Marte, água, espargos e o nosso quintal
Imagem da NASAA verdade é um erro exilado na eternidade. (Cioran)
Imagem da NASA
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Graças ao blogue A Educação do Meu Umbigo, tive acesso a excertos da intervenção da ministra da Educação, a socióloga Maria de Lurdes Rodrigues, na sessão abertura do VI Congresso Português de Sociologia. O texto vale a pena ser lido com atenção, pois está nele tudo o que sempre me levou a desconfiar da sociologia. É muito curiosa a relação entre a sociologia e a praxis política e a forma como a socióloga divide a sociologia em boa e má, como se estas categorias pertencessem ao campo científico e não ao jogo linguístico da moralidade.
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On-line está já a nova edição do Jornal Torrejano. Para primeira página foi eleito o tema das dívidas do município com o título Qualquer dia não há dinheiro (aqui entre nós, isso já acontece em muito e bom lado). Referência ainda para a apresentação do renovado plantel dos amarelos. Por fim, um dirigente local do Bloco de Esquerda descobriu que havia um projecto socialista para o concelho, mas que não resulta. Se ele o diz…
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Num post de ontem, e na sequência de um artigo de Adriano Moreira, referia-se a agressão económica como um instrumento estratégico da maior importância. É natural que as pessoas pensem de imediato no petróleo, ou na invasão da Europa por produtos asiáticos que praticam o dumping social. Mas a dependência europeia do gás russo não é menos problemática e os russos não têm hesitado em usar o gás como arma geoestratégica. No Público de hoje há matéria sobre assunto que inclui informação (aqui) e reflexão (aqui e aqui).
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Conta Platão, no Timeu 22 b, que Sólon, tendo-se deslocado ao Egipto, foi recebido com grandes honrarias na cidade de Saïs. O motivo da consideração é que Saïs e a cidade de Sólon, Atenas, foram fundadas pela mesma deusa, Neith, na língua egípcia, e Atena, na língua helénica. Havia então uma partilha de origem, o que talvez significasse, dado que o sacerdote egípcio que falava com Sólon situava a fundação de Atenas mil anos antes de Saïs, um elo colonial esquecido pelos gregos.
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Tudo arde na brancura da tarde e uma chama acampa
pelas terras áridas. As palavras crescem roídas de saliva,
os dias a fazem aumentar, e a teus pés os rebanhos metálicos
deitam-se vorazes, estradas cospem-nos terra fora.
Os deuses procuram os sombrios bosques onde as tardes
cantam pela manhã e o fogo é agora um astro de sidra
no solo da memória, esfarelado, coberto de erva rala,
pequenas poças de água tépida, restos de ramos,
pássaros de olhos vesgos, cães coçados na sarna
a zumbir entre canaviais e as desventuradas ruas da cidade.
Na ardência, das coisas se apossava, corriam funâmbulos,
e na precipitação – a tudo abandonavam – à sua imagem
de vidro as mãos erguiam. Na sombra ansiosa, espreitavam
entre relógios, horas e dias, um caminho ainda haveria, diziam,
ruas de algas roxas pelos bordos, uma estrada de ruídos,
insectos de cinza, plantas melíferas pelos matagais de fogo,
e uma ardência, a tudo, no inquieto coração, se apegava.
Eu não tenho uma mão forte, nem do ramo da oliveira construo
bordão a que, no clamor da tarde, me encoste. Sigo preso
no horizonte e onde me levam aqueles que me levam eu vou,
sem o caminho saber, eu vou, na ardência da tarde, eu vou,
apenas porque alguém me leva, como se fugisse das lâmpadas
da noite e dos vagos faróis com que em estradas de colmo
automóveis tracejam, ímpios, a santidade da noite.
Levantam-se ali os amantes, os corpos despidos de carne,
e gritam pelo fogo, um dia, tão ao de leve, teria ardido
como restolho na ardência da campina infectada.
Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.
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Voltemos ao artigo de Adriano Moreira publicado ontem no DN e do qual se reproduziram aqui os excertos mais significativos. O artigo vale a pena ser lido, porque nele está presente uma análise que se funda num olhar arguto e sábio do fenómeno político. Assim, destaquemos os seguintes pontos:
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Como já acontecera no 6.º e 9.º anos, também os exames de Matemática do 12.º geraram, segundo jornais e TV, insolúvel controvérsia entre os estudantes, incapazes de se entender sobre se a prova foi "muito fácil", "muito acessível", "muito básica", "muito elementar" ou apenas "superfácil".
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Marcadores: Comentário, Educação, Política
O défice cognitivo tem uma justificação simples: a miséria. A Universidade de Aveiro, uma das mais pujantes no país, está sem dinheiro para pagar as despesas de funcionamento. Segundo o Público, a Universidade está a utilizar dinheiro destinado à investigação para pagar os subsídios de férias de funcionários e professores. Eis o resultado do choque tecnológico que nos haveria de fazer entrar, a grande velocidade, na sociedade do conhecimento. Há uma coisa que ainda me consegue espantar: por que razão os políticos não têm medo de ser ridículos. Mentirosos, eu compreendo que sejam, mas ridículos?
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Afinal é um problema cognitivo. Segundo a magistrada Maria José Morgado, "há dificuldade da sociedade portuguesa em compreender a denúncia" da corrupção e que os tribunais "deixam os denunciantes entregues a si próprios" (Público). Sempre me pareceu que Portugal vivia um défice cognitivo. A sociedade não compreende a denúncia da corrupção e os tribunais parece que também não. No domínio da incompreensão, vivemos numa sociedade igualitária: ninguém compreende que se denuncie a corrupção. Valha-nos ao menos isto.
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Paulo Morais, antigo vereador da Câmara Municipal do Porto, veio denunciar que os “terrenos valem em função do seu proprietário”. E eu a pensar que o mercado é que decidia do valor das coisas (Público). Sim, eu sei que Paulo Morais se refere às compras efectuadas por órgãos de poder, como as autarquias. Mas não é o poder autárquico o melhor que a Revolução de Abril produziu? Diz o senhor que os tribunais administrativos “têm estado um pouco adormecidos” nas questões de corrupção urbanística. Um pouco? Meu Deus, não andará também Paulo Morais com sono? Por fim, considerou que a Inspecção-Geral da Administração Local “é uma entidade inexistente” e ainda se mostrou “desiludido” com a Justiça, pois as investigações às suas denúncias têm avançado muito mais lentamente do que seria desejável. Mas a pergunta que importa fazer é: seria desejável para quem?
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Sempre que um governo precisa, para tranquilizar a má consciência de alguns, de um acordo dos representantes dos trabalhadores, lá está a sempre disponível UGT (Público). Por seu turno, a CGTP contínua fiel a si e abandona a mesa das negociações. Enfim, uma fotografia da falsidade em que assenta o mundo do trabalho em Portugal. Antes das negociações, já todos sabiam o resultado, até parece o futebol pátrio.
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Marcadores: Economia, Escrito na areia, Política, Sociedade
Em terra alheia sou peregrino e caminho ébrio
pelo asfalto, as torrentes de ar incendeiam-me o rosto,
as faces lívidas com que entro nesta cidade,
e deixam aberto em mim o martelar furioso
das pedras ígneas do silêncio. Não sei o preço
da viagem, nem tenho nos bolsos moedas,
ouro, prata. Algumas pedras da estrada,
se as penso, tomo na mão e
o peso verga-me o olhar para o alcatrão.
Às vezes, tão poucas, oiço vozes ao longe
e sonho com prados de água seca e fogos frios
de Outono, se transpira de cansaço.
Tão gélido o fogo, o que me trazem para escutar,
cor de cobre, metálico nas labaredas,
na terra entram e se ocultam: fogos de Outono,
a crisálida os habita e longe dos olhares
buscam moradia. Pela calada da noite
o seco véu… do Inverno ele virá.
Do turbilhão dos músculos soltam-se passos infalíveis,
o bater dos pés pelo chão, levam-me terra fora.
Que dizer? Ao vê-los, riem crianças.
A voz cala-se. Se o corpo caminha, ela, rouca, suspende-se,
e só os olhos se agitam no repouso da paisagem,
nova sempre vem, e entra por eles e filtra-se
no cérebro do que caminha, passos errantes,
a gerar riso de moscardo, cinzento,
sem pétalas, gretado como as águas amargas dos que
tiveram memória e dela foram despojados.
Desconheço as faces, o horizonte mas devolve, e não posso
comprar pão e vinho. Há muito deixei de ter mesa
onde os pousar e se regressar agora à casa branca,
um dia disseram-me esta é a tua casa,
as paredes não me reconhecerão e naquela mesa, se mesa
ainda tiver, não haverá para a sombra lugar,
nem guardanapo, nem prato de barro esperará
a ânsia da fome, haveria de a ter.
Resta-me caminhar, passar, as portas fechadas,
cadeados quebrados, janelas corridas.
Às vezes, tomam-me as sombras da tarde e a elas
entrego o nada que me resta, deuses mo deram.
Perdida a ausência que me movia,
ergue-se uma canção pura:
Delata-me à negra noite, aos terrores da infância.
O coração descompassado esvai-se num grito,
e logo o silêncio o arrebata e à planície da mudez o devolve.
Ergo-me sobre as pernas e, preso a meus passos,
retomo a viagem, olhos no horizonte,
um saco de ervas e dois relâmpagos por bagagem.
Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.
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A versão de Luigi Nono da tragédia de Prometeu. Pouco recomendável para quem odeia a vanguarda. Com Lux Aeterna de Gyorgy Ligeti, esta é uma das peças da vanguarda europeia de que mais gosto, ou não fora a existência de um mito grego como pano de fundo. Aliás, seria interessante fazer um périplo de leitura entre João Evagelista (Evangelho, Apocalipse) e o Prometeu Agrilhoado de Ésquilo, com as obras de Ligeti e de Nono como pano de fundo.
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As revistas Foreign Policy (EUA) e Prospect (Reino Unido) elaboraram uma lista dos 100 intelectuais mais influentes no mundo. Para tal organizaram uma votação, na qual participaram meio milhão de pessoas (Público). O método vale o que vale e presta-se às mais diversas constatações e contestações. Mas os resultados não deixam de ser interessantes. Nos primeiros 10 lugares, encontram-se apenas intelectuais de orientação muçulmana. Estes dados permitem várias leituras concomitantes. Em primeiro lugar, o mundo islâmico começa a interessar-se decisivamente por este tipo de coisas; em segundo, a comunidade muçulmana mundial, apesar das suas diferenças, é, hoje em dia, um claro actor histórico consciente da sua identidade e do seu papel no mundo; em terceiro, parece que o Ocidente que foi grande devido aos seus intelectuais se desinteressou deles (o primeiro ocidental é Noam Chomsky).
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Os portugueses são os mais pessimistas da União Europeia, segundo o Eurobarómetro (Público). Parece que o mirífico país do plano tecnológico não resistiu ao choque. Como não sou vidente, não sei qual o futuro reservado pelos deuses a Sócrates e companhia. Mas, nestes anos de democracia, nunca houve um governo tão arrogante. Sócrates pensou que governava o país a partir de uma central de propaganda e que a propaganda chegava para disfarçar os problemas reais para os quais ele não estava preparado. Agora descobre que o véu de Maya que pretendeu estender sobre o país se rompe por tudo o que é sítio e deixa ver o tenebroso da realidade primordial. Os portugueses, como bons bacantes, cultuam o pessimismo, isto é, apercebem-se da realidade que é a sua. Depois de um Apolo tecnológico, refugiam-se em Diónisos.
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O caso Mugabe é um dos mais tristes na muito triste história política africana. O ruído da desistência de Morgan Tsvangirai é ensurdecedor. Por cá, o silêncio de certas vozes amigas dos povos não deixa de fazer o seu pequeno barulho. Devem achar que o estatuto de anticolonislista de Mugabe permite tudo.
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De facto o globalismo económico destacou a agressão económica como um instrumento estratégico da maior importância e perigosidade. Neste caso, a Europa está numa situação de vulnerabilidade aguda, como subitamente se tornou evidente com a crise dos combustíveis.
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Falta à União cidadania europeia. Os europeus, de todos os países membros, têm poucos meios para influenciar as decisões dos dirigentes e mesmo para as compreender. Estão a leste do que se congemina em Bruxelas. Ora é isso que leva ao desconhecimento do que está em jogo - de cada vez que são consultados - e à indiferença.
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Não há quem saia pela manhã a olhar
as dispersas sementeiras, os campos invadiram.
A mão crispou-se, agora novelo de linho
esquecido sob a luz da clarabóia.
Não há seta que indique o lugar onde o desejo
se quer e irrompe no crepúsculo matinal,
entre corações desfeitos, a gotejar ervas,
e mãos presas à viagem, assim começada,
para um deserto de páginas em branco,
sem luz que ilumine, cor que incendeie,
sílabas, por filhos palavras dêem.
Não é cântico de júbilo o que na garganta
se forma, nem palavra tingida pela acidez
dos dias. O arco-íris esbateu-se, as nuvens
ficaram mais opacas, quase sólidas,
numa atmosfera de cactos, ruas vazias,
faces atónitas levemente estropiadas. Se
cicatrizes ainda têm, nelas nasceu uma erva rasa,
amarela, queimada pelo cálcio, a tudo devora.
Não é âncora o que ofereço, nem lenço
para lágrimas, se lágrimas ainda te ardem
sobre a pele rugosa, a face, dizes que te disseram.
Espelhos não fabrico, nem do vidro
sei o segredo, nem das mãos o aconchego.
Canto na escuridão para não morrer,
para me ouvir e adivinhar o que ainda sou
e nesta ilusão caminho estrada fora,
os pés no chão, e na cabeça, ainda a tenho,
o ar da noite preso numa caravela.
Ao arder, ponho máscara de cera e se invoco
o deus, oiço a voz de quem de casa não sai
a olhar as dispersas sementeiras;
no fulgor do passado, os campos invadiam.
Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.
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É evidente que este José Afonso é melhor do que outros mais vampirescos. Embora cada coisa tenha o seu lugar, o génio de José Afonso é muito mais nítido quando é menos político. Opiniões, dirão. Opiniões, confirmo.
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Os sindicatos da polícia preparam uma vaga de contestação à política governamental. Depois de professores, camionistas, militares, funcionários públicos, trabalhadores por contra de outrem, chega agora a vez das forças militarizadas. Para lá das razões que cabem a cada sector profissional, o que fica à mostra é um país em colapso, um país estruturado numa sociedade sentida como largamente injusta. Trinta anos de democracia foram insuficientes para tapar as profundas fissuras que atravessam, há séculos, a sociedade portuguesa. O mais problemático, porém, é que se criou um sentimento de que as “fendas” sociais estão a alastrar de uma forma irremediável, e que a democracia não é solução mas parte do problema. Isto é particularmente perigoso.
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Estando fora no fim-de-semana, o acompanhamento do congresso do PSD foi muito débil. Agora que o sínodo terminou, parece que ficou confirmado, tendo em consideração o número de apoios granjeados (e este argumento é o único), que Pedro Passos Coelho é mesmo um génio da política. Manuela Ferreira Leite não passará assim de uma diaconisa que, como na Igreja primitiva, tem mais uma função assistencial e caritativa do que de direcção apostólica. A fabricação de génios políticos no PSD é tão rápida como aquela que acontece, por obra do Ministério da Educação, na Matemática.
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Estava tudo a caminhar tão bem. Procurador-Geral da República e Ministra da Educação até pareciam de acordo: a violência escolar tinha diminuído. Também que indisciplina não era violência, etc., etc. Mas o psiquiatra oficial do regime, o Professor Daniel Sampaio, veio pôr fim ao idílio: afinal, a indisciplina é uma forma de violência. Segundo o Público, Sampaio terá dito: «Há uma diferença entre indisciplina e violência mas quando se diz que indisciplina nada tem a ver com violência não estamos no bom caminho.»
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Se o leitor quer compreender por que razão o ensino português é o que é e se ainda quer perceber as razões de fundo que opõem professores ao Ministério da Educação, então poderia começar por ler e meditar profundamente o artigo de hoje, nas páginas centrais do Diário de Notícias:
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Um rasto de luz,
uma câmara de gás…
Algumas estrelas espreitam.
E nas trevas infinitas
há galáxias esquecidas
tão doentes; mal se deitam.
Jorge Carreira Maia, Poemas dispersos.
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A cimeira de líderes (seja lá isso o que for) da União Europeia faz o favor de não aborrecer, por agora, a Irlanda por ser um país democrático (Lusa). O tratamento dos desvarios democráticos dos ilhéus fica para depois, apesar do feitor cá do sítio achar que não há alternativa ao milagroso Tratado de Lisboa, feito pelo qual há-de subir ao reino dos céus e adquirir a glória dos altares, com direito a resplendor e tudo. Agora, porém, há que tratar da mercearia, que a escalada de preços, nomeadamente do petróleo, está a minar os alicerces dos quintais e sem quintais não há Tratado.
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Tanto no exame de Língua Portuguesa do 9.º ano, realizado na quarta-feira, como no de Matemática também do 9.º ano, realizado hoje, as associações profissionais de ambos os sectores vieram sublinhar a diminuição do grau de dificuldade das provas relativamente a anos transactos (Sol). Chegámos a um momento inaceitável da nossa vida pública. Os exames e as provas de aferição nacionais não podem servir de arma de arremesso político. A degradação do estado da educação, provocada pela actual equipa ministerial, é tal que começa a justificar-se a intervenção do primeiro-ministro ou, caso este não sinta inclinação para tal, do Presidente da República. A não acontecer, corre-se o risco de até os exames nacionais deixarem de ter qualquer valor social reconhecido. As notas dos alunos não podem ser motivo de gargalhada geral como aconteceu com os resultados das provas de aferição. Chega.
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O primeiro post foi a 21 de Maio deste ano, portanto os dias comuns vão fazer um mês. Mas o que é os dias comuns? Leia-se a epígrafe: fotografia com música e poemas dentro. A coisa começa a esclarecer-se. Talvez a palavra-chave seja fotografia. O blogue de Carlos Rema vem mostrando fotografia do autor de enorme qualidade. Depois, combina-a com música que indicia toda uma geração: jazz e música francesa. Por fim, há também, uma vez por outra, poesia e pequenas reflexões. Mas o essencial é mesmo a fotografia quase sempre a preto e branco, quase sempre a fotografar o não presente, o não visível, o não fotografável. Fotografia metafísica, portanto. Não sei se o autor é crente, mas se há uma coisa de que falam aquelas fotografias é de Deus, ou do seu afastamento, ou do efeito da sua ausência sobre o homem. Não sei se pode dizer que um blogue de um torrejano seja um blogue torrejano, mas será essa discussão útil? Clique aqui para ir até lá.
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Tem nova cara a edição on-line do Jornal Torrejano, tem novas funcionalidades e está mais moderno (sem ofensa, claro). Está mais bonito e mais profissional. Por exemplo, as últimas notícias estão a funcionar, o que é um excelente sinal. Chega de elogios. Embora eu não seja da casa, não passo de um mero colaborador que o JT faz o favor de publicar uns textos que vou mandando, ainda podem julgar que estou a fazer um elogio a coisa minha, não é.
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Lilases tardios
infestam as ruas.
Tristeza na noite,
efémera e cálida,
sombreia o Outono
sem nome que levas
ao mar assombrado,
roído de areia.
Se cantas ainda
aquela suave
e doce cantiga,
é porque os lilases
não entardeceram
naquela rua triste
perdida no mar
sombrio do Outono.
Deixaste um rio
de lava manchado
na aldeia tão fria.
Então caminhaste
cabelos ao vento
e fogo no olhar.
Assim amanhece
o triste lilás.
Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008
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Ganharam, pronto, podem calar-se? Homenagem aos alemães com a Ute Lemper e all that jazz também para vocês. Tenho dito.
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Portugal 1 Alemanha 3. Sem palavras.
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Quando leio certas coisas lembro-me dessa instituição ateniense a que não faltava grande sabedoria: o ostracismo. Dirão que não é muito democrático condenar o pessoal ao exílio. De acordo, mas quando se lêem coisas (Público) como as que diz essa sumidade que chefia a bancada parlamentar socialista, Albano Martins, a saudade daqueles tempos gloriosos torna-se violenta. O PS quer um Conselho de Prevenção da Corrupção para, diz a excelência, “detectar e prevenir” os riscos (sic) da corrupção. Parece que a polícia e a justiça têm mais que fazer, é preciso um conselho preventor. Para quê tal conselho? “Identificar as áreas mais vulneráveis à penetração do fenómeno”. Aliás, ninguém faz ideia de quais são, só mesmo o conselho é que nos salva. E a que mais pérolas temos direito? Esta é extraordinária: a proposta prevê “meios logísticos e aproveita as sinergias da administração pública, desde logo os inspectores-gerais da administração pública”. Quem utilizasse a palavra sinergia deveria ser condenado a um duplo ostracismo. Esta proposta socialista é o que se chama, por cá, andar a encanar a perna à rã. Temos mesmo de aturar isto? Vá lá, tragam as conchas de ostras e o pessoal vota.
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A política governamental na área da educação conduziu a um beco com uma única saída, a saída da equipa ministerial. A razão é simples: não há qualquer confiança social nos resultados das provas de aferição e dos exames nacionais. A questão está de tal maneira politizada que muita gente vê nas provas e nos resultados puros actos políticos e não o trabalho normal e independente da instituição educativa.
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Canta ardente fada,
faz de tudo o que há
um céu de azeviche,
talvez uma flor
de roseira seca
a olhar vazia
para tão negro
vazio qu’em mim há.
Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008
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“Marcelo Rebelo de Sousa não descarta acordo entre o PSD e o PS depois das eleições” (Público). Marcelo sabe o que está a dizer. Sabe que essa poderá vir a ser a única solução para assegurar a continuidade das políticas que estão a ser seguidas na Europa. O empobrecimento da população precisa de continuar sem grandes sobressaltos políticos e é isso que, em caso de necessidade, levará à formação de um bloco central, como já aconteceu e está, neste momento a acontecer, na Alemanha. A isto há que juntar uma possível revisão constitucional, que seja útil para os fins que ambos os partidos, ou as forças que eles representam, perseguem.
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Não sei o motivo, mas comecei a embirrar com o tamanho desmesurado dos vídeos. Assim, o Horace Silver vai em tamanho menor. O som também já teve melhores dias, mas ainda assim vale a pena.
Horace Silver Quintet-Nutville-1969
Colocado por redhotjazz
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Depois de saber dos espantosos resultados nas provas de aferição de Matemática (4.º e 6.º anos), fiz um inquérito aos meus amigos que têm filhos na idade de realizar aquelas provas. Fiquei estupefacto. A miudagem só fala no Pedro Nunes, todos querem ser como o Pedro Nunes. Os filhos de gente mais à esquerda até falam em ser Bento de Jesus Caraça. Há miúdos, talvez esquizofrénicos, que querem ser os dois ao mesmo tempo. Um amigo meu até já me pediu os livros do Hilbert e do Russel para emprestar ao miúdo que está a acabar o 4.º ano. Os pais estão aflitos com tanto interesse pela matemática demonstrado pela pequenada. Há alguns que já pensam consultar psicólogos como o dr. Eduardo de Sá ou psiquiatras como o dr. Daniel Sampaio para saber se isto é normal. Meu Deus, como o plano da matemática mudou toda uma cultura atávica. Não posso abrir mais a boca de espanto.
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Jorge Carreira Maia
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Dantes éramos um país de poetas, agora somos um país de matemáticos. Ao fim de dois anos, a ministra da Educação conseguiu transformar um país que mal sabia contar pelos dedos, numa pátria de alta eficiência matemática, pelo menos a avaliar pelos resultados das provas de aferição do 4.º e 6.º anos de escolaridade. Os resultados positivos estão acima dos 90%. É evidente que existem sempre umas almas mais desconfiadas que acham que as provas são demasiado fáceis e também há outras almas suspeitosas que pensam que os resultados se podem manipular com facilidade. Mas deixemos de lado essa gente que gosta pouco das aparências e banhemo-nos na nossa nova vocação matemática. Afinal, estávamos esquecidos, mas descendemos todos do Pedro Nunes.
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Jorge Carreira Maia
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Marcadores: Educação, Escrito na areia, Política
Sulcos breves, pedras
há no etéreo olhar
com que fitas, só,
tão cansada e triste,
deslumbrada e pálida,
tudo o que a vida,
com luz desmedida,
rouba quando prá
morte então caminha.
Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008
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A grave crise do petróleo está gerar greves de camionistas um pouco por todo o lado. Os acontecimentos, contudo, são capazes de encerrar uma outra lição não muito agradável para as empresas de transporte e para os camionistas. O transporte de mercadorias tem passado essencialmente pela rodovia, mas todos estes acontecimentos não estarão a obrigar a uma mudança de paradigma? Por exemplo, a ferrovia e o transporte marítimo e fluvial, onde for possível, não poderão dar uma resposta mais eficiente, até ao nível ecológico, às necessidades de circulação das mercadorias? Até quando será viável e desejável ter as estradas sobrelotadas com camionetas de grande tonelagem? Os tempos de crise são sempre tempos muito propícios a respostas que pareciam não estar inscritas na realidade. Será o caso dos transportes?
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Marcadores: Comentário, Economia, Sociedade
A imaginação nunca falta à nossa gente. Agora uma organização esotérica que dá pelo sacro nome de ERSE (Entidade Reguladora do Sector Energético) propõe “que os custos com as facturas incobráveis passem a ser partilhados por todos os consumidores de electricidade.” (Público) É como se todos os que comem pão tivessem de pagar os calotes que alguns fazem na padaria. Seja como for, acho a proposta de uma profundidade inusitada. Abre-se assim o caminho para que todos os consumidores se tornem consumidores cujas facturas são incobráveis.
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Marcadores: Economia, Escrito na areia, Sociedade
A viagem tem
um sabor de cal
quando vou por ti,
na rua, deslumbrado.
Oiço então os pássaros
que o Inverno traz
e no seio da terra
logo se escondem.
Vejo-os vivos, pálidos,
infelizes mármores
que da pedra foram
por tuas mãos libertos.
Cantam livres do
coração que assim,
com tão doces modos,
em mim os prendeu.
Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008
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Marcadores: Economia, Escrito na areia
O objectivo do governo, para a educação, é agora colocar Portugal entre os “cinco países europeus mais avançados na modernização tecnológica dos estabelecimentos de ensino” (Público). Há uma coisa que os governos portugueses sabem fazer: gastar dinheiro que não lhes custou a ganhar. A tresloucada ambição de equipar as escolas com alta tecnologia é exactamente igual ao projecto de dotar o país com 10 estádios moderníssimos, no último europeu. Qual foi o benefício social da ambição? O problema da educação em Portugal não está na falta de equipamentos, mas na falta de vocação dos alunos para estudar e dos portugueses para darem importância ao que tem realmente importância. Entrámos no delírio eleitoral.
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Marcadores: 500 caracteres, Educação, Política, Sociedade
Não há nada de mais obsceno, no panorama político europeu, do que uma certa campanha de intimidação da Irlanda. Dessa campanha faz parte a extraordinária ideia democrática de a pôr fora da União Europeia. Isto mostra bem o que vai na cabeça de certos democratas e liberais. Não acharão surpreendente que o único povo que foi autorizado a pronunciar-se sobre o magnífico Tratado de Lisboa o tenha rejeitado?
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Marcadores: Escrito na areia, Política
Ao abrir o Público on-line, deparei-me com a notícia da morte do pianista de jazz Esbjörn Svensson, o líder do E. S. T. O pianista sueco era um dos músicos de jazz europeus mais interessantes e influentes.
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Marcadores: Música
Sem alma se torna
a vida que imita
passados de glória
com restos de palha,
roseiras feridas,
ardis sem história.
Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008
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É verdade, gosto disto, quero dizer de Robert Wyatt e também dos Soft Machine. Não é todos os dias, mas uma vez por outra...
Robert Wyatt - Sea Song
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Marcadores: Música
O Público de hoje decidiu discutir, a propósito dos exames nacionais, o sexo dos anjos. Consta que alguns “especialistas alertam para "efeitos perversos" das provas nacionais”. Algumas das luminárias acusam os professores de prepararem os alunos para exame. Esta é uma discussão que não tem resolução, tal como a discussão em torno do sexo (agora dir-se-ia do género) dos anjos. Os exames existem para aferir socialmente as aprendizagens e denotam a necessidade do sistema prestar provas do que faz. Se a sociedade tivesse uma confiança absoluta no que é feito nas escolas, os exames seriam, em princípio, dispensáveis. Um dos argumentos contra os exames centra-se na ideia de que há saberes e competências, como agora é moda dizer, que o exame não avalia. Mas o problema não está na ideia de exame e de prestação de provas, mas na forma e na qualidade desses mesmos exames. Mas uma coisa que os defensores da abolição dos exames não conseguem fazer é a demonstração de que os alunos saberiam mais se não houvesse exames.
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Marcadores: Comentário, Educação
Passear pela zona sul das Aldeias do Xisto, visitar a Figueira e a Foz do Cobrão, respirar o ar puro do pinhal. Muito bem, tudo muito ecológico e saudável, mas onde comer? Aqui a solução é Vale de Urso, uma aldeia junto a Proença-a-Nova, na Estrada Nacional 233. Não desespere se não encontrar indicações em Proença. É preciso não esquecer que estamos em Portugal. Mas vale a pena ir até lá? Se estiver por aqueles lados nem vale a pena hesitar, o Famado é um restaurante bastante simpático, com serviço eficiente, uma atenção discreta do gerente, o qual sabe muito bem o que está a fazer. Comi lá uma das melhores sopas de peixe da minha vida. Há um mistério, para mim, irresolúvel: por que razão é que as sopas de peixe são tanto melhores quanto mais nos afastamos da costa? O segredo, diz o gerente, está na qualidade dos vegetais usados, nomeadamente o tomate, tudo produto local. E dos temperos, claro. Depois, experimentei o “plagaio” com batata frita e legumes cozidos. E o que é o “plagaio”? É um enchido da zona de Proença-a-Nova, com farinheira e entrecosto. Não sendo tão bom quanto a sopa de peixe, é um prato curioso e que merece boa nota. Excelente é a tigelada que se pode comer como sobremesa. Diferente da de Abrantes, esta é enriquecida com mel e canela. E que beber? Experimentou-se um tinto beirão da Adega Cooperativa do Fundão, o Fundanus Prestige, de 2003. Um vinho exuberante, com um belo aroma, a pedir para ser aberto bem cedo e arejado. Um vinho ainda com muita vida pela frente. É a prova de que se encontram coisas interessantes feitas pelas adegas cooperativas. Ir a Vale de Urso não é uma perda de tempo.
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Marcadores: Fotografia
Segundo o Público (sem link permanente), aumenta a pressão para que a Irlanda faça um segundo referendo. No Sol, um ministro alemão diz que o resultado do referendo irlandês não deve ser sobrevalorizado. Estamos já perante a estratégia que pretende fazer desaparecer as regras do jogo. A batota parece ser o caminho escolhido pelas elites políticas europeias para impor uma constituição. A verdade, porém, é que a democracia está a desaparecer assim como o que ainda resta da credibilidade das classes políticas europeias. A crise da Europa não se deve ao «não» irlandês. Ela está concentrada no conjunto de inutilidades que tomaram conta do poder na Europa, com Durão Barroso à cabeça.
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Marcadores: 500 caracteres, Política
Passado, passaste
tão rápido, sombra
delida e impressa
na boca feroz
do tempo. Ó ruína
que fazes de mim
fantasma dolente
a vogar por pedras
e casas despidas
de gente. Caminho
entre arcos, caminho
por ruas despidas,
sem vida, e aspiro
as nuvens de cinza
que se abrem além.
Esqueço então
os nomes, as horas,
aquilo que amei,
esqueço-me a mim
e aquilo que fui.
Apenas recordo,
se o faço então,
as horas perdidas
nas águas serenas
a olhar o teu rosto
que, preso no meu,
da vida se afasta
e acorda feliz
no porto de júbilo
onde sopra gélido
o vento da morte.
Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Para começar o fim-de-semana, a coisa nem está mal. Uma fina ironia corre o "texto" musical de princípio até ao fim.
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Marcadores: Comentário
O génio político e o grupo de geniozinhos que tomaram conta do PS devem estar à beira de um ataque de nervos. Apesar da abulia em que continua a viver o PSD, o partido do senhor engenheiro apresenta apenas mais 1% de intenções de voto. Mas a extraordinária estratégia política de destruição das classes médias, levada a cabo pelo nosso condottiero, já conseguiu que PCP e BE se aproximassem dos 25%. Repito: quase um em cada quatro portugueses está disposto a votar acentuadamente à esquerda. Grande Sócrates.
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Marcadores: 500 caracteres, Política
O génio político da casa parece que perdeu o jogo na Irlanda. Se há uma coisa que mostra a menoridade política de Sócrates é a recusa de referendar o Tratado de Lisboa, depois da promessa eleitoral de o fazer. Mancomunado com o Presidente da República e o bando de mediocridades que governa a Europa, Sócrates deu o dito por não dito. Tinha, na sua pequena cabeça, a garantia da entrada para a história como o homem do Tratado de Lisboa, aquele onde a soberania era trocada por sabe-se lá o quê. Azar mesmo é ainda haver, nalguns sítios, democracia. Os irlandeses, uns ingratos, cortaram cerce os sonhos de glória do pobre homem e devolveram à Europa um mínimo de dignidade. Nós precisamos da União Europeia, o que não precisamos é de batota, como aquela que suportava a aprovação do Tratado de Lisboa às escondidas. Por muito que custe a Sócrates, a Barroso e à corja de burocratas que domina de fio a pavio a Europa, os povos europeus ainda existem. E se querem ser europeus, também gostam de ser portugueses, ou franceses, ou irlandeses. A pergunta que fica, porém, é a seguinte: o que irão os burocratas e a elite política europeia inventar a seguir para destruir os Estados-nação europeus?
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Marcadores: Comentário, Política
Faminto, arrojei
o peso do mundo
nos ombros da tarde.
Chovia na floresta
quando ergui
os braços cansados
ao corvo que grasna
e desalentado
corri na manhã:
o mundo vergou
a pálida aurora
em torno da terra e,
de súbito, um negro
cão de asas de cinza
uivou no tugúrio
vermelho a que chamas:
minha solidão.
Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Ligeti é um dos compositores da vanguarda europeia de que mais gosto. Lux Aeterna foi a minha porta de entrada para o seu trabalho.
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Marcadores: Música
Há muita gente que diz cobras e lagartos do senhor Scolari. Certamente pessoas extraordinárias que teriam feito muito melhor do que ele, embora até agora nunca tenham feito seja o que for. Portugal já está apurado para os quartos-de-final do Europeu. A partir daqui já não há nada a pedir, o que vier é ganho. Podem dizer que o nosso grupo não é forte ou outra coisa do género. A verdade, porém, é que os resultados se devem ao trabalho realista do senhor Scolari com uma equipa onde os grandes jogadores não abundam. Portugal, no entanto, perceberá melhor a importância do actual seleccionador quando este estiver ao serviço do Chelsea e um dos nossos génios ocupar o seu lugar.
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Marcadores: 500 caracteres, Futebol, Sociedade
O governo fez um acordo com a ANTRAM. Vai tentar apoiar o sector dos transportes, dentro daquilo que é razoável. Os sectores liberais estão contra, mas o governo fez bem em negociar. O que, porém, é importante realçar, se o acordo for aceite pelos organizadores do protesto, é a importância do Estado na regulação do problema. É natural que os sectores liberais prefiram um conflito prolongado e a anarquia entre a população. A intervenção do Estado vem mostrar que este não é coisa despicienda e a sua actividade reguladora, incluindo do mercado, é muito mais importante do que aquilo que as suas teorias utópicas gostariam que fosse. O Estado tem uma função equilibradora da sociedade e, se em tempos normais deve manter-se distanciado do mercado, há alturas em que deve interferir se o equilíbrio da vida comunitária for posto em causa. Só há duas coisas a dizer. Veremos se o conflito fica por aqui, se o cheiro da força, por parte das transportadoras, não vai conduzir a uma radicalização das exigências. Este é um perigo real. Por outro lado, é pena que o governo só se lembre do papel equilibrador do Estado perante a ameaça daqueles que são fortes (sim, as transportadoras são fortes, têm o país na mão). Mas a este tipo de “coragem” já estamos habituados com Sócrates.
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Marcadores: Comentário, Política
Se eu não tivesse
caído no pez
dos teus olhos húmidos,
talvez o telhado
de colmo cobrisse
o meu corpo ávido
de chuva e saudade;
talvez a tua mão
fechasse, secreta,
as ervas do campo
no longe que há
em meu coração.
Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008
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Mais uma grande conquista civilizacional da Europa: conseguiu, após quatro longos anos, com que a semana de trabalho pudesse, em caso de acordo entre entidade patronal e trabalhador, chegar a um máximo de 65 horas, em vez das actuais 48. Eu não percebo como é que ainda ficam de fora 103 horas semanais. Não me digam que os trabalhadores por contra de outrem têm direito a descansar, a ver telenovela, futebol e assistir à missa? Acabemos rapidamente com essa alienação de gente preguiçosa. Que trabalhem 168 horas por semana, 52 semanas por ano. Assim, talvez, suplantemos a China em civilização, defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores. Dito de outra maneira: os escravos deverão estar sempre alerta e ao serviço dos seus senhores. Ah!, já me estava a esquecer: a Comissão presidida pelo antigo dirigente da classe operária, José Manuel Durão Barroso, saudou o acordo como uma grande conquista dos trabalhadores (Público). Barroso realiza assim o seu antigo sonho maoísta.
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Marcadores: Escrito na areia
A greve das transportadoras, motivada pelo preço dos combustíveis, está a pôr a cabeça em água ao governo. Há a sensação de que é possível paralisar por completo o país e lançar o caos. A situação é muito difícil, pois se é verdade que a grande fatia do preço do combustível cai para o lado dos impostos, também é verdade que são estes mesmos impostos que permitem, bem ou mal, o país funcionar. Há liberais que defendem que não se deve ser sensível às reivindicações dos camionistas (João Miranda, no Blasfémias), mas o tempo não está para radicalismos. Aquilo que é fundamental é encontrar uma posição equilibrada e evitar que a situação no país se torne explosiva. Estamos num dos momento em que a questão política é claramente mais importante que a do mercado. Eu sei que o tempo e o lugar são outros, mas foi com uma greve do género que no Chile foi aberto o caminho para a ditadura de Pinochet.
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Marcadores: Comentário, Política, Sociedade
Se penso o infinito
e vejo no céu
um teixo de sombra,
caminho então
de mãos desprendidas,
abertas, pedindo
aos deuses a luz
ou a morte suave
a vir num domingo
p'la tarde sem riscos,
sem verde, sem fogos
a arder na galáxia.
Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008
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Piano: Branka Parlic
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Marcadores: Música
Por falar em multiculturalismo, a Visão da passada semana contava o caso de uma mãe iraquiana que denunciou ao jornal inglês The Observer o civilizadíssimo comportamento do marido e dos filhos que estrangularam, pontapearam e esfaquearam até à morte a filha e irmã de 17 anos. Crime da rapariga: conversou com um soldado inglês. A mãe, porventura cansada de tão elevado grau civilizacional, ia fugir para a Jordânia a 17 de Maio, altura em que foi assassinada a tiro. É evidente que todas as civilizações se equivalem e cada um tem direito aos valores que tem, até para os impor aos outros. Extraordinário é que coisas parecidas com estas se passam na Europa, onde os agentes do multiculturalismo propugnam pelo direito das gentes vindas de outras paragens a não ter de se submeter aos nossos horíveis valores que proíbem este tipo avançado de comportamento civilizacional.
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Marcadores: Escrito na areia, Sociedade
Um cão raivoso morde num pobre burro e este acaba por morrer. Raiva para cá, raiva para lá, o conflito entre duas tribos paquistanesas dura há oito anos. Como a coisa não se resolvia de maneira nenhuma, foi «então que a jirga se reuniu e optou por selar a reconciliação entre os dois clãs com a oferta das virgens». Quinze raparigas ao todo, entre os três e os dez anos, segundo o DN, foram o preço da reconciliação. Mas para que querem eles as pobres raparigas? Para casar. Parece que há candidatos com mais de 50 anos. O governo diz que é ilegal, mas o problema do governo é que não governa nas zonas rurais, onde estes costumes civilizadíssimos têm um prestígio inabalável, tão ao gosto dos nossos admiradores do multiculturalismo.
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Jorge Carreira Maia
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