16/09/08

Tudo apela à cegueira, o sol nas águas

William Holman Hunt - Fairlight Downs, Sunlight on the Sea


Tudo apela à cegueira, o sol nas águas
reflectido, o fogo na linha do horizonte,
o excesso de realidade a abrir-se para mim.
Antigamente sonhava com casas de colmo
e barcos a velejar ao longe, levados
pelo vento suave que de tuas mãos se desprendia.

Mas isso foi antes de ter entardecido…
Os rebanhos foram vendidos,
a erva secou e um incêndio esmaltou a negro
o lugar onde se erguiam as frágeis cabanas,
nelas abrigávamo-nos das intempéries
e eu oferecia-te flores silvestres
e em tuas mãos havia frutos
e um rumor de luz humedecia-te os lábios.

Agora, se chega a primavera, apenas oiço
os pássaros a anunciar o cansado coração
e se olho o mar, não é o azul do céu que vejo,
mas a sombra das hienas que se estende
pela planície que da tarde vai até ao amanhecer.

W. G. Sebald - Campo Santo


Nos dias que passaram em Paris, os dois amigos [Max Brod e Franz Kafka], um tanto abatidos, visitaram diversos lugares e tentaram a sua sorte ao amor num bordel «racionalmente mobilado» com «campainha eléctrica», onde tudo era feito com tal despacho que os clientes se viam de novo na rua quase sem darem por isso. «Ali», escreve Kafka, «é difícil ver as raparigas bem de perto […] Na realidade, só tenho na memória a que estava sentada mesmo na minha frente. Tinha frinchas entre os dentes, esticava-se toda para cima e, segurando o vestido amarfanhado sobre as vergonhas, fechava com força tanto os olhos grandes como a boca grande. O cabelo louro estava sujo. Era magra. Medo de me esquecer de tirar o chapéu. É preciso agarrar bem a aba com a mão». Até o bordel tem que ser comme il faut. «Solitário, longo, sem sentido, o caminho para casa», conclui a nota.

O juiz Vital

Vital Moreira, na sua cruzada pelo governo de Sócrates, escreve, no Público de hoje, sobre educação e a maravilhosa reforma que nela está a ocorrer. A cegueira sectária, o desconhecimento da realidade, a incapacidade de pensar sobre o que diz, a impotência para perceber o que realmente se passa explicam os delírios a que um dos pais do actual regime se entrega no artigo. No comentário que Paulo Guinote faz no seu Umbigo à prosa vitaliana, compara-o, na cegueira ideológica, a Graça Moura dos tempos do Prof. Cavaco primeiro-ministro. Há uma coisa, porém, que Graça Moura tem vantagem: é um bom poeta e um excelente tradutor de poesia, e isso perdoa muita coisa. Não se conhece veia artística no professor de Coimbra, apenas o azedume da ideologia a ferver no caldeirão do direito constitucional, e uma propensão geral para se enganar nos juízos políticos idêntica à persistência com que teima em fazê-los.

Vícios privados


Dantes gostava de ir às livraras e às discotecas ver o que havia e comprar alguma coisa que me interessasse e não excedesse por aí além o orçamento previsto. Era um prazer público. Mas dois acontecimentos concomitantes vieram diminuir esse gosto. Por um lado, o desenvolvimento do comércio electrónico, nomeadamente, o surgimento dessa verdadeira instituição de utilidade para o público que dá pelo nome de Amazon. Por outro, a falência da memória pessoal. Muitas vezes estou numa livraria ou numa discoteca e pergunto-me se já terei comprado aquele livro ou CD. Sinto-me perdido também por outro motivo. Quero ver se há livros novos de um autor e quando chego à livraria não consigo recordar-me qual é o nome dele, apesar de saber as obras que li dele. É um momento de angústia, não saber onde procurar o que quero. Assim tenho vindo a substituir a compra pública pela privada.

Por exemplo, no outro dia fiz anos e decidi, depois de consultar as estantes, oferecer-me, nesse mesmo dia, um presente. A Amazon francesa estava a vender a 4 euros CD’s de jazz, fora o IVA e o transporte. Comprei 20, entre eles oito de Miles Davis. Quando chegaram, por acaso, fui comparar os preços dos CD’s de Davis, adicionando IVA e transporte, com os praticados por cá pela FNAC. Descobri que os tinha comprado a metade do preço. Eu sei que isto mata os espaços nacionais e locais, mata também a ida aos lugares públicos, o encontro com os outros e transforma o mundo numa virtualidade. É tudo verdade, mas também é verdade que a vinda do correio se tornou muito mais emocionante. Abrir a caixa do correio e encontrar lá o CD ou o livro comprado há dias é uma espécie de rememoração dos tempos em que os apaixonados trocavam cartas de amor em vez de sms’s. Não há nada como os vícios privados.

15/09/08

Chamei-te para ensombrares

Henri Fantin-Latour -The Queen of the Night

Chamei-te para ensombrares
os meus sonhos mais longínquos
e para esquecer os devaneios da luz,
mergulhado num mar de carvão
ou agrilhoado naquela inútil melancolia
de sombras pelas paredes desenhadas.

Como todas as rainhas, dormes
sobre o desejo de cada súbdito
e esqueces o frágil coração a arder.
Por isso, nenhum anjo te acordará
nem um deus cantará para ti
uma alegre canção de embalar.

Se a noite me empurra porta fora,
resta-me espreitar pela janela.
Oiço-te respirar no silêncio das nuvens
e conto cada rosa que colhi
para traçar o teu nome
com o sangue impreciso desta mão.

Para os viciados em educação

Pronto! Não me apetece falar de escolas, de educação e de outras coisas insensatas. Mas para quem estiver viciado deixo dois links para satisfação da conduta aditiva: Ponteiros Parados e Portugal dos Pequeninos.

A coisa está má...

Neste admirável mundo novo, se escaparmos à crise económica que aí vem, há ainda a esperança de que a humanidade não resista à pandemia da gripe das aves. Se também esta falhar, que não se desanime, pois há os furações, o degelo, enfim, o efeito estufa e o aquecimento global. Mesmo assim se a peste humana teimar em permanecer neste malquisto planeta, há sempre a solução da guerra nuclear.

Um caso patético

Há qualquer coisa de patético em Luís Filipe Menezes, o presidente de câmara que se acha um Ferrari da política. Agora atira-se a Marcelo Rebelo de Sousa, como ontem se atirou a Manuela Ferreira Leite e anteontem a Luís Marques Mendes. Menezes é, segundo a sua visão política, um génio incompreendido. É por isso que, perante o pathos que Menezes provoca, nunca se sabe bem se se deve chorar ou rir. Tornou-se um caso patológico dentro da infecção geral que é o PSD.

O planeta Economia

A economia é um estranho planeta onde os pobres mortais como nós, seres humanos, não deveríamos entrar. Veja-se a série de títulos de hoje, no Público on-line, sobre a economia mundial: 1. Lehman Brothers, um dos maiores bancos dos EUA, declara falência, 2. Bolsa de Nova Iorque afunda penalizada pelo Lehman e Merrill Lynch, 3. BCE injecta 30 mil milhões de euros para acalmar mercados financeiros, 4. FMI não está surpreendido com a falência do Lehman Brothers e espera mais consequências, 5. Bolsa de Lisboa acompanha resto da Europa em forte queda, 6. Bush acredita na capacidade do mercado para enfrentar "ajustamentos", 7. Teixeira dos Santos surpreendido com duração da instabilidade nos mercados financeiros, 8. Joseph Stiglitz prevê crise com menor impacto do que a Grande Depressão de 1929. Como se vê, estamos a caminho do paraíso, independentemente das capacidades proféticas, provadas ou a provar, de Bush, Teixeira dos Santos e Stiglitz. Este deixa-nos completamente tranquilos: profetiza que a crise será menor do que a de 1929, aquela que levou ao nazismo e à guerra mundia. Esta se provocar apenas outra guerra mundial já não terá tanto impacto como a anterior, digo eu. Por exemplo, uma guerra mundial sem nazismo é muito melhor do que uma guerra mundial com nazis. Mas isto são palavras de uma alienígena no planeta Economia.

14/09/08

O mundo das coisas domésticas

William Chase – Alice in Studio in Shinnecock Long Island

O mundo das coisas domésticas,
onde poisas os olhos, é tão brando
e imaculado como o assombro
que vem do outro lado do espelho.
Nele tudo se reflecte, os lírios
debruçados sobre o mar,
a luz da lua ao entardecer,
o itinerário dos pobres a pedir,
o uivo quebrado do cão ao meio-dia.

Só os teus dedos são um cálculo
onde conto todos os átomos deste mundo,
para depois os separar um a um
e reconstruir, no ócio dos domingos,
outros mundos, como se tudo
fosse apenas um jogo de lego,
recebido num natal de há muitos anos.

Cansado de te olhar, deixo-te
suspensa no tempo e roubo a tua imagem
do espelho para fugir com ela
para aquele lugar de lego fabricado,
onde não haverá sonhos nem pesadelos
nem um rio por onde chegues
naquele barco onde caronte é o barqueiro.

Ainda sobre filosofia e literatura

Ainda sobre Filosofia e Literatura. É muito curioso que Kant comece o Capítulo III da Analítica dos Princípios - denominado "Do princípio da distinção de todos os objectos em geral em fenómenos e númenos", capítulo que tem um lugar central no pensamento do autor - com uma homenagem não a um filósofo, mas ao pai da literatura ocidental, a Homero. Todo o texto do post anterior ecoa as aventures de Ulisses para retornar à pátria. Que o resumo que um autor como Kant faz do seu próprio pensamento seja feito por referência à arte poética e não à filosofia ou à ciência mostra bem a natureza do núcleo central da filosofia. Por baixo da carapaça lógico-argumentativa encontra-se a dimensão da metáfora e da poesia. Nem Kant conseguiu fugir.

Um texto de Kant para o Zé Ricardo

Por causa de uma certa conversa sobre filosofia e literatura, aqui vai um texto de Kant retirado desse compêndio de insipidez literária que é, diz-se, a Crítica da Razão Pura. Ora vejamos:

«Percorremos até agora o país do entendimento puro, mas também medindo-o e fixando a cada coisa o seu lugar próprio. Mas este país é uma ilha, a que a própria natureza impõe leis imutáveis. É a terra da verdade (um nome aliciante), rodeada de um largo e proceloso oceano, verdadeiro domínio da aparência, onde muitos bancos de neblina, e muitos gelos a ponto de derreterem, dão a ilusão de novas terras e constantemente ludibriam, com falazes esperanças, o navegante que sonha com descobertas, enredando-o em aventuras, de que nunca consegue desistir nem jamais levar a cabo. Antes, porém, de nos aventurarmos a esse mar para o explorar em todas as latitudes e averiguar se há algo a esperar dele, será conveniente dar um prévio relance de olhos ao mapa da terra que vamos abandonar, para indagarmos, em primeiro lugar, se acaso não poderíamos contentar-nos, ou não teríamos, forçosamente, que o fazer, com o que ela contém, se em nenhuma parte houvesse terra firme onde assentar arraiais; e, em segundo lugar, perguntarmos a que título possuímos esse país e se podemos considerar-nos ao abrigo de quaisquer pretensões hostis.» (Kant, CRP, trad. portuguesa de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Gulbenkian, pp. 257)

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O que é extraordinário neste texto é o recurso de Kant a uma belíssima metafórica para resumir todo o seu pensamento sobre a metafísica enquanto ciência. Se alguma vez voltasse a ensinar Kant, começaria por este texto. Quando, nas aulas de Filosofia Contemporânea, o professor, Manuel do Carmo Ferreira, o atirou para a nossa frente ficámos todos de boca aberta. Alguns de nós já o tínhamos lido, mas de facto não o tínhamos "lido". São estas "pequenas" coisas que se devem aos grandes professores.

13/09/08

Caminho na multidão de folhas mortas

John Atkinson Grimshaw – October Gold

Caminho na multidão de folhas mortas
e penso em todos os outubros
que haverá no silêncio do paraíso.
O sol será frio e apenas me aquecerá
uma aguardente de uvas maceradas
pela inconstância de tuas mãos.

Pergunto-te, na liberdade que há
em todos os paraísos, pelas cores
que tingem os céus e pelos cheiros
que se desprendem das destilarias.
Mas nada respondes,
fechado no silêncio a que deste
o nome de eternidade.

Um pouco mais tarde, levanto-me
e guiado pela flutuação do astro
sigo caminho, entre paredes de tijolo,
pisando o mosto que cada dia
deixa na senda por onde
não mais retornarei para colher,
sob a luz filtrada do entardecer,
rosas e bagas silvestres.

Andrew Chubb plays Hans Otte - 'The Book of Sounds' - Part 5

O que será que os junta?

Há qualquer coisa que junta Aníbal Cavaco Silva e Maria de Lurdes Rodrigues. Se não tivesse vivido a reforma cavaquista da educação, não teria percebido. Mas quem a viveu, percebe muito bem que há coisas que unem ambas as políticas: a irrelevância do ensino, a transformação da escola pública num interminável jardim de infância. Mas esta estima mútua é também, e talvez fundamentalmente, cultural, como se ambos pertencessem ao mesmo mundo e tivessem um inimigo comum e oculto: o mundo dos intelectuais e da cultura, mundo esse que deve ser expulso rapidamente e em força da escola pública.

12/09/08

Na pureza geométrica onde a razão desdenha

John Atkinson Grimshaw – In the Pleasaunce (1875)

Na pureza geométrica onde a razão desdenha
dos enigmas do sentimento senta-se
uma sombra tão leve como esta folha de papiro.
Ali escondo, em cerrada cifra, todos os segredos
do rio que escorre dos cântaros do teu coração.

Que fazer se o sol te ilumina o rosto
e toda a alma nele se reflecte? Se ocultavas
a perturbação que de ti se apossara
a luz abriu o cofre e o tesouro de cinza e sangue
entrega-se ao vento da tarde que pela vida o deixará.

Jornal Torrejano, 12 de Setembro de 2002

Cá está ela, a nova edição on-line do Jornal Torrejano. Para primeira página temos o magno problema da transferência de competências das escolas: câmaras querem salvaguardar orçamento e uma entrevista com o Presidente do Atlético Alcanenense.

Na opinião, como sempre, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, Carlos Henriques escreve Voltaram as selecções, Francisco Almeida, Corações escondidos, este blogger, Meditações reaccionárias, José Ricardo Costa, O pequeno-almoço, Miguel Sentieiro, Noves fora e Santana-Maia Leonardo, A minha proposta para o 2.º e 3.º ciclo do ensino básico.

E assim ficou, por aqui, a notícia das notícias. Bom fim-de-semana.

Envelhecer

Quando um governo institui um cheque para premiar o melhor aluno de cada escola, e eu não consigo compreender a bondade educativa da iniciativa, então é porque já estou completamente fora da realidade e os valores sob os quais fui educado perderam todo o sentido. Talvez envelhecer não seja outra coisa do que esta incompreensão estrutural para os novos valores que outros velhos como eu querem impor ao mundo.

Os trabalhos do Papa Ratzinger


Bento XVI é dos poucos homens públicos europeus que vale a pena escutar. Há nele, apesar do ar seráfico com que compõe a sua personagem papal, uma urgência e quase um desespero. Por vezes, penso que essa urgência e esse desespero têm menos a ver com a religião católica e mais com a percepção de que sem o cristianismo a Europa deixará de ser o que é. Na visita a França, hoje iniciada, o problema da diminuição de católicos (80% nos anos 90 do século passado, cerca de 50% hoje em dia) terá, por certo, um enfoque religioso, mas o problema civilizacional não deixará de estar subjacente ao discurso de Ratzinger. O papa sabe perfeitamente que não há vazios religiosos. O ateísmo, o agnosticismo e a indiferença religiosa são apenas o compasso de espera onde outros valores religiosos crescerão e abafarão o cristianismo. Mas sem este, o que alimentará os valores que nasceram dele, como a liberdade?

Adenda: para ler o discurso de Bento XVI hoje no Palácio do Eliseu e perceber a sua preocupação civilizacional, clicar aqui.

Chávez manda EUA para o c...

É o que se chama uma mensagem clara e distinta. Parece que a América Latina se está a tornar um pesadelo para os EUA. Não bastava o Afeganistão e o Iraque, agora até os humores sul-americanos se estão a tornar demasiado agrestes. Como reagirá o eleitorado americano? Confiará em Obama para apaziguar os vizinhos do sul ou continuará a escolher a política musculada dos republicanos? Uma coisa, porém, é verdade: os Chávez da América Latina estão muito longe de morrerem de amores pelo americanos. E quem pensa que o fim de Fidel é o fim de Cuba castrista talvez se engane.