03/07/08

Exodus - X

O endurecido coração entrega-se às trevas da manhã
e no rasto sombrio ergue a vara de salgueiro.
Encostado ao bordão de cinza deixa-se flutuar,
como se máquina de aço inoxidável fora.
Árvores cobrem-se de folhas e, num prenúncio
do tempo a vir, juncam de sombra o chão.
Ali os cães gatinham entre leves ganidos em busca
da floresta, da casa que um dia por decidida
morada terão. O Sol, cintilante astro de ruídos
e tumultos, contrai-se e torna-se a cada dia
mais pequeno, perdido o fulgor de forasteiro,
nestas casas por hóspede não se quer.

Severas imagens assim se projectam diante
do olhar, os jardins suspensos por cordas de sisal,
ranúnculos, anémonas, jacintos-de-água e uma
violeta de ferro vinda das terras, negras praias, da monção.
Se pudesse contar-te um conto de fadas, príncipes,
leves princesas, compreenderias a férrea violeta,
nestes jardins à gravidade tão avessos. Acode-me
uma palavra de névoa, mas logo a esqueço
e se me inclino para dizer o teu nome,
suave delíquio atormenta a fronte, dobra-a
em direcção à sombra e recolhe no segredo
as palavras, todas as que tinha para dizer.

Em silêncio olho as falenas. Anunciam os odores
que os pés paralisam e os prendem às janelas
onde o tempo se vê passar, entristecido
de a si se ter perdido no rio que não desagua.
Atravessado bem no centro por tão triste caminhante,
o coração, endurecido coração, envolve-se
na crosta, o sangue ao secar sobre ele a faz cair,
até os olhos se calarem.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Isto é tudo uma grande mentira

Medina Carreira em grande forma. Vale a pena ouvir:

http://sic.aeiou.pt/online/scripts/2007/videopopup2008.aspx?videoId={1D4B7A66-F406-41EC-A76B-F85F44E18D3C}

Schopenhauer - Da influência da música

Mas a música, que vai para além das Ideias (platónicas), é completamente independente do mundo fenomenal; ignora-o em absoluto, e poderia, de qualquer maneira, continuar a existir, mesmo que o universo não existisse; não se pode dizer o mesmo das outras artes. A música, com efeito, é uma objectidade [uma existência em si independente dos sujeitos], uma cópia imediata de toda a vontade que é o mundo, como o são as próprias Ideias (…). Ela não é, como as outras artes, uma reprodução das Ideias, mas uma reprodução da Vontade ao mesmo nível das Ideias. É por isso que a influência da música é mais poderosa e mais penetrante que a das outras artes; estas apenas exprimem a sombra, enquanto a música fala do ser. [Arthur Schopenhauer, Le monde comme volonté et comme représentation]

Urgência em aprender filosofia?

Graças ao Zé Ricardo Costa cheguei a este artigo do Guardian on-line: Schools of thought: teach children philosophy, experts urge. Quais os argumentos dos drs. Michael Hand e Carrie Winstanley para defender a presença da filosofia no currículo escolar desde bem cedo? Enumeremo-los:

1. Pensadores críticos são pessoas que raciocinam bem e que julgam e agem com base no seu raciocínio.
2. Para se tornarem pensadores críticos, as crianças devem aprender o que constitui um bom raciocínio e por que motivo é importante – e isto são assuntos filosóficos.
3. Melhor do que qualquer outro assunto, a filosofia ensina as crianças como avaliar razões, defender posições, definir termos, avaliar fontes de informação e julgar o valor de argumentos e de evidências.
4. A filosofia também permite às crianças mais novas comprometer-se em discussões e argumentações mesmo antes de saber muito.
5. A filosofia tem um papel importante no ensino de problemas controversos, como o aborto, da análise conceptual na escola primária e na educação moral e religiosa.
6. A filosofia é importante também na educação para a inteligência filosófica dos temas da literatura infantil, na busca de sentido por parte dos adolescentes e na busca da sabedoria (entendida como forma de se saber comportar na vida).

Estes argumentos, que mostram bem a necessidade de uma entrada mais larga da filosofia no currículo escolar, são claramente argumentos que, em Portugal, têm conduzido a uma restrição da importância da filosofia no ensino secundário. O que a filosofia faz é tornar os jovens em pensadores críticos. Mas será que a nossa sociedade e os nossos dirigentes políticos têm qualquer interesse na produção em larga escala de gente que pense criticamente? Se olharmos para as medidas do actual ministério da Educação, o que vemos é o sentido contrário: quanto mais acrítico, ignorante e incapaz de raciocinar por si, melhor será o aluno. Talvez os ingleses estejam interessados em desenvolver o espírito crítico do seu povo. Em Portugal, porém, o espírito de rebanho, a fidelidade canina, o abanar a cauda e o pôr o rabinho a jeito são os skills mais apreciados, desde a classe política até aos empresários, passando pela nova nomenklatura que, por iniciativa do ministério da Educação, está a tomar conta das escolas e a assegurar que não se ultrapasse nunca o nível da indigência. Para dizer a verdade, a escola pública está a ser vítimas de uma OPA hostil por parte dos cultores da indigência, gente que odeia a filosofia e ainda mais o espírito crítico. A filosofia faria todo o sentido se Portugal fosse um país a sério e de gente séria e que se quisesse erguer acima da mediocridade em que vive. Nas actuais circunstâncias, as competências a ensinar serão sempre aquelas que terão mais aceitação social: a sabujice, o lambe-botismo, o ataque traiçoeiro, a manhosice rasteira e o fundamental, não o esqueçamos, abanar a cauda e salivar com as palavras do dono. A presença da filosofia no currículo do ensino secundário em Portugal é um espinho cravado na garganta da classe política. Ainda não foi completamente eliminada por medo da reacção de certos sectores influentes, como a Igreja e alguma comunicação social. A filosofia sempre foi um empreendimento de homens livres. Mas em Portugal aprecia-se particularmente os escravos. O escravo não precisa de saber pensar, desde que obedeça e se ponha a jeito.

02/07/08

Exodus - IX

Os cálamos da noite deslizam entre mãos
e os farrapos do tempo são soprados, se o verde
pinta a negrura das colinas. As vozes,
as vozes calaram-se no zumbido das trevas
e as mães, de cansada memória, repetem
histórias de viúvas caídas na desgraça do dia,
do horizonte eram mera sombra oculta,
e nos céus vicejam como máquinas
abertas ao silêncio; fátuo silêncio as alimenta.

Um som sibilado tocou a parturiente
um instante antes da criança chegar:
o esgar da face desvaneceu-se e o horror,
pois horror era, tomou do mundo a rédea.
Cruzava-se gente, ia e vinha, os olhos
rolavam em direcção à terra; nela as pragas
tinham crescido, como se um deus ainda
dos homens o destino, friável destino, soubesse.

Sobre a inconstância do coração nada se desenha:
um rumor de espinhos une à vida a sombra
disforme. Aí o que caminha tem o seu corpo
e com ele cria um espelho de urtigas
e ervas azedas, um vidro tão fosco como
as colinas para além das quais o Sol se põe.
No rosto da cidade, há carros embuçados,
calam-se quando tudo se desvanece
na seca tarde pelos cálamos da noite bebida.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Annette Peacock - Survival

Quantas vezes terei ouvido este álbum? Perdi a conta. Ainda tenho por cá o vinil.

Entrevista a Manuel Gusmão

Os professores têm de gostar do que estão a fazer, para poderem passar esse gosto. As tentativas que se têm feito para domesticar os textos e aproximá-los dos alunos recorrem a recontextualizações que resultam em absurdos completos. Há um manual em que o poema da Sophia sobre a Camões e a tença é usado para os meninos aprenderem a escrever um requerimento a pedir uma bolsa.
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Este excerto faz parte de uma extensa entrevista do poeta Manuel Gusmão ao Público. Fala muito de poesia, mas também de política (Gusmão explica por que motivo se mantém fiel ao marxismo e ao PCP), de ensino da literatura, da crise do ensino das humanidades na universidade e do acordo ortográfico. A ler aqui.

Fethullah Gülen

Os ocidentais interrogam-se: quem é Fethullah Gülen? No dia 23 de Junho, as revistas Foreign Policy (americana) e Prospect (britânica) anunciaram a sua eleição como o mais influente intelectual do mundo. Foi votado de forma esmagadora num inquérito online, entre 100 personalidades previamente escolhidas. Na ficha de apresentação, Gülen era definido como um dos rostos do islão moderado, mas acusado pelos detractores de ameaçar a ordem secular turca.

É um homem poderoso. Não se limita a ser um líder religioso que quer conciliar o islão com a democracia e a modernidade ocidental, refazer a imagem do nacionalismo turco e ancorá-lo na Europa, opondo-se frontalmente ao fundamentalismo e ao islamismo político. Dirige um movimento cuja coluna vertebral são centenas de escolas e universidades - na Turquia, mas também da África à Rússia, da Europa à China, com uma particular implantação nos países turcófonos da Ásia Central. Tem a sua própria base financeira e uma extensa rede mediática, jornais, televisões, revistas, em que colaboram muitos seculares liberais. O seu movimento foi comparado à Opus Dei.

Não prega numa mesquita, difunde directamente o seu ensino num site na Internet. É um dos inspiradores da viragem secular e europeísta dos pós-islamistas do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), de Recep Tayyip Erdogan.
[Ler todo o artigo “O sufi que passou a ser o intelectual mais influente do mundo” de Jorge Almeida Fernandes, no Público]

Emil Cioran - O destino da nossa espécie

Desde que Schopenhauer teve a aberrante inspiração de introduzir a sexualidade na metafísica, e Freud a de sublimar a indecência por uma pseudo-ciência das nossas perturbações, admite-se que qualquer um nos entretenha com a «significação» das suas explorações, da sua timidez e dos seus êxitos. Todas as confidências começam por aí; todas as conversas chegam aí. Em breve as nossas relações com os outros reduzir-se-ão ao registo dos seus orgasmos efectivos ou inventados… É o destino da nossa espécie, devastada pela introspecção e pela anemia, de se reproduzir por palavras, de expor as suas noites e de engrandecer as suas fraquezas ou os seus triunfos. [Emil Cioran, Syllogismes de l'amertume]

Referendos insulares

Eis uma excelente ideia. Alberto João Jardim andava falho de imaginação? Não, estava a guardar-se para esta: “Vamos aprovar no parlamento da Madeira uma proposta de revisão constitucional para que no seio da Pátria portuguesa se clarifiquem as competências do Estado e da região autónoma”. Como a imaginação tinha estado contida para ganhar um novo élan, agora manifestou-se na plenitude: um referendo ao povo madeirense sobre a tal proposta a aprovar no parlamento madeirense (Público). Como qualquer revisão constitucional só pode ser feita na Assembleia da República e com 2/3 dos votos dos deputados, Jardim ou anda a brincar com os madeirenses ou está a preparar uma guerrilha institucional sem fim. Seja como for, se alguém quiser acabar com o país e quase nove séculos de história, o melhor que terá a fazer é regionalizar o continente. Cinco “condados”, cada qual com o seu Alberto João, reduzirão tudo a cinzas em três tempos. É por estas e por outras que aparecem de vez em quando os Pombais.

Adenda: Afinal a imaginação teria andado depressa de mais e aquela do referendo insular até para Jardim era excessiva. Não, não é referendo, Jardim terá descoberto que não há referendos sobre matéria constitucional. Agora a imaginação deu-lhe para tornar as próximas eleições legislativas, no círculo da Madeira, num plebiscito [interessante conceito no nosso ordenamento jurídico] à sua revisão da constituição (aqui).

01/07/08

Exodus - VIII

Feriu o pó e levantou as suas tremendas asas,
erguendo-se. Não era pássaro, nem máquina
que pelo engenho voasse, mas simples anjo,
daqueles que desfilam em procissões de aldeia,
vestidos de branco, o rosto coberto de suor e os pés
exaustos de a tanta erva pisarem. Subiu. Pela terra
alteavam-se vozes na vagarosa sombra da macieira.

Nos outros dias, colava-se à parede e aí ficava,
imagem era, tão estático, no rosto
um medo se lhe desenhava, tomava
conta das faces, invadia lábios,
caía em borbotões pelo queixo,
levemente recolhido, inclinado sobre o peito.
Nas asas azuis tinha então escamas por penas;
era um anjo aquático,
habitava os poentes na fina dobra da praia.

Quando não havia procissão e assim se cobria de asas
escamadas de azul, envergava uma túnica de cíclames
e cruzava as delicadas mãos sobre o peito. Nesses dias,
não voava, nem procurava do mar as águas.
Olhava, olhava, olhava para o indefinido ponto
onde a geometria das horas nascia e traçava mapas
em sua mente, trabalho de geógrafo perdido
em funestas dunas já desfolhadas pelos desertos de areia.

À noite nunca o mensageiro dormiu. Por vezes, despia-se.
Horroriza-o o vazio lugar do sexo e cobria
com as mãos o rosto para que espelho algum devolvesse
a cegueira da sua vergonha. Cansado, deitava-se
em cama de pedra e sonhava com searas de trigo a
secar sobre as águas marinhas, peixes de pão secos
pela inclemência de um sol, a primavera o esventrava.

Um dia, veio de entre as algas um pássaro e olhou-o,
depois inclinou tão ao de leve a cabeça e voou para norte.
Um silêncio de carvão soltou-se do fundo da alma e o anjo,
agora um querubim, pela primeira vez, sentiu lágrimas.
Adormeceu sobre as pedras e quando acordou doíam-lhe
as costas; as asas, um simples papel de seda, desprenderam-se.
Quando despiu a túnica, a nenhum corpo a luz iluminou.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Kronos Quartet - Bela Bartok: quator a cordes


kronos quartet, Bela bartok
Colocado por franz_peter

O menino de ouro

Só o título é a todos os títulos sinal do pior. “Sócrates – O Menino de Ouro do PS” dá logo vontade de vomitar. Não bastava aquele piscar de olhos aos psd’s com a colagem a Sá Carneiro (na versão de Agustina Bessa Luís), como ainda foi servido um Dias Loureiro emocionado e obrigado para com a biografia daquele que Deus, por falta de piedade, nos deu por primeiro-ministro (aqui). Também Vitorino esteve lá, na apresentação da obra-prima do jornalismo, a perorar e a fazer a comparaçãozinha manhosa com o Blair e a parlapatice da comunicação. Vale tudo para este bando de nulidades que se acham a acme da pátria. É por causa destas tontices, que fazem salivar os candidatos a presidentes de câmara e de junta de freguesia, que Portugal é a merda, assim mesmo, que é. Já ninguém tem pudor.

A via Mugabe

Este vídeo aqui e a recepção que o mundo africano tem dado a Robert Mugabe mostram bem que os valores da democracia não são propriamente universais. Um pensador como John Rawls, ao escrever a sua Teoria da Justiça, supôs essa universalidade da valoração democrática da vida política. Anos mais tarde, veio a reconhecer que o seu contratualismo só seria pensável em sociedades que tivessem um mínimo de condições sociais que permitissem a tolerância e a convivência democrática. Aquilo que cabe perguntar, porém, é se a Europa não estará a criar condições internas para que a via Mugabe se torne, também por cá, uma saída possível?

Andei a fazer um MAPA

Não me apetece fazer nada. Não me apetece ler nem escrever. Dispenso ir apanhar sol para a rua. Ando há quase 24 horas com uma maquineta a tiracolo e uma braçadeira à volta do braço esquerdo, ligadas por um tubo de borracha. De vez em quando a braçadeira – apetece-me dizer a puta da braçadeira – começa a inchar e aperta-me o braço, é para medir a pressão arterial, disse-me a técnica cardiopneumologista. Era a isto que Heidegger chamava a questão da técnica. O médico cardiologista, outro técnico, mandou-me fazer um MAPA. Ainda pensei que ele estava enganado, que pensasse que eu era geógrafo, mas não. Um MAPA não é um mapa, um MAPA é uma monitorização (acabei de vomitar com a palavra) ambulatória da pressão arterial. Assim, vi-me agarrado à maquineta e toca de dormir com ela e com a braçadeira a apertar o braço e o braço a ver-se em palpos de aranha com tanta apertadela. Se pensa que a coisa fica por aqui está enganado. A técnica tornou-se humana e um MAPA a sério requer um diário. Sou obrigado a registar o que vai acontecendo.

O diário é uma grelha (até parece uma emanação do Ministério da Educação) que tem as seguintes entradas: Horas; O que sentiu; O que estava a fazer. Como pode perceber a coisa é mesmo da pesada: puro voyeurismo. Devo registar tudo? – perguntei. Não, respondeu a técnica, apenas o mais importante. Estão as instruções nas costas. Fiquei esclarecido. Por exemplo, se me levantar para ir ao WC – assim mesmo – durante o sono (não me levantei, partilho isto com todos) toca a registar a hora. Fiquei sem perceber se deveria nesse caso registar o que sentiria. Será que poderia informar os técnicos que teria sentido alívio? Bem, não pense que a coisa fica por aqui. Não fica. Se tiver o azar de fazer um MAPA e der uma queca (ter relações sexuais, como explicam as instruções para o doente – e eu a pensar que eles estavam só a ver se eu era doente, mas afinal já o sou) terá não só de o registar na coluna “o que estava a fazer”, como de escrever a hora e o que sentiu, se é que sentiu alguma coisa. Por mim, decidi-me pela castidade. Se durante a noite algum desejo inconsciente me alterou o estado de flacidez sexual não o sei e por isso não o registei para alívio da minha consciência. Sou um conservador. Fiquei-me pelas refeições e pelos medicamentos, mais umas trivialidades. Se queriam saber alguma coisa da minha vida sexual, enganei-os. Vão fazer MAPAS para o raio que os parta. Daqui a uma hora, vou tirar a maquineta e entregar à rapariguinha que é técnica o meu diário. Ao lê-lo, vai ter pena de mim. Que triste vida eu levo.

O caso da fruta

A forma como a esfera pública está a receber o arquivamento do processo contra Pinto da Costa, referente ao jogo Estrela da Amadora – F. C. do Porto, revela a situação perigosa em que vive a justiça em Portugal. O problema não se centra nem no despacho de arquivamento do juiz do Porto nem no recurso que o Ministério Público entende ir apresentar. A questão está na leitura que a opinião publicada, e também a opinião pública, fazem dos acontecimentos. Ninguém vê na acção dos diversos actores no processo a independência requerida. Dito de outra maneira: ninguém acredita na justiça a não ser naquela que serve os seus interesses privados ou as suas paixões clubistas. Que o mundo dos tribunais tenha deixado criar esta imagem revela muito bem o grau de degradação a que se chegou. O caso da fruta é, no entanto, apenas mais um que queima em lume mais ou menos brando a instituição que deveria, pela sua independência inequívoca, ser o garante da paz pública.

A Polónia e o Tratado de Lisboa

Depois do parlamento polaco ter aprovado o Tratado de Lisboa, o Presidente da Polónia recusa-se a assiná-lo. Razões: “Por agora, a questão do tratado está sem substância” devido à vitória do «não» no referendo irlandês. O curioso em todo este processo reside no facto de se querer, a nível das elites políticas europeias e da burocracia de Bruxelas, um tratado tão substancial que acabou por se tornar insubstancial. Como se vai percebendo, a resistência ao Tratado, por essa Europa fora, é muito maior do que aquilo que se quer deixar transparecer. Se têm dado oportunidade aos povos para se pronunciarem, então o descalabro seria total. Sarkozy, Barroso e Sócrates bem podem coçar a cabeça.

30/06/08

Exodus - VII

Abriu-se uma ferida de sangue no sangue das águas
como se dura pedra, a solidez a suporta, as
tivesse tocado e em seu caminho continuasse, incólume,
esquiva, suspensa na tecelagem com que alguém,
nos dias mais negros, a fabricara. Os ventos vieram
e ao tocarem a superfície das águas arvoraram impérios
circulares, pátrias de oclusas fronteiras, a navegação
incerta. Quando neles se entra, passada a raia sempre movente,
respira-se um gás tépido, emanação do furúnculo que,
no centro do centro, corrói cada momento, suspende-o,
torna-o, em precária situação, visível, antes
de o devorar com uma boca de algas e dentes
de sílex, afiados pelas areias das praias, vorazes areias têm.

Se de uma vara erguida na luz do ombro ainda fizeres
um remo, talvez um barco venha solícito em busca
do barqueiro. Não terá proa nem ré, nem sobre as águas
se moverá. Ficará suspenso e, enquanto o remador
olha o horizonte deixando os músculos no ir e vir
de quem no mar se afadiga, ondulará,
atado nas cordas, ao céu o prendem, ligado
por cabos de salitre às escuras nuvens,
o vento as impele, enquanto o remador corre
de casa em casa, procura os filhos há muito abandonados
na paisagem que à crosta da terra de cinza cobre.

Tecedeiras urdem com suas mãos os afilados dedos,
na água logo entram, pois o barqueiro, ferido de sangue,
aí os devora.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

OTIS REDDING - My Girl Live Recording

Sociologias e outras tropelias II

Paulo Guinote, do A educação do meu umbigo, continua a publicar excertos do “estudo” do sociólogo João Freire que esteve na base da alteração do Estatuto da Carreira Docente, talvez o estatuto social de professor mais degradante da toda a União Europeia (ver aqui e aqui). Vale a pena ver como o próprio ministério sabia serem mentira muitas das coisas que se diziam sobre os professores, mas nunca abriu a boca para as desmentir. Foram essas coisas que muitos comentadores afirmaram que legitimaram a política do ministério. A história da proletarização dos professores portugueses é digna de um study case do maquiavelismo político. Quem se interessa por questões políticas e educativas vale a pena estar atento ao blogue de Paulo Guinote.

O exemplo alemão

Não sei se essa coisa que andam por aí a congeminar às escondidas e que tem por finalidade acabar, através da irrelevância das funções, com os Estados-nação é uma boa ideia. Quando uma selecção de futebol derrotada é recebida por uma multidão como aquela que esperava os alemães em Berlim, há uma mensagem política clara que os feiticeiros de Bruxelas e os anões que os acolitam deveriam ler. Isto para não falar do entusiasmo que tomou conta de Madrid. Se pensassem um pouco, talvez percebessem por que razão os povos tendem a dizer não aos seus devaneios políticos ou aos interesses a quem servem.

Sociologias e outras tropelias

Vale a pena ler aqui e com muita atenção as conclusões do “estudo” que fundamentou a alteração do Estatuto da Carreira Docente, da autoria do sociólogo João Freire. É um monumento à consagração da sociologia enquanto ideologia e preconceito sustentadores das opções políticas. É verdade que cada vez que oiço falar da sociologia como ciência me dá uma vontade incontrolável de rir. Se precisasse de prova, este “estudo” bastaria.

29/06/08

Exodus - VI

Se ouvirem os gemidos dos filhos do mundo
e nesse sopro uma canção então se erguer,
cativem nas vossas mãos, em sorte vos couberam,
nuvens de quartzo e se na hora a mais cálida
a voz de um barítono se levantar por todo o acampamento,
peguem nas máquinas e enterrem bem fundo o nome
que vos deram, dele já não sabereis a cor das sílabas
nem o sabor de cada uma das letras que a vós vos disseram.

Sangrarão pelo esforço as falanges e delas se desprenderá
pela noite a luz, iluminará de ervas ralas
as bocas, a mão da cerzideira tão bem as trabalhou.
Uma saraivada de remos pelas águas e a aurora virá
e tudo se revestirá de veludo negro; nem as abelhas
o pólen delibarão, presas na ânsia, o cansaço
a tece, deixar-se-ão acorrentar nas suadas células da colmeia,
se um Sol de neve declinar no horizonte.

Não é tempo de sacrifícios; há muito os animais
partiram, esquecidos do trabalho, a cabeça dos
homens lhes tinha como destino dado. Apenas nos
semáforos azuis haverá filas de insectos noctívagos;
esperam a ordem, um anjo de cabelo ralo
e trombeta de zinco, com frágil sopro, a ordenará.
A canção tomará por penhor as águas do poço,
e na escura noite, pela fúria da roldana, a lua nascerá.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Y viva la España

Acabou-se. Uma vez na vida que haja justicia na bola.

Espanha 1 - Alemanha 0

Hoje estou com nuestros hermanos. Não me tornei iberista, mas estou cansado daquele futebol alemão. Apesar de tudo esta Alemanha de hoje está francamente melhor do que contra Portugal ou a Turquia. Viva España, arriba Torres.

Benfica, campeão

Campeões, campeões! Benfica campeão. Não de futebol, mas de futsal. Não saiu a sorte grande, mas a terminação. Derrotou não o Porto, mas o Belenenses. Também são azuis. De novo, a terminação. Comemoremos. Cada um comemora o que pode...

A corrupção está a acabar

Segundo o Jornal de Notícias, as «empresas municipais vão poder contratar obras sem concurso até um milhão de euros». Está a começar a surtir efeito a estratégia socialista no combate à corrupção e tráfico de influências. Até 200 mil contos acabou-se o problema. É como nos exames nacionais. Se não se perguntar aquilo que os alunos podem não saber não há insucesso. Começa a ser um dever patriótico correr com esta gente do governo. Mais quatro anos e é possível que o país feche as portas. O Santana Lopes ao pé destes era um pequeno aprendiz de feiticeiro.

Da democracia e da paz

O mundo sempre foi um lugar perigoso. Por uma questão de coerência e de constância continua a sê-lo. Mas o perigo não é destituído de ironia. Por exemplo, Mugabe está certo da vitória naquelas eleições que se supeitava que tinha perdido e que afinal vai ganhar. Até já está disponível para prestar juramento (Público). Esta ironia está fundada nas amplas liberdades que a oposição teve para desaparecer de cena. Mugabe tem contado com a condescendência de Eduardo dos Santos e de Mbeki. Quem, neste mundo, parece não ter tempo para condescendências é Israel. Quem o diz é um antigo chefe da Mossad: o estado israelita tem um ano para destruir o projecto nuclear iraniano (Público). A partir daí pode esperar o pior. Como se vê a leitura dos jornais é sempre muito edificante.

28/06/08

Exodus - V

Não celebrarás no deserto a festa,
um dia, à sombra dos canaviais,
a ordenaram. Tomado pela areia movediça,
o corpo cede instante a instante e,
no lento mover-se em direcção ao fundo,
contamina-se de insectos. Multidões de varejeiras
desenham uma prisão de asas,
tão leve como as flores do nenúfar
e, nessa inquietação, sobeja ainda um sopro
que de entre os lábios sai. A mão, assim
lhe chamaram, acaricia as grades,
e no vento por elas soprado há um frémito
fatal que escurece a negra luz:
sobre o mundo, ao arder, incendeia
furacões, tempestades tropicais,
as areias em convulsão, onde corpos,
exaustos de tanto gritar, se tornam cediços,
maleáveis, matéria friável a abrir-se
à inconstância pegajosa dos sonhos.

Por aí caminha um povo de sonâmbulos,
as nuvens tapam de folhas os que enfrentam
as agruras sufocadas das areias, poeira solícita
que ao alcatrão cobre e dos homens o escondem,
como se ele, na síntese viscosa que o faz ser,
cometesse um crime e em seu ser criminoso
apenas velados espaços quisesse por morada.

Era um povo sem pátria nem castelos nem rios
nem memória. Habitava a nudez e quando
os homens se inclinavam para os seios das mulheres,
estas olhavam a paisagem ao longe e deixavam
a água escorrer dos cântaros de barro vermelho,
cobriam de luto a cabeça e os olhos, olhos eram,
fechavam-se à intensa cor do dia, agora
um risco vazio num calendário
de folhas ressequidas, herbário onde
rosas, violetas e lírios se decompunham
durante os meses de Verão, violentos meses eram.

Seguiam depois em frente, homens e mulheres, mas nem o
deserto os acolherá nem lugar terão para a festa,
um dia, na ordenação das coisas, ordenada lhes fora.
Seguem calados o movimento dos astros,
enquanto com os dedos desenham esfinges
de água sólida sobre o silente fragor da terra.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Também o Partido Comunista

Para que não existam dúvidas, também o Partido Comunista é co-responsável pela decadência da escola pública em Portugal. Já nem me refiro às muitas trapalhadas nas quais os sindicatos foram cúmplices com o poder político, nomeadamente na equiparação do que não era equiparável. Refiro-me ao endeusamento dessa verdadeira trapaça em que se pode tornar a avaliação contínua. Mas o mais criminoso na política comunista para a educação é a sua luta contra os exames nacionais. Ainda ontem, no Parlamento, os comunistas se pronunciaram «contra a existência de exames nacionais, enquanto instrumento “elitista” e “selectivo”» (Público). Não são diferentes de Valter Lemos e de Lurdes Rodrigues.

Aguaviva - Poetas andaluces (1975)

Pois, por vezes o passado revisita-me e a idade começa a amolecer-me o coração...

Maria Luísa Guerra - O assassinato da Filosofia

Vai realizar-se no próximo mês de Julho, em Seul, na Coreia, o Congresso Mundial de Filosofia, organizado pelo FISF, organismo que concentra as sociedades dos professores de Filosofia do ensino secundário e do ensino universitário de todo o mundo. Tem a marca da globalização. É um encontro de tradições pedagógicas, de reflexão sobre a natureza e o papel da Filosofia na sociedade. Mostra o interesse dos vários países pelo problema. Mostra o que é evidente: o carácter vivo e actuante da Filosofia. O seu lugar insofismável na formação da mentalidade. Assim acontece no mundo.

E em Portugal? Em Portugal assiste-se ao inédito. Pela primeira vez em mais de um século (desde a reforma de Jaime Moniz, em 1895) destruiu-se decisivamente a Filosofia no ensino secundário. Podemos recuar mais atrás, a 1844, e mesmo aos Estudos Menores, criados pelo marquês de Pombal em 1799. Estudos onde figurava a disciplina de Filosofia Racional. Servia de acesso aos Estudos Maiores. Neste quadro de interesse global já referido, lembra-se também que a UNESCO instituiu o dia 15 de Novembro como Dia Mundial da Filosofia, congregando 36 nações. E em Portugal? Em Portugal desvaloriza-se o exercício do pensamento, o rigor da análise, a descoberta de paradigmas e de valores, a discussão de problemas, a formação do espírito crítico, a reflexão sobre a aventura humana, parâmetros específicos da Filosofia e do seu ensino.

Sabe-se que a finalidade do estudo em qualquer disciplina não é o exame. Mas também se sabe que, na prática, se não houver exame, os alunos não se interessam. Não estudam convenientemente. Residual e em vias de extinção a Filosofia no 12.° ano. Obrigatória no 10.° e 11.° anos mas não sujeita a exame nacional. "Para que serve?" pensam os alunos.

É uma disciplina decorativa. Sem importância. Morta à nascença. Ainda se rege Filosofia na universidade nalguns cursos, cada vez mais despovoados. Com este vazio no ensino secundário, acabará de vez.

O sucesso escolar não é gratuito. Depende de currículos apropriados, mas depende sobretudo de cabeças bem-feitas, treinadas numa apurada e progressiva ginástica mental, no exercício da abstracção, da comparação, do dissecar analítico. Esse exercício cabe especificamente à Filosofia.

No limite, pela depuração que exige e supõe, aproxima-se da Matemática. Não é por acaso que grandes filósofos de referência (de Pitágoras a Descartes, de Leibniz a Russell) foram matemáticos. Tirar aos jovens esta ginástica mental é criar o caos. Multiplica-se no mundo a presença e o interesse pela Filosofia. Em iniciativas globais. De Paris a... Seul. Em Portugal, desvaloriza-se até a morte. Original.
[Público de 28/06/2008, sem link aberto ao público]

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É tão claro que nem vale a pena comentar. Mas há que adicionar isto ao processo de acusação política contra Lurdes Rodrigues, José Sócrates, Valter Lemos e Jorge Pedreira. Não esquecer o PS que, perante todo o desastre, se calou, colaborou, apoiou e incentivou uma das políticas educativas mais reaccionárias de que há memória.

27/06/08

Exodus - IV

Ao longe as sirenes ecoam na água da tarde
e um ruído de carvão atiça-se na estrada
onde o viandante poisa, instantes tão breves,
um pé, logo de seguida o levanta, enquanto o outro,
se outro ainda tem, desce em direcção
ao centro da terra. Assim caminham
aqueles que caminham, talvez um santuário
no fim da estrada haja, dessa caminhada será,
quando a voz se afunda no peito,
ponto final. Denso e cerrado e agreste.

Os que caminham são ladrões de palavras.
Roubam, na inércia do caminhar, os túmulos onde
as adormeceram, tão mortas, esquecidas
de tanto hábito, gastas pelo vilipêndio
dos dias, como se nelas já não houvesse,
no som que as animava, um segredo de flores
pelo chão ou vacilantes cascatas
ao cair da tarde, onde as aves bebam
a água derradeira antes de entoarem,
pela tarde de sisal, o mais belo dos cantos, dizem.

Talvez a vindimadora ainda não venha,
a frágil foice em riste, cerzir
com pétalas animais e terra metálica
a fissura que da vida a morte desliga.
Os ladrões, ao afastarem-se para ela vão,
caminham na noite por estradas de palavras,
sílabas desfeitas na oclusão do palato,
na cercadura sempre fechada dos lábios.
Avançam pregados à sombra
e reviram os olhos se os ilumina
o clarão de algum pássaro,
ou da lonjura da estrada um carro,
na pressa motorizada que ronca, os entontece
de luz, encandeia e logo desaparece,
sem que um destino para aquela chama
o que caminha descubra,
quando na noite ouve as sirenes
e se afasta, cheio de palavras roubadas
dos túmulos, os deuses para elas os construíram
nas manhãs intérminas, enlouquecidos,
pois a vindimadora jamais a foice lhes estende.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

The Beatles - Yesterday

Pronto, desculpem-me lá, mas está mesmo muito calor...

Marte, água, espargos e o nosso quintal

Imagem da NASA

Foram feitas as primeiras análises químicas do solo marciano. Segundo o Público, os cientistas da NASA estão exultantes: “É o tipo de solo que poderíamos encontrar no nosso quintal”, declarou, em conferência de imprensa, Samuel Kouvanes, responsável pelo instrumento da sonda que acaba de realizar a primeira análise química ao solo de Marte. “Os espargos até se davam provavelmente muito bem com um solo desses.” Também parece confirmada a presença de água em Marte, pelo menos em certa fase da vida do planeta. As experiências que estão a ser feitas indicam-no. Portanto, não percamos a esperança de ir a Marte comer uma bela açorda de espargos. Caso não possa, o Alentejo não é assim tão longe. Aguardemos mais surpresas...

Para que serve a sociologia?

Graças ao blogue A Educação do Meu Umbigo, tive acesso a excertos da intervenção da ministra da Educação, a socióloga Maria de Lurdes Rodrigues, na sessão abertura do VI Congresso Português de Sociologia. O texto vale a pena ser lido com atenção, pois está nele tudo o que sempre me levou a desconfiar da sociologia. É muito curiosa a relação entre a sociologia e a praxis política e a forma como a socióloga divide a sociologia em boa e má, como se estas categorias pertencessem ao campo científico e não ao jogo linguístico da moralidade.

Bom é quando há “estreita articulação entre o campo da sociologia e o campo das políticas públicas, de que ambos têm retirado benefícios”. Também parece pertencer ao campo das coisas boas o contributo decisivo da Sociologia “para um melhor conhecimento da realidade educativa nacional e, portanto, para uma melhor fundamentação de próximas medidas de política educativa.”

Depois há os maus usos da inocente sociologia, nomeadamente das teses da reprodução social (cf. Bourdieu & Passeron). E em que consiste esta maldade? Consiste “transformar as origens e contextos sociais em obstáculos inultrapassáveis pela escola, condenada por isso a funcionar como mero mecanismo de confirmação de destinos sociais predeterminados. Tais usos têm confortado a inércia e a ineficácia do sistema educativo, desresponsabilizando os agentes educativos pelos resultados da sua acção, legitimando o conformismo e recusando à escola qualquer papel fundamental na mudança social.”

Perdoe-se a longa situação. Mas o lugar comum, a banalidade de pensamento, a repetição de um chavão sem fundamento, mostram bem a artilharia ideológica e a soma de preconceitos que habitam o cérebro da ministra da Educação.

Para mim é um mistério que os sociólogos não percebam que aquilo a que chamam ciência não passa da mais pura ideologia. Pior, de uma ideologia de carácter totalitário, pois fala a partir de uma putativa “verdade científica”. Nunca consegui perceber, no âmbito da acção humana, como é que da descrição, já enquadrada em teorias de reputação científica duvidosa, de determinadas realidades sociais se podem extrair prescrições e imperativos para a acção política (aquilo que a senhora ministra chama fundamentar). Descrever o que uma coisa é ou como tem sido, não dá qualquer legitimidade a qualquer enunciação sobre como ela deverá ser. O que a ministra faz, aliás no seguimento até de contributos “científicos” de outras áreas, como as “ciências” da educação, é disfarçar a sua ideologia e embrulhá-la numa autoridade que ela reputa de científica. Não há nenhuma verdade científica sobre como deverá ser a escola. Existem em conflito várias teorias, todas de carácter ideológico, que se confrontam na arena política. Só isso. A sociologia serve assim como arsenal ideológico para imposição de políticas absolutamente discutíveis. Mas, e isso é muito claro na acção política da ministra, a sociologia serve como fornecedora de um credo que apenas admite um caminho para a educação, onde o debate ideológico é sonegado e tudo aparece como a emanação na praxis de uma verdade prévia, a que os gentios se deverão converter em vez de questionar. Eis a natureza totalitária da ideologia sociológica.

Curioso, porém, é que esta “cientificidade” pode ter bons e maus usos, o que é uma concepção extraordinária. A ciência pretende ser descritiva e portanto amoral. Ao trazer o bom e o mau uso, a ministra da educação, em acto falhado, confessa o uso ideológico das teorias sociológicas. O problema, porém, é que o bem e o mal também são objecto de disputa e conflito.

O discurso da senhora ministra mostra para que serve, em muitos casos, a sociologia: uma ideologia justificativa das opções políticas, fundada em lugares-comuns, clichés e banalidades, aos quais não falta sequer um certo moralismo. É a este tipo de ideologia que se entrega o destino da educação de um país. Mas isto é também a prova provada de que o niilismo está cada vez mais activo e o seu lugar preferido de acção é o poder. A partir do poder a capacidade de dissolução das instituições é muito maior. Fazendo um curto-circuito, descobrimos que a sociologia é uma estratégia niilista que legitima o poder pós-moderno na destruição das instituições e dos valores remanescentes das tradições presentes no tecido social. E é por isso mesmo que, apesar de contra-indicado, a socióloga Maria de Lurdes Rodrigues não consegue fugir à temática moral: bom é o que dissolve, mau é o que conserva. A frase “tais usos (da sociologia da reprodução) têm confortado a inércia e a ineficácia do sistema educativo, desresponsabilizando os agentes educativos pelos resultados da sua acção, legitimando o conformismo e recusando à escola qualquer papel fundamental na mudança social” é, toda ela, um monumento ao preconceito ideológico, fundado numa visão falsa da realidade, e a enunciação clara do programa niilista, onde a vontade é mobilizada para processos de destruição, nomeados agora como mudança social. É curioso que a proposição, subentendida, “a escola tem um papel fundamental na mudança social” seja apresentado de forma axiomática, enquanto, na verdade, não passa de uma expressão puramente ideológica e bastante discutível.

A conexão da sociologia com o poder revela então o papel que lhe parece reservado: legitimar de forma totalitária, a partir da sua posição de “ciência” e da sua conexão à “verdade”, o avanço do niilismo nas sociedades ocidentais. Quem conhece o sistema educativo percebe como em três anos quase tudo foi destruído, tornado menos funcional, como os parcos valores de exigência ainda existentes foram transformados em nada. Há de facto uma coerência assinalável entre uma teoria ideológica de carácter niilista e uma praxis política também niilista. Não restará pedra sobre pedra.

Jornal Torrejano, 27 de Junho de 2008

On-line está já a nova edição do Jornal Torrejano. Para primeira página foi eleito o tema das dívidas do município com o título Qualquer dia não há dinheiro (aqui entre nós, isso já acontece em muito e bom lado). Referência ainda para a apresentação do renovado plantel dos amarelos. Por fim, um dirigente local do Bloco de Esquerda descobriu que havia um projecto socialista para o concelho, mas que não resulta. Se ele o diz…

Na opinião, siga-se então a ordenação alfabética após a referência ao cartoon de Hélder Dias. Carlos Henriques escreve Fasquia muito alta!, este blogger, Entre a creche e a assistência social, Jorge Salgado Simões, Cultura global, José Ricardo Costa, Crítica da razão impura, Marco Liberato, As folgas dos democratas e Miguel Sentieiro, A metamorfose.

Depois, é só ir passando por , para ir vendo como param as modas aqui na terra. Notícias frescas on-line, que o Jornal Torrejano não precisa de choque tecnológico para estar na vanguarda (passe a metáfora militar) da informação regional. Bom fim-de-semana e cuidado com os ultravioletas. Se acha que estou a ser muito sectário, proteja-se também dos infravermelhos, dos sobreverdes, dos supramarelos, dos superazuis e, acima de tudo, dos subrosas e dos infralaranjas. Não são de confiar.

Sobre a agressão económica como arma política

Num post de ontem, e na sequência de um artigo de Adriano Moreira, referia-se a agressão económica como um instrumento estratégico da maior importância. É natural que as pessoas pensem de imediato no petróleo, ou na invasão da Europa por produtos asiáticos que praticam o dumping social. Mas a dependência europeia do gás russo não é menos problemática e os russos não têm hesitado em usar o gás como arma geoestratégica. No Público de hoje há matéria sobre assunto que inclui informação (aqui) e reflexão (aqui e aqui).

26/06/08

JOHN SURMAN QUARTET live - Across The Bridge

A infância existencial

Conta Platão, no Timeu 22 b, que Sólon, tendo-se deslocado ao Egipto, foi recebido com grandes honrarias na cidade de Saïs. O motivo da consideração é que Saïs e a cidade de Sólon, Atenas, foram fundadas pela mesma deusa, Neith, na língua egípcia, e Atena, na língua helénica. Havia então uma partilha de origem, o que talvez significasse, dado que o sacerdote egípcio que falava com Sólon situava a fundação de Atenas mil anos antes de Saïs, um elo colonial esquecido pelos gregos.

Sólon, para fazer os sacerdotes a falar sobre a antiguidade, pôs-se a evocar aquilo que de mais antigo era conhecido pelos gregos. É neste momento que um dos padres, já muito idoso, diz: «Sólon, Sólon, vós, os gregos, sois eternas crianças; velho, um grego não o pode ser.» E perante a perplexidade do heleno, continuou: «Jovens, vós o sois todos de alma, pois não tendes nela qualquer opinião transmitida oralmente desde a antiguidade, nem nenhum saber encanecido pelo tempo».

Quando hoje falamos no aniquilamento das tradições, na ausência de conhecimento do passado, na pouca espessura da memória do homem ocidental, julgamos estar perante um fenómeno recente. Ora aquilo que Platão nos diz através das palavras do sacerdote egípcio surge assim como o símbolo de um destino do Ocidente. Não são os gregos antigos apenas que são desmemoriados. A perda da memória do passado é o destino de toda uma civilização que, já naquele tempo, se precipitava em direcção do futuro.

O que distingue aquele instante do actual é que Sólon e as crianças que eram os gregos ainda eram habitados por uma nostalgia que os lembrava dessa ignorância. E o ser criança da acusação do velho padre é sentido fatalmente como uma reprimenda e uma intimação ao crescimento. Os nossos dias, porém, não apenas desconhecem qualquer nostalgia do passado, como a desprezariam se ela se manifestasse. O ser criança dos ocidentais tornou-se a única realidade que lhes é acessível. Cada nova geração ocidental é educada para continuar criança, numa infantilização sem fim à vista. Mesmo se acontecimentos dramáticos, como as guerras mundiais, retiram uma ou duas gerações do infantário existencial, o destino logo se abate sobre nós e a cultura da eterna infância progride ainda mais rapidamente. Foi esse o destino que o velho sacerdote nos destinou naquelas estranhas palavras evocadas ou inventadas por Platão.

Sobre o novo génio da política nacional

(clique para aumentar)
Parece que alguém já percebeu a natureza do novo génio político nacional, esse jovem inefável e muito liberal que dá pelo nome abençoado de Pedro Passos Coelho. Volto a perguntar-me: por que razão não têm os políticos medo do ridículo?

Para compreender o amor que Pedro Passos Coelho gera em certos sectores liberais da blogosfera clicar aqui.

Como se autodestrói o Ocidente?

Para compreender a pulsão de morte que habita o Ocidente, há que meditar nesta edificante notícia da Lusa/Fim:

A justiça francesa condenou a uma multa de 800 euros um profesor que deu uma bofetada a um aluno de 11 anos durante uma aula, após este o ter insultado.

José Laboureur, de 49 anos, é profesor de Tecnologia na escola Cilles-de-Chin na localidade de Berlaimont, no Norte de França.

Compareceu em tribunal acusado de violência agravada e enfrentava uma pena de máxima de cinco anos de prisão e 75 mil euros de multa.

O profesor esbofeteou, à frente de toda a turma, o aluno após uma discusão, durante a qual este chamou ao professor "parvalhão".

Para o tribunal, "não se trata apenas de uma bofetada mas de uma cena de violência, onde está implícita a vontade de humilhar por parte do profesor".

O aluno foi suspenso das aulas por três dias, logo após o incidente com o professor, tendo, entretanto, sido transferido para uma outra escola (MAC).

25/06/08

Exodus - III

Tudo arde na brancura da tarde e uma chama acampa
pelas terras áridas. As palavras crescem roídas de saliva,
os dias a fazem aumentar, e a teus pés os rebanhos metálicos
deitam-se vorazes, estradas cospem-nos terra fora.
Os deuses procuram os sombrios bosques onde as tardes
cantam pela manhã e o fogo é agora um astro de sidra
no solo da memória, esfarelado, coberto de erva rala,
pequenas poças de água tépida, restos de ramos,
pássaros de olhos vesgos, cães coçados na sarna
a zumbir entre canaviais e as desventuradas ruas da cidade.

Na ardência, das coisas se apossava, corriam funâmbulos,
e na precipitação – a tudo abandonavam – à sua imagem
de vidro as mãos erguiam. Na sombra ansiosa, espreitavam
entre relógios, horas e dias, um caminho ainda haveria, diziam,
ruas de algas roxas pelos bordos, uma estrada de ruídos,
insectos de cinza, plantas melíferas pelos matagais de fogo,
e uma ardência, a tudo, no inquieto coração, se apegava.

Eu não tenho uma mão forte, nem do ramo da oliveira construo
bordão a que, no clamor da tarde, me encoste. Sigo preso
no horizonte e onde me levam aqueles que me levam eu vou,
sem o caminho saber, eu vou, na ardência da tarde, eu vou,
apenas porque alguém me leva, como se fugisse das lâmpadas
da noite e dos vagos faróis com que em estradas de colmo
automóveis tracejam, ímpios, a santidade da noite.

Levantam-se ali os amantes, os corpos despidos de carne,
e gritam pelo fogo, um dia, tão ao de leve, teria ardido
como restolho na ardência da campina infectada.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Jan Garbarek with Keith Jarrett - Spiral Dance

Às vezes o futebol exaspera-me

Raros são os desportos de equipa em que os que jogam pior têm hipótese de ganhar. O futebol é um deles. Depois de ter feito um jogo quase miserável contra Portugal, a Alemanha levou um banho de bola na 1.ª parte contra Turquia. Mas três remates deram três golos e o apuramento para a final. É nisto que o futebol é imperfeito. Alemanha e Itália são o protótipo daquilo que muitas vezes torna o futebol uma xaropada insuportável. O melhor seria mesmo repensarem as regras do jogo.

A maldade de ler os clássico

Graças ao Zé Ricardo Costa, eis a razão pela qual alguns professores estão fatal e inapelavelmente fodidos:

"É muito difícil ler os clássicos; logo, a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender isto, portanto alguma coisa está errada nisto. E há especialmente alguma coisa errada no mau professor que quer ensinar tal matéria. Deixou de haver critérios, Mr Zuckerman, para só haver opiniões." [Philip Roth, A Mancha Humana]

Meditação sobre a Europa

Voltemos ao artigo de Adriano Moreira publicado ontem no DN e do qual se reproduziram aqui os excertos mais significativos. O artigo vale a pena ser lido, porque nele está presente uma análise que se funda num olhar arguto e sábio do fenómeno político. Assim, destaquemos os seguintes pontos:

1. Na nova situação mundial, a agressão económica tornou-se um instrumento estratégico da maior importância e perigosidade.

2. A Europa, nesta nova situação, está particularmente vulnerável. Esta vulnerabilidade é dada por um conjunto de carências: matérias-primas, energia, mão-de-obra e de confiança.

3. A globalização está a implicar uma alteração do peso dos protagonistas: as antigas colónias têm agora a iniciativa, enquanto as antigas metrópoles europeias sofrem as consequências da sua intervenção.

4. A crise foi gerada por um sistema económico global. Este foi instalado com “oferecida abonação científica” e “pouca governança” (sic).

5. Essa mesma crise está a gerar grandes protestos, pois “a pobreza crescente, o desemprego, e a fome, incitam ao exercício de direitos naturais pouco condescendentes”.


É preciso meditar até ao fim as palavras de Adriano Moreira. Em primeiro lugar, ele mostra que o problema da economia global não é um problema de mercado, mas um problema político. Certas potências estão a utilizar a “agressão económica” como instrumento estratégico. O Ocidente, com pouca clarividência ou através de um claro acto de traição dos governos aos seus povos, descurou não apenas o interesse dos seus, como abriu o flanco para que os inimigos utilizassem a economia como arma numa política que visa a destruição desse mesmo Ocidente. É preciso perceber que o par conceptual fundamental do pensamento político é o par amigo/inimigo. Quando o Ocidente abriu as portas, os seus inimigos fizeram o que lhes competia: assestaram os golpes mais rudes que conseguiram. E, se olharmos lucidamente para a realidade, continuarão a fazê-lo se o medo não lhes tolher a audácia.

A fragilização do Ocidente, nomeadamente da Europa, prende-se com factores estruturais (matérias-primas, energia, mão-de-obra). Estes factores já eram fundamentais no século XIX, como o lembra Adriano Moreira, e foram eles que desencadearam os processos de colonização. Agora, porém, a Europa está tolhida. Qualquer movimento expansionista seria uma catástrofe, para além da ausência, no actual contexto, de qualquer legitimidade para tal exercício. A Europa pode ser ainda a maior potência comercial do mundo, mas que futuro terá quem não possui matérias-primas, energia e mão-de-obra? Mais, que futuro terá um espaço político nessa situação, que ainda por cima pode estar rodeado de inimigos?

Mas aos problemas externos, adicionam-se os internos. Adriano Moreira refere os protestos que há por toda a Europa e diz mais: centram-se em direitos naturais pouco condescendentes. Há, no texto de Moreira, uma ambiguidade sibilina. Parecendo tratar da necessidade da confiança e do reforço da preocupação política por parte dos governos, o que ele pré-anuncia é o direito dos povos à revolta. E essa revolta é uma revolta legítima pois prende-se ao exercício de “direitos naturais” fundamentais. Há, no texto, uma subtileza muito interessante. Enquanto, os teóricos e os próprios agentes políticos tendem a dividir os direitos, sublinhando o antagonismo entre os direitos civis (vida, liberdade, propriedade e integridade da pessoa), oriundos do direito natural de Locke, dos direitos sociais (os provenientes do Estado-Providência), Adriano Moreira faz um curto-circuito e mostra como os direitos sociais, embora ele não os refira a não ser indirectamente, se inscrevem nos direitos civis fundamentais. Quem conhece a teoria lockeana sabe perfeitamente da legitimidade da revolta perante o poder que não respeita os direitos civis (cf. Carta sobre a Tolerância).

A partir do texto citado, podemos compreender a situação da Europa decorrente do processo de globalização iniciado e incentivado por Margareth Tatcher e Ronald Reagan. A Europa tornou-se politicamente muito frágil, abrindo o flanco aos seus inimigos externos e criando condições para grandes rupturas sociais internas. Restam-me duas dúvidas:

1. Será que para enfrentar estes trabalhos de Hércules bastam lideranças fortes? Não será já demasiado tarde?

2. Será possível que as elites políticas europeias percebam a situação enquanto não abandonarem o conceito de «economia-política»? Mas será possível que elas abandonem o conceito fundamental que estruturou o pensamento liberal e o pensamento marxista, dominantes no Ocidente?

Manuel António Pina - Salve-se quem puder

Como já acontecera no 6.º e 9.º anos, também os exames de Matemática do 12.º geraram, segundo jornais e TV, insolúvel controvérsia entre os estudantes, incapazes de se entender sobre se a prova foi "muito fácil", "muito acessível", "muito básica", "muito elementar" ou apenas "superfácil".

O "óscar" vai para um atormentado aluno de Portimão que, ouvido pelo CM, declarou que a coisa chegou a ser "difícil por ser tão fácil". Outros, que terão imprudentemente passado o ano a estudar, estavam desolados: afinal, mais valia terem gozado umas boas noitadas em discotecas e no "Rock in Rio", pois - queixaram-se ao "Público" - foi "demasiado fácil".

Idênticas dúvidas afligiam os especialistas: para a Sociedade Portuguesa de Matemática, "grande número de questões (era) de resposta imediata e elementar", ao passo que para a APM, pelo contrário, eram "bastante acessíveis".

A ministra tinha prometido resultados e eles aí estão. Antes de abandonar o barco, e na iminência de naufrágio do "Titanic" das políticas educativas, o capitão manda lançar os botes à água gritando: "As estatísticas primeiro!".
[Manuel António Pina, Jornal de Notícias de 25/06/2008]

Retratos da Pátria – IV. A crise da Universidade

O défice cognitivo tem uma justificação simples: a miséria. A Universidade de Aveiro, uma das mais pujantes no país, está sem dinheiro para pagar as despesas de funcionamento. Segundo o Público, a Universidade está a utilizar dinheiro destinado à investigação para pagar os subsídios de férias de funcionários e professores. Eis o resultado do choque tecnológico que nos haveria de fazer entrar, a grande velocidade, na sociedade do conhecimento. Há uma coisa que ainda me consegue espantar: por que razão os políticos não têm medo de ser ridículos. Mentirosos, eu compreendo que sejam, mas ridículos?

Retratos da Pátria – III. Falta de compreensão da denúncia da corrupção

Afinal é um problema cognitivo. Segundo a magistrada Maria José Morgado, "há dificuldade da sociedade portuguesa em compreender a denúncia" da corrupção e que os tribunais "deixam os denunciantes entregues a si próprios" (Público). Sempre me pareceu que Portugal vivia um défice cognitivo. A sociedade não compreende a denúncia da corrupção e os tribunais parece que também não. No domínio da incompreensão, vivemos numa sociedade igualitária: ninguém compreende que se denuncie a corrupção. Valha-nos ao menos isto.

Retratos da Pátria – II. A saga do urbanismo

Paulo Morais, antigo vereador da Câmara Municipal do Porto, veio denunciar que os “terrenos valem em função do seu proprietário”. E eu a pensar que o mercado é que decidia do valor das coisas (Público). Sim, eu sei que Paulo Morais se refere às compras efectuadas por órgãos de poder, como as autarquias. Mas não é o poder autárquico o melhor que a Revolução de Abril produziu? Diz o senhor que os tribunais administrativos “têm estado um pouco adormecidos” nas questões de corrupção urbanística. Um pouco? Meu Deus, não andará também Paulo Morais com sono? Por fim, considerou que a Inspecção-Geral da Administração Local “é uma entidade inexistente” e ainda se mostrou “desiludido” com a Justiça, pois as investigações às suas denúncias têm avançado muito mais lentamente do que seria desejável. Mas a pergunta que importa fazer é: seria desejável para quem?

Retratos da Pátria – I. O mundo do trabalho

Sempre que um governo precisa, para tranquilizar a má consciência de alguns, de um acordo dos representantes dos trabalhadores, lá está a sempre disponível UGT (Público). Por seu turno, a CGTP contínua fiel a si e abandona a mesa das negociações. Enfim, uma fotografia da falsidade em que assenta o mundo do trabalho em Portugal. Antes das negociações, já todos sabiam o resultado, até parece o futebol pátrio.

24/06/08

Exodus - II

Em terra alheia sou peregrino e caminho ébrio
pelo asfalto, as torrentes de ar incendeiam-me o rosto,
as faces lívidas com que entro nesta cidade,
e deixam aberto em mim o martelar furioso
das pedras ígneas do silêncio. Não sei o preço
da viagem, nem tenho nos bolsos moedas,
ouro, prata. Algumas pedras da estrada,
se as penso, tomo na mão e
o peso verga-me o olhar para o alcatrão.

Às vezes, tão poucas, oiço vozes ao longe
e sonho com prados de água seca e fogos frios
de Outono, se transpira de cansaço.
Tão gélido o fogo, o que me trazem para escutar,
cor de cobre, metálico nas labaredas,
na terra entram e se ocultam: fogos de Outono,
a crisálida os habita e longe dos olhares
buscam moradia. Pela calada da noite
o seco véu… do Inverno ele virá.

Do turbilhão dos músculos soltam-se passos infalíveis,
o bater dos pés pelo chão, levam-me terra fora.
Que dizer? Ao vê-los, riem crianças.
A voz cala-se. Se o corpo caminha, ela, rouca, suspende-se,
e só os olhos se agitam no repouso da paisagem,
nova sempre vem, e entra por eles e filtra-se
no cérebro do que caminha, passos errantes,
a gerar riso de moscardo, cinzento,
sem pétalas, gretado como as águas amargas dos que
tiveram memória e dela foram despojados.

Desconheço as faces, o horizonte mas devolve, e não posso
comprar pão e vinho. Há muito deixei de ter mesa
onde os pousar e se regressar agora à casa branca,
um dia disseram-me esta é a tua casa,
as paredes não me reconhecerão e naquela mesa, se mesa
ainda tiver, não haverá para a sombra lugar,
nem guardanapo, nem prato de barro esperará
a ânsia da fome, haveria de a ter.

Resta-me caminhar, passar, as portas fechadas,
cadeados quebrados, janelas corridas.
Às vezes, tomam-me as sombras da tarde e a elas
entrego o nada que me resta, deuses mo deram.
Perdida a ausência que me movia,
ergue-se uma canção pura:
Delata-me à negra noite, aos terrores da infância.
O coração descompassado esvai-se num grito,
e logo o silêncio o arrebata e à planície da mudez o devolve.

Ergo-me sobre as pernas e, preso a meus passos,
retomo a viagem, olhos no horizonte,
um saco de ervas e dois relâmpagos por bagagem.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Luigi Nono - Prometeo, Tragedia dell'ascolto - Hölderlin

A versão de Luigi Nono da tragédia de Prometeu. Pouco recomendável para quem odeia a vanguarda. Com Lux Aeterna de Gyorgy Ligeti, esta é uma das peças da vanguarda europeia de que mais gosto, ou não fora a existência de um mito grego como pano de fundo. Aliás, seria interessante fazer um périplo de leitura entre João Evagelista (Evangelho, Apocalipse) e o Prometeu Agrilhoado de Ésquilo, com as obras de Ligeti e de Nono como pano de fundo.

Das influências intelectuais

As revistas Foreign Policy (EUA) e Prospect (Reino Unido) elaboraram uma lista dos 100 intelectuais mais influentes no mundo. Para tal organizaram uma votação, na qual participaram meio milhão de pessoas (Público). O método vale o que vale e presta-se às mais diversas constatações e contestações. Mas os resultados não deixam de ser interessantes. Nos primeiros 10 lugares, encontram-se apenas intelectuais de orientação muçulmana. Estes dados permitem várias leituras concomitantes. Em primeiro lugar, o mundo islâmico começa a interessar-se decisivamente por este tipo de coisas; em segundo, a comunidade muçulmana mundial, apesar das suas diferenças, é, hoje em dia, um claro actor histórico consciente da sua identidade e do seu papel no mundo; em terceiro, parece que o Ocidente que foi grande devido aos seus intelectuais se desinteressou deles (o primeiro ocidental é Noam Chomsky).

É como se estivéssemos a assistir a um render da guarda: o Ocidente desistiu de pensar ao desinteressar-se pelo trabalho e as ideias dos seus intelectuais, enquanto o Islão começa a olhar para eles com esperança de uma afirmação que o retire da medievalidade. Os nomes que o Público refere não pertencem a radicais e fundamentalistas, mas a gente que contribui para um Islão civilizado e respeitador dos direitos do homem. Nem sempre as notícias são más.

O véu de Maya

Os portugueses são os mais pessimistas da União Europeia, segundo o Eurobarómetro (Público). Parece que o mirífico país do plano tecnológico não resistiu ao choque. Como não sou vidente, não sei qual o futuro reservado pelos deuses a Sócrates e companhia. Mas, nestes anos de democracia, nunca houve um governo tão arrogante. Sócrates pensou que governava o país a partir de uma central de propaganda e que a propaganda chegava para disfarçar os problemas reais para os quais ele não estava preparado. Agora descobre que o véu de Maya que pretendeu estender sobre o país se rompe por tudo o que é sítio e deixa ver o tenebroso da realidade primordial. Os portugueses, como bons bacantes, cultuam o pessimismo, isto é, apercebem-se da realidade que é a sua. Depois de um Apolo tecnológico, refugiam-se em Diónisos.

Mugabe o ruído e o silêncio

O caso Mugabe é um dos mais tristes na muito triste história política africana. O ruído da desistência de Morgan Tsvangirai é ensurdecedor. Por cá, o silêncio de certas vozes amigas dos povos não deixa de fazer o seu pequeno barulho. Devem achar que o estatuto de anticolonislista de Mugabe permite tudo.

Adriano Moreira - A fragilidade europeia

De facto o globalismo económico destacou a agressão económica como um instrumento estratégico da maior importância e perigosidade. Neste caso, a Europa está numa situação de vulnerabilidade aguda, como subitamente se tornou evidente com a crise dos combustíveis.

A expansão colonial do século XIX foi justificada pelas democracias europeias da frente atlântica, nos respectivos parlamentos, pela necessidade de dominar as fontes de matérias-primas e garantir mercados de produtos acabados. Destruído esse império, a realidade, demonstrada pelas manifestações que desfilam pelas capitais europeias, é que a Europa é um espaço com debilidades, carente de matérias-primas, carente de energia, carente de mão-de-obra, e começa a dar sinais de carência de confiança.

A globalização implica sistemas abertos que sofrem as intervenções cuja origem a lei da reflexividade situa nas antigas dependências coloniais, e os sinais de que a capacidade europeia de reformular e reanimar o sistema está em dificuldades são eloquentes. A falta actual de lideranças poderosas e confiáveis também não ajuda a inverter a tendência

(…)
A crise que traz multidões para a rua em protesto pelas dificuldades de vida causadas pela disfunção do sistema económico globalista, que foi instalado com oferecida abonação científica e pouca governança, não é amenizada pelo recurso a semânticas paliativas porque a pobreza crescente, o desemprego, e a fome, incitam ao exercício de direitos naturais pouco condescendentes. Esses direitos naturais exigem uma sociedade de confiança para que a contenção recíproca, necessária para assegurar a coexistência efectiva de todos, seja um regulador natural. A pouco amiga circunstância externa, exige uma sólida mobilização cívica a que a UNESCO de longe apela, para que a política retome o comando confiável e oriente o rumo para horizontes menos inquietantes. [Adriano Moreira, Diário de Notícias de 24/06/08]

Mário Soares - O regresso da política

Falta à União cidadania europeia. Os europeus, de todos os países membros, têm poucos meios para influenciar as decisões dos dirigentes e mesmo para as compreender. Estão a leste do que se congemina em Bruxelas. Ora é isso que leva ao desconhecimento do que está em jogo - de cada vez que são consultados - e à indiferença.

Alheiam-se dos problemas. O que não quer dizer que estejam dispostos a consentir que os seus Estados abandonem a construção europeia ou saiam da Comunidade. Porque a União é um grande e original projecto político que trouxe à Europa cinquenta anos de paz, de bem-estar às sociedades europeias - mesmo às mais desiguais - e de prestígio no mundo inteiro.

É verdade que desde há alguns anos a burocracia de Bruxelas e a influência hegemónica americana parecem ter subvertido os grandes ideais europeus. A Europa tornou-se muito conservadora. As duas maiores famílias políticas europeias - que praticamente fizeram a Europa - foram: a socialista ou social-democrata e a democracia cristã. Ambas perderam força. Hoje, em 27 Estados europeus, haverá apenas 3 ou 4 governos que ousam afirmar-se socialistas ou trabalhistas; e as democracias cristãs, tirando a alemã, evoluíram no sentido dos partidos populares, populistas e ultraconservadores, o que faz toda a diferença.

As crises múltiplas - e as terríveis dificuldades que trazem consigo -, para encontrarem qualquer solução e não desaguarem no caos ou em revoltas sangrentas, vão obrigar ao regresso em força da política e dos grandes ideais humanistas. Requer-se imaginação estratégica, persistência e coragem, muita coragem. Para transformar o que hoje nos parece impossível numa promissora realidade, amanhã.
[Mário Soares, Diário de Notícias de 24/07/08]

23/06/08

Exodus - I

Não há quem saia pela manhã a olhar
as dispersas sementeiras, os campos invadiram.
A mão crispou-se, agora novelo de linho
esquecido sob a luz da clarabóia.
Não há seta que indique o lugar onde o desejo
se quer e irrompe no crepúsculo matinal,
entre corações desfeitos, a gotejar ervas,
e mãos presas à viagem, assim começada,
para um deserto de páginas em branco,
sem luz que ilumine, cor que incendeie,
sílabas, por filhos palavras dêem.

Não é cântico de júbilo o que na garganta
se forma, nem palavra tingida pela acidez
dos dias. O arco-íris esbateu-se, as nuvens
ficaram mais opacas, quase sólidas,
numa atmosfera de cactos, ruas vazias,
faces atónitas levemente estropiadas. Se
cicatrizes ainda têm, nelas nasceu uma erva rasa,
amarela, queimada pelo cálcio, a tudo devora.

Não é âncora o que ofereço, nem lenço
para lágrimas, se lágrimas ainda te ardem
sobre a pele rugosa, a face, dizes que te disseram.
Espelhos não fabrico, nem do vidro
sei o segredo, nem das mãos o aconchego.
Canto na escuridão para não morrer,
para me ouvir e adivinhar o que ainda sou
e nesta ilusão caminho estrada fora,
os pés no chão, e na cabeça, ainda a tenho,
o ar da noite preso numa caravela.
Ao arder, ponho máscara de cera e se invoco
o deus, oiço a voz de quem de casa não sai
a olhar as dispersas sementeiras;
no fulgor do passado, os campos invadiam.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Exodus, um novo ciclo

Uma longa hesitação tem-me levado a adiar a postagem do ciclo Exodus, escrito em 2007. Uma arreigada convicção vê a prosa como a decadência da linguagem poética. A linguagem começaria por ser uma construção metafórica e com a vulgarização das metáforas surgiria a linguagem corrente, a prosa que os homens utilizam na comunicação, na reflexão ou na narrativa não poética. Se assim foi, e há gente como Nietzsche que o defende, a verdade é que nós nunca teremos acesso a essa linguagem primordial absolutamente poética e criativa. Somos homens de tempos prosaicos e da ruína da linguagem.

O exercício que tem o nome de Exodus parte destas constatações. Parte da situação de ruína e tenta elevar-se ao poético, sem talvez abandonar o chão prosaico de onde parte. O poético, se o houver, não é dado pelas estratégias habituais ligados ao ritmo, à métrica, à rima, à convenção técnica, mas a esta e àquela palavra que se libertam da sua natureza prosaica e ao jogo semântico que institui um universo em cada poema, digamos assim.

Exodus não descreve, todavia, universos existentes, nem é inspirado no livro bíblico com o mesmo nome, apesar de apresentar tantos poemas como capítulos existentes nesse livro, quarenta. Há também em quase todos os poemas uma pequena citação dissimulada de cada um dos capítulos, mas essas citações nem podem sequer ser consideradas pontes intertextuais. São jogos de adivinhação presos em universos que se chocam com aquele que habitamos. Mas tudo isto não passa de suposições de quem tenta libertar do magma da prosa uma palavra ou um mundo.

José Afonso - Redondo Vocábulo

É evidente que este José Afonso é melhor do que outros mais vampirescos. Embora cada coisa tenha o seu lugar, o génio de José Afonso é muito mais nítido quando é menos político. Opiniões, dirão. Opiniões, confirmo.

Um país em colapso

Os sindicatos da polícia preparam uma vaga de contestação à política governamental. Depois de professores, camionistas, militares, funcionários públicos, trabalhadores por contra de outrem, chega agora a vez das forças militarizadas. Para lá das razões que cabem a cada sector profissional, o que fica à mostra é um país em colapso, um país estruturado numa sociedade sentida como largamente injusta. Trinta anos de democracia foram insuficientes para tapar as profundas fissuras que atravessam, há séculos, a sociedade portuguesa. O mais problemático, porém, é que se criou um sentimento de que as “fendas” sociais estão a alastrar de uma forma irremediável, e que a democracia não é solução mas parte do problema. Isto é particularmente perigoso.

Congresso do PSD

Estando fora no fim-de-semana, o acompanhamento do congresso do PSD foi muito débil. Agora que o sínodo terminou, parece que ficou confirmado, tendo em consideração o número de apoios granjeados (e este argumento é o único), que Pedro Passos Coelho é mesmo um génio da política. Manuela Ferreira Leite não passará assim de uma diaconisa que, como na Igreja primitiva, tem mais uma função assistencial e caritativa do que de direcção apostólica. A fabricação de génios políticos no PSD é tão rápida como aquela que acontece, por obra do Ministério da Educação, na Matemática.

Por uma vez, de acordo com Daniel Sampaio

Estava tudo a caminhar tão bem. Procurador-Geral da República e Ministra da Educação até pareciam de acordo: a violência escolar tinha diminuído. Também que indisciplina não era violência, etc., etc. Mas o psiquiatra oficial do regime, o Professor Daniel Sampaio, veio pôr fim ao idílio: afinal, a indisciplina é uma forma de violência. Segundo o Público, Sampaio terá dito: «Há uma diferença entre indisciplina e violência mas quando se diz que indisciplina nada tem a ver com violência não estamos no bom caminho.»

É claro que Sampaio tem razão. A indisciplina atinge o direito dos outros alunos a aprender e a ter um ambiente normal na escola. Atinge também o direito dos professores a ensinar. A indisciplina é uma forma de violência difusa. Por norma, não ultrapassa a fronteira e não descamba em violência física, mas os direitos dos outros são de facto coarctados e isso é uma clara forma de violência. Esse tipo de violência pode ter consequências nefastas não apenas no aproveitamento imediato das vítimas, mas também no seu futuro escolar. Por uma vez, estou de acordo com Daniel Sampaio.

21/06/08

Quando chumbar é uma vergonha

Se o leitor quer compreender por que razão o ensino português é o que é e se ainda quer perceber as razões de fundo que opõem professores ao Ministério da Educação, então poderia começar por ler e meditar profundamente o artigo de hoje, nas páginas centrais do Diário de Notícias:
Mas para não ficar a pensar que isto se passa apenas com ucranianos, acrescento que tenho uma aluna de um outro país de leste, uma das minhas melhores alunas, que me diz exactamente o mesmo. Fica horrorizada com a irresponsabilidade da maior parte dos colegas.

20/06/08

Colisão de galáxias

Um rasto de luz,
uma câmara de gás…
Algumas estrelas espreitam.

E nas trevas infinitas
há galáxias esquecidas
tão doentes; mal se deitam.

Jorge Carreira Maia, Poemas dispersos.

Carmen McRae 1988 Montreal

Cuidar da mercearia

A cimeira de líderes (seja lá isso o que for) da União Europeia faz o favor de não aborrecer, por agora, a Irlanda por ser um país democrático (Lusa). O tratamento dos desvarios democráticos dos ilhéus fica para depois, apesar do feitor cá do sítio achar que não há alternativa ao milagroso Tratado de Lisboa, feito pelo qual há-de subir ao reino dos céus e adquirir a glória dos altares, com direito a resplendor e tudo. Agora, porém, há que tratar da mercearia, que a escalada de preços, nomeadamente do petróleo, está a minar os alicerces dos quintais e sem quintais não há Tratado.

Em defesa dos exames

Tanto no exame de Língua Portuguesa do 9.º ano, realizado na quarta-feira, como no de Matemática também do 9.º ano, realizado hoje, as associações profissionais de ambos os sectores vieram sublinhar a diminuição do grau de dificuldade das provas relativamente a anos transactos (Sol). Chegámos a um momento inaceitável da nossa vida pública. Os exames e as provas de aferição nacionais não podem servir de arma de arremesso político. A degradação do estado da educação, provocada pela actual equipa ministerial, é tal que começa a justificar-se a intervenção do primeiro-ministro ou, caso este não sinta inclinação para tal, do Presidente da República. A não acontecer, corre-se o risco de até os exames nacionais deixarem de ter qualquer valor social reconhecido. As notas dos alunos não podem ser motivo de gargalhada geral como aconteceu com os resultados das provas de aferição. Chega.