15/10/08

Assim demoramos

Van Gogh – A sesta – 1889/90

Assim demoramos
nesta tarde azul
sobre a palha onde poisam
- leves pássaros de linho -
os sonhos verdes
onde dormimos.

Sonhamos os flocos de neve,
eles virão depositar a água fria
sobre o fogo de teu corpo,
para que minha mão
te incendeie,
no segredo da noite,
ao chegar.

Sonhamos campos de miosótis
e bandos de aves
brancas como margaridas.
Colho ali um ramo
e atravesso no céu azul
o largo oceano
para aos teus pés o deixar.

Sonhamo-nos deitados
na tarde de estio
e o teu sonho cresce
nas asas do meu:
águia branca sobre rocha negra
que pelas fragas sombrias
faz raiar no horizonte
o fulgor do meio-dia.

Leonard Cohen: The Stranger Song

Portugal 0 - Albânia 0

A cada jogo que passa, vejo confirmadas as minhas razões para não ter gostado da vinda de Carlos Queirós para a selecção (ainda bem que não veio para o Benfica). Há uma outra coisa que também se confirma: muitos dos resultados obtidos anteriormente devem-se a Scolari. Ele inventou um Portugal futebolístico que não existe. Nunca percebi o acinte que ele gerou em certas áreas. Antes, percebi demasiado bem. Queirós falhou no Sporting, no Real Madrid e está a falhar na selecção. Grandes resultados tem-nos como adjunto, no Manchester United, ou como seleccionador dos mais novos. Mas, diga-se em seu abono, também não tem à sua disposição a elite do futebol mundial que uma imprensa tresloucada vende para vender jornais. Scolari era mesmo especial, apesar das birras e do Ricardo.

O retorno do mouro?

Na Alemanha, as vendas do Capital, de Karl Marx, dispararam, em relação aos anos anteriores, e a expectativa é que continuem a crescer. Não se pense, contudo, que é o marxismo que está de volta. Este movimento de retorno a Marx inscreve-se na esfera dos eruditos. Não é o Marx que guia a acção e que conduzirá os homens ao paraíso, mas o Marx que se tornou um autor clássico. E como todos os grandes autores clássicos, e Marx é um grande autor clássico, é um mestre do pensamento, alguém que ajuda a pensar melhor e a melhor interpretar o mundo. É um Marx lido ao arrepio da sua célebre 11.ª tese ad Feuerbach: «Os filósofos limitaram-se até agora a interpretar o mundo de diferentes modos; do que se trata é de o transformar». Afinal, parece que é mesmo preciso continuar a interpretar o mundo. O velho Hegel sabia muito mais do que seu distante e belicoso discípulo.

Manifestações de professores

A FENPROF convocou uma nova manifestação de professores, para 8 de Novembro. O meu problema não está nos motivos da manifestação, mas na forma como o confronto com o ME tem sido travado pelas estruturas sindicais. Por outro lado, os movimentos independentes de professores já tinham agendado uma manifestação para 15 de Novembro. Mário Nogueira, da FENPROF, demarca-se desta última manifestação por, diz ele, ser anti-sindical. Mas estarão os sindicatos, perante os professores de mãos limpas? Oiçam os professores nas escolas e perceberão o modo com estes vêem os sindicatos. Resta-me uma ténue e risível esperança que, em tempos a vir, alguém repare no absurdo em que se tornou a escola portuguesa e rompa com o novo paradigma, para falar ao gosto de certa gente.

14/10/08

Pudera ver assim o céu azul

Van Gogh - Barcaças de carvão - 1888

Pudera ver assim o céu azul
e em cada partícula desse anil
saber o verde e o amarelo e o vermelho,
as mil cores que sobre a terra
a luz faz descer,
logo pintaria de branco as negras barcaças
e no lugar do carvão
levaria raparigas de saias largas
e cabelos ao vento.

Se as águas fossem bonançosas,
cantaríamos pela tarde fora
e eu beberia o vinho novo
que naqueles lábios o dia fermentou.
Se, sorrateira, a tempestade viesse,
armaria o velho cavalete
e onde o céu visse negro
o faria azul e no anil dos olhos
presos em mim eu provaria
o verde e o amarelo e o vermelho
que se escondem na noite sem fim.

Jacques Brel - Amsterdam

Os que se vão embora

Manuel António Pina fala de A grande evasão. Refere-se ao pedido de reforma de muitos e muitos professores. Julgo que o Ministério de Educação está feliz com o acontecimento. É muito provável que haja quem pense que a eliminação da geração dos mais velhos, daqueles que ainda souberam o que é uma escola, amainará os ímpetos dos de meia-idade e deixará campo aberto aos jovens professores que, livres dessas ideias estapafúrdias de que a escola é um lugar de trabalho, que os professores devem ensinar e os alunos estudar, farão crescer, no terreno – acho que é assim que falam –, as luminosas ideias das mentes ministeriais, que nos hão-de conduzir ao Olimpo da ignorância e da insensatez. Na próxima sexta-feira, no Jornal Torrejano, também falaremos desses professores que se vão embora.

A euforia das bolsas

A euforia voltou às bolsas. Parece que o maldito dinheiro do Estado tem animado, mundo ocidental fora, os génios sofisticados da bolsa, certamente adeptos da mão invisível e de menos Estado, ou de preferência Estado nenhum, ou quase. Mas o que cada vez me preocupa mais é mesmo o estado de euforia daquela gente. Parece que voltaram a ganhar muito dinheiro, mas quem o estará a perder?

Ser capitalista

A crise financeira tem pelo menos a virtude, não despicienda, de nos fazer sorrir. O governo português ameaça agora os bancos que não amortizarem as dívidas garantidas pelo Estado de os intervencionar, fazendo assim entrar o sector público no capital privado. O negócio não é mau. Se as coisas correrem bem, os bancos pagam ao Estado e amigos como dantes. Se correrem mal, o Estado entra no capital de um Banco que para estar morto só falta ser-lhe rezada uma missa pro defunctis. Cada vez mais acho que ser capitalista, do ramo da finança, não é nada mau. Bem me queriam atirar para um curso de economia, lá tinham as suas razões.

13/10/08

Não és Eurídice, nem por ti

Edouard Manet - La amazona de frente - 1882

Não és Eurídice, nem por ti
Orfeu descerá aos infernos
ou fará tocar sobre a erva dos campos
a lira amena.

Cavalgas apenas
pela a pesada Terra
e marcas com os teus olhos de sombra
aqueles a quem a escuridão,
sonâmbulos,
já atormenta.

Não houve em teus lábios
mel, nem alguém
aí provou as bagas silvestres,
nem uma mão te tocou
o frágil seio, de onde
fugiu o coração.

Aos dedos cobres
para esconder o sangue
que em ti espreita
quando pela noite vais
sobre o velho alazão.

Anda, ó rainha da noite,
ergue uma bandeira sobre o altar
e deixa escrito o teu nome
para quem oiça
a sombra interminável
desse teu cavalgar.

Salvar o quê e a quem?

Há uma coisa que me atormenta no meio destas medidas todas para fazer face à crise financeira global, seja o dinheiro disponibilizado por Sócrates, sejam os acordos europeus, seja a política de Bush: o que visa todo esse dinheiro salvar? Por vezes sou assaltado pela dúvida, eu que nada sei de feitiçaria económica, de que esse dinheiro se destina a manter o status quo e a premiar aqueles que conduziram as finanças mundiais ao colapso onde se encontram, à custa da economia produtiva e do rendimento dos mais fracos. Mas eu, repito, não sou feiticeiro. Desconfio que não são só os loucos e os políticos que são inimputáveis.

O peso da História

A História é um buraco negro onde tudo se consome. Agora descobriram que, hipoteticamente, Milan Kundera, conhecido escritor checo e oposicionista declarado do regime comunista, denunciou à polícia comunista, em 1950, um estudante. Este foi preso e condenado a 22 anos de cadeia, com trabalhos forçados. Kundera nega com veemência o episódio, que está alegadamente documentado. Ainda há pouco tempo o escritor alemão Günter Grass reconheceu também a sua colaboração nas forças militares do regime nazi.

Todo este alarido, porém, reside num equívoco: a de uma concepção pura do homem. Espera-se sempre que os heróis e as figuras elevadas de uma cultura sejam exemplares e neles nada haja que belisque a brancura da alma e a inocência angélica. O grande problema reside aqui, como reconheceu Kant: a inocência é uma coisa muito bonita, mas corrompe-se com muita facilidade. Depois, os homens mudam de opinião e aquilo que um dia lhes pareceu o caminho do paraíso é, agora, a porta do inferno. Somos todos mutáveis. E muitas vezes não fizemos coisas inomináveis porque o acaso ou a História ou o destino não o permitiram. Mas o carácter não contará? Conta, claro que conta sempre. Mas não nos iludamos sobre a força do carácter perante o peso da História. Mas então o peso da história será suficiente para nos absolver de um acto canalha? Não, não é. Não diminui em nada o peso da culpa, apenas modera o dedo da acusação.

The Last Laugh - George Parr [a crise do subprime]

Eis uma notável explicação da crise. Melhor que as mil páginas de especialistas que por aí se escrevem. Ah, ainda tem direito a rir, para além da compreensão efectiva da coisa. Veja onde conduz a gestão por objectivos (dedicada, esta parte, aos presidentes dos conselhos executivos das escolas portuguesas, tão deslumbrados com a parolice).

12/10/08

Onde está agora o triunfante corpo

Edvard Munch – La Niña Enferma (1885-86)

Onde está agora o triunfante corpo
e a voz soberana que aos mortais tocava
e como uma faca de seda os feria
naquele lugar onde nasce toda a imperfeição?

O rosto ainda brilha, mas no curvado peso
já o abutre se anuncia, mesmo se a porta se fechou
e dentro de casa ainda arda o fogo,
talvez uma vela a cintilar de esperança.

É tudo tão preciso, quase geométrico,
as paredes, os móveis, a cadeira
que te suporta e o teu olhar para o infinito
como se quisesses ver o que te chama.

A mão não acena nem a boca canta
nem o teu nome cresce na alegria
que era ter vida e filhos e um campo
de lírios acesos durante a caminhada.

Um passo em frente

Decisões tomadas hoje no seio da Zona Euro são "grande passo em frente", diz Durão Barroso, o querido líder da nossa União. Por que razão me lembrei imediatamente daquela história em que alguém estava à beira do abismo e deu um passo em frente?

Meredith Monk -Churchyard Entertainment

Fair-play democrático

Nas eleições americanas a animação está ao rubro. Os republicanos sugerem que Obama é terrorista. Os democratas acusam McCain de racista. Isto é o mais puro fair-play. Ah!, mas estamos em política e nesta, segundo a lição de Maquiavel, não entra no jogo o cálculo ético. É verdade, mas também é verdade que entra o cálculo político. Ora se este tipo de insultos soezes são pronunciados é porque os candidatos julgam que eles serão acolhidos pelo eleitorado. Sendo assim, esta animação de arrivistas expressa a saúde moral dos americanos, gostemos ou não.

Vontade de vomitar

Pulido Valente, na crónica de hoje no Público, fala do desinteresse que parece grassar na opinião publicada e na comunicação social nacionais pela crise financeira mundial. Atribui esse desinteresse à nossa eterna miséria, à incapacidade de percebermos tudo o que tenha mais de três números. É possível que tenha razão. Mas também é possível que estejamos perante uma resposta mais pragmática: que mão poderemos ter na crise que não provocámos? Todos sabemos a resposta: nenhuma. Então, para quê um excesso de preocupação, mesmo que o barco se esteja a afundar? A experiência da nossa miséria, experiência que obsidia Pulido Valente, é antes de mais a experiência da impotência colectiva. Raramente somos os senhores do nosso destino. Tudo o que é essencial se decide onde não estamos e mesmo o que se decide por cá decide-se onde a maioria não se encontra. É fácil a meia dúzia de janotas, que leram umas tretas sobre livre-arbítrio e umas linhas sobre a livre iniciativa, acusar meio mundo de incapacidade de sobreviver sem o apoio ou a âncora do Estado. O que não é fácil a essa meia dúzia é perceber a longa história que nos formatou e que tolheu qualquer espírito de iniciativa e que lhes dá a possibilidade de ganhar dinheiro à custa das idiotices que põem da boca para fora. Quando leio a maior parte dos comentadores tenho vontade de vomitar. É evidente que não incluo aqui Pulido Valente, o único que verdadeiramente vale a pena ler.

11/10/08

Se curvares teus dedos


Joanna Boyce - Bird of God - 1861

Se curvares teus dedos
e a sebe e a laranjeira
e a terra seca dissolveres
e ainda o pó da sebe
e o da laranjeira
e o da terra seca
e aquele de teus dedos
e o da curva de teus dedos
e o da memória de tudo isso se dissolver
a que horizontes se abrirão,
entre o rumor de asas,
os encadeados olhos?

Keith Jarrett, Gary Peacock, Jack De Johnette , PRISM, 1985

Nacionalizemos, então

Afinal nacionalizar bancos não é uma coisa intrinsecamente má. Parece que os campeões da liberalização e do anti-estatismo se converteram às práticas gonçalvistas de 75. O que me faz rir, não porque seja adepto das nacionalizações, mas porque mostra a volubilidade dos homens e o ridículo que existe em todas as posições ideológicas extremas, sejam socialistas, sejam liberais. A maior parte das vezes, os protagonistas sociais, políticos e económicos deveriam pura e simplesmente estar calados. Os americanos que, na sequência da queda da União Soviética, lançaram um ataque impiedoso ao Estado providência, não têm agora pejo em armar o seu próprio Estado em deus benévolo que suprirá não a desgraça dos fracos, mas o desatino dos fortes. A humanidade desespera-me e dá-me vontade rir.

10/10/08

Já toda a tarde tinha caído

Edmond François Aman-Jean – Dame en Rose

Já toda a tarde tinha caído
para fora do círculo luminoso
e o dia cedera o corpo ansioso
ao império ferido pela noite.

Apenas os teus olhos fitavam
no limiar onde a loucura se acende
o frio desvão e nele, inquieto, havia
um poço fundo bordado a erva doce
e a terra fria, onde escondias
os restos amargos da infância.

Se eram rosas o que vestias,
os teus cabelos eram fogo,
mas em ti apenas ardia
um desejo de morte
que anuncia, em dobrado corpo,
a face oculta de um terror novo.

Dias negros

Eu sei, a comunicação social tem destas coisas, mas chega a ser cansativo. Agora, por tudo e por nada se fala em dia negro nas bolsas. Eu proponho que arranjem uma espécie de escala colorida, tipo alerta amarelo, laranja, vermelho, etc., para a bolsa. É que, a continuar assim, já ninguém distinguirá os dias que são negros, dos dias que são negros-escuros ou dos negros-claros. Ou então arranjem um calendário com os dias fastos e nefastos. Nos primeiros, abre-se a bolsa e transacciona-se em alta. Nos nefastos, fecha-se a bolsa e vai-se para as igrejas, mesquitas, etc. rezar.

Jornal Torrejano, 10 de Outubro de 2008

Disponível encontra-se já a edição desta semana do Jornal Torrejano on-line. Destaque para a retirada de confiança política ao vereador do PSD Nuno Santos, por parte da direcção local do partido. Refira-se ainda o retorno à agenda social da ampliação do quartel dos bombeiros.
Na opinião, comece-se com Carlos Henriques que escreve Sporting paga a factura. Porto líder. Depois, Francisco Almeida escreve Remédio envenenado, João Carlos Lopes, Quartel novo, este blogger, Uma questão ética?, José Ricardo Costa, How do I look?, Santana-Maia Leonardo, Os clubes e a sua vocação e Vítor Lúcio Freire, De onde vem o exemplo.
E assim chega ao fim a notícia das notícias. Para a semana, se os deuses estiverem pelos ajustes, haverá mais. Mas são caprichosos os imortais. Um bom fim-de-semana, também com o Jornal Torrejano.

Histórias mal contadas

Há histórias mal contadas, há histórias desagradáveis e há histórias que são ao mesmo tempo mal contadas e desagradáveis. Esta é uma delas. Se o veterano da primeira guerra do Iraque estiver a falar verdade, se os EUA tiverem efectivamente usado uma bomba nuclear na I Guerra do Golfo, se se desmentir a versão do Pentágono, o Ocidente terá dado um passo decisivo para a sua completa irrelevância e legitimado de uma vez por todas a proliferação de armas nucleares e o seu uso convencional. Esperemos que haja explicações convincentes.

09/10/08

Assustam-se as belas e pobres escravas

William McGregor Paxton – Nausicaa - 1937

Assustam-se as belas e pobres escravas
envoltas no corpo, a natureza lho deu,
ao verem a terrível luz de Ulisses,
náufrago entre náufragos,
a emudecer a sombra que do mar vinha.

Entre tanta mulher de corpo resfriado pela água,
aquecido pelo sol do mediterrâneo,
apenas uma enfrenta o desconhecido
e a sua mão lhe entrega para o levar
à cidade, para que o cuidem e lhe tragam
o conforto que os dias passados roubaram.

Nausícaa, filha real, reconheceu no estrangeiro
não o escravo a que tudo teme,
mas um igual, apenas maltratado pelas águas
e pelo destino adverso que tudo pode.
No segredo do seu coração, já o filho de Ulisses
encontrara o conforto para a sua solidão.

Caetano Veloso and Lila Downs - Burn It Blue

Bravo, Nico

Leia-se este excerto do Público: «O deputado do CDS-PP João Paulo Carvalho pediu à maioria socialista que comentasse "o caso do conselho pedagógico de uma escola de Barcelos que decidiu que os alunos podem passar de ano mesmo com cinco negativas".

Na resposta, o deputado do PS Bravo Nico não se referiu à questão dos computadores Magalhães.

Quanto ao caso de Barcelos, o deputado do PS a deu a entender estar de acordo com a decisão do conselho pedagógico, argumentando que "é sempre muito mais exigente e dá sempre muito mais trabalho às escolas e aos professores integrarem os alunos com percursos de aprendizagem difíceis".

"É sempre mais fácil colocá-los fora da escola. A nossa resposta é fazer com que as crianças fiquem dentro da escola. O direito à educação é um direito básico", acrescentou Bravo Nico.»

É assim, com esta bravura, que todos os alunos portugueses se hão-de tornar uns verdadeiros nicos.

Troca de beijos

Só numa sociedade de adolescentes retardados é que um homem e uma mulher trocam beijos no acto de apresentação ou como forma de cumprimento.

08/10/08

O que admiras nesse espelho

John William Godward – The Mirror – 1899

O que admiras nesse espelho
e escondes na cercadura dos laços,
será fingimento, tortura ou
um prémio a cair-me nos braços?

O que vês quando olhas
para além do vidro dessa imagem,
será devaneio, mentira ou
o meu olhar preso na outra margem?

O que dirás se eu desfizer os laços
e colher-te rápido naquela margem
onde, por entre suspiros e abraços,
serás de ti para mim a tua imagem?

Cuarteto Cedrón - La cerveza del pescador Schiltigheim

Furores socráticos

Quem não desejaria ser iniciado em tais mistérios? Quem é que não deseja, ainda peregrino na terra, mas desprezando tudo o que é terreno e desprezando os bens da fortuna, esquecido do corpo, tornar-se comensal dos deuses e dessedentado pelo néctar da eternidade, receber, animal mortal, o dom da imortalidade? Quem não quererá ser inspirado pelo furor socrático, exaltado por Platão no Fedro, arrebatado em célere voo para a Jerusalém Celeste, fugindo rapidamente com um bater de asas daqui, isto é, do mundo, reino do demónio? Arrebatar-nos-ão, ó Padres, arrebatar-nos-ão os furores socráticos, trazendo-nos para fora da mente a tal ponto que nos coloquemos a nós e à nossa mente em Deus. E por eles certamente seremos arrebatados, se primeiro tivermos realizado tudo quanto está em nós: se, de facto, com a moral forem refreados, dentro dos justos limites, os ímpetos das paixões, de tal modo que se harmonizem reciprocamente com estável acordo, se a razão proceder ordenadamente mediante a dialéctica, inebriar-nos-emos, invocados pelas Musas, com a harmonia celeste. Então Baco, senhor das Musas, mostrando-nos, tornados filósofos, nos seus mistérios, isto é, nos sinais visíveis da natureza, os invisíveis segredos de Deus, inebriar-nos-á com a abundância da casa divina na qual, se formos totalmente fiéis como Moisés, a santíssima teologia, aproximando-se, animar-nos-á com um duplo furor. Sublimados, portanto, no seu excelso observatório, referindo à medida do eterno as coisas que são, que serão e que foram, observando nelas a beleza original, seremos, como vates apolíneos, os amadores alados até que num inefável amor, como invadidos por um estro, postos fora de nós e cheios de Deus como Serafins ardentes, já não seremos mais nós próprios, mas Aquele mesmo que nos fez.

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Extraordinário tempo deve ter sido o século XV. Arrebatamento, entusiasmo e furor parece não te faltado por lá.

O dom da fé

Quase que me esquecia. Ocupações diversas levaram-me a passar em branco a anunciação do retorno de Pedro Santana Lopes. Como é que é possível, depois dos desastres da governação e da câmara de Lisboa, ainda atribuir qualquer credibilidade a esta personagem política? Nem o cansaço da sua presença é suficiente para dar lugar a outros? Que país é este em que se está sempre disposto a perdoar a mediocridade? Santana Lopes parece despertar, como poucos, o dom da fé. E a fé é o que nos salva…

Nova maioria absoluta?

A época que vivemos não deixa de ser um óptimo refúgio para o governo de Sócrates. Apesar da economia estar à beira da recessão, apesar de em todas as áreas cruciais da governação existir um profundo desconforto, a verdade é que o terramoto da economia internacional veio da uma ajuda grande às gentes do governo. O conjunto de medidas anunciado para fazer frente à crise (aqui ou aqui) dá a ideia, à opinião pública, de que o governo está activo e governa. Se isto adicionarmos o temor do desconhecido e da instabilidade política, para além da ausência de alternativa consistente, podemos conjecturar que uma nova maioria absoluta está no horizonte dos possíveis de Sócrates. Lamentavelmente.

07/10/08

Doce Afrodite eis as rosas

John William Godward - An offering to Venus - 1912

Doce Afrodite eis as rosas
que me iluminam o andar.
Dá-me, terna deusa, uma mão
para poisar no regaço
e uma boca que me tome os seios
e me fira o corpo e me encha
a noite escura de cansaços.

Diana Krall - Cry me a river

A crise financeira e a escola portuguesa

Os professores portugueses andam, por ordem do governo, todos entretidos a determinar objectivos para serem avaliados. Os princípios da avaliação fundam-se em concepções retiradas da gestão de empresas. Muito desses princípios são análogos àqueles que orientaram a economia ocidental até ao presente buraco em que se encontra. O que se prepara na escola é, apesar de menos visível e espectacular, uma desgraça idêntica à do mundo da finança. Há um princípio comum que toda a gente percebe: no mundo da finança, vendia-se crédito a quem quer que seja, para atingir e ultrapassar os objectivos; na escola portuguesa, vão-se passar alunos sem saber nada, para atingir os ridículos objectivos que o delírio governamental impôs aos professores. Há muito tempo que descobri que a estupidez é uma coisa que se propaga a grande velocidade e tende para a dominação universal, nem as catásrofes a fazem recuar.

Rédea curta no mulherio

Admirável mundo novo! Mas o mundo de que quero falar não parece novo, mas saído há instantes da Idade Média. Na Arábia Saudita uma fatwa (édito religioso) proferido pelo xeque Muhammad al-Habadan determina que as mulheres quando saírem à rua, e não tenham a cara completamente coberta com um lenço, só poderão mostrar um olho, e não dois como tão desavergonhadamente faziam até aqui. Parece que é um reforço das regras de modéstia. No Irão, para não se ficar atrás no zelo com a modéstia, e depois de se ter criado um linha de táxis só para mulheres, criou-se um carro só para mulheres. Roídos de inveja, os judeus ultra-ortodoxos não perderam a oportunidade para imitar os seus arqui-inimigos. Criaram patrulhas de modéstia e assaltaram casas para agredir mulheres (acto honrado e heróico) por usarem “blusas vermelhas” ou por “conviverem com homens”. Por certo, blusas brancas são menos eróticas e o convívio de mulheres com mulheres é muito mais decente. Consta também que não gostam de modems de acesso à Internet e de leitores MP4 por causa dos downloads de filmes pornográficos. Será que isto nos vai contaminar? Não faltará por aí muito homem desejoso de pôr rédea curta ao mulherio.

06/10/08

Porque te defendes, pobre mortal

William Bouguereau - A Young Girl Defending Herself Against Eros (1880)


Porque te defendes, pobre mortal,
do deus que dispara a flecha incendiada?
Ao teu coração há-de consumir,
e fazer cinza do orvalho que se desprende
e corre em ti como um rio de lava
por entre a ravina de tuas pernas.

Porque afastas o deus
da vertigem da tua pele?
Chama-lo na noite,
mas quando chega feito ladrão
tudo em ti hesita e recua
sob a pálida candeia do luar.

Olha as folhas, na árvore amarelecem.
O Outono breve há-de vir
e em teu coração restará
apenas a poalha da tarde:
os meus dedos não te tocarão.

O Inverno está quase a chegar,
mas nunca mais em ti cantará a Primavera
e a redenção dos pássaros que voltam.

Porque te defendes, pobre mortal,
do deus que dispara a flecha incendiada?

Jan Garbarek - Molde canticle (1991)

Afinal, a culpa é da moral

Tem-se assistido, devido à crise financeira mundial, a um certo retrocesso da louvação do capitalismo e uma crítica acerada às políticas económicas provenientes da era Reagan. Mas o capitalismo, aquele que está em crise, encontra os seus defensores. Henrique Raposo, no útimo Expresso, faz a apologia do que se tem passado, criticando a criação do bode expiatórios (sejam eles e cito «“os bandidos da Wall Street”, os políticos e as sociedades ocidentais»). O curioso é a lição maior que o articulista tira: «A maior lição desta crise não está ao nível da regulação institucional dos mercados, mas sim ao nível da auto-regulação que cada indivíduo deve possuir perante a tentação do crédito. Eis, portanto, a conclusão mais dolorosa: o capitalismo permanece de pé, mas estamos a descobrir que ter casa não é para toda a gente. Em 2008, morreu a democratização da propriedade através do empréstimo bancário.»

Extraordinária lição. Imagine o leitor que perante uma onda avassaladora de crimes, onde as instituições de segurança se impedissem de interferir e regular a segurança dos cidadãos, viesse alguém dizer que o principal problema estava ao nível, não da acção política, mas da auto-regulação que cada indivíduo deve possuir perante a tentação do crime. Isto é para levar a sério? Mas como é possível não responsabilizar todos aqueles que induziram, com interesses e ganhos evidentes, pessoas que não podiam cumprir os seus compromissos a comprar casa? Parece que os culpados de uma derrota militar são os cozinheiros. Os generais e a estrutura responsável é que não pode ser responsabilizada e muito menos a ideologia subjacente, ou a estratégia seguida. Pensar que o problema é moral (auto-regulação dos indivíduos) é querer iludir-se e iludir os outros. O mercado deixado a si-mesmo tal como aconteceu gerou a situação em que vivemos. Agora diabolizar os milhões de pobres que se deixaram tentar pelos cantos de sereia dos gestores inovadores parece ser, assim, um acto de profunda inteligência e compreensão da natureza dos homens e uma óptima solução para o que se está a passar. O melhor ser prendê-los a todos, aos que ficaram sem casa, por atentado à moralidade. Ao mesmo tempo deve-se gratificar infinitamente a gestão política ocidental por se ter demitido da fiscalização e regulação da economia e promover todas as administrações das instituições falidas.

Notícias do paraíso

Olhemos apenas para a edição on-line do Público. O paraíso a que se chegou está aí em todo o seu esplendor: Autoeuropa pára produção de monovolumes por quebra na procura. Quer continuar na área da economia? Maior queda sempre para o PSI-20 (índice da Bolsa de Lisboa): quase dez por cento. Esta, um pouco anterior, também não é desinteressante: Lisboa cai mais de oito por cento e liderava mais um dia negro para bolsas europeias. Mais economia? Mercados antecipam contágio de crise financeira ao resto da economia. E do mundo da política, de que feição correm os ventos para nós, pobres europeus: NATO alerta para dificuldade de travar produção de bomba nuclear iraniana. Bem-vindos ao paraíso, ao admirável mundo novo.

05/10/08

Tudo se ilumina no fulgor da água

Paul Seignac – The Wave

Tudo se ilumina no fulgor da água.
E se a areia é um leito de penas e algodão
o corpo apenas pede à fria tormenta
que nele ateie o espelho de um vulcão.

Sob o signo da vulnerabilidade

O Presidente da República, no discurso do 5 de Outubro, veio falar nos tempos difíceis em que se vive e na necessidade dos agentes políticos não iludirem a realidade. Assim sendo, uma coisa já é oficial: os tempos que se vivem são efectivamente difíceis, de tal maneira difíceis que não há espaço para os iludir. Afinal a crise não é apenas um devaneio de uns quanto pessimistas de serviço. De um outro lugar, do lugar da Igreja, veio a opinião de Frei Bento Domingues: “Vivemos um tempo de incertezas que nos tornam vulneráveis sob o ponto de vista social, económico e afectivo.”

O equívoco de todas estas palavras reside na ilusão optimista que lhes está subjacente. Parece que é a crise ou as incertezas que apelam à verdade e nos tornam vulneráveis. Mas a realidade é completamente diferente. O homem é um ser por essência vulnerável. A vulnerabilidade está inscrita no seu ser e no ser das próprias comunidades e instituições em que o homem vive, e esta é a sua verdade. Não são os tempos difíceis ou de incerteza que nos tornam vulneráveis. Os tempos de crise e de incerteza apenas mostram a realidade que, noutras alturas, escondemos. Mais, nas alturas em que tudo parece correr bem, nem vemos a crise, a incerteza e o desespero que atingem os outros. Isto para não falar de que, muitas vezes, os tempos de certeza em que uma parte de nós vive se constroem na incerteza e desespero de terceiros. A vulnerabilidade do humano está sempre patente, o nosso olhar, porém, está demasiado inclinado para a querer ver.

A única solução, se é que há uma solução, é aprendermos a viver sob o signo da vulnerabilidade. Aceitar a condição que é a nossa, da nossa comunidade e das nossas instituições, aprender a lidar com essa vulnerabilidade e perceber que, para além do mundo da concorrência – mundo legítimo, aliás –, existe o mundo onde os homens cuidam da vulnerabilidade uns dos outros. Se quisermos pensar a essência do político, deveremos pensar não na concorrência que anima os mercados, mas na vulnerabilidade que leva os homens a desejarem cooperar uns com os outros. A vulnerabilidade própria e a necessidade do cuidado são os fundamentos da comunidade política. São eles inclusive que dinamizam a construção das instituições e a organização do Estado enquanto lugar onde impera a lei e o monopólio da violência legítima. A questão política então é: como poderemos mobilizar os cidadãos que vivem em comunidade para cooperar no fortalecimento de instituições que existem sob o modo de ser da vulnerabilidade? A verdade, todavia, é que o actual modelo de relações sociais está longe de ser, para largas franjas da população, mobilizador. Isso deveria preocupar aqueles a quem se entregou a direcção do Estado e a gestão dos negócios públicos. Será que preocupa?

5 de Outubro de 1910

Uma das poucas coisas que resta em mim da modernidade. Mas será a república uma coisa assim tão especificamente moderna? A antiguidade clássica desmente-o.

04/10/08

O tempo é uma rosa de aço

John Everett Millais – A Beauty

O tempo é uma rosa de aço
e estrangula-te a face ao cair das pétalas.
Se a beleza ainda reflecte o meio-dia,
já a noite descai do olhar
e uma penumbra cresce
no vazio, ele te espera.

Um rosto. O que é um rosto
banhado pelo calor do luar?
Uma planície de cicatrizes
onde os vendavais deixaram
pela tarde sulcos; aí
correm rios de lágrimas.

A tudo isso o tempo o traz,
no segredo que envolve cada pétala
da rosa que nasce na hora
em que o negro ferro que passa
se transforma na espada vibrante
onde canta sereno o aço.

Léo Ferré - Avec le temps

A minha desrazão II

Num post anterior referi o sentimento desagradável que tinha perante a referência de Jean-Claude Trichet, a propósito da crise financeira, à II Guerra Mundial. O carácter desagradável do sentimento intensificou-se com as afirmações israelitas de que a Coreia do Norte teria fornecido meios a seis países do Médio Oriente para estes construírem armas de destruição em massa. Independentemente da parcialidade das afirmações dos israelitas, a verdade é que há vontade política no Médio Oriente para obtenção dessas armas e, por certo, também haverá vontade em fornecer-lhas, de forma mais ou menos discreta. Os sinais são preocupantes, muito preocupantes, desde há alguns anos. Mais, essa preocupação só pode aumentar quando esses sinais provêm de múltiplos lados e de diferentes patamares da realidade (economia, política, religião, cultura). Aquilo que pressinto mais do que vejo, na leitura dos acontecimentos mundiais, é uma erosão contínua do Ocidente, erosão essa que começou de forma muita lenta, mas que se tem vindo a tornar cada vez mais rápida. Não creio que o problema seja económico. A falta de vitalidade do Ocidente é a muitos níveis e aquilo que temos visto, ao nível dos desafios político-militares, até agora são apenas e só pequenos ensaios para testar a capacidade de resposta ocidental.

Houve um acontecimento decisivo que me levou, já há muitos anos, a dar atenção a alguns problemas inusitados e que pouco interessavam o comum dos mortais. Esse acontecimento foi a revolução iraniana de Khomeiny, nos anos 70, e a instauração de uma teocracia. Na altura, fiquei de boca aberta. E tentei perceber algum do pensamento que estava por trás do episódio. Aquilo que fui descobrindo, ao longo destes anos, está longe de me tranquilizar. A intranquilidade cresce à medida que o poder militar e económico do Ocidente entra em declínio (no outro dia Pulido Valente pediu desculpa a Mário Soares por o não ter levado a sério quando este começou a falar no declínio dos EUA). A intranquilidade intensifica-se quando muitas das políticas ocidentais têm contribuído para erosão do seu poder e atinge o paroxismo perante a descrença da opinião pública sobre a possibilidade de agravamento drástico da situação. Há muitos anos que percebi que o estado de guerra é a natureza das relações internacionais (obrigado Zé pelo Levinas). A paz - e toda a paz é uma paz particular (a paz ocidental ou a paz oriental ou… ou…), isto é, a paz sob condição de uma potência dominante - só se assegura pelo medo. Essa foi uma das lições, embora sem novidade, da Guerra-Fria. Eu creio, talvez por ser ocidental, que a paz ocidental é mais justa e mais pacífica e mais respeitadora das liberdades do que qualquer outra. Não faltará quem discorde de mim.

03/10/08

A súbita tristeza que se abate

Raphael Soyer – After the bath -1946

A súbita tristeza que se abate
apenas o seio a disfarça.
Se o corpo nu se abre ao olhar,
não é a leveza que o ordena.
Toalha na mão, a roupa caída,
duas sílabas esventradas pela garganta
e a doce amabilidade
é agora um poço misterioso
ou uma rocha firme sujeita
ao tempo e à noite,
ao império da gravidade.

Jornal Torrejano, 3 de Outubro de 2002


Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, Carlos Henriques escreve Sporting em perda, Carlos Nuno, Viva a escola, Inês Vidal, Meias tintas, este blogger, Pós-modernidades, José Ricardo Costa, Casa de chá, Miguel Sentieiro, O Pombo.

Para a semana há mais, se os deuses estiverem para aí voltados. Bom fim-de-semana.

Reconheçamos…

Nada pior do que a auto-ilusão. Podemos não gostar do governo e de Sócrates, mas é preciso reconhecer que nem tudo lhe está a correr mal. As sondagens começam a sorrir-lhe e agora a Argentina também quer o Magalhães (estas coisas impressionam o eleitorado). Para cúmulo não existe oposição. A de esquerda é mais dinâmica, embora tenha perdido intenções de voto, mas não é oposição para tomar conta do poder. A de direita pode tomar conta do poder, mas não tem energia nem propostas diferenciadas do governo actual. O mais natural é o eleitorado continuar nos braços dos socialistas. Pelo menos sabem com o que contam: não contam com grande coisa, mas sempre haverá animação, Magalhães, Internet, quadro electrónicos, e o mais que a tecnologia acender na imaginação dos zorrinhos do governo. Pode ser que não seja nada. No fim de contas, já vivemos assim há uns 900 anos e a coisa lá vai correndo.

Vasco Pulido Valente - O começo do fim

Dizem que ganhou Obama. Por mim, achei McCain mais seguro. De qualquer maneira, para lá da polémica e da propaganda, o que emergiu pouco a pouco do debate foi o fim da América como a potência dominante do mundo - a "hiperpotência", para usar o calão dos peritos. Que me lembre, em Portugal, só Mário Soares falou sobre o assunto e ninguém o levou muito a sério (aproveito agora para lhe pedir desculpa). Mas para continuar: Obama e McCain definiram com toda a clareza os compromissos globais da América (embora com uma significativa discordância) e, como os definiram, esses compromissos, não são cumpríveis. Nem militar, nem económica, nem politicamente.

Obama, que durante a campanha "moderou" as suas posições, quer "sair" do Iraque daqui a um ano e meio. Tirando o erro inconcebível de marcar uma data, se no futuro previsível a América sair do Iraque, deixa atrás de si - no Iraque e no Médio Oriente - uma desordem perigosíssima e sem conserto. McCain julga que o surge do general Petraeus está a ganhar a guerra. Não está; e entretanto a guerra custa 10 biliões de dólares por semana e já custou até hoje perto de um trilião de dólares. Pior ainda: o fracasso da intervenção usou e desgastou o exército americano muito para além do tolerável e o recrutamento começa a ser difícil. Para recuperar, a América precisa de anos de paz (como precisou depois do Vietname). Infelizmente, não haverá paz tão cedo.

Mesmo que Obama acabe com a aventura do Iraque (uma pura fantasia eleitoral), é para transferir o grosso das tropas para o Afeganistão, que ele considera o objectivo principal. McCain também vê a maior necessidade de "reforçar" o Afeganistão. Nem um, nem outro devem perceber o esforço económico e humano que o exercício implica ou a irracionalidade de transformar, a tiro, um país tribal num Estado moderno. Nada lhes parece insensato ou extremo: impor à Rússia uma fronteira da NATO do Báltico ao mar Negro; "defender" a Geórgia; impedir (por que meios?) que o Irão venha a ter qualquer espécie de armas nucleares; fazer com que a Coreia do Norte inutilize as que tem; e, evidentemente, "reorganizar" a Venezuela e a Bolívia. A América pensa (e continua a agir) como uma "hiperpotência". É uma ilusão. A tecnologia militar não chega. Sem peso político, sem uma clara hegemonia económica e sem um exército praticamente inesgotável (e dinheiro para o pagar) existem limites que é mortal passar. E a América "sobreestendida" e dependente de 2008 passa, dia a dia, esses limites. [Público, 3 de Outubro de 2008]

02/10/08

Não te sentaste em Trouville tão velada

Claude Monet - Camille on the Beach at Trouville


Não te sentaste em Trouville tão velada,
mas comigo passeaste pela imprecisa areia,
e a cada momento esperámos que
Claude e Camille chegassem na elegância
daquelas dias, a morte os esquecera.

Havia um céu de chumbo e bandeiras ao vento,
e grupos de crianças corriam pela praia,
mas o tempo roubara os parcos veleiros
e nada cavalgava então as ondas,
talvez as nuvens enlouquecidas de Agosto
ou gaivotas desterradas ao frio do norte.

Foi aí que sorrimos um ao outro
e dissemos sim, também aqui amámos
e bebemos vinho e caminhámos para o mar.
Habitava-nos uma serpente de fogo
e éramos crianças tardias a descobrir o amor
nas areias onde Claude assim amou Camille.

Maria Callas - Habanera (1962)

Benfica 2 - Nápoles 0

Se isto continua assim, não tarda nada que se abata, sobre a águia, uma daquelas campanhas que ajudaram, com auxílio da estupidez interna, em tempos já recuados, a transformar o clube mais ganhador de Portugal numa potência de terceira ordem. Não basta ganhar, é preciso cabeça fria. No futebol a cabeça também joga. No Benfica, há muito que se joga apenas com os pés, e mal.

A minha desrazão

O Público escreve isto: “O Presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, afirmou hoje que a actual crise financeira constitui um acontecimento “sem precedentes desde a II Guerra Mundial” e pediu uma maior cooperação dos países europeus para a enfrentar. “Nada no passado se assemelha ao que assistimos actualmente”, afirmou o líder da entidade central, em entrevista ao canal de notícias France 24, antes de acrescentar: “Os acontecimentos que enfrentamos são provavelmente os mais graves desde a II Guerra Mundial”. Não sei se estaremos a perceber o que se vai dizendo. Sinto muita comichão quando vejo em tão curto espaço duas referências à II Guerra Mundial. Parece que eu sou pessimista, mas gostava que o optimismo reinante me mostrasse a minha desrazão.

Sobre o acaso

«- Enganas-te quanto à escala do drama; reduzes-lhe as proporções. É por essa razão que desde há um ano abundas em pequenas vaidades e em pequenos escrúpulos, o que é a mesma coisa. Espero que isso tenha agora acabado. Em todo o caso, escuta-me bem, pois vou dizer-te coisas difíceis. E eis a primeira: não foi por acaso que nos encontrámos. O que poderá constituir o teu primeiro tema de meditação: o acaso não existe. Não é pelo facto de duas nuvens se aproximarem que o relâmpago salta, é para que o relâmpago salte que as nuvens se aproximam. Compreendeste?» [Raymond Abellio, Os Olhos de Ezequiel Estão Abertos]

01/10/08

O que serão as flores

Charles Courtney Curran - Garden Walk


O que serão as flores
quando forem apenas flores
em tua mão?

Um traço de luz, uma ilha escondida,
talvez uma página de assombro
na tarde desmedida.

O que serão as pétalas
quando forem apenas pétalas
em tua mão?

Uma nuvem, um astro no céu,
talvez uma lágrima de cristal
sob a sombra do véu.

O que serás tu
quando fores apenas tu
em minha mão?

Um anjo, uma égua alada,
talvez uma águia a cavalgar
pela noite incendiada.

O apóstolo Paulo


- O apóstolo Paulo tinha um emprego oficial?

- Não. Paulo não tinha emprego oficial.

- Tinha acaso uma outra maneira de ganhar muito dinheiro?

- Não, não tinha nenhuma maneira de ganhar dinheiro.

- Era, ao menos, casado?

- Não, Paulo não era casado.

- Mas então Paulo não era um homem sério?

- Não, Paulo não era um homem sério. [Kierkegaard]

Santana Castilho - O Magalhães, o porco e o Sócrates (o outro)

Sobre o Magalhães (refiro-me ao computador português feito no estrangeiro) já se escreveram muitos e interessantes comentários, uns a favor e outros contra. Tudo visto, parece-me que resta uma generalizada (mas para mim preocupante) aceitação da medida. Ouviram-se escolas e professores sobre a iniciativa? Não, porque por elas pensa a ministra, para quem o Magalhães constitui "o instrumento principal da democratização do ensino"; ponderou-se o impacto que a tecnologia tem na melhoria do aproveitamento escolar dos jovens, analisando estudos disponíveis sobre a matéria, que concluíram pela sua irrelevância? Não, porque o coordenador do Plano Tecnológico já disse ao que vai: dois alunos por computador em 2010!Dou de barato não saber que critérios presidiram à escolha deste computador e não de outro, da Intel ou da empresa de Matosinhos, e simplesmente não engulo a fantasia da ausência de custos para o Estado. Mas o que acho verdadeiramente preocupante é a generalizada adesão ao culto duma modernização pacóvia, que tudo resume ao mero mercantilismo (e não utilitarismo, como muitos impropriamente referem o conceito que, enquanto teoria filosófica, é coisa bem diferente). A formação sólida, que constitui a missão da Escola e dos professores, deve assentar numa clara hierarquia de valores: primeiro o conhecimento puro, depois o instrumental. Mas o que se tem feito ultimamente é a secagem das actividades cognitivas, substituindo-as pelas meramente instrumentais. Foi assim que se trocaram clássicos da literatura por textos ditos pragmáticos (simples formulários, notícias jornalísticas ou mensagens publicitárias) e se preferiram as actividades conducentes à aquisição de "competências" em detrimento das actividades de forte componente cognitiva. Foi assim que se enfraqueceu o ensino da Gramática, da Filosofia e da História e se reforçaram iniciativas híbridas ("área projecto" e "estudo acompanhado"). Surpreendente? Não, se tivermos em vista que quem decide são tecnocratas deslumbrados pela tecnologia e convencidos que os "bichavelhos" são suficientes para educar o povo.Parece-me evidente que há mais gente satisfeita com este bodo de Magalhães a eito que gente insatisfeita e ciente, como eu, de que as crianças do ensino básico não vão aprender melhor a ler e a interpretar o que lerem por causa dos computadores; ou de que não aprenderão mais cedo e melhor a Matemática fundamental por via do Magalhães; ou de que não se iniciarão precocemente na actividade de pensar e perceber o que as rodeia, por via do portátil. E é aí que reside o problema: fornecer tecnologia sem cuidar da literacia que a permite utilizar é drasticamente pobre. O impacto da componente cognitiva do ensino só pode ser comparado com o da sua vertente instrumental por quem conhece as duas e tem do exercício profissional uma autoridade que os tecnocratas desprezam. O tecnocrata é por norma e por formação pouco sólida um fanático da tecnologia, que com ela se satisfaz e nem sequer aprende com a natureza efémera de tantos projectos tecnológicos (lembram-se do ensino assistido por computador, do Minerva, do Nónio, das Cidades Digitais e do endereço electrónico para cada português, entre outros?). Stuart Mill referiu-se assim a esta questão fundamental do pensamento e da natureza humana:"É indiscutível que o ser cujas capacidades de prazer são baixas tem uma maior possibilidade de vê-las inteiramente satisfeitas; e um ser superiormente dotado sentirá sempre que qualquer felicidade que possa procurar é imperfeita. (...) É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; um Sócrates insatisfeito do que um idiota satisfeito. E se o idiota ou o porco têm opinião diferente, é porque apenas conhecem o seu lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados..." [Público, 01 de Outubro de 2008]

Sob o princípio da irresponsabilidade

A vida não deixa de ser irónica. Há dez anos atrás alguém imaginaria ver um primeiro-ministro russo dar lições de economia e de resolução de crises económicas aos americanos? Não há quadro mais claro da humilhação americana do que as palavra de Vladimir Putin: “Não é tanto a irresponsabilidade de pessoas em concreto, mas sim a irresponsabilidade do sistema que, como é de conhecimento público, tenciona ser líder mundial”. Assim, da irresponsabilidade da regulação económica Putin passa e torna clara a irresponsabilidade na gestão dos negócios políticos mundiais.