19/06/08

Corrupção e ostracismo

Quando leio certas coisas lembro-me dessa instituição ateniense a que não faltava grande sabedoria: o ostracismo. Dirão que não é muito democrático condenar o pessoal ao exílio. De acordo, mas quando se lêem coisas (Público) como as que diz essa sumidade que chefia a bancada parlamentar socialista, Albano Martins, a saudade daqueles tempos gloriosos torna-se violenta. O PS quer um Conselho de Prevenção da Corrupção para, diz a excelência, “detectar e prevenir” os riscos (sic) da corrupção. Parece que a polícia e a justiça têm mais que fazer, é preciso um conselho preventor. Para quê tal conselho? “Identificar as áreas mais vulneráveis à penetração do fenómeno”. Aliás, ninguém faz ideia de quais são, só mesmo o conselho é que nos salva. E a que mais pérolas temos direito? Esta é extraordinária: a proposta prevê “meios logísticos e aproveita as sinergias da administração pública, desde logo os inspectores-gerais da administração pública”. Quem utilizasse a palavra sinergia deveria ser condenado a um duplo ostracismo. Esta proposta socialista é o que se chama, por cá, andar a encanar a perna à rã. Temos mesmo de aturar isto? Vá lá, tragam as conchas de ostras e o pessoal vota.

Exames, aferições e credibilidade

A política governamental na área da educação conduziu a um beco com uma única saída, a saída da equipa ministerial. A razão é simples: não há qualquer confiança social nos resultados das provas de aferição e dos exames nacionais. A questão está de tal maneira politizada que muita gente vê nas provas e nos resultados puros actos políticos e não o trabalho normal e independente da instituição educativa.

Pode vir o director do GAVE, Carlos Pinto Ferreira, acusar os críticos de nada saberem de avaliação (Público). Isto não é mais do que uma amostra do desespero que percorre as hostes, devido ao pouco crédito que possuem neste momento. Quem trabalha em educação sabe muito bem que não há reviravoltas de um ano para o outro. Sabe ainda outra coisa: o principal motivo das frágeis aprendizagens dos alunos encontra-se numa cultura que ostentam e que é inimiga do trabalho, do estudo e do esforço. Sabe também que essa cultura não mudou. Por que motivo mudaram os resultados?

Pretender, como a senhora ministra, que isso se deve aos planos (esta tentação sovietizante do plano é interessante) da matemática e da leitura é acreditar em milagres. Só um milagre poderia inverter, não ao nível de uma escola, mas do país os resultados de um ano para o outro. A única coisa que resta e que é explicação verosímil centra-se nas provas, no seu grau de dificuldade, nos critérios de correcção e na distribuição da pontuação pelos itens. Quem sabe um pouco de avaliação, de construção de provas, de análise estatística de resultados e de ponderação das cotações, percebe que é possível dar um jeito nos resultados. Mesmo que nada de errado se tenha passado, a desconfiança social instalou-se. Refira-se, ainda, um outro problema ligado a este: o da possibilidade de comparar resultados com anos anteriores. É preciso provar que as provas eram equivalentes, o que está muito longe de estar provado. Em última análise, quando se fazem comparações entre resultados para evidenciar êxito de políticas, nem sequer sabemos do que se está a falar.

Se houvesse algum interesse em assegurar a credibilidade das provas, dever-se-ia tê-las submetido a análise e auditoria independente. Agora, porém, é tarde e todas as análises que sejam feitas, por mais honestas que sejam, serão compreendidas como fazendo parte do jogo político que a equipa ministerial organizou. Este défice de credibilidade, e não interessa se ele corresponde à realidade ou a uma ficção, exigiria para o bem do país e do sistema educativo a demissão não apenas da equipa ministerial, mas também do director do GAVE, independentemente da bondade do seu trabalho. A excessiva politização da educação, promovida pelo governo como estratégia eleitoral, é nefasta para os alunos e para o futuro do país.

18/06/08

Canta ardente fada

Canta ardente fada,
faz de tudo o que há
um céu de azeviche,
talvez uma flor
de roseira seca
a olhar vazia
para tão negro
vazio qu’em mim há.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Bloco central

“Marcelo Rebelo de Sousa não descarta acordo entre o PSD e o PS depois das eleições” (Público). Marcelo sabe o que está a dizer. Sabe que essa poderá vir a ser a única solução para assegurar a continuidade das políticas que estão a ser seguidas na Europa. O empobrecimento da população precisa de continuar sem grandes sobressaltos políticos e é isso que, em caso de necessidade, levará à formação de um bloco central, como já aconteceu e está, neste momento a acontecer, na Alemanha. A isto há que juntar uma possível revisão constitucional, que seja útil para os fins que ambos os partidos, ou as forças que eles representam, perseguem.

Horace Silver Quintet-Nutville-1969

Não sei o motivo, mas comecei a embirrar com o tamanho desmesurado dos vídeos. Assim, o Horace Silver vai em tamanho menor. O som também já teve melhores dias, mas ainda assim vale a pena.

Horace Silver Quintet-Nutville-1969
Colocado por redhotjazz

Pedro Nunes, o novo herói da criançada em Portugal

Depois de saber dos espantosos resultados nas provas de aferição de Matemática (4.º e 6.º anos), fiz um inquérito aos meus amigos que têm filhos na idade de realizar aquelas provas. Fiquei estupefacto. A miudagem só fala no Pedro Nunes, todos querem ser como o Pedro Nunes. Os filhos de gente mais à esquerda até falam em ser Bento de Jesus Caraça. Há miúdos, talvez esquizofrénicos, que querem ser os dois ao mesmo tempo. Um amigo meu até já me pediu os livros do Hilbert e do Russel para emprestar ao miúdo que está a acabar o 4.º ano. Os pais estão aflitos com tanto interesse pela matemática demonstrado pela pequenada. Há alguns que já pensam consultar psicólogos como o dr. Eduardo de Sá ou psiquiatras como o dr. Daniel Sampaio para saber se isto é normal. Meu Deus, como o plano da matemática mudou toda uma cultura atávica. Não posso abrir mais a boca de espanto.

Um país de matemáticos

Dantes éramos um país de poetas, agora somos um país de matemáticos. Ao fim de dois anos, a ministra da Educação conseguiu transformar um país que mal sabia contar pelos dedos, numa pátria de alta eficiência matemática, pelo menos a avaliar pelos resultados das provas de aferição do 4.º e 6.º anos de escolaridade. Os resultados positivos estão acima dos 90%. É evidente que existem sempre umas almas mais desconfiadas que acham que as provas são demasiado fáceis e também há outras almas suspeitosas que pensam que os resultados se podem manipular com facilidade. Mas deixemos de lado essa gente que gosta pouco das aparências e banhemo-nos na nossa nova vocação matemática. Afinal, estávamos esquecidos, mas descendemos todos do Pedro Nunes.

17/06/08

Sulcos breves, pedras

Sulcos breves, pedras
há no etéreo olhar
com que fitas, só,
tão cansada e triste,
deslumbrada e pálida,
tudo o que a vida,
com luz desmedida,
rouba quando prá
morte então caminha.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Michael Nyman Band - Water Dances: Stroking

A crise nos transportes

A grave crise do petróleo está gerar greves de camionistas um pouco por todo o lado. Os acontecimentos, contudo, são capazes de encerrar uma outra lição não muito agradável para as empresas de transporte e para os camionistas. O transporte de mercadorias tem passado essencialmente pela rodovia, mas todos estes acontecimentos não estarão a obrigar a uma mudança de paradigma? Por exemplo, a ferrovia e o transporte marítimo e fluvial, onde for possível, não poderão dar uma resposta mais eficiente, até ao nível ecológico, às necessidades de circulação das mercadorias? Até quando será viável e desejável ter as estradas sobrelotadas com camionetas de grande tonelagem? Os tempos de crise são sempre tempos muito propícios a respostas que pareciam não estar inscritas na realidade. Será o caso dos transportes?

O assalto dos incobráveis

A imaginação nunca falta à nossa gente. Agora uma organização esotérica que dá pelo sacro nome de ERSE (Entidade Reguladora do Sector Energético) propõe “que os custos com as facturas incobráveis passem a ser partilhados por todos os consumidores de electricidade.” (Público) É como se todos os que comem pão tivessem de pagar os calotes que alguns fazem na padaria. Seja como for, acho a proposta de uma profundidade inusitada. Abre-se assim o caminho para que todos os consumidores se tornem consumidores cujas facturas são incobráveis.

16/06/08

A viagem tem

A viagem tem
um sabor de cal
quando vou por ti,
na rua, deslumbrado.

Oiço então os pássaros
que o Inverno traz
e no seio da terra
logo se escondem.

Vejo-os vivos, pálidos,
infelizes mármores
que da pedra foram
por tuas mãos libertos.

Cantam livres do
coração que assim,
com tão doces modos,
em mim os prendeu.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

O amigo petróleo

O petróleo nunca nos desilude, sempre em boa forma, record atrás de record. Hoje quase chegou aos 140 dólares o barril. A desculpa é o incêndio numas plataformas lá para a Noruega. Qual será a próxima? As vacas estão cada vez mais magras, como diria o outro se ainda houvesse Conversas em Família.

O desvario tecnológico

O objectivo do governo, para a educação, é agora colocar Portugal entre os “cinco países europeus mais avançados na modernização tecnológica dos estabelecimentos de ensino” (Público). Há uma coisa que os governos portugueses sabem fazer: gastar dinheiro que não lhes custou a ganhar. A tresloucada ambição de equipar as escolas com alta tecnologia é exactamente igual ao projecto de dotar o país com 10 estádios moderníssimos, no último europeu. Qual foi o benefício social da ambição? O problema da educação em Portugal não está na falta de equipamentos, mas na falta de vocação dos alunos para estudar e dos portugueses para darem importância ao que tem realmente importância. Entrámos no delírio eleitoral.

Obscenidades europeias

Não há nada de mais obsceno, no panorama político europeu, do que uma certa campanha de intimidação da Irlanda. Dessa campanha faz parte a extraordinária ideia democrática de a pôr fora da União Europeia. Isto mostra bem o que vai na cabeça de certos democratas e liberais. Não acharão surpreendente que o único povo que foi autorizado a pronunciar-se sobre o magnífico Tratado de Lisboa o tenha rejeitado?

Esbjorn Svensson Trio - Dodge The Dodo

Ao abrir o Público on-line, deparei-me com a notícia da morte do pianista de jazz Esbjörn Svensson, o líder do E. S. T. O pianista sueco era um dos músicos de jazz europeus mais interessantes e influentes.

15/06/08

Sem alma se torna

Sem alma se torna
a vida que imita
passados de glória
com restos de palha,
roseiras feridas,
ardis sem história.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Robert Wyatt - Sea Song

É verdade, gosto disto, quero dizer de Robert Wyatt e também dos Soft Machine. Não é todos os dias, mas uma vez por outra...

Robert Wyatt - Sea Song
Colocado por robojames

Exames e sexo dos anjos

O Público de hoje decidiu discutir, a propósito dos exames nacionais, o sexo dos anjos. Consta que alguns “especialistas alertam para "efeitos perversos" das provas nacionais”. Algumas das luminárias acusam os professores de prepararem os alunos para exame. Esta é uma discussão que não tem resolução, tal como a discussão em torno do sexo (agora dir-se-ia do género) dos anjos. Os exames existem para aferir socialmente as aprendizagens e denotam a necessidade do sistema prestar provas do que faz. Se a sociedade tivesse uma confiança absoluta no que é feito nas escolas, os exames seriam, em princípio, dispensáveis. Um dos argumentos contra os exames centra-se na ideia de que há saberes e competências, como agora é moda dizer, que o exame não avalia. Mas o problema não está na ideia de exame e de prestação de provas, mas na forma e na qualidade desses mesmos exames. Mas uma coisa que os defensores da abolição dos exames não conseguem fazer é a demonstração de que os alunos saberiam mais se não houvesse exames.

Restaurante Famado - Vale de Urso

Passear pela zona sul das Aldeias do Xisto, visitar a Figueira e a Foz do Cobrão, respirar o ar puro do pinhal. Muito bem, tudo muito ecológico e saudável, mas onde comer? Aqui a solução é Vale de Urso, uma aldeia junto a Proença-a-Nova, na Estrada Nacional 233. Não desespere se não encontrar indicações em Proença. É preciso não esquecer que estamos em Portugal. Mas vale a pena ir até lá? Se estiver por aqueles lados nem vale a pena hesitar, o Famado é um restaurante bastante simpático, com serviço eficiente, uma atenção discreta do gerente, o qual sabe muito bem o que está a fazer. Comi lá uma das melhores sopas de peixe da minha vida. Há um mistério, para mim, irresolúvel: por que razão é que as sopas de peixe são tanto melhores quanto mais nos afastamos da costa? O segredo, diz o gerente, está na qualidade dos vegetais usados, nomeadamente o tomate, tudo produto local. E dos temperos, claro. Depois, experimentei o “plagaio” com batata frita e legumes cozidos. E o que é o “plagaio”? É um enchido da zona de Proença-a-Nova, com farinheira e entrecosto. Não sendo tão bom quanto a sopa de peixe, é um prato curioso e que merece boa nota. Excelente é a tigelada que se pode comer como sobremesa. Diferente da de Abrantes, esta é enriquecida com mel e canela. E que beber? Experimentou-se um tinto beirão da Adega Cooperativa do Fundão, o Fundanus Prestige, de 2003. Um vinho exuberante, com um belo aroma, a pedir para ser aberto bem cedo e arejado. Um vinho ainda com muita vida pela frente. É a prova de que se encontram coisas interessantes feitas pelas adegas cooperativas. Ir a Vale de Urso não é uma perda de tempo.