01/01/09

O gás russo e o conceito de autarquia


A Rússia cortou o fornecimento de gás à Ucrânia (aqui). A justificação foi económica, a Ucrânia não estava a saldar as suas dívidas à Rússia, mas toda a gente percebe que a motivação é política. O que me espanta é a leviandade com que a Europa se está a colocar, ao nível energético, na mão dos russos. Se for politicamente vantajoso, os russos cortarão o fornecimento de gás à Europa, por mais que esta honre os seus compromissos económicos. No jogo político internacional, a economia é apenas uma arma de arremesso na luta pela hegemonia e dominação mundiais, ao contrário do que, de forma tão ligeira, os governos ocidentais gostam de admitir. No mundo globalizado e interdependente em que parece que vivemos, talvez o conceito político essencial a meditar seja aquele que é estrutural nas visões políticas de Platão de de Aristóteles: o conceito de autarquia, o de uma comunidade política auto-suficiente. Parece anacrónico, mas sê-lo-á efectivamente?

Nostalgia


Por volta da hora de almoço, estava num canal de televisão a passar um concerto de Ano Novo. Um turbilhão de memórias veio por aí fora. Há muitos, muitos anos, nos almoços de Ano Novo ainda não havia filhos nem sobrinhas, mas o meu pai estava ali. Nesses dias, a televisão transmitia o concerto de Ano Novo e provas de ski, já não sei se slalom, se provas de salto. O mundo parecia mais simples, mas talvez a sua simplicidade residisse apenas na crédula ingenuidade dos meus olhos.

O estranho caso do estatuto dos Açores

O estranho caso do estatuto dos Açores é um bom indicador sobre uma série de coisas da nossa vida política. Em primeiro lugar, mostra que os partidos políticos da área da governação estão já, na sua generalidade, tomados por gente despida de qualquer sentido de Estado. A humilhação de Cavaco Silva e a satisfação dos baronatos ilhéus deveram-se a um puro e simples cálculo eleitoral. Sócrates e os profissionais da política que superintendem aos destinos do PS calcularam qual seria a menor perda eleitoral e agiram em conformidade. Que esse cálculo fira os fundamentos do Estado é indiferente a esta gente que governa ou pretende governar o país.

Que seja absurdo tornar mais complexa a dissolução de uma assembleia regional do que o parlamento nacional é uma coisa que não incomoda a generalidade dos nossos deputados e a totalidade dos governantes. Mas isso significa que aqueles a quem foi confiada a defesa do nosso Estado-Nação pouco ou nada já se preocupam com ele. Este episódio é mais um numa lenta caminhada que visa a destruição do Estado-Nação.

O episódio mostrou ainda uma outra coisa: a irrelevância política de Cavaco Silva. O Presidente da República está pura e simplesmente isolado, é uma espécie de alma-penada que habita ali para os lados de Belém. Não tem tropa de choque no terreno (o PSD, para além de não morrer de amores pelo seu antigo líder, está esfrangalhado), nem tem nada a oferecer a quem lhe possa arranjar alguma. Cavaco Silva poderia ter evitado a humilhação, calando-se e promulgando logo o diploma. Preferiu o papel de vítima sacrificial. Talvez o tempo lhe venha a dar razão.

Por fim, este acontecimento alerta-nos para o problema da regionalização. Eu já fui defensor do processo, mas os últimos anos têm-me mostrado que isso seria um desastre. Este episódio é lapidar quanto ao desastre que será a regionalização do país. As futuras regiões de autarquias passariam, através das manigâncias partidárias como a que está na base do novo estatuto dos Açores, a baronatos poderosos que devorariam a unidade nacional e rasgariam um dos mais velhos, se não o mais velho, Estado-Nação do mundo.

Ryuichi Sakamoto - Rain (live)

Assim começou o ano, a chover. Mau prenúncio? Já não há quem saiba ler os elementos, o voo dos pássaros, as entranhas dos animais. Trocou-se tudo isso pela estatística e pela tibieza do cálculo de probabilidades. Comecemos, então, com a música de Sakamoto. Não se começará completamente mal...

31/12/08

Há um ruído de corvos no lancil do passeio.

Há um ruído de corvos no lancil do passeio.
Ao longe ouve-se a agonia de uma ambulância,
o estrídulo repicar do aço sobre um incêndio de palha.
Se as vozes alvorecem a cantar, adormecem surdas,
deixando um rasto de sangue e saliva
na orla negra, um dia rio lhe chamaram.

Apagaram os faróis e o mar é um cemitério de barcos
carcomidos pelo sal, um depósito de algas negras,
sacos de plástico, peixes e almas em decomposição.
Assim começam todos os anos e assim terminam.
Mas o ardor do álcool e a ilusão do sangue
semeiam quimeras ali onde os dias germinam.

25/12/08

José Carreras, Diana Ross, Placido Domingo - O Tannenbaum

Pois é, estamos mesmo em época de Natal.

Stille Nacht (Silent Night) German - Sing Along

Este "Stille Nacht", cantado na língua original pela Nana Mouskouri, é especialmente dedicado à leitora Maria Correia. Um Bom Natal.

24/12/08

Luciano Pavarotti - O Holy Night

Bom Natal a todos.

23/12/08

22/12/08

Fora do tempo


De uma coisa não se pode acusar Bento XVI: de flectir o joelho perante o espírito do tempo (aqui). A posição sobre o denominado casamento homossexual e a recusa de uma imagem de Papa pop-star, tão ao gosto de uma certa juventude católica, são sinais de que no Vaticano está alguém que sabe o que quer e sabe, fundamentalmente, que não se deve vender os princípios para comprar sufrágios ou banhos de multidão. Por vezes este Papa faz-me lembrar o velho professor do Violência e Paixão, de Visconti, aquele filme que tanto agrada ao meu amigo Zé Ricardo. Também a mim, diga-se de passagem

19/12/08

Jornal Torrejano, 19 de Dezembro de 2008

Nova edição on-line do Jornal Torrejano. Destaque para a aprovação do orçamento municipal, um orçamento na ordem dos 70 milhões de euros. Referência também para apresentação, por António Rodrigues, da taxa de execução do programa Turris XXI. Nota ainda para o sentimento de insegurança que atemoriza torrejanos.

Na opinião comece-se com o desporto. Carlos Henriques escreve Benfica fora; Porto dentro, Fernando Faria Pereira, O problema do Pai Natal, Inês Vidal, Tucha, Jorge Cordeiro Simões, A nova biblioteca, José Ricardo Costa, A Biblioteca, José Trincão Marques, Educação e democracia, Santana-Maia Leonardo, O ovo da serpente.

Ficamos por aqui, para a semana haverá mais, assim o determinem os fados. Bom fim-de-semana e boas compras natalícias.

18/12/08

O governo conseguiu


O governo conseguiu. Depois de um elevado esforço e uma política persistente, o governo de Sócrates conseguiu que mais de 80% dos professores passassem a odiar a sua profissão. Esta é a percentagem de docentes que, se pudessem, se reformariam mesmo com penalização. É evidente que isto não incomoda o governo e deve dar um sentimento de alegria a Lurdes Rodrigues e acólitos. Aliás, que interesse tem um estudo que não foi levado a cabo pelo ISCTE?

Grupo Corpo - Bach (1) - Belo Horizonte

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Para começar bem o dia.

Grupo Corpo - Bach (2) - Belo Horizonte

Para começar bem o dia.

Grupo Corpo - Bach (3) - Belo Horizonte

Para começar bem o dia.

Grupo Corpo - Bach (4) - Belo Horizonte

Para começar bem o dia.

17/12/08

Vision of Hildegard von Bingen-voice Hana Blochová-KVINTERNA

O problema da educação


Há dias, ao ler o trabalho de um aluno, descobri a essência do problema educativo português. Dizia, esse aluno, que com aquele trabalho esperava inalar muitos conhecimentos. Considerando o desempenho geral dos alunos portugueses, concluí que a questão não é do foro da pedagogia ou das ciências da educação, mas da otorrinolaringologia. Muito nariz entupido há por esse país fora.

O desespero


Bento XVI alvitrou que a crise económica poderia ser um caminho para redescobrir o verdadeiro sentido do Natal. Como já muitas vezes disse, sou um admirador de Bento XVI. Mas, mais uma vez, não posso partilhar a esperança dele. Esperar que a crise económica possa abrir o coração dos homens ao mistério do Natal, ao valor da simplicidade e ao sentido da pobreza representado pelo menino que nasce no presépio é desconhecer o coração dos homens. A angústia provocada pela crise económica não é metafísica, é apenas económica. Não é ao divino que toma carne que os homens irão orar, mas ao deus do dinheiro. Mas não foi aos sacerdotes desse deus que aquele que nasceu no presépio de Belém expulsou do templo?

Talvez as palavras do papa Ratzinger sejam não o exercício da virtude teologal da esperança, mas apenas o sintoma de um fundo e mal disfarçado desespero.

15/12/08