05/02/09

Keith Jarrett - La Scala

Consenso nacional?

O presidente da Agência Portuguesa para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), Basílio Horta, não sabe o que mais se há-de fazer perante a grave crise internacional. Tem a vantagem da sinceridade. Mas perde-se em coisas vagas como "solidariedade nacional" e "consenso nacional". Não por acaso ele utiliza a metáfora do abalo de terra. Mas esta metafórica tem um duplo defeito. Em primeiro lugar, ao contrário do abalo de terra, a crise internacional não é obra da natureza, mas da forma como nós seres humanos, uns mais do que outros, lidámos com o universo das nossas necessidades, que a economia tem por função responder. Nos vários lugares do mercado e da sua regulação, houve gente que se portou mal, muito mal mesmo. Agiram segundo o seu livre-arbítrio e devem ser responsabilizados por isso. A crise é uma catástrofe, mas não uma catástrofe natural. Nestes casos, a utilização de tropos torna-se perigosa. Por outro lado, a identificação da crise com uma terramoto gera também ilusões sobre as soluções. A solidariedade deve ser um valor constante e não apenas nas situações críticas. Usá-la como retórica paliativa não traz mal ao mundo. O problema surge quando se fala em "consenso nacional". Mas o problema não tem sido mesmo esse? Não tem havido consenso nacional e internacional a mais? Não foi esse consenso que permitiu que se chegasse onde se chegou? O que nós precisamos é de romper esse consenso e encontrar vias alternativas novas. Alternativas no plano económico e no plano político. E quando falo no plano político não me estou a referir a alternativas dentro do espectro partidário. Estou-me a referir a novas formas de conceber a política e, já agora, a economia. Consenso nacional? Poupem-nos.

Da cegueira

A Justiça de Marília Chartune

Há qualquer coisa que não funciona na justiça portuguesa. Não faço ideia do que se trata. Não são apenas processos que prescrevem devido à lentidão, não é apenas a suspeição de que ela serve para fins mais ou menos ocultos, não é sequer o seu formalismo absurdo. A independência dos tribunais parece que é percebida como se as magistraturas fossem constituídos por seres não humanos. A entrada naquelas instituições deve exigir uma feroz independência perante o bem senso ou o senso comum da comunidade. Se não fosse isso, como se explica a falta de cuidado que se noticia aqui. Não contesto a bondade da decisão tomada, mas o triste espectáculo que a sua execução provoca. Seria boa ideia que os tribunais, pelo menos nestes casos que envolvem relações de afecto, tivessem em consideração as pessoas envolvidas, que não são criminosas, e, para além do sentimento moral, considerassem a natureza estética do espectáculo deprimente que sempre conseguem fomentar. Isto nao significa, porém, que as suas decisões não sejam doutas e juridicamente bondosas. Mas a forma da sua aplicação deve ter em consideração aqueles a quem elas se dirigem, os quais são a única razão de ser de juízes e magistrados. A justiça deve ser cega, mas a ausência de visão não implica perda global da sensibilidade. Nem que seja para nos poupar aos tristes espectáculos que logo se arvoram nestes casos.

A coisa faz o seu caminho

Fait-Divers? Talvez. Mas a verdade é que se está a preparar o ambiente para retalhar o país em 5 feudos. Sócrates embala os militantes de província com este engodo. Também o ex-líder do PSD, Luís Filipe Menezes, se diz disposto a ser soldado no combate pela causa. Por esse país fora não falta gente a ansiar pela regionalização. Quem? Para além de alguns idealistas da causa, aquele pessoal que controla os aparelhos dos grandes partidos na província. A regionalização serve fundamentalmente para multiplicar os proto-césares e proto-jardins que pululam nas distritais partidárias e distribuir mais uns quantos assentos à mesa do orçamento de Estado. Também é verdade que o tema da regionalização, na boca de Sócrates e na moção ao congresso socialista, tem por finalidade dividir o PSD. É o partido mais fracturado pela questão. Ao lado dos regionalistas que vão do Porto ao Algarve, há gente que treme só de ouvir a palavra. Sócrates, com a colaboração de Menezes, tenta assim matar dois coelhos com uma única cajadada. Satisfazer o pessoal da sua congregação e dividir o maior partido da oposição.

04/02/09

Gosto das árvores desta paisagem

Edward Hopper - Rooms by the Sea (1951)

Gosto das árvores desta paisagem
e da gente que habita a floresta,
como se habitasse o silêncio da água
ou a nuvem que do mar foge.

Era assim que falávamos naqueles dias
onde as fronteiras eram traços imprecisos,
apenas riscos de sombra,
ali mesmo, no sítio a que chamavas
o meu império intermitente.

Sentado de pernas caídas para o mar,
escutava as tuas palavras truncadas
e deixava que o cheiro a naftalina saísse
da escuridão dos armários para se afogar
no rumor das águas batidas pela voz
de um deus esquivo e cansado.

É tudo tão fotográfico, disseste: o bando de gaivotas,
as ondas eriçadas, as árvores vindas da floresta,
a tua presença na rasura dos meus dedos.
Se soubesse nadar, deixava-me cair no oceano
para esperar a noite, haveria de vir, e nela cantar
o último poema que há no baldio do teu coração.

Festival RTP 1971 - Paulo de Carvalho - Flor Sem Tempo

Isto não era mau. Pelo menos era bastante melhor do que aquilo que os outros países apresentavam no Eurofestival da canção. A verdade, porém, é que este tipo de canção não era adequado à leveza do concurso da Eurovisão. Mas fora desses certames não havia mercado ou espaço para este tipo de canção popular sobreviver. A prova está no facto de toda esta geração de cantores e a seguinte ter praticamente desaparecido de cena, quero dizer da televisão. E nem deixaram sucessores. Resta a música pimba. O curioso é que esta música já existia na altura, mas não tinha lugar nos meios de comunicação social. O chamado nacional-cançonetismo, note-se, nada tinha a ver com aquilo que hoje chamamos música pimba. Era kitsch, mas não pimba. É como se a democracia viesse permitir a manifestação do fundo da alma lusa. E esse fundo é o que é.

O olhar de Hegel


O Zé Ricardo fez uma pequena patifaria ao velho Hegel. Diz ele: «O olhar de Hegel revela profundidade, solenidade, é o olhar de quem julgaria tudo saber.» Mas antes tinha mostrado que ele nada sabia daquilo que aconteceu após a sua morte. Nada sabe de Van Gogh, Proust, Stravinsky, Joyce, ao que poderia acrescentar que ele nada sabe de teoria da relatividade, nem de mecânica quântica, nem de biologia molecular ou de ciências da educação, essa área tão fundamental para a destruição do saber, nem...

Em primeiro lugar, gostaria de chamar a atenção de que a teoria proposta não é refutável. Nós não podemos fazer nenhuma experiência, por exemplo submeter o velho Hegel a um teste de conhecimentos gerais, para demonstrar que ele nada sabe do que é actual. Há várias coisas que nós não podemos decidir. Uma delas é se há vida depois da morte. Outra é se, mesmo havendo vida depois da morte, a "alma" sobrevivente continua a acompanhar as coisas cá debaixo. É uma crença tão injustificada a fé na imortalidade da alma, como a crença contrária. Portanto, dizer que o velho Hegel ignora tudo o que se passou depois dele é um vaticínio que eu considero arriscado. Como provar isso?

Mas há ainda outra coisa. A grande sabedoria de Hegel não reside tanto no facto de ele saber quase tudo o que havia para saber na sua época. Isso não passaria de polimatia, de vasta e insensata erudição. O olhar de Hegel não é o olhar de quem é uma enciclopédia, mas o olhar de quem tudo pensou e elevou ao conceito. E aí surge para mim um problema. Apesar de hoje possuirmos quase mais duzentos anos de informação, é muito possível que a generalidade das pessoas, nelas incluindo os filósofos actuais, saibam muito menos que o velho Hegel. Têm mais informação, mas pensaram-na menos e menos globalmente. Aquele olhar não é o de uma vaca que, no pasto, se empanturra de erva, mas o de uma águia que do alto do conceito vê o que está antes e o que está depois. Daquele olhar, o espírito absoluto contempla a sua própria manifestação na história dos homens. Um segredo: aquele olhar é olhar de Deus no momento mesmo em que vai começar o juízo final. Portanto, o Zé Ricardo, apesar do ateísmo fundamental, que se cuide. Hegel está de olho nele.

03/02/09

Sarah Chang: Mendelssohn Violin Concerto Mvt.1 Part1

O encontro


Segundo o Sol, o senhor Procurador-Geral da República não diz se o caso Freeport foi abordado no encontro com Cavaco Silva. Claro que não pode dizer, o homem é Procurador e não pode dizer mentiras. Na verdade, o encontro tinha apenas uma finalidade: jogar uma partida de Xadrez. Consta que o jogo decorreu sobre a égide de uma defesa siciliana. As brancas abriram com P4R, o que foi respondido com o tradicional P4BD, lance agressivo, mas arriscado. O resultado, como em tudo o que diz respeito à justiça em Portugal, foi um empate.

Não peças o que não queres

Por isso mesmo vou mais longe, e acedo ao que pedes, até porque quero que se cumpra o ditado: “Não te ponhas a pedir o que não pretendes obter!” É que sucede muitas vezes nós pedirmos com empenho coisas que recusaríamos se alguém no-las oferecesse. Por ligeireza? Por excesso de gentileza? Seja qual for a razão, apliquemos-lhe um castigo: acedamos largamente ao pedido. Muitas coisas nós desejamos parecer querer quando de facto as não queremos. Numa leitura pública, um autor levou uma vez uma obra histórica enorme, escrita em letra miudinha, num volume densíssimo, e, depois de ler a maior parte, disse: “Se querem, fico por aqui.” Ora os auditores, embora o seu único desejo fosse que o homem se calasse imediatamente, gritaram em coro: “Continua a leitura, continua!” Muitas vezes, também, queremos uma coisa mas escolhemos outra, e nem sequer aos deuses confessamos a verdade; o que vale é que os deuses ou não nos atendem ou têm pena de nós! Quanto a mim, vou proceder sem qualquer compaixão: vou mandar-te uma carta gigantesca! Se te custar muito lê-la, não terás mais do que dizer: “Bonito serviço que eu arranjei!”, e põe o teu nome entre o daqueles homens que se desfizeram em galanteios para casar com uma megera, ou se fartaram de suar para conseguir riquezas e nelas só encontraram angustias, ou usaram todos os truques e esforços para obter cargos públicos em que se sentem destroçados, em suma, inclui-te na lista dos artífices dos próprios dissabores! [Séneca, Cartas a Lucílio, 95]

Felix Mendelssohn : The Hebrides (Fingal's Cave) - Overture

Felix Mendelssohn

Faz hoje duzentos anos que nasceu o compositor alemão Felix Mendelssohn-Bartholdy, neto do filósofo Moses Mendelssohn. Portanto, hoje é dia de S. Mendelssohn.

02/02/09

Se um anjo tivesse o teu nome

Edward Hopper - Barn and Silo, Vermont (1927)

Se um anjo tivesse o teu nome,
e no celeiro guardasse a colheita,
que palavras terias para me dizer,
agora que nada sabes do vento?

Estou cansado de tanta figuração.
Nada guardo nos silos da história,
e esqueci um a um os nomes que te dei,
quando em mim ainda havia a tua luz.

Entro por ali e fico na penumbra,
a pensar nas coisas que se pensam
quando chega a hora de partir:
um joelho inflamado, a voz rouca,
um livro esquecido na memória.

Há coisas que são assim, sem concerto:
o velho barco preso ao cais,
os dias de chuva em que não nos cruzámos,
aquelas rosas de cinza esquecidas,
o grito que sufoquei ao partir.

Se um anjo ainda tivesse o teu nome,
nada no celeiro guardaria.
Ficava apenas no ar a lepra, a gangrena,
a lâmina fina da minha pele ulcerada.

Carl Philipp Emanuel Bach: Concerto in D Minor, Part 1

Voluntários...

Confesso que já ando farto do conflito na educação. Mas este governo tem uma capacidade notável de exercitar o seu ódio e a sua vontade de achincalhamento dos professores. Agora é a ideia do voluntariado dos professores reformados. A ideia até poderia ser interessante, se não tivessem existido estes últimos quatro anos, onde a política deste governo precipitou para a reforma muitos dos melhores e mais experientes professores que estavam nas escolas públicas. Agora, perante a pobreza do quadro que construíram, querem que os que foram postos porta fora, muitos com enormes perdas materiais, venham trazer a sua experiência à escola, voluntariamente. De borla, querem eles dizer. Esta gente consegue ser mesmo odiosa.

01/02/09

Não há praça maior do que esta

Edward Hopper - Carolina Morning (1955)
Não há praça maior do que esta,
o campo aberto batido pelo vento,
um céu azul à espera dos pássaros,
e o teu corpo oferecido a quem passa
como se fosse a única coisa que resta.

Tão longe olham os olhos teus,
e se buscas horizontes presos na retina,
é por já não saberes contar
as parcas ruas ou estreitas avenidas,
onde vou quando te digo adeus.

Luchino Visconti - O Intruso (L'Innocente)

Caso Freeport - o primeiro derrotado

No caso Freeport há já um primeiro grande derrotado, com uma derrota desmedida e sem apelo. O sistema de justiça em Portugal sai muito mal tratado deste caso, seja qual for a solução a que se chegue. Para o cidadão comum, não se percebe por que razão as investigações começadas em 2004 nunca tiveram uma conclusão. Também não se percebe que grande parte dos materiais que estão em segredo de justiça sejam sistematicamente publicados na comunicação social. Mas o problema sobre o segredo de justiça ainda é mais grave. Nunca os cidadãos percebem muito bem para que serve. Às vezes, parece que a sua finalidade é a defesa do processo de investigação e do bom nome dos suspeitos, noutras, desconfia-se que ele tem uma função de ocultar aquilo que deveria vir à luz. Noutros casos ainda, o segredo de justiça parecer servir para ser violado e criar situações públicas que "encostem à parede" certos suspeitos. O caso Freeport é um exemplo acabado de um sistema de justiça que não inspira confiança a ninguém, um caso onde aquilo que deveria ser célere é lento e o que deveria ser lento se tornou célere, um caso onde aquilo que deveria ser público parece oculto e secreto e aquilo que deveria ser secreto está na praça pública. O caso Freeport é, também, em todas as suas vertentes, um sintoma da degradação das instituições jurídico-políticas da terceira república, é o símbolo da doença que corrói o país. Esta doença é uma crise muito mais grave do que aquela que abala o tecido financeiro e económico, mesmo se muitos acham que é um fait-divers. Não é.

31/01/09

Era o tempo em que falava de esquecimento

Edward Hopper - Stairway (1919)

Era o tempo em que falava de esquecimento.
Em cada palavra havia uma luz
a desenhar clareiras na floresta
ou um mar de fogo na palha
com que ateava secreto o tormento.

Não retomarei o canto que iluminou as cerejas,
nem direi a cor que cobre a verdade.
Caminho vendo corpos trespassados
e silencio o dia magoado no horizonte,
onde esqueci as palavras que desejas.

Desço as escadas e faço da porta fronteira.
Olho a linha de água despedaçada,
onde a fé se dilui entre enredos.
Cerro os olhos em busca da inocência,
mas não há cintilação que te queira.

Iva Bittova & Nederlands Blazers Ensemble *Divna slecinka*