20/02/09

Jornal Torrejano, 20 de Fevereiro de 2009


Na opinião, comece-se com Carlos Henriques e Benfica feliz na vitória. Depois, leia-se Inês Vidal, Pontes p'a todos, José Ricardo Costa, Em defesa da Aula Expositiva e Miguel Sentieiro, Crianças Índigo.

Chega. Para a semana, em conformidade com a disposição dos deuses e dos astros (mas os astros não são deuses?) haverá mais. Bom fim-de-semana.

A Estética dos Tempos


A blogosfera com origem em Torres Novas, o que é diferente da blogosfera torrejana, está mais rica. Em linha, desde 28 de Janeiro, está o A Estética dos Tempos, de Acácio Luz, arquitecto e professor, e membro de uma comunidade de vizinhos, real e não meramente virtual, da qual fazem parte o Zé Ricardo e este blogger.

O que poderá encontrar por lá? O melhor é mesmo ir, mas sempre lhe digo que pode esperar encontrar fotografia, belíssima fotografia, e reflexões sobre temas variados, como a arquitectura, a música, o teatro, a literatura, a educação. Portanto, um blogue que está a dar os primeiros passos e que vai tornar-se uma visita obrigatória.

19/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro III

o aceno é um rio decretando o fogo,
âncora a brotar
do ruir das idades.
ao pássaro recolhido
sobre os dilacerados frutos que cobrem
o diamante nocturno e tentacular
dos verões, alguns chamarão
crepúsculo, outros ainda
morte. mas o reencontro é a chave
que descerra o cofre da cinza, o seu tremor
ascensional. e a frase inaugura
o resplendor cantante
onde a rosa coincide
com a manhã.

Tabula Rasa - Miguel Robles/Arvo Part

O preço da liberdade


Os argentinos passaram das marcas. Este senhor, bispo Richard Williamson, tem dez dias para abandonar a Argentina (Sol). Cometeu algum crime? Não. Apenas um delito contra as evidências empíricas. O senhor bispo, que fora excomungado da Igreja Católica e posteriormente reintegrado, não acredita no holocausto. Ele acha que os nazis não mataram assim tantos judeus, quanto muito mataram apenas 200 ou 300 mil, como se isso não fosse já um crime absolutamente indesculpável. Esta crença, que é uma falsidade histórica, é antes do mais um erro cognitivo. Pode ser considerada uma opinião moralmente e politicamente inceitável. Mas apesar disso não pode ser objecto de perseguição política. A liberdade de opinião deve ser defendida, mesmo quando as pessoas persistem em pensar e exprimir coisas erradas. Esse é o preço da liberdade, e é nestes momentos que ela revela toda a sua natureza moral.

O Profeta Magalhães

O país ensandeceu. Não por acaso, os casos mais graves estão ligados com a educação. Agora foi o Ministério Público que decidiu proibir uma sátira, no Carnaval de Torres Vedras, ao Magalhães, essa invenção eleitoral acolitada pelo Ministério da Educação. Não bastava já a sandice da distribuição a esmo destes computadores, agora parece que são tão sagrados como o Profeta. Deles não pode haver caricatura, na caricatura em que o país se está a transformar.

Apontamentos para uma arte poética - I

No post abaixo, o poeta Paul Celan diz que o poema é uma forma de “manifestação da linguagem” e, por isso, é na sua “essência dialógico”, dirige-se a alguém. Como se sabe, o fazer poético, esse produzir de um texto que se dirige a alguém, estrutura-se pela suspensão da semântica vulgar, pela abertura de novos espaços de sentido. Isto faz-se a partir de duas estratégias. A primeira, mais corrente, é a utilização das chamadas figuras de estilo, nomeadamente da metáfora. A linguagem renova-se, ao ampliar o conteúdo dos significantes, e dá a ver o mundo de uma forma que, devido ao desgaste, o uso vulgar da linguagem é já incapaz. A segunda, menos usual, implica uma certa desgramaticalização da frase poética. Esta desgramaticalização é uma suspensão da sintaxe corrente, ou uma reconstrução da sintaxe em novos moldes. Sublinharia, porém, que a poesia, enquanto forma de tecer textos e apesar da renovação que impõe da forma como habitamos e vemos o mundo, não deixa de reforçar essa forma de ver o mundo, naquilo que é a sua essência, a de compreender o mundo como um nexo de relações de causa e efeito. Estas são apresentadas de uma forma mais sedutora, devido ao efeito das figuras de estilo, e são, de certa forma, reforçadas, pelas novas formas de aproximação sintáctica, mas é ainda o nexo causal que é mostrado, pela poesia, como verdadeira essência do mundo [continua]. [19/02/2009]

Paul Celan - O poema


Porque o poema não é intemporal. É certo que proclama uma pretensão de infinito, procura actuar através dos tempos — através deles, mas não para além deles.

O poema, sendo como é uma forma de manifestação da linguagem e, por conseguinte, na sua essência dialógico, pode ser uma mensagem na garrafa, lançada ao mar na convicção – esperançada — de um dia ir dar a alguma praia, talvez a uma praia do coração. Também neste sentido os poemas estão a caminho — têm um rumo.

Para onde? Em direcção a algo aberto, de ocupável, talvez a um tu apostrofável, a uma realidade apostrofável. Penso que, para o poema, o que conta são essas realidades. E acredito ainda que raciocínios como este acompanham, não só os meus próprios esforços, mas também os de outros poetas da geração mais nova. São os esforços de quem, sobrevoado por estrelas que são obra humana, de quem, sem tecto, também neste sentido até agora nem sonhado e por isso desprotegido da forma mais inquietante, vai ao encontro da língua com a sua existência, ferido de realidade e em busca de realidade.
[Paul Celan, in "Alocução na entrega do Prémio Literário da Cidade Livre e Hanseática de Bremen.]

Será que estamos a perceber?


"A crise é na realidade o toque a finados da globalização desregulada." Esta frase pertence a João Ferreira do Amaral (Diário Económico, de 18/02/09). Mas, penso, ainda não se está a perceber bem a situação. O problema não está na passagem de uma globalização desregulada para uma globalização regulada, nem, tão pouco, em passar da globalização para a localização, digamos assim.

O problema é muito mais vasto e põe em causa os próprios desígnios que são os das sociedades que cresceram na sequência do Iluminismo. Por exemplo, que consequências tem o crescimento económico? O planeta suporta-o? Que consequências humanas tem a actual tendência para o crescimento do horário de trabalho? Vamos retornar aos tempos do início da industrialização, vamos voltar à escravatura?

Assim, a questão é bem mais verrumante do que um conflito entre modelos económicos. Não é apenas a economia que está em crise, mas todo um modelo civilizacional, modelo que do Ocidente foi exportado para o Oriente, e que está a implodir. O que não admira, pois o Iluminismo, de cariz liberal ou socialista, assentou, em última análise, a essência civilizacional na economia. O toque a finados que se escuta é um contínuo dobrar dos sinos. Os cadáveres não param de se empilhar. [Imagem extraída de Outra Política]

18/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro II

as escadas capturam o assombro,
árvores enleadas ao correr dos séculos,
o grito fulminante das pedras e das águas
assistindo ao desfilar de espectros sobre
o tenebroso cais da inocência.
no coração das muralhas,
veias oblíquas debatem-se
contra as máscaras insones
e o alvor dos túmulos;
dentro das pontes, cantos impérvios
detonam ainda
alguns lugares da infância. (outras mãos
renasceriam dos sopros se essa corda
fosse minuciosamente tangida pelo amplexo
de quem tivesse regressado
da morte – outra
voluptuosa onda afundaria o seu distendido mármore
nos dentes da tempestade).
os passos invertem a distância
dos ecos a si mesmos, floresce
uma câmara vertical
onde os dedos se mergulham
nos plexos do tempo
(para emergirem como uma esteira de estrelas,
a noite um peixe terrestre e volátil).
as escadas
são um lugar de relâmpagos,
a presença súbita de como que
a vida inteira
no lento abrir de pétalas
que é subir.

John Abercrombie - Timeless

O carnaval escolar



Será possível dar a perceber à opinião pública o grau extremo de degradação a que chegou a educação em Portugal? Não estou a falar sequer da qualidade de ensino ou da inanidade do currículo nacional, nem das ideias mirabolantes que ocorrem sistemáticamente na cabeça dos governantes educativos. Estou a falar do espírito que preside à escola em Portugal. Nada melhor para perceber isto do que a revolta dos pais de Paredes de Coura contra os professores e do apoio dado pela DREN a esses pais (aqui).

Consta que os professores do agrupamento de escolas de Paredes de Coura, tendo em conta o muito trabalho a que estão submetidos, decidiram suspender a realização de algumas actividades extra-curriculares. Entre elas a da realização de um desfile de Carnaval. Isto gerou a indignação dos pais. Leia-se o seguinte:«Eduardo Bastos lembrou aos professores que os alunos serão os "únicos prejudicados" com esta forma de protesto dos professores. os Encarregados de educação vão reunir hoje à noite para decidir que medidas tomar para "convencer" os professores a recuarem no cancelamento do desfile de Carnaval. »

Mas a não realização de um desfile de Carnaval prejudica os alunos, enquanto alunos, em quê? Faz parte do currículo nacional o desfile do Carnaval? É isto que preocupa os pais? É para isto que os pais são metidos na escola? Já ninguém tem a noção do ridículo?

Senão estivéssemos, por outro lado, perante o delírio mais extremo, como poderíamos explicar isto: «A Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) determinou hoje a realização do desfile de Carnaval dos alunos do Agrupamento de Escolas de Paredes de Coura apesar de os professores não terem decidido se acatarão a ordem da DREN.» O Ministério da Educação agora serve para obrigar à realização de desfiles de Carnaval? Ninguém tem vergonha?

Mas os professores não são menos responsáveis pelo estado a que se chegou. Foram eles que habituaram os pais a este tipo de folclore. Foram eles que, muitas vezes, substituiram, com o apoio e o gáudio do Ministério da Educação, a escola como centro de saber pela escola como centro de animação e actividades folclóricas. Foram eles que alimentaram, muitas vezes ingenuamente, o monstro que agora os devora.

A plebe democrática, como todas as plebes, preocupa-se com o pão e o circo. Está na sua natureza. Ao Ministério da Educação e aos professores tinha-lhes competido mostrar que a escola era um sítio de aprendizagem, um centro de transmissão de saber e não um espaço lúdico para entretenimento da criançada.

Este acontecimento de Paredes de Coura é o retrato fiel da situação a que se chegou em Portugal. O niilismo que tomou conta das instituições tornou-se agressivo. Os professores estão estupefactos. Mas já é tarde. Quem semeia ventos colhe tempestades. A essência da escola portuguesa não está já, e há muito tempo, na sala de aula, mas no desfile carnavalesco. Uma mascarada abjecta.

17/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro I

a viagem dá-se entre as mãos
e os lampadários submersos no asfalto.
(irrespiravelmente se unem
sangue e voz.)
uma fonte dilata as clareiras crepusculares,
espelhada
nas incisões do vento.
o tempo, esse, coroa de abalos
a seiva,
e a sua sísmica cor
é uma onda exigindo a exactidão estelar
de uma imaterial cartografia.

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Com este poema inicia-se a publicação do ciclo "Reencontro". Durante 25 dias, serão publicados os poemas deste ciclo, da autoria do meu amigo e antigo aluno David Moisés Ferreira. A revelação para os leitores de o A Ver o Mundo de um excelente poeta.

Jan Garbarek, Eberhard Weber, Marilyn Mazur, Rainer Brüninghaus

Mau humor climático


Há em certos sectores da sociedade, com reflexo em áreas significativas da blogosfera, um desprezo claro pela temática do aquecimento global do planeta. A tese centra-se na ideia de que o aquecimento não é o produto da nossa acção, nomeadamente da emissão de gases que provocam o efeito de estufa. É um facto que certas profecias apocalípticas não se realizaram, ou ainda não se realizaram (as profecias têm essa vantagem, nunca dizem quando se realizam e o futuro está sempre em aberto). Mas notícias como esta aqui, que diz que "um bloco de gelo com cerca de 14 mil metros quadrados desprendeu-se da plataforma de Wilkins, na Antárctida", estão longe de serem tranquilizadoras. De facto, assistimos a uma luta ideológica que tende a distorcer os factos. Isto, tanto da parte dos catastrofistas, digamos assim, como da dos negacionistas. Sejam as alterações climáticas apenas produto da nossa acção, sejam produto da evolução espontânea e autónoma do clima do planeta, sejam da junção dos dois factores, a verdade é que, a cada dia que passa, o problema parece ser mais claro. Não sei se as medidas paliativas que se estão a tomar servirão para alguma coisa. Seja como for, o tipo de vida que tem sido o nosso parece já, tendo em conta o mau humor climático, não ser possível por muitos anos.

Nuno Pacheco (Público de 17/02/09) - Ela devia estar viva, ele podia estar livre

Ahmad vai ficar preso para o resto da vida por ter tirado o resto da vida à irmã. Ele tem 23 anos, ela tinha apenas 16. Ambos demasiado jovens para tal drama e, no entanto, tanto ele como ela são a face visível de um problema maior: o dos chamados "crimes de honra" em nome da família, frequentes em certos meios islâmicos.

As fotos que acompanhavam a notícia da sentença, nas agências, mostravam, além do ar vago e algo comprometido do réu, a reacção colérica do pai, atirando pelos ares as velas que tinham sido colocadas à porta do tribunal, com a cara da filha e em sua memória. Como se a injustiça fosse apenas a da sentença, ao tirar-lhe um filho depois de perder outro. "O mundo em que ele vive não é o nosso. É um mundo em que a honra da família vale mais do que a vida de uma pessoa", disse no tribunal o procurador Boris Bochnick. E, na verdade, é nesse pressuposto que a família Obeidi, de origens afegãs, viveu e vive na Alemanha de hoje.

Morsal, a vítima, não exigia nada de muito extravagante. Nascida no Afeganistão, queria apenas poder viver como as jovens alemãs da sua idade. A revista Der Spiegel, que após o crime foi no encalço da sua história, descobriu uma guerra familiar que já vinha de longe, com discussões, espancamentos e intervenção dos serviços sociais.

Depois da escola, onde convivia com estudantes de 18 países, Morsal costumava reunir-se com os amigos num local que a família não considerava recomendável. Um local "onde se podia fumar, ouvir música e ocasionalmente beber álcool", como se escrevia na Spiegel de 25 de Agosto de 2008, num longo artigo intitulado O elevado preço da liberdade. Morsal gostava de hip-hop, pop afegã e chamava a atenção dos rapazes. Um pesadelo para a família.

Família que, no entanto, não era sequer considerada das mais tradicionalistas. Simplesmente, não pactuava com a visão do mundo que era já a de Morsal. E que incluía calças justas, maquilhagem e cabelo das mulheres a descoberto. No meio das desavenças, tentaram um truque: enviaram-na para o Afeganistão, para se "regenerar". Não resultou. No regresso, o pai (nas palavras da Spiegel) esperava uma filha diferente e esta um pai diferente. "Ficaram ambos decepcionados." Até que, certa noite, o irmão (que tinha antecedentes criminais, de violência juvenil) a atraiu, com a ajuda de um primo, a uma estação de autocarros e a apunhalou vinte vezes. Até ferir o antebraço.

Ahmad, diz, "amava" a irmã. Ela temia-o, mas, juntos, temiam ainda mais o pai, um antigo soldado afegão treinado pelos soviéticos e imigrado na Alemanha desde 1992. A "honra" da família fê-lo perder dois filhos. Ela devia estar viva, ele podia estar livre. Isto se a tradição medieval a que tantos ainda se submetem passasse a ser, apenas, uma vaga recordação do passado.

Maldita FIFA


A FIFA não é nossa amiga. Ainda fez um esgar ameaçador, como quem diz que, pelo menos ela, estaria disposta a proteger-nos contra nós próprios. Vã ilusão. A candidatura luso-espanhola à realização de um Mundial (2018 ou 2022) foi oficialmente aceite. Não faltarão agora discursos encorajadores, grandes frases a dizer coisas idiotas como o homem sonha e a obra nasce. Também não faltarão os homens de boa vontade, os homens de iniciativa e os homens de conhecimento. Aliás, prevejo que não falte mesmo nada, além de juízo nas cabeças.

Utopia e crime

Ossário de vítimas do Khmer Vermelho

Começou hoje o primeiro julgamento de um responsável do regime Khmer vermelho (Cambodja). De certa forma, é um dia histórico. O regime foi particularmente virulento, tendo assassinado grande parte da população. Destruiu as cidades, os templos, as escolas, fuzilou professores e sacerdotes, concentrou o que restava da população nos campos. Enfim, uma espécie particularmente desagradável de hiper-comunismo maoísta. Há no entanto um ensinamento filosófico em todo este processo. A sociedade e a política não podem ser objecto de utopias. É muito corrente contrapor às perversões ideológicas, de direita ou de esquerda, a bondade da utopia. Mas a utopia é tudo menos uma coisa bondosa. O que significa a utopia? Significa que a imaginação se libertou da experiência sensível e dos ditames da razão. Um delírio apossa-se das pessoas e aquilo que é apenas uma imagem irreal pode tornar-se realidade. Como a experiência e a razão estão postas entre parêntesis, a imaginação determina a vontade na acção. Sem qualquer imperativo moral que a coaja, a vontade é agora um veículo perfeito do delírio utópico. Facilmente se percebe como tudo isso se torna num empilhamento infinito de cadáveres. Se a realidade resiste, isto é, as pessoas, então a força fará o que tem a fazer. A palavra utopia, que a tantos corações generosos inflama, é apenas, ao nível social e político, a senha para o crime generalizado.

Significantes sem significado



Há muito tempo que deixei de compreender a utilidade de certas proposições utilizadas pelos políticos. Por exemplo, o dirigente do CSD-PP, Hélder Morais, veio dizer que é preciso libertar Lisboa do governo socialista, ao que acrescentou que sempre que houve um govermo de direita em Lisboa, a cidade esteve melhor. Eu nem sequer pretendo que ele demonstre empiricamente as suas proposições. Nem tão pouco espero que as argumente. São crenças que valem tanto como as suas contrárias, isto é, nada. Mas em vez de utilizar este tipo de língua-de-pau, seria melhor que os políticos só falassem quando tivessem qualquer coisa para dizer. Neste caso, o brioso dirigente centrista poderia explicar como a sua coligação vai transformar Lisboa numa coisa melhor do que é. Toda este gente sofre de um verdadeiro equívoco, pensa que existe por falar. O silêncio, porém, estaria muito mais de acordo com a essência destes protagonistas, a nulidade política. Quando falam, para utilizar a terminologia de Ferdinand de Saussure (uma autoridade cai sempre bem), o que lhes sai da boca não passa de um significante sem significado, ou, numa aproximação mais medicinal, um flato.

16/02/09

Ao longe, a súbita sombra

Edward Hopper - Road in Maine (1914)

Ao longe, a súbita sombra
traz a tarde aos meus dias.
Sento-me numa rocha de cinza,
protejo com a mão os olhos,
e fico à espera do entardecer.

Ao longe, oiço um grito
e as mãos pendem doridas,
como se um perigo espreitasse
na curva do caminho.
Inclino-me como um náufrago,
encho os bolsos de erva seca e…

Ao longe, um fogo espera-me.

Alfredo Kraus & Maria Callas (1958) "Traviata - Brindis"

Som da Emissora Nacional. Récita da Traviata no S. Carlos, em 1958. Grande não é apenas a Callas. Grande é Alfredo Kraus, um dos maiores tenores de sempre. Há quem o eleja como o melhor de todos os tempos, mas estas coisas valem o que valem. O que vale a pena é escutar, mesmo sem o auxílio da representação.

Aristóteles - A justiça: igualdade segundo o mérito


Há duas formas de conceber a igualdade: ou segundo o número, ou segundo o mérito. Considero numérica a igualdade que diz respeito ao que é igual e idêntico, em quantidade e grandeza. Por igualdade segundo o mérito, considero o que é igual em termos proporcionais. Por exemplo: é no plano de uma igualdade numérica que o três excede o dois, e o dois ao um. Contudo, é de uma igualdade proporcional que se trata, quando o quatro excede o dois, e o dois o um; de facto, o dois e o um são, respectivamente, partes iguais do quatro e do dois, isto é, ambos dizem respeito às respectivas metades.

Deste modo, partindo do princípio que todos estamos de acordo que a justiça exercida de um modo absoluto visa a igualdade segundo o mérito, surgem divergências porque — como já foi referido — alguns, sendo iguais em certos aspectos, presumem ser iguais em tudo, ao passo que outros, sendo desiguais nalgum ponto, reclamam para si mesmos uma total desigualdade em todas as coisas.
[Aristóteles, Política, 1301 b 30-38]
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Eis todo o problema da justiça social. A reflexão de Aristóteles vai incidir, após esta citação, no tipo de regime que melhor visa a justiça, entendida como igualdade segundo o mérito. Temos a grande vantagem de todos os nossos grandes problemas terem sido descobertos pelos gregos. Quando as nossas soluções falham, então voltemos às fontes originais da nossa sabedoria, para refrescar a memória e para rejuvenescer a sabedoria.

Chávez como sintoma

Na vitória de Chávez, no referendo de ontem, há qualquer coisa que merece ser meditada. Não será o tique de militar-ditador, já suficientemente propagandeado, nem a sua idiossincrasia, nem tão pouco a peregrina ideia da revolução bolivarina. Note-se que a vitória de Chávez não tem aquele resultado expressivo das eleições nos antigos países socialistas (54,4 - 45,6). Portanto, estamos perante processos aparentemente democráticos. Estes resultados, então, mostram que na sociedade venezuelana, provavelmente em muitas outras da América Latina, há qualquer coisa que não funciona, se o liberalismo económico se torna vigente. Pobres, excluídos, gente em desespero, convivem mal com a liberdade puramente formal, mas que permite a instituição de grandes clivagens sociais. O ensinamento maior, mesmo para as nossas sociedades, é que os mecanismos económicos, nomeadamente o mercado, devem existir em função dos homens e não estes em função da eficiência produtora e distribuidora. A vitória de Chávez ensina que, para evitar este tipo de políticas populistas, é necessário encontrar um justo equilíbrio nas sociedades. Um equilíbrio social entre os indivíduos que as compõem, como um equilíbrio entre aquilo que o homem deve dar à produção económica e aquilo que esta deve dar ao homem. O que se está a passar na América Latina, para além da denúncia de certas pulsões autoritárias, merece uma atenção mais cuidada. Mesmo nós europeus, em especial os portugueses, talvez tenhamos algo a aprender, e certamente não será o bolivarismo ou o socialismo. Chávez é apenas um sintoma.

15/02/09

Nessa história que agora lês

Edward Hopper - Habitación de Hotel (1931)

Nessa história que agora lês
está escrito o esquecimento.
Nela, voas sobre oceanos,
e, em cada hora, dia ou mês,
descobres o pesado fermento
com que deixas passar os anos.

Stan Getz Quartet - Desafinado, Girl from Ipanema

Eleições no PS


Tem significado político relevante a vitória albanesa de Sócrates, nas eleições para Secretário Geral do PS? Tem. Mostra que o partido está mais do que certo numa nova maioria absoluta. Portanto, as pessoas perfilam-se em torno daqueles que as podem levar ou manter no poder. Por vezes, esquecemo-nos de que o ethos que conduz um partido político é o da conquista e da manutenção do poder, seja lá como for. A exigência de um comportamento moral comprometido com o bem comum e de uma atitude crítica face à realidade política, não faz parte da natureza do político, mas inscreve-se, nos regimes democráticos, nos direitos de defesa do cidadão contra aqueles que ocupam o poder, sejam eles quem forem. Se Sócrates não trouxesse consigo o olor do poder, o PS mostrar-se-ia mais crítico e fracturado. Imaginação não haveria de faltar. Agora, porém, as tropas têm o seu general bem definido. Os cidadãos devem aprender a cuidar-se.

14/02/09

Talvez aprendas nesse abandono

Edward Hopper - Desnudo Tumbado (1924-27)

Talvez aprendas nesse abandono
o secreto desígnio, a natureza o deu.
Ainda procuras sôfrega
e toda a seda que tocas rasga-se,
terra de saibro e cascalho,
o tronco rugoso da figueira,
ou um buraco a doer-te no corpo.

Quando encontraste,
não soubeste o que encontraste,
nem deste às horas o tempo de serem hora.
Tudo se toldou
e no nevoeiro que te coube
não houve desolação que a olhar te ensinasse.

Senta-te nessa cama de plástico
e deixa desfilar os pretendentes.
Enganas-te. Não os matarei.
Ninguém poderá matar o que morto nasceu.
Ficam-te para consolo:
hão-de tocar-te o corpo com mãos frias
e um esgar de pus no sexo.

King Crimson - Epitaph

Heranças


Aqui se explica por que motivo há homens que são umas autênticas cavalgaduras. Afinal, é tudo uma questão genética. Há muitos milhões de anos, homens e cavalos tiveram um antepassado comum. Parece que era quadrúpede. Apesar da nossa evolução nos ter levado ao bipedismo, a tendência para o coice, a besteira e para agir que nem uma cavalgadura ficou anichada no cérebro. Heranças.

13/02/09

As coisas secretas da nossa secreta

Como se vê aqui, tudo o que diz respeito à nossa secreta é secreto. O facto de, nos computadores da Presidência do Conselho de Ministros, centenas de pessoas terem acesso à identificação, com fotografia e tudo, de 23 dos nossos secretos espiões é apenas um pormenor sem relevo. Por uma questão de fé, confiamos todos nos serviços secretos ou discretos, ou talvez nem isso. E quando nos asseguram qualquer coisa sobre eles, nem uma sombra de desconfiança floresce no coração dos portugueses. Parece que anda tudo a brincar.

Suspensão de facto dos direitos sindicais

O que é narrado, nestas notícia aqui e aqui, é intolerável. Não apenas porque a violência é um atentado intolerável contra a integridade da pessoa, mas também porque a liberdade do mundo do trabalho se organizar e de fazer greve é um direito essencial da cidadania. Para milhões de pessoas, os direitos sindicais são último refúgio da cidadania. Um Estado que permite isso está à beira de deixar de ser um Estado de direito. Maus ventos estão a começar a correr na sociedade portuguesa.

Jornal Torrejano, 13 de Fevereiro de 2009

Em linha (este blogue acaba de sofrer uma inflexão nacionalista) está já a nova edição do Jornal Torrejano. Destaque para as primeiras propostas do PSD para as autárquicas. Referência também para a comemoração, na novíssima biblioteca municipal, do Dia Europeu da Internet Segura, com um debate. Triste é a notícia que refere o Desportivo: cada vez mais último.

Na opinião, para não variar, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na crónica escrita, Carlos Henriques escreve Jornada de emoções, Carlos Nuno, Cenas quentes, Inês Vidal, Amor Virtual, Jorge Moita Fazenda, Carta Aberta às vítimas do genocídio social de 2009, José Ricardo Costa, Engenharia Social e Miguel Sentieiro, Passa ao outro e não ao mesmo.

Acabou-se, para a semana haverá mais, se houver. Bom fim-de-semana.

Falta de leituras

Falta de leituras. É o que dá o espírito do tempo. As pessoas chegam a ministros e não leram nada do que é essencial, e depois são apanhadas de surpresa. Foi o que aconteceu com o nosso pobre ministro das Finanças, foi apanhado de surpresa. E isto de um ministro das Finanças ser apanhado de surpresa é coisa rara. Só mais raro é um ministro dos Negócios Estrangeiros ser apanhado de surpresa. Mas vamos ao que interessa. Perante os resultados fornecido pelo INE e referentes ao último trimestre de 2008, onde se mostra que o país entrou em recessão técnica, Teixeira dos Santos disse «Não esperaríamos quebra tão acentuada» Fiquei perplexo. Eu já estou habituado a que os economistas se entreguem às previsões mais desencontradas e que não acertem em nenhuma, mas este grau de surpresa deixa-me atónito. Eu recomendava ao senhor ministro uma leitura sistemática dos fragmentos de Heraclito. Mas Heraclito era economista? Não. Seria Heraclito ministro das Finanças de Éfeso? Também não. Mas sabia pensar, qualidade que entretanto se deteriorou. Num dos fragmentos diz que quem não espera o inesperado não o encontrará. Equipado por tal sabedoria, Teixeira dos Santos já não seria apanhado de surpresa e teria evitado a necessidade de mais um orçamento rectificativo. [Cartoon rapinado daqui]

A santidade científica

Ontem foi dia de S. Darwin. Sempre me espanta o espírito religioso não apenas dos ateus mais acérrimos (a crença na inexistência de Deus é tão religiosa como o seu contrário), mas das gentes da ciência. Na galeria dos santos da ciência há alguns que são inevitáveis. S. Galileu, S. Darwin. Einstein está a caminho da beatificação. Estes santos têm os seus dias de culto e há cerimónias litúrgicas para os incensar. Não vejo, do ponto de vista da propensão geral da humanidade para a superstição, problema nenhum no assunto. No entanto, há duas pequenas coisas que sempre me acodem ao espírito quando vejo este tipo de rituais.

Em primeiro lugar, não esqueço que entre a ciência, produto da aliança entre a razão e a experiência, mediada pela imaginação, e a religião há um efectivo elo de ligação. Comte bem o pressentiu. A religião é um produto da imaginação, fundada numa certa experiência empírica do mundo e articulado pela razão. É do fundo religioso que vai emergir a filosofia, a qual estabelece o nexo, agora oculto, entre religião e ciência. Tende-se a esquecer que ambas são produtos das faculdades humanas e a obnubilar o efectivo traço que existe entre elas. Traço esse, aliás, que se manifesta na santificação e culto dos cientistas.

Em segundo lugar, a minha razão ri-se sempre um pouco (maldita razão céptica) com a pretensão da ciência como explicação do mundo. Não é apenas a revisibilidade a que os conhecimentos científicos estão sujeitos, devido ao progresso da investigação. É mais do que isso. Um dia chegará, poderemos imaginá-lo, em que as explicações científicas, isto é, o empreendimento da ciência, parecerá às mentes mais racionais desse tempo uma coisa tão irrazoável como hoje parece ser, para as mentes racionais, os discursos religiosos de Abraão, de Moisés, de Cristo, de Maomé, de Lao Tsé, etc. E estes discursos, podemos constatá-lo, representaram formas muito interessantes de razoabilização da vida humana.

Esta minha posição não representa uma atitude anticientífica. Mas entedia-me a tentação de absolutização, ainda que subreptícia, de uma coisa que só pode ser relativa e ter um significado relativo, pois é produto do espírito humano. Mas, note-se, o problema não está em retornar às velhas explicações criacionistas para contrapor a Darwin, ou ao cosmos ptolemaico-aristotélico em contraposição a Kepler e a Galileu. O problema é que talvez tenha chegado a hora de se começar a pensar na pós-ciência. Por vezes, interrogo-me que caminhos poderiam ser abertos por uma análise transcendental (atenção, à maneira kantiana) das faculdades humanas, agora porém iluminada pelos contributos da própria ciência, da neurobiologia, por exemplo.

Dir-me-ão: mas não será contraditório fundar-se na ciência a sua ultrapassagem? Eu respondo com duas perguntas: não foi na religião que se encontrou o fundamento da filosofia? Não foi na filosofia que se encontrou o alicerce que fez nascer a ciência?

Até esses?

Segundo o DN, o próprio aparelho do Partido Socialista tem reservas, um efectivo eufemismo, relativamente à proposta de "casamento" entre pessoas do mesmo sexo. Para dizer a verdade, o povo de esquerda, aliás como o de direita, não percebe a pertinência do assunto, ainda por cima com a economia a derreter-se aos olhos de toda a gente, os empregos a esfarelarem-se, as famílias a tremerem pelo dia de amanhã. O truque de Sócrates para distrair as pessoas e tentar roubar meia dúzia de votos ao Bloco de Esquerda se não causar estragos, pelo menos não terá o impacto que os spnin doctors que o conceberam imaginaram. Na prática, tirando meia dúzia de militantes da causa, ninguém quer saber do assunto. E isto significa, na generalidade, que não quer sequer que o assunto faça parte da agenda política. Que tal Sócrates, por exemplo, falar dos 150 mil empregos que prometeu criar?

12/02/09

Será obsceno?



Pelo contrário, eu não acho que se esteja perante uma coisa estúpida ou obscena, nem sequer desumana. Que haja alguém que consiga vender um litro de água a 100 contos é sintoma de inteligência. Já não ponho as mãos no lume pela inteligência de quem compra. Mas se não é inteligente, é pelo menos livre. Ele não é obrigado a comprar. Quando decidiu dar o dinheiro pela água, não foi coagido por ninguém. Portanto, se pagar a água... Também não acho que, neste caso, se esteja perante uma obscenidade desumana. Pelo contrário, estamos perante um puro acto de filantropia e amor à humanidade. Um tipo está cheio de dinheiro e não sabe o que há-de fazer com ele. Bem, decide dar 500 € por uma garrafa de um litro de água. Veja-se o valor acrescentado que essa água representa. O que significa isto? Que esses 500 € se vão distribuir por aí fora. Pelo proprietário do restaurante, pelos empregados, pela empresa de distribuição e seus empregados, pela empresa engarrafadora e seus empregados, etc. Por sua vez, estes distribuem a sua parte por outros ainda, consumindo outros bens. Eu sei que havendo fome, parece obsceno que alguém possa dar tanto dinheiro por um litro de água, mas esse gesto é, de facto, altamente meritório e consegue evitar que não sei quantas pessoas percam o seu emprego. Não é por isto que o capitalismo vai acabar, nem isto é sintoma da estupidez do mercado. De facto, se alguém deu 500 € pelo litro de água, ele valeu mesmo isso. Se ninguém der nada, então nada vale. O único problema que existe não se encontra aqui, mas no facto do mercado não ser suficientemente amplo para democratizar o acesso (há também o problema do trabalho ser entendido como mercadoria, mas esse é um problema bem difícil). Se houvesse muita gente a pagar 500 € por um litro de água, mais e mais pessoas teriam acesso ao mercado, comprando e vendendo. Mas isto sou eu a dizer, eu que não percebo nada de economia e apenas sigo um raciocínio lógico, e não tenho intenções de proselitismo a favor seja do que for, muito menos do capitalismo.

Aquelas imagens que passam

Edward Hopper - New York Movie (1939)


Aquelas imagens que passam
e a melancolia que há nos olhos
são um rasto de sombra no Inverno
ou a lenta queda de um grave.

Se fosse apenas ciência,
ainda poderia acreditar nos passos que oiço,
se ao longe ecoa o restolhar das folhas caídas.
Mas um simulacro de vida,
quem nele pode confiar?

Sento-me e deixo a escuridão correr,
como se a noite me visitasse
para anunciar a hora que vai chegar.

Abro os olhos, mas nada vejo.
Oiço-te a soletrar breves palavras
e todo o teu corpo me cheira a cansaço.

Cala-te, o filme acabou.

Mahler 2nd - Finale End - Simon Rattle/CBSO

The overwhelming close of Mahler's 'Resurrection' Symphony from a fantastic performance by The City of Birmingham Symphony Orchestra in '98. Soloists are Anne-Sofie von Otter and Hillevi Martinpelt.

A paz perpétua - Primeira Secção, § 6

Kant

«Nenhum Estado em guerra com outro deve permitir tais hostilidades que tornem impossível a confiança mútua na paz futura, como, por exemplo, o emprego pelo outro Estado de assassinos (percussores), envenenadores (venefici), a rotura da capitulação, a instigação à traição (perduellio), etc.»

São estratagemas desonrosos, pois mesmo em plena guerra deve ainda existir alguma confiança no modo de pensar do inimigo já que, caso contrário, não se poderia negociar paz alguma e as hostilidades resultariam numa guerra de extermínio (bellum internecinum); a guerra é certamente apenas o meio necessário e lamentável no estado da natureza (em que não existe nenhum tribunal que possa julgar, com a força do direito), para afirmar pela força o seu direito; na guerra, nenhuma das partes se pode declarar inimigo / injusto (porque isto pressupõe já uma sentença judicial). Mas o seu desfecho (tal como nos chamados juízos de Deus) é que decide de que lado se encontra o direito; mas entre os Estados não se pode conceber nenhuma guerra de castigo (bellum punitivum) (pois entre eles não existe nenhuma relação de um superior a um inferior). – Daqui se segue, pois, que uma guerra de extermínio, na qual se pode produzir o desaparecimento de ambas as partes e, por conseguinte, também de todo o direito, só possibilitaria a paz perpétua sobre o grande cemitério do género humano. Por conseguinte, não deve absolutamente permitir-se semelhante guerra nem também o uso dos meios que a ela levam. — Que os mencionados meios levam inevitavelmente a ela depreende-se do facto de que essas artes infernais, em si mesmas nunca convenientes, quando se põem em uso não se mantêm por muito tempo dentro dos limites da guerra, mas / transferem-se também para a situação de paz como, por exemplo, o uso de espias (uti exploratoribus), onde se aproveita a indignidade de outros (que não pode erradicar-se de uma só vez); e assim destruir-se-ia por completo o propósito da paz.
[Immanuel Kant, A Paz Perpétua - Um Projecto Filosófico]

Três (pequenos) poemas de Álvaro de Campos


POEMA I

Porra!
Nem o rei chegou, nem o Afonso Costa morreu quando caiu do carro abaixo!
E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
E para isto se fundou Portugal!


POEMA II

Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.

Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!


POEMA TRÊS

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

11/02/09

Jogos de linguagem


No Tempo das Cerejas, há um interessante post sobre uma reportagem que mostra os graves problemas de subsistência vividos por muitas famílias num condado do Estado de Oregon, nos EUA. Vítor Dias, o autor do blogue, chama atenção, porém, para um fenómeno curioso de manipulação da linguagem e, através desta, a manipulação da realidade. Assim, os responsáveis pela Agricultura convidaram os organismos governamentais, em 2006, a não empregar o termo fome para referir aquelas pessoas. As pessoas que não têm dinheiro para comprar a sua alimentação não passam fome, mas encontram-se numa situação de «muito fraca segurança alimentar». Eu diria, porém, que o problema mais grave não é o da ocultação da situação real das pessoas, a ocultação de que elas passam fome. O problema maior está na transformação da situação de carência (neste caso, fome é uma carência alimentar devido à organização social que produz a situação) numa situação de segurança. Não estamos perante um mero eufemismo para edulcorar a situação, mas perante uma mudança de jogo de linguagem, que oblitera a situação real das pessoas e focaliza a atenção numa outra coisa, no problema da segurança alimentar. Da segurança alimentar a mente rapidamente transita, por contiguidade, para a ideia de alimentação segura. O que será uma alimentação segura? Evitar que se comam certas coisas. Em última análise, não é fome o que as pessoas passam, pois acabam por comer demais ou comer coisas que não deviam. Elas são assim responsáveis pela dieta tão perigosa a que se entregam. Na linguagem não há inocências.

Na Venezuela, a democracia progride

Chávez pensa proibir a entrada de Lech Walesa na Venezuela. Qual o crime de Walesa? Disse o que pensava do governo Chávez. Como em todos os regimes populistas, Chávez confunde um ataque à sua governação com um ataque à Venezuela. No entanto, o que é sintomático não é a opinião de Walesa sobre a maravilhosa construção política venezuelana, mas o facto de Chávez, mesmo que não o venha a fazer, pensar proibir a entrada ao antigo presidente polaco. De certa maneira, é aquilo a que poderíamos chamar de progressão do espírito democrático.

10/02/09

Les Huguenots - duet - "Si j'étais coquette"

Dame Joan Sutherland as Marguerite de Valois and Anson Austin as Raoul sing a duet from act II of Les Huguenots by Meyerbeer. This is from Joan's last performance at the Sydney Opera House.

Perfilados de medo

O General Ramalho diz que existe um clima de medo crónico de criticar para não ser prejudicado e de arriscar. Por que razão será? Porque a nossa sociedade é constituída por gente muito dependente. A sociedade portuguesa é uma teia de gente frágil, onde alguns menos frágeis ditam o rumo que lhes interessa. Os portugueses não foram educados num espírito de independência e de amor pela liberdade. Veja-se o caso mais paradigmático de todos. O Partido Socialista nasceu como um grande partido da liberdade e de homens livres, de gente independente que afrontou o anterior regime e fez frente à possibilidade de uma nova ditadura vinda do outro lado do espectro político. Mas o que é hoje o Partido Socialista? Onde está aquele espírito dos heróis fundadores? Foi deglutido pelos profissionais da política, por gente que nunca afrontou nada de perigoso, por gente que pensa apenas nas suas carreiras. O Partido Socialista tornou-se num partido perigoso. As pessoas têm medo dele e ele dá-lhes razão e gosta de que as pessoas tenham medo. Quem se mete com o PS leva. Esta frase de um antigo dirigente mostra o espírito da coisa. Se o Partido Socialista se tornou uma agência de dominação, como não hão-de os portugueses, na sua miséria ancestral, não ter medo. Em Portugal, sabe-se muito bem quanto o poder é poderoso, como ele liquida a vida das pessoas, como os seus braços são como Deus, estão em toda a parte e cuidam de nós. Os portugueses foram treinados, e continuam a sê-lo todos os dias, para o medo e para a cobardia. E se levantam a cabeça, aprendem muito rapidamente que os olhos não se devem levantar do chão. O General, um homem corajoso, às vezes confunde-se. Perfilados de medo...

09/02/09

A vida amorosa

A SIC decidiu prendar o país com uma mini-série sobre a vida íntima de Oliveira Salazar. Independentemente da qualidade e da verosimilhança, o que ocorre perguntar é a intencionalidade da coisa. É provável que não se pretendesse mais nada do que explorar, para consumo popular e voyeurista, a equivocidade da vida sentimental do ditador. Mas estes projectos não são inócuos. Como é dito no Portugal dos Pequeninos, para estudar o Estado Novo e Salazar não é preciso a vida íntima de Salazar para nada. Mas o problema não é tão simples. Salazar sempre foi discreto em relação à sua vida amorosa e deixou transparecer uma espécie de castidade que legitimava a sua pertença à imaginária galeria dos heróis e santos varões que tinham feito de Portugal um imenso império. A gestão da sua intimidade não pode ser desligada nem da ideologia nem da forma como fazia política. Contudo, esta mini-séria da SIC não é a desmontagem de um mito, mas o sintoma de que os tempos mudaram. Se homens como Salazar e Cunhal eram mais ou menos secretos na sua vida amorosa, se os outros eram relativamente discretos, isso acontecia não apenas por uma questão de carácter, mas porque o tempo lhes exigia isso, porque a política era suficiente para concentrar o interesse público. O que se passa hoje em dia é uma alteração do interesse público. Este retraiu-se para a esfera da intimidade e as pessoas, treinadas pelos reality shows e por uma televisão sôfrega de episódios picarescos, apenas se interessam em espreitar para a suposta vida íntima das grandes personagens. O que este episódio televisivo mostra não é Salazar, mas a destruição do espaço público na nossa sociedade e o desinteresse geral que a política gera no mercado das emoções populares. A intencionalidade desta realização não é desmontar ou reabilitar a personagem do Professor Salazar, mas cimentar o novo espírito do tempo, o espírito niilista que toca em tudo e a tudo dissolve no acto de espreitar.

Façamos de conta

Muito bem, Mário Crespo. Façamos de conta, então. Façamos de conta que Portugal é um país. Façamos de conta que Portugal possui uma elite política. Façamos de conta que não nos faltam estadistas. Façamos de conta...

Filhos de políticos para a escola pública


Um amigo meu contou-me que, segundo lhe disseram, há no Brasil um movimento cívico ligado a professores do ensino secundário que exige que os políticos ponham os seus filhos na escola pública. Não sei até que ponto isto é verdade. Sei, no entanto, e apesar de considerar, como aliás esse meu amigo, a exigência demagógica, que é uma exigência justa. Em Portugal, todos os políticos do Partido Socialista, e já agora dos outros partidos também, deveriam tirar os seus filhos de instituições privadas e colocá-los na escola pública, que eles formataram e levaram ao lugar onde ela se encontra. Assim, os jovens nascidos dos nossos responsáveis políticos poderiam gozar dos benefícios das políticas educativas que os seus progenitores aprovaram para a plebe democrática. Fundamentalmente, deveriam ir para a escola pública político-descendentes que frequentam os colégios das grandes cidades. Querem apostar que muita coisa mudava imediatamente na escola pública?

07/02/09

Mais tarde

Edward Hopper - Morning Sun (1952)
Mais tarde,
o silêncio da luz veio
soletrar uma trégua
nas frívolas águas de Janeiro.

Que palavra terás para dizer?

Casas de tijolo,
as lágrimas sufocadas,
os lençóis intactos,
onde a noite descansou.

Que palavras terás para dizer?

As romãs estão maduras,
não há quem as colha.

Olho-te,
nesse abandono
com que o sol te ilumina,
e espero a tarde que vem
para atear a sombra
e roubar-te a seiva
que me há-de caber.

Pablo Neruda & Paco Ibáñez: Puedo escribirte los versos...

Pablo Neruda, "Puedo escribirte los versos más tristes esta noche"; Paco Ibáñez & Cuarteto Cedrón;Barbra Streisand, "The Prince of Tides" (1991)

Causas da esquerda

«O secretário-geral do PS, José Sócrates, classificou hoje em Coimbra a regionalização e o casamento entre homossexuais como bandeiras que identificam o Partido Socialista com a esquerda progressista e a esquerda do povo.» Por muito que medite, ainda não consegui compreender por que razão o "casamento" entre homossexuais é uma questão de esquerda ou de direita. Mas se o Partido Socialista e o seu magnífico chefe acham, quem sou eu para recordar que a orientação sexual ou os negócios afectivos não têm cor política. Dir-me-ão: a permissão do casamento é uma bandeira de esquerda, como salienta Sócrates. Mas a esquerda não viu durante muito tempo o casamento como algo que fazia parte das estruturas jurídicas reaccionárias e opressoras? Não será a extensão do casamento aos pares homossexuais a extensão da opressão àqueles que são livres? Quanto à regionalização o problema é idêntico. Por que razão o retalhar do país em feudos será uma questão de esquerda? Será que Sócrates se está a preparar para acolher no seu partido o dr. Luís Filipe Menezes e o autarca-poeta Mendes Bota?

06/02/09

Enrico Rava Quintet

Influente e popular

Há coisas feias que compensam. O nosso querido líder europeu abandonou o velho barco que se afundava, Portugal, e entregou-se à glória do mando de um barco novo e moderno, a União Europeia. Agora, o antigo candidato a grande timoneiro da classe operária, é um dos líderes mais populares e influentes do mundo. Terá algum mérito. Mas a sombra da fuga para a Europa e o despudor da entrega de Portugal a Santana Lopes são coisas que a influência e a popularidade cosmopolita jamais farão esquecer. Isso não significa, porém, que, esgotado o tempo de Cavaco Silva, Barroso não regresse para uma candidatura à Presidência da República. Portugal não esquece, mas... Como habitualmente, não perdoará a sua fuga nem desperdoará. É bem possível que o eleja para o mais alto cargo da nação. Por desfastio.

Jornal Torrejano, 06 de Fevereiro de 2009


Na opinião, inicie-se o périplo pelo cartoon, de Hélder Dias. Depois, prossiga-se a viagem com Carlos Henriques e Mantorras regressou ao golo (isto sim, é falar de coisas importantes), Francisco Almeida e Desindividualização, João Carlos Lopes e Viva a região, José Ricardo Costa e O Racismo e, para terminar, Santana-Maia Leonardo e (Con)vencer com mentira.

Desta maneira, este pobre blogger acaba a notícia das notícias. Bom fim-de-semana.

05/02/09

Sem destino vão os passageiros

Edward Hopper - Chair Car (1965)

Sem destino vão os passageiros
neste carro de opaca luz.
Caminham para o lugar sem volta,
distraídos pela chama da vida,
como se vida ainda houvesse,
quando o carro vai sem pressa,
nos dias que noite não têm.
Suspiram pela próxima paragem,
mas se a porta então se abre,
apenas entra novo passageiro,
e logo se senta a pensar
no longo fulgor da morte
que ilumina a rápida treva da vida.

Keith Jarrett - La Scala

Consenso nacional?

O presidente da Agência Portuguesa para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), Basílio Horta, não sabe o que mais se há-de fazer perante a grave crise internacional. Tem a vantagem da sinceridade. Mas perde-se em coisas vagas como "solidariedade nacional" e "consenso nacional". Não por acaso ele utiliza a metáfora do abalo de terra. Mas esta metafórica tem um duplo defeito. Em primeiro lugar, ao contrário do abalo de terra, a crise internacional não é obra da natureza, mas da forma como nós seres humanos, uns mais do que outros, lidámos com o universo das nossas necessidades, que a economia tem por função responder. Nos vários lugares do mercado e da sua regulação, houve gente que se portou mal, muito mal mesmo. Agiram segundo o seu livre-arbítrio e devem ser responsabilizados por isso. A crise é uma catástrofe, mas não uma catástrofe natural. Nestes casos, a utilização de tropos torna-se perigosa. Por outro lado, a identificação da crise com uma terramoto gera também ilusões sobre as soluções. A solidariedade deve ser um valor constante e não apenas nas situações críticas. Usá-la como retórica paliativa não traz mal ao mundo. O problema surge quando se fala em "consenso nacional". Mas o problema não tem sido mesmo esse? Não tem havido consenso nacional e internacional a mais? Não foi esse consenso que permitiu que se chegasse onde se chegou? O que nós precisamos é de romper esse consenso e encontrar vias alternativas novas. Alternativas no plano económico e no plano político. E quando falo no plano político não me estou a referir a alternativas dentro do espectro partidário. Estou-me a referir a novas formas de conceber a política e, já agora, a economia. Consenso nacional? Poupem-nos.

Da cegueira

A Justiça de Marília Chartune

Há qualquer coisa que não funciona na justiça portuguesa. Não faço ideia do que se trata. Não são apenas processos que prescrevem devido à lentidão, não é apenas a suspeição de que ela serve para fins mais ou menos ocultos, não é sequer o seu formalismo absurdo. A independência dos tribunais parece que é percebida como se as magistraturas fossem constituídos por seres não humanos. A entrada naquelas instituições deve exigir uma feroz independência perante o bem senso ou o senso comum da comunidade. Se não fosse isso, como se explica a falta de cuidado que se noticia aqui. Não contesto a bondade da decisão tomada, mas o triste espectáculo que a sua execução provoca. Seria boa ideia que os tribunais, pelo menos nestes casos que envolvem relações de afecto, tivessem em consideração as pessoas envolvidas, que não são criminosas, e, para além do sentimento moral, considerassem a natureza estética do espectáculo deprimente que sempre conseguem fomentar. Isto nao significa, porém, que as suas decisões não sejam doutas e juridicamente bondosas. Mas a forma da sua aplicação deve ter em consideração aqueles a quem elas se dirigem, os quais são a única razão de ser de juízes e magistrados. A justiça deve ser cega, mas a ausência de visão não implica perda global da sensibilidade. Nem que seja para nos poupar aos tristes espectáculos que logo se arvoram nestes casos.

A coisa faz o seu caminho

Fait-Divers? Talvez. Mas a verdade é que se está a preparar o ambiente para retalhar o país em 5 feudos. Sócrates embala os militantes de província com este engodo. Também o ex-líder do PSD, Luís Filipe Menezes, se diz disposto a ser soldado no combate pela causa. Por esse país fora não falta gente a ansiar pela regionalização. Quem? Para além de alguns idealistas da causa, aquele pessoal que controla os aparelhos dos grandes partidos na província. A regionalização serve fundamentalmente para multiplicar os proto-césares e proto-jardins que pululam nas distritais partidárias e distribuir mais uns quantos assentos à mesa do orçamento de Estado. Também é verdade que o tema da regionalização, na boca de Sócrates e na moção ao congresso socialista, tem por finalidade dividir o PSD. É o partido mais fracturado pela questão. Ao lado dos regionalistas que vão do Porto ao Algarve, há gente que treme só de ouvir a palavra. Sócrates, com a colaboração de Menezes, tenta assim matar dois coelhos com uma única cajadada. Satisfazer o pessoal da sua congregação e dividir o maior partido da oposição.

04/02/09

Gosto das árvores desta paisagem

Edward Hopper - Rooms by the Sea (1951)

Gosto das árvores desta paisagem
e da gente que habita a floresta,
como se habitasse o silêncio da água
ou a nuvem que do mar foge.

Era assim que falávamos naqueles dias
onde as fronteiras eram traços imprecisos,
apenas riscos de sombra,
ali mesmo, no sítio a que chamavas
o meu império intermitente.

Sentado de pernas caídas para o mar,
escutava as tuas palavras truncadas
e deixava que o cheiro a naftalina saísse
da escuridão dos armários para se afogar
no rumor das águas batidas pela voz
de um deus esquivo e cansado.

É tudo tão fotográfico, disseste: o bando de gaivotas,
as ondas eriçadas, as árvores vindas da floresta,
a tua presença na rasura dos meus dedos.
Se soubesse nadar, deixava-me cair no oceano
para esperar a noite, haveria de vir, e nela cantar
o último poema que há no baldio do teu coração.

Festival RTP 1971 - Paulo de Carvalho - Flor Sem Tempo

Isto não era mau. Pelo menos era bastante melhor do que aquilo que os outros países apresentavam no Eurofestival da canção. A verdade, porém, é que este tipo de canção não era adequado à leveza do concurso da Eurovisão. Mas fora desses certames não havia mercado ou espaço para este tipo de canção popular sobreviver. A prova está no facto de toda esta geração de cantores e a seguinte ter praticamente desaparecido de cena, quero dizer da televisão. E nem deixaram sucessores. Resta a música pimba. O curioso é que esta música já existia na altura, mas não tinha lugar nos meios de comunicação social. O chamado nacional-cançonetismo, note-se, nada tinha a ver com aquilo que hoje chamamos música pimba. Era kitsch, mas não pimba. É como se a democracia viesse permitir a manifestação do fundo da alma lusa. E esse fundo é o que é.

O olhar de Hegel


O Zé Ricardo fez uma pequena patifaria ao velho Hegel. Diz ele: «O olhar de Hegel revela profundidade, solenidade, é o olhar de quem julgaria tudo saber.» Mas antes tinha mostrado que ele nada sabia daquilo que aconteceu após a sua morte. Nada sabe de Van Gogh, Proust, Stravinsky, Joyce, ao que poderia acrescentar que ele nada sabe de teoria da relatividade, nem de mecânica quântica, nem de biologia molecular ou de ciências da educação, essa área tão fundamental para a destruição do saber, nem...

Em primeiro lugar, gostaria de chamar a atenção de que a teoria proposta não é refutável. Nós não podemos fazer nenhuma experiência, por exemplo submeter o velho Hegel a um teste de conhecimentos gerais, para demonstrar que ele nada sabe do que é actual. Há várias coisas que nós não podemos decidir. Uma delas é se há vida depois da morte. Outra é se, mesmo havendo vida depois da morte, a "alma" sobrevivente continua a acompanhar as coisas cá debaixo. É uma crença tão injustificada a fé na imortalidade da alma, como a crença contrária. Portanto, dizer que o velho Hegel ignora tudo o que se passou depois dele é um vaticínio que eu considero arriscado. Como provar isso?

Mas há ainda outra coisa. A grande sabedoria de Hegel não reside tanto no facto de ele saber quase tudo o que havia para saber na sua época. Isso não passaria de polimatia, de vasta e insensata erudição. O olhar de Hegel não é o olhar de quem é uma enciclopédia, mas o olhar de quem tudo pensou e elevou ao conceito. E aí surge para mim um problema. Apesar de hoje possuirmos quase mais duzentos anos de informação, é muito possível que a generalidade das pessoas, nelas incluindo os filósofos actuais, saibam muito menos que o velho Hegel. Têm mais informação, mas pensaram-na menos e menos globalmente. Aquele olhar não é o de uma vaca que, no pasto, se empanturra de erva, mas o de uma águia que do alto do conceito vê o que está antes e o que está depois. Daquele olhar, o espírito absoluto contempla a sua própria manifestação na história dos homens. Um segredo: aquele olhar é olhar de Deus no momento mesmo em que vai começar o juízo final. Portanto, o Zé Ricardo, apesar do ateísmo fundamental, que se cuide. Hegel está de olho nele.

03/02/09

Sarah Chang: Mendelssohn Violin Concerto Mvt.1 Part1

O encontro


Segundo o Sol, o senhor Procurador-Geral da República não diz se o caso Freeport foi abordado no encontro com Cavaco Silva. Claro que não pode dizer, o homem é Procurador e não pode dizer mentiras. Na verdade, o encontro tinha apenas uma finalidade: jogar uma partida de Xadrez. Consta que o jogo decorreu sobre a égide de uma defesa siciliana. As brancas abriram com P4R, o que foi respondido com o tradicional P4BD, lance agressivo, mas arriscado. O resultado, como em tudo o que diz respeito à justiça em Portugal, foi um empate.

Não peças o que não queres

Por isso mesmo vou mais longe, e acedo ao que pedes, até porque quero que se cumpra o ditado: “Não te ponhas a pedir o que não pretendes obter!” É que sucede muitas vezes nós pedirmos com empenho coisas que recusaríamos se alguém no-las oferecesse. Por ligeireza? Por excesso de gentileza? Seja qual for a razão, apliquemos-lhe um castigo: acedamos largamente ao pedido. Muitas coisas nós desejamos parecer querer quando de facto as não queremos. Numa leitura pública, um autor levou uma vez uma obra histórica enorme, escrita em letra miudinha, num volume densíssimo, e, depois de ler a maior parte, disse: “Se querem, fico por aqui.” Ora os auditores, embora o seu único desejo fosse que o homem se calasse imediatamente, gritaram em coro: “Continua a leitura, continua!” Muitas vezes, também, queremos uma coisa mas escolhemos outra, e nem sequer aos deuses confessamos a verdade; o que vale é que os deuses ou não nos atendem ou têm pena de nós! Quanto a mim, vou proceder sem qualquer compaixão: vou mandar-te uma carta gigantesca! Se te custar muito lê-la, não terás mais do que dizer: “Bonito serviço que eu arranjei!”, e põe o teu nome entre o daqueles homens que se desfizeram em galanteios para casar com uma megera, ou se fartaram de suar para conseguir riquezas e nelas só encontraram angustias, ou usaram todos os truques e esforços para obter cargos públicos em que se sentem destroçados, em suma, inclui-te na lista dos artífices dos próprios dissabores! [Séneca, Cartas a Lucílio, 95]

Felix Mendelssohn : The Hebrides (Fingal's Cave) - Overture

Felix Mendelssohn

Faz hoje duzentos anos que nasceu o compositor alemão Felix Mendelssohn-Bartholdy, neto do filósofo Moses Mendelssohn. Portanto, hoje é dia de S. Mendelssohn.

02/02/09

Se um anjo tivesse o teu nome

Edward Hopper - Barn and Silo, Vermont (1927)

Se um anjo tivesse o teu nome,
e no celeiro guardasse a colheita,
que palavras terias para me dizer,
agora que nada sabes do vento?

Estou cansado de tanta figuração.
Nada guardo nos silos da história,
e esqueci um a um os nomes que te dei,
quando em mim ainda havia a tua luz.

Entro por ali e fico na penumbra,
a pensar nas coisas que se pensam
quando chega a hora de partir:
um joelho inflamado, a voz rouca,
um livro esquecido na memória.

Há coisas que são assim, sem concerto:
o velho barco preso ao cais,
os dias de chuva em que não nos cruzámos,
aquelas rosas de cinza esquecidas,
o grito que sufoquei ao partir.

Se um anjo ainda tivesse o teu nome,
nada no celeiro guardaria.
Ficava apenas no ar a lepra, a gangrena,
a lâmina fina da minha pele ulcerada.

Carl Philipp Emanuel Bach: Concerto in D Minor, Part 1