22/01/09

Douglas Sirk - Magnificent Obsession -Jane Wyman & Rock Hudson (1954)

Uma questão de legitimidade

Enquanto Barack Obama assinava o decreto que põem fim à prisão de Guantánamo, a Al Qaeda apelava a ataques contra Inglaterra e, claro está, os EUA. Apesar de se estar já habituado à retórica terrorista, é reconfortante sentir que do lado ocidental os direitos humanos não foram esquecidos. A luta contra o terror torna-se assim mais legítima. E esta legitimidade dada pelo respeito a valores essenciais não é, no combate político contemporâneo, coisa sem importância. Começa bem Obama.

O dia de hoje

Abel Manta - Apolo e as Musas (1934)

O dia de hoje era, na Grécia clássica, o dia de Apolo, deus solar, protector das artes e da poesia. Prova maior do fim dos tempos clássicos é o estado do tempo. Não o sorriso de Apolo, mas a fria chuva. O 22 de Janeiro parece ser propício para o nascimento de filósofos, o que permite adiantar que a ligação entre Apolo e a filosofia, iniciada com Sócrates, se tem mantido. Assim, em 1561, nasceu Fancis Bacon, em 1592, Pierre Gassendi, em 1729, Gotthold Lessing e, em 1891, Antonio Gramsci. Se consultar aqui, descobrirá uma lista de nascimentos importantes no dia de hoje. Mas a dimensão apolínea contínua bem para além da filosofia. Por exemplo, nasceram vários cientistas importantes. Para além do próprio Gassendi, viram a luz, no dia de Apolo, os físicos André Marie Ampère (1775), Lev Davidovich Landau (1908) e Allan J. Heeger (1936), os escritores Lord Byron (1788), August Strindberg (1849) e Robert E. Howard (1906). Isto para não repetir o Gotthold Lessing, ou para não referir esse cineasta maior que se chama D. W. Griffith (1875). Mas, como muito bem sabia Nietzsche, há uma estranha ligação entre o deus Apolo e o deus Diónisos, o que explica o nascimento, também nesta data, de Ava Devine (1974), actriz pornográfica norte-americana. Cada época tem os deuses e os heróis que merece. Então, bom dia de Santo André.

21/01/09

O tempo da responsabilidade

Ontem, assisti com os meus alunos do 12.º ano à tomada de posse de Barack Obama. Todos eles tinham consciência do momento histórico que se estava a viver e como ele se integrava na temática que se está a trabalhar nas aulas, a tolerância. No discurso de Obama (o que eles protestaram pela tradução simultânea que apagou o inglês do Presidente...), há uma palavra essencial, que, espero, tenha sentido para todos nós: responsabilidade. A liberdade individual assenta na capacidade do sujeito em responder por si mesmo. Se estes meus alunos pertencem já a uma elite disposta a responder por si, a deixar as desculpas e os álibis de lado, a escola em Portugal ainda precisa de fazer um longo caminho até que este sentimento seja partilhado pela generalidade dos alunos. O problema, porém, é que esta atitude de responsabilidade, onde se funda a liberdade do indivíduo, é também pouco partilhada pelos adultos. No fundo, ainda se acredita que a nossa vida depende essencialmente de entidades mágicas, como o estado, os outros, a divina providência ou a caixa de previdência. Não tenhamos ilusões, os tempos que aí vêm serão propícios para muitas coisas, menos para soluções mágicas. O tempo da responsabilidade, foi isso que o príncipe americano veio ontem anunciar ao mundo.

20/01/09

Atahualpa Yupanqui - Duerme negrito

Emblemas e questões críticas


Sexta-feira, vota-se uma proposta do CDS-PP para suspender o actual modelo de avaliação de professores. Segunda a Lusa, a direcção da bancada parlamentar do PS está a mobilizar em grande força os deputados, deixando pairar no ar uma qualquer ameaça metafísica, talvez a demissão da inefável direcção dessa bancada. Mas o melhor vem do ministro Santos Silva. Diz que esta questão «é "uma reforma emblemática" e uma "questão crítica" para o cumprimento do programa do Governo». Melhor fora que estivesse calado.

Se esta reforma é o emblema da política do governo, então bem pode limpar as mãos à parede. Uma reforma que gerou a oposição de mais de 90% dos seus executantes, uma reforma que começou na produção de um monstro burocrático e que acaba numa coisa tão simples como esta: um professor pode ser considerado bom, independentemente da sua prática pedagógica e científica. Uma reforma que valoriza coisas tão voláteis como "a participação dos professores na escola" (como se ensinar não fosse a única e efectiva forma de um professor participar na vida da escola), ou a "relação com a comunidade" (o que é isto?), é o espelho fiel do delírio e da incompetência institucionalizada.

E um programa de governo que depende criticamente deste monte de incongruências, não é um programa de governo, mas o alinhamento de umas quantas frases para serem repetidas à saciedade por papagaios imbecis. Como pôde o sociólogo Santos Silva, pessoa que eu, em tempos, julguei merecer alguma consideração intelectual, acabar a defender coisas como estas?

Progresso moral da humanidade?


A investidura de Barack Obama como 44.º Presidente dos Estados Unidos será mais um sintoma do progresso moral da humanidade? Kant dizia que não havia provas desse progresso moral, mas havia sintomas indiciadores. Por exemplo, as regras de civilidade ou a Revolução Francesa, apesar do espectáculo deplorável. A investidura de um negro como Presidente duma república, ainda por cima a maior potência mundial, que, ainda há poucos decénios permitia o racismo, bem pode figurar entre esses sintomas indiciadores do progresso moral da humanidade. Um pouco de fé na razão, mesmo para um céptico das coisas humanas, bem pode servir de consolo ao frio que se faz sentir nestes tempos.

19/01/09

Um mau sinal

Hoje houve uma nova greve de professores. Dei uma volta, há instantes, por uma boa dúzia de blogues de referência, na área da intervenção política ou social. A greve e a contestação dos professores estava completamente ausente. À direita, à esquerda e ao centro. Nem gente compreensiva e simpática para com a contestação dos docentes, nem gente a espumar de raiva contra os grevistas. Nada. Só em dois encontrei referência à entrevista de Alice Vieira ao Público (ver mais abaixo). Isto favorece quem? À partida parece favorecer o Ministério da Educação. Mas a questão é mais funda. Parece estar a instalar-se, na esfera pública, um desinteresse absoluto pela questão educativa. Os professores não ganham nada com isso. Os seus alunos ainda menos. Um mau sinal.

Biber - Sonata 6 from Mystery Sonatas

Entrevista a Alice Vieira

Não faria mal que todos meditassem na entrevista dada pela escritora Alice Vieira ao Público. Quando digo todos, quero dizer mesmo todos: pais, governantes, professores, cidadãos em geral. Como ela diz, aconteceu qualquer coisa terrível na educação nos últimos 30 anos: "tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho". Foi o triunfo do eduquês e da psicologia light para parolos. Das palavras da escritora apenas relativizaria aquelas que subentendem uma boa intenção ministerial. Quanto ao que diz dos professores, sendo professor e estando hoje em greve, subscrevê-lo-ia. As pessoas precisam de compreender que o que correu mal não foi apenas nos ensinos básico e secundário. O ensino superior está também profundamente doente.

18/01/09

Harrison Birtwistle : Tragœdia

Graças à Ivone (Ponteiros Parados), tive acesso à trilogia de Ésquilo, Oresteia. Para lá da excelência teatral encarnada na Oresteia Company, dirigida por Peter Hall, descobri a música de Harrison Birtwistle, um compositor contemporâneo que não conhecia. Mais um motivo de gratidão para com a Ivone Mendes.

O problema das luvas


Se for verdade isto, o que poderemos concluir do caso Freeport? Não me ocorre nada a não ser que há gente em Portugal que tem trabalho que precisa de proteger as mãos para as não estragar, ou que tem má circulação nessas mesmas mãos e, por isso, necessita de as aquecer. Também nos diz, tendo em conta as avultadas quantias em jogo, que as luvas são um peça de indumentária cujo preço anda pela hora da morte.

17/01/09

A derrota de Platão



Acabou-se! Eis a vantagem da democracia: a limitação de mandatos. Foram oito anos de difícil aprendizagem para o mundo, foram oito anos de equívocos, foram oito anos de oportunidades perdidas, foram oito anos em que o Ocidente se tornou mais fraco. Bush, porventura, nunca perceberá que é um derrotado, apesar das vitórias eleitorais. Há, nesta passagem de Bush pelo poder, outros derrotados: os intelectuais. Rir-se-á o leitor. Como é possível ver na presidência deste Bush uma derrota dos intelectuais? Logo deste que parece não ter uma ideia na cabeça. O problema está aí. Por não as ter, teve necessidade de se rodear de uma elite de intelectuais neo-conservadores. Estes trouxeram todo o esquematismo do pensamento para o domínio da acção política. Os resultados estão à vista. A presidência de Bush é mais uma prova contra o meu filósofo preferido, Platão. Sempre que os intelectuais tentam trazer o mundo das ideias à terra (ó como Marx também sonhou com isso...), o desastre é certo. Não há bandeira ou comoção que nos salve.

Votar nos socialistas?



Consta que o futuro programa do PS inclui um referendo sobre a regionalização. Eis mais um bom motivo para não votar nos socialistas. Como tenho dito, em abstracto, a regionalização até é uma ideia interessante. Mas no contexto actual é mais do que um erro colossal, é um atentado contra a unidade nacional. Quais são os traços essenciais desse contexto: 1. a retórica pós-moderna do fim do Estado-Nação e o esforço de inúmeros actores, falemos assim, para provarem que vivemos numa época pós-nacional; 2. a avidez dos comissários partidários de província, a necessidade de partilharem um pedaço significativo do bolo e de terem uma migalhas substanciais para distribuírem pelos vassalos; 3. o recente episódio do estatuto da região autónomo dos Açores; 4. os anseios, que começam a desenhar-se, de tornar Portugal num estado federado. Estas realidades bastam para pensar não duas vezes, mas vinte vezes antes de se votar na regionalização. A retórica denunciadora do centralismo lisboeta apenas encobre o desejo de pôr as garras em parte substancial do orçamento, para criar pequenos feudos onde suseranos de província ditem a pequena ordem que lhe aquece a alma e exalta os ânimos.

16/01/09

Giovanni Palestrina - Missa Papae Marcelli - Gloria

Eça de Queiroz - Editorial do Distrito de Évora


Enquanto pela triste força dos factos, pela influência da tradição, peia obediência inerte dos espíritos, pelo adormecimento das consciências, pelo amedrontamento das almas, pelas predominâncias estéreis, pela força dos interesses pequenos, pelo afrouxamento dos sentimentos livres, pelo abaixamento moral, pela fraqueza, pela indolência, por tudo isto, os interesses deste território forem desprezados, os desenvolvimentos impedidos, as livres consciências esmagadas, a acção abafada, as administrações descuradas, todos os elementos fecundos sufocados, um jornal, que procure representar o direito, a justiça, a razão, o princípio, a consciência moral, não será por certo inútil.

Jornal Torrejano, 16 de Janeiro de 2009


Na opinião comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Carlos Henriques escreve Benfica volta à liderança [eis o exemplo de que não há só notícias más], Carlos Nuno, Não há Portugal, Francisco Almeida, Para lá do mar, Inês Vidal, Mariana, José Ricardo Costa, A Normalidade Radical e Miguel Sentieiro, A Liliana resolve.

Aqui fica a notícia de mais uma edição do Jornal Torrejano. Bom fim-de-semana.

15/01/09

Tarde em Itapuã - Vinicius de Moraes + Toquinho

Da razão e da adrenalina

Claro que não há problema nenhum em uma mulher não muçulmana, para não falar já das muçulmanas, em casar com um muçulmano. Por exemplo, o marido se se cansar da feliz escolhida basta dizer três vezes «eu te repudio» (isto é um verdadeiro descanso). Já a mulher, se quiser ver-se livre do marido, tem de invocar uma razão. Daqui se conclui o seguinte: 1. No Islão os homens estão dispensados de usar a razão, mas as mulheres precisam de uma razão adicional; 2. O cardeal Policarpo bem sabia o que estava a dizer, ao aconselhar as jovens enamoradas pelos D. Juans maometanos a usar a razão (pensar duas vezes). É uma questão de treino. Mas se a razão da jovem, ou a falta dela, a inclinar para a consumação do acto, então pode jogar na lotaria (ou na roleta russa como no filme O Caçador, de M. Cimino) e fazer uma viagem à terra natal do eleito. Segundo um xeque não identificado, contactado pelo Público, «se a mulher viajar para o país do marido "o que pode acontecer depende das famílias", explica o xeque. "Se forem mais conservadoras, ela poderá ter que seguir um estilo de vida mais tradicional".» Portanto, eu antevejo já o gozo adicional da feliz rapariga tentando antecipar se a família do cônjuge é conservadora ou não. Não há nada como a adrenalina.

Slavoj Zizek: A filosofia moderna e a foda


Na medida em que aceitarmos esta noção de relação sexual como a referência absoluta, somos tentados a rescrever toda a história da filosofia moderna nos seguintes termos:
- Descartes: «Fodo, logo existo», isto é, só na actividade sexual intensa sinto a plenitude do meu ser (a resposta «descentradora» de Lacan a isto teria sido: «Fodo onde não existo, e não existo onde fodo», ou seja, não sou eu quem fode, mas «isso fode» em mim);
- Espinosa: Dentro do Absoluto enquanto Foda (coitus sive natura), devemos distinguir, no mesmo sentido da distinção entre natura naturans e natura naturata, entre a penetração activa e o objecto fodido (há aqueles que fodem e os que são fodidos);
- Hume introduz aqui a dúvida empirista: como sabemos se a foda, enquanto relação, existe? Só existem objectos cujos movimentos parecem coordenados.
- Resposta kantiana a esta crise: «as condições da possibilidade de foder são ao mesmo tempo as condições da possibilidade dos objectos [da] foda»;
- Fichte radicaliza esta revolução kantiana: foder é uma actividade incondicional que se postula a si própria e que se divide em fodedor e objecto fodido, ou seja, é o próprio foder que pressupõe o seu objecto, o fodido;
- Hegel: «é crucial conceber o Foder não só como substância (o impulso substancial que nos subjuga), mas também como sujeito (como actividade reflexiva inserida no contexto do significado espiritual)»;
- Marx: devemos regressar ao foder real e rejeitar a filosofice masturbatória idealista, ou seja, nos termos literais em que o expressou na Ideologia Alemã, a vida real está para a filosofia, assim como o sexo real está para a masturbação;
- Nietzsche: a Vontade é, na sua expressão mais radical, a Vontade de Foder, que culmina no Eterno Retorno do «quero mais», de uma foda que prossegue indefinidamente
- Heidegger do mesmo modo que a essência da tecnologia não é nada «tecnológica», a essência de foder não tem nada a ver com a foda enquanto simples actividade ôntica; ou melhor, «a essência do foder é o foder da própria Essência», isto é, não somos apenas nós, humanos, que fodemos a nossa compreensão da Essência», é a Essência que já está em si mesma fodida (inconsistente, retraída, errante);
- e, finalmente, a intuição de como a própria Essência está fodida, leva-nos à expressão de Lacan «a relação sexual não existe».
[Slavoj Zizek, Lacrimae Rerum, pgs 150-152, nt 108]
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Não menos interessante do que a leitura da história da filosofia moderna ancorada na foda, é o facto de esta nota, a 108 do capítulo sobre o realizador polaco Krzysztof Kieslowski, não ter, no corpo do texto (as notas estão todas agrupadas no fim do capítulo) uma chamada. De facto, entre a nota 107 e a 109, na tradução portuguesa, não existe qualquer nota. Ocorrem, porém, duas notas 109, que remetem, dessa forma, para uma reflexão sobre o Tristão e Isolda, de Wagner. Eis um belo acto de censura do inconsciente do paginador, ou será do processador de texto? O que introduz um mistério quase teológico: terão os processadores de texto também um inconsciente?