27/06/08

Marte, água, espargos e o nosso quintal

Imagem da NASA

Foram feitas as primeiras análises químicas do solo marciano. Segundo o Público, os cientistas da NASA estão exultantes: “É o tipo de solo que poderíamos encontrar no nosso quintal”, declarou, em conferência de imprensa, Samuel Kouvanes, responsável pelo instrumento da sonda que acaba de realizar a primeira análise química ao solo de Marte. “Os espargos até se davam provavelmente muito bem com um solo desses.” Também parece confirmada a presença de água em Marte, pelo menos em certa fase da vida do planeta. As experiências que estão a ser feitas indicam-no. Portanto, não percamos a esperança de ir a Marte comer uma bela açorda de espargos. Caso não possa, o Alentejo não é assim tão longe. Aguardemos mais surpresas...

Para que serve a sociologia?

Graças ao blogue A Educação do Meu Umbigo, tive acesso a excertos da intervenção da ministra da Educação, a socióloga Maria de Lurdes Rodrigues, na sessão abertura do VI Congresso Português de Sociologia. O texto vale a pena ser lido com atenção, pois está nele tudo o que sempre me levou a desconfiar da sociologia. É muito curiosa a relação entre a sociologia e a praxis política e a forma como a socióloga divide a sociologia em boa e má, como se estas categorias pertencessem ao campo científico e não ao jogo linguístico da moralidade.

Bom é quando há “estreita articulação entre o campo da sociologia e o campo das políticas públicas, de que ambos têm retirado benefícios”. Também parece pertencer ao campo das coisas boas o contributo decisivo da Sociologia “para um melhor conhecimento da realidade educativa nacional e, portanto, para uma melhor fundamentação de próximas medidas de política educativa.”

Depois há os maus usos da inocente sociologia, nomeadamente das teses da reprodução social (cf. Bourdieu & Passeron). E em que consiste esta maldade? Consiste “transformar as origens e contextos sociais em obstáculos inultrapassáveis pela escola, condenada por isso a funcionar como mero mecanismo de confirmação de destinos sociais predeterminados. Tais usos têm confortado a inércia e a ineficácia do sistema educativo, desresponsabilizando os agentes educativos pelos resultados da sua acção, legitimando o conformismo e recusando à escola qualquer papel fundamental na mudança social.”

Perdoe-se a longa situação. Mas o lugar comum, a banalidade de pensamento, a repetição de um chavão sem fundamento, mostram bem a artilharia ideológica e a soma de preconceitos que habitam o cérebro da ministra da Educação.

Para mim é um mistério que os sociólogos não percebam que aquilo a que chamam ciência não passa da mais pura ideologia. Pior, de uma ideologia de carácter totalitário, pois fala a partir de uma putativa “verdade científica”. Nunca consegui perceber, no âmbito da acção humana, como é que da descrição, já enquadrada em teorias de reputação científica duvidosa, de determinadas realidades sociais se podem extrair prescrições e imperativos para a acção política (aquilo que a senhora ministra chama fundamentar). Descrever o que uma coisa é ou como tem sido, não dá qualquer legitimidade a qualquer enunciação sobre como ela deverá ser. O que a ministra faz, aliás no seguimento até de contributos “científicos” de outras áreas, como as “ciências” da educação, é disfarçar a sua ideologia e embrulhá-la numa autoridade que ela reputa de científica. Não há nenhuma verdade científica sobre como deverá ser a escola. Existem em conflito várias teorias, todas de carácter ideológico, que se confrontam na arena política. Só isso. A sociologia serve assim como arsenal ideológico para imposição de políticas absolutamente discutíveis. Mas, e isso é muito claro na acção política da ministra, a sociologia serve como fornecedora de um credo que apenas admite um caminho para a educação, onde o debate ideológico é sonegado e tudo aparece como a emanação na praxis de uma verdade prévia, a que os gentios se deverão converter em vez de questionar. Eis a natureza totalitária da ideologia sociológica.

Curioso, porém, é que esta “cientificidade” pode ter bons e maus usos, o que é uma concepção extraordinária. A ciência pretende ser descritiva e portanto amoral. Ao trazer o bom e o mau uso, a ministra da educação, em acto falhado, confessa o uso ideológico das teorias sociológicas. O problema, porém, é que o bem e o mal também são objecto de disputa e conflito.

O discurso da senhora ministra mostra para que serve, em muitos casos, a sociologia: uma ideologia justificativa das opções políticas, fundada em lugares-comuns, clichés e banalidades, aos quais não falta sequer um certo moralismo. É a este tipo de ideologia que se entrega o destino da educação de um país. Mas isto é também a prova provada de que o niilismo está cada vez mais activo e o seu lugar preferido de acção é o poder. A partir do poder a capacidade de dissolução das instituições é muito maior. Fazendo um curto-circuito, descobrimos que a sociologia é uma estratégia niilista que legitima o poder pós-moderno na destruição das instituições e dos valores remanescentes das tradições presentes no tecido social. E é por isso mesmo que, apesar de contra-indicado, a socióloga Maria de Lurdes Rodrigues não consegue fugir à temática moral: bom é o que dissolve, mau é o que conserva. A frase “tais usos (da sociologia da reprodução) têm confortado a inércia e a ineficácia do sistema educativo, desresponsabilizando os agentes educativos pelos resultados da sua acção, legitimando o conformismo e recusando à escola qualquer papel fundamental na mudança social” é, toda ela, um monumento ao preconceito ideológico, fundado numa visão falsa da realidade, e a enunciação clara do programa niilista, onde a vontade é mobilizada para processos de destruição, nomeados agora como mudança social. É curioso que a proposição, subentendida, “a escola tem um papel fundamental na mudança social” seja apresentado de forma axiomática, enquanto, na verdade, não passa de uma expressão puramente ideológica e bastante discutível.

A conexão da sociologia com o poder revela então o papel que lhe parece reservado: legitimar de forma totalitária, a partir da sua posição de “ciência” e da sua conexão à “verdade”, o avanço do niilismo nas sociedades ocidentais. Quem conhece o sistema educativo percebe como em três anos quase tudo foi destruído, tornado menos funcional, como os parcos valores de exigência ainda existentes foram transformados em nada. Há de facto uma coerência assinalável entre uma teoria ideológica de carácter niilista e uma praxis política também niilista. Não restará pedra sobre pedra.

Jornal Torrejano, 27 de Junho de 2008

On-line está já a nova edição do Jornal Torrejano. Para primeira página foi eleito o tema das dívidas do município com o título Qualquer dia não há dinheiro (aqui entre nós, isso já acontece em muito e bom lado). Referência ainda para a apresentação do renovado plantel dos amarelos. Por fim, um dirigente local do Bloco de Esquerda descobriu que havia um projecto socialista para o concelho, mas que não resulta. Se ele o diz…

Na opinião, siga-se então a ordenação alfabética após a referência ao cartoon de Hélder Dias. Carlos Henriques escreve Fasquia muito alta!, este blogger, Entre a creche e a assistência social, Jorge Salgado Simões, Cultura global, José Ricardo Costa, Crítica da razão impura, Marco Liberato, As folgas dos democratas e Miguel Sentieiro, A metamorfose.

Depois, é só ir passando por , para ir vendo como param as modas aqui na terra. Notícias frescas on-line, que o Jornal Torrejano não precisa de choque tecnológico para estar na vanguarda (passe a metáfora militar) da informação regional. Bom fim-de-semana e cuidado com os ultravioletas. Se acha que estou a ser muito sectário, proteja-se também dos infravermelhos, dos sobreverdes, dos supramarelos, dos superazuis e, acima de tudo, dos subrosas e dos infralaranjas. Não são de confiar.

Sobre a agressão económica como arma política

Num post de ontem, e na sequência de um artigo de Adriano Moreira, referia-se a agressão económica como um instrumento estratégico da maior importância. É natural que as pessoas pensem de imediato no petróleo, ou na invasão da Europa por produtos asiáticos que praticam o dumping social. Mas a dependência europeia do gás russo não é menos problemática e os russos não têm hesitado em usar o gás como arma geoestratégica. No Público de hoje há matéria sobre assunto que inclui informação (aqui) e reflexão (aqui e aqui).

26/06/08

JOHN SURMAN QUARTET live - Across The Bridge

A infância existencial

Conta Platão, no Timeu 22 b, que Sólon, tendo-se deslocado ao Egipto, foi recebido com grandes honrarias na cidade de Saïs. O motivo da consideração é que Saïs e a cidade de Sólon, Atenas, foram fundadas pela mesma deusa, Neith, na língua egípcia, e Atena, na língua helénica. Havia então uma partilha de origem, o que talvez significasse, dado que o sacerdote egípcio que falava com Sólon situava a fundação de Atenas mil anos antes de Saïs, um elo colonial esquecido pelos gregos.

Sólon, para fazer os sacerdotes a falar sobre a antiguidade, pôs-se a evocar aquilo que de mais antigo era conhecido pelos gregos. É neste momento que um dos padres, já muito idoso, diz: «Sólon, Sólon, vós, os gregos, sois eternas crianças; velho, um grego não o pode ser.» E perante a perplexidade do heleno, continuou: «Jovens, vós o sois todos de alma, pois não tendes nela qualquer opinião transmitida oralmente desde a antiguidade, nem nenhum saber encanecido pelo tempo».

Quando hoje falamos no aniquilamento das tradições, na ausência de conhecimento do passado, na pouca espessura da memória do homem ocidental, julgamos estar perante um fenómeno recente. Ora aquilo que Platão nos diz através das palavras do sacerdote egípcio surge assim como o símbolo de um destino do Ocidente. Não são os gregos antigos apenas que são desmemoriados. A perda da memória do passado é o destino de toda uma civilização que, já naquele tempo, se precipitava em direcção do futuro.

O que distingue aquele instante do actual é que Sólon e as crianças que eram os gregos ainda eram habitados por uma nostalgia que os lembrava dessa ignorância. E o ser criança da acusação do velho padre é sentido fatalmente como uma reprimenda e uma intimação ao crescimento. Os nossos dias, porém, não apenas desconhecem qualquer nostalgia do passado, como a desprezariam se ela se manifestasse. O ser criança dos ocidentais tornou-se a única realidade que lhes é acessível. Cada nova geração ocidental é educada para continuar criança, numa infantilização sem fim à vista. Mesmo se acontecimentos dramáticos, como as guerras mundiais, retiram uma ou duas gerações do infantário existencial, o destino logo se abate sobre nós e a cultura da eterna infância progride ainda mais rapidamente. Foi esse o destino que o velho sacerdote nos destinou naquelas estranhas palavras evocadas ou inventadas por Platão.

Sobre o novo génio da política nacional

(clique para aumentar)
Parece que alguém já percebeu a natureza do novo génio político nacional, esse jovem inefável e muito liberal que dá pelo nome abençoado de Pedro Passos Coelho. Volto a perguntar-me: por que razão não têm os políticos medo do ridículo?

Para compreender o amor que Pedro Passos Coelho gera em certos sectores liberais da blogosfera clicar aqui.

Como se autodestrói o Ocidente?

Para compreender a pulsão de morte que habita o Ocidente, há que meditar nesta edificante notícia da Lusa/Fim:

A justiça francesa condenou a uma multa de 800 euros um profesor que deu uma bofetada a um aluno de 11 anos durante uma aula, após este o ter insultado.

José Laboureur, de 49 anos, é profesor de Tecnologia na escola Cilles-de-Chin na localidade de Berlaimont, no Norte de França.

Compareceu em tribunal acusado de violência agravada e enfrentava uma pena de máxima de cinco anos de prisão e 75 mil euros de multa.

O profesor esbofeteou, à frente de toda a turma, o aluno após uma discusão, durante a qual este chamou ao professor "parvalhão".

Para o tribunal, "não se trata apenas de uma bofetada mas de uma cena de violência, onde está implícita a vontade de humilhar por parte do profesor".

O aluno foi suspenso das aulas por três dias, logo após o incidente com o professor, tendo, entretanto, sido transferido para uma outra escola (MAC).

25/06/08

Exodus - III

Tudo arde na brancura da tarde e uma chama acampa
pelas terras áridas. As palavras crescem roídas de saliva,
os dias a fazem aumentar, e a teus pés os rebanhos metálicos
deitam-se vorazes, estradas cospem-nos terra fora.
Os deuses procuram os sombrios bosques onde as tardes
cantam pela manhã e o fogo é agora um astro de sidra
no solo da memória, esfarelado, coberto de erva rala,
pequenas poças de água tépida, restos de ramos,
pássaros de olhos vesgos, cães coçados na sarna
a zumbir entre canaviais e as desventuradas ruas da cidade.

Na ardência, das coisas se apossava, corriam funâmbulos,
e na precipitação – a tudo abandonavam – à sua imagem
de vidro as mãos erguiam. Na sombra ansiosa, espreitavam
entre relógios, horas e dias, um caminho ainda haveria, diziam,
ruas de algas roxas pelos bordos, uma estrada de ruídos,
insectos de cinza, plantas melíferas pelos matagais de fogo,
e uma ardência, a tudo, no inquieto coração, se apegava.

Eu não tenho uma mão forte, nem do ramo da oliveira construo
bordão a que, no clamor da tarde, me encoste. Sigo preso
no horizonte e onde me levam aqueles que me levam eu vou,
sem o caminho saber, eu vou, na ardência da tarde, eu vou,
apenas porque alguém me leva, como se fugisse das lâmpadas
da noite e dos vagos faróis com que em estradas de colmo
automóveis tracejam, ímpios, a santidade da noite.

Levantam-se ali os amantes, os corpos despidos de carne,
e gritam pelo fogo, um dia, tão ao de leve, teria ardido
como restolho na ardência da campina infectada.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Jan Garbarek with Keith Jarrett - Spiral Dance

Às vezes o futebol exaspera-me

Raros são os desportos de equipa em que os que jogam pior têm hipótese de ganhar. O futebol é um deles. Depois de ter feito um jogo quase miserável contra Portugal, a Alemanha levou um banho de bola na 1.ª parte contra Turquia. Mas três remates deram três golos e o apuramento para a final. É nisto que o futebol é imperfeito. Alemanha e Itália são o protótipo daquilo que muitas vezes torna o futebol uma xaropada insuportável. O melhor seria mesmo repensarem as regras do jogo.

A maldade de ler os clássico

Graças ao Zé Ricardo Costa, eis a razão pela qual alguns professores estão fatal e inapelavelmente fodidos:

"É muito difícil ler os clássicos; logo, a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender isto, portanto alguma coisa está errada nisto. E há especialmente alguma coisa errada no mau professor que quer ensinar tal matéria. Deixou de haver critérios, Mr Zuckerman, para só haver opiniões." [Philip Roth, A Mancha Humana]

Meditação sobre a Europa

Voltemos ao artigo de Adriano Moreira publicado ontem no DN e do qual se reproduziram aqui os excertos mais significativos. O artigo vale a pena ser lido, porque nele está presente uma análise que se funda num olhar arguto e sábio do fenómeno político. Assim, destaquemos os seguintes pontos:

1. Na nova situação mundial, a agressão económica tornou-se um instrumento estratégico da maior importância e perigosidade.

2. A Europa, nesta nova situação, está particularmente vulnerável. Esta vulnerabilidade é dada por um conjunto de carências: matérias-primas, energia, mão-de-obra e de confiança.

3. A globalização está a implicar uma alteração do peso dos protagonistas: as antigas colónias têm agora a iniciativa, enquanto as antigas metrópoles europeias sofrem as consequências da sua intervenção.

4. A crise foi gerada por um sistema económico global. Este foi instalado com “oferecida abonação científica” e “pouca governança” (sic).

5. Essa mesma crise está a gerar grandes protestos, pois “a pobreza crescente, o desemprego, e a fome, incitam ao exercício de direitos naturais pouco condescendentes”.


É preciso meditar até ao fim as palavras de Adriano Moreira. Em primeiro lugar, ele mostra que o problema da economia global não é um problema de mercado, mas um problema político. Certas potências estão a utilizar a “agressão económica” como instrumento estratégico. O Ocidente, com pouca clarividência ou através de um claro acto de traição dos governos aos seus povos, descurou não apenas o interesse dos seus, como abriu o flanco para que os inimigos utilizassem a economia como arma numa política que visa a destruição desse mesmo Ocidente. É preciso perceber que o par conceptual fundamental do pensamento político é o par amigo/inimigo. Quando o Ocidente abriu as portas, os seus inimigos fizeram o que lhes competia: assestaram os golpes mais rudes que conseguiram. E, se olharmos lucidamente para a realidade, continuarão a fazê-lo se o medo não lhes tolher a audácia.

A fragilização do Ocidente, nomeadamente da Europa, prende-se com factores estruturais (matérias-primas, energia, mão-de-obra). Estes factores já eram fundamentais no século XIX, como o lembra Adriano Moreira, e foram eles que desencadearam os processos de colonização. Agora, porém, a Europa está tolhida. Qualquer movimento expansionista seria uma catástrofe, para além da ausência, no actual contexto, de qualquer legitimidade para tal exercício. A Europa pode ser ainda a maior potência comercial do mundo, mas que futuro terá quem não possui matérias-primas, energia e mão-de-obra? Mais, que futuro terá um espaço político nessa situação, que ainda por cima pode estar rodeado de inimigos?

Mas aos problemas externos, adicionam-se os internos. Adriano Moreira refere os protestos que há por toda a Europa e diz mais: centram-se em direitos naturais pouco condescendentes. Há, no texto de Moreira, uma ambiguidade sibilina. Parecendo tratar da necessidade da confiança e do reforço da preocupação política por parte dos governos, o que ele pré-anuncia é o direito dos povos à revolta. E essa revolta é uma revolta legítima pois prende-se ao exercício de “direitos naturais” fundamentais. Há, no texto, uma subtileza muito interessante. Enquanto, os teóricos e os próprios agentes políticos tendem a dividir os direitos, sublinhando o antagonismo entre os direitos civis (vida, liberdade, propriedade e integridade da pessoa), oriundos do direito natural de Locke, dos direitos sociais (os provenientes do Estado-Providência), Adriano Moreira faz um curto-circuito e mostra como os direitos sociais, embora ele não os refira a não ser indirectamente, se inscrevem nos direitos civis fundamentais. Quem conhece a teoria lockeana sabe perfeitamente da legitimidade da revolta perante o poder que não respeita os direitos civis (cf. Carta sobre a Tolerância).

A partir do texto citado, podemos compreender a situação da Europa decorrente do processo de globalização iniciado e incentivado por Margareth Tatcher e Ronald Reagan. A Europa tornou-se politicamente muito frágil, abrindo o flanco aos seus inimigos externos e criando condições para grandes rupturas sociais internas. Restam-me duas dúvidas:

1. Será que para enfrentar estes trabalhos de Hércules bastam lideranças fortes? Não será já demasiado tarde?

2. Será possível que as elites políticas europeias percebam a situação enquanto não abandonarem o conceito de «economia-política»? Mas será possível que elas abandonem o conceito fundamental que estruturou o pensamento liberal e o pensamento marxista, dominantes no Ocidente?

Manuel António Pina - Salve-se quem puder

Como já acontecera no 6.º e 9.º anos, também os exames de Matemática do 12.º geraram, segundo jornais e TV, insolúvel controvérsia entre os estudantes, incapazes de se entender sobre se a prova foi "muito fácil", "muito acessível", "muito básica", "muito elementar" ou apenas "superfácil".

O "óscar" vai para um atormentado aluno de Portimão que, ouvido pelo CM, declarou que a coisa chegou a ser "difícil por ser tão fácil". Outros, que terão imprudentemente passado o ano a estudar, estavam desolados: afinal, mais valia terem gozado umas boas noitadas em discotecas e no "Rock in Rio", pois - queixaram-se ao "Público" - foi "demasiado fácil".

Idênticas dúvidas afligiam os especialistas: para a Sociedade Portuguesa de Matemática, "grande número de questões (era) de resposta imediata e elementar", ao passo que para a APM, pelo contrário, eram "bastante acessíveis".

A ministra tinha prometido resultados e eles aí estão. Antes de abandonar o barco, e na iminência de naufrágio do "Titanic" das políticas educativas, o capitão manda lançar os botes à água gritando: "As estatísticas primeiro!".
[Manuel António Pina, Jornal de Notícias de 25/06/2008]

Retratos da Pátria – IV. A crise da Universidade

O défice cognitivo tem uma justificação simples: a miséria. A Universidade de Aveiro, uma das mais pujantes no país, está sem dinheiro para pagar as despesas de funcionamento. Segundo o Público, a Universidade está a utilizar dinheiro destinado à investigação para pagar os subsídios de férias de funcionários e professores. Eis o resultado do choque tecnológico que nos haveria de fazer entrar, a grande velocidade, na sociedade do conhecimento. Há uma coisa que ainda me consegue espantar: por que razão os políticos não têm medo de ser ridículos. Mentirosos, eu compreendo que sejam, mas ridículos?

Retratos da Pátria – III. Falta de compreensão da denúncia da corrupção

Afinal é um problema cognitivo. Segundo a magistrada Maria José Morgado, "há dificuldade da sociedade portuguesa em compreender a denúncia" da corrupção e que os tribunais "deixam os denunciantes entregues a si próprios" (Público). Sempre me pareceu que Portugal vivia um défice cognitivo. A sociedade não compreende a denúncia da corrupção e os tribunais parece que também não. No domínio da incompreensão, vivemos numa sociedade igualitária: ninguém compreende que se denuncie a corrupção. Valha-nos ao menos isto.

Retratos da Pátria – II. A saga do urbanismo

Paulo Morais, antigo vereador da Câmara Municipal do Porto, veio denunciar que os “terrenos valem em função do seu proprietário”. E eu a pensar que o mercado é que decidia do valor das coisas (Público). Sim, eu sei que Paulo Morais se refere às compras efectuadas por órgãos de poder, como as autarquias. Mas não é o poder autárquico o melhor que a Revolução de Abril produziu? Diz o senhor que os tribunais administrativos “têm estado um pouco adormecidos” nas questões de corrupção urbanística. Um pouco? Meu Deus, não andará também Paulo Morais com sono? Por fim, considerou que a Inspecção-Geral da Administração Local “é uma entidade inexistente” e ainda se mostrou “desiludido” com a Justiça, pois as investigações às suas denúncias têm avançado muito mais lentamente do que seria desejável. Mas a pergunta que importa fazer é: seria desejável para quem?

Retratos da Pátria – I. O mundo do trabalho

Sempre que um governo precisa, para tranquilizar a má consciência de alguns, de um acordo dos representantes dos trabalhadores, lá está a sempre disponível UGT (Público). Por seu turno, a CGTP contínua fiel a si e abandona a mesa das negociações. Enfim, uma fotografia da falsidade em que assenta o mundo do trabalho em Portugal. Antes das negociações, já todos sabiam o resultado, até parece o futebol pátrio.

24/06/08

Exodus - II

Em terra alheia sou peregrino e caminho ébrio
pelo asfalto, as torrentes de ar incendeiam-me o rosto,
as faces lívidas com que entro nesta cidade,
e deixam aberto em mim o martelar furioso
das pedras ígneas do silêncio. Não sei o preço
da viagem, nem tenho nos bolsos moedas,
ouro, prata. Algumas pedras da estrada,
se as penso, tomo na mão e
o peso verga-me o olhar para o alcatrão.

Às vezes, tão poucas, oiço vozes ao longe
e sonho com prados de água seca e fogos frios
de Outono, se transpira de cansaço.
Tão gélido o fogo, o que me trazem para escutar,
cor de cobre, metálico nas labaredas,
na terra entram e se ocultam: fogos de Outono,
a crisálida os habita e longe dos olhares
buscam moradia. Pela calada da noite
o seco véu… do Inverno ele virá.

Do turbilhão dos músculos soltam-se passos infalíveis,
o bater dos pés pelo chão, levam-me terra fora.
Que dizer? Ao vê-los, riem crianças.
A voz cala-se. Se o corpo caminha, ela, rouca, suspende-se,
e só os olhos se agitam no repouso da paisagem,
nova sempre vem, e entra por eles e filtra-se
no cérebro do que caminha, passos errantes,
a gerar riso de moscardo, cinzento,
sem pétalas, gretado como as águas amargas dos que
tiveram memória e dela foram despojados.

Desconheço as faces, o horizonte mas devolve, e não posso
comprar pão e vinho. Há muito deixei de ter mesa
onde os pousar e se regressar agora à casa branca,
um dia disseram-me esta é a tua casa,
as paredes não me reconhecerão e naquela mesa, se mesa
ainda tiver, não haverá para a sombra lugar,
nem guardanapo, nem prato de barro esperará
a ânsia da fome, haveria de a ter.

Resta-me caminhar, passar, as portas fechadas,
cadeados quebrados, janelas corridas.
Às vezes, tomam-me as sombras da tarde e a elas
entrego o nada que me resta, deuses mo deram.
Perdida a ausência que me movia,
ergue-se uma canção pura:
Delata-me à negra noite, aos terrores da infância.
O coração descompassado esvai-se num grito,
e logo o silêncio o arrebata e à planície da mudez o devolve.

Ergo-me sobre as pernas e, preso a meus passos,
retomo a viagem, olhos no horizonte,
um saco de ervas e dois relâmpagos por bagagem.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Luigi Nono - Prometeo, Tragedia dell'ascolto - Hölderlin

A versão de Luigi Nono da tragédia de Prometeu. Pouco recomendável para quem odeia a vanguarda. Com Lux Aeterna de Gyorgy Ligeti, esta é uma das peças da vanguarda europeia de que mais gosto, ou não fora a existência de um mito grego como pano de fundo. Aliás, seria interessante fazer um périplo de leitura entre João Evagelista (Evangelho, Apocalipse) e o Prometeu Agrilhoado de Ésquilo, com as obras de Ligeti e de Nono como pano de fundo.

Das influências intelectuais

As revistas Foreign Policy (EUA) e Prospect (Reino Unido) elaboraram uma lista dos 100 intelectuais mais influentes no mundo. Para tal organizaram uma votação, na qual participaram meio milhão de pessoas (Público). O método vale o que vale e presta-se às mais diversas constatações e contestações. Mas os resultados não deixam de ser interessantes. Nos primeiros 10 lugares, encontram-se apenas intelectuais de orientação muçulmana. Estes dados permitem várias leituras concomitantes. Em primeiro lugar, o mundo islâmico começa a interessar-se decisivamente por este tipo de coisas; em segundo, a comunidade muçulmana mundial, apesar das suas diferenças, é, hoje em dia, um claro actor histórico consciente da sua identidade e do seu papel no mundo; em terceiro, parece que o Ocidente que foi grande devido aos seus intelectuais se desinteressou deles (o primeiro ocidental é Noam Chomsky).

É como se estivéssemos a assistir a um render da guarda: o Ocidente desistiu de pensar ao desinteressar-se pelo trabalho e as ideias dos seus intelectuais, enquanto o Islão começa a olhar para eles com esperança de uma afirmação que o retire da medievalidade. Os nomes que o Público refere não pertencem a radicais e fundamentalistas, mas a gente que contribui para um Islão civilizado e respeitador dos direitos do homem. Nem sempre as notícias são más.

O véu de Maya

Os portugueses são os mais pessimistas da União Europeia, segundo o Eurobarómetro (Público). Parece que o mirífico país do plano tecnológico não resistiu ao choque. Como não sou vidente, não sei qual o futuro reservado pelos deuses a Sócrates e companhia. Mas, nestes anos de democracia, nunca houve um governo tão arrogante. Sócrates pensou que governava o país a partir de uma central de propaganda e que a propaganda chegava para disfarçar os problemas reais para os quais ele não estava preparado. Agora descobre que o véu de Maya que pretendeu estender sobre o país se rompe por tudo o que é sítio e deixa ver o tenebroso da realidade primordial. Os portugueses, como bons bacantes, cultuam o pessimismo, isto é, apercebem-se da realidade que é a sua. Depois de um Apolo tecnológico, refugiam-se em Diónisos.

Mugabe o ruído e o silêncio

O caso Mugabe é um dos mais tristes na muito triste história política africana. O ruído da desistência de Morgan Tsvangirai é ensurdecedor. Por cá, o silêncio de certas vozes amigas dos povos não deixa de fazer o seu pequeno barulho. Devem achar que o estatuto de anticolonislista de Mugabe permite tudo.

Adriano Moreira - A fragilidade europeia

De facto o globalismo económico destacou a agressão económica como um instrumento estratégico da maior importância e perigosidade. Neste caso, a Europa está numa situação de vulnerabilidade aguda, como subitamente se tornou evidente com a crise dos combustíveis.

A expansão colonial do século XIX foi justificada pelas democracias europeias da frente atlântica, nos respectivos parlamentos, pela necessidade de dominar as fontes de matérias-primas e garantir mercados de produtos acabados. Destruído esse império, a realidade, demonstrada pelas manifestações que desfilam pelas capitais europeias, é que a Europa é um espaço com debilidades, carente de matérias-primas, carente de energia, carente de mão-de-obra, e começa a dar sinais de carência de confiança.

A globalização implica sistemas abertos que sofrem as intervenções cuja origem a lei da reflexividade situa nas antigas dependências coloniais, e os sinais de que a capacidade europeia de reformular e reanimar o sistema está em dificuldades são eloquentes. A falta actual de lideranças poderosas e confiáveis também não ajuda a inverter a tendência

(…)
A crise que traz multidões para a rua em protesto pelas dificuldades de vida causadas pela disfunção do sistema económico globalista, que foi instalado com oferecida abonação científica e pouca governança, não é amenizada pelo recurso a semânticas paliativas porque a pobreza crescente, o desemprego, e a fome, incitam ao exercício de direitos naturais pouco condescendentes. Esses direitos naturais exigem uma sociedade de confiança para que a contenção recíproca, necessária para assegurar a coexistência efectiva de todos, seja um regulador natural. A pouco amiga circunstância externa, exige uma sólida mobilização cívica a que a UNESCO de longe apela, para que a política retome o comando confiável e oriente o rumo para horizontes menos inquietantes. [Adriano Moreira, Diário de Notícias de 24/06/08]

Mário Soares - O regresso da política

Falta à União cidadania europeia. Os europeus, de todos os países membros, têm poucos meios para influenciar as decisões dos dirigentes e mesmo para as compreender. Estão a leste do que se congemina em Bruxelas. Ora é isso que leva ao desconhecimento do que está em jogo - de cada vez que são consultados - e à indiferença.

Alheiam-se dos problemas. O que não quer dizer que estejam dispostos a consentir que os seus Estados abandonem a construção europeia ou saiam da Comunidade. Porque a União é um grande e original projecto político que trouxe à Europa cinquenta anos de paz, de bem-estar às sociedades europeias - mesmo às mais desiguais - e de prestígio no mundo inteiro.

É verdade que desde há alguns anos a burocracia de Bruxelas e a influência hegemónica americana parecem ter subvertido os grandes ideais europeus. A Europa tornou-se muito conservadora. As duas maiores famílias políticas europeias - que praticamente fizeram a Europa - foram: a socialista ou social-democrata e a democracia cristã. Ambas perderam força. Hoje, em 27 Estados europeus, haverá apenas 3 ou 4 governos que ousam afirmar-se socialistas ou trabalhistas; e as democracias cristãs, tirando a alemã, evoluíram no sentido dos partidos populares, populistas e ultraconservadores, o que faz toda a diferença.

As crises múltiplas - e as terríveis dificuldades que trazem consigo -, para encontrarem qualquer solução e não desaguarem no caos ou em revoltas sangrentas, vão obrigar ao regresso em força da política e dos grandes ideais humanistas. Requer-se imaginação estratégica, persistência e coragem, muita coragem. Para transformar o que hoje nos parece impossível numa promissora realidade, amanhã.
[Mário Soares, Diário de Notícias de 24/07/08]

23/06/08

Exodus - I

Não há quem saia pela manhã a olhar
as dispersas sementeiras, os campos invadiram.
A mão crispou-se, agora novelo de linho
esquecido sob a luz da clarabóia.
Não há seta que indique o lugar onde o desejo
se quer e irrompe no crepúsculo matinal,
entre corações desfeitos, a gotejar ervas,
e mãos presas à viagem, assim começada,
para um deserto de páginas em branco,
sem luz que ilumine, cor que incendeie,
sílabas, por filhos palavras dêem.

Não é cântico de júbilo o que na garganta
se forma, nem palavra tingida pela acidez
dos dias. O arco-íris esbateu-se, as nuvens
ficaram mais opacas, quase sólidas,
numa atmosfera de cactos, ruas vazias,
faces atónitas levemente estropiadas. Se
cicatrizes ainda têm, nelas nasceu uma erva rasa,
amarela, queimada pelo cálcio, a tudo devora.

Não é âncora o que ofereço, nem lenço
para lágrimas, se lágrimas ainda te ardem
sobre a pele rugosa, a face, dizes que te disseram.
Espelhos não fabrico, nem do vidro
sei o segredo, nem das mãos o aconchego.
Canto na escuridão para não morrer,
para me ouvir e adivinhar o que ainda sou
e nesta ilusão caminho estrada fora,
os pés no chão, e na cabeça, ainda a tenho,
o ar da noite preso numa caravela.
Ao arder, ponho máscara de cera e se invoco
o deus, oiço a voz de quem de casa não sai
a olhar as dispersas sementeiras;
no fulgor do passado, os campos invadiam.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Exodus, um novo ciclo

Uma longa hesitação tem-me levado a adiar a postagem do ciclo Exodus, escrito em 2007. Uma arreigada convicção vê a prosa como a decadência da linguagem poética. A linguagem começaria por ser uma construção metafórica e com a vulgarização das metáforas surgiria a linguagem corrente, a prosa que os homens utilizam na comunicação, na reflexão ou na narrativa não poética. Se assim foi, e há gente como Nietzsche que o defende, a verdade é que nós nunca teremos acesso a essa linguagem primordial absolutamente poética e criativa. Somos homens de tempos prosaicos e da ruína da linguagem.

O exercício que tem o nome de Exodus parte destas constatações. Parte da situação de ruína e tenta elevar-se ao poético, sem talvez abandonar o chão prosaico de onde parte. O poético, se o houver, não é dado pelas estratégias habituais ligados ao ritmo, à métrica, à rima, à convenção técnica, mas a esta e àquela palavra que se libertam da sua natureza prosaica e ao jogo semântico que institui um universo em cada poema, digamos assim.

Exodus não descreve, todavia, universos existentes, nem é inspirado no livro bíblico com o mesmo nome, apesar de apresentar tantos poemas como capítulos existentes nesse livro, quarenta. Há também em quase todos os poemas uma pequena citação dissimulada de cada um dos capítulos, mas essas citações nem podem sequer ser consideradas pontes intertextuais. São jogos de adivinhação presos em universos que se chocam com aquele que habitamos. Mas tudo isto não passa de suposições de quem tenta libertar do magma da prosa uma palavra ou um mundo.

José Afonso - Redondo Vocábulo

É evidente que este José Afonso é melhor do que outros mais vampirescos. Embora cada coisa tenha o seu lugar, o génio de José Afonso é muito mais nítido quando é menos político. Opiniões, dirão. Opiniões, confirmo.

Um país em colapso

Os sindicatos da polícia preparam uma vaga de contestação à política governamental. Depois de professores, camionistas, militares, funcionários públicos, trabalhadores por contra de outrem, chega agora a vez das forças militarizadas. Para lá das razões que cabem a cada sector profissional, o que fica à mostra é um país em colapso, um país estruturado numa sociedade sentida como largamente injusta. Trinta anos de democracia foram insuficientes para tapar as profundas fissuras que atravessam, há séculos, a sociedade portuguesa. O mais problemático, porém, é que se criou um sentimento de que as “fendas” sociais estão a alastrar de uma forma irremediável, e que a democracia não é solução mas parte do problema. Isto é particularmente perigoso.

Congresso do PSD

Estando fora no fim-de-semana, o acompanhamento do congresso do PSD foi muito débil. Agora que o sínodo terminou, parece que ficou confirmado, tendo em consideração o número de apoios granjeados (e este argumento é o único), que Pedro Passos Coelho é mesmo um génio da política. Manuela Ferreira Leite não passará assim de uma diaconisa que, como na Igreja primitiva, tem mais uma função assistencial e caritativa do que de direcção apostólica. A fabricação de génios políticos no PSD é tão rápida como aquela que acontece, por obra do Ministério da Educação, na Matemática.

Por uma vez, de acordo com Daniel Sampaio

Estava tudo a caminhar tão bem. Procurador-Geral da República e Ministra da Educação até pareciam de acordo: a violência escolar tinha diminuído. Também que indisciplina não era violência, etc., etc. Mas o psiquiatra oficial do regime, o Professor Daniel Sampaio, veio pôr fim ao idílio: afinal, a indisciplina é uma forma de violência. Segundo o Público, Sampaio terá dito: «Há uma diferença entre indisciplina e violência mas quando se diz que indisciplina nada tem a ver com violência não estamos no bom caminho.»

É claro que Sampaio tem razão. A indisciplina atinge o direito dos outros alunos a aprender e a ter um ambiente normal na escola. Atinge também o direito dos professores a ensinar. A indisciplina é uma forma de violência difusa. Por norma, não ultrapassa a fronteira e não descamba em violência física, mas os direitos dos outros são de facto coarctados e isso é uma clara forma de violência. Esse tipo de violência pode ter consequências nefastas não apenas no aproveitamento imediato das vítimas, mas também no seu futuro escolar. Por uma vez, estou de acordo com Daniel Sampaio.

21/06/08

Quando chumbar é uma vergonha

Se o leitor quer compreender por que razão o ensino português é o que é e se ainda quer perceber as razões de fundo que opõem professores ao Ministério da Educação, então poderia começar por ler e meditar profundamente o artigo de hoje, nas páginas centrais do Diário de Notícias:
Mas para não ficar a pensar que isto se passa apenas com ucranianos, acrescento que tenho uma aluna de um outro país de leste, uma das minhas melhores alunas, que me diz exactamente o mesmo. Fica horrorizada com a irresponsabilidade da maior parte dos colegas.

20/06/08

Colisão de galáxias

Um rasto de luz,
uma câmara de gás…
Algumas estrelas espreitam.

E nas trevas infinitas
há galáxias esquecidas
tão doentes; mal se deitam.

Jorge Carreira Maia, Poemas dispersos.

Carmen McRae 1988 Montreal

Cuidar da mercearia

A cimeira de líderes (seja lá isso o que for) da União Europeia faz o favor de não aborrecer, por agora, a Irlanda por ser um país democrático (Lusa). O tratamento dos desvarios democráticos dos ilhéus fica para depois, apesar do feitor cá do sítio achar que não há alternativa ao milagroso Tratado de Lisboa, feito pelo qual há-de subir ao reino dos céus e adquirir a glória dos altares, com direito a resplendor e tudo. Agora, porém, há que tratar da mercearia, que a escalada de preços, nomeadamente do petróleo, está a minar os alicerces dos quintais e sem quintais não há Tratado.

Em defesa dos exames

Tanto no exame de Língua Portuguesa do 9.º ano, realizado na quarta-feira, como no de Matemática também do 9.º ano, realizado hoje, as associações profissionais de ambos os sectores vieram sublinhar a diminuição do grau de dificuldade das provas relativamente a anos transactos (Sol). Chegámos a um momento inaceitável da nossa vida pública. Os exames e as provas de aferição nacionais não podem servir de arma de arremesso político. A degradação do estado da educação, provocada pela actual equipa ministerial, é tal que começa a justificar-se a intervenção do primeiro-ministro ou, caso este não sinta inclinação para tal, do Presidente da República. A não acontecer, corre-se o risco de até os exames nacionais deixarem de ter qualquer valor social reconhecido. As notas dos alunos não podem ser motivo de gargalhada geral como aconteceu com os resultados das provas de aferição. Chega.

Os dias comuns

O primeiro post foi a 21 de Maio deste ano, portanto os dias comuns vão fazer um mês. Mas o que é os dias comuns? Leia-se a epígrafe: fotografia com música e poemas dentro. A coisa começa a esclarecer-se. Talvez a palavra-chave seja fotografia. O blogue de Carlos Rema vem mostrando fotografia do autor de enorme qualidade. Depois, combina-a com música que indicia toda uma geração: jazz e música francesa. Por fim, há também, uma vez por outra, poesia e pequenas reflexões. Mas o essencial é mesmo a fotografia quase sempre a preto e branco, quase sempre a fotografar o não presente, o não visível, o não fotografável. Fotografia metafísica, portanto. Não sei se o autor é crente, mas se há uma coisa de que falam aquelas fotografias é de Deus, ou do seu afastamento, ou do efeito da sua ausência sobre o homem. Não sei se pode dizer que um blogue de um torrejano seja um blogue torrejano, mas será essa discussão útil? Clique aqui para ir até .

Jornal Torrejano, 20 de Junho de 2008

Tem nova cara a edição on-line do Jornal Torrejano, tem novas funcionalidades e está mais moderno (sem ofensa, claro). Está mais bonito e mais profissional. Por exemplo, as últimas notícias estão a funcionar, o que é um excelente sinal. Chega de elogios. Embora eu não seja da casa, não passo de um mero colaborador que o JT faz o favor de publicar uns textos que vou mandando, ainda podem julgar que estou a fazer um elogio a coisa minha, não é.

Na edição impressa (mas on-line), nota de relevo para o novo comandante dos bombeiros torrejanos e para a entrevista com Arnaldo Santos, o comandante que sai. Nos destaques da edição, uma referência sentida para a morte de José Henrique Farinha, meu antigo colega de estudos, pai de uma aluna minha e pessoa boa, merecedora de grande estima e consideração.

Na opinião, os escribas aparecem ordenados pela ordem alfabética. Assim, Carlos Henriques escreve Selecção descrente?, Carlos Nuno, O Barril, este blogger, A Irlanda e a democracia na Europa, Jorge Salgado Simões, Não-Nope-Nada-Rien-Kaput, José Ricardo Costa, The Winehouse, Marco Liberato, A Cruzada, Santana-Maia Leonardo, Este país não é para velhos.

Com os votos de um contínuo aprimoramento do nosso jornal, despeço-me com amizade até ao próximo programa, quero dizer à próxima edição. Bom fim-de-semana.

19/06/08

Lilases tardios

Lilases tardios
infestam as ruas.
Tristeza na noite,
efémera e cálida,
sombreia o Outono
sem nome que levas
ao mar assombrado,
roído de areia.

Se cantas ainda
aquela suave
e doce cantiga,
é porque os lilases
não entardeceram
naquela rua triste
perdida no mar
sombrio do Outono.

Deixaste um rio
de lava manchado
na aldeia tão fria.
Então caminhaste
cabelos ao vento
e fogo no olhar.
Assim amanhece
o triste lilás.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Ute Lemper - All that jazz

Ganharam, pronto, podem calar-se? Homenagem aos alemães com a Ute Lemper e all that jazz também para vocês. Tenho dito.

O céu está negro

Portugal 2 Alemanha 3. Acabou-se. Foi digno e um grade trabalho de Scolari e, também, dos jogadores. Os alemães marcaram mais e quanto a isso não há nada a dizer. No fim estavam nas cordas, mas o que conta são os golos. Agora estamos todos mais tranquilos para descobrir quem vais ser o vencedor. Palpite: Itália.

Tudo negro, cada vez mais negro

Portugal 1 Alemanha 3. Sem palavras.

A coisa está cinzenta escura

Portugal 1 Alemanha 2. A coisa melhorou. Ainda há esperança, até o Nuno Gomes se lembrou que era avançado-centro. A coisa até já podia estar empatada.

A coisa está preta

Portugal 0 - Alemanha 2. A coisa está escura como breu, os tipos são uns panzers dos diabos. Vamos lá ver se a há força para a reviravolta.

Corrupção e ostracismo

Quando leio certas coisas lembro-me dessa instituição ateniense a que não faltava grande sabedoria: o ostracismo. Dirão que não é muito democrático condenar o pessoal ao exílio. De acordo, mas quando se lêem coisas (Público) como as que diz essa sumidade que chefia a bancada parlamentar socialista, Albano Martins, a saudade daqueles tempos gloriosos torna-se violenta. O PS quer um Conselho de Prevenção da Corrupção para, diz a excelência, “detectar e prevenir” os riscos (sic) da corrupção. Parece que a polícia e a justiça têm mais que fazer, é preciso um conselho preventor. Para quê tal conselho? “Identificar as áreas mais vulneráveis à penetração do fenómeno”. Aliás, ninguém faz ideia de quais são, só mesmo o conselho é que nos salva. E a que mais pérolas temos direito? Esta é extraordinária: a proposta prevê “meios logísticos e aproveita as sinergias da administração pública, desde logo os inspectores-gerais da administração pública”. Quem utilizasse a palavra sinergia deveria ser condenado a um duplo ostracismo. Esta proposta socialista é o que se chama, por cá, andar a encanar a perna à rã. Temos mesmo de aturar isto? Vá lá, tragam as conchas de ostras e o pessoal vota.

Exames, aferições e credibilidade

A política governamental na área da educação conduziu a um beco com uma única saída, a saída da equipa ministerial. A razão é simples: não há qualquer confiança social nos resultados das provas de aferição e dos exames nacionais. A questão está de tal maneira politizada que muita gente vê nas provas e nos resultados puros actos políticos e não o trabalho normal e independente da instituição educativa.

Pode vir o director do GAVE, Carlos Pinto Ferreira, acusar os críticos de nada saberem de avaliação (Público). Isto não é mais do que uma amostra do desespero que percorre as hostes, devido ao pouco crédito que possuem neste momento. Quem trabalha em educação sabe muito bem que não há reviravoltas de um ano para o outro. Sabe ainda outra coisa: o principal motivo das frágeis aprendizagens dos alunos encontra-se numa cultura que ostentam e que é inimiga do trabalho, do estudo e do esforço. Sabe também que essa cultura não mudou. Por que motivo mudaram os resultados?

Pretender, como a senhora ministra, que isso se deve aos planos (esta tentação sovietizante do plano é interessante) da matemática e da leitura é acreditar em milagres. Só um milagre poderia inverter, não ao nível de uma escola, mas do país os resultados de um ano para o outro. A única coisa que resta e que é explicação verosímil centra-se nas provas, no seu grau de dificuldade, nos critérios de correcção e na distribuição da pontuação pelos itens. Quem sabe um pouco de avaliação, de construção de provas, de análise estatística de resultados e de ponderação das cotações, percebe que é possível dar um jeito nos resultados. Mesmo que nada de errado se tenha passado, a desconfiança social instalou-se. Refira-se, ainda, um outro problema ligado a este: o da possibilidade de comparar resultados com anos anteriores. É preciso provar que as provas eram equivalentes, o que está muito longe de estar provado. Em última análise, quando se fazem comparações entre resultados para evidenciar êxito de políticas, nem sequer sabemos do que se está a falar.

Se houvesse algum interesse em assegurar a credibilidade das provas, dever-se-ia tê-las submetido a análise e auditoria independente. Agora, porém, é tarde e todas as análises que sejam feitas, por mais honestas que sejam, serão compreendidas como fazendo parte do jogo político que a equipa ministerial organizou. Este défice de credibilidade, e não interessa se ele corresponde à realidade ou a uma ficção, exigiria para o bem do país e do sistema educativo a demissão não apenas da equipa ministerial, mas também do director do GAVE, independentemente da bondade do seu trabalho. A excessiva politização da educação, promovida pelo governo como estratégia eleitoral, é nefasta para os alunos e para o futuro do país.

18/06/08

Canta ardente fada

Canta ardente fada,
faz de tudo o que há
um céu de azeviche,
talvez uma flor
de roseira seca
a olhar vazia
para tão negro
vazio qu’em mim há.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Bloco central

“Marcelo Rebelo de Sousa não descarta acordo entre o PSD e o PS depois das eleições” (Público). Marcelo sabe o que está a dizer. Sabe que essa poderá vir a ser a única solução para assegurar a continuidade das políticas que estão a ser seguidas na Europa. O empobrecimento da população precisa de continuar sem grandes sobressaltos políticos e é isso que, em caso de necessidade, levará à formação de um bloco central, como já aconteceu e está, neste momento a acontecer, na Alemanha. A isto há que juntar uma possível revisão constitucional, que seja útil para os fins que ambos os partidos, ou as forças que eles representam, perseguem.

Horace Silver Quintet-Nutville-1969

Não sei o motivo, mas comecei a embirrar com o tamanho desmesurado dos vídeos. Assim, o Horace Silver vai em tamanho menor. O som também já teve melhores dias, mas ainda assim vale a pena.

Horace Silver Quintet-Nutville-1969
Colocado por redhotjazz

Pedro Nunes, o novo herói da criançada em Portugal

Depois de saber dos espantosos resultados nas provas de aferição de Matemática (4.º e 6.º anos), fiz um inquérito aos meus amigos que têm filhos na idade de realizar aquelas provas. Fiquei estupefacto. A miudagem só fala no Pedro Nunes, todos querem ser como o Pedro Nunes. Os filhos de gente mais à esquerda até falam em ser Bento de Jesus Caraça. Há miúdos, talvez esquizofrénicos, que querem ser os dois ao mesmo tempo. Um amigo meu até já me pediu os livros do Hilbert e do Russel para emprestar ao miúdo que está a acabar o 4.º ano. Os pais estão aflitos com tanto interesse pela matemática demonstrado pela pequenada. Há alguns que já pensam consultar psicólogos como o dr. Eduardo de Sá ou psiquiatras como o dr. Daniel Sampaio para saber se isto é normal. Meu Deus, como o plano da matemática mudou toda uma cultura atávica. Não posso abrir mais a boca de espanto.

Um país de matemáticos

Dantes éramos um país de poetas, agora somos um país de matemáticos. Ao fim de dois anos, a ministra da Educação conseguiu transformar um país que mal sabia contar pelos dedos, numa pátria de alta eficiência matemática, pelo menos a avaliar pelos resultados das provas de aferição do 4.º e 6.º anos de escolaridade. Os resultados positivos estão acima dos 90%. É evidente que existem sempre umas almas mais desconfiadas que acham que as provas são demasiado fáceis e também há outras almas suspeitosas que pensam que os resultados se podem manipular com facilidade. Mas deixemos de lado essa gente que gosta pouco das aparências e banhemo-nos na nossa nova vocação matemática. Afinal, estávamos esquecidos, mas descendemos todos do Pedro Nunes.

17/06/08

Sulcos breves, pedras

Sulcos breves, pedras
há no etéreo olhar
com que fitas, só,
tão cansada e triste,
deslumbrada e pálida,
tudo o que a vida,
com luz desmedida,
rouba quando prá
morte então caminha.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Michael Nyman Band - Water Dances: Stroking

A crise nos transportes

A grave crise do petróleo está gerar greves de camionistas um pouco por todo o lado. Os acontecimentos, contudo, são capazes de encerrar uma outra lição não muito agradável para as empresas de transporte e para os camionistas. O transporte de mercadorias tem passado essencialmente pela rodovia, mas todos estes acontecimentos não estarão a obrigar a uma mudança de paradigma? Por exemplo, a ferrovia e o transporte marítimo e fluvial, onde for possível, não poderão dar uma resposta mais eficiente, até ao nível ecológico, às necessidades de circulação das mercadorias? Até quando será viável e desejável ter as estradas sobrelotadas com camionetas de grande tonelagem? Os tempos de crise são sempre tempos muito propícios a respostas que pareciam não estar inscritas na realidade. Será o caso dos transportes?

O assalto dos incobráveis

A imaginação nunca falta à nossa gente. Agora uma organização esotérica que dá pelo sacro nome de ERSE (Entidade Reguladora do Sector Energético) propõe “que os custos com as facturas incobráveis passem a ser partilhados por todos os consumidores de electricidade.” (Público) É como se todos os que comem pão tivessem de pagar os calotes que alguns fazem na padaria. Seja como for, acho a proposta de uma profundidade inusitada. Abre-se assim o caminho para que todos os consumidores se tornem consumidores cujas facturas são incobráveis.

16/06/08

A viagem tem

A viagem tem
um sabor de cal
quando vou por ti,
na rua, deslumbrado.

Oiço então os pássaros
que o Inverno traz
e no seio da terra
logo se escondem.

Vejo-os vivos, pálidos,
infelizes mármores
que da pedra foram
por tuas mãos libertos.

Cantam livres do
coração que assim,
com tão doces modos,
em mim os prendeu.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

O amigo petróleo

O petróleo nunca nos desilude, sempre em boa forma, record atrás de record. Hoje quase chegou aos 140 dólares o barril. A desculpa é o incêndio numas plataformas lá para a Noruega. Qual será a próxima? As vacas estão cada vez mais magras, como diria o outro se ainda houvesse Conversas em Família.

O desvario tecnológico

O objectivo do governo, para a educação, é agora colocar Portugal entre os “cinco países europeus mais avançados na modernização tecnológica dos estabelecimentos de ensino” (Público). Há uma coisa que os governos portugueses sabem fazer: gastar dinheiro que não lhes custou a ganhar. A tresloucada ambição de equipar as escolas com alta tecnologia é exactamente igual ao projecto de dotar o país com 10 estádios moderníssimos, no último europeu. Qual foi o benefício social da ambição? O problema da educação em Portugal não está na falta de equipamentos, mas na falta de vocação dos alunos para estudar e dos portugueses para darem importância ao que tem realmente importância. Entrámos no delírio eleitoral.

Obscenidades europeias

Não há nada de mais obsceno, no panorama político europeu, do que uma certa campanha de intimidação da Irlanda. Dessa campanha faz parte a extraordinária ideia democrática de a pôr fora da União Europeia. Isto mostra bem o que vai na cabeça de certos democratas e liberais. Não acharão surpreendente que o único povo que foi autorizado a pronunciar-se sobre o magnífico Tratado de Lisboa o tenha rejeitado?

Esbjorn Svensson Trio - Dodge The Dodo

Ao abrir o Público on-line, deparei-me com a notícia da morte do pianista de jazz Esbjörn Svensson, o líder do E. S. T. O pianista sueco era um dos músicos de jazz europeus mais interessantes e influentes.

15/06/08

Sem alma se torna

Sem alma se torna
a vida que imita
passados de glória
com restos de palha,
roseiras feridas,
ardis sem história.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Robert Wyatt - Sea Song

É verdade, gosto disto, quero dizer de Robert Wyatt e também dos Soft Machine. Não é todos os dias, mas uma vez por outra...

Robert Wyatt - Sea Song
Colocado por robojames

Exames e sexo dos anjos

O Público de hoje decidiu discutir, a propósito dos exames nacionais, o sexo dos anjos. Consta que alguns “especialistas alertam para "efeitos perversos" das provas nacionais”. Algumas das luminárias acusam os professores de prepararem os alunos para exame. Esta é uma discussão que não tem resolução, tal como a discussão em torno do sexo (agora dir-se-ia do género) dos anjos. Os exames existem para aferir socialmente as aprendizagens e denotam a necessidade do sistema prestar provas do que faz. Se a sociedade tivesse uma confiança absoluta no que é feito nas escolas, os exames seriam, em princípio, dispensáveis. Um dos argumentos contra os exames centra-se na ideia de que há saberes e competências, como agora é moda dizer, que o exame não avalia. Mas o problema não está na ideia de exame e de prestação de provas, mas na forma e na qualidade desses mesmos exames. Mas uma coisa que os defensores da abolição dos exames não conseguem fazer é a demonstração de que os alunos saberiam mais se não houvesse exames.

Restaurante Famado - Vale de Urso

Passear pela zona sul das Aldeias do Xisto, visitar a Figueira e a Foz do Cobrão, respirar o ar puro do pinhal. Muito bem, tudo muito ecológico e saudável, mas onde comer? Aqui a solução é Vale de Urso, uma aldeia junto a Proença-a-Nova, na Estrada Nacional 233. Não desespere se não encontrar indicações em Proença. É preciso não esquecer que estamos em Portugal. Mas vale a pena ir até lá? Se estiver por aqueles lados nem vale a pena hesitar, o Famado é um restaurante bastante simpático, com serviço eficiente, uma atenção discreta do gerente, o qual sabe muito bem o que está a fazer. Comi lá uma das melhores sopas de peixe da minha vida. Há um mistério, para mim, irresolúvel: por que razão é que as sopas de peixe são tanto melhores quanto mais nos afastamos da costa? O segredo, diz o gerente, está na qualidade dos vegetais usados, nomeadamente o tomate, tudo produto local. E dos temperos, claro. Depois, experimentei o “plagaio” com batata frita e legumes cozidos. E o que é o “plagaio”? É um enchido da zona de Proença-a-Nova, com farinheira e entrecosto. Não sendo tão bom quanto a sopa de peixe, é um prato curioso e que merece boa nota. Excelente é a tigelada que se pode comer como sobremesa. Diferente da de Abrantes, esta é enriquecida com mel e canela. E que beber? Experimentou-se um tinto beirão da Adega Cooperativa do Fundão, o Fundanus Prestige, de 2003. Um vinho exuberante, com um belo aroma, a pedir para ser aberto bem cedo e arejado. Um vinho ainda com muita vida pela frente. É a prova de que se encontram coisas interessantes feitas pelas adegas cooperativas. Ir a Vale de Urso não é uma perda de tempo.

Na zona do Pinhal Interior

A crise europeia

Segundo o Público (sem link permanente), aumenta a pressão para que a Irlanda faça um segundo referendo. No Sol, um ministro alemão diz que o resultado do referendo irlandês não deve ser sobrevalorizado. Estamos já perante a estratégia que pretende fazer desaparecer as regras do jogo. A batota parece ser o caminho escolhido pelas elites políticas europeias para impor uma constituição. A verdade, porém, é que a democracia está a desaparecer assim como o que ainda resta da credibilidade das classes políticas europeias. A crise da Europa não se deve ao «não» irlandês. Ela está concentrada no conjunto de inutilidades que tomaram conta do poder na Europa, com Durão Barroso à cabeça.

13/06/08

Passado, passaste

Passado, passaste
tão rápido, sombra
delida e impressa
na boca feroz
do tempo. Ó ruína
que fazes de mim
fantasma dolente
a vogar por pedras
e casas despidas
de gente. Caminho
entre arcos, caminho
por ruas despidas,
sem vida, e aspiro
as nuvens de cinza
que se abrem além.
Esqueço então
os nomes, as horas,
aquilo que amei,
esqueço-me a mim
e aquilo que fui.
Apenas recordo,
se o faço então,
as horas perdidas
nas águas serenas
a olhar o teu rosto
que, preso no meu,
da vida se afasta
e acorda feliz
no porto de júbilo
onde sopra gélido
o vento da morte.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Sonny Rollins Trio - St. Thomas 1959

Para começar o fim-de-semana, a coisa nem está mal. Uma fina ironia corre o "texto" musical de princípio até ao fim.

Jornal Torrejano, 13 de Junho de 2008

Já nas bancas e on-line está o Jornal Torrejano. Para primeira página é “puxado” o custo do aluguer da ponte militar. O Município já pagou 180 mil euros. Referência para subida do Monsanto, do vizinho concelho de Alcanena, à segunda divisão nacional. Curiosidade: a aldeia só possui 700 habitantes. Saliente-se ainda o êxito do Festival de Folclores da Lamarosa. É assim a vida na província.

Na opinião, comece-se como é hábito pelo cartoon de Hélder Dias. Depois, José Ricardo Costa escreve A las cinco de la tarde (afinal, não estou só com o meu gosto de touradas. Belo texto, Zé. O pessoal de filosofia começa a tornar-se suspeito), Santana-Maia Leonardo, O peso do chumbo, Jorge Salgado Simões, Também em defesa do touro bravo (ó Jorge, não havia necessidade…), Carlos Henriques, Com o pé direito, e este blogger, O nosso atraso.

Para a semana mais haverá, por Toutatis, desde que o céu não desabe sobre as nossas pobres e pouco úteis cabeças. Bom fim-de-semana.

Grande Sócrates

O génio político e o grupo de geniozinhos que tomaram conta do PS devem estar à beira de um ataque de nervos. Apesar da abulia em que continua a viver o PSD, o partido do senhor engenheiro apresenta apenas mais 1% de intenções de voto. Mas a extraordinária estratégia política de destruição das classes médias, levada a cabo pelo nosso condottiero, já conseguiu que PCP e BE se aproximassem dos 25%. Repito: quase um em cada quatro portugueses está disposto a votar acentuadamente à esquerda. Grande Sócrates.

(Barómetro Marktest)

Irlanda 1 – Sócrates 0

O génio político da casa parece que perdeu o jogo na Irlanda. Se há uma coisa que mostra a menoridade política de Sócrates é a recusa de referendar o Tratado de Lisboa, depois da promessa eleitoral de o fazer. Mancomunado com o Presidente da República e o bando de mediocridades que governa a Europa, Sócrates deu o dito por não dito. Tinha, na sua pequena cabeça, a garantia da entrada para a história como o homem do Tratado de Lisboa, aquele onde a soberania era trocada por sabe-se lá o quê. Azar mesmo é ainda haver, nalguns sítios, democracia. Os irlandeses, uns ingratos, cortaram cerce os sonhos de glória do pobre homem e devolveram à Europa um mínimo de dignidade. Nós precisamos da União Europeia, o que não precisamos é de batota, como aquela que suportava a aprovação do Tratado de Lisboa às escondidas. Por muito que custe a Sócrates, a Barroso e à corja de burocratas que domina de fio a pavio a Europa, os povos europeus ainda existem. E se querem ser europeus, também gostam de ser portugueses, ou franceses, ou irlandeses. A pergunta que fica, porém, é a seguinte: o que irão os burocratas e a elite política europeia inventar a seguir para destruir os Estados-nação europeus?

11/06/08

Faminto, arrojei

Faminto, arrojei
o peso do mundo
nos ombros da tarde.
Chovia na floresta
quando ergui
os braços cansados
ao corvo que grasna
e desalentado
corri na manhã:
o mundo vergou
a pálida aurora
em torno da terra e,
de súbito, um negro
cão de asas de cinza
uivou no tugúrio
vermelho a que chamas:
minha solidão.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

György Ligeti - Lux Aeterna

Ligeti é um dos compositores da vanguarda europeia de que mais gosto. Lux Aeterna foi a minha porta de entrada para o seu trabalho.

O senhor Scolari

Há muita gente que diz cobras e lagartos do senhor Scolari. Certamente pessoas extraordinárias que teriam feito muito melhor do que ele, embora até agora nunca tenham feito seja o que for. Portugal já está apurado para os quartos-de-final do Europeu. A partir daqui já não há nada a pedir, o que vier é ganho. Podem dizer que o nosso grupo não é forte ou outra coisa do género. A verdade, porém, é que os resultados se devem ao trabalho realista do senhor Scolari com uma equipa onde os grandes jogadores não abundam. Portugal, no entanto, perceberá melhor a importância do actual seleccionador quando este estiver ao serviço do Chelsea e um dos nossos génios ocupar o seu lugar.

O acordo do governo com a ANTRAM

O governo fez um acordo com a ANTRAM. Vai tentar apoiar o sector dos transportes, dentro daquilo que é razoável. Os sectores liberais estão contra, mas o governo fez bem em negociar. O que, porém, é importante realçar, se o acordo for aceite pelos organizadores do protesto, é a importância do Estado na regulação do problema. É natural que os sectores liberais prefiram um conflito prolongado e a anarquia entre a população. A intervenção do Estado vem mostrar que este não é coisa despicienda e a sua actividade reguladora, incluindo do mercado, é muito mais importante do que aquilo que as suas teorias utópicas gostariam que fosse. O Estado tem uma função equilibradora da sociedade e, se em tempos normais deve manter-se distanciado do mercado, há alturas em que deve interferir se o equilíbrio da vida comunitária for posto em causa. Só há duas coisas a dizer. Veremos se o conflito fica por aqui, se o cheiro da força, por parte das transportadoras, não vai conduzir a uma radicalização das exigências. Este é um perigo real. Por outro lado, é pena que o governo só se lembre do papel equilibrador do Estado perante a ameaça daqueles que são fortes (sim, as transportadoras são fortes, têm o país na mão). Mas a este tipo de “coragem” já estamos habituados com Sócrates.

10/06/08

Se eu não tivesse

Se eu não tivesse
caído no pez
dos teus olhos húmidos,
talvez o telhado
de colmo cobrisse
o meu corpo ávido
de chuva e saudade;
talvez a tua mão
fechasse, secreta,
as ervas do campo
no longe que há
em meu coração.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Nino Rota - The Godfather Music

Chinesices europeias

Mais uma grande conquista civilizacional da Europa: conseguiu, após quatro longos anos, com que a semana de trabalho pudesse, em caso de acordo entre entidade patronal e trabalhador, chegar a um máximo de 65 horas, em vez das actuais 48. Eu não percebo como é que ainda ficam de fora 103 horas semanais. Não me digam que os trabalhadores por contra de outrem têm direito a descansar, a ver telenovela, futebol e assistir à missa? Acabemos rapidamente com essa alienação de gente preguiçosa. Que trabalhem 168 horas por semana, 52 semanas por ano. Assim, talvez, suplantemos a China em civilização, defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores. Dito de outra maneira: os escravos deverão estar sempre alerta e ao serviço dos seus senhores. Ah!, já me estava a esquecer: a Comissão presidida pelo antigo dirigente da classe operária, José Manuel Durão Barroso, saudou o acordo como uma grande conquista dos trabalhadores (Público). Barroso realiza assim o seu antigo sonho maoísta.

A greve das transportadoras

A greve das transportadoras, motivada pelo preço dos combustíveis, está a pôr a cabeça em água ao governo. Há a sensação de que é possível paralisar por completo o país e lançar o caos. A situação é muito difícil, pois se é verdade que a grande fatia do preço do combustível cai para o lado dos impostos, também é verdade que são estes mesmos impostos que permitem, bem ou mal, o país funcionar. Há liberais que defendem que não se deve ser sensível às reivindicações dos camionistas (João Miranda, no Blasfémias), mas o tempo não está para radicalismos. Aquilo que é fundamental é encontrar uma posição equilibrada e evitar que a situação no país se torne explosiva. Estamos num dos momento em que a questão política é claramente mais importante que a do mercado. Eu sei que o tempo e o lugar são outros, mas foi com uma greve do género que no Chile foi aberto o caminho para a ditadura de Pinochet.

09/06/08

Se penso o infinito

Se penso o infinito
e vejo no céu
um teixo de sombra,
caminho então
de mãos desprendidas,
abertas, pedindo
aos deuses a luz
ou a morte suave
a vir num domingo
p'la tarde sem riscos,
sem verde, sem fogos
a arder na galáxia.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Philip Glass - Metamorphosis





Piano: Branka Parlic

Em louvor do multiculturalismo

Por falar em multiculturalismo, a Visão da passada semana contava o caso de uma mãe iraquiana que denunciou ao jornal inglês The Observer o civilizadíssimo comportamento do marido e dos filhos que estrangularam, pontapearam e esfaquearam até à morte a filha e irmã de 17 anos. Crime da rapariga: conversou com um soldado inglês. A mãe, porventura cansada de tão elevado grau civilizacional, ia fugir para a Jordânia a 17 de Maio, altura em que foi assassinada a tiro. É evidente que todas as civilizações se equivalem e cada um tem direito aos valores que tem, até para os impor aos outros. Extraordinário é que coisas parecidas com estas se passam na Europa, onde os agentes do multiculturalismo propugnam pelo direito das gentes vindas de outras paragens a não ter de se submeter aos nossos horíveis valores que proíbem este tipo avançado de comportamento civilizacional.

Quinze virgens por um burro

Um cão raivoso morde num pobre burro e este acaba por morrer. Raiva para cá, raiva para lá, o conflito entre duas tribos paquistanesas dura há oito anos. Como a coisa não se resolvia de maneira nenhuma, foi «então que a jirga se reuniu e optou por selar a reconciliação entre os dois clãs com a oferta das virgens». Quinze raparigas ao todo, entre os três e os dez anos, segundo o DN, foram o preço da reconciliação. Mas para que querem eles as pobres raparigas? Para casar. Parece que há candidatos com mais de 50 anos. O governo diz que é ilegal, mas o problema do governo é que não governa nas zonas rurais, onde estes costumes civilizadíssimos têm um prestígio inabalável, tão ao gosto dos nossos admiradores do multiculturalismo.