27/02/09
Carlos Abreu Amorim - Hino ao relativismo
A ministra inglesa das Crianças, Beverley Hughes, elaborou um panfleto que visa orientar as conversas sobre sexo entre pais e filhos. Trata-se de mais um marco na ingerência do Estado na função educacional das famílias.
O documento exorta os pais a não imprimirem nos filhos a distinção entre o bem e o mal no plano sexual. Os menores deverão formar os seus juízos sem intervenção parental: o contexto social e, sobretudo, o Estado encarregar-se-ão disso. Os pais poderão ter conversas ‘light’ sobre o tema mas nada de quererem transmitir valores e virtudes ou de traçar cenários incómodos face a opções que se sabem erradas.
Ou seja, o Governo trabalhista inglês quer que os pais deixem de o ser – só geram os filhos que, depois, ficam ao ‘Estado dará’. [Correio da Manhã, 25/02/09]
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Jornal Torrejano, 27 de Fevereiro de 2009
Em linha está a nova edição do Jornal Torrejano. Notícia principal, a exigência do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal: que pague as dívidas a empress que cumpram os seus deveres de resposnsabilidade social. Referência também para o Carnaval no concelho.
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Detectives atrás dos filhos
Pais contratam detectives para controlar filhos, noticia o DN. Namoros, saídas, consumos de drogas, utilização da Internet, tudo isso é objecto de "investigação" do detective contratado. Os "psi" de serviço comentam: «O recurso a detectives "não faz sentido numa relação de pais e filhos", acredita Daniel Sampaio. "É quase psicótico os pais querem controlar o incontrolável", critica Rui Ferreira Nunes.» Mas a questão não é se o recurso a detectives faz ou não sentido ou se é a manifestação de um sintoma psicótico. O problema é outro: que tipo de sociedade construímos que obriga a este tipo de actos? Que tipo de sociedade é a nossa que ninguém controla as novas gerações? Que contributo deram para a situação muitos pais que agora se vêem obrigados a chamar os nossos Sherlocks? E que responsabilidade têm as teorias de muitos "psi" de serviço nos último 20 a 30 anos?
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26/02/09
Moisés David Ferreira - Reencontro VIII
a voz regressa nua,
maculada, baça,
desabrochando no ventre
da maré vazante,
quando a incipiência das deambulações se apaga
e o riso se acama no seu berço:
uma explosão. medo.
na areia indecifrável,
um trilho de búzios desconexos,
a danação das línguas, vogais
rasgadas,
e o espumoso leite da noite
cercando o mergulho das mãos na claridade.
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Clemencic Consort - Carmina Burana
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O bispo iluminou-se
Afinal o bispo Williamson teve uma iluminação. Alguém lhe demonstrou, e em curto espaço de tempo, que o holocausto sempre existiu. A expulsão da Argentina, por motivos de opinião, foi um excesso inaceitável. Mas esta tão súbita iluminação sobre a verdade histórica do genocídio do povo judaico só me faz lembrar a iluminação, na estrada de Damasco, de Saulo de Tarso. Mais: o bispo obedeceu ao Papa e pediu desculpa por ter negado o holocausto (aqui). Parece que na Igreja Católica ainda há quem mande, isto para além de provocar iluminações súbitas. Nem sempre o princípio de autoridade é uma coisa má, pelo contrário.
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Marcadores: Religião
Apontamentos para uma arte poética - III
A poesia, mesmo quando suspende a gramaticalidade usual, reforça a nossa percepção do mundo como uma evidente relação de causas e efeitos. Mas se a nossa visão do mundo como uma cadeia de conexões causais tem a sua raiz num hábito psicológico, como defende David Hume, não deveria a poesia visar um "para além" do hábito? A consumação da essência da poesia não seria permitir que a linguagem dissesse esse outro mundo que se oculta no hábito, hábito que nos obriga a associar os fenómenos em infinitas cadeias de causas e efeitos? Mas que mundo seria esse onde não existisse uma ligação entre os fenómenos? Esse mundo não é perceptível por nós, pois contraria a formatação psicológica com que apreendemos a realidade envolvente e mesmo a nossa realidade subjectiva. Se conseguirmos imaginar uma utilização poética da linguagem para além daquela que fazemos, poderemos pensar então numa poesia não-causal. Mas esta poesia teria de re-inventar a sintaxe, descativando-a das conexões causais. Esse seria um primeiro passo, para logo de seguida instituir novas formas de conexão não causais. Ou, no limite, marcar uma nova forma de discurso no qual estivesse ausente toda e qualquer conexão, para além da continuidade temporal e da contiguidade no espaço [continua]. [26/02/2009]
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25/02/09
Moisés David Ferreira - Reencontro VII
a essência do lugar: um rasgo esquivo
na mancha da solidão.
e os dedos cavam as lâmpadas cujo
filamento é um sistema de relâmpagos.
estou à beira de um relâmpago: esta janela
bebendo a liquefacção de todos os invernos passados
a dançar dentro da chuva.
quando as oliveiras frias levantavam a sua lua de cânticos
e o fruto, o único fruto, era o assombro:
de repente, a cor dilatada dos pulmões
sustendo a respiração;
ou o adentrar das raízes do fogo
no extremo inconcluso da carne.
esta janela: e o grito estabelece-se
na pulsação migratória das minhas próprias mãos,
a princípio coberto da fuligem
dos dias que não sangram, depois
geométrico como se quisesse
levantar-se do seu húmus,
ou ser música. a memória desfaz-se,
e desfeita comanda a orquestra
do que é derradeiro, mínimo:
o diamante insular dos teus olhos
escorrendo da paragem do tempo,
a consumação das estrelas nesta chama a abandonar
a superfície do lume,
o vento acabado de sair
das vísceras de um litoral.
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Diana Krall - A Case of You [Live]
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Kjell Nordstrom - Inovação e emoção
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24/02/09
Moisés David Ferreira - Reencontro VI
cerca-nos o último enigma –
a ave sem ocaso – torrentes
cardeais
descerrando o som umbilical da noite,
a abrupta flâmula
do mar.
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Nostalgia e vergonha
Uma das maiores humilhações do regime democrático é aquela que, de certa forma, o autor do blogue Combustões retrata no post Santa nostalgia. Um regime democrático não tinha que, obrigatoriamente, gerar a nostalgia do sistema educativo do regime de Salazar. Mas o descalabro a que pedagogice pateta e a irresponsabilidade política conduziram o sistema educativo quase que sublima e santifica o que se fazia anteriormente. Mais: para vergonha da nossa democracia o sistema educativo actual, aquele que nasceu das últimas eleições (mas que já se vinha desenhando há muito), é, considerando os respectivos contextos sociais e epocais, menos democrático e menos democratizador da sociedade que o sistema dos anos sessenta. A destruição da escola pública veio pôr a nu qualquer coisa que já se suspeitava: só as classes médias altas e altas das grandes cidades têm a possibilidade de dar uma educação menos má aos seus filhos. O nefasto ensino secundário (essa coisa que nasceu da destruição dos liceus), aquela espécie de coisa a que se chama ensino básico e um ensino técnico sempre a recomeçar do zero são aquilo a que os menos afortunados têm direito. Isto não é apenas uma abjecção académica, mas um acto de infinita injustiça social.
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Dressur by Mauricio Kagel
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Convite à valsa
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O ridículo não é apenas ridículo... (2)
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O ridículo não é apenas ridículo...
Foi graças ao Portugal dos Pequeninos que tomei conhecimento disto: «Em Braga, três agentes [da PSP] "levantaram" o "competente auto" e apreenderam numa feira de livros de saldo alguns exemplares de um livro sobre pintura que ostentava na capa o famoso Courbet, A Origem do Mundo». Parece, na douta explicação adiantada, que «os livros continham imagens pornográficas expostas publicamente». Interessa-me pouco o nível cultural dos guardas da PSP, ainda menos a discussão sobre o que distingue o erótico do pornográfico (aliás, conceitos que não se aplicam à obra em questão), nem sequer a querela sobre o que é arte ou não é. O que me interessa mesmo é perceber de que doença é que esta acção da PSP de Braga e a não menos interessante interdição, logo levantada, de umas imagens do corso de Torres Vedras são sintomas. Parece que as nossas instituições de justiça e de segurança andam muito interessadas nos costumes. Haverá na mente de quem nos governa a ideia de voltar à polícia de costumes? Estas acções ridículas não são apenas ridículas, são perigosas por aquilo que indiciam, e eu não sou propriamente um libertino ou um imoralista. Parece que nos últimos anos, de forma mais ou menos inconsciente, um clima adverso à liberdade se foi instalando no país. Seria bom que estes sintomas desaparecessem rapidamente de cena. O ridículo não é apenas ridículo, pode ser letal.
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21/02/09
Moisés David Ferreira - Reencontro V
pronunciado um nome, o esqueleto
sobrepõe-se à pele, desabrocha,
o crepúsculo
comprime a fala, devolve-a
à tensão dos ossos,
e o magma do tempo quieto
rompe a crosta dos lábios.
– chamar alguém – soletrar
do fundo um nome –,
é descompassar a morte, ir harpejando
o lume
no extremo desta água.
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Bruno Maderna: Aura (1972)
Sinfonieorchester des Norddeutschen Rundfunks diretta da Giuseppe Sinopoli.
Capolavoro del tardo Maderna scritto per l'ottantesimo anniversario della fondazione della Chicago Symphony Orchestra. In questa splendida composizione c'è tutto il Maderna ultimo, fine ricercatore di timbri e speculazioni sonore di tipo post-impressionista. L'andamento rapsodico del lavoro e l'utilizzo sporadico della tecnica dei gruppi caratterizza il dipanarsi di una serie di idee sviluppate in modo quasi cameristico, con un uso dell'Orchestra spesso divisa per sezioni che dialogano attraverso una serie di rimandi organizzati in modo ciclico. Un'Opera di fascino assoluto, che fa rimpiangere una volta di più la perdita del suo autore, grande Compositore e ottimo direttore d'orchestra, un musicista che certamente avrebbe detto ancora molto negli anni a venire.
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Ciência e ideologia
O termo ideologia foi criado no início do século XIX, pelo filósofo francês Destutt de Tracy, e tinha o significado de uma ciência das ideias, tomadas estas como o conjunto de estados da consciência. A fortuna do conceito de ideologia nasce, porém, com a utilização feita do termo por Marx. Para este, a ideologia representava uma visão invertida, distorcida do real. De certa forma, é desta maneira que o Zé Ricardo a utiliza no seu post.
Mas se nós quisermos perceber o fenómeno ideológico, não podemos pôr de lado nem a primeira definição de ideologia dada por de Tracy, nem sequer uma longa arqueologia que terá um momento importante nas Ideias platónicas, e deverá também incluir obrigatoriamente o conceito de “idola”, de Francis Bacon. Também, para essa arqueologia, não é pouco importante a problemática judaica do combate à idolatria, a perversão na crença nos ídolos.
Onde deveremos inscrever a ciência dentro desta problemática? Não será ela uma arma contra toda a idolatria e contra toda a distorção que a ideologia introduz na relação do homem com a realidade? Sim, mas... A ciência não deixa de ser um produto ideológico, se aceitarmos a definição muito genérica dada por de Tracy. A ciência, ao lado de outros fenómenos como a filosofia, o senso comum, o mito, etc., faz parte dos sistemas ideológicos, tomados no sentido geral, com que a humanidade apreende e compreende o mundo. Entre a ideologia política, tomada como forma distorcida de compreensão do real, e a ciência há uma comunidade: são ambas formas de compreensão e de acção sobre o real. Este é um primeiro motivo que permite o aproveitamento pela ideologia política (totalitária ou democrática) da ciência. Esta pela sua natureza ideológica originária presta-se a estes aproveitamentos perversos.
Mas há ainda uma outra razão pela qual deve relativizar-se a primeira proposição do Zé Ricardo: «A Ciência, por princípio e definição, não é ideológica». A ciência não é apenas um produto ideológico, entre outros, produzido pela espécie humana, mas um produto que possui na sua raiz uma decisão ideológica muito específica. A instituição da ciência moderna com Galileu, depois continuada por Newton, etc., constrói um objecto de investigação por decisão ideológica. O que Galileu faz é definir aquilo que deve ser ou não ser considerado natureza para objecto de investigação. Esta decisão não está inscrita na natureza das coisas. Deve-se a uma opção fundada na consciência humana, a uma opção ideológica. Como certas leituras fenomenológicas mostraram, há uma pré-compreensão do que é a natureza, pré-compreensão que determina a definição de objecto de investigação, bem como a construção do corpo teórico, dos processos e métodos de investigação, etc. As ciências, tanto as da natureza como as sociais e humanas, assentam, dessa forma, numa tomada de posição (uma perspectiva unilateral) sobre os respectivos objectos. Desse ponto de vista, a ciência é ideologia e ideologia que se funda num determinado perspectivismo sobre o real. É por isso, pela sua natureza ideológico-perspectivística, que a ciência exerce uma enorme atracção sobre a ideologia política, seja ela de que quadrante for, também ela perspectivística.
Há ainda uma outra questão que mereceria atenção. As ideologias políticas modernas são, em geral, produtos posteriores ao nascimento da ciência moderna. Seria interessante seguir o rasto dessas ideologias e observar o momento e a forma como elas se encontraram com a ciência moderna. Talvez pudéssemos constatar um facto muito curioso: o berço das ideologias políticas modernas, daquelas que pervertem e distorcem a visão da realidade, situa-se no caminho aberto por esse acontecimento seminal que o foi a decisão metodológica de Galileu. Talvez, eu sei que estou a usar uma formulação eufemística, a ideologia política, enquanto visão pervertida da realidade, tenha nascido da sobredeterminação ideológica presente no acto originário que institui a própria ciência. Mais: as ideologias políticas seriam uma espécie de ganga proveniente do impacto social causado pela ciência moderna, uma espécie de espuma causada pela própria sobredeterminação ideológica da ciência. Que essa sobredeterminação ideológica da ciência moderna seja recalcada é aquilo que dá que pensar.
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Jorge Carreira Maia
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