25/01/09

O olhar omnipresente

(Imagem retirada de Blogmação)

Em relação a este paradoxo do olhar omnipresente, aconteceu há pouco tempo uma coisa curiosa com um amigo meu na Eslovénia: uma ocasião, voltou ao escritório à noite, porque precisava de terminar um trabalho; antes de acender a luz, viu, no escritório que ficava do outro lado do pátio, um par constituído por um administrador (casado) e a respectiva secretária a fazer amor apaixonadamente em cima da mesa. No meio da sua paixão, esqueceram-se que havia um edifício do outro lado do pátio, do qual podiam ser vistos com nitidez, dado que o escritório estava brilhantemente iluminado e as enormes janelas não tinham cortinas… O que o meu amigo fez foi telefonar para o escritório da frente e quando o administrador interrompeu por breves momentos a sua actividade sexual e foi atender o telefone, murmurou maldosamente para o aparelho: «Deus está a vê-los!» O pobre homem caiu para o lado e quase teve um ataque cardíaco… A intervenção desta voz traumática, que não pode ser directamente situada na realidade, talvez seja o mais próximo que podemos chegar da experiência do Sublime. [Slavoj Zizek, Lacrimae Rerum, pp. 169]

24/01/09

Vision of Hildegard von Bingen-voice Hana Blochová

Desagregação


No caso Freeport há uma coisa que já é certa: ou a política, ou a justiça ou a comunicação social está a andar ou andou por caminhos desagradáveis ou mal cheirosos, digamos assim. Seja qual for, as instituições democráticas sofreram um novo abalo. Torna-se cansativo viver em Portugal, onde ninguém acredita verdadeiramente em ninguém. Uma opinião pública incrédula e um país a viver permanentemente sobre o princípio de suspeita é o caminho certo para a desagregação das instituições.

Michael Powell & Emeric Pressburger - A Matter of Life and Death (1946)

Interrompi a viagem pela filmografia de Douglas Sirk, para uma intromissão na dos realizadores britânicos Michael Powell e Emeric Pressburger. A Matter of Life and Death é uma reflexão sobre como o amor é capaz de suturar os mundos mais distantes, sejam os que estão separados por um oceano, sejam aqueles cuja fronteira divide o reino dos vivos do reino dos mortos. A Matter of Life and Death é uma belíssima, comovente e, ao mesmo tempo, divertida obra de arte.

Nem eu também te condeno


1 Porém Jesus se foi ao monte das Oliveiras. 2 E pela manhã cedo tornou ao Templo, e todo o povo veio a ele: e assentando-se, ensinava-os. E trouxeram-lhe os Escribas e Fariseus uma mulher tomada em adultério: 4 E pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi tomada no mesmo feito, adulterando. 5 E na Lei nos mandou Moisés, que as tais apedrejadas sejam; Tu pois que dizes? 6 E isto diziam eles, atentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas inclinando-se Jesus, escrevia com o dedo em terra. 7 E como perseverassem perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de vosoutros sem pecado está, [seja] o primeiro que pedra contra ela atire. 8 E tornando-se a inclinar, escrevia em terra. 9 Porém ouvindo eles [isto,] e redarguidos da consciência, saíram-se um a um, começando dos mais velhos até os últimos; e ficou só Jesus, e a mulher que no meio estava. 10 E endireitando-se Jesus, e não vendo a ninguém mais que a mulher, disse-lhe: Mulher, aonde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? 11 E disse ela: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. [Jo 8, 1-11]

Lembrei-me desta passagem de João, por causa de um texto de Henrique Raposo no Expresso de hoje:

Em “Desonrada” (Livros do Brasil), a paquistanesa Mukhtar Mai conta a sua história sinistra. Aldeia, começou a circular o seguinte boato: o irmão mais novo de Mai terá namoriscado, sem permissão, uma rapariga do clã superior. Em resposta, o tribunal da aldeia decretou que, para compensar o crime do irmão, Mai deveria ser violada pelos homens do clã superior. E assim foi.

Convém ter em atenção que esta misoginia bárbara não atinge apenas os cantos mais obscuros do Islão. Junto do chamado ‘Islão moderado’ também encontramos casos semelhantes. Em “Despedaçada” (Campo das Letras), a franco-marroquina Touria Tiouli descreve como foi presa por ter sido violada no Dubai. É isso mesmo cara leitora: Tiouli foi violada por três gandulos, e as autoridades, em vez de perseguirem os violadores, acusaram Tiouli de “relações sexuais fora do casamento” um crime gravíssimo no moderníssimo Dubai. A vida das mulheres muçulmanas é, de facto, um “monte de sarilhos”.
[Henrique Raposo, Expresso, 24/01/2009 ]

Como se sabe, em certas zonas dominadas pelo Islão, o castigo, ainda hoje, para o adultério é a lapidação (o que mostra a filiação do islamismo na tradição judaica). Do ponto de vista da consciência dos direitos individuais, isso representa um atraso relativamente ao Cristianismo de cerca de dois mil anos. Nestas histórias edificantes, há duas coisas que me deixam perplexo. Em primeiro lugar, a obsessão das religiões, ou de certas religiões, com o sexo. Mesmo o catolicismo actual não deixa de viver obcecado com a sexualidade e as práticas sexuais das pessoas. Em segundo lugar, o olímpico desprezo de Cristo pelo assunto. Cristo pergunta à mulher: ninguém te condenou? E perante a resposta negativa, responde-lhe: Nem eu também te condeno; vai-te e não peques mais. Como se dissesse, não me aborreçam mais com histórias de sexo. Eu tenho mais que fazer do que tratar de psicanálise.

Ruínas tecnológicas


O turvo destino da Qimonda e da Delphi mostra a essência da política do actual governo: o caminho para a falência. O problema começa quando se toma os desejos pela realidade e se se deixa envolver pela retórica da propaganda, como se fosse possível que esta criasse um admirável mundo novo. O que se está a descobrir, todavia, não é sequer os escombros do velho mundo anquilosado da indústria portuguesa, mas as ruínas do universo fantasmagórico e virtual do plano tecnológico. O país faz lembrar aqueles que se aventuram, mar dentro, sem saber nadar: esbracejam e gritam quando perdem o pé.

23/01/09

Janis Joplin - Mercedes Benz

Num remake deste blogue, volta o Mercedes-Benz, da Joplin. Ok! Todos sabemos que os Mercedes já não são Benz, e que, hoje em dia, quando alguém calça umas belas luvas pretende mais do que um Mercedes. Os tempos mudam. Estas histórias de luvas, porém, têm a ver com a magna questão da derrelicção, do abandono do Filho pelo Pai. A cançoneta da Joplin bem explica: «Oh Lord, wont you buy me a mercedes benz ?» Mas o Senhor não compra, o Senhor não quer saber dos desejos daquele seu filho e abandona-o. É então que ele pergunta: mas que fazer, se «my friends all drive porsches»? Será que «I must make amends»? Será que terei de «Work(ed) hard all my lifetime»? Sem «help from my friends»? Ó não, os amigos são para as ocasiões e de ocasião. Adandonado pelo Pai, um pobre filho, se for curioso e empenhado, sempre encontrará os amigos que o enluvarão. «So oh lord, wont you buy me a mercedes benz ?» Se Deus não nos tivesse abandonado, se aquecesse não o coração, mas as nossas mãos, para que seriam precisas tantas luvarias? Thats it!

Douglas Sirk - All I desire (1953)

Contínua a minha viagem pelo universo melodramático de Douglas Sirk, um realizador excepcional, como é excepcional aqui Barbara Stanwick

Cheiros e imagens


E se uma imagem de probidade e honestidade pessoais ainda viesse a ter peso eleitoral? É que anda por aí aquele mau cheiro que empestava o reino da Dinamarca.

Fazer voz grossa

Sócrates, o grande timoneiro que Deus, em desespero de causa, nos deu, disse que não gostou de ver deputados do PS a votar a moção de suspensão da avaliação de professores, uma iniciativa do CDS-PP. Eu percebo perfeitamente o seu desgosto. Com que direito há deputados que, em vez de fazerem o que o feitor lhes manda, são homens independentes, homens que agem em conformidade com as suas convicções e a sua consciência? Isso é inaceitável, e o mordomo deve pôr, de imediato, o pessoal menor na ordem. Quem lhes disse que o parlamento é o lugar do pensamento livre e autónomo?

Por mais que o tempo passe, o paternalismo do dr. Salazar não abandona os nossos candidatos a regentes. Falta-lhes, claro, o talento do homem de Santa Comba. Queira-se ou não, fazer um curso na Universidade de Coimbra não é a mesma coisa do que tirá-lo na Independente. Mas isso são pormenores, o importante é engrossar a voz. Já agora, não era Salazar que desprezava o parlamentarismo?

Índices


Em 1973, no final do marcelismo, Portugal era o 24.º país no Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU. Em 2006, Portugal caiu do 29.º para o 33.º lugar (ver aqui e aqui). O que vale esta informação? Poderá sustentar que a ditadura, enquanto regime político, é melhor que a democracia? Não me parece. Mas talvez diga alguma coisa sobre nós, sobre a qualidade da nossa democracia e da classe política que deixamos que nos represente. Mas, fundamentalmente, diz muito sobre as ilusões que se espalharam desde 1974. Desde a via original para o socialismo até à ilusão de que a entrada na União Eurpeia nos dispensava de trabalhar e de pensar. No meio de toda esta mediocridade, está a ilusão da educação, tal como o poder político a concebeu nos últimos 34 anos. Nas escolas portuguesas molda-se, todos os dias, o carácter dos alunos que, tornando-se cidadãos, hão-de conduzir o país lá para o 50.º ou 60.º lugar. Bom seria haver também um Índice da Produção Política de Ilusões. Qual seria o nosso lugar no ranking?

Jornal Torrejano, 23 de Janeiro de 2009


A opinião começa com Carlos Henriques que escreve Taça da Liga - pouco interesse. Depois, João Carlos Lopes escreve Bombeiros, José Ricardo Costa, Um mundo livre de crianças, Miguel Sentieiro, Entrada nos "Entas", e Santana-Maia Leonardo, Em defesa do Robin dos Bosques.

Nada mais havendo a tratar, encerra-se aqui a sessão semanal sobre o Jornal Torrejano. Bom fim-de-semana.

Juventudes



A juventude é um estádio da vida interessante. O seu interesse resulta da combinação entre a efervescência hormonal, a ignorância descabelada e, por vezes, a estupidez mais acintosa. Imagine uma aula onde o professor está a ensinar Platão ou Descartes, a explorar os textos desses autores, a expor as suas teorias e respectivos argumentos. É certo e sabido que terá de ouvir a um adolescente ou pós-adolescente um comentário onde ele comunica ao mundo que não concorda com nada daquilo. Comunicações destas deixam-me logo de sobrolho franzido e a perguntar ao aluno se alguém lhe tinha pedido a concordância (hoje em dia, retraio-me perante a força das teorias pedagógicas que transformaram a ignorância, a estupidez e a falta de vergonha e de humildade em virtudes muito apreciadas na escola). Mas tudo isto vem a propósito daquilo que o dr. Mário Soares disse, e bem, sobre o chamado casamento homossexual. Ora, como todos sabemos, o dr. Mário Soares, gostemos ou não dele, está para a política nacional como o Platão ou o Descartes estão para a história da filosofia.

Tendo em consideração aquilo que a escola portuguesa vem destilando, não é de admirar que o chefe da Juventude Socialista, certamente uma irrelevância que amanhã terá imenso relevo, se apressasse a dizer que o dr. Mário Soares estava enganado. E esclareceu o povo sobre a vexata quaestio da relação entre a esquerda e o dito casamento entre pessoas do mesmo sexo. Parece que o problema não é apenas da esquerda radical, mas de toda a esquerda. O génio em formação teve mesmo a humildade das pessoas profundas, ao partilhar connosco este notável pensamento: «há uma diferença muito grande em ser radical ou estar à frente». Afinal o problema é mesmo uma questão de posição. Uns estão à frente, outros atrás. Compreende-se. Quando o assunto mete questões de sexo, o atrás e o à frente sempre têm a sua importância. No fundo, é um problema de orientação no espaço e, tanto quanto se sabe, o dr. Mário Soares é formado em Direito e Histórico-Filosóficas e não em Geografia. Se ele fosse geógrafo talvez se desenganasse.

22/01/09

David Lynch - The Straight Story

Douglas Sirk - Magnificent Obsession -Jane Wyman & Rock Hudson (1954)

Uma questão de legitimidade

Enquanto Barack Obama assinava o decreto que põem fim à prisão de Guantánamo, a Al Qaeda apelava a ataques contra Inglaterra e, claro está, os EUA. Apesar de se estar já habituado à retórica terrorista, é reconfortante sentir que do lado ocidental os direitos humanos não foram esquecidos. A luta contra o terror torna-se assim mais legítima. E esta legitimidade dada pelo respeito a valores essenciais não é, no combate político contemporâneo, coisa sem importância. Começa bem Obama.

O dia de hoje

Abel Manta - Apolo e as Musas (1934)

O dia de hoje era, na Grécia clássica, o dia de Apolo, deus solar, protector das artes e da poesia. Prova maior do fim dos tempos clássicos é o estado do tempo. Não o sorriso de Apolo, mas a fria chuva. O 22 de Janeiro parece ser propício para o nascimento de filósofos, o que permite adiantar que a ligação entre Apolo e a filosofia, iniciada com Sócrates, se tem mantido. Assim, em 1561, nasceu Fancis Bacon, em 1592, Pierre Gassendi, em 1729, Gotthold Lessing e, em 1891, Antonio Gramsci. Se consultar aqui, descobrirá uma lista de nascimentos importantes no dia de hoje. Mas a dimensão apolínea contínua bem para além da filosofia. Por exemplo, nasceram vários cientistas importantes. Para além do próprio Gassendi, viram a luz, no dia de Apolo, os físicos André Marie Ampère (1775), Lev Davidovich Landau (1908) e Allan J. Heeger (1936), os escritores Lord Byron (1788), August Strindberg (1849) e Robert E. Howard (1906). Isto para não repetir o Gotthold Lessing, ou para não referir esse cineasta maior que se chama D. W. Griffith (1875). Mas, como muito bem sabia Nietzsche, há uma estranha ligação entre o deus Apolo e o deus Diónisos, o que explica o nascimento, também nesta data, de Ava Devine (1974), actriz pornográfica norte-americana. Cada época tem os deuses e os heróis que merece. Então, bom dia de Santo André.

21/01/09

O tempo da responsabilidade

Ontem, assisti com os meus alunos do 12.º ano à tomada de posse de Barack Obama. Todos eles tinham consciência do momento histórico que se estava a viver e como ele se integrava na temática que se está a trabalhar nas aulas, a tolerância. No discurso de Obama (o que eles protestaram pela tradução simultânea que apagou o inglês do Presidente...), há uma palavra essencial, que, espero, tenha sentido para todos nós: responsabilidade. A liberdade individual assenta na capacidade do sujeito em responder por si mesmo. Se estes meus alunos pertencem já a uma elite disposta a responder por si, a deixar as desculpas e os álibis de lado, a escola em Portugal ainda precisa de fazer um longo caminho até que este sentimento seja partilhado pela generalidade dos alunos. O problema, porém, é que esta atitude de responsabilidade, onde se funda a liberdade do indivíduo, é também pouco partilhada pelos adultos. No fundo, ainda se acredita que a nossa vida depende essencialmente de entidades mágicas, como o estado, os outros, a divina providência ou a caixa de previdência. Não tenhamos ilusões, os tempos que aí vêm serão propícios para muitas coisas, menos para soluções mágicas. O tempo da responsabilidade, foi isso que o príncipe americano veio ontem anunciar ao mundo.

20/01/09

Atahualpa Yupanqui - Duerme negrito

Emblemas e questões críticas


Sexta-feira, vota-se uma proposta do CDS-PP para suspender o actual modelo de avaliação de professores. Segunda a Lusa, a direcção da bancada parlamentar do PS está a mobilizar em grande força os deputados, deixando pairar no ar uma qualquer ameaça metafísica, talvez a demissão da inefável direcção dessa bancada. Mas o melhor vem do ministro Santos Silva. Diz que esta questão «é "uma reforma emblemática" e uma "questão crítica" para o cumprimento do programa do Governo». Melhor fora que estivesse calado.

Se esta reforma é o emblema da política do governo, então bem pode limpar as mãos à parede. Uma reforma que gerou a oposição de mais de 90% dos seus executantes, uma reforma que começou na produção de um monstro burocrático e que acaba numa coisa tão simples como esta: um professor pode ser considerado bom, independentemente da sua prática pedagógica e científica. Uma reforma que valoriza coisas tão voláteis como "a participação dos professores na escola" (como se ensinar não fosse a única e efectiva forma de um professor participar na vida da escola), ou a "relação com a comunidade" (o que é isto?), é o espelho fiel do delírio e da incompetência institucionalizada.

E um programa de governo que depende criticamente deste monte de incongruências, não é um programa de governo, mas o alinhamento de umas quantas frases para serem repetidas à saciedade por papagaios imbecis. Como pôde o sociólogo Santos Silva, pessoa que eu, em tempos, julguei merecer alguma consideração intelectual, acabar a defender coisas como estas?

Progresso moral da humanidade?


A investidura de Barack Obama como 44.º Presidente dos Estados Unidos será mais um sintoma do progresso moral da humanidade? Kant dizia que não havia provas desse progresso moral, mas havia sintomas indiciadores. Por exemplo, as regras de civilidade ou a Revolução Francesa, apesar do espectáculo deplorável. A investidura de um negro como Presidente duma república, ainda por cima a maior potência mundial, que, ainda há poucos decénios permitia o racismo, bem pode figurar entre esses sintomas indiciadores do progresso moral da humanidade. Um pouco de fé na razão, mesmo para um céptico das coisas humanas, bem pode servir de consolo ao frio que se faz sentir nestes tempos.

19/01/09

Um mau sinal

Hoje houve uma nova greve de professores. Dei uma volta, há instantes, por uma boa dúzia de blogues de referência, na área da intervenção política ou social. A greve e a contestação dos professores estava completamente ausente. À direita, à esquerda e ao centro. Nem gente compreensiva e simpática para com a contestação dos docentes, nem gente a espumar de raiva contra os grevistas. Nada. Só em dois encontrei referência à entrevista de Alice Vieira ao Público (ver mais abaixo). Isto favorece quem? À partida parece favorecer o Ministério da Educação. Mas a questão é mais funda. Parece estar a instalar-se, na esfera pública, um desinteresse absoluto pela questão educativa. Os professores não ganham nada com isso. Os seus alunos ainda menos. Um mau sinal.

Biber - Sonata 6 from Mystery Sonatas

Entrevista a Alice Vieira

Não faria mal que todos meditassem na entrevista dada pela escritora Alice Vieira ao Público. Quando digo todos, quero dizer mesmo todos: pais, governantes, professores, cidadãos em geral. Como ela diz, aconteceu qualquer coisa terrível na educação nos últimos 30 anos: "tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho". Foi o triunfo do eduquês e da psicologia light para parolos. Das palavras da escritora apenas relativizaria aquelas que subentendem uma boa intenção ministerial. Quanto ao que diz dos professores, sendo professor e estando hoje em greve, subscrevê-lo-ia. As pessoas precisam de compreender que o que correu mal não foi apenas nos ensinos básico e secundário. O ensino superior está também profundamente doente.

18/01/09

Harrison Birtwistle : Tragœdia

Graças à Ivone (Ponteiros Parados), tive acesso à trilogia de Ésquilo, Oresteia. Para lá da excelência teatral encarnada na Oresteia Company, dirigida por Peter Hall, descobri a música de Harrison Birtwistle, um compositor contemporâneo que não conhecia. Mais um motivo de gratidão para com a Ivone Mendes.

O problema das luvas


Se for verdade isto, o que poderemos concluir do caso Freeport? Não me ocorre nada a não ser que há gente em Portugal que tem trabalho que precisa de proteger as mãos para as não estragar, ou que tem má circulação nessas mesmas mãos e, por isso, necessita de as aquecer. Também nos diz, tendo em conta as avultadas quantias em jogo, que as luvas são um peça de indumentária cujo preço anda pela hora da morte.

17/01/09

A derrota de Platão



Acabou-se! Eis a vantagem da democracia: a limitação de mandatos. Foram oito anos de difícil aprendizagem para o mundo, foram oito anos de equívocos, foram oito anos de oportunidades perdidas, foram oito anos em que o Ocidente se tornou mais fraco. Bush, porventura, nunca perceberá que é um derrotado, apesar das vitórias eleitorais. Há, nesta passagem de Bush pelo poder, outros derrotados: os intelectuais. Rir-se-á o leitor. Como é possível ver na presidência deste Bush uma derrota dos intelectuais? Logo deste que parece não ter uma ideia na cabeça. O problema está aí. Por não as ter, teve necessidade de se rodear de uma elite de intelectuais neo-conservadores. Estes trouxeram todo o esquematismo do pensamento para o domínio da acção política. Os resultados estão à vista. A presidência de Bush é mais uma prova contra o meu filósofo preferido, Platão. Sempre que os intelectuais tentam trazer o mundo das ideias à terra (ó como Marx também sonhou com isso...), o desastre é certo. Não há bandeira ou comoção que nos salve.

Votar nos socialistas?



Consta que o futuro programa do PS inclui um referendo sobre a regionalização. Eis mais um bom motivo para não votar nos socialistas. Como tenho dito, em abstracto, a regionalização até é uma ideia interessante. Mas no contexto actual é mais do que um erro colossal, é um atentado contra a unidade nacional. Quais são os traços essenciais desse contexto: 1. a retórica pós-moderna do fim do Estado-Nação e o esforço de inúmeros actores, falemos assim, para provarem que vivemos numa época pós-nacional; 2. a avidez dos comissários partidários de província, a necessidade de partilharem um pedaço significativo do bolo e de terem uma migalhas substanciais para distribuírem pelos vassalos; 3. o recente episódio do estatuto da região autónomo dos Açores; 4. os anseios, que começam a desenhar-se, de tornar Portugal num estado federado. Estas realidades bastam para pensar não duas vezes, mas vinte vezes antes de se votar na regionalização. A retórica denunciadora do centralismo lisboeta apenas encobre o desejo de pôr as garras em parte substancial do orçamento, para criar pequenos feudos onde suseranos de província ditem a pequena ordem que lhe aquece a alma e exalta os ânimos.

16/01/09

Giovanni Palestrina - Missa Papae Marcelli - Gloria

Eça de Queiroz - Editorial do Distrito de Évora


Enquanto pela triste força dos factos, pela influência da tradição, peia obediência inerte dos espíritos, pelo adormecimento das consciências, pelo amedrontamento das almas, pelas predominâncias estéreis, pela força dos interesses pequenos, pelo afrouxamento dos sentimentos livres, pelo abaixamento moral, pela fraqueza, pela indolência, por tudo isto, os interesses deste território forem desprezados, os desenvolvimentos impedidos, as livres consciências esmagadas, a acção abafada, as administrações descuradas, todos os elementos fecundos sufocados, um jornal, que procure representar o direito, a justiça, a razão, o princípio, a consciência moral, não será por certo inútil.

Jornal Torrejano, 16 de Janeiro de 2009


Na opinião comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Carlos Henriques escreve Benfica volta à liderança [eis o exemplo de que não há só notícias más], Carlos Nuno, Não há Portugal, Francisco Almeida, Para lá do mar, Inês Vidal, Mariana, José Ricardo Costa, A Normalidade Radical e Miguel Sentieiro, A Liliana resolve.

Aqui fica a notícia de mais uma edição do Jornal Torrejano. Bom fim-de-semana.

15/01/09

Tarde em Itapuã - Vinicius de Moraes + Toquinho

Da razão e da adrenalina

Claro que não há problema nenhum em uma mulher não muçulmana, para não falar já das muçulmanas, em casar com um muçulmano. Por exemplo, o marido se se cansar da feliz escolhida basta dizer três vezes «eu te repudio» (isto é um verdadeiro descanso). Já a mulher, se quiser ver-se livre do marido, tem de invocar uma razão. Daqui se conclui o seguinte: 1. No Islão os homens estão dispensados de usar a razão, mas as mulheres precisam de uma razão adicional; 2. O cardeal Policarpo bem sabia o que estava a dizer, ao aconselhar as jovens enamoradas pelos D. Juans maometanos a usar a razão (pensar duas vezes). É uma questão de treino. Mas se a razão da jovem, ou a falta dela, a inclinar para a consumação do acto, então pode jogar na lotaria (ou na roleta russa como no filme O Caçador, de M. Cimino) e fazer uma viagem à terra natal do eleito. Segundo um xeque não identificado, contactado pelo Público, «se a mulher viajar para o país do marido "o que pode acontecer depende das famílias", explica o xeque. "Se forem mais conservadoras, ela poderá ter que seguir um estilo de vida mais tradicional".» Portanto, eu antevejo já o gozo adicional da feliz rapariga tentando antecipar se a família do cônjuge é conservadora ou não. Não há nada como a adrenalina.

Slavoj Zizek: A filosofia moderna e a foda


Na medida em que aceitarmos esta noção de relação sexual como a referência absoluta, somos tentados a rescrever toda a história da filosofia moderna nos seguintes termos:
- Descartes: «Fodo, logo existo», isto é, só na actividade sexual intensa sinto a plenitude do meu ser (a resposta «descentradora» de Lacan a isto teria sido: «Fodo onde não existo, e não existo onde fodo», ou seja, não sou eu quem fode, mas «isso fode» em mim);
- Espinosa: Dentro do Absoluto enquanto Foda (coitus sive natura), devemos distinguir, no mesmo sentido da distinção entre natura naturans e natura naturata, entre a penetração activa e o objecto fodido (há aqueles que fodem e os que são fodidos);
- Hume introduz aqui a dúvida empirista: como sabemos se a foda, enquanto relação, existe? Só existem objectos cujos movimentos parecem coordenados.
- Resposta kantiana a esta crise: «as condições da possibilidade de foder são ao mesmo tempo as condições da possibilidade dos objectos [da] foda»;
- Fichte radicaliza esta revolução kantiana: foder é uma actividade incondicional que se postula a si própria e que se divide em fodedor e objecto fodido, ou seja, é o próprio foder que pressupõe o seu objecto, o fodido;
- Hegel: «é crucial conceber o Foder não só como substância (o impulso substancial que nos subjuga), mas também como sujeito (como actividade reflexiva inserida no contexto do significado espiritual)»;
- Marx: devemos regressar ao foder real e rejeitar a filosofice masturbatória idealista, ou seja, nos termos literais em que o expressou na Ideologia Alemã, a vida real está para a filosofia, assim como o sexo real está para a masturbação;
- Nietzsche: a Vontade é, na sua expressão mais radical, a Vontade de Foder, que culmina no Eterno Retorno do «quero mais», de uma foda que prossegue indefinidamente
- Heidegger do mesmo modo que a essência da tecnologia não é nada «tecnológica», a essência de foder não tem nada a ver com a foda enquanto simples actividade ôntica; ou melhor, «a essência do foder é o foder da própria Essência», isto é, não somos apenas nós, humanos, que fodemos a nossa compreensão da Essência», é a Essência que já está em si mesma fodida (inconsistente, retraída, errante);
- e, finalmente, a intuição de como a própria Essência está fodida, leva-nos à expressão de Lacan «a relação sexual não existe».
[Slavoj Zizek, Lacrimae Rerum, pgs 150-152, nt 108]
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Não menos interessante do que a leitura da história da filosofia moderna ancorada na foda, é o facto de esta nota, a 108 do capítulo sobre o realizador polaco Krzysztof Kieslowski, não ter, no corpo do texto (as notas estão todas agrupadas no fim do capítulo) uma chamada. De facto, entre a nota 107 e a 109, na tradução portuguesa, não existe qualquer nota. Ocorrem, porém, duas notas 109, que remetem, dessa forma, para uma reflexão sobre o Tristão e Isolda, de Wagner. Eis um belo acto de censura do inconsciente do paginador, ou será do processador de texto? O que introduz um mistério quase teológico: terão os processadores de texto também um inconsciente?

A matéria e a forma


Vai por aí um grande banzé com as declarações do cardeal Policarpo sobre os casamentos entre mulheres cristãs e homens muçulmanos. O cardeal de Lisboa teve a infeliz ideia de sugerir às jovens o uso da razão. Pensem duas vezes, terá dito. Num mundo em que pensar uma vez é já um exercício execrável, talvez o cardeal Policarpo se tenha excedido. Como podem as jovens portuguesas pensar duas vezes? Talvez seja uma manifesta impossibilidade. Mas pior que o irrealismo cardinalício sobre as capacidades das jovens (e já agora dos jovens) portugueses para pensar, é o coro de virgens que se faz ouvir a propósito destas declarações. Parece que é uma pouca vergonha aquilo que D. José Policarpo fez, sintoma de um comportamento impróprio do século XXI, um atentado contra o espírito ecuménico e o diálogo inter-religioso, um desconhecimento dos imperativos multiculturais, talvez mesmo um exemplo de racismo e xenofobia. Pobre cardeal. É evidente que aquilo que ele disse não interessa para nada. E se uma jovem portuguesa se meter num monte de sarilhos é um problema de somenos. Também, para toda esta gente que adora a forma correcta, a situação da mulher em muitas sociedades islâmicas é irrelevante, bem como a cultura, que em muitas dessas sociedades é permitida, e que faz da mulher um ser abaixo e submetido ao marido, é matéria que não interessa discutir. Para mim, neste mar de indignação contra as palavras do cardeal-patriarca ecoa uma nostalgia. A nostalgia dos tempos em que os homens cristãos podiam fazer às suas mulheres cristãs aquilo que os muçulmanos ainda vão podendo fazer. A igualdade da mulher deixa muitos homens, de aspecto viril, com a barriga das pernas a tremer.

12/01/09

A professora primária

Por causa deste escrito do Zé Ricardo, lembrei-me de uma história antiga. Um amigo meu e colega de universidade, logo nos primeiros tempos da nossa amizade, confidenciou-me que o professor que tinha tido mais importância na sua vida era a professora primária, julgo que na altura terá dito que era uma professora, e que ainda tinha prazer de a ver. E justificava a sua preferência dizendo que tinha sido ela que o tinha ensinado a ler e a escrever, e que isso era o mais importante. Resta acrescentar que esse meu amigo não é bem português. Cinquenta por cento dele é de origem finlandesa. A diferença entre esta história e aquela contada pelo explica muito bem porque os resultados do nosso ensino são o que são e os dos finlandeses se inscrevem entre os melhores do mundo. Começa tudo pelo respeito e pelo reconhecimento de quem nos ensina a ler e a escrever. Por vezes, chego a pensar que muitos alunos jamais perdoarão o crime de ter havido um professor, ou uma professora, que tentou ensiná-los a ler e a escrever.

Kronos Quartet plays Pelle Gudmundsen-Holmgreen


A escrita de Deus

Tal como criou seu trono, Deus criou uma mesa para escrever tão vasta que um homem poderia caminhar nela mil anos. E era a mesa feita de pérolas branquíssimas e as suas extremidades de rubis e o seu centro de esmeralda. Tudo o que nela escrevia era da mais pura claridade. Deus olhava para a mesa centos de vezes por dia e, cada vez que a olhava, construía e destruía, criava e matava… Tal como criou a mesa, Deus criou uma pena de luz para escrever, tão larga e longa que um homem a poderia percorrer, em largura ou comprimento, quinhentos anos. E, esta criada, Deus ordenou-lhe que escrevesse. Disse a pena «Que escrevo?» A ela respondeu, «Escreverás a minha sabedoria e todas as minhas criaturas, desde o princípio do mundo até ao seu fim». O Livro da Escada de Maomé, cap. XX

11/01/09

Pierre Boulez : Rituel in Memoriam Bruno Maderna



Celebrar o futuro


Numa daquelas campanhas inúteis a que os partidos políticos dão extrema importância, o PS lançou, por altura das festas de Natal e Ano Novo, vários cartazes. Num deles inscreveu o slogan É TEMPO DE CELEBRAR O FUTURO. Todos sabemos o que valem estes cartazes. No entanto, a sua leitura revela mais do que os dirigentes partidários gostariam.

Celebrar o futuro, à primeira vista, apenas parece alinhar o partido do governo pela dinâmica da modernidade. Esta, ao contrário das sociedades tradicionais escoradas no passado, vive voltada para o futuro, o lugar onde o bem se consumará.

Mas a questão é um pouco mais complexa. O futuro como promessa radiosa fazia sentido no século XIX, talvez ainda no século XX, para as organizações sociais e políticas que faziam da revolução social o seu programa. Elas eram, de certa forma, puras e virginais relativamente ao exercício do poder, e, por isso, podiam prometer um mundo novo e pleno e mostrar o futuro como o lugar do cumprimento dessa promessa.

Mas o que significará a palavra É TEMPO DE CELEBRAR O FUTURO, na "boca" de um partido no governo? Os antigos sabiam bem que o que se pode celebrar são os grandes feitos. Um feito para o ser tem, obrigatoriamente, de estar consumado, de ser passado. A única coisa que no presente se pode celebrar é essa grandeza realizada. Quando um partido no governo nos diz, à beira das eleições, que o tempo é de celebrar o futuro, isto é, aquilo que não aconteceu, está a confessar a sua inépcia política. Da sua acção passada, nada há para celebrar. Não há feito que mereça memória e comemoração. Resta a expectativa que o buraco vazio do futuro possa trazer qualquer coisa que mereça ser lembrado. Convocar à celebração do futuro é não só celebrar o nada, mas também a confissão de que, no passado que vai ser julgado pelos eleitores, nada foi feito que mereça celebração.

Dito de outra maneira, o cartaz socialista é o que se chama um verdadeiro acto falhado, pelo qual se confessa aquilo que se queria esconder.

10/01/09

Tom Waits Waltzing Matilda live 1977

G. K. Chesterton - A mais negra e ousada das conspirações


[Uma história policial] mantém de certo modo presente o facto de a própria civilização ser o mais sensacional dos desvios e a mais romântica das rebeliões. Num romance policial, quando o detective, de uma forma um tanto estupidamente temerária, se vê sozinho perante facas e punhos no covil dos bandidos, isso serve certamente para nos fazer lembrar que é o agente da justiça social que constitui a figura original e poética, enquanto os ladrões e assaltantes são apenas velhos e plácidos conservadores cósmicos, felizes na respeitabilidade imemorial de macacos e lobos. [O romance policial] baseia-se no facto de a moral ser a mais negra e ousada das conspirações (G. K. Chesterton, A Defense of Detective Stories).

Uma palavra de Lachelier



No início do "Avant-Propos" da sua obra Héritage des Mots, Héritage d'Idées, Léon Brunschvicg escreve: "Conta-se que o grande filósofo, Jules Lachelier, nomeado para o Liceu de Toulouse, começou as suas aulas perguntando: o que é a Filosofia?, e acrescentou imediatamente: não sei. O que provou o divertimento de toda a cidade de Toulouse; o professor de Filosofia que lhe tinham enviado de Paris não sabia o que era a Filosofia." Brunschvicg não data o episódio, mas ele terá ocorrido, certamente, entre 1857 e 1864, datas que marcam a época em que Lachelier ensina em diversos liceus franceses. Portanto, em pleno século XIX.

O que é interessante nesta história não é tanto o aspecto filosófico dela. A Filosofia é essa estranha sabedoria feita do reconhecimento do não saber e, em primeiro lugar, do não saber o que é a própria Filosofia. Aqui não haverá qualquer novidade para quem esteja minimamente ligado ao mundo da Filosofia. Interessante é o aspecto social. Em pleno século XIX, as palavras de um professor de Liceu, ditas perante adolescentes, eram objecto de comentário pelos "círculos que interessavam", numa grande cidade francesa.

Todos se congratularão, hoje em dia, com a democratização (se é que ele existe de facto) do ensino liceal. Essa democratização, porém, trouxe como consequência que nenhuma palavra de um professor liceal será memorável. Todas as palavras que os professores liceais (do secundário, na nossa estúpida e inútil designação) proferem em todas os liceus (escolas secundárias, na abjecta designação que o poder político democrático escolheu para os liceus) deste país serão apenas banalidades que se perdem mal termine a aula. Lachelier fez rir os círculos bem-pensantes de Toulouse, mas fez ao mesmo tempo pensar os seus alunos. Eles sentiram-se chocados e reportaram aos seus pais esse mesmo choque. Que palavra poderei proferir numa aula de filosofia que choque os meus alunos? Isto é, que os faça pensar? E Lachelier não disse mais do que dizem muitos dos professores de filosofia que há por esse país fora.

Talvez, sob a capa deste história anedótica, se esconda uma verdade sobre a democratização do ensino. Na verdade, não houve qualquer tipo de democratização. O ensino liceal (não esqueçamos que cá se designa pelo humilhante nome de ensino secundário) a que se tem direito é apenas uma ténue sombra daquele que as elites tinham no século XIX e em parte do século XX. A democratização do ensino liceal talvez não tenha passado de uma gigantesca manobra de falsificação da realidade. Sendo assim, é muito provável que o nome de ensino secundário seja de facto o mais exacto, devido à mixórdia que o poder político serve nessas escolas a que, em Portugal e sem pudor, se deu o nome de escolas secundárias. Sim, um ensino de segunda ordem.

Desilusão meteorológica


Tornei-me um adepto incondicional do serviço meteorológico do Sapo. É um sintoma de envelhecimento. Os velhos do tempo em que eu era novo estavam sempre muito preocupados com o estado do tempo. Agora que me tornei num velho de um tempo em que são outros os novos comecei a interessar-me pelas alterações da meteorologia. Não sintonizo a Emissora Nacional, não. A Emissora Nacional mudou de nome e eu sou um velho dos novos tempos. Consulto o estado do tempo para o meu concelho, Torres Novas, aqui, no Sapo. A coisa por norma bate certo e a actualização é contínua.

Mas a meteorologia é uma ciência parente da economia e, como tal, vive de previsões. Quando me fui deitar, a previsão indicava que hoje o dia estaria ensolarado, com algumas nuvens e haveria queda de neve. Esperança. Acordei pelas 7 da manhã e fui ver o dia a despontar. Não nevava, mas a consulta ao Tempo do Sapo, continuou a animar-me. A previsão mantinha-se. Fui dormir mais duas horas. Quando acordei, a previsão tinha-me atraiçoado. Não haverá neve. Revisão em baixa, para falar à maneira dos economistas. Já não se pode confiar em nada.

09/01/09

A cegueira do poder


Como é do conhecimento público do burgo fui, não desde a primeira hora, um apoiante de António Rodrigues. Continuo a sê-lo, penso mesmo que é um dos mais importantes presidentes da história do município torrejano. Há uma Torres Novas antes de António Rodrigues e há outra depois, sendo esta bastante melhor.

Este intróito é uma espécie de justificação para, por uma vez, falar de um assunto estritamente local. António Rodrigues reconheceu que a construção do bairro social na via panorâmica das Tufeiras foi um erro. Eu diria um erro histórico, talvez o que de pior se fez nos seus mandatos. António Rodrigues diz que essa era a política da altura. Pode ser verdade. Mas também é verdade que houve pessoas que anteciparam aquilo que se iria passar. Lembro-me de falar desse desastre previsível quando se começou a esboçar o projecto. Não sei se cheguei a escrever um artigo no Jornal Torrejano, mas recordo-me de o ter dito informalmente a António Rodrigues e a outros vereadores, nomeadamente a Pedro Ferreira. Outras pessoas o fizeram. Penso que o João Carlos Lopes também o fez, e o José Ricardo Costa escreveu na altura qualquer coisa sobre o assunto, mas não estou certo disso. Isto para além de um editorial do Jornal Torrejano. É evidente que estas opiniões negativas eram meras opiniões, mas os argumentos eram bons e realistas.

O que me interessa aqui, porém, é outra coisa: a cegueira do poder. Há qualquer coisa de misterioso que cega, quem detém o poder, para aquilo que é óbvio. Ninguém na vereação da câmara queria os resultados que o projecto teve, mas todos se precipitaram para eles cantando alegremente, cegos e surdos ao que se dizia. Porquê? O que leva o poder a cometer erros estúpidos? O que leva o poder a ser incapaz de pensar? Este caso é apenas um exemplo, bem pequeno, dessa incapacidade estrutural do poder, qualquer que seja, para escutar o que vem de fora. É como se a necessidade de acção elidisse a capacidade de pensar, e de pensar aquilo que contraria os desígnios de quem ocupa o poder. Há uma atracção fatal do poder pela irracionalidade. Este não é um dos mistérios menores do poder.

A António Rodrigues, neste caso e ao contrário de muitos outros actores políticos de outros casos, reconheça-se a capacidade de reconhecer o erro, em vez de o disfarçar. Talvez se tenha aprendido alguma coisa. Seria bom que se escutasse com atenção os argumentos que contrariam aquilo que o poder pensa ser o melhor. Só por uma questão de precaução.

Jornal Torrejano, 9 de Janeiro de 2009


Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na opinião escrita temos: F. C. Porto em primeiro, de Carlos Henriques; Bairro social, de Inês Vidal; A crise de que se fala, de Jorge Cordeiro Simões; Sopa dos pobres, de José Ricardo Costa; No reino dos invertebrados, de Santana-Maia Leonardo.

Para a semana haverá mais Jornal Torrejano. Bom fim-de-semana.

Só falta mesmo a neve


Têm sido uns dias esplendorosos. Um sol brilhante e um frio de cortar. Contrariamente ao que se pode pensar, a verdadeira luz é fria. A luz que aquece, acaba por derreter, mas a luminosidade fria ilumina e deixa ver. Não por acaso, que, há muito, o Verão, quando ele se ergue como a antecâmara do inferno, se me tornou insuportável. Mas esta luz solar, impotente para domar o frio vindo do pólo, é-me absolutamente indispensável. Mesmo que fique em casa rodeado pelo calor artificial, a imaginação devaneia sempre por longas caminhadas sob um sol frio e temperaturas de enregelar. Agora, porém, o que falta mesmo é a neve. Que ela venha sorrateira iluminar este frio.

Maderna: "Biogramma"

Para começar o dia, a música do compositor italo-germânico Bruno Maderna (1920-1973). Talvez não seja bem a música indicada para um programa tipo despertar, mas neste blogue não se pretende despertar seja quem for. Quem quiser dormir que durma, quem quiser ouvir que oiça...

08/01/09

Avaliações

O desespero do governo, na votação de hoje das propostas da oposição para a suspensão do actual processo de avaliação de professores, mostra uma coisa terrível sobre este mesmo governo: a única coisa que tem, ao fim de um mandato, para mostrar aos portugueses é a avaliação de professores, ainda por cima numa modalidade em que nem sequer o próprio governo acredita. O governo ganhou? Talvez, mas nunca houve uma vitória tão esclarecedora da sua inépcia estrutural. Se este governo tivesse algo para mostrar aos portugueses, poderia suspender a avaliação e encontrar um caminho razoável. Assim, necessita desesperadamente da humilhação dos professores. Que melhor avaliação da sua política se poderá querer?

Um blogue moribundo

Gustave Courbet - Hombre Moribumdo

Desde há uns meses a esta parte que este blogue se encontra num estado de saúde periclitante, ao que se tem aliado uma tentação suicidária. Não é que a época que se vive não seja digna de comentário. Pelo contrário, tem todas as características que parecem marcar as épocas historicamente exaltantes. Nem se poderá acusar a profissão do blogger ou as trapalhadas da avaliação criadas pela mente da socióloga Rodrigues. Um cansaço persistente tem invadido as entranhas deste blogue e tudo se tem tornado mais pesado. O mundo, apesar da efervescência que lhe é própria, parece ter-se tornado insípido, doentiamente insípido. Sempre se pode acusar o blogger de sofrer de um cepticismo agudo e de, assim, não se abrir às mensagens subliminares que anunciam já novas auroras. É possível. Mas o pior é o tédio que tudo provoca, sejam as dores, sejam as alegrias, sejam as conquistas da humanidade, sejam as derrotas da civilização, seja a arte, seja a filosofia. Por enquanto, evitar-se-á a eutanásia, mas julgo que será difícil retirar nos próximos tempos este blogue da sua condição espectral. Nisso, porém, ele está de acordo com os tempos, pois o nosso tempo é o tempo dos espectros.

Slavoj Zizek - Lacrimae Rerum


A experiência subjacente a O Homem Mais importante do Mundo [romance de Philip Dick] e The Truman Show [filme de Peter Weir] é que o paraíso californiano consumista de uma sociedade no último estádio do capitalismo é, na sua super-realidade, de certo modo irreal, sem substância e desprovido de inércia material. Assim, não é só Hollywood que encena uma ilusão de vida real desprovida do peso e da inércia da materialidade – na sociedade consumista da última fase do capitalismo, a própria «vida social real» adquire de algum modo as características de uma falsificação encenada, em que os nossos vizinhos se comportam na vida «real» como actores e figurantes… Mais uma vez, a verdade última do universo capitalista utilitário desespiritualizado é a desmaterialização da própria «vida real», a sua inversão num espectáculo espectral.

04/01/09

O Estado Federado

Os poderes regionais não são uma coisa inocente e o conflito sobre o estatuto dos Açores é, mais do que uma luta entre Presidente e Primeiro-Ministro, uma batalha numa guerra que visa destruir o Estado português, tal como o conhecemos. O Expresso de ontem trazia, na primeira página, o sentido da coisa: tornar Portugal num estado federal. Se não se puser cobro à acção destas gentes, só descansarão quando o país desaparecer. Ninguém tem levado a sério o jardinismo na Madeira e, agora, só Presidente parece incomodado com o cesarismo açoriano. Se se lhe adicionar mais meia dúzia de regiões continentais, temos o caldo político preparado para o fim de uma história de 900 anos. No entanto, há que lembrar que a História de Portugal sempre tem produzido os seus Pombais. Não se queixem, depois, do destino dos Távoras.

Ensino profissional

Comecemos pelo futuro. O Público diz-nos que o ensino profissional mais que triplicou nos últimos dez anos. A ministra da Educação proclama que o objectivo para 2010, de ter 50% de alunos do ensino secundário em cursos profissionalizantes, já foi atingido nos alunos do 10.º ano. Mas o futuro é-nos anunciado, discretamente, pelo senhor Luís Presa, presidente da Associação Nacional de Ensino Profissional: nos países do Norte da Europa, esse tipo de ensino é frequentado por cerca de 70% a 80% dos alunos. Mensagem subliminar: atenção, o ensino secundário "via de ensino" só se destina a uma pequena percentagem de alunos. Todos começamos a perceber então o que significa o plano tecnológico e o elevado investimento em educação: preparação de proletários. Eu nada tenho contra a realidade. Ela é o que é. Nós não precisamos de tantos licenciados, nem de tantos universitários. Mas chamemos os bois pelo nome, por uma questão de probidade. Não se falsifique a linguagem.

Olhemos para o passado. Quem foram os responsáveis pela disseminação de tanta ilusão? Quem escancarou as portas do ensino secundário e das universidades a iletrados e a gente que odiava estudar, mas que queria ser doutor ou engenheiro? Quem é o responsável por muitos alunos só ingressarem no ensino profissional depois de um ou vários anos de insucesso no ensino secundário "via de ensino"? Quem se recusa, ainda hoje, a fazer a selecção de alunos na entrada do ensino secundário "via de ensino", deixando a entrada no ensino secundário profissional ao acaso, aos anos de insucesso escolar ou à falta de ambição? Quem evita confrontar alunos e pais com a dura mensagem de que o ensino secundário "via ensino" é só para alunos que queiram estudar arduamente?

Só mais duas notas. Em primeiro lugar, uma das armas de arremesso contra os professores utilizada pela actual ministra da Educação foi o insucesso escolar no ensino secundário. Mas a senhora ministra, talvez por défice de informaçao sociológica, esquecia sempre a dura realidade de muito desse insucesso se dever à permissividade política na entrada no ensino secundário "via de ensino". Em segundo lugar, convém referir que não basta ter ensino profissional. É preciso que ele tenha qualidade e responda às necessidades do país, o que falta claramente demonstrar.

02/01/09

Vasco Pulido Valente - A divisão da Rússia


Como em Portugal, em Inglaterra ou França, também a televisão de Putin organizou um concurso para eleger os maiores russos da história. Embora não deva ser levado muito a sério, o resultado é curioso e dá uma ideia, embora vaga, do que sente e quer a população comum. A imprensa europeia só se preocupou com o terceiro lugar de Estaline e com a diferença mínima a que ficou separado de Alexandre Nevski e Piotr Stolipin, como se a popularidade de Estaline representasse só por si o nacionalismo agressivo, que o novo regime ostensivamente fomenta. Sucede que as coisas não são tão simples. Quem vir a lista dos 9 finalistas, que os nossos jornais não publicaram, fica com um retrato bastante mais contraditório e complexo de uma Rússia que, pouco a pouco, tenta reocupar o seu lugar no mundo. Alexandre Nevski, o primeiro classificado, não levanta qualquer dificuldade: é o emblema da resistência eslava aos cavaleiros teutónicos ou, de maneira geral, à Alemanha, ainda hoje naturalmente odiada. Já Stolipin, o número dois, quase santificado por Soljenitsin, passa pelo homem que podia ter evitado a revolução bolchevique, se o czar o não tivesse traído e, provavelmente, mandado matar. O voto nele implica uma absoluta rejeição do comunismo. Como, de resto, o voto em Pedro, o Grande (5.º), que tentou civilizar e abrir a Rússia ao Ocidente; em Alexandre II (8.º), um reformador pacífico; e obviamente em Nicolau II (10.º), o último czar. O caso de Catarina II (9.º), uma "iluminista" notória, oscila entre a "modernidade" e a conquista, mas provavelmente foi escolhida pela conquista.O que não admira, porque a expansão do Império é a essência do Estado russo e os "construtores" do Império heróis nacionais. Sem isso, não se perceberia a admiração por Estaline, que ganhou a guerra e submeteu a Moscovo a Europa Central e parte da Alemanha; ou por Lenine (6.º), que recebeu e reorganizou mais solidamente a herança do czarismo; ou por Suvorov (7.º), um general particularmente cruel, que se distinguiu na Polónia e na Turquia e acabou vencido na Suíça por Massena, um futuro acólito de Napoleão. O concurso mostra que a Rússia continua dividida entre o desejo de uma "normalidade" europeia e o Império, a que nunca renunciará ou pode algum dia renunciar. Infelizmente, e apesar das fantasias de há 15 anos, não existe maneira de transformar uma potência asiática num país democrático e ordeiro do Ocidente. [Público, 2 de Janeiro de 2009]
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A conclusão do texto de VPV, "Infelizmente, (...), não existe maneira de transformar uma potência asiática num país democrático e ordeiro do Ocidente", coloca então uma questão de fundo: como devem os países democráticos e ordeiros do Ocidente lidar com uma potência asiática? A resposta a este problema não é despicienda. Ainda por cima porque esses países não têm de lidar com uma potência asiática, mas com múltiplas potências asiáticas. O que se tem visto até aqui é aquilo a que Sartre chamava a má-fé, a decisão pela não decisão. Finge-se que o problema não existe, e se ele não existe não há que encará-lo, nem que lidar com ele.

01/01/09

O gás russo e o conceito de autarquia


A Rússia cortou o fornecimento de gás à Ucrânia (aqui). A justificação foi económica, a Ucrânia não estava a saldar as suas dívidas à Rússia, mas toda a gente percebe que a motivação é política. O que me espanta é a leviandade com que a Europa se está a colocar, ao nível energético, na mão dos russos. Se for politicamente vantajoso, os russos cortarão o fornecimento de gás à Europa, por mais que esta honre os seus compromissos económicos. No jogo político internacional, a economia é apenas uma arma de arremesso na luta pela hegemonia e dominação mundiais, ao contrário do que, de forma tão ligeira, os governos ocidentais gostam de admitir. No mundo globalizado e interdependente em que parece que vivemos, talvez o conceito político essencial a meditar seja aquele que é estrutural nas visões políticas de Platão de de Aristóteles: o conceito de autarquia, o de uma comunidade política auto-suficiente. Parece anacrónico, mas sê-lo-á efectivamente?

Nostalgia


Por volta da hora de almoço, estava num canal de televisão a passar um concerto de Ano Novo. Um turbilhão de memórias veio por aí fora. Há muitos, muitos anos, nos almoços de Ano Novo ainda não havia filhos nem sobrinhas, mas o meu pai estava ali. Nesses dias, a televisão transmitia o concerto de Ano Novo e provas de ski, já não sei se slalom, se provas de salto. O mundo parecia mais simples, mas talvez a sua simplicidade residisse apenas na crédula ingenuidade dos meus olhos.

O estranho caso do estatuto dos Açores

O estranho caso do estatuto dos Açores é um bom indicador sobre uma série de coisas da nossa vida política. Em primeiro lugar, mostra que os partidos políticos da área da governação estão já, na sua generalidade, tomados por gente despida de qualquer sentido de Estado. A humilhação de Cavaco Silva e a satisfação dos baronatos ilhéus deveram-se a um puro e simples cálculo eleitoral. Sócrates e os profissionais da política que superintendem aos destinos do PS calcularam qual seria a menor perda eleitoral e agiram em conformidade. Que esse cálculo fira os fundamentos do Estado é indiferente a esta gente que governa ou pretende governar o país.

Que seja absurdo tornar mais complexa a dissolução de uma assembleia regional do que o parlamento nacional é uma coisa que não incomoda a generalidade dos nossos deputados e a totalidade dos governantes. Mas isso significa que aqueles a quem foi confiada a defesa do nosso Estado-Nação pouco ou nada já se preocupam com ele. Este episódio é mais um numa lenta caminhada que visa a destruição do Estado-Nação.

O episódio mostrou ainda uma outra coisa: a irrelevância política de Cavaco Silva. O Presidente da República está pura e simplesmente isolado, é uma espécie de alma-penada que habita ali para os lados de Belém. Não tem tropa de choque no terreno (o PSD, para além de não morrer de amores pelo seu antigo líder, está esfrangalhado), nem tem nada a oferecer a quem lhe possa arranjar alguma. Cavaco Silva poderia ter evitado a humilhação, calando-se e promulgando logo o diploma. Preferiu o papel de vítima sacrificial. Talvez o tempo lhe venha a dar razão.

Por fim, este acontecimento alerta-nos para o problema da regionalização. Eu já fui defensor do processo, mas os últimos anos têm-me mostrado que isso seria um desastre. Este episódio é lapidar quanto ao desastre que será a regionalização do país. As futuras regiões de autarquias passariam, através das manigâncias partidárias como a que está na base do novo estatuto dos Açores, a baronatos poderosos que devorariam a unidade nacional e rasgariam um dos mais velhos, se não o mais velho, Estado-Nação do mundo.

Ryuichi Sakamoto - Rain (live)

Assim começou o ano, a chover. Mau prenúncio? Já não há quem saiba ler os elementos, o voo dos pássaros, as entranhas dos animais. Trocou-se tudo isso pela estatística e pela tibieza do cálculo de probabilidades. Comecemos, então, com a música de Sakamoto. Não se começará completamente mal...

31/12/08

Há um ruído de corvos no lancil do passeio.

Há um ruído de corvos no lancil do passeio.
Ao longe ouve-se a agonia de uma ambulância,
o estrídulo repicar do aço sobre um incêndio de palha.
Se as vozes alvorecem a cantar, adormecem surdas,
deixando um rasto de sangue e saliva
na orla negra, um dia rio lhe chamaram.

Apagaram os faróis e o mar é um cemitério de barcos
carcomidos pelo sal, um depósito de algas negras,
sacos de plástico, peixes e almas em decomposição.
Assim começam todos os anos e assim terminam.
Mas o ardor do álcool e a ilusão do sangue
semeiam quimeras ali onde os dias germinam.

25/12/08

José Carreras, Diana Ross, Placido Domingo - O Tannenbaum

Pois é, estamos mesmo em época de Natal.

Stille Nacht (Silent Night) German - Sing Along

Este "Stille Nacht", cantado na língua original pela Nana Mouskouri, é especialmente dedicado à leitora Maria Correia. Um Bom Natal.

24/12/08

Luciano Pavarotti - O Holy Night

Bom Natal a todos.

23/12/08

22/12/08

Fora do tempo


De uma coisa não se pode acusar Bento XVI: de flectir o joelho perante o espírito do tempo (aqui). A posição sobre o denominado casamento homossexual e a recusa de uma imagem de Papa pop-star, tão ao gosto de uma certa juventude católica, são sinais de que no Vaticano está alguém que sabe o que quer e sabe, fundamentalmente, que não se deve vender os princípios para comprar sufrágios ou banhos de multidão. Por vezes este Papa faz-me lembrar o velho professor do Violência e Paixão, de Visconti, aquele filme que tanto agrada ao meu amigo Zé Ricardo. Também a mim, diga-se de passagem

19/12/08

Jornal Torrejano, 19 de Dezembro de 2008

Nova edição on-line do Jornal Torrejano. Destaque para a aprovação do orçamento municipal, um orçamento na ordem dos 70 milhões de euros. Referência também para apresentação, por António Rodrigues, da taxa de execução do programa Turris XXI. Nota ainda para o sentimento de insegurança que atemoriza torrejanos.

Na opinião comece-se com o desporto. Carlos Henriques escreve Benfica fora; Porto dentro, Fernando Faria Pereira, O problema do Pai Natal, Inês Vidal, Tucha, Jorge Cordeiro Simões, A nova biblioteca, José Ricardo Costa, A Biblioteca, José Trincão Marques, Educação e democracia, Santana-Maia Leonardo, O ovo da serpente.

Ficamos por aqui, para a semana haverá mais, assim o determinem os fados. Bom fim-de-semana e boas compras natalícias.

18/12/08

O governo conseguiu


O governo conseguiu. Depois de um elevado esforço e uma política persistente, o governo de Sócrates conseguiu que mais de 80% dos professores passassem a odiar a sua profissão. Esta é a percentagem de docentes que, se pudessem, se reformariam mesmo com penalização. É evidente que isto não incomoda o governo e deve dar um sentimento de alegria a Lurdes Rodrigues e acólitos. Aliás, que interesse tem um estudo que não foi levado a cabo pelo ISCTE?

Grupo Corpo - Bach (1) - Belo Horizonte

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Para começar bem o dia.