27/05/08

As evidências de Mário Soares

O dr. Mário Soares, no artigo de hoje no DN, lembrou-se que o PS é um partido de esquerda. Não sei se comoveu o engenheiro e aquela gente que, vinda da jota ou da universidade, quer um lugar ao sol, isto é, ao lado dos grandes homens do dinheiro. Seja como for, o velho Soares lá lembrou a evidência: “Até porque, como têm estado a demonstrar os países nórdicos - a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia - as políticas sociais sérias estimulam o crescimento, contribuem para aumentar a produção e favorecem novos investimentos. Este é o objectivo geostratégico para o qual deveremos caminhar, se quisermos evitar convulsões e conflitos.”

Mas como uma evidência nunca vem só, e Soares sabe mais de política a dormir que o PS todo e acordado, lá sugeriu uma segunda evidência ao engenheiro: “Em Portugal, permito-me sugerir ao PS - e aos seus responsáveis - que têm de fazer uma reflexão profunda sobre as questões que hoje nos afligem mais: a pobreza; as desigualdades sociais; o descontentamento das classes médias; e as questões prioritárias, com elas relacionadas, como: a saúde, a educação, o desemprego, a previdência social, o trabalho.”

Soares já percebeu a camisa-de-forças onde o PS está metido. Se Ferreira Leite ganhar o PSD, lá se vão os votos da direita. Aos que vinham da esquerda, Sócrates, desprezou, maltratou e humilhou. E os problemas da pobreza, das desigualdades sociais e o descontentamento das classes médias não se resolvem com reflexões. Para quem votou em Sócrates e foi por ele absolutamente maltratado não haverá maior prazer do que ver o PSD, por um lado, e o PCP e BE, por outro, a apertarem a camisa-de-forças. Dirá apenas: que a força não lhes falte.

Sydney Pollack

Morreu ontem o realizador Sydney Pollack (Público). Neste vídeo, o realizador explica as diferenças entre Widescreen et le Pan & Scan. O maior êxito da sua carreira foi África Minha.

Sydney Pollack
Colocado por LTT

26/05/08

René Char - A Estrela do Mar

No lar da minha negra noite
Uma centelha provocante
Chocou no avental de couro
Que eu tinha por hábito
À volta dos meus rins ociosos.

Sem dúvida, uma baixeza de Cassandra,
Com que utilidade?
Seria preciso que ela se revelasse
Entre cinco das minhas diferenças,
No fim de uma parábola
Sobre a mentira e a verdade?
Proteger-se é um acto vil.

Levanta a cabeça, lento artesão
Para quem toda a claridade foi breve!
Esta nascente no céu
De veneno mil vezes sugado
Não era lua seca
Mas estrela encerada de sal,
Presente de um Transeunte do acaso.

Herbie Hancock & New Standards Band

Observe-se o lote excepcional de músicos que acompanham Hancock.

Herbie Hancock New Standards Band
Colocado por MrDrive

A tentação do facilitismo

O primeiro-ministro afirma que governo não cederá “à tentação de facilitismo” de congelar os preços dos combustíveis. Não importa agora se Sócrates reconhece que Guterres errou ao fazê-lo, nem tão pouco a polémica em torno do imposto sobre combustíveis. O que está em causa é uma outra coisa: o nosso modo de vida. De facto, baixar artificialmente o preço dos combustíveis é prolongar um longo devaneio. Contudo não basta dizer que se quer fugir ao facilitismo. É preciso dizer na cara das pessoas a realidade: o problema do petróleo veio para ficar e como nunca nos preparámos para lhe fazer frente vamos passar um mau bocado. Percebo que Sócrates se fique pela facilidade da denúncia do facilitismo. A última vez que um governante falou a sério sobre o assunto foi corrido do poder a todo o vapor. Lembram-se das conversar em família de Marcelo Caetano? Lembram-se da charla sobre o fim da época das vacas gordas? Retrocedemos 35 anos.

As patologias dos ficheiros

Conta-nos o DN que Ribau Esteves, secretário-geral do PSD, considera que “os ficheiros do PSD padecem de várias patologias”. Seria de admirar que, num partido onde tudo se tornou densamente patológico, os ficheiros não estivessem doentes. Segundo ainda o mesmo DN, Luís Filipe Menezes e Ribau Esteves pretendiam “tornar activos os cerca de 250 mil militantes que desde 1996 se viram impedidos de participar na vida interna do PSD”. Nobre e democrática intenção. Mas será que esses militantes estariam assim tão interessados? Alguém sabe o que aconteceu em 1996 ao PSD? Pois foi, perdeu as eleições para Guterres. Haja maioria absoluta e logo 250 mil militantes florirão. Há patologias assim.

Uma sombra caminha

Vem um vulto na bordadura da estrada, pisa as ervas floridas pela primavera, avança como se tivesse um destino, um fim último a mover-lhe o coração. Os carros que passam ocultam-me, por vezes, o fulgor daquele que anda, mas logo a imagem retoma a existência e prossegue em movimento certo a caminhada que a traz aos meus olhos. É uma estátua nítida batida pelo sol, uma figura de cera animada pela expectativa de uma meta que lhe dê o perpétuo descanso. E ali vai ele, passo a passo, indiferente aos cães que uivam, à chuva que cai, ao ardor do sol, se o Verão chega. Vem, passa ao longe e eu viro-me para o ver desaparecer. É agora uma sombra e caminha e caminha e caminha, como se a estrada não tivesse fim e a sombra não mais desaguasse nas trevas da noite.

Sonda Phoenix - Marte


Paisagem marciana fotografada ontem, 25 de Maio de 2008, pela Sonda Phoenix, pouco depois de ter aterrado na superfície de Marte. Céu e terra fundem-se num horizonte inóspito. Se um deus por lá caminhasse, deixar-se-ia, na surpresa do encontro, fotografar?

25/05/08

René Char - O Junco Engenhoso

Escuto a chuva mesmo se não é chuva
Mas a noite;
Gozo a aurora se não é a aurora
Mas a brancura da minha polpa perto da corola.
A boca de uma criança magoa-me com os seus dentes.
Amor das águas silenciosas!

No espinheiro o rouxinol,
Em mim o jogo do fascínio.

Tchaikovsky - Overture 1812

Milan Kundera quando quer apresentar um exemplo de kitsch refere Tchaikovski. A facilidade de música para o ouvinte e um certo romantismo delicodoce convergem para dar razão ao escritor checo. No entanto, tenho uma dívida impagável para com Piotr Ilich Tchaikovski. Foi através dele que eu, sem qualquer educação musical, penetrei no mundo da música erudita. É provável que tenha sido essa "facilidade" que me permitiu a entrada nesse mundo. Uma das peças que eu então ouvia e que me enchiam de entusiasmo era precisamente esta Abertura 1812. É por isso que, apesar de raramente ouvir Tchaikovsky, mantenho uma certa distância das palavras de Kundera. Não devemos desprezar quem nos abriu um caminho. Neste vídeo, a Abertura é dirigida por Seiji Ozawa à frente da Filarmónica de Berlim.


Tchaikovsky - Overture 1812
Colocado por beautifulcynic

Um sono colonial

Vibram as folhas das palmeiras como se vivêssemos num mundo colonial, mas faltam as águas do oceano e o calor que animava as gentes quando, nesses antigos ultramares, desciam as extensas alamedas a caminho do mar. Aí a vida parecia ter uma cor que só os grandes leitores de romances imaginariam. Tudo é mais baço nesta hora e neste lugar. As avenidas são sintomas de uma vida magoada, restos de feridas cobertas de pústulas. Um aroma amargo desprende-se das casas pelas janelas quebradas, por onde se avistam as flores; o tempo as secou. Quando me sento e olho, de olhos cerrados, as ruas, vejo as bandeiras arvoradas nos barcos que passam suspensos pela indiferença dos mastros. Nas velas, pressinto o azul fremente das águas batidas pelo sol e adormeço no império marítimo da minha solidão.

Jaracandás em flor, hoje


Em Lisboa, os jacarandás florescem em Maio, mas por aqui a norma são os primeiros dias de Junho. Este ano, porém, as flores dos jacarandás vieram bem mais cedo. Este é um dos jacarandás da Escola Artur Gonçalves.

O bom inimigo

Eduardo Lourenço, em entrevista à TSF e ao DN, considerou que a Europa «está sem dinamismo interno», porque «não tem inimigo, ou seja, deixou de ter uma motivação forte» e lembrou que a Europa nasceu «numa resposta a uma ameaça da União Soviética».

O comunismo, que acabou por se saldar numa imensa tragédia para os povos que viveram sob o seu jugo, teve para nós, europeus ocidentais, um efeito benéfico: ao assustar as elites económicas e políticas, o comunismo de leste permitiu que se construísse uma sociedade equilibrada e mais justa. Foi a isso que se chamou pacto social-democrata.

A queda do Muro de Berlim, no final dos anos 80, não significou apenas o fim das ilusões nascidas em Outubro de 1917, na Rússia. Representou uma reconfiguração das representações, económicas, sociais e políticas da Europa ocidental. A partir desse momento, começou a assistir-se a uma dramática destruição dos direitos sociais conquistados na vigência das sociedades industriais.

Para a Europa ocidental o comunismo foi o bom inimigo. O medo que dele havia levou a que as elites refreassem o seu despudor e vontade de rapina sobre o esforço daqueles que precisavam de vender o seu trabalho para sobreviver. Nunca na história, como nesses anos que vão desde a fundação da CEE até aos anos 90, se construiu uma sociedade tão justa e tão equilibrada, a realização mais perfeita do ideal ético aristotélico da “mesótēs”, do meio-termo ou da justa medida.

24/05/08

René Char - Não venhas demasiado cedo

Não venhas demasiado cedo, amor, espera ainda;
A árvore apenas abanou a vida;
As folhas de abril foram arrancadas pelo vento.

A terra aquieta-se à superfície
E cerra os seus abismos.
Amor nu, eis-te, fruto do furacão!
Sonho contigo ao desfazer-te a crosta.

Jean Gabin - Je sais


jean gabin - je sais
Colocado por bisonravi1987

Mar em S. Pedro de Moel, hoje

Um risco de penumbra

Um risco de penumbra desenha a noite sobre a copa verdescura das árvores. Trilhos de luz soltam-se dos faróis em desvario. Por vezes, passam casais de namorados e olham o horizonte à procura de uma lua que abençoe o destino, as mãos dadas o encerram. Sentado diante da janela, ouço o canto das coisas que acontecem e deixo-me acontecer com elas. Voo com os pássaros, ronco com os motores, tremo se as árvores tremem, enamoro-me se avisto o jogo de cupido, endureço se olho as pedras brancas do calcário dos passeios. Ainda não chegaram as estrelas; aspiro a tarde que se vai e entardeço com ela.

Insónia

Não lembra a ninguém esta chuva de Maio. Não lembra a ninguém deitar-se às quatro da manhã e estar já, por este sábado de tristeza, sentado em frente do computador. Sofro de insónias diurnas. Há quem diga que tenho gene de galinha e que me levanto ao ritmo da capoeira. Não tenho idade para desmentir as falsidades que circulam. Um dia talvez se tornem verdade. Mas verdade ou mentira, o importante é que nesta insónia descobri um blogue. Descobri-me, também, um péssimo descobridor, pois o blogue já vai fazer três anos e está sediado em Caldas da Rainha. Não é tão longe quanto isso. Vai-se pela A 23, depois, apanha-se a A1, a A15 e a A8, é um pulo.

Já é tempo de pôr de lado a conversa mole. Como se chama o blogue? Insónia. Mas insónia não é aquilo de que sofre? Sim, mas a minha é diurna. A Insónia, enquanto blogue, está disponível a qualquer hora do dia. Propriedade? Henrique Fialho. E de que trata? De literatura. Sim, isso também é tratável. Há poesia, muita poesia, pequenas ficções, comentário, informação diversa. Em vez de estar aqui a ler o cacarejo laudatório o melhor é dar um salto até , sofra o ou não de Insónia.

23/05/08

René Char - Lei Obriga

A estrela que bramia o indeclinável nome,
Este verão de esplendor,
Ficou presa no reflexo das telhas.
O feroz animal será domesticado.

Logo que se eleve a potente noite fria,
Onde os olhos perdem cedo a clareza da utopia,
Palavra de albatroz, selvagem a tornarei.

De António Manuel Couto Viana a René Char

Depois de uma viagem com o poeta português António Manuel Couto Viana vamos passar uns dias com René Char e os Chants de la Balandrane. Traduções próprias com as limitações que toda a tradução tem.

Jornal Torrejano, 23 de Maio de 2008

Nova edição on-line do Jornal Torrejano. Notícia principal, os 50 anos do Choral Phydellius. Destaque também para a morte de Manuel Conde Marques, industrial de tipografia, um homem bom e solidário com os outros e a sua terra. Referência também para a despedida do capitão do Atlético Riachense, Miguel Cunha.

Na opinião, voltou o cartoon de Hélder Dias. Depois, José Ricardo Costa escreve Valentim Loureiro, Santana-Maia Leonardo, Em defesa do consumidor!, Jorge Salgado Simões, Em défice, Carlos Nuno, Esmeralda, Carlos Henriques, Festa da Taça em Alvalade e, por fim, este blogger, A libertação dos impostos.
Para semana, se os deuses o aprovarem, haverá mais notícias das notícias e das opiniões que neste canto mundo se vão fazendo. Bom fim-de-semana.

Uma folha cansada

São focas em combate as nuvens que vejo pelos céus, correm, voam, estilhaçam-se sob o império do vento. Pássaros inquietos voam na largura do horizonte, procuram os telhados onde fizeram ninho, aves citadinas habituadas ao rumor dos carros e ao fumo do escape. Temem o silêncio dos campos, o pó da terra, o excesso de erva pelo chão. Focas e pássaros lutam, agora, pelo domínio dos ares, enquanto o sol declina e as gentes se perdem nas ruas a caminho da tristeza da noite. Num pequeno quintal, a cerejeira estende os ramos, dedos abertos ao que neles poisam. De súbito, há um pequeno tremor. Um pássaro que poisa? Uma cereja que cai? Não, é apenas uma folha cansada que no chão adormece.

Uma questão de espiritismo

O senhor Marco António Costa é o líder da distrital do Porto do PSD e um dia ainda há-de ser alguém importante neste miserável país. Enquanto a importância não chega, limita-se a dar vazão ao desespero que reina entre as hostes laranjas. É certamente isso que o leva a dizer que Alberto João Jardim é quem materializa o espírito social-democrata de Sá Carneiro (Lusa). Primeiro, seria necessário provar que Sá Carneiro alguma vez esteve possuído por um espírito social-democrata. Depois, não deveria aproveitar-se do silêncio que a morte traz para evitar que o defunto se defenda da acusação. O pior de tudo isto, porém, é que anda por aí gente que gostava de acreditar na verdade da materialização. A coisa chegou ao nível da mesa de pé-de-galo.

Educação e pobreza

Numa entrevista a Alfredo Bruto da Costa, coordenador do estudo “Um Olhar Sobre a Pobreza”, o Público pergunta: “O estudo fala no ciclo vicioso da pobreza: o pobre tem baixas qualificações e não as melhora porque é pobre. Como romper?” A resposta de Bruto da Costa é a que se poderia esperar: “Uma das respostas é que o sistema educativo tem que ter condições de acesso e sucesso das crianças provenientes dos meios pobres. O sistema educativo está desenhado à imagem da família média e média alta: métodos pedagógicos, conteúdos, o apoio que a criança pode ter em casa...”

Esta é a visão politicamente correcta da situação. A causa está ou nos métodos, ou nos conteúdos, ou no design do sistema educativo, ou na falta de apoio doméstico. Há aqui coisas que são verdade, como, por exemplo, os métodos pedagógicos, mas o resto produz um nevoeiro tal que não deixa ver a realidade. Andamos há 40 anos a redesenhar o currículo, os métodos, o sistema educativo, até se redesenha, a partir do Ministério da Educação, o apoio familiar, senão a própria família. Que o insucesso escolar continue, que a pobreza se multiplique, isso é irrelevante e não impede os decisores (que palavra horrível!) de tomarem as mesmas decisões para combaterem os mesmos males.

Onde está o problema? É aqui que ninguém quer tocar. O problema está na atitude do aluno perante a escola, o trabalho e o esforço. Dito numa linguagem aparentemente ultrapassada: o problema do aluno reside na sua vontade. Não há um problema colectivo de insucesso escolar. Há milhares de problemas individuais de insucesso escolar que conduzem a vidas cheias de insucesso. A forma como os especialistas, educativos ou outros, tratam o problema tem sempre o condão de o ocultar. Há múltiplos indivíduos cuja vontade não é educada e que essa deseducação conduz ao insucesso de cada um deles.

Se os métodos são desadequados, são-no porque não têm em consideração este pormenor. A escola e os professores não estão preparados para lidar com ele e esgotam-se num conflito sem sentido com a retórica e a legislação proveniente do Ministério da Educação. Não se trata de mais trabalho por parte dos professores, como pretendem, de forma demagógica, os dirigentes políticos da Educação. Também não se trata de modificar continuamente os currículos até eles se tornarem incompreensíveis.

Trata-se de preparar os professores para lidar com um problema que não é essencialmente cognitivo, mas volitivo. Trata-se de trabalhar de outra maneira. O aluno precisa de ser treinado a querer, a superar-se, a encontrar na dificuldade e no obstáculo um prazer, encontrar satisfação na realização do dever e do bem. É um trabalho que deve visar o grupo, mas que se faz sempre com indivíduos concretos.

Basta visitar uma qualquer escola, para se compreender que tudo se passa ao contrário. Não é que não haja excelentes práticas, mas aquilo que é fundamental para roubar cada indivíduo a um destino de reprodução da miséria passa por esta educação da razão prática de cada um: fortalecer a vontade, orientar a faculdade de desejar, para desenvolver o entendimento e a imaginação. Mas toda esta linguagem é completamente desconhecida a quem toma decisões na educação, a quem aconselha, a quem estuda o fenómeno. Portanto, as soluções irão continuar a mudar e o problema a manter-se. E os lugares-comuns como os que são proferidos por Bruto da Costa passarão por moeda boa e digna de crédito. Não é.

22/05/08

António Manuel Couto Viana - A dor

Como uma espada, como um machado,
Perfura a carne, desfaz os ossos.
Arde na alma como um pecado,
Tortura a mente como os remorsos.

Rasga-se a boca de horror e gritos,
Vindos de ocultos nos profundos.
Dentes de fera roem os ligados,
Picam os olhos bicos aduncos.

Oh dor! Oh dor! Ai, quem acode
A esta chaga num brado aflito?
Antes a morte! Que venha a morte:
A paz no corpo! A paz no espírito!

John Coltrane - My Favorite Things

O grande Coltrane, mas o pianista, McCoy Tyner é também um enorme músico. E quem se lembra deste tema, My Favorite Things, no filme Música no Coração?

Comblain-La-Tour, Belgium, August 1st 1965

John Coltrane - Soprano Sax McCoy Tyner - Piano Jimmy Garrison - Bass Elvin Jones - Drums

John Coltrane - My Favorite Things 1965
Colocado por Yedi

As desigualdades em Portugal

Então a União Europeia acha que Portugal é o Estado membro com a repartição de rendimentos mais desigual de toda a União (Público)? E ainda tem o despautério de dizer que em Portugal há mais desigualdade de rendimentos de que nos EUA. Mas certamente que o actual governo veio corrigir o assunto. Todos compreendemos assim que a destruição das classes médias levada a cabo por Sócrates, bem como a legislação laboral, o enfraquecimento do mundo do trabalho, tudo isso são medidas para fazer frente ao défice social de que o país sofre. Há uma coisa que infelizmente já não me espanta, mas que me deveria espantar: por que razão os militantes socialistas não correm de forma expedita do partido para fora aquela gente do governo? Eu sei, ali já ninguém tem um pingo de vergonha.

A zoada que cresce

Um zumbido infecta a tarde, cresce a zoar nos ouvidos, toma conta de casas e pessoas. Se o silêncio viesse cobrir de paz estas horas, tudo se tornaria mais fácil. Alguém vai ao terraço e rega as flores, cobre cada um dos vasos com uma fina película de água e depois recolhe-se, como se toda a vida ganhasse sentido nesse acto de se acoitar na inviolabilidade do casulo. Sentado noutro terraço, um homem olha o horizonte. Conta os carros que passam e boceja, depois retoma a contagem e torna a bocejar. O zumbido cresce enquanto ele conta, cresce impávido e indiferente às contagens humanas. É um zumbido de carvão, lasso, o rufar de uma nódoa na claridade que se ergue da terra. O contador desapareceu, não há carros na linha do horizonte, resta apenas a zoada infinita a crescer dentro de mim.

Petróleo, novo máximo mundial

O petróleo ultrapassou esta manhã, tanto em Londres como em Nova Iorque, os 135 dólares. Descobre-se assim que a queda de recordes no mercado do petróleo é muita mais rápida e intensa do que no atletismo ou na natação.

O sentimento de insegurança

Um rapaz levou um tiro no Bairro Alto, em Lisboa, e morreu esta manhã. O Bairro Alto tornou-se num sítio impróprio, mas não é isso que me interessa. O que me interessa é o sentimento de insegurança que está a minar a vida democrática. Eu sei que as estatísticas estão sempre a melhorar. É como na Educação. Mas seria curial que quem governa, em vez de olhar apenas para as estatísticas, escutasse com alguma atenção a voz do povo que rumoreja por aí. Basta ler os comentários que são feitos às notícias. Veja-se, por exemplo, na Lusa e no Público. Anda-se a brincar com o fogo. Estes comentários são sempre um banho frio na água quente da opinião popular.

Manuel António Pina- Uma moedinha para a GALP

A GALP está inconsolável. No primeiro trimestre deste ano teve menos 8,4% de lucros do que no mesmo período do ano passado, e agora só está a ganhar 1,2 milhões de euros por dia. O que é isso comparado com mais 2 ou 3 cêntimos nos preços da gasolina e do gasóleo? Os portugueses são uns queixinhas. A GALP queria-os ver a ganhar só 1,2 milhões por dia! A culpa da pobreza extrema da GALP (um dia destes haveremos de ver o dr. Ferreira de Oliveira e os outros administradores da GALP a pedir à porta da igreja dos Congregados) é do aumento dos preços do petróleo. É certo que, entre Dezembro de 2006 e Dezembro de 2007, o preço da gasolina 95 aumentou em Portugal 11% e o do gasóleo 17,2%, enquanto o preço médio do petróleo, em euros, subiu apenas 1,5%. Mas a GALP tem muitas despesas; ainda há dias, por exemplo, teve que comprar a Esso. Por isso, o dr. Ferreira de Oliveira vê "com profunda tristeza a especulação incompetente" (não a especulação financeira, que é, como se tem visto, particularmente "competente" a fazer subir preços, mas a dos consumidores que acusam a GALP e demais petrolíferas de cartelização, quando se sabe que os aumentos simultâneos dos preços dos combustíveis são mera coincidência). Por que não um peditório nacional a favor da GALP? [Jornal de Notícias de 22 de Maio de 2008]

21/05/08

António Manuel Couto Viana - Um verde singular

Viva o vinho verde,
Acre, espúmeo, frio:
Só nele se perde
A sede do Estio.

Mal o Inverno chega,
Conforta e aquece
Ir beber à adega
Uma malga desse

Capitoso trago
Que as margens do Minho
Geram, bago a bago,
E é Sol e alvarinho.

Tangerine Dream - Rubycon part 1

Há coisas estranhas. Não sei por que razão, da cabeça não me saía este nome: Tangerine Dream. Música electrónica, viagens de LSD, enfim toda uma cultura que também acompanhou a minha geração. Não fiz parte da ambiência, mas não deixei de ouvir coisas como estas. O meu mau gosto musical está de volta.

Um problema de confiança nas provas de avaliação

O GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional), segundo a Lusa, veio responder hoje às críticas feitas pela Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) sobre as provas de aferição do 4.º e 6.º ano. A SPM referia a existência de questões demasiado elementares nas provas. Como toda a gente já percebeu, a fiabilidade dos resultados das provas de aferição já realizadas bem como dos exames a realizar é praticamente nula. Porquê? Porque o Ministério da Educação acabou por politizar exames e provas de aferição através da sua política educativa. Muita gente suspeita de que as provas estão feitas de forma a o Ministério poder vir dizer que a sua política está a dar resultados. Ninguém, no sistema educativo, tem confiança naquilo que é controlado pelo Ministério da Educação.

O tempo que desaba

Oiço bater ao longe um relógio. De quem será? A vida vai e vem ao som do momento que passa. Agora é um piano que fala como uma sombra vinda da noite, e repete uma e outra e outra vez os eternos exercícios de quem ainda não sabe da derrota; o tempo a trará. Tapo os ouvidos e fecho os olhos. O mundo desaba em mim, é um rio de águas turvas que caminha impetuoso para o mar. Restos de troncos bóiam e os peixes, se os há, escondem-se no torvelinho da música que assim ganha vida e parece uma corrente que na tarde desagua. Se dormito, oiço ainda a voz do tempo que corre ao ritmo do movimento que do piano cai.

Comités de crise

A coisa está mesmo a dar para o torto. Comité de crise, pedem 14 antigos altos responsáveis europeus, entre eles Jacques Delors (Público). Falam de coisas como estas: a incapacidade de auto-regulação dos mercados, a opacidade dos mercados financeiros, o crescente aumento das desigualdades nas nossas sociedades, a acumulação gigantesca de capital pelo mundo da finança, a qual melhora muito pouco a condição humana e a preservação do meio ambiente. O que espanta é que só agora estejam a dar por isso. Quando a Europa começou a rasgar o pacto social-democrata, esperavam que o ambiente melhorasse e as desigualdades diminuíssem? Depois da casa roubada, comités de crise.

Petróleo, petróleo

Mesmo para quem não se interessa pela economia, não deixa de ser interessante observar a evolução dos mercados. Hoje, o barril saltou, pela primeira vez, a fasquia dos 130 dólares. Estava há pouco a 132,08. Em tudo isto há uma coisa que tendemos a não ver. Há países que estão a enriquecer, os que vendem petróleo, e outros que estão a empobrecer, os que compram. Alguém me saberá dizer de onde vem o petróleo? Parece ser o destino de todas as civilizações inventar o veneno que as há-de matar.

20/05/08

António Manuel Couto Viana - La voz que habita en la calle 17

Horas muertas de la noche :
Los perros van por la calle,
Ladrando a la Luna llena,
Ladrando a todos los gatos.
Por la tarde, com los niños,
Menean, feliz, el rabo.
Persiguiendo su balón,
Saltan, corren, ladran, ladran…
Por el médio de la calle
Que atraviesa lado a lado,
Camina el perro del ciego,
Lento, seguro, callado.

Penguin Cafe Orchestra - Perpetuum Mobile

Maio de 68 - Entrevista a André e Raphaël Glucksmann

-¿Lo peor de aquella patética «crisis de civilización» fue el nihilismo que llevó al terrorismo?

-André y Raphaël: No ha sido. ¡¡Es!! Nos llevó al terrorismo y a una nueva forma de despotismo. Después del 68 hay una represión en los intelectuales, y dado que Marx ha muerto y que no se va a dar la gran noche ya no vale nada: el bien y el mal, lo verdadero y lo falso son de la misma tinta. Y esto nos lleva a dictaduras posmodernas, cínicas, por ejemplo el maltrato de los tibetanos y chechenos por los chinos y los rusos. Se permite todo al que gobierna, porque hace la ley, la filosofía, la verdad. Los marxistas no creen en nada y fusilan a los estudiantes en Tiannamen sin problema alguno. Y así...

-¿Creen que el mejor espíritu del 68 lo encarnaría Carla Bruni?

André: A mí me gustaba Cecilia Sarkozy, sin una gota de sangre francesa en sus venas. Es española, judía y zíngara. Pero a esta ex primera dama hoy en Roma seguro que la quemaban en una pira. Y Carla parece tan poco normal como Cecilia. Incluso participó en manifestaciones contra Sarkozy.
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Para ler a enrevista de Glucksmann pai (um dos chamados novos filósofos que saíram do Maio de 68) e de Glucksmann filho ir até ao ABC.

Quem será?

Estava angustiado. Havia noites que mal dormia. Os dias, passava-os sonâmbulo a matutar no assunto. Se alguém me dizia qualquer coisa, eu sorria com condescendência e lá continuava em secreta meditação. Remoía e tornava a remoer. Olhava para os e outros e descobria em muitos deles as mesmas marcas: noites por dormir, rugas trazidas pela insistente dúvida , o andar nervoso, o espírito inquieto, uma ansiedade que já nada disfarçava. Quem será? Perguntava-me a mim mesmo, naquela conversa que a minha alma comigo entretecia, para me ajudar a passar os dias, a esquecer os trabalhos da dúvida e o desassossego das horas. Quem será? E ouvia, como num eco, o pensamento de milhões como eu: Quem será? De súbito, tudo se iluminou e a vida voltou a ter sentido. O Público, na sua imensa generosidade, tirou-me a mim e a milhões de portugueses da estrénua dúvida ao titular a notícia: “Cristiano Ronaldo vai ser o novo 7 de Portugal”. Obrigado meu Deus, pela tua bondade, obrigado por teres iluminado o Filipão, o nosso amado seleccionador, e o Fernandes que, na sábia direcção do jornal, deixou que viesse até mim a boa-nova. Como poderia descansar se não sabia quem seria o 7 da equipa de todos nós. Esta noite, dormirei descansado.

Robert Musil - O homem sem qualidades - I


Vou dizer-te o que tenho contra ele - repetiu Ulrich. - O homem científico é hoje uma coisa absolutamente inevitável: não se pode deixar de querer saber! E em nenhuma outra época foi tão grande a distância entre a experiência de um especialista e a de um leigo. Qualquer um vê isso quando olha para o que um massagista é capaz de fazer, ou um pianista; ninguém manda hoje um cavalo para as corridas sem uma pre­paração especial. Só no que se refere às questões do que significa ser humano é que toda a gente acha que tem uma palavra a dizer, e há um velho preconceito que diz que nascemos e morremos seres humanos! Mas, embora eu saiba que as mulheres, há cinco mil anos, escreviam aos seus amantes exactamente as mesmas cartas que escrevem hoje, já não posso ler nenhuma dessas cartas sem me perguntar se isso não irá mudar um dia!

Clarisse parecia inclinada a concordar com ele. Já Walter sorria como um faquir que nem pestaneja quando lhe enfiam um alfinete de chapéu de um lado ao outro da cara.

- O que significa provavelmente que, até nova ordem, tu te recusas a ser um ser humano! - objectou.

Mais ou menos isso. Reconheço que suscita uma desagradável sen­sação de diletantismo!

Mas quero dizer-te que tens razão noutra coisa, totalmente dife­rente - acrescentou Ulrich, depois de um instante de reflexão. - Os especialistas nunca dão por acabada a sua especialização. Não só não a concluíram hoje em dia como também são incapazes de conceber um fim para as suas actividades. Talvez até nem o desejem. Será possível, por exemplo, imaginar que o homem ainda terá uma alma no momento em que aprenda a compreendê-la e a tratá-la biológica e psicologicamente? E, apesar disso, aspiramos a esse estado de coisas. É esse o problema. O saber é uma forma de comportamento, uma paixão. No fundo, um comportamento ilícito; porque, tal como a dependência do álcool, do sexo ou da violência, também a compulsão de saber molda um carácter em desequilíbrio. É um erro pensar que o investigador persegue a ver­dade; de facto, é ela que o persegue a ele. É ele que tem de suportá-la. A verdade é verdadeira, o facto é real, sem se preocuparem com ele: ele é que sofre da paixão, da dipsomania dos factos que define o seu carácter, e está-se nas tintas para saber se as suas descobertas levarão a alguma coisa de total, humano, perfeito ou o que quer que seja. É uma natureza contraditória, sofredora e, ao mesmo tempo, incrivelmente enérgica!

- Sim, e depois?

- E depois o quê?

- Não me vais dizer que podemos deixar as coisas tal como estão!
Por mim, deixava-as tal como estão - respondeu Ulrich calma­mente. - A ideia que fazemos do mundo, e de nós próprios, muda a cada dia que passa. Vivemos numa época de transição. E se não enfrentarmos os problemas mais graves que temos pela frente melhor do que fizemos até agora, talvez essa transição se prolongue até ao fim do planeta. Ape­sar disso, se formos lançados para o meio das trevas, de nada nos serve começar a cantar para espantar o medo, como uma criança. Mas é isso que fazemos, cantar por medo, quando fingimos que sabemos como devemos comportar-nos aqui em baixo; podes gritar desalmadamente, que continua a ser apenas medo! Mas uma coisa sei: avançamos a galope! Estamos ainda muito longe dos objectivos, estes não se tornam mais próximos, nós nem sequer os avistamos, ainda vamos perder-nos muitas vezes e muitas vezes teremos de mudar de cavalos. Mas um dia - pode ser depois de amanhã ou daqui a dois mil anos - o horizonte começará a deslizar e precipitar-se-á sobre nós com um rugido avassalador!

Vagarosas silhuetas

Há um sol baço a correr entre nuvens, um rasto de luz que se quebra nos fios de água; do céu caem. Aqui e ali, manchas azuis, um sobejo de primavera, a nespereira carregada de frutos, as rosas desfolhadas pela chuva. As casas são agora vultos cansados, dobrados à garra afiada do tempo, casas sonolentas, pardas de esquecimento. Das janelas entreabertas assomam vagarosas silhuetas, olham aquilo que passa, olham da sua eternidade e abanam levemente a cabeça. Assim julgam, naquela sabedoria infinita que o cansaço traz, o bulício que corre sob a inclemência do tempo. Depois recolhem-se no vácuo negro onde habitam. No horizonte, há um vazio inominável e feroz. Alguém grita. E eu oiço, aqui tão perto, um eco mudo vindo sabe-se lá de onde. A tarde desvanece-se na vagarosa silhueta que em mim de súbito se recolhe.

O pecado metafísico de África

A tragédia do Zimbabué estende-se agora à África do Sul. Os motins, as perseguições, os homicídios parecem ter como causa a presença maciça de naturais do Zimbabué na África do Sul, numa altura de forte depressão económica. É verdade que também cidadãos do Malawi e de Moçambique se encontram entre as vítimas, mas o ódio xenófobo visa principalmente os 3 milhões de cidadãos do Zimbabué que fugiram, para a África do Sul, dos delírios de Robert Mugabe. Aquilo que poderia ter sido uma história feliz, a descolonização da Rodésia (Zimbabué) e o fim do apartheid sul-africano, está em vias de se transformar numa imensa tragédia. Parece que a África está condenada a expiar um qualquer pecado metafísico, do qual, aconteça o que acontecer, ela não se pode livrar.

19/05/08

António Manuel Couto Viana - Vasco da Gama

Fui a Pátria que foi,
Num momento de glória, no mundo deslumbrado
O meu vulto de herói
A descobrir, no mar, um caminho ignorado.

Chamo-me Vasco da Gama,
Almirante da índia, Conde da Vidigueira.
Quem maior que Camões a celebrar-me a fama;
A retratar-me a alma verdadeira?

Hoje, sou uma Torre e uma Ponte.
Elevo-me nos céus e uno margens.
Dono do horizonte,
A mirar-me no rio que consagra as viagens.

Antes assim que ser uma estátua escondida
Sob a ramagem plácida de um parque,
Daqui, meu nome é ainda um encontro da vida
E sirvo de memória ao cais do embarque.

Brad Mehldau Trio - Exit Music


- Brad Mehldau Trio - ''Exit Music
Colocado por mark-krisky

Investimento externo, petróleo e ambiente

Não quero ser de intrigas, mas a coisa está cada vez melhor para o ambiente. Com o investimento externo a cair 50% em 2007 e o petróleo a rondar os 128 dólares, a melhor coisa é o pessoal começar a pensar noutro estilo de vida, um estilo mais ecológico. Por mim, acabei de apagar a luz do candeeiro. Sempre me pareceu que Sócrates lá bem no fundo era um ecologista. Faltava-lhe a oportunidade para ecologizar.

A taxa de disponibilidade

Comecemos por outra coisa. Há uma companhia de telefone que, escorada numa certa tradição, mantém a cobrança da assinatura mensal. Perante a bondade da empresa em me facturar pela minha própria assinatura, decidi-me por outro operador, onde a assinatura não é paga. O governo, que por vezes se engana, decidiu defender os cidadãos e proibiu a aplicação de taxas aos contadores para os serviços públicos essenciais, entre eles a água. Os municípios, sempre muito criativos, decidiram então que cobrarão uma taxa de disponibilidade. É por isso que eu sendo, in abstacto, um defensor da regionalização, dispenso uma nova autarquia com mais uma quantidade de autarcas cheios de imaginação. Já chega de tanta e tão rotunda criatividade.

A rememoração do viandante

Começam a emudecer as ruas como se o silêncio viesse envolto pelo véu da noite. Ao longe, vejo ainda a mancha branca de povoados dispersos, restos de um tempo onde os homens viviam presos à terra. Agora que todos se libertaram, fica ali aquele casario como um sinal propiciatória, um lugar para a rememoração que o viandante sempre faz. As ruas, porém, estão juncadas pelo verde que a incerta primavera trouxe sobre as árvores, mas já não se chamam ruas às ruas onde vivo. Tudo agora são avenidas e nelas há gente e néons e uma pressa infinita. Por vezes, oiço o buzinar de um automóvel e penso no sino da minha aldeia, naqueles tempos em que quase não havia carros e as trindades anunciavam o silêncio da noite. Assim embalado, deixo vogar os olhos sobre a linha do horizonte para os poisar nos pássaros negros que em círculos imaginam na cidade a vida dos montes.

O PSD, as virtudes da pátria e a adesão à molhada

O PSD é um espelho das virtudes da pátria, da democracia lusitana e dessa coisa pardacenta e inominável a que se dá o nome de vida partidária. Segundo notícia do Público, o PSD está com uma enorme capacidade de penetração nos bairros sociais, como o da Boavista, em Lisboa. Só num apartamento de tipo T1, estão registados 11 militantes. É o que se chama adesão à molhada. Estes casos estão a multiplicar-se. Também expressivo do ethos que percorre o mais português partido de Portugal é o registo de domínios internacionais (.com, .net, .info) na Internet com nomes dos candidatos sem conhecimento destes e com o objectivo ou de fazer negócio ou de inviabilizar o uso daqueles domínios pelos próprios candidatos. Imaginemos agora esta ética irrepreensível transportada para as eleições nacionais. Enfim, chapeladas há muitos seus palermas e a demolição da democracia é levada a cabo por aqueles que vivem dela.

18/05/08

António Manuel Couto Viana - Momento Musical I

Oiço o gregoriano
Nos lábios infantis.
Qual o ouvido humano
Que seja mais feliz?

O ritual romano,
D’alva e sobrepeliz,
Oficia, soberano,
Na festa da raiz.

E a língua do divino,
Solene e encantatória,
Soa a bronze de sino,

Saúda paz e glória
E é púlpito do ensino
Da alma e da memória.

Bebo Valdes & Diego El Cigala - Lagrimas negras

A grande música aqui no A Ver o Mundo. Tenho um CD extraodinário deste duo, comprado em Sevilha, julgo. De súbito, veio-me uma imensa saudade dessa Sevilha de toreros, de paixões clubísticas ardentes - o Bétis e o Sevilha -, do Bairro de Santa Cruz, de uma fritada numa tasca popular da Triana, das procissões que passam, das mulher lindíssimas e dos tablados onde se dança ainda um flamenco autêntico. Se não me esquecer da promessa, voltarei a este duo e ao flamenco.

Bebo Valdes & Diego El Cigala - Lagrimas negras
Colocado por hijodelaluna

Maio de 68 - 02 Aceleração e informalismo

Se se olhar para a cronologia que Le Magazine Littéraire (Hors-série nº 13) publica, a propósito dos acontecimentos do denominado Maio de 68, cronologia que vai desde a constituição da chamada Quinta República, com De Gaulle na Presidência, até a 1976, quando Michel Foucault publica o primeiro volume da sua Histoire de la Sexualité, descobrimos dois “pequenos” acontecimentos que irão ter um enorme peso na contestação que irá surgir na Primavera de 68.

O primeiro acontecimento dá-se em 20 de Março de 1967. Os alunos de Nanterres introduzem-se na residência universitária reservada às alunas e são expulsos pelas forças da ordem. Note-se que o conflito emerge em torno daquilo a que Pedro Mexia chama o direito de visita. Vale a pena olhar para este acontecimento, não por ele ter detonado os acontecimentos que tiveram o seu esplendor no ano seguinte, mas pelo facto de representar um daqueles instantes em que a fronteira entre dois mundos aparece de uma forma nítida.

A moral burguesa que enviou as forças da ordem e a moral não menos burguesa que reivindicava o direito de visita e, presume-se, o direito a ser visitada entraram naquele instante em colisão. Aquilo que comandava as forças da ordem era um mundo moral que estava moribundo e assentava num conjunto regras que iriam desabar em muito pouco tempo.

O interessante neste caso de afrontamento entre dois mundos morais é, porém, o facto de o próprio poder político estar absolutamente dividido. Não me refiro aqui a hipotéticas divisões no seio governamental, mas a uma divisão que perpassa no seio das opções políticas referentes a assuntos que tenham incidência moral. A repressão dos estudantes que querem visitar as suas colegas, por um lado, e a publicação, meses mais tarde, a 28 de Dezembro de 1967, da lei Neuwirth, a qual autoriza a venda de medicamentos contraceptivos. Se a lei é publicada no final de 1967 é porque o debate sobre ela já é bastante mais antigo.

A reivindicação do direito de visita só se torna possível num mundo onde se prevê a «emancipação» da sexualidade relativamente à reprodução. Neste mundo, a divisão protectora dos sexos deixa de fazer sentido, pois deixa de haver o que proteger. Aquilo que para as novas gerações de então era claro tinha sido preparado pelo próprio poder e no seio do próprio poder. O que a contestação estudantil fez foi apenas acelerar um processo que decorria de uma forma mais lenta e formal. Aquilo que se revela na conjugação destes dados está muito longe de mostrar o Maio de 68 como um movimento de transformação das relações sociais de produção, mas mostra-o como uma continuação de uma metamorfose moral que estava a ocorrer já na esfera burguesa do poder. O que o Maio de 68 então traz pode ser definido por dois conceitos: aceleração e informalização. As transformações na moralidade, nomeadamente na moral sexual, tornam-se então cada vez mais rápidas e mais informais.

O entardecer de domingo

Tardes de domingo. São sonolentas e sombrias essas tardes onde tudo desliza para o amanhã que aí vem. Ao domingo, o tempo acaba ao fim do almoço. Depois é um penoso calvário onde o espírito deambula sem fim ou meta à vista. Há quem vá matar o tempo aqui e ali, mas o tempo já está morto, pois é domingo à tarde. Deixo-me dormitar e ando sonâmbulo pelos mundos que perpassam em mim, promessas nunca cumpridas de milhões de coisas a fazer. Reclino-me na cadeira e flutuo enquanto oiço os ruídos da casa, também eles flutuantes e desesperados pela luz que aos domingos sempre há. Se agora me levantasse e saísse, morreria às mãos dessa secreta atmosfera que, seja Inverno ou Verão, um deus maldoso desenhou para o entardecer de domingo. Ao longe, oiço um cão a latir. Tremo e um pavor de cinza cobre-me o coração. Quem virá? Apenas o dia declina, como se uma sombra quisesse esconder de mim a tarde de domingo que ainda há.

Menezes e as previsões eleitorais no PSD

Luís Filipe Menezes, em entrevista ao JN de hoje, refere que, por aquilo que ele conhece do PSD, Manuela Ferreira Leite poderá ficar, nas próximas eleições internas, em terceiro lugar. Muito bem. Mas isso dirá mais do estado de decadência a que o PSD chegou do que sobre Manuela Ferreira Leite. Informação, aliás, redundante, pois um partido que se entusiasmava com os discursos bacocos de Santana Lopes nos congressos, que o aceitou como primeiro-ministro sem pestanejar e que, por fim, elegeu para a presidência o próprio Menezes, só pode ser um partido absolutamente doente.

Combustões - Nada na vida é a brincar

É por isso que os homens são desiguais: há os que investem no trabalho, no estudo e na obra e há os que vivem na procura insaciável de divertimentos. Ouvi ontem um desses pedagogos do facilitismo e do "ludismo" falar sobre experiências pedagógicas revolucionárias, em escolas onde se aprende a brincar e brinca aprendendo e onde até os professores se transformam, eles também, em alunos dos seus alunos. Claro está, o pedagogo-demagogo era homem dos seus 60 anos, da geração do Não à Guerra, do Make Love not War e do cannabis. Nasceu no boom económico do pós-guerra, teve o Estado algibeiras-sem-fundo a alimentar-lhe as lutas e pedradas no campus universitário, as férias pagas, o primeiro emprego aos trinta anos, os anos perdidos na universidade paga pelos contribuintes, o "rendimento mínimo", as bolsas, hospital de graça, subsídio de desemprego ou mesada. Aquilo foram trinta anos de forrobodó. Agora, o Ocidente está pobre, mas eles não aprenderam a lição; pior, transformaram-se em líderes e dominam o Estado, o ensino, a saúde, a assistência social e a comunicação social, são amigos dos banqueiros, influenciam os governantes e vão, alegremente e a brincar, hipotecando o nosso futuro.

Quando cheguei à Ásia, inscrevi-me numa escola de línguas asiáticas adepta de tais brincadeiras. Claro, a instituição é americana e os senhores que dela vivem são naúfragos da geração de ouro. O lema inscrito no portal, flamejante como uma mentira, rezava: aqui não há testes nem avaliação; aqui brinca-se e é a diversão que ensina. Ao fim de três meses dei comigo a questionar-me sobre os resultados de tal pilhéria. Não havia aprendido nada e só me martelava a cabeça o dinheiro gasto e as horas diárias ali enterradas. Mudei. Em dois meses passei a falar com desembaraço uma língua asiática, não pelo método faz-de-conta, mas à custa de noitadas de vigília, gramática, exercícios de escrita e pronúncia, testes e exame final. O curioso de tudo isto é que sinto uma alegria incontida, uma curiosidade crescente pela língua desta terra na descoberta da sua inteligência, das suas subtilezas e até equívocos intencionais. O estudo - como qualquer empresa - custa, mas só deste sacrifício retiramos proveito pessoal que a sociedade retribui com o reconhecimento pelas canseiras. Moral da história: nada é a brincar, nem o jogo do Monopólio, que é cruel batalha pela posse do tabuleiro. Jogamo-lo com os amigos, com gargalhadas e um copo na mão, mas não deixa de ser uma frenética luta pelo sucesso !
[Combustões, 13 de Maio]
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Este excerto longo de um post do blogue combustões é uma belíssima e serena análise da realidade. Um dia destes falarei aqui, no A Ver o Mundo, de um dos blogues mais interessantes dablogosfera nacional.

17/05/08

António Manuel Couto Viana - Vista Geral da Ilha

Jorra da terra o impudor das águas
Para estreitas estradas coleantes
Que, tentadas pio abismo azul do mar,
Se abraçam à verdura das montanhas.

Aqui, o ibisco sensual, vermelho.
Além, a orquídea, a esterlícia, a acácia,
Acenos tropicais da bananeira,
Canas-de-açúcar adoçando o espaço.

Cimos de neve e espuma de onda morna.
Vergam-se vimes. Na videira, os bagos
São já licor bebido no aroma.

E em noite límpida as estrelas descem,
Salpicando de lumes latejantes,
A prolongar o céu pelas vertentes.

Arvo Pärt - Spiegel Im Spiegel


Monochrome Vivant
Colocado por foxart

Vivemos numa época interessante!

Não se trata de um lugar-comum tão inocente como possam imaginar, pois, tal como os Chineses, que atravessaram muitos períodos de desordem e violência semelhantes ao nosso, eu usaria a palavra interessante num sentido algo mordaz. Diz-se que, tradicionalmente, sempre que um sábio chinês desejava rogar uma praga fulminante ao seu inimigo limitava-se a dizer: «Que ainda venhas a viver numa época interessante!» Os Chineses sabiam que das coisas boas da vida poucas se podem consumar no meio de derrocadas morais e cataclismos políticos. [Lewis Mumford in Arte & Técnica]

O vento que varre

A tarde declina com uma luz ferida por raras nuvens e na copa das árvores vê-se o vento a correr sem mansidão. Suspeito deste vento que desce da serra e fustiga o que apanha pelo caminho. Dentro dele há um mistério, um segredo que a sua voz, por vezes tão ruidosa, sempre cala. O que diz o vento? Continua a soprar na lonjura das ruas, enquanto as nuvens cavalgam indecisas pela planície azul, o céu dizem. Às vezes, mas tão poucas, suspeito que ele quer varrer tudo à sua frente, como se fosse possuído por um demónio de limpeza. Não, não pode ser, os demónios amam, todos eles, a sujidade, a porcaria, e o vento que varre parece desejar um horizonte sem mácula. Talvez o vento seja um deus ou a voz de um deus que por nós chama, talvez. Mas quem, na azáfama dos dias, ouve a sua voz?

Manuel Maria Carrilho - Heróis do nosso tempo

O que me surpreende no vivo debate que entre nós se tem travado sobre o ensino é que ele gire tanto em torno de estatísticas, procedimentos e regulamentos da escola e tão pouco à volta de ideias, conteúdos e objectivos da educação.

Isto acontece, a meu ver, porque se têm acumulado diversos equívocos sobre a educação, a escola e o ensino. Equívocos que, em grande parte, têm bloqueado diversos impulsos reformistas nas últimas décadas.

A educação, é bom lembrá-lo, era já o que mais parecia querer mudar nos últimos tempos da ditadura, com Veiga Simão à frente do Ministério da Educação a abrir a frente da massificação escolar. E depois de 25 de Abril a educação foi regularmente apontada como o factor diferenciador e decisivo do regime democrático, como a resposta que se impunha ao nosso ancestral atraso e aos desafios dos novos tempos. Mas a aposta ficou-se pela massificação/democratização, com resultados que não nos tiraram da cauda da Europa.

Assim, sem uma forte visão estratégica que a orientasse, foram vários os equívocos que entretanto se abateram sobre o sector. Que atingiram a educação, cada vez mais desorientada pela multiplicação - quantas vezes contraditória - de objectivos que se lhe exigem. Que atingiram a escola, transformada numa instituição à qual (em consequência das crises da família, da autoridade, e outras) se pede soluções para tudo, sem se adequarem os seus meios e sem se avaliarem os seus limites. E que atingiram o próprio ensino, objecto de uma mutação radical que levou à desvalorização dos conteúdos, dos "saberes" a transmitir, colocando o aluno não só como criança ou adolescente mas também como cidadão, no centro de todas as preocupações.

Todas estas alterações ocorreram, todavia, num contexto civilizacional que importa ter em conta. Porque, por paradoxal que tal possa parecer, todos estes equívocos se têm intensificado no quadro da sociedade contemporânea, como Marcel Gauchet mostrou em análises notáveis. Por um lado, devido à bolha mediática que instaurou um paradigma que reformata tudo o que toca. Por outro lado, devido ao modo como se têm valorizado simultaneamente três exigências dificilmente compatíveis entre si: a do reconhecimento do mérito, a da igualdade de oportunidades e a da "obsessão" individualista.

A escola do Estado-Providência nasceu, em grande medida, justamente como resposta à tensão entre elas, procurando equilibrá-las. Mas o que por todo o lado aconteceu desde os anos 70 (num movimento que apanhou Portugal "em falso", entre o seu lastro pré-moderno e as suas ilusões pós-modernas) foi o crescente domínio do individualismo, que esfarelou o modelo educativo tradicional, sem propiciar qualquer alternativa.

A escola viu-se assim transformada. E de factor de conquista de uma ambicionada igualdade de oportunidades - que era o principal tópico legitimador das "políticas" da educação -, ela passou a ser sobretudo e cada vez mais um espaço de expressão da igualdade entre cidadãos.

Esta mudança veio também consagrar novos objectivos, já não a aquisição de conteúdos formadores, mas o "desenvolvimento multifacetado" do aluno, que deverá simplesmente tornar-se capaz de - e a fórmula diz tudo! - "aprender a aprender".

Enquanto o ensino tradicional hierárquico visava a transmissão de conhecimentos, o ensino individualista e democrático aposta na aprendizagem, quantas vezes confundida com uma misteriosa espontaneidade de competências. No primeiro caso, o professor desempenhava uma função de indispensável mediação, no segundo ele tende a tornar-se num animador quase supérfluo.

Compreende-se assim que o maior equívoco seja aquele a que se chega no termo do processo, e que se pode sintetizar na questão formulada por M. Gauchet, quando pergunta se a introdução da democracia na escola não terá, na realidade, por efeito paradoxal, contribuído para a inviabilização da própria escola. Ou, dito de outro modo, que fazer quando todos reclamam educação, mas na realidade quase ninguém quer - e isso aparece cada vez mais como um direito - ser educado?

É que a possibilidade de ensinar depende estreitamente do estatuto, e da autoridade, que a sociedade reconhece não só aos saberes mas também aos professores, indispensáveis intermediários da mediação educativa, que nenhuma tecnologia consegue substituir (muito pelo contrário - sobre isto é confrangedor o que se diz por aí...).

A erosão daqueles factores deixa aos professores uma tarefa cada vez mais impossível. Daí que reconhecer neles os heróis do nosso tempo - no sentido em que eles enfrentam o que todos evitam - seja uma condição prévia para, simplesmente, tornar a educação viável. O que só acontecerá se ela assentar numa relação institucional, mas também pessoal, que por um lado garanta a efectiva transmissão de conhecimentos e, por outro, seja capaz de enquadrar as motivações pessoais num registo democrático que tem que ser reinventado.
[Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 17 de Maio de 2008]

16/05/08

António Manuel Couto Viana - Jau

Sou a tua presença, aos pés, calada, quieta,
O jau, com quem me identifico tanto
Nesta gruta onde estou e escuto o canto
Das cigarras que é, hoje, a voz do teu poeta.

António sou (tenho o teu nome)
E escravo, também, da poesia.
Para ela é que estendo, em cada dia,
A mão à minha fome.

Verdi - Nabucco


Nabucco Verdi
Colocado por paradixman

Os bispos católicos e as fraldas

Como se vem tornando público e notório, estou longe de ser um anticlerical militante. Pelo contrário, vejo a intervenção da Igreja Católica, em muitos domínios, como profundamente positiva e um oásis no deserto em que se vive. Confesso que a vetustez da instituição provoca em mim um imenso respeito. Mas aquilo que me espanta é a inocuidade de muitas posições que a hierarquia decide tomar e, ainda por cima, publicitar. Por exemplo, segundo o Diário Digital, “Os bispos católicos da União Europeia defendem a redução do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) em fraldas para bebés, nas cadeirinhas para os automóveis e produtos específicos de cuidados infantis”. Óptimo. Também estou de acordo. Mas os bispos julgarão que fazem parte de um sindicato? E julgarão que os europeus desatam a emprenhar as europeias só porque os governos decidem baixar o IVA das fraldas? Estarão convencidos que a questão demográfica se deve à falta de dinheiro? Não quero ser de intrigas, mas há qualquer coisa que não está a funcionar na comunicação entre os bispos e o Espírito Santo. Talvez se os bispos estivessem mais preocupados com a essência da cristianismo e a forma de o tornar acessível aos homens modernos, educados na autonomia da razão, fosse mais produtivo, cultural e religiosamente, do que estar preocupados com fraldas, carrinhos, preservativos e outro tipo de mundaneidades.

Cáspite, José Ricardo Costa

Estava eu entretido a ler o excelente, como sempre, artigo do Zé Ricardo no JT (obrigatório ler aqui), quando me deparo, depois de uma périplo pela metamorfose do Kafka, com esta frase: “Caramba, ainda que eu acordasse de manhã com um corpo de insecto seria o mesmo benfiquista de sempre.” Mas o que tem a frase assim de tão espantoso? Será acordar de manhã transformado em insecto? Não, pois já o sou desde que o PS ganhou as eleições com o meu voto. Não tenho o corpo, julgo, mas fui reduzido à essência do insecto. Então será a continuidade do benfiquismo? Também não, se ele resistiu já a tanta coisa, também resistirá à minha metamorfose insectívora. O que me siderou foi a interjeição caramba. Caramba!

Nós temos boas interjeições, mesmo pondo de lado aqueles palavrões ordinários que podem servir de interjeição. Apre!, Bolas!, são interjeições dignas de interjeitar seja o que for. São preferíveis ao uso de uma interjeição dicionarizada como porra, de feição mais vulgar. Caramba, porém, é mais sonora, prolonga-se no tempo, tem outra ductilidade. Mas aquela de que mais gosto e que me levou a este escrito, nunca a tinha ouvido até ontem, embora já a tivesse lido múltiplas vezes. Ontem, ao passar pela televisão, estava no ar uma telenovela brasileira, onde brasileiros falavam num português italianizado a fingir que eram italianos a tornarem-se brasileiros. No momento exacto da minha passagem, ouvi, em italiano, a minha interjeição : caspita, disse o ítalo-brasileiro. Foi uma revelação: lá está a minha velha amiga cáspite, da literatura do século XIX. Nimbado há mais de 24 horas pela luz do cáspite!, não pude deixar de constatar o que aquela frase, que tão bem descreve o estado daqueles que além de serem benfiquistas, votaram no PS e são professores, teria ganho se tivesse substituído a bamboleante interjeição «caramba», de dúbia origem castelhana, pela ríspida, mas cosmopolita, cáspite. Cáspite, que sou um insecto e continuo benfiquista. Cáspite, que votei no José Sócrates e ajudei-o a dar a mão à Maria de Lurdes. Cáspite, que o Valter Lemos é quem manda na educação. Cáspite, que não há pachorra para o Mário Lino. Cáspite, que o Alberto João não se candidatou à presidência do PSD. Cáspite, Zé, o teu artigo só não te leva já a professor titular porque trocaste cáspite por caramba. Cáspite, reavivemos esta digna herança italiana. Sempre que interjeitarmos, interjeitemos com cáspite! [Não há problema sobre aquilo que eu disse relativamente aos diversos membros do governo. Cáspite, para eles, é um champô para a caspa.]

PINTURA DE ABÍLIO PINTO VICTOR

Hoje proponho um blogue de um colega de escola. Abílio Victor é uma das figuras mais marcantes, ainda em actividade, da ES Maria Lamas. Engenheiro de formação (formado no Técnico, nada de confusões), professor de Física por profissão e vocação, tem despertado com o seu trabalho e exemplo inúmeras vocações para a área científica. Mas este homem tranquilo e cordato tem outras e intensas paixões: África, a sua paisagem, a sua flora e fauna, bem como a paisagem portuguesa. Como caçador, está profundamente ligado à natureza.

Mas é à sua pintura que o blogue PINTURA DE ABÍLIO PINTO VICTOR se dedica. A pintura de Abílio Victor não se inscreve nas tendências de vanguarda ou pós-modernistas. A sua tradição é o naturalismo marcado por uma forte veia científica. Nos quadros que apresenta, há uma combinação entre o etnólogo e o naturalista que representam com minúcia o objecto da observação. Devedora do conceito grego de mimésis, esta pintura regista o mundo no ínfimo detalhe com que ele se apresenta ao espectador/investigador atentos e ao paciente caçador. Uma pintura que liga África a Portugal, o Homem à Natureza. Para ir até lá, basta clicar aqui. Depois aguarde-se que novos quadros cheguem até ao blogue.

Jornal Torrejano, 16 de Maio de 2008

Mais uma edição on-line do Jornal Torrejano. Para primeira página vieram as contas da Câmara Municipal. Auditoria arrasa gestão de António Rodrigues, titula o JT. Na parte luminosa do jornal, porém, vem a sobre a subida dos Amarelos à terceira divisão nacional: CD Torres Novas Campeão distrital (valha-nos ao menos o Desportivo. Depois do brilhante 4.º lugar obtido pelo SLB, só faltava mesmo que os Amarelos não subissem ao nacional).

Na opinião, José Ricardo Costa escreve Manuela Moura Guedes, Jorge Salgado Simões, Air Fátima, José Trincão Marques, Alterações climáticas: o perigo e a inevitabilidade, ÉlioBatista, Blackout é estupidez!, Carlos Henriques, Benfica fora da Champions (o pessoal já sabia, escusavam de recordar a coisa) e este blogger, Brinquemos, então…

Assim acabou a notícia das notícias. Aguardemos que para a semana se possa de novo noticiar o Jornal Torrejano. Um bom fim-de-semana.

15/05/08

António Manuel Couto Viana - Meditação de Natal

Direi Natal este Natal?
Irás, meu Deus, nascer deste cansaço,
Desta carência d’alma com que traço
O meu ponto final?

Irás, meu Deus, uma vez mais,
Trazer-me a fé na vida, em meus irmãos?
Irei erguer pra Ti as minhas mãos,
Como noutros Natais?

E o cadáver da criança
Que no meu peito esfria e já demora
Irás ressuscitá-lo nesta hora
Pura, inocente, mansa?

Irás nascer deste cansaço
Pra que eu diga Natal este Natal
E não seja, afinal, ponto final,
Mas fuga no espaço?

Marianne Faithfull - Why d'ya do it (live)


A senhora, apesar da aparência ser uma enorme sombra do passado, parecia estar em grande forma...

Marianne Faithfull - Why d'ya do it (live)
Colocado por patvar

O rosnar da noite

Oiço o rosnar da noite ao cair sobre as avenidas indefesas. Por lá vão homens a correr, como se a chuva fosse a metralha de um bombardeiro inimigo. Nas entranhas da terra, uiva uma matilha de lobos inquietos e esfaimados. Quando a treva chegar, sairão à procura do festim. Quando voltarem, a boca ensanguentada, a noite expirará e a aurora sorrirá no horizonte, promessa enganadora que anuncia a cordialidade da manhã. Exaustos, os lobos bocejarão antes de adormecer. A luz toma então conta do mundo e os homens retornam ao desassossego do dia, como se a luz nunca mais morresse.

Obrigado, Eriksson

Não sei se Eriksson recusou ou se foi o Benfica que não pôde esperar pela situação contratual do sueco, como refere Rui Costa no Público. Seja como for, fico, como adepto benfiquista, agradecido a Eriksson por não vir. Chega de equívocos.

O que se esconde na avaliação burocrática de professores

Uma formação para professores avaliadores de professores, formação levada a efeito pelo Instituto Nacional de Administração (INA), tem sido objecto de comentário em inúmero blogues ligados aos docentes. Este pequeno acontecimento, que chegou a ter facetas picarescas, é relevante da tendência que percorre a escola portuguesa. Há um primeiro sintoma da realidade quando é o INA que leva a efeito este tipo de formações. O que significa isso?

Como já se sabia, a avaliação de professores é um instrumento meramente burocrático e que não visa a melhoria científica e técnica dos professores, mas aparentemente o controlo da sua ascensão na carreira. Dito de outra maneira, a avaliação dos professores visa apurar não os que são melhores professores, mas aqueles que são burocraticamente mais expeditos. Mas esta decisão não é o efeito de uma singularidade da senhora ministra da Educação, nem das gentes do INA. Ela inscreve-se numa concepção da realidade que convém perceber para descobrir o seu verdadeiro sentido.

Um dos pressupostos deste tipo de avaliações (e de formações) é que o conteúdo de uma determinada instituição, aquilo que ela faz, é irrelevante. Com ligeiras alterações, o que se aplica à avaliação de um hospital, de uma empresa de seguros, de uma companhia de bombeiros voluntários, de uma fábrica de preservativos, ou de uma escola, é essencialmente o mesmo. Concomitantemente, pouca diferença faz avaliar médicos, jogadores de futebol, operários da construção civil, ou professores. Estamos perante um puro formalismo da avaliação. Possui-se um esquema que se aplica, com uma ou outra alteração, a todas as realidades diferenciadas. Este esquematismo é assim um formalismo e um formalismo cuja estrutura é burocrática.

Esta estrutura burocrática deve ser pensada à luz do conceito weberiano de burocracia. Como se sabe, esta diz respeito à eficiência das organizações e é um dos traços sociais mais marcantes do século XX e também já do século XXI. Mas a razão burocrática esvaziou-se no puro exercício da busca da eficiência e anulou o conteúdo moral da razão. É uma razão que se desrazoabilizou ao tornar-se num elenco de normas que visam a eficiência. A razão é agora uma pura forma sem conteúdo.

O que significa esta forma sem conteúdo? Significa a indiferenciação. O esquema formal aplica-se, como se viu, a qualquer lado. Mas ele é incapaz de perceber a variabilidade da vida das instituições, a riqueza informal que emerge no contacto entre aqueles que nelas operam. Um projecto de avaliação fundado nestes princípios burocráticos tem pressuposto, independentemente da consciência que os actores e decisores têm dele, a uniformização dos avaliados. Apesar da retórica que fala na diferenciação para reconhecer o mérito, o modelo é um elemento absolutamente indiferenciador e visa tornar todos os actores idênticos ao modelo. Estamos perante um paradoxo: ao pretender-se um modelo de avaliação diferenciador a única coisa que se visa é a indiferenciação. Dito de outra maneira: tornar todos os professores idênticos ao modelo.

A indiferenciação dos actores está fundada na indiferenciação do conteúdo da instituição. O que interessa é a adequação dos actores ao conteúdo prescritivo do modelo e não ao conteúdo da função que desempenha a instituição. Daí ser possível que professores de Biologia possam avaliar professores de Matemática. No limite e em coerência com o modelo, um professor de Filosofia ou mesmo de Educação Física, ou mesmo alguém sem formação académica, poderia, se dominasse as normas do modelo, avaliar o professor de Matemática ou qualquer outro. A instituição escola já não tem conteúdo e como tal o que se avalia não é o domínio e a transmissão do conteúdo, mas a adequação comportamental do actor às normas impostas pelo modelo.

É na conjugação dos conceitos de modelo e de indiferenciação que podemos encontrar o novo sentido da escola portuguesa. O modelo é um conjunto de normas vazias – por isso podem ser aplicadas em qualquer situação –, as quais necessitam e ao mesmo tempo produzem a indiferenciação. Dito de outra maneira: o modelo indiferencia os conteúdos e reproduz, de forma cada vez mais intensificada, a indiferenciação, para poder subsistir. O que se poderá entender por indiferenciação. Esta não é um igualitarismo de diferentes, mas a aniquilação de toda e qualquer diferença. A diferenciação é o cerne da vida. Esta é múltipla e essa multiplicidade exige a diferenciação contínua como forma de a vida persistir. A indiferenciação é o retorno a um caos, a um vazio, o que está de acordo com a natureza do modelo.

Que “escola” é esta que está presente na nova forma de avaliação de docentes? É uma “escola” niilista. O que significa isso? Significa que não tem conteúdo, é vazia, que não tem vida, pois é indiferenciada. É uma “escola” onde o “nada” do modelo se aplica a assegurar que o “nada” não se torne em alguma coisa. É uma escola da morte.

Mas o que morre na escola niilista que nos foi dada a viver? Responda-se a outra questão: o que era a escola moderna? Era o lugar onde, nos Estados-Nação, se fabricava, através da transmissão de um currículo, a soberania pela disseminação da vontade de vivermos uns com os outros. A escola importada pelo actual governo visa a destruição ou a morte dessa escola anterior e concomitantemente da soberania. O que está em jogo não é apenas o destino dos indivíduos, professores ou alunos, mas o da função da escola: a produção de soberania. Porquê? Porque a própria soberania é já uma diferenciação relativamente a outras soberanias. Ao transformarmos professores, alunos (agora também submetidos ao modelo pela a acção dos professores) e conteúdos curriculares em magma indiferenciado, estamos a atingir o núcleo central da produção da soberania. A soberania é um exercício da vontade (a vontade de os indivíduos e de uma comunidade em ser soberanos). Ao indiferenciarmos, estamos a aniquilar a vontade dos indivíduos e, por essa via, a da comunidade. A única coisa que os indivíduos poderão querer é a conformação com o modelo vazio.

Na questão da avaliação de professores, tal como é agora concebida, esconde-se, então, uma pulsão de morte de uma comunidade, pois a instituição escola, que pela sua finalidade não era analogável a qualquer outra instituição, deixou de assegurar a sua missão. Agora, reduzida à sua nova função, ela deixou de ter o antigo préstimo. O seu conteúdo começa já a dissolver-se. Um cheiro nauseabundo paira nos ares e, ao longe, pressente-se o bater de asas dos abutres.

Suicídio e agonia

Segundo o INE, a população portuguesa entrou em crescimento natural negativo. No ano passado, houve mais óbitos do que nascimentos (Público). Desde 1900, é a primeira vez que isso acontece. Mário Leston Bandeira, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, afirma que é “mais um passo no declínio”. Importa sublinhar, porém, que a novidade desta inversão da tendência não se deve a causas naturais, a grandes quebras espontâneas da natalidade ou ao efeito de epidemias. Deve-se pura e simplesmente a causas culturais e à decisão de os indivíduos deixarem de se reproduzir. É como se uma comunidade, tendo os meios para isso, decidisse suicidar-se lentamente e em prolongada agonia.

14/05/08

António Manuel Couto Viana - Voo doméstico

Daqui pràqui, dentro do território
Meu e conhecido.
Trânsito transitório,
Num céu pequeno e poluído.

Visibilidade nula
Só para os passageiros de passagem
Que o desconforto interior não estimula
A prosseguir viagem.

O voo é curto e o rumo é o chão da pista,
Longe dos jactos internacionais,
Sem torre de controlo que me assista
E avesso aos quatro pontos cardiais.

O elogio de Chavez

Segundo a Lusa “O presidente da Venezuela, Hugo Chavez, fez hoje elogios à "humildade" do primeiro-ministro, José Sócrates, em contraponto à chanceler germânica, Angela Merkel, que acusou de atirar pedras à América Sul.” É um facto que os nossos emigrantes na Venezuela e o petróleo valem a “humildade” de Sócrates. Mas o que saiu da boca de Chavéz não foi uma glória para Sócrates e o ataque à senhora Merkel está muito longe de ser uma nódoa no currículo desta.

Herbert Von Karajan, Vals "Danubio Azul"


Herbert Von Karajan, Vals
Colocado por memmoria

O Dr. Jardim, o PSD e a Europa

O Dr. Alberto João Jardim abandonou definitivamente as suas esperanças de candidatura à presidência do PSD. Não aprecio o estilo, nem gostaria de o ver como primeiro-ministro de Portugal. Mas há uma coisa que eu sei: o Dr. Jardim não é parvo e sabe muito de política, quase tanto como o Dr. Soares. Lamenta, na sua declaração de renúncia, a falta de alternativa com marca PSD ao PS: «os candidatos deste momento à sua liderança, nem o conseguem marcar, de fundo, como alternativa aos socialistas». E, como não quer a coisa, deixa esboçado todo um programa alternativo: «A Social-Democracia que inspira a fundação do Partido Social Democrata, é personalista. Bebe na concreta realidade nacional. Logo, tem de ser oposição a todas as correntes socialistas, bem como ao liberalismo que endeusa o mercado e que, em Portugal, tragicamente, voltou ao orçamentalismo do Dr. Salazar, mas agora à mercê de directivas externas à comunidade nacional soberana.» [Ler o discurso aqui]

O que está a dizer o Dr. Jardim? Por que mobiliza ele noções como “personalista”, “socialistas”, “liberalismo” e “orçamentalismo”? A chave está nas derradeiras palavras: “directivas externas à comunidade nacional soberana”. Mas qual é a forma de se tornar alternativa aos socialistas e de fazer frente às “directivas externas à comunidade nacional soberana”? Só conheço uma: sair da União Europeia. Aliás não há programa político alternativo ao actual governo que não passe pela saída da União. Mas será exequível essa saída e Jardim estará nela interessado? Respondo a esta pergunta com outra: será isso que estará em questão? É provável que Jardim, com o seu faro apurado, cheire o que está para chegar e aquilo que está para chegar, no âmbito da Europa e apesar das aprovações parlamentares do Tratado de Lisboa, pode ser qualquer coisa que cheire muito mal. Jardim pré anuncia a necessidade de sair da Europa, não por um devaneio, mas porque pressente já a sua desagregação. Veremos.

As desculpas e o espírito de cruzada

Sócrates esteve bem ao pedir desculpa por ter fumado no avião, mas esteve mal ao dizer que não sabia que estava a violar a lei, mesmo que seja verdade. Neste processo ridículo, há no entanto algo que convém perceber. As fumaças do primeiro-ministro só foram relevantes pela forma como ele, durante três anos, geriu o país e impôs as leis. Se ele tivesse, desde o início, evitado o espírito de cruzada contra os infiéis, ninguém teria dado importância ao acontecimento e, agora, não seria necessário apresentar desculpas de mau pagador.