09/03/09

A virtude da honestidade


António Barreto escreveu, ontem, no Póblico o seguinte: «À honestidade aconteceu algo de parecido. A ponto de se considerar que uma pessoa honesta "é parva" e "não sabe da poda". Abundam os lugares-comuns que revelam que a honestidade não é um valor com muita saída. Quem defende a honestidade é considerado "ingénuo". De alguém que perde tempo a escrever sobre a necessidade da honestidade na vida pública se dirá simplesmente que perde tempo com "sermões". De um honesto se garante que nunca será rico nem irá muito longe na política. Um comerciante que não "mete a unha" é palerma. Um corretor de bolsa que não usa informação privilegiada e não manipula os concorrentes é um mau profissional. Um político que, antes das eleições, não esconde as dificuldades, para só as revelar depois de ganhar, é um "tonto" e deveria mudar de profissão. Um empresário que nada oculta aos trabalhadores é um "samaritano" sem killer instinct. Um estudante que copia ou plagia só merece condenação se for descoberto. Aliás, se for "apanhado", a complacência é de rigor

Por um acaso, numa das minhas aulas de hoje, a questão da honestidade na actividade escolar foi debatida. A necessidade de não copiar, de não plagiar, de não pedir aos primos licenciados que façam os trabalhos. Enfim a necessidade de evitar a batota, pois ela não só distorce a justiça entre alunos, como torna aquele que faz batota menos apto.

Houve duas coisas que me impressionaram. Em primeiro lugar, impressionou-me a complacência, para não dizer o desprezo, com que muitos alunos encaram o dever de honestidade e probidade intelectuais. Por mais que se explique, do ponto de vista ético e até do ponto de vista da utilidade pura e simples, eles não entendem a gravidade do acto de copiar, de entregar trabalhos feitos por outros, etc. Em segundo lugar, impressionou-me a intervenção de alguns alunos que subliminarmente deram a entender que percebiam muito bem as limitações dos professores para penalizar os alunos batoteiros.

As dificuldade de Portugal não são apenas económicas. As mais graves residem aqui, no desprezo pela honestidade. As escolas deveriam ser um lugar onde o desprezo que a comunidade tem pela virtude da honestidade seria duramente combatido. O que acontece, porém, é que a ideologia oficial manda abrir as escolas à comunidade, o que tem por consequência que a escola acabe por ser soterrada pela maneira como a comunidade vê o mundo e as relações sociais. O que este governo tem feito, ao nível do estatuto dos alunos, é acentuar as anteriores políticas de desresponsabilização das novas gerações, e por isso permitir que uma cultura, onde a honestidade não faz sentido, se solidifique cada vez mais no sistema de ensino.

Triste tristeza, por que és tão triste...


O actual regime político português está esgotado. Se dúvidas houvesse, bastaria ler as palavras do Presidente da República. Cavaco Silva disse estar «preocupado e até um pouco triste com a situação que o país atravessa». Desde quando a tristeza faz parte do jogo de linguagem da política? Haverá melhor prova de esgotamento do que a confissão de impotência presente nesta declaração? Repare-se na continuação do discurso do Presidente: «... mas continuo muito determinado em falar com os portugueses, conhecer as preocupações daqueles que têm dificuldades e estimular os que têm sucesso». Falar, conhecer, estimular são os verbos de uma confissão, de uma confissão de impotência que não é apenas a da limitação constitucional dos poderes presidenciais, mas do próprio regime. E o que pensa Cavaco fazer? Vai-se «manter no mesmo rumo, o de tentar dar confiança aos portugueses». Vai-nos dar mais do mesmo, daquilo que levou a esta "triste" situação, vai tentar (sic) dar confiança.

Cavaco não é exactamente como os outros políticos que pululam nos partidos governamentais. É mais honrado e mais atento aos valores do bem comum. O problema de Cavaco é que ele nunca passou de um contabilista, mesmo quando aprendeu os jogos esconsos da demagogia, na altura em que os dinheiros da CEE permitiam todos os delírios. Perdido o controlo na contabilidade, ele nada tem para dizer aos portugueses, aos portugueses que já não acreditam nas elites partidárias. A noite é cada vez mais escura.

O exemplo grego


Uma bomba explodiu em frente de um banco, em Atenas. É o segundo atentado nos últimos quatro dias. O caso grego não deixa de ser interessante. A contestação social gerada pela morte de um jovem não foi suficientemente percebida para lá das fronteiras helénicas. Não se tratou de uma revolta episódica. Pelo contrário, instalou-se um clima de contestação social global. Mas as coisas parecem não ficar por aí. Passou-se depois para a fase de pequenos actos criminosos (incêndios) contra instalações governamentais. Agora chegaram os atentados terroristas. Não nos esqueçamos, a Grécia é uma democracia e faz parte da União Europeia. Mas o problema não é apenas grego. O exemplo helénico tem condições sociais para alastrar a muitos países da União. A democracia não e um escudo contra a revolta gerada pela injustiça. Veremos.

08/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XVIII

(trabalhar no decalque de uma labareda,
a manhã um violino trespassando
as marés de simulacros.
e a garganta, presa a uma cascata,
de repente a já não poder mais:
arrancando ao som um acordo visceral, impetuoso –
e braços, pernas, cabelos todos
de regresso a um principiar de mundo,
vogais sem leme, sob o inexorável
recuo da boca, achando
o arquipélago final –
tantas vezes afundado no
sujo lacre da lucidez.)

Charles Aznavour - Que c'est triste Venise

Em busca do suicídio



Mário Nogueira emergiu, na crise que assola a educação, como a figura central da representação dos professores. Infelizmente! Esta ameaça de greve às avaliações mostra que a inteligência é coisa que não abunda lá para o lado dos sindicatos. Esta gente não terá percebido que na tentativa anterior de greve às avaliações, o governo trucidou os professores e abriu caminho para o conjunto de malfeitorias que se propôs fazer? Eu sei que há professores que defendem esse tipo de radicalização do conflito. Mas essa posição coloca os professores em maus lençóis. Em primeiro lugar, transforma o professor num mero assalariado, idêntico a qualquer outro que pode fazer greve em quaisquer circunstâncias. Isso significa que o professor não é um elemento central na constituição da comunidade e que não tem deveres especiais. Os professores que defendem isso, uma greve às avaliações, concordam tacitamente com a política governamental de proletarização da classe docente. Em segundo lugar, uma greve às avaliações, do ponto de vista táctico, é uma vitória para o governo. Mais uma vez terá oportunidade para isolar os professores, depois destes terem recuperado a simpatia da opinião pública.

Os sindicatos já erraram demasiado. Mesmo a recusa de negociar sem que o governo retirasse o actual modelo de avaliação foi um erro estratégico. Os sindicatos deveriam ter aceite o modelo e negociar a sua melhoria, a sua desburocratização e a eliminação de itens de avaliação absolutamente ridículos, como aqueles que dizem respeito à relação do professor com a escola ou com a comunidade. Mas este tipo de idiotices devem agradar tanto aos nossos sindicalistas como aos nossos decisores políticos. Não deixa de ser traumática para a classe docente estar entregue a pessoas como Lurdes Rodrigues, Valter Lemos, Jorge Pedreira, Mário Nogueira e a restante horda de sindicalistas.

07/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XVII

observa como o espanto
se desprende do jejum.
basta-te a tarde, o seu afago
a suspensas melodias,
o ainda sono de estenderes a nudez
pela profusão da infância.
talvez por isso o vinho se agarre tanto
ao nomadismo, e a noite se renda
a quem solta o lume por largos descampados,
cauterizando as constelações, a sabedoria
de quem primeiro soube beber
de um só hausto o firmamento.

Rytis Mazulis : Clavier of Pure Reason

PCP - 88 anos


Foi no Portugal dos Pequeninos que dei conta do aniversário do PCP. Ontem, o Partido Comunista Português fez 88 anos. Subscrevo o essencial daquele post de João Gonçalves. Quem me conhece há muitos anos sabe que militei fugazmente no PCP. Também sabe que há muitos anos que eu não me reconheço nem nos princípios teóricos-filosóficos do marxismo, nem na praxis dos partidos comunistas, qualquer que seja a sua orientação. Dito de outra maneira, não sou comunista nem gostaria de viver num regime comunista. Mas o PCP tem qualquer coisa que é exemplar na vida política portuguesa. Os seus militantes, genericamente, possuem convicções, lutam por elas, são gente honrada e tentam gerir a sua acção política pela interpretação que fazem do bem comum. Se os partidos da área da governação (PS, PSD e CDS-PP) tivessem idêntica atitude relativamente os ideais democráticos e republicanos e ao bem-comum, a democracia portuguesa não seria o pântano que é. Não sendo sequer simpatizante comunista, julgo, no entanto, que o PCP tem duas coisas essenciais a dar à sociedade portuguesa: 1. o seu exemplo relativo à forma de estar na política, batendo-se segundo princípios, convicções e causas, agindo de forma honrada e visando o bem-comum (de acordo com o que pensa ser o bem-comum); 2. dar voz a uma parte da população que a miséria política, económica e moral tende não apenas a empobrecer, mas a roubar-lhe a possibilidade de ter opinião e visibilidade política.

A sociedade portuguesa continua a dar razão de ser à existência do PCP.

EPHEMERA - biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira


Disponível em modo de blogue está EPHEMERA - biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira. Vale a pena ir lá, e passar algum tempo a explorar as coisas que por lá estão. Melhor do que aquilo que eu possa dizer são as palavras do próprio José Pacheco Pereira: «EPHEMERA tem como objectivo divulgar materiais da biblioteca e arquivo pessoais de José Pacheco Pereira, em particular dos diferentes espólios, doações, ofertas e aquisições que deles fazem parte. Na medida do possível, do tempo e das circunstâncias, todos estes materiais estão acessíveis aos investigadores que deles necessitem para o seu estudo e trabalho, nos condicionalismos normais de uma biblioteca e arquivos privados. Dada a dimensão e qualidade de alguns dos materiais, em particular as espécies únicas e as colecções especializadas inexistentes em bibliotecas e arquivos públicos, o meu objectivo, a prazo, é tornar disponível a todos este acervo.» Para além de EPHEMERA, José Pacheco Pereira mantém outros dois blogues: Abrupto e Estudos sobre o Comunismo.

06/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XVI

quando as lâmpadas se ferem, o frio
faz surpreendentes ditados
à sinuosa quietação dos lábios.
quando se respira
contra uma janela alta, mãos
mergulhadas no espanto,
a vida toda é isto, ali:
um vidro pulmonar, a paisagem
de tal modo unida ao fôlego
que ambos se indistinguem num mesmo correr
de aparições.

Arnett Cobb & Eddie "Lockjaw" Davis - Go Power

O direito de enterrar e honrar os mortos


Vale a pena ler o trabalho do Público sobre Khavaran, um lugar perto de Teerão, para onde foram despejados os cadáveres daqueles que o regime islâmico iraniano foi executando entre 1980 e 1988. Um lugar "onde as flores e as lágrimas estão proibidas". O horror descrito pelos entrevistados é inominável, mas as palavras da escritora Monireh Baradran deixaram-me absolutamente perplexo: "O direito de enterrar os mortos e de os honrar é, na minha opinião, mais importante do que o direito de cidadania." Não é apenas o sintoma de um desespero perante a ignomínia que nos toca, mas, mais do que todo o resto, é ouvir, em 2009, a voz de Antígona a exigir a sepultura e honras fúnebres para o seu irmão, como se a tragédia de Sófocles ainda fosse pregnante, como se o dever para com os mortos se tivesse de sobrepor aos deveres para com os vivos. Aqueles que acham que o Islão pode ser um útil "compagnon de route" na luta contra o Ocidente capitalista, deveriam, se não forem completamente pervertidos, meditar nas palavras destes iranianos a que o Público dá voz.

Jornal Torrejano, 06 de Março de 2009

Disponível na internet encontra-se a edição desta semana do Jornal Torrejano. Destaque para a decisão da Assembleia Municipal de Torres Novas: anulou a concessão de serviços de águas a privados. Referência também para a decisão da Câmara começar por pagar as dívidas com juros mais elevados.

Na opinião, comece-se por ler Carlos Henriques e Mau futebol no Porto-Sporting. Depois, pode ler Carlos Nuno, O engenheiro, Francisco Almeira, Desconhecido, Inês Vidal, Corrimão e José Ricardo Costa, Violência Doméstica.

Para a semana haverá mais Jornal Torrejano, assim o queiram os imortais. Bom fim-de-semana.

Haja esperança (II)

As sondagens parecem não correr de feição para o partido do governo. É já qualquer coisa. Isto não significa que Sócrates não possa a vir a obter uma maioria absoluta. Mas talvez os portugueses estejam a despertar de um sonho, e comecem a perceber que afinal era um pesadelo. Não é que o nível político das oposições seja sequer recomendável. Não é pior nem melhor do que o do governo, é igualmente medíocre. Mas uma situação confusa, talvez seja um princípio de saída. Alguma coisa terá de acontecer, alguma coisa será melhor do que o estado a que se chegou. Haja esperança.

Haja esperança (I)


Nem tudo corre pelo pior. Em 2008, nasceram mais bebés do que em 2007. Os números estão, agora, ao nível de 2006. O aumento de nascimentos, num país envelhecido como o nosso, é uma coisa salutar e que convém sublinhar, como se sublinhou aqui, em anos anteriores, o desastre demográfico. Este aumento pode não querer dizer nada, mas também pode representar um princípio de esperança. Por muito trabalho que dêem a educar, uma comunidade precisa desesperadamente de novos elementos. Caso contrário, morrerá. Haja esperança.

05/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XV

o que eu digo é: abre os ossos
com a leveza de um outono a tombar.
as palavras são globos subterrâneos,
vazios ao meio – têm de chegar à boca
como um extenso ritual a desfazer-se.
até à derradeira deserção.
o que eu digo: escreve
como se caçasses uma visão,
ou um fantástico animal
se conduzisse, incisivo, para o teu ventre,
e lhe tomasses o instinto como
se a morte fosse o destino desse amplexo.

Gotan Project - Milonga de amor

Democracia na era da suspeita



Historicamente, a democracia manifestou-se sempre tanto como uma promessa, tanto como um problema. Promessa de um regime harmonizado com as necessidades da sociedade, sendo esta última fundada sobre a realização de um duplo imperativo de igualdade e de autonomia. Problema de uma realidade, muitas vezes, bastante longe de satisfazer estes nobres ideais. O projecto democrático nunca deixou de ficar incompleto lá mesmo onde ele era proclamado, quer tenha sido grosseiramente pervertido, subtilmente contraído ou mecanicamente contrariado. No sentido mais forte do termo, nunca conhecemos regimes plenamente «democráticos». As democracias realmente existentes permaneceram inacabadas ou mesmo confiscadas, em proproções, segundo os casos, muito variáveis. Daí que os desencatamentos andem a par com as esperanças que fizeram nascer as rupturas com os mundos da dependência e do despotismo [Pierre Rosanvallon (2006). La contre-démocracie. La politique à l'âge de la défiance. Paris: Ed. du Seuil].

-----------------------------------------

Não se encontrará a nossa democracia perto do quadro descrito por Rosanvallon? Não se estará ela a tornar numa «democracia» confiscada. É certo que as instituições vão funcionando, mas vive-se um momento em que a tensão entre a esperança na democracia e a descrença (o autor fala em défiance - desconfiança, suspeita) nela parece estar a pender para o lado da suspeita. Muita gente começa a suspeitar da capacidade da democracia realizar as suas promessas.

O interesse do texto de Rosanvallon reside em chamar a atenção sobre o óbvio: a democracia realiza-se num cumprimento de um duplo imperativo, o da igualdade e o da autonomia, isto é, da liberdade. Durante os últimos decénios a querela entre igualdade e liberdade tem animado as discussões sobre filosofia política, tendo a consideração da igualdade sofrido um abalo, até como desforra dos tempos em que o igualitarismo marxista tomou conta de uma parte do mundo e arrastou uma parte substancial do Ocidente a inventar o Estado-Providência, uma forma democrática de assegurar uma certa igualdade entre os membros de uma sociedade.

O que interessa, neste momento em que as desigualdades entre os homens se acentuam, é chamar a atenção para uma outra perspectiva. A querela entre liberdade e igualdade sublinhou apenas os aspectos aparentemente incompatíveis entre ambas. Mas o que ficou recalcado foi o facto de liberdade e igualdade se requererem mutuamente. O perigo das desigualdades sociais acentuadas não é apenas do aumento do fosso entre ricos e pobres, mas o de abrir o caminho para uma efectiva eliminação da autonomia de larga massa de indivíduos e a consequente supressão da liberdade.

A democracia é promessa e problema. Promessa de uma sociedade mais justa, problema de encontrar a justa medida onde igualdade e liberdade se maximizem mutuamente. A suspeita que nasce sobre a democracia funda-se nessa clivagem entre igualdade e liberdade, clivagem que faz parecer que a liberdade apenas serve para que os mais fortes oprimam os mais fracos. Se não quisermos ver a liberdade suprimida, então será melhor que cuidemos e reinventemos novas formas de realizar os imperativos da democracia.

A feroz concorrência


O mercado em Portugal sempre foi uma armadilha para os portugueses. A concorrência deveria fazer baixar os preços e encontrar formas de melhor servir os consumidores. Mas, por cá, quanto mais concorrência existe, mais devagar descem os preços. Pelo menos, parece. Veja-se o caso dos lucros da Galp no último trimestre de 2008. O lento acerto no preço dos combustíveis, relativamente à evolução do preço internacional do petróleo, gerou um acréscimo dos lucros, segundo o Público, de 105 milhões de Euros. Dito de outra maneira, foram os consumidores penalizados em 105 milhões de euros, só nas compras efectuadas à Galp, pela concorrência feroz que existe no mercado português dos combustíveis. Depois, os nossos liberais ficam espantados pelas saudades dos consumidores dos tempos em que os preços eram tabelados politicamente. Vá lá saber-se por quê.