08/06/08

Deixem os meus mortos

Deixem os meus mortos
cantar pela aurora
para que um deus oiça
e perdoe a demora.

Deixem os meus mortos
sem uma mensagem
que lhes lembre a nossa
penosa imagem.

Deixem os meus mortos
vaguear nos charcos
onde aves e rãs
deixam os seus marcos.

Deixem os meus mortos
caminhar na tarde
sobre as ruas vazias
da vã eternidade.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Tom Waits - Hold On

Neste domingo de praia e vento lá se vai, de novo, a minha redenção. Seja como for, o tipo tem uma grande voz. Bom resto de domingo.

07/06/08

Nesta casa resta

Nesta casa resta
uma vela acesa,
a mesa de cânfora
e a cesta verde
onde escondias
sempre o que caía
na veloz mordaça;
com ela, calavas
horas de incenso
ou canções cantadas
por ti no silêncio
espesso do meu
breve coração.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Gustav Mahler - Symphony No. 4 - 4 (1/1) - Leonard Bernstein

Redenção consumada?

Estou mais descansado

D. Duarte Pio de Bragança garante que é cidadão português (Sol). Ainda bem que o fez. O país não dormia sobressaltado com a extraordinária dúvida sobre a nacionalidade de sua Alteza Real. Só a um tal Rosário Poidimani é que poderia ocorrer tal coisa. Mas que dizer de alguém que pretende ser o herdeiro da casa de Bragança. A mim basta olhar para a cara do senhor D. Duarte para perceber que é português. Como poderia ser outra coisa?

A esquerda e a Igreja Católica

D. Manuel Clemente, bispo do Porto, veio sublinhar ao Ministro Vieira da Silva a importância social da manifestação da CGTP. O que me espanta muitas vezes é o espírito anticlerical de muita gente de esquerda. Ainda não perceberam que a Igreja Católica é um dos últimos aliados que lhes resta e que resta aos mais pobres. Por exemplo, há sempre um grande acinte contra o Papa Ratzinger. Acusam-no de inquisidor-mor e de perseguidor da teleologia da libertação. Mas não percebem o essencial: Ratzinger não é nem nunca foi adversário da libertação dos pobres. Aquilo a que se opôs foi à confusão de jogos de linguagem entre política e teologia, para usar uma expressão de Wittgenstein.

Petróleo continua em grande forma

Ontem, o petróleo mostrou que continua em grande forma. Boa preparação física, determinação em atingir os objectivos, uma dose enorme de ambição. Chegou a nova marca mundial: 135, 54 dólares por barril. Por cá, parece que houve uma tentativa de camionistas para cercar, em protesto, o Porto, mas isso não evitou a excelente prestação do petróleo nos mercados.

Henrique Raposo - Populismo Caviar

Manuel Alegre e Francisco Louçã são tão populistas como Santana Lopes. O menino guerreiro faz populismo para quem tem a 4ª classe. Louçã e Alegre fazem populismo para doutorados em Ciências da Educação. [Henrique Raposo, Expresso de 7 de Junho de 2008]

06/06/08

Se caminhas viva

Se caminhas viva
e ardente, cantas
como só a noite
sabe assim cantar.
Mesmo rouca, mesmo
louca, tudo é
nessa voz um sulco
quente sob a luz
tão sombria do olhar.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Chet Baker at the Dreher, Paris 1980 - Part 1

Depois daquele Chet Baker de Vanessa Paradis, de ontem, quase que ia perdendo o trabalho redentor que vinha fazendo. Arrependido, volto ao Chet Baker ele mesmo.

Inglaterra - Educação sob fogo

Graças ao Zé Ricardo Costa cheguei a este artigo "Education under fire: fears over teaching standards push parents to private sector" do The Independent. É isto que o Partido Socialista de cá quer fazer à educação pública. Eis o que dão os maravilhosos métodos de avaliação de professores e outras iniciativas dos trabalhistas ingleses que o governo proclama copiar.
More parents than ever before would send their children to private schools if they could afford it, research suggests.

Fears about poor discipline, standards and constant meddling with the curriculum prompted 57 per cent of parents to say they would consider removing their child from the state sector, an Ipsos MORI poll concluded. The proportion is the highest since the research group first asked the question in 1997, and significantly higher than the last poll in 2004, which found that 48 per cent of parents would consider private education.

Among Labour voters this year, 54 per cent of parents said they would consider educating a child privately – up from just 41 per cent in 2004. Fears about falling standards and poor discipline were the main factors given for their change of heart, the survey for the Independent Schools Council (ISC) found.

The number of parents who argue that fee-paying schools uphold "moral standards" has almost doubled – with 9 per cent saying this has affected their attitude towards private schools. The findings follow statistics which showed record numbers of children at independent schools this year, despite 11 years of initiatives and billions of pounds of investment by Labour to improve the state system.

Jane Robinson, who led the poll, said: "It would suggest there has been a shift in attitude and perception towards the independent sector in a positive direction. The shift has come primarily from those people who were previously undecided or who had a neutral opinion.

"What hasn't changed is the proportion of parents who said they would not send their children to an independent school, which stands at 36 per cent."

Some private school headteachers claimed parents were afraid that children were no longer safe in the state sector, where behaviour was getting worse, while ministerial "tinkering" since 1997 had damaged education.

Vicky Tuck, the head of Cheltenham Ladies' College and President of the Girls' Schools Association, said: "It is just endless change and initiatives and remodelling and reshaping. I think people by nature do not like change."

Deborah Odysseas-Bailey, the head of Babington House School in Chislehurst, Kent, and chairman of the Independent Schools Association, said educational change in state schools was moving "at a pace some parents are unsure of". "The independent sector provides continuity in a politically changing climate," she added. "When I speak to my parents, I know some of them work really jolly hard to send their children to my school. They do it because they are just not quite sure about the direction the Government is moving in."

Pru Jones, head of research at the ISC, said there was widespread confusion about plans for new diplomas to be taken alongside GCSEs and A-levels and whether the qualifications would survive if the Tories won power. "Parents see the independent sector as offering stability in an environment where educational changes seem to be announced pretty much every week," she said.

Last night, a spokesman for the Department for Children, Schools and Families defended the state sector, saying: "Parents are free to send their children to whatever kind of school they choose, but we are confident that free, state education is better than it has ever been and is continuing to improve."

Ipsos MORI questioned 2,000 adults, 600 of them parents.
[By Sarah Cassidy, The Independent, 5/06/2008]

Jornal Torrejano, 6 de Junho de 2008

Nova edição on-line do Jornal Torrejano. Para primeira página, a análise ao aniversário projecto de Torres Novas – cidade criativa. Referência destacada também para a Festa da Bênção do Gado, em Riachos. Não esquecer, as Festas do Almonda com a presença de Tito Paris e de Suzanne Veja.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, temos José Ricardo Costa e Comece a ler sobre Marx, acabe a falar sobre Karl, Santana-Maia Leonardo e O exemplo, o acordo e duas sugestões, Jorge Salgado Simões e Via estreita, Carlos Nuno e A mulher da gente, Carlos Henriques e Mau ensaio, melhor resultado! Por fim, este blogger e Amy Winehouse.

Então, até para a próxima se o céu não cair. Bom fim-de-semana.

05/06/08

Um traço de verde

Um traço de verde
na pedra de fogo,
um risco de âmbar
na face rugosa.
Assim, devagar,
geógrafo sou,
os mapas que faço
são mundos que nascem
da força do medo.

Por vezes, lamento
não ter na memória
a cor branca e póstuma
da tua solidão.
Mas quando te oiço,
se falas no monte,
descubro em ti
um rosto inquieto
batido p’la dor.

Ao cantares, tudo
porém se te abre
ardente no peito:
a voz, o calor,
o grito da terra e
também esta luz;
que força ela dá
ao âmbar do rosto
que triste esconde
a água, se a bebes
sentada no poço.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Video Vanessa Paradis - Chet Baker


Estava à procura de um vídeo de Chet Baker e eis que descubro isto. A descoberta vale o que vale, Chet Baker é preferível um milhão de vezes, mas esta Vanessa Paradis (da qual, devido à minha ignorância geral, nada sei) não deixa de ter os seus atributos.

Video Vanessa Paradis - Chet Baker -
Colocado por com-ci-com-ca

Um rapaz pouco impressionável

Segundo o Público, José Sócrates terá dito, a propósito da elevada participação na manifestação da CGTP, que não se impressiona com os números. Mesmo em período eleitoral lá lhe foge a boca para a arrogância e a prosápia. O pior não é que ele não se impressione com números ou mesmo com letras. O pior é que ele não se impressiona com as pessoas. É claramente um rapaz pouco impressionável.

Avenida ao crepúsculo

Vestiu um casaco e abriu as vidraças; assim o crepúsculo entraria, pensou. Sentou-se a observar o céu, as pessoas a passar, os carros na azáfama com que chamavam a noite. Perscrutava a avenida sempre que o dia declinava, ficava ali a olhar as janelas a iluminarem-se, as árvores a escurecer, o alcatrão a ceder ao peso do dia. De súbito, sentiu a cabeça pender e fechou os olhos. Quanto tempo esteve a dormir nunca o saberá. Acordou quando o velho gato cinzento lhe saltou para o colo. Olhou então o céu e era o mesmo de há pouco, as nuvens brancas mal se tinham deslocado. Os olhos vacilaram ao procurar os grandes plátanos. Estavam lá, mas eram ainda árvores jovens, de tronco delgado. O coração descompassou-se ao pressentir que não havia carros. As casas tinham luzes tão débeis que lembravam velas acesas na noite. Ao olhar para baixo viu uma multidão a caminhar. Longos sobretudos negros cobriam homens de cartola. Mulheres de fato até aos pés, chapéu na cabeça, um véu, por vezes, a dissimular o rosto. Iam apressados e em silêncio. Quando procurou os candeeiros públicos, viu apenas uns pobres lampiões a baloiçar ao vento. Gritou ao sentir o gato a saltar da janela e cair entre aquela estranha multidão. Era agora uma massa ensanguentada sob as rodas dos carros que passavam para se abrigarem do desespero da noite.

Só por causa disso?

Os manda-chuvas do futebol europeu andam de maus humores, é o menos que se pode dizer. Segundo o Público a “UEFA decidiu excluir o CSKA de Sófia, campeão búlgaro de futebol, da próxima edição da Liga dos Campeões, depois de ter sido sancionado pela federação de futebol do seu país por dívidas à Segurança Social.” O melhor é que não se lembrem de vir inspeccionar as contas dos clubes que animam o Carnaval em que se transformou o futebol luso.

A manifestação da CGTP

Uma nova proeza do governo de Sócrates. Conseguiu que, num dia de semana, a CGTP levasse para as ruas de Lisboa mais de 200 mil pessoas. Por muito organizada e imaginativa que fosse a central sindical, jamais conseguiria tal feito se o governo não tivesse escolhido apoiar-se e apoiar a pequena elite económica que, na sua generalidade, vive dos salários baixos e da exploração mais desenfreada. A manifestação tinha como mote o protesto contra as ideias que irão inspirar o novo código do trabalho. Mas, no fundo, quem ali foi protestava contra a imensa trapaça em que se está a tornar Portugal. A generalidade do país sente-se amarrada a uma pobreza atávica e a um futuro sem esperança. O pior é que começa dolorosamente a descobrir que de dentro do quadro dos partidos da governação nenhum luz virá. Para que serve então um partido socialista?

04/06/08

Floresta de musgo

Floresta de musgo
cravada na rocha
cinzenta da serra,
promessa que habita
os raros caminhos
sulcados na terra.

Ali ponho os pés
e ao vento dou
a face de argila;
esqueço o mal
em troca do bem
que nele cintila.

E tudo aqui ladra,
os ventos, as árvores,
os cães que assim falam.
E eu em silêncio
espero por ti
se as noites se calam.

Jorge Carreira Maia, Pentassílabos, 2008

Mozart - Kiri Te Kanawa

Para continuar a minha redenção: Kiri Te Kanawa em "Dove sono e bei momenti" da ópera Le nozze di Figaro, de Mozart . James Levine dirige a Orquestra do "Met", de Nova Iorque, no recital dos 100 anos da casa.

Mozart - Kiri Te Kanawa
Colocado por Quarouble