14/01/08

O serviço de Deus e as partidas do diabo

A pantomina que se desenrola em torno do BCP recorda-me uma outra mais antiga e que já foi rasurada da memória pública. Refiro-me à TVI. A TVI nasceu, por indulgência do professor Cavaco, como um projecto de televisão católica. A Igreja fez uma cruzada até que a o canal lhe foi entregue. Os resultados são conhecidos. A televisão não parece ser um negócio que agrade a Deus. Pelo contrário, dir-se-ia que nela anda mão do demónio. Não tardou que o descalabro financeiro do projecto entregasse a TVI à iniciativa privada. E de iniciativa em iniciativa lá foi parar às mãos de um grupo espanhol, de coloração socialista e sob a batuta administrativa de outro socialista, Pina Moura.

Em certa altura da vida política portuguesa, parece que um conjunto de gente com dinheiro e muito crente, diz-se que próximos ou pertencentes à Opus Dei, lá achou que o Deus dos céus precisava de um banco na terra. Contrariamente à televisão, o BCP prosperava, muito inovador e onde medidas absolutamente discriminatórias eram vistas como modernizadoras. Ali sim, havia mão do Senhor. Mais uma vez houve um erro de cálculo. Se há uma coisa de que o magano gosta, até mais do que de televisão, é de dinheiro e do poder ligado ao dinheiro. E sorrateiramente, cochicho aqui cochicho ali, o porcalhão lá armou a cena que estamos todos a descobrir, enquanto ele, dando umas fumaças num bom charuto cubano, se ri. Parece que, se tudo correr como o previsto, amanhã chegará à chefia do santo banco uma equipa povoada por socialistas.

A única coisa que, nestas histórias didácticas, não percebo é o papel dos socialistas: serão anjos da guarda dos crentes transviados e seduzidos pelos bens materiais ou diabretes ao serviço do «vade retro…»?

Tudo é um mistério

Tudo é um mistério. Chego à janela e olho. Lá fora apenas uma mancha branca e compacta e tudo nela se oculta, as pessoas, as casas, os carros que passam no desatino matinal. É o nevoeiro, penso. Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - VII

13/01/08

Pretérito Imperfeito - IV. Crescem árvores

Crescem árvores
perdidas entre caminhos de terra.
São barcos
arvorados à fúria dos ventos,
são mãos
de dedos brancos e esguios,
são mistérios
de cinza numa noite de cristal.

[JCM. Pretérito Imperfeito. 1981]

Pacheco Pereira e o clube dos velhos do Restelo

Não há nada mais pungente que a velhice que não percebe o fim que se aproxima a galope. Quando isso acontece e acontece muitas vezes, o espectáculo tem um estranho sentido para o espectador, um sentido marcado pela vergonha e, ao mesmo tempo, pela comoção: há qualquer coisa que se revela na sua brutalidade, a finitude humana, o que nos comove sempre, como seres finitos que somos, e, concomitantemente, sentimos vergonha pelo espectáculo do protesto contra a inevitabilidade dessa finitude, um protesto que rouba dignidade e apouca aquele que protesta.

Tudo isto vem a propósito do artigo, no Público de ontem, de José Pacheco Pereira, com o significativo título «Os velhos do Restelo contra a West Coast of Europe» (ler o texto no Abrupto). Pacheco Pereira fala de múltiplas águas que correm num sentido comum: o do ataque à liberdade e independência pessoais. Pacheco Pereira elege-se para um restrito clube de que fariam parte também António Barreto e Pulido Valente, clube esse que estaria a ser alvo de malévolas maquinações com vista a diminuir a sua autoridade, e logo a eles que foram campeões da liberdade e da independência.

É possível que existam tais maquinações, é possível que o governo e os actuais gestores do PSD não gostem do clube, é possível que muitos «jovens» comentadores os vejam como «velhos do Restelo». Estou de acordo com a maior parte das coisas que escreve Pacheco Pereira e sei que vai chegar a hora – antes, já chegou – em que as gerações «educadas» pelas reformas da educação vão tomar o poder – político e comunicacional – e impor a sua imensa ignorância e inaudita pesporrência. Tudo isso é verdade, mas…

Há um momento em que as novas gerações querem ocupar o lugar que acham que é o delas e não hesitam, até por uma questão de maior potência hormonal, em correr a pontapé, se preciso for, aqueles que lhe ocupam as cátedras na esfera pública. É um facto que o Bloco Central, de uma forma ou de outra, pretende controlar os estragos que a liberdade e a independência possam produzir, mas Pacheco Pereira não se equivoque. Os estragos que a opinião publicada pode fazer não são tão grandes quanto se suspeita. No fundo, aquilo que ele e os do clube escrevem é partilhado também e apenas por outro clube restrito, o dos leitores de jornais. Parece que são muitos, mas não são.

A questão fundamental é que o tempo de Pacheco Pereira, António Barreto e Pulido Valente já acabou. Não vale a pena esbracejar contra o deus que devora os seus próprios filhos. Os que vêm aí serão menos independentes, menos cultos e mais arrogantes? Talvez, mas é o tempo deles. E não terão sido pessoas como o Pacheco Pereira, António Barreto, Pulido Valente, que forneceram o modelo? Está a chegar, mais uma vez, o momento edipiano da comédia político-comunicacional portuguesa: os filhos preparam-se para matar os pais. Nada de particularmente novo. Para os novos, os sagrados valores dos pais não valem um suspiro, quanto mais uma lamúria. Platão advogava a filosofia como aprendizagem do «morrer e estar morto». Há uma hora na vida em que não resta outra coisa. Foi isso que salvou a honra de Sócrates na altura da execução.

Nas ruas

Nas ruas, há gente com chapéu de chuva na mão e o asfalto está molhado. O dia nasceu sob o império das nuvens e a água, por instantes, precipita-se dos céus sobre a vasta terra. No horizonte, a luz é um triste sorriso de inverno. Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - VI

12/01/08

Pretérito Imperfeito - III. Da imperfeição do destino ninguém fala

Da imperfeição do destino ninguém fala.

Retiveram as palavras as águas de Setembro
e Deus, cansado de luas,
retirou-se para o silêncio
e entregou-se à decadência das estrelas
ou ao templo a arder à luz das velas.

Havia perfeição em tudo o que faziam
e as horas cumpriam-se em ser horas
até desaguar noutras horas
e a palavra morrer entre os dentes.

Abriram as vidraças
e o hálito da terra veio pelo vento;
soprava tempestades,
restos de memórias,
um campo de poeiras e silvas,
as indústrias sobre o rio,
um comércio de guarda-pó,
a missa breve em S. Pedro.

Cansado de silêncio,
Deus é agora um sopro
ou uma história
ou uma fresta de cal
batida pelo vento.

[JCM. Pretérito Imperfeito. 1981]

The Beatles - Let it be

Manhã de sol

Manhã de sol sobre a cidade. Tudo brilha tocado por uma luz leve e branca, uma luz que não esquece os dias frios e o Inverno que se vive. Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - V

11/01/08

Pretérito Imperfeito - II. Se a ausência fosse

Se a ausência fosse
apenas um raio verde,
ou uma esquadria aprisionada,
ou um vidro quebrado pela manhã;

se fosse apenas a soleira da porta
onde não passas,
ou um sobejo de pão ao jantar,
ou uma tristeza erguida pelo tempo;

se fosse apenas a mancha de café
sobre a saia,
ou uma planície de lâminas,
ou um novelo de poeira ao sol da tarde;

se apenas fosse tudo isso,
ainda haveria na ruína da tua voz
um relâmpago de palavras
a iluminar a sombra do coração.

[JCM. Pretérito Imperfeito. 1981]

Pierrot Lunaire Ensemble Wien® plays Uros Rojko

O fim dos portugueses

Os chamados “testes do pezinho”, centralizados pelo Instituto de Genética Médica, são reconhecidamente um indicador fiável da evolução dos nascimentos em Portugal. Ora, segundo os dados do ano passado terão sido feitos menos 3030 testes. Já o ano de 2006 tinha apresentado números muito preocupantes. Os dados de 2007 acentuam vigorosamente o estado de calamidade demográfica que estamos a atingir.

A admirável sociedade que estamos a construir, em nome da competitividade, da eficácia e da eficiência, está a autodestruir-se. A demografia parece querer evidenciar o suicídio colectivo, generosamente planeado pelos gestores e empresários, nacionais e internacionais, e que encontra nas castas governantes os seus mais prestimosos timoneiros.

Mas esta admirável sociedade faz parte desse ainda mais admirável mundo novo em que a ciência roubou à natureza os ardis com que ela fazia com que os povos se reproduzissem. A ciência pôs na mão da razão calculadora a chave da procriação. Os resultados são o que são.

Tudo isto faz-me lembrar Kant quando nos diz que se a natureza tivesse dado ao homem a razão para este alcançar a felicidade, muito mal teria andado, pois o instinto seria um guia mais seguro e infalível. Parece que nós somos a prova empírica da asserção kantiana. Quando deixará de haver portugueses?

Jornal Torrejano, 11 de Janeiro de 2008

Nova edição do Jornal Torrejano já on-line. A primeira página é dedicada às colectividades locais. Comece-se com o destaque: o maestro José Robert despede-se de Torres Novas ao fim de quase quatro décadas. É com estas coisas que uma pessoa confirma que está a ficar velho, demasiado velho. Para mim, o Choral Phydellius faz parte dos elementos inamovíveis da paisagem torrejana e, para dizer a verdade, apenas me lembro de um maestro, José Robert. Lembro-me dessa presença na vila, desse ar pouco português que representava uma novidade. Afinal a novidade já tem 37 anos e chegou a altura de dizer adeus. Esperemos que se confirme a minha sensação de perenedidade do Phydellius. Ainda no âmbito cultural, notícia dos 50 anos do Rancho de Torres Novas. Destaque ainda para as eleições, hoje, do Desportivo de Torres Novas.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. José Ricardo Costa escreve Cristão e Ateus, Santana-Maia Leonardo, O Mi(ni)stério das Orelhas de Burro, Miguel Sentieiro, A senhora Yang, Carlos Henriques, Leão morto, águia ferida e este blogger, Diga lá 32.

Está consumada a notícia das notícias. Para semana, se puder ser, haverá mais.

As ruas molhadas

As ruas molhadas serão um presságio do dia chuvoso a vir? A noite ainda a tudo oculta: estará o céu carregado de nuvens ou amanhecerá límpido e puro a anunciar um dia de sol? Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - IV

10/01/08

Pretérito Imperfeito - I. Quando voltamos a um tempo

Quando voltamos a um tempo,
ao joio dos dias,
às ruas gastas de tanto caminhar,
só nós voltamos,
de mãos exaustas
e olhos presos na terra.

Quando voltamos,
ninguém reconhece o viajante,
há muito ele partiu.
A face grave
é uma sombra de violeta
perdida entre um negócio
de mulheres
e ruas ávidas de flores.

Quando voltamos a um tempo,
as horas são rosas secas,
folhas tombadas,
vozes incertas
e um olhar perdido,
extasiado de erva,
esquecido da luz.

Na noite, ouve-se um grito
e voltamos;
o silêncio chama por nós.

[JCM. Pretérito Imperfeito, 1981]

De Ruy Belo a Pretérito Imperfeito

Depois de 15 dias com a poesia de Ruy Belo, os próximos 5 dias serão passados com textos deste blogger. A série tem por título Pretérito Imperfeito e reporta ao ano de 1981.

A auto-avaliação do Ministério da Educação

Segundo o Sol, a ministra da educação enviou uma carta para as escolas onde salienta a auto-avaliação positiva do trabalho do Ministério da Educação. Não vale a pena referir o ridículo de tudo isto. Vale mais tornar evidente a lógica subjacente a esta auto-avaliação. Lembra a auto-avaliação que, no final dos períodos, certos alunos cábulas fazem: não estudaram nada, o que fizeram pouco ou nada tinha de correcto, mas durante as aulas, para não estarem calados, lá foram fazendo umas intervenções entre o disparate pegado e o absurdo. Quando chega o momento da auto-avaliação, acham que devem ter nota positiva pelas intervenções que fizeram. Foi esta lógica notável que tomou conta da 5 de Outubro.

O jogo do aeroporto

Se há caso onde a irresponsabilidade das elites políticas é plenamente manifesta é o do novo aeroporto de Lisboa. Durante anos, depois de múltiplos estudos e avaliações, a opção era a Ota. Depois do fervilhar dos interesses e daquilo que parece ter o nome de sociedade civil, depois de um estudo feito por encomenda da CIP, o governo encomendou ao LNEC um novo estudo para que comparasse as opções. O que espanta, em primeiro lugar, é que, no maior investimento de sempre que o país vai fazer, não se considerou desde o início as várias hipóteses; em segundo lugar, é espantoso como é que um governo toma uma opção no dia a seguir a receber oficialmente o estudo, como muito bem salienta José Reis (ver Lusa), antigo secretário de estado de Guterres. As grandes decisões em Portugal não passam de jogos levianos. Mas quando há jogo, há vencedores e vencidos. Quem, na leviana história do aeroporto, ganhou? Quem perdeu?

A coada luz da manhã

A coada luz da manhã é tão ténue que os olhos mal sabem se é o dia que não quer chegar, se a noite que não quer partir. Mas sob a névoa, os homens, indiferentes à luz, cumprem aquilo que as horas lhes destinam. Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - III

09/01/08

Ruy Belo - Do sono da desperta Grécia

Nenhuma voz em Esparta nem no oriente
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio as coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sob a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia a força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora como um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma Grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã

[Ruy Belo, “Nau dos Corvos”, in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

O Tratado, a soberania, o referendo e a legitimidade

Não sei até que ponto vai a autenticidade da rábula das pressões dos líderes das grandes potência europeias sobre Sócrates, para que este não referendasse o Tratado de Lisboa. Digo autenticidade e não verdade. Seja como for, a decisão de aprovar o Tratado nos parlamentos mostra um profundo medo dos povos europeus por parte das elites governantes. Se matérias como o aborto ou a organização político-administrativa do país não precisam de ser referendadas, já a questão do Tratado é completamente diferente. O aborto e a organização político-administrativa, incluindo a regionalização, não põem em causa aspecto fulcrais da soberania, já o Tratado, aliás como os anteriores, levanta questões ligadas à cedência da soberania. A soberania reside no povo e não nos seus representantes. Estes não foram mandatados para aliená-la, seja em que parcela for. É nestes casos limites que entendo a utilidade do instituto do referendo: perguntar ao legítimo detentor da soberania, os povos, se está disposto a alienar uma parcela. Ao não ser referendado pelos diversos povos, o Tratado pode ter força legal, no âmbito do direito internacional, mas carece claramente de legitimidade: os donos das soberanias não foram consultados. Ou será que a legitimidade já reside noutro lado?

A névoa é uma fina película

A névoa é uma fina película de cambraia, tecida de gotas de água e de cinzas vindas dos bosques. Sob ela vão os homens e, cobertos por tão fino pano, tecem já o destino que as horas lhes reservam. Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - II

08/01/08

Ruy Belo - Peregrino e hóspede sobre a terra

Meu único país é sempre onde estou bem
é onde pago o bem com sofrimento
é onde num momento tudo tenho
O meu país agora são os mesmos campos verdes
que no outono vi tristes e desolados
e onde nem me pedem passaporte
pois neles nasci e morro a cada instante
que a paz não é palavra para mim
O malmequer a erva o pessegueiro em flor
asseguram o mínimo de dor indispensável
a quem na felicidade que tivesse
veria uma reforma e um insulto
A vida recomeça e o sol brilha
a tudo isto chamam primavera
mas nada disto cabe numa só palavra
abstracta quando tudo é tão concreto e vário
O meu país são todos os amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
pois eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez

[Ruy Belo, “País Possível”, in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

Bill Bruford's Earthworks 1988 Strom Boli Kicks

O referendo ao Tratado de Lisboa

Segundo o Sol, José Sócrates terá dado garantias a outros líderes europeus de que Portugal não referendará o Tratado de Lisboa. Vejamos como, logo à noite, Sócrates vai reinventar a sua palavra para dar o dito pelo não dito, isto é, como vai tornar evidente que está a cumprir uma promessa eleitoral, a de referendar o tratado, ao não fazer referendo. Curiosa também vai ser a maleabilidade semântica dos dirigentes do PS para acatarem a hipotética decisão do chefe.

Horizonte cinzento

Horizonte cinzento e viscoso. Na fímbria da noite, ergue-se lento o dia, mas a força das potência nocturnas é tanta que só um grande esforço parece tornar possível arrancar a luz das trevas. Bom dia.

Igreja da Santíssima Trindade - I

07/01/08

Ruy Belo - Requiem por um cão

Cão que matinalmente farejavas a calçada
as ervas os calhaus os seixos e os paralelepípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejavas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca tugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar a
té que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? Um simples cão que era e já não é

[Ruy Belo, “Nau dos Corvos”, in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

Aznavour - La Bohème [para o JLF]


Para o José Luís Ferreira, do Flash, por causa de um email sobre os anos 60, dos quais não sou particular adepto, mas que produziram muitas coisas de que ainda gosto, como certa canção francesa (sempre fui anacrónico). Não toda a que aparecia no vídeo do referido email, mas Brel, Ferrat, Brassens, Greco, a musa existencialista, (falta o Ferré e o Regianni), mas também do Bécaud e do Aznavour, mais este que o primeiro, que não sendo da mesma extracção dos anteriores fizeram coisas agradáveis ou que, pelo menos, me agradam. Fiquemos então com Montmartre e La Bohème.

Desmontemos o presépio

Veio o Natal, depois o Ano Novo, por fim, os Reis. Chegou a altura de desmontar o presépio, guardar as peças nas caixas e sacos, levar tudo para a arrecadação. Foi isso que fizemos. Voltou o Trovador de Chirico e guardamos aqui a Sagrada Família, a belíssima Sagrada Família, de Egon Schiele. Terminaram as festas.

É tudo ainda um denso mistério

É tudo ainda um denso mistério, uma mar de névoa sobre a cidade. Olha-se e nada se vê, ouve-se apenas o vozear das gentes, o rumor indistinto da cidade. Assim começa a semana. Bom dia.

Plátanos XV

06/01/08

Ruy Belo - Na morte de Nicolau

José maria nicolau fugiu. Quem o apanha?
Nunca ele pedalou tanto como agora
Decerto vai chegar antes da hora
A etapa era decisiva e está ganha

Ele que várias vezes deu a volta a portugal
deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida
A alguns anos já da primeira partida
fugiu. Tudo se torna agora mais real

Que média fez num terreno tão mau
E tudo serra custa muito subi-la
Deixem que eu vista a camisola amarela
ao grande corredor josé maria nicolau

[Ruy Belo. "Palavra[s] de Lugar", in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

A adoração do Menino pelos Reis Magos

A partir da experiência de colocar, durante a quadra natalícia, posts com pintura alusiva ao Natal e festas adjacentes, descobri, embora as fontes utilizadas sejam muito escassas (refiro o excelente museu virtual espanhol Ciudad de la Pintura – “la mayor pinacoteca virtual”, de onde extraí os quadros apresentados), que a representação da adoração do Menino pelos Reis Magos encontra o seu apogeu na arte do Renascimento. Melhor, vai do final do Gótico e transição para o Renascimento até ao final do Renascimento e ao Maneirismo. A partir do Barroco, o interesse pela temática é cada vez menor, encontrando-se muito pouco presente na pintura do século XX.

Esta “descoberta” levou-me à seguinte questão: Porquê este interesse da pintura renascentista pela cena da adoração dos Magos? Ao olhar para as reproduções dos quadros, aquilo que me chamou a atenção foi a sensação de se estar perante uma autocontemplação. O que os quadros apresentam não é tanto a fábula dos Reis Magos, mas uma época que se vê ela própria como uma infância, o Renascimento. Não é o menino-Deus que é adorado, mas o homem que se dobra perante si próprio e se descobre como uma promessa a realizar. O cristianismo continha esta possibilidade absolutamente ateia: a figura do menino é o símbolo do homem do futuro e orienta as ek-stases temporais para esse mesmo futuro: o passado e o próprio presente veneram essa promessa que o futuro realizará.

Nas múltiplas cenas da adoração dos Magos (e a magia não é um dos interesses menores desse Renascimento), Deus encontra-se já evacuado e o homem, com os seus múltiplos interesses, prepara-se para tomar conta da cena do mundo. É aqui (entre o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna) que começa a morte de Deus. É um período de longa agonia, mas de uma agonia que não gera dor. Em muitos dos quadros existe uma alegria exuberante, para não falar da exuberância material que se disfarça por detrás de representações de um estábulo arruinado. A maioria daqueles quadros, desde as personagens até aos edifícios, passando pelas vestes, fala apenas e só da época em que foram pintados (talvez não pudessem fazer outra coisa). Fala de uma época que celebra a vitória do homem sobre Deus na adoração de Menino-Jesus. Todo o poder (político e sacerdotal, é isso que representam os Reis Magos) se dobra agora perante a promessa do homem do futuro. A adoração do menino é a marca de um tempo que se julga a si mesmo como o início de grandes coisas, onde Deus deixou de contar e o único protagonista da história vai ser o homem que, enquanto menino, ali é adorado.

O que atormenta, porém, é o que vem depois. O que significará, a partir dos tempos modernos, o contínuo e cada vez mais acentuado desinteresse da pintura pela cena da adoração do menino pelos Reis Magos? Aqui recordo-me daquele quadro de Van Gogh, onde apenas umas botas velhas sem o seu dono são representadas. Será lá, dentro delas, do sítio de onde já saiu o homem, que se esconde Deus?

Jan Mostaert - La adoración de los Magos

Siglos XV y XVI. Renacimiento, 1510. Tabla. 49 x 35 cm. Rijksmuseum. Amsterdam. Holanda.

Domingo triste

Domingo triste de Janeiro. Os transeuntes desconsolados são fantasmas pelas ruas cobertas de cinza e restos da humidade nocturna. Nem a chegada dos Reis Magos a Belém incendiou o coração destas horas. Bom dia.

Plátanos XIV

05/01/08

Ruy Belo - Na praia

Raça de marinheiros que outra coisa vos chamar
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?

[Ruy Belo. "Outono", in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

Kagemusha (Akira Kurosawa, 1980) e a sombra de bin Laden

Diz uma notícia da Lusa que «A Al-Qaida anunciou hoje que, no âmbito da estratégia para ampliação da rede terrorista, a partir de agora mensagens em vídeo do líder Usama bin Laden e do "número dois" Ayman al-Zawahiri poderão ser descarregadas directamente nos telemóveis.» Deixe-se de lado a estratégia modernista destes apologistas do retorno à medievalidade. O que é espantoso é a figura de Bin-Laden. Cada vez que surge um vídeo da personagem, recordo-me do filme de Akira Kurosawa, Kagemusha ( A Sombra do Guerreiro). Não será esse bin Laden a sombra do verdadeiro bin Laden? Mas mesmo que Usama esteja vivo, não será ele para nós, ocidentais, uma verdadeira sombra, daquelas que causam assombração? Uma coisa é verdade: para nós, o mundo está assombrado.

Filippino Lippi - La Adoración de los Magos


Siglos XV y XVI. Renacimiento, 1496. Temple sobre tabla. 258 x 243 cm. Galería de los Uffizi. Florencia. Italia.

Densa névoa

Densa névoa oculta os campos. É um véu imponderável que dos céus desce e suspende a visão, como se o nada tomasse conta do ser e avançasse perante a impotência dos mortais. Bom dia.

Plátanos XIII

04/01/08

Ruy Belo - Idola fori

Eu sei diversas coisas
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas
de Setembro na senhora da guia
senti-lo em Abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira de água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
Não mais andar perdido de ano em ano
Não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de Lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
O que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha

[Ruy Belo. "Verão", in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

Gerard David - Adoración de los Reyes


Siglos XIV/XV. Gótico/Renacimiento. Óleo sobre tabla. 121 x 164 cm. Alte Pinakothek. Munich. Alemania.

O Lisboa-Dacar2008

As leituras que estão a ser feitas, na televisão portuguesa, do cancelamento do Rali Lisboa-Dacar mostram a indigência a onde se chegou. Desde o desgosto dos amadores até ao prejuízo dos profissionais, passando pelas perdas mais ou menos avultados para o turismo, tudo é motivo de notícia alargada e comentário frívolo. Ninguém consegue, porém, perceber o que há de fundamental neste acontecimento. O Dacar é uma das expressões emblemáticas da cultura ocidental, conjuga o automóvel, o prazer da aventura em terras exóticas, a liberdade de ir e vir, o gosto pela teatralidade espectacular, o drama agónico que a competição sempre traz. O que essa entidade mitológica, a Al-Qaeda, conseguiu foi pura e simplesmente impedir, em terras do Profeta, a manifestação do Ocidente e da sua cultura. Conseguiu evitar a contaminação. Talvez o Dacar volte, mas o precedente está aberto e a guerra em torno do rali está instalada. A partir deste momento, para os radicais islâmicos, impedir o Dacar passa a ser ponto de honra. O acontecimento fundamental não é desportivo nem económico, é político. Será assim tão difícil explicar isto?

Robert Fripp - Crafty Guitarists


O conselho geral de escola

Como se irá escolher o director das escolas do ensino não superior? O conselho geral de cada escola elegerá o director. Quem está representado nesse conselho? Professores, encarregados de educação, autarquias, actividades locais e, no caso do ensino secundário, alunos. Qual é o peso dos professores dentro desse conselho? Segundo proposta do governo, não menos de 30% e não mais de 40%. Não podem presidir ao conselho geral. Só um ódio profundo, talvez de carácter psicanalítico, poderá explicar esta medida do governo. No que é decisivo numa escola, os professores têm uma palavra irrelevante. Se tiverem vergonha na cara, não haverá um que se candidate.

Jornal Torrejano, 4 de Janeiro de 2008

Retomemos o hábito das sextas-feiras, interrompido por um devaneio madrileno. Já on-line está a edição semanal do Jornal Torrejano. Na primeira página, a notícia da inauguração, em Pedrógão d'Aire, de um centro de apoio à terceira idade. Destaque também para a emergente alternativa à direcção demissionária, no Desportivo de Torres Novas.

Na opinião, inicie-se com o habitual cartoon, de natureza socrática, de Hélder Dias. José Ricardo Costa, em 2007, entrega-se ao prazer das listagens [o A Ver o Mundo agradece, penhorado, a muito imerecida distinção. Sublinha ainda, este blogue, o seu apreço pela distinguida Carla Bruni ou, melhor, pela sua canção Quelqu'un m'a dit. Já agora, que estou em maré de apreciações, refiro que teria dificuldade em ordenar os filmes, mas talvez preferisse o Saraband ou os do Visconti, embora reconheça que o Grande Silêncio é uma obra perturbante]. Santana-Maia Leonardo escreve A educação sexual, Carlos Nuno, Os óculos de Alcanena, Carlos Henriques, Liga parada e este blogger, Família e tempo.

Se tudo correr segundo os desejos dos participantes, para a semana haverá mais Jornal Torrejano e notícias dele por aqui.

As ruas

As ruas ainda estão molhadas,mas o céu deixa ver já grandes planícies azuis, entrecortadas aqui e ali por negras montanhas ou rios vermelhos trazidos pela luz solar. Bom dia.

Plátanos XII

03/01/08

Ruy Belo - Lembra-te ó homem

Lembra-te ó homem daquele tempo antigo
considera os anos da geração passada
quando a cidade das palmeiras era olhada
por cristo que passava entre o trigo

ou anos antes pelo inimigo
que falava a moisés do mais alto do fasga
Da hortelã da arruda de qualquer erva plantada
pagaste o dízimo ó meu triste amigo

quando o amor é que exigia rapidez
Tens de deixar casa vergéis e jardins
coisas modestas como as unhas e os amendoins

E o que vai ser de ti? Serás talvez
não o que deus não foi para ti: rins
cingidos mas um nome para a tua timidez

[Ruy Belo. "Outono", in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

A insensibilidade do governo

O Partido Socialista ficou incomodado com a referência, feita por Ferro Rodrigues, à falta de sensibilidade governamental relativamente às pessoas atingidas por duras medidas do governo. Ora o problema nem é uma questão de sensibilidade. O problema das medidas governamentais é a sua falta de equidade (escolheu alguns e poupou outros) e a utilização sistemática, durante largo período da governação, da humilhação de certos sectores para propaganda do governo e do Partido Socialista. Esta prática, inédita na democracia portuguesa, é uma das muitas imagens negras deste governo. Não lhe bastou atingir as pessoas, não lhe bastou ser injusto na distribuição de sacrifícios, ainda teve necessidade de submeter os sectores atingidos a campanhas de humilhante degradação. Não é falta de sensibilidade. O que foi feito foi pensado e executado com plena consciência do que estava a acontecer. Não nos confundamos.

Uma mescla de nuvens

Uma mescla de nuvens cobre o céu. Nuvens negras e cinzentas, nuvens brancas e douradas. Sob esse véu, desfilam as gentes, caminham indecisas para o destino que as espera. Por vezes, caem bátegas de água como se fosse Inverno. Bom dia.

Plátanos XI

02/01/08

Ruy Belo - Das coisas que competem aos poetas

Nas terras onde os sinos andam pelas ruas
há horas surdas sós e sem cuidados
há mar condicionado ao possível verão
e vendem-se manhãs e mães pelas três ideias
Nas terras onde a música é o fogo de artifício
a camioneta curva a carga sob os plátanos
e à sombra de lacrimejantes carros
o gato dorme a trepadeira sobe
o soba grita nunca ninguém sabe
a erva cresce e as crianças morrem
O mar aceita chão a mão do sol
Que plural deplorável o da magna agência mogno
E nas tílias há riscos de vestidos de retintas raparigas
e o dente resistente número quarenta cheira a pepsodent.

[Ruy Belo. "País Possível", in Todos os Poemas. Assírio & Alvim]

Rititi - "Voltei a Madrid"

Em primeiro lugar, deve ler-se o post Voltei a Madrid, da Rititi (perdoe-se-me a familiaridade, mas escrever o post “de” Rititi não soa a nada). Ela, no dia 30 de Dezembro, voltava a Madrid e eu, por acaso, voltava de Madrid. Como ela diz, Lisboa está deprimente. Acrescento: a minha cidadezinha está deprimente, as outras cidadezinhas (Portugal praticamente só tem cidadezinhas e cidadezecas) estão deprimentes, Portugal está deprimente. Mas Madrid, de que não gosto particularmente, estava animadíssima. Havia frio? Claro, mas ninguém tem frio numa cidade como aquela. Gente pelas ruas, pelos bares, pelos cafés, pelos restaurantes, pelos museus, gente sabe-se lá por onde. E que gente é essa? Turistas, certamente. Mas e fundamentalmente muitos espanhóis, muitos madrilenos. Ali há um enorme prazer em viver. É uma treta, cada vez que vou a uma cidade espanhola divirto-me e, ao mesmo tempo, ficou deprimido pela triste tristeza que nos coube em sorte. Entramos numa cidade portuguesa e parece que as pessoas foram todas a um funeral. Bem sei que temos o engenheiro Sócrates, o professor Cavaco, a Sra. D. Maria de Lurdes, o sogro do Francisco Louçã e aquele rapaz de Gaia, de que não me ocorre agora o nome. Mas os espanhóis também têm o Zapatero e uns quantos figurões e no entanto… Imagino bem o alívio que a Rititi deve sentido ao voltar a Madrid.

Depois das chuvas

Depois das chuvas, veio a luz solar traçar rios de pratas pelas ruas, iluminar casas e gentes, afastar as horas mais frias. A cidade move-se e o ano novo já começa a envelhecer. Bom dia.

Plátanos X

01/01/08

Ano Novo

Com votos de Bom Ano Novo, transcrevo informação recebida de Fernando Correia de Oliveira, o nosso maior especialista em relógios e no tempo:
O dia 14 de Janeiro corresponde ao dia 1 de Janeiro do calendário juliano. O ano 2008 da era vulgar, ou de Cristo, é o 8.º do século XXI e corresponde ao ano 6721 do período juliano, contendo os dias 2 454 467 a 2 454 832. O ano 7517 da era bizantina começa no dia 14 de Setembro. O ano 5769 da era israelita começa ao pôr do Sol do dia 29 de Setembro. O ano 4645 da era chinesa (ano do rato) começa no dia 7 de Fevereiro. O ano 2784 das Olimpíadas (ou 4º da 696ª), começa no dia 14 de Setembro, ao uso bizantino. O ano 2761 da Fundação de Roma «ab urbe condita», segundo Varrão, começa no dia 14 de Janeiro. O ano 2757 da era Nabonassar começa no dia 21 de Abril. O ano 2668 da era japonesa, ou 20 do período Heisei (que se seguiu ao período Xô-), começa no dia 1 de Janeiro. O ano 2320 da era grega (ou dos Seleucidas) começa, segundo os usos actuais dos sírios, no dia 14 de Setembro ou no dia 14 de Outubro, conforme as seitas religiosas. O ano 2046 da era de César (ou hispânica), usada em Portugal até 1422, começa no dia 14 de Janeiro. O ano 1930 da era Saka, no calendário indiano reformado, começa no dia 21 de Março. O ano 1725 da era de Diocleciano começa no dia 11 de Setembro. Os anos 1429 e 1430 da era islâmica (ou Hégira) começam ao pôr do Sol dos dias 9 de Janeiro e 28 Dezembro (dados do Observatório Astronómico de Lisboa). Post de Carlos Fiolhais no De Rerum Natura.
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Não resisti a esta apropriação. Dá sempre jeito.

A tradição dos tiros para o ar

A morte de um jovem em Perosinho, Gaia, coloca questões interessantes. Para lá da discussão da natureza acidental, ou não, da morte, interessa descodificar a ideia veiculada pela imprensa de que, naquele bairro, era tradição comemorar a passagem de ano com tiros para o ar. Tradição? O vice-presidente da Câmara vem agora dizer que vai despejar os moradores que possuam armas ilegais e os que se tenham entregue a tais eventos comemorativos. Mas como pode um autarca, mesmo que se chame Marco António da Costa e seja vice do dr. Menezes, desconhecer as tradições da sua autarquia? Ou os tiros, nos anos anteriores, eram dados com armas equipadas com silenciadores?

Começa o ano

Começa o ano em tons de cinza, como se uma tristeza se insinuasse e tomasse conta da vida. Lá fora, nada mexe. Tudo se recolheu exausto da passagem de ano, do perigoso trabalho de fazer o calendário avançar mais um passo. Bom ano e bom dia.

Plátanos IX