Apelar à emoção quer dizer apenas que as decisões (individuais e colectivas) irão sendo cada vez mais tomadas sobre a obscuridade do sentimento, em detrimento da luz da razão. Isto significa então uma coisa deveras interessante: a saída para a crise é a intensificação da própria crise: dissolver os laços racionais, substituí-los por "links" emotivos, destruir o existente através da inovação como processo de produção não apenas do novo, mas também da obsolescência do velho, tudo isto significa apenas o crescimento das situações críticas que atingem o mundo humano. Talvez o que possa estar a acontecer não seja uma crise episódica, como aquela de 1929, mas a entrada num período crítico contínuo e prolongado, do qual não haja saída dentro do quadro de valores em que nos movemos desde o século XVII.

Há em toda esta história uma obscuridade que não deixa de assediar o pensamento. Que estranha racionalidade foi aquela que emergiu no século XVII, com Descartes, e se desenvolveu com o Iluminismo, o idealismo alemão, o pragmatismo americano, que está a conduzir à aniquilação da própria razão no magma do sentimento? Que irracionalidade se escondia no projecto da modernidade para que agora ele venha, mais uma vez, à luz do dia?

24/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro VI

cerca-nos o último enigma –
a ave sem ocaso – torrentes
cardeais
descerrando o som umbilical da noite,
a abrupta flâmula
do mar.

Nostalgia e vergonha



Uma das maiores humilhações do regime democrático é aquela que, de certa forma, o autor do blogue Combustões retrata no post Santa nostalgia. Um regime democrático não tinha que, obrigatoriamente, gerar a nostalgia do sistema educativo do regime de Salazar. Mas o descalabro a que pedagogice pateta e a irresponsabilidade política conduziram o sistema educativo quase que sublima e santifica o que se fazia anteriormente. Mais: para vergonha da nossa democracia o sistema educativo actual, aquele que nasceu das últimas eleições (mas que já se vinha desenhando há muito), é, considerando os respectivos contextos sociais e epocais, menos democrático e menos democratizador da sociedade que o sistema dos anos sessenta. A destruição da escola pública veio pôr a nu qualquer coisa que já se suspeitava: só as classes médias altas e altas das grandes cidades têm a possibilidade de dar uma educação menos má aos seus filhos. O nefasto ensino secundário (essa coisa que nasceu da destruição dos liceus), aquela espécie de coisa a que se chama ensino básico e um ensino técnico sempre a recomeçar do zero são aquilo a que os menos afortunados têm direito. Isto não é apenas uma abjecção académica, mas um acto de infinita injustiça social.

Dressur by Mauricio Kagel

Convite à valsa


O ridículo não é apenas ridículo... (2)

A PSP de Braga decidiu justificar a apreensão de livros de arte com a reprodução na capa do belíssimo quadro de Courbet (ver post anterior). Vejamos as razões de acto tão inusitado: «A polícia adianta que a confiscação dos livros não ficou a dever-se à violação de “qualquer norma do código penal”, mas às queixas dos pais de várias crianças que visitaram a feira do livro em saldo, no centro da cidade.“Tratou-se de uma medida cautelar para evitar uma alteração da ordem pública e o cometimento de outros crimes”, afirmou ao PÚBLICO o segundo-comandante da PSP Henriques Almeida, que diz ter havido “iminência de confrontos físicos” no recinto da feira.“Havia vários grupos de crianças a visitar a feira que, depois de se aperceberem da obra, arrastaram vários colegas para a verem. Os pais não gostaram da situação, começaram a ficar inquietados e pediram aos organizadores que retirassem os livros”, explica o responsável da polícia.» Cometimento de "outros" crimes? Mas que crimes foram cometidos? Iminência de confrontos físicos no rrcinto da feira? Mas aqueles que ameaçaram a ordem pública não foram detidos ou identificados? Estas justificações ainda são mais canhestras e deploráveis do que as anteriores. Algo vai mal na nossa paróquia.

O ridículo não é apenas ridículo...



Foi graças ao Portugal dos Pequeninos que tomei conhecimento disto: «Em Braga, três agentes [da PSP] "levantaram" o "competente auto" e apreenderam numa feira de livros de saldo alguns exemplares de um livro sobre pintura que ostentava na capa o famoso Courbet, A Origem do Mundo». Parece, na douta explicação adiantada, que «os livros continham imagens pornográficas expostas publicamente». Interessa-me pouco o nível cultural dos guardas da PSP, ainda menos a discussão sobre o que distingue o erótico do pornográfico (aliás, conceitos que não se aplicam à obra em questão), nem sequer a querela sobre o que é arte ou não é. O que me interessa mesmo é perceber de que doença é que esta acção da PSP de Braga e a não menos interessante interdição, logo levantada, de umas imagens do corso de Torres Vedras são sintomas. Parece que as nossas instituições de justiça e de segurança andam muito interessadas nos costumes. Haverá na mente de quem nos governa a ideia de voltar à polícia de costumes? Estas acções ridículas não são apenas ridículas, são perigosas por aquilo que indiciam, e eu não sou propriamente um libertino ou um imoralista. Parece que nos últimos anos, de forma mais ou menos inconsciente, um clima adverso à liberdade se foi instalando no país. Seria bom que estes sintomas desaparecessem rapidamente de cena. O ridículo não é apenas ridículo, pode ser letal.

21/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro V

pronunciado um nome, o esqueleto
sobrepõe-se à pele, desabrocha,
o crepúsculo
comprime a fala, devolve-a
à tensão dos ossos,
e o magma do tempo quieto
rompe a crosta dos lábios.
– chamar alguém – soletrar
do fundo um nome –,
é descompassar a morte, ir harpejando
o lume
no extremo desta água.

Bruno Maderna: Aura (1972)


Sinfonieorchester des Norddeutschen Rundfunks diretta da Giuseppe Sinopoli.

Capolavoro del tardo Maderna scritto per l'ottantesimo anniversario della fondazione della Chicago Symphony Orchestra. In questa splendida composizione c'è tutto il Maderna ultimo, fine ricercatore di timbri e speculazioni sonore di tipo post-impressionista. L'andamento rapsodico del lavoro e l'utilizzo sporadico della tecnica dei gruppi caratterizza il dipanarsi di una serie di idee sviluppate in modo quasi cameristico, con un uso dell'Orchestra spesso divisa per sezioni che dialogano attraverso una serie di rimandi organizzati in modo ciclico. Un'Opera di fascino assoluto, che fa rimpiangere una volta di più la perdita del suo autore, grande Compositore e ottimo direttore d'orchestra, un musicista che certamente avrebbe detto ancora molto negli anni a venire.

Ciência e ideologia


O Zé Ricardo, num interessante post onde refere o interesse de Álvaro Cunhal pela teoria de Darwin, escreve «A Ciência, por princípio e definição, não é ideológica. Mas é uma arma demasiado séria e poderosa para ser desprezada pelas ideologias.» Nestas proposições, que assentam num certo consenso iluminista, há um problema que me parece merecer pensamento. A questão poderá ser formulada da seguinte maneira: o que, na ciência, a torna digna de interesse por parte da ideologia? O que nela permite a sua exploração ideológica por parte das ideologias políticas?

O termo ideologia foi criado no início do século XIX, pelo filósofo francês Destutt de Tracy, e tinha o significado de uma ciência das ideias, tomadas estas como o conjunto de estados da consciência. A fortuna do conceito de ideologia nasce, porém, com a utilização feita do termo por Marx. Para este, a ideologia representava uma visão invertida, distorcida do real. De certa forma, é desta maneira que o Zé Ricardo a utiliza no seu post.

Mas se nós quisermos perceber o fenómeno ideológico, não podemos pôr de lado nem a primeira definição de ideologia dada por de Tracy, nem sequer uma longa arqueologia que terá um momento importante nas Ideias platónicas, e deverá também incluir obrigatoriamente o conceito de “idola”, de Francis Bacon. Também, para essa arqueologia, não é pouco importante a problemática judaica do combate à idolatria, a perversão na crença nos ídolos.

Onde deveremos inscrever a ciência dentro desta problemática? Não será ela uma arma contra toda a idolatria e contra toda a distorção que a ideologia introduz na relação do homem com a realidade? Sim, mas... A ciência não deixa de ser um produto ideológico, se aceitarmos a definição muito genérica dada por de Tracy. A ciência, ao lado de outros fenómenos como a filosofia, o senso comum, o mito, etc., faz parte dos sistemas ideológicos, tomados no sentido geral, com que a humanidade apreende e compreende o mundo. Entre a ideologia política, tomada como forma distorcida de compreensão do real, e a ciência há uma comunidade: são ambas formas de compreensão e de acção sobre o real. Este é um primeiro motivo que permite o aproveitamento pela ideologia política (totalitária ou democrática) da ciência. Esta pela sua natureza ideológica originária presta-se a estes aproveitamentos perversos.

Mas há ainda uma outra razão pela qual deve relativizar-se a primeira proposição do Zé Ricardo: «A Ciência, por princípio e definição, não é ideológica». A ciência não é apenas um produto ideológico, entre outros, produzido pela espécie humana, mas um produto que possui na sua raiz uma decisão ideológica muito específica. A instituição da ciência moderna com Galileu, depois continuada por Newton, etc., constrói um objecto de investigação por decisão ideológica. O que Galileu faz é definir aquilo que deve ser ou não ser considerado natureza para objecto de investigação. Esta decisão não está inscrita na natureza das coisas. Deve-se a uma opção fundada na consciência humana, a uma opção ideológica. Como certas leituras fenomenológicas mostraram, há uma pré-compreensão do que é a natureza, pré-compreensão que determina a definição de objecto de investigação, bem como a construção do corpo teórico, dos processos e métodos de investigação, etc. As ciências, tanto as da natureza como as sociais e humanas, assentam, dessa forma, numa tomada de posição (uma perspectiva unilateral) sobre os respectivos objectos. Desse ponto de vista, a ciência é ideologia e ideologia que se funda num determinado perspectivismo sobre o real. É por isso, pela sua natureza ideológico-perspectivística, que a ciência exerce uma enorme atracção sobre a ideologia política, seja ela de que quadrante for, também ela perspectivística.

Há ainda uma outra questão que mereceria atenção. As ideologias políticas modernas são, em geral, produtos posteriores ao nascimento da ciência moderna. Seria interessante seguir o rasto dessas ideologias e observar o momento e a forma como elas se encontraram com a ciência moderna. Talvez pudéssemos constatar um facto muito curioso: o berço das ideologias políticas modernas, daquelas que pervertem e distorcem a visão da realidade, situa-se no caminho aberto por esse acontecimento seminal que o foi a decisão metodológica de Galileu. Talvez, eu sei que estou a usar uma formulação eufemística, a ideologia política, enquanto visão pervertida da realidade, tenha nascido da sobredeterminação ideológica presente no acto originário que institui a própria ciência. Mais: as ideologias políticas seriam uma espécie de ganga proveniente do impacto social causado pela ciência moderna, uma espécie de espuma causada pela própria sobredeterminação ideológica da ciência. Que essa sobredeterminação ideológica da ciência moderna seja recalcada é aquilo que dá que pensar.

O convite

Por que razão terá José Sócrates convidado Hugo Chávez para estar presente no congresso do Partido Socialista (aqui)? Sim, claro que, segundo um responsável socialista, o convite se deve às relações fortes, blá, blá, blá... Mas nesta notícia da TSF, encontramos motivações bem mais fortes e pertinentes. Diz-nos ela que a produtividade média de cada português, nos anos de Sócrates, cresceu 2%, mas o rendimento médio, desde 2005, continua a afastar-se da média europeia. Um Partido Socialista que favorece uma distribuição do rendimento desfavorável ao mundo do trabalho, precisa de comprar uma aura de esquerda para tentar evitar a perda de eleitorado para o PCP e o BE. Chávez seria um óptimo emblema para cobrir, com um selo de esquerda, políticas abertamente de direita. Em tempo de eleições não se limpam armas.

20/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro IV

(como blocos de inaudita densidade,
secretamente os versos comparecem
ao trabalho ázimo
da multiplicação do espaço –
construção não como
sobreposição de estratos de matéria,
mas como génese do núcleo
onde a matéria se dilata e entrelaça
no vácuo que a inaugura.)

Mercedes Sosa e Milton Nascimento - Volver a los 17

Um ofício tem um chão de ouro



Nos Provérbios, de Sebastian Franck (Frankfurt, 1560), é recolhida a versão do humanista germânico Johannes Agricola Schnitter (1494 - 1566) do seguinte provérbio: "Um ofício tem um chão de ouro". Esta formulação recolhe uma antiquíssima experiência da humanidade. Como ler esta frase? Ela diz-nos que compensa aprender um ofício. Diz-nos mesmo, noutras versões, que um bom ofício, uma vez adquirido, é sempre uma segurança, um chão ou fundamento para a riqueza.

Esta sabedoria tradicional, começou a morrer no exacto momento em que Agricola faz a sua formulação. Os tempos modernos começavam a emergir no horizonte histórico e preparavam o caminho para os nossos dias. Poderemos hoje dizer que um bom ofício nos dá segurança? Não. Os ofícios humanos tornaram-se evanescentes, as profissões alteram-se rapidamente, aparecem e logo desaparecem. Subjacente à perspectiva ainda recolhida por Agricola está a da estabilidade de uma vida, onde o ofício dá sentido e prosperidade. Hoje, porém, os homens, contra sua vontade, tornaram-se nómadas, não de um nomadismo que os leva de lugar em lugar fazendo sempre o mesmo, mas de um nomadismo psicológico que os obriga a aprender, se é que é isso que eles fazem, novos ofícios que desaparecerão em meia dúzia de anos. Que consequências terá este novo nomadismo para a sociedade, para a família e para o indivíduo? Ler ou escutar as notícias dá uma pequena ideia para onde conduz a nova sabedoria, à qual não falta os seus ferverosos Johannes Agricolas.

Marxs há muitos

António Vilarigues escreve, no Público de hoje, um artigo com o título “O meu Marx é diferente”. Refere-se às re-leituras que, um pouco por todo o lado, se estão a fazer da obra marxiana. Vilarigues acha-as uma “deturpação objectiva do seu (de Marx) pensamento”. Eu não espero já que pessoas como Vilarigues entendam uma coisa muito simples: os grandes autores são para serem interpretados, deformados, deslidos, treslidos. Não há nenhuma leitura canónica de Marx, como não há de Platão, nem de Espinosa, nem de Kant ou de Wittgenstein. Quero, porém, comentar algumas passagens do artigo em causa, e mostrar que o Marx de Vilarigues é efectivamente perigoso para a espécie humana.

«O meu Marx é o que converteu a utopia em pensamento político e este em acção revolucionária.» Esta frase bastava para perceber a essência utópica da acção dita revolucionária. Mas como salientei noutro post, a utopia é o princípio do crime político organizado. Foi também devido ao carácter utópico do marxismo que as experiências do dito “socialismo real” foram criminosas. Transformar a utopia em pensamento político e em acção revolucionária não é uma coisa bondosa. Pelo contrário, é dar armas à imaginação para que ela suprima a realidade e se entregue à volúpia daquilo que é meramente utópico (à letra, o que não tem lugar).

O Marx de Vilarigues foi «o que descobriu as leis objectivas do desenvolvimento social e provou cientificamente a inevitabilidade da superação do capitalismo e do triunfo do socialismo.» Mas como é possível, nos dias de hoje, dizer uma coisa destas? Mas que leis objectivas são essas? Onde é que podemos testá-las? Onde é que está a prova científica da inevitabilidade (sic) da superação do capitalismo e do triunfo do socialismo? Que ciência é esta? Apenas uma pseudo-ciência que produz proposições metafísicas que não podem ser testadas ou falsificadas, na linguagem de Karl Popper. Não, Marx não descobriu quaisquer leis do desenvolvimento social. Marx apenas fez um conjunto de proposições metafísicas, ao nível daquelas que afirmam a existência de Deus ou a imortalidade da alma. Marx, como muitos autores do século XIX, vivia fascinado pela mecânica clássica de Newton. Pensou que um projecto idêntico poderia ser aplicado à sociedade. Não podia. Marx não o sabia, mas nós no século XXI sabemo-lo. Mas como as proposições de Marx são metafísicas, ainda há pessoas que acreditam nelas por uma questão de fé, mas fé essa que é travestida de ciência.

O Marx de Vilarigues é «o que analisou a vida social como algo que está em permanente movimento. O Marx determinista, mas não fatalista.» Sim, é verdade. Um Marx determinista. Mas esse determinismo marxiano é o sintoma não apenas do seu mecanicismo social, como do desprezo pela liberdade. Se nós pensarmos que a sociedade se desenvolve segundo leis necessárias e inevitáveis, segundo uma determinação legal análoga à natureza, então não há liberdade humana. Resta-nos esperar, como uma fatalidade, pelo socialismo que há-de vir. Aliás, ele veio, mas parece que se aborreceu e foi-se embora.

Para dizer a verdade, este Marx de Vilarigues, e daqueles que pensam como ele, não serve para grande coisa. Marx é um grande pensador e, como todos os grandes pensadores, é um pensador que produziu um pensamento cheio de perigos. O perigo faz parte da essência do pensamento. O perigo do pensamento marxiano reside na utopia que se esconde sob a mitologia da acção revolucionária; reside também na ilusão da cientificidade da sua filosofia. Malgré soi, Marx era um metafísico.

Apontamentos para uma arte poética - II

Nós percebemos o mundo como uma cadeia de causas e efeitos, como um contínuo de ligações entre fenómenos, mas será que o mundo é efectivamente assim? A relação causal existirá efectivamente? Por exemplo, David Hume, embora não a negando, diz que nós não temos qualquer experiência da conexão causal entre fenómenos. Apenas nos habituámos a esperar que certa coisa aconteça quando uma outra acontece ou aconteceu. A ligação causal seria então o resultado de uma idiossincrasia psicológica da espécie humana. Mas o que tem a poesia a ver com tudo isto? Em primeiro lugar, poderemos pensar que aquilo a que David Hume chama um hábito se relacione com a estrutura sintáctica das nossas línguas. A sintaxe ordena os elementos dentro da frase. Esta ordem, porém, não é uma ordem que pertença ao mundo, mas à língua. Diferentes línguas ordenam os elementos no interior da frase de formas diversas. Essa ordenação linguística acaba por ser uma forma de compreender o mundo. Eu olho para o mundo a partir da sintaxe da língua que falo. Podemos perguntar, de forma mais radical, se a conexão causal que compreendo no mundo não será o efeito global da sintaxe que uso para descrever o mundo. Pode não haver ordem no mundo, ordem entre os fenómenos, mas a sintaxe impõe-na, cria-a. Em segundo lugar, podemos perceber que a poesia, apesar de suspender, por vezes, certos usos sintácticos correntes, não atinge o núcleo central da percepção causal dos fenómenos mundanos ou psicológicos. Ela não suspende a sintaxe, refunda-a, o que significará que ela refunda a forma de compreender a conexão causal que nos parece existir no mundo. A poesia, mesmo aquela onde a gramaticalidade usual é questionada, acaba por reforçar essa nossa percepção do mundo como uma evidente relação de causas e efeitos [continua]. [20/02/2009]

Jornal Torrejano, 20 de Fevereiro de 2009


Na opinião, comece-se com Carlos Henriques e Benfica feliz na vitória. Depois, leia-se Inês Vidal, Pontes p'a todos, José Ricardo Costa, Em defesa da Aula Expositiva e Miguel Sentieiro, Crianças Índigo.

Chega. Para a semana, em conformidade com a disposição dos deuses e dos astros (mas os astros não são deuses?) haverá mais. Bom fim-de-semana.

A Estética dos Tempos


A blogosfera com origem em Torres Novas, o que é diferente da blogosfera torrejana, está mais rica. Em linha, desde 28 de Janeiro, está o A Estética dos Tempos, de Acácio Luz, arquitecto e professor, e membro de uma comunidade de vizinhos, real e não meramente virtual, da qual fazem parte o Zé Ricardo e este blogger.

O que poderá encontrar por lá? O melhor é mesmo ir, mas sempre lhe digo que pode esperar encontrar fotografia, belíssima fotografia, e reflexões sobre temas variados, como a arquitectura, a música, o teatro, a literatura, a educação. Portanto, um blogue que está a dar os primeiros passos e que vai tornar-se uma visita obrigatória.

19/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro III

o aceno é um rio decretando o fogo,
âncora a brotar
do ruir das idades.
ao pássaro recolhido
sobre os dilacerados frutos que cobrem
o diamante nocturno e tentacular
dos verões, alguns chamarão
crepúsculo, outros ainda
morte. mas o reencontro é a chave
que descerra o cofre da cinza, o seu tremor
ascensional. e a frase inaugura
o resplendor cantante
onde a rosa coincide
com a manhã.

Tabula Rasa - Miguel Robles/Arvo Part