12/12/07

Rodopiam as cores

Rodopiam as cores no horizonte. Amarelos, cinzas, rosas, vermelhos, tudo sob a custódia de um azul ténue e puro. A noite partiu e tudo se agita já nas ruas, gente, carros de faróis acesos, animais perdidos a rosnar ao Sol que aí vem. Bom dia.

In principio erat... X

11/12/07

A Cidade Flutuante - 36. No castelo

No castelo,
sobejam as ameias
e uma sombra de árvores
esconde
o barulho de mil colmeias.

Zunem abelhas,
ladram cães,
e tudo corre
lá em baixo
na tarde quente
de pedra e açafrão.

Só os anjos partiram
e levaram suas asas
e o leve roçagar
com que, pelas manhãs,
cruzavam os céus
e olhavam quem
por aqui havia.

Sem anjos,
ficaram os homens
presos nas colmeias
a fugir dos cães,
a ouvir abelhas
a esconder-se
na sombra
da sombra
que cai das ameias.

[JCM. A Cidade Flutuante. 1993/2007]

Francesco di Giorgio Martini - Natività di Cristo


Siglos XIV/XV. Gótico/Renacimiento. 1460. Museo del duomo. Chiusi.

O direito a tornar-se numa besta

Segundo o Público, o estudante da Escola Superior Agrária de Coimbra que, numa praxe académica, teve um acidente ficou paraplégico. Parece que o aluno se autopraxou, pois não era caloiro. Foi por livre iniciativa que se lançou de um declive, onde os caloiros eram submetidos às praxes académicas, e se feriu. Nunca consegui perceber a ideia que subjaz a tão estapafúrdia prática. Quando frequentei a universidade, a praxe não existia. Quando reapareceu, sempre estranhei que o «baptismo» nos centros de saber do país fosse a humilhação e um conjunto de práticas pouco respeitadoras da dignidade dos praxados. Há três ou quatro anos, assisti, da janela da casa onde vivo, à praxe de jovens futuros professores e educadores. Via um idiota aos berros e um conjunto de seres aparentemente humanos que se entregavam às mais patéticas manifestações de animalidade. Zurravam, escoiceavam, rebolavam, enfim o triste retrato do que significa entrar no ensino superior em Portugal: o direito a tornar-se numa besta.

O Sítio do Jazz de Manuel Jorge Veloso

Começa assim: «um blog de Manuel Jorge Veloso onde irão aparecendo, muito de vez em quando, comentários escritos ao correr da pena, sobre concertos, este ou aquele disco, e o mais que apetecer…» É isto que está epigrafado em O Sítio de Jazz. Para quem gosta de música improvisada e quer saber um pouco mais, não faz mal nenhum, pelo contrário, passar por aqui.

Encontra posts sobre discos, concertos, efemérides, festivais, músicos, incluindo músicos portugueses, recursos, editoriais e artigos, tudo sobre Jazz. O último post, por exemplo, é uma apreciação em «ante-estreia» ao disco CUBO, do guitarrista André Fernandes.

Para quem não saiba, mas esteja interessado, fica ainda uma nota: Manuel Jorge Veloso apresenta, nas noites de sábado e de domingo, na Antena 2, o programa Um Toque de Jazz. Aí divulga novos discos e passa gravações de concertos. Há sempre, nesses programas, uma preocupação didáctica que ajuda o amador a orientar-se neste tipo de música. Os programas também estão disponíveis em podcast no sítio da Antena 2.

Ainda o Sol

Ainda o Sol não passou pela linha do horizonte, mas já tudo se ilumina. Sob estes auspícios, os mortais levantam-se e encaminham-se, apressados e sonolentos, para os afazeres que a sorte lhes ditou. Bom dia.

In principio erat... IX

10/12/07

A Cidade Flutuante - 35. Ainda há telhados

Ainda há telhados
pela velha cidade,
vila lhe chamavam,
e gatos silenciosos
e ninhos de andorinhas
nos beirais.

Homens e mulheres
despediram-se,
deixaram a vila entregue
à ruína de quem passa
e escondem-se
em casas sem telhas,
nem gatos,
nem pássaros a voar
sobre os quintais.

Ficou um sonho de futuro
preso aos muros
que o tempo,
o ardiloso arquitecto,
abandonou
ao turbilhão da memória
fundida no esquecimento.

[JCM. A Cidade Flutuante. 1993/2007]

Grande Sócrates

The Summit ended, as do most meetings of this sort, with smiling photocalls.
The Portuguese Prime Minister, Jose Socrates, gave an extraordinary closing speech which spoke about bridges being built, steps forward being taken, and visions being pursued.
He went off on such an oratorical flight, in fact, that I became mesmerised by the beauty of the Portuguese language and the elegance of his delivery.
I was so bewitched that I didn't register any concrete points in the speech at all.
Perhaps there weren't any. But it certainly sounded good
[via Portugal dos Pequeninos, via Hole Horror, via BBC].
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Durante todos estes dias, os que antecederam a Cimeira UE/África e aqueles em que ela decorreu, este blogger absteve-se de qualquer comentário. Não que lhe faltasse vontade comentante e matéria a comentar. Faltava, porém, o registo certo. Ora aí está ele, o registo certo, nas palavras de um jornalista da BBC NEWS. E de um momento para o outro toda a saloiice que nos governa iluminou-se. Parece que não houve frase feita, lugar-comum e chavão do politiquês que o nosso sofista não utilizasse. Quando se é de plástico (cf. VPV), não é possível ter na cabeça nada para além de pensamentos de plástico, frases de plástico, verborreia infinitamente plastificada.

Placido Domingo sings "White Christmas"

Fernando de Gallego - Epifanía

Siglos XIV/XV. Gótico/Renacimiento. 1480. Panel. Museo de Arte de Toledo. Toledo. España.

Os crimes na noite portuense e a cultura de O Padrinho

Independentemente das considerações sobre a situação criminal feitas pelos ministros Rui Pereira e Alberto Costa, a verdade é que o novo crime ocorrido no Porto vem configurar uma alteração qualitativa na criminalidade em Portugal. Parece que foi transportado para a noite de Lisboa e, fundamentalmente, do Porto um espírito que faz recordar a trilogia cinematográfica que dá pelo nome de O Padrinho. Não é que Portugal fosse imune à cultura do apadrinhamento. Pelo contrário, o que se passa é que está a chegar à cena social um novo tipo de padrinho, aquele que, implacável e cioso do seu espaço, deixa um rasto de sangue atrás de si.

A luz a tudo ofusca

A luz a tudo ofusca, tão violento se ergue o Sol. No alvoroço da semana que começa, é sob a mão inclemente do astro que as gentes passam nas ruas e se perdem nas catacumbas onde fazem pela vida. Bom dia.

In principio erat... VIII

09/12/07

A Cidade Flutuante - 34. Um súbito dedilhar

Um súbito dedilhar
e tudo alvorecia,
as ruas límpidas,
as casas brancas,
a alma vazia.

[JCM. A Cidade Flutuante. 1993/2007]

O novo fuso horário da Venezuela

Hugo Chávez decidiu fazer uma alteração revolucionária decisiva para a Venezuela. Agora os venezuelanos têm um fuso horário exclusivo. Por isso, tiveram hoje de atrasar os relógios meia hora. Há uma estranha atracção, nos transformadores do mundo, pela alteração destas convenções que regem a relação do homem com o mundo natural. Já os revolucionários franceses tinham decidido, em 1792, alterar por completo o calendário. Era para marcar o corte com o antigo regime, diziam. Estas patetices são o sintoma, por um lado, de um ego maníaco que julga que à sua sanha transformadora nem as forças da natureza escapam. Por outro, são a confissão de uma impotência: se os homens não se ajustam aos nossos ideais, ao menos que se ajustem os calendários ou os fusos horários. Esperemos, porém, que na Venezuela, ao contrário da França revolucionária, as pessoas não comecem a perder literalmente a cabeça. A coisa é desagradável.

Gozzoli - Natividade


Siglos XIV/XV. Gótico/Renacimiento. 1441. Fresco. 177 x 148 cm. Museo de San Marcos. Florencia. Italia.

Abrem-se as nuvens

Abrem-se as nuvens para que o Sol espreite e de lá, da altura que é a dele, deixe escapar, neste triste domingo de Dezembro, alguns raios que iluminem a noite que é a nossa. Bom dia.

In principio erat... VII