17/02/09

Mau humor climático


Há em certos sectores da sociedade, com reflexo em áreas significativas da blogosfera, um desprezo claro pela temática do aquecimento global do planeta. A tese centra-se na ideia de que o aquecimento não é o produto da nossa acção, nomeadamente da emissão de gases que provocam o efeito de estufa. É um facto que certas profecias apocalípticas não se realizaram, ou ainda não se realizaram (as profecias têm essa vantagem, nunca dizem quando se realizam e o futuro está sempre em aberto). Mas notícias como esta aqui, que diz que "um bloco de gelo com cerca de 14 mil metros quadrados desprendeu-se da plataforma de Wilkins, na Antárctida", estão longe de serem tranquilizadoras. De facto, assistimos a uma luta ideológica que tende a distorcer os factos. Isto, tanto da parte dos catastrofistas, digamos assim, como da dos negacionistas. Sejam as alterações climáticas apenas produto da nossa acção, sejam produto da evolução espontânea e autónoma do clima do planeta, sejam da junção dos dois factores, a verdade é que, a cada dia que passa, o problema parece ser mais claro. Não sei se as medidas paliativas que se estão a tomar servirão para alguma coisa. Seja como for, o tipo de vida que tem sido o nosso parece já, tendo em conta o mau humor climático, não ser possível por muitos anos.

Nuno Pacheco (Público de 17/02/09) - Ela devia estar viva, ele podia estar livre

Ahmad vai ficar preso para o resto da vida por ter tirado o resto da vida à irmã. Ele tem 23 anos, ela tinha apenas 16. Ambos demasiado jovens para tal drama e, no entanto, tanto ele como ela são a face visível de um problema maior: o dos chamados "crimes de honra" em nome da família, frequentes em certos meios islâmicos.

As fotos que acompanhavam a notícia da sentença, nas agências, mostravam, além do ar vago e algo comprometido do réu, a reacção colérica do pai, atirando pelos ares as velas que tinham sido colocadas à porta do tribunal, com a cara da filha e em sua memória. Como se a injustiça fosse apenas a da sentença, ao tirar-lhe um filho depois de perder outro. "O mundo em que ele vive não é o nosso. É um mundo em que a honra da família vale mais do que a vida de uma pessoa", disse no tribunal o procurador Boris Bochnick. E, na verdade, é nesse pressuposto que a família Obeidi, de origens afegãs, viveu e vive na Alemanha de hoje.

Morsal, a vítima, não exigia nada de muito extravagante. Nascida no Afeganistão, queria apenas poder viver como as jovens alemãs da sua idade. A revista Der Spiegel, que após o crime foi no encalço da sua história, descobriu uma guerra familiar que já vinha de longe, com discussões, espancamentos e intervenção dos serviços sociais.

Depois da escola, onde convivia com estudantes de 18 países, Morsal costumava reunir-se com os amigos num local que a família não considerava recomendável. Um local "onde se podia fumar, ouvir música e ocasionalmente beber álcool", como se escrevia na Spiegel de 25 de Agosto de 2008, num longo artigo intitulado O elevado preço da liberdade. Morsal gostava de hip-hop, pop afegã e chamava a atenção dos rapazes. Um pesadelo para a família.

Família que, no entanto, não era sequer considerada das mais tradicionalistas. Simplesmente, não pactuava com a visão do mundo que era já a de Morsal. E que incluía calças justas, maquilhagem e cabelo das mulheres a descoberto. No meio das desavenças, tentaram um truque: enviaram-na para o Afeganistão, para se "regenerar". Não resultou. No regresso, o pai (nas palavras da Spiegel) esperava uma filha diferente e esta um pai diferente. "Ficaram ambos decepcionados." Até que, certa noite, o irmão (que tinha antecedentes criminais, de violência juvenil) a atraiu, com a ajuda de um primo, a uma estação de autocarros e a apunhalou vinte vezes. Até ferir o antebraço.

Ahmad, diz, "amava" a irmã. Ela temia-o, mas, juntos, temiam ainda mais o pai, um antigo soldado afegão treinado pelos soviéticos e imigrado na Alemanha desde 1992. A "honra" da família fê-lo perder dois filhos. Ela devia estar viva, ele podia estar livre. Isto se a tradição medieval a que tantos ainda se submetem passasse a ser, apenas, uma vaga recordação do passado.

Maldita FIFA


A FIFA não é nossa amiga. Ainda fez um esgar ameaçador, como quem diz que, pelo menos ela, estaria disposta a proteger-nos contra nós próprios. Vã ilusão. A candidatura luso-espanhola à realização de um Mundial (2018 ou 2022) foi oficialmente aceite. Não faltarão agora discursos encorajadores, grandes frases a dizer coisas idiotas como o homem sonha e a obra nasce. Também não faltarão os homens de boa vontade, os homens de iniciativa e os homens de conhecimento. Aliás, prevejo que não falte mesmo nada, além de juízo nas cabeças.

Utopia e crime

Ossário de vítimas do Khmer Vermelho

Começou hoje o primeiro julgamento de um responsável do regime Khmer vermelho (Cambodja). De certa forma, é um dia histórico. O regime foi particularmente virulento, tendo assassinado grande parte da população. Destruiu as cidades, os templos, as escolas, fuzilou professores e sacerdotes, concentrou o que restava da população nos campos. Enfim, uma espécie particularmente desagradável de hiper-comunismo maoísta. Há no entanto um ensinamento filosófico em todo este processo. A sociedade e a política não podem ser objecto de utopias. É muito corrente contrapor às perversões ideológicas, de direita ou de esquerda, a bondade da utopia. Mas a utopia é tudo menos uma coisa bondosa. O que significa a utopia? Significa que a imaginação se libertou da experiência sensível e dos ditames da razão. Um delírio apossa-se das pessoas e aquilo que é apenas uma imagem irreal pode tornar-se realidade. Como a experiência e a razão estão postas entre parêntesis, a imaginação determina a vontade na acção. Sem qualquer imperativo moral que a coaja, a vontade é agora um veículo perfeito do delírio utópico. Facilmente se percebe como tudo isso se torna num empilhamento infinito de cadáveres. Se a realidade resiste, isto é, as pessoas, então a força fará o que tem a fazer. A palavra utopia, que a tantos corações generosos inflama, é apenas, ao nível social e político, a senha para o crime generalizado.

Significantes sem significado



Há muito tempo que deixei de compreender a utilidade de certas proposições utilizadas pelos políticos. Por exemplo, o dirigente do CSD-PP, Hélder Morais, veio dizer que é preciso libertar Lisboa do governo socialista, ao que acrescentou que sempre que houve um govermo de direita em Lisboa, a cidade esteve melhor. Eu nem sequer pretendo que ele demonstre empiricamente as suas proposições. Nem tão pouco espero que as argumente. São crenças que valem tanto como as suas contrárias, isto é, nada. Mas em vez de utilizar este tipo de língua-de-pau, seria melhor que os políticos só falassem quando tivessem qualquer coisa para dizer. Neste caso, o brioso dirigente centrista poderia explicar como a sua coligação vai transformar Lisboa numa coisa melhor do que é. Toda este gente sofre de um verdadeiro equívoco, pensa que existe por falar. O silêncio, porém, estaria muito mais de acordo com a essência destes protagonistas, a nulidade política. Quando falam, para utilizar a terminologia de Ferdinand de Saussure (uma autoridade cai sempre bem), o que lhes sai da boca não passa de um significante sem significado, ou, numa aproximação mais medicinal, um flato.

16/02/09

Ao longe, a súbita sombra

Edward Hopper - Road in Maine (1914)

Ao longe, a súbita sombra
traz a tarde aos meus dias.
Sento-me numa rocha de cinza,
protejo com a mão os olhos,
e fico à espera do entardecer.

Ao longe, oiço um grito
e as mãos pendem doridas,
como se um perigo espreitasse
na curva do caminho.
Inclino-me como um náufrago,
encho os bolsos de erva seca e…

Ao longe, um fogo espera-me.

Alfredo Kraus & Maria Callas (1958) "Traviata - Brindis"

Som da Emissora Nacional. Récita da Traviata no S. Carlos, em 1958. Grande não é apenas a Callas. Grande é Alfredo Kraus, um dos maiores tenores de sempre. Há quem o eleja como o melhor de todos os tempos, mas estas coisas valem o que valem. O que vale a pena é escutar, mesmo sem o auxílio da representação.

Aristóteles - A justiça: igualdade segundo o mérito


Há duas formas de conceber a igualdade: ou segundo o número, ou segundo o mérito. Considero numérica a igualdade que diz respeito ao que é igual e idêntico, em quantidade e grandeza. Por igualdade segundo o mérito, considero o que é igual em termos proporcionais. Por exemplo: é no plano de uma igualdade numérica que o três excede o dois, e o dois ao um. Contudo, é de uma igualdade proporcional que se trata, quando o quatro excede o dois, e o dois o um; de facto, o dois e o um são, respectivamente, partes iguais do quatro e do dois, isto é, ambos dizem respeito às respectivas metades.

Deste modo, partindo do princípio que todos estamos de acordo que a justiça exercida de um modo absoluto visa a igualdade segundo o mérito, surgem divergências porque — como já foi referido — alguns, sendo iguais em certos aspectos, presumem ser iguais em tudo, ao passo que outros, sendo desiguais nalgum ponto, reclamam para si mesmos uma total desigualdade em todas as coisas.
[Aristóteles, Política, 1301 b 30-38]
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Eis todo o problema da justiça social. A reflexão de Aristóteles vai incidir, após esta citação, no tipo de regime que melhor visa a justiça, entendida como igualdade segundo o mérito. Temos a grande vantagem de todos os nossos grandes problemas terem sido descobertos pelos gregos. Quando as nossas soluções falham, então voltemos às fontes originais da nossa sabedoria, para refrescar a memória e para rejuvenescer a sabedoria.

Chávez como sintoma

Na vitória de Chávez, no referendo de ontem, há qualquer coisa que merece ser meditada. Não será o tique de militar-ditador, já suficientemente propagandeado, nem a sua idiossincrasia, nem tão pouco a peregrina ideia da revolução bolivarina. Note-se que a vitória de Chávez não tem aquele resultado expressivo das eleições nos antigos países socialistas (54,4 - 45,6). Portanto, estamos perante processos aparentemente democráticos. Estes resultados, então, mostram que na sociedade venezuelana, provavelmente em muitas outras da América Latina, há qualquer coisa que não funciona, se o liberalismo económico se torna vigente. Pobres, excluídos, gente em desespero, convivem mal com a liberdade puramente formal, mas que permite a instituição de grandes clivagens sociais. O ensinamento maior, mesmo para as nossas sociedades, é que os mecanismos económicos, nomeadamente o mercado, devem existir em função dos homens e não estes em função da eficiência produtora e distribuidora. A vitória de Chávez ensina que, para evitar este tipo de políticas populistas, é necessário encontrar um justo equilíbrio nas sociedades. Um equilíbrio social entre os indivíduos que as compõem, como um equilíbrio entre aquilo que o homem deve dar à produção económica e aquilo que esta deve dar ao homem. O que se está a passar na América Latina, para além da denúncia de certas pulsões autoritárias, merece uma atenção mais cuidada. Mesmo nós europeus, em especial os portugueses, talvez tenhamos algo a aprender, e certamente não será o bolivarismo ou o socialismo. Chávez é apenas um sintoma.

15/02/09

Nessa história que agora lês

Edward Hopper - Habitación de Hotel (1931)

Nessa história que agora lês
está escrito o esquecimento.
Nela, voas sobre oceanos,
e, em cada hora, dia ou mês,
descobres o pesado fermento
com que deixas passar os anos.

Stan Getz Quartet - Desafinado, Girl from Ipanema

Eleições no PS


Tem significado político relevante a vitória albanesa de Sócrates, nas eleições para Secretário Geral do PS? Tem. Mostra que o partido está mais do que certo numa nova maioria absoluta. Portanto, as pessoas perfilam-se em torno daqueles que as podem levar ou manter no poder. Por vezes, esquecemo-nos de que o ethos que conduz um partido político é o da conquista e da manutenção do poder, seja lá como for. A exigência de um comportamento moral comprometido com o bem comum e de uma atitude crítica face à realidade política, não faz parte da natureza do político, mas inscreve-se, nos regimes democráticos, nos direitos de defesa do cidadão contra aqueles que ocupam o poder, sejam eles quem forem. Se Sócrates não trouxesse consigo o olor do poder, o PS mostrar-se-ia mais crítico e fracturado. Imaginação não haveria de faltar. Agora, porém, as tropas têm o seu general bem definido. Os cidadãos devem aprender a cuidar-se.

14/02/09

Talvez aprendas nesse abandono

Edward Hopper - Desnudo Tumbado (1924-27)

Talvez aprendas nesse abandono
o secreto desígnio, a natureza o deu.
Ainda procuras sôfrega
e toda a seda que tocas rasga-se,
terra de saibro e cascalho,
o tronco rugoso da figueira,
ou um buraco a doer-te no corpo.

Quando encontraste,
não soubeste o que encontraste,
nem deste às horas o tempo de serem hora.
Tudo se toldou
e no nevoeiro que te coube
não houve desolação que a olhar te ensinasse.

Senta-te nessa cama de plástico
e deixa desfilar os pretendentes.
Enganas-te. Não os matarei.
Ninguém poderá matar o que morto nasceu.
Ficam-te para consolo:
hão-de tocar-te o corpo com mãos frias
e um esgar de pus no sexo.

King Crimson - Epitaph

Heranças


Aqui se explica por que motivo há homens que são umas autênticas cavalgaduras. Afinal, é tudo uma questão genética. Há muitos milhões de anos, homens e cavalos tiveram um antepassado comum. Parece que era quadrúpede. Apesar da nossa evolução nos ter levado ao bipedismo, a tendência para o coice, a besteira e para agir que nem uma cavalgadura ficou anichada no cérebro. Heranças.

13/02/09

As coisas secretas da nossa secreta

Como se vê aqui, tudo o que diz respeito à nossa secreta é secreto. O facto de, nos computadores da Presidência do Conselho de Ministros, centenas de pessoas terem acesso à identificação, com fotografia e tudo, de 23 dos nossos secretos espiões é apenas um pormenor sem relevo. Por uma questão de fé, confiamos todos nos serviços secretos ou discretos, ou talvez nem isso. E quando nos asseguram qualquer coisa sobre eles, nem uma sombra de desconfiança floresce no coração dos portugueses. Parece que anda tudo a brincar.

Suspensão de facto dos direitos sindicais

O que é narrado, nestas notícia aqui e aqui, é intolerável. Não apenas porque a violência é um atentado intolerável contra a integridade da pessoa, mas também porque a liberdade do mundo do trabalho se organizar e de fazer greve é um direito essencial da cidadania. Para milhões de pessoas, os direitos sindicais são último refúgio da cidadania. Um Estado que permite isso está à beira de deixar de ser um Estado de direito. Maus ventos estão a começar a correr na sociedade portuguesa.

Jornal Torrejano, 13 de Fevereiro de 2009

Em linha (este blogue acaba de sofrer uma inflexão nacionalista) está já a nova edição do Jornal Torrejano. Destaque para as primeiras propostas do PSD para as autárquicas. Referência também para a comemoração, na novíssima biblioteca municipal, do Dia Europeu da Internet Segura, com um debate. Triste é a notícia que refere o Desportivo: cada vez mais último.

Na opinião, para não variar, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na crónica escrita, Carlos Henriques escreve Jornada de emoções, Carlos Nuno, Cenas quentes, Inês Vidal, Amor Virtual, Jorge Moita Fazenda, Carta Aberta às vítimas do genocídio social de 2009, José Ricardo Costa, Engenharia Social e Miguel Sentieiro, Passa ao outro e não ao mesmo.

Acabou-se, para a semana haverá mais, se houver. Bom fim-de-semana.

Falta de leituras

Falta de leituras. É o que dá o espírito do tempo. As pessoas chegam a ministros e não leram nada do que é essencial, e depois são apanhadas de surpresa. Foi o que aconteceu com o nosso pobre ministro das Finanças, foi apanhado de surpresa. E isto de um ministro das Finanças ser apanhado de surpresa é coisa rara. Só mais raro é um ministro dos Negócios Estrangeiros ser apanhado de surpresa. Mas vamos ao que interessa. Perante os resultados fornecido pelo INE e referentes ao último trimestre de 2008, onde se mostra que o país entrou em recessão técnica, Teixeira dos Santos disse «Não esperaríamos quebra tão acentuada» Fiquei perplexo. Eu já estou habituado a que os economistas se entreguem às previsões mais desencontradas e que não acertem em nenhuma, mas este grau de surpresa deixa-me atónito. Eu recomendava ao senhor ministro uma leitura sistemática dos fragmentos de Heraclito. Mas Heraclito era economista? Não. Seria Heraclito ministro das Finanças de Éfeso? Também não. Mas sabia pensar, qualidade que entretanto se deteriorou. Num dos fragmentos diz que quem não espera o inesperado não o encontrará. Equipado por tal sabedoria, Teixeira dos Santos já não seria apanhado de surpresa e teria evitado a necessidade de mais um orçamento rectificativo. [Cartoon rapinado daqui]

A santidade científica

Ontem foi dia de S. Darwin. Sempre me espanta o espírito religioso não apenas dos ateus mais acérrimos (a crença na inexistência de Deus é tão religiosa como o seu contrário), mas das gentes da ciência. Na galeria dos santos da ciência há alguns que são inevitáveis. S. Galileu, S. Darwin. Einstein está a caminho da beatificação. Estes santos têm os seus dias de culto e há cerimónias litúrgicas para os incensar. Não vejo, do ponto de vista da propensão geral da humanidade para a superstição, problema nenhum no assunto. No entanto, há duas pequenas coisas que sempre me acodem ao espírito quando vejo este tipo de rituais.

Em primeiro lugar, não esqueço que entre a ciência, produto da aliança entre a razão e a experiência, mediada pela imaginação, e a religião há um efectivo elo de ligação. Comte bem o pressentiu. A religião é um produto da imaginação, fundada numa certa experiência empírica do mundo e articulado pela razão. É do fundo religioso que vai emergir a filosofia, a qual estabelece o nexo, agora oculto, entre religião e ciência. Tende-se a esquecer que ambas são produtos das faculdades humanas e a obnubilar o efectivo traço que existe entre elas. Traço esse, aliás, que se manifesta na santificação e culto dos cientistas.

Em segundo lugar, a minha razão ri-se sempre um pouco (maldita razão céptica) com a pretensão da ciência como explicação do mundo. Não é apenas a revisibilidade a que os conhecimentos científicos estão sujeitos, devido ao progresso da investigação. É mais do que isso. Um dia chegará, poderemos imaginá-lo, em que as explicações científicas, isto é, o empreendimento da ciência, parecerá às mentes mais racionais desse tempo uma coisa tão irrazoável como hoje parece ser, para as mentes racionais, os discursos religiosos de Abraão, de Moisés, de Cristo, de Maomé, de Lao Tsé, etc. E estes discursos, podemos constatá-lo, representaram formas muito interessantes de razoabilização da vida humana.

Esta minha posição não representa uma atitude anticientífica. Mas entedia-me a tentação de absolutização, ainda que subreptícia, de uma coisa que só pode ser relativa e ter um significado relativo, pois é produto do espírito humano. Mas, note-se, o problema não está em retornar às velhas explicações criacionistas para contrapor a Darwin, ou ao cosmos ptolemaico-aristotélico em contraposição a Kepler e a Galileu. O problema é que talvez tenha chegado a hora de se começar a pensar na pós-ciência. Por vezes, interrogo-me que caminhos poderiam ser abertos por uma análise transcendental (atenção, à maneira kantiana) das faculdades humanas, agora porém iluminada pelos contributos da própria ciência, da neurobiologia, por exemplo.

Dir-me-ão: mas não será contraditório fundar-se na ciência a sua ultrapassagem? Eu respondo com duas perguntas: não foi na religião que se encontrou o fundamento da filosofia? Não foi na filosofia que se encontrou o alicerce que fez nascer a ciência?