11/07/07

A Mesquita Vermelha

O caso da Mesquita Vermelha de Islamabad, no Paquistão, é mais um sintoma da insegurança global que resultou do fim da Guerra-Fria. O conflito entre os EUA e a URSS ocultou, durante décadas, outros focos de mal-estar no globo. Desaparecida a divisão bipolar do mundo, o radicalismo islâmico emergiu como o grande protagonista na cena mundial que desafia o Ocidente. Se o General Musharraf e a elite militar no poder não contiverem os radicais, negras nuvens se aproximarão não apenas da Índia, mas também do mundo ocidental. Imagine-se só um Paquistão radical com armamento atómico ali mesmo ao lado de um Irão, também radicalizado, à procura da bomba. A coisa vai ser desagradável.

Música às quartas - 8 Dalva de Oliveira - Grossas Nuvens de Amor

Cheguei a Dalva de Oliveira através de Maria Bethânia. Num daqueles álbuns em que ela canta e fala, refere o nome da “extraordinária Dalva de Oliveira”. Isto foi há muitos anos e nunca tive a curiosidade de saber quem era aquela mulher. Há tempos, porém, ao tornar a ouvir a referência de Bethânia, lá me pus a investigar na Internet e cheguei à Dalva de Oliveira. Não havia, na altura, CD’s disponíveis na Amazon. Encomendei dois directamente do Brasil, aliás coisa pouco recomendável financeiramente. A Amazon oferece melhores soluções, embora com pouca variedade. Bom, quem é Dalva de Oliveira?

O seu nome verdadeiro é Vicentina Paula de Oliveira (1917 – 1972) e nasceu no Estado de S. Paulo, Brasil. É um dos grandes nomes da música brasileiro ao lado de Cármen Miranda. Faz parte do movimento do samba-canção que antecedeu a bossa nova. O samba-canção combina o samba e o bolero na produção do que se pode chamar canções românticas. Quem ouvir os discos de Dalva de Oliveira percebe muito bem como ela antecedeu e preparou o caminho para o grande boom de vozes femininas brasileiras que a bossa nova trouxe.

O CD “Grossas Nuvens de Amor” é uma edição da EMI Brasil, de 2006.

Faixas: 1. Pela Decima Vez; 2. Que Será? / Tu Me Acostumaste ( Tu Me Acostumbraste); 3. Teus Ciúmes; 4. Há Um Deus; 5. Segredo/Aves Daninhas; 6. Dois Corações/ E A Vida Continua; 7. Bandeira Branca/ Mãe Maria; 8. Coqueiro Velho; 9. Tudo Acabado/Não Tem Mais Fim; 10. Saia Do Caminho; 11. Tudo Foi Surpresa; 12. Folhas No Ar; 13. Onde Estas Coração (Donde Estas Corazon)

O vídeo não é bem um vídeo, mas um áudio. Um programa que conta parte da história da rádio no Brasil. Além de se ouvir Dalva de Oliveira, ouve-se também Cármen Miranda e um pouco da história da música brasileira.


Fendas I

10/07/07

Elementos - 5. Séculos

Séculos,
ciprestes ao ritmo do vento;

o corpo, um astro perdido no firmamento.

[Micropoemas, "Elementos"]

O Ginjas do Monteiro

Vi há pouco no telejornal uma parte da campanha para a Câmara de Lisboa. A dado momento, surge um tal Ginjas a fazer uma espécie de performance integrada na campanha de Manuel Monteiro. Ali está tudo o que há de mais abjecto na política. Um partido (o de Monteiro) a fingir que não é partido, uma tentativa de mostrar, por parte do candidato, um pedigree moral diferente dos outros. Mas quem é Monteiro? Será que pensa que as pessoas não o conhecem? E não conhecemos todos, através do PRD de Eanes, o que foi essa experiência de um partido moralista e no que ela deu? Vender moral em política é tão imoral como ser imoral politicamente. Não há paciência para Ginjas.

Espiões, tecnologia e democracia

A história de espionagem que alegadamente envolve os serviços secretos militares italianos parece vinda de um filme do James Bond. É possível que estejamos muito para além da mera ficção. A ser verdade o que se conta, temos o retrato da fragilidade das nossas instituições. Se nem estas estão a salvo da espionagem, o que poderão os pobres cidadãos esperar da protecção da sua privacidade. Começa a desenhar-se uma problemática que merece ser pensada detidamente: poderá a democracia política ser compatível com o mundo tecnológico onde nos movemos. Não será a própria natureza da tecnologia radicalmente adversa à existência de comunidades democráticas?

A ameaça fundamentalista

A Rainha de Inglaterra atribuiu, no passado dia 16 de Junho, o título de “sir” ao escritor Salman Rushdie. Este vive desde 1989, em Inglaterra, com protecção permanente devido à condenação à morte decretada por uma “fatwa” do ayatollah Khomeini, por ocasião da publicação do romance Versículos Satânicos. Agora, a Al-Qaeda vem ameaçar de novo a Inglaterra. Reparemos bem que valores estão aqui feridos. Em primeiro lugar, a liberdade de expressão. Depois, a soberania e a segurança de um povo. O radicalismo e o fundamentalismo islâmicos são ameaças sérias ao Ocidente e às suas crenças fundamentais. Era bom que isto não fosse ignorado e se pensasse bem nas consequências de um Irão nuclear.

Tradição e alheamento

“Mas se o pensamento pessoal não é o fundamento da identidade de um indivíduo (se não tem mais importância do que um chapéu), onde está então esse fundamento?

A esta busca sem fim trouxe Thomas Mann a sua contribuição importantíssima: pensamos agir, pensamos pensar, mas é um outro ou são outros que pensam em nós e agem em nós: hábitos imemoriais, arquétipos que, tornados mitos, passando de geração em geração, possuem uma força de sedução imensa e nos teleguiam a partir (como Mann diz) do «poço do passado».”

Milan Kundera (1994). Os Testamentos Traídos. Edições Asa, pp. 16

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O «poço do passado» de que fala Mann é um outro nome para o conceito de tradição. Aquilo que somos somo-lo porque pertencemos a uma tradição. É nela que, de uma forma inconsciente, mergulham as nossas raízes. Mas esta ligação não é em primeiro lugar uma conexão cultural.

Aquilo que somos, devemo-lo, já no estrato biológico, à herança genética. O ADN que recebemos dos nossos pais é uma ponte que, de geração em geração, nos liga ao fundo obscuro da humanidade, depois à animalidade e, por fim, enraíza-nos no próprio ser. O que cada um de nós é, ainda e só do ponto de vista biofísico, representa já uma incomensurável dívida para com os ancestrais e através deles para com o próprio ser, do qual tudo provém.

De certa forma, podemos então dizer que existe um substrato biofísico da tradição. Esta não é um nada ou um mero conjunto de conteúdos que estejam ali disponíveis para serem manipulados, sem mais. Do ponto de vista cultural, o conceito de tradição reenvia-nos para essa ancestralidade, que, segundo Mann, pensa e age em nós. Não somos sujeitos que possam começar o quer que seja sem essa carga do passado. A língua que falamos, por exemplo, não a inventámos, não a criámos, herdámo-la da comunidade onde nascemos. Aquilo que é válido para a língua, vale para a cultura no seu todo, desde as regras de cortesia até às normas morais.

As sociedades tradicionais viviam no culto dessa tradição. Isso não significa que elas não se transformassem. A transformação, porém, era uma resposta não contra a tradição mas uma espécie de readaptação da vida comunitária aos princípios, muitas vezes obscuros, dessa tradição. Esta era uma espécie de modelo arquetípico que tinha a finalidade de fornecer um horizonte à existência dos homens e um fundamento significativo à sua identidade.

O que marca as sociedades modernas é a revolta contra a tradição. O moderno nasce como oposição deliberada à tradição. Na modernidade, o imperativo é reconstruir todo o mundo cultural a cada nova geração, cortar os laços com o passado. A tradição, todavia, tem resistido e é ela que, apesar dos ataques do moderno, permite a esse mesmo moderno reconhecer-se enquanto tal.

O que é absolutamente novo, nos dias de hoje, na cultura pós-moderna, é o alheamento completo não só da tradição como da revolta moderna contra ela. O mundo pós-moderno é o mundo do alheamento. O desenvolvimento tecnológico e a forma como se pratica a ciência nos dias de hoje fizeram crescer uma mentalidade onde reina a ilusão de se poder construir uma existência sem qualquer conexão ao passado. A ligação vertical com os ancestrais está a ser substituída pela ligação horizontal em rede.

Ciência e tecnologia são dois motores essenciais de uma cultura baseada no momento, de uma cultura niilista. O curioso é que a grande maioria dos cientistas não percebe o efeito do seu próprio trabalho. Veja-se, por exemplo, o combate dos cientistas do blogue De Rerum Natura pela defesa racionalidade.

Como a ciência para a sua aprendizagem não necessita de um estudo dos seus processos de evolução históricos, como ela é apresentada desligada daquilo que, do ponto de vista filosófico, está no seu fundamento, a praxis científica e o desenvolvimento tecnológico nela assente são dois factores de dissolução da racionalidade e da conexão com a tradição nas sociedades de hoje.

O papel social da ciência e da tecnologia não é a produção de conhecimento e de bens úteis para a humanidade. Esse é o invólucro onde se esconde a sua acção dissolvente das tradições e a ilusão de se poder a cada momento produzir o novo. Por muito que isso doa à racionalidade de muitos cientistas, na sua actividade esconde-se a mais violenta irracionalidade: a de roubar o fundamento do sentido que estrutura e articula as identidades humanas e a de ser dinamizadora do alheamento pós-moderno. [Para uma outra altura fica a reflexão sobre o papel em tudo isto da didactização da ciência.]

Minela - Teresa Torga



A Internet tem coisas que não lembram ao diabo. Estava eu a ler no Público on-line o artigo de Júlio Pereira sobre a importância do MySpace para o mundo artístico e deparo-me com um link para a página do artista no mesmo MySpace. Como clicar é só clicar, a coisa não dá trabalho, lá vou ao encontro do seu último álbum, Geografias. Oiço um pouco de música e descubro um link para vídeos do autor e “linko” para lá. Há apenas dois vídeos, um a cores, com o título Dariton, e um outro, a preto e branco, com o título Teresa Torga, canção do José Afonso. Pensei, é o Zeca Afonso acompanhado pelo Júlio Pereira. Ponho o vídeo a “rodar”e em vez do Zeca Afonso aparece uma mulher, uma rapariga diria, a cantar. Um passado não muito remoto chegou até mim. Aquela rapariga, a Minela (Manuela Medeiros), frequentou muito a minha casa em Lisboa, aquando dos nossos tempos de estudantes universitários. Era namorada de um colega de curso e amigo. Quantas noites os ouvi discutir a magna questão da relação entre S. Miguel (de onde ela é) e de S. Jorge (de onde vinha ele). Depois, os estudos acabaram, os namoros também e cada um foi à sua vida. Ele, soube há tempos, tinha morrido, nos Açores, em plena aula de Filosofia, mas nunca consegui confirmar. Dela nada sei. Agora descubro-a ainda nova e bonita, como a conheci, a cantar com o Júlio Pereira. Muitas vezes a ouvi cantar lá por casa, naquelas noites de intenso estudo… Aqui está ela graças ao YouTube.

Robert Reich's Blog

Continuemos na blogosfera de carácter económico. Depois de Ladrões de Bicicletas, um salto até aos EUA, para visitar o Robert Reich’s Blog. Robert Reich é professor na University of California, em Berkley e pertenceu à Administração Clinton, onde foi Secretary of Labor (Ministro do Trabalho), o 22.º na história americana. A sua obra mais conhecida é The Work of Nations (há tradução portuguesa). The Future of Success – working and living in the new economy é outra obra fundamental do autor.

O blogue de Reich é um blogue pausado, com posts de ritmo lento, o último é de 27 de Junho, mas sempre interessantes. Dois exemplos: Financial Entrepreneurship Versus Product Entrepreneurship, de 27 de Junho, e The Many Children Still Left Behind Act, de 26 do mesmo mês.

No primeiro, mostra a superioridade do empreendedorismo (palavrão horrível, espécie de calão usado no mundo dos que pasmam com a actividade económica), bom, voltemos ao que se estava a dizer, a superioridade do empreendedorismo produtivo sobre o financeiro. Mostra que o primeiro cria riqueza e que o segundo pode ter uma acção deletéria na sociedade. No segundo post, Reich chama a atenção para a transformação do ensino americano numa espécie de máquina de exames, perdendo-se a capacidade de desenvolver o pensamento crítico. Este post merece atenção. Uma coisa é defender, como o fazemos, a introdução global de exames no final de cada ciclo de ensino, outra coisa é transformar o ensino numa mera máquina de fazer exames. São duas coisas diferentes.

Quem quiser saber mais sobre o autor do blogue, vá, para além do blogue, até à página oficial de Robert Reich.

Desolação VI

09/07/07

Elementos - 4. Raparigas

Das raparigas,
o perfume e a erva.

Do rio, um pássaro a navegar a terra.

[Micropoemas, "Elementos"]

O espírito jacobino

O Público de hoje relata a tensão existente entre a Igreja Católica e o governo. Esta tensão diz respeito a vários sectores, nomeadamente aos da educação, comunicação social, solidariedade e segurança social. A juntar a tudo isto, está não apenas o facto de Sócrates ainda não ter respondido a um pedido de reunião com os bispos, como a memória das políticas fracturantes do governo, nomeadamente na questão do aborto. Se a Igraja Católica não deve ter privilégios, é bom, porém, que não se esqueça o papel fundamental que ela tem no tecido social português. Esperemos que o velho espírito jacobino não esteja de volta pela mão do Eng.º Sócrates.

Hervé Vilard - Capri, c'est fini

No outro dia, foi postado aquele vídeo da Gigliola Cinquetti que, naquele ar virginal, cantava que ainda não tinha idade. Hoje as escavações trouxeram outra visão da coisa. A canção passava, in illo tempore, vezes sem conta nas estações de rádio. “Capri, c’est fini” assim lhe deram o nome e um pobre “garçon” cantava a desdita do primeiro amor, com a cidade de Capri como pano de fundo. Seja como for, em 1965 a Europa continuava com um ar virginal.

Conhecia perfeitamente a cantiga, mas só hoje descobri o seu cantor: Hervé Vilard. Para dizer a verdade, este nome não me diz nada, o que indicia que eu não estaria lá muito atento ao que se dizia pela radiotelefonia e pela radiotelevisão. Quem estiver interessado na letra, então vá até . Seja como for, não se iluda, Capri, c'est fini, definitivamente.

A vaia do Estádio da Luz

Há 30 anos, no Porto, assisti a uma vaia monumental dirigida a um primeiro-ministro. Foi no Estádio das Antas, na final da Taça de Portugal, entre o FC Porto e o SC de Braga. O FC Porto ganhou por 1-0 e Mário Soares, quando desceu da tribuna em direcção ao relvado, para entregar a taça aos vencedores, recebeu uma formidável pateada. Os tempos eram conturbados. Em 1977, o país começava a recompor-se dos anos da revolução e as posições estavam muito encrespadas. Em breve, Soares seria substituído na governação por Sá Carneiro e a AD.

Tudo isto vem a propósito da vaia, enorme segundo quem lá esteve, que o público do Estádio da Luz, no espectáculo sobre as “Sete Novas Maravilhas”, entendeu dispensar ao Eng.º José Sócrates. Entre as duas vaias há uma diferença abissal. Com Mário Soares era ainda o mundo escaldante da revolução que vinha ao de cima, era o norte conservador que apupava o sul progressista. Com Sócrates as coisas são diferentes. Não é o sul ou o litoral progressistas que assobiam o interior reaccionário.

Mais do que política, a vaia do Estádio da Luz significa o cansaço dos portugueses perante a elite governativa. Cansaço de quê? Da sua política? Também, mas não só. Sócrates e o governo encresparam o país, puseram portugueses contra portugueses, são arrogantes e displicentes para com muitos dos seus eleitores, mostram desprezo pelos fracos, são complacentes e subservientes com os fortes, desprezam a liberdade de expressão. A assobiadela do Estádio da Luz é uma reprovação moral do governo. Mas esta reprovação moral não é apolítica. Pelo contrário, é a reprovação pela forma imoral como este governo faz política. O “10 de Junho” foi apenas o começo, o Estádio da Luz é a continuação...

Arqueologias - Eusébio da Silva Ferreira



Os meus anos de formação, como acontece com a maior parte dos seres humanos, foram preenchidos com múltiplos heróis. O herói fornece um arquétipo ao comportamento, permite a leitura do mundo, traça um horizonte de possibilidades, imaginárias na verdade, que estruturam sonhos e representações. Para além dos heróis familiares, presenças tutelares do passado e fonte de autoridade, havia os heróis mundanos. O maior de todos – nesses anos que frequentei aquilo que hoje, de forma tão rasa, se chama escolaridade básica – foi Eusébio. Mal sabia falar, mas dentro dos estádios era um jogador extraordinário.

Depois uma pessoa cresce e os heróis passam a ser outros, por vezes bem mais negros, ou deixa de ter heróis. No entanto, até hoje, Eusébio da Silva Ferreira nunca me desiludiu. É um grande homem, porque tendo sido a estrela que foi, nunca quis ser o que não era. A modéstia, a amizade com que sempre se refere a companheiros e adversários, a ligação ao seu clube, o seu ser português, tudo isto mostra que Eusébio é muito mais do que um ex-grande jogador de futebol. Fica aqui um registo arqueológico com múltiplas camadas de sedimentos.

Desolação V


08/07/07

Elementos - 3. Tempo

No tempo,
acentua-se a aresta pelo vento.

[Micropoemas, "Elementos"]

Escrever como máscara

Escrever é ser outro. Mesmo na crónica de opinião, há uma alteridade radical entre o «eu que escreve» e a pessoa que empresta o seu nome ao «eu que escreve». Um «eu enquanto sujeito psicológico» é espontaneamente aquilo que é. O «eu que escreve» só o é por artifício. Os leitores, muitas vezes de forma ingénua, tendem a identificar os dois, mas isso não passa de um preconceito, talvez de uma forma rápida de resolver o enigma da escrita. O máximo que se pode dizer é que o «eu psicológico» cria o «eu que escreve» e que este, ao tomar a herança da escrita em suas mãos, umas vezes melhor, outras pior, cria os materiais escritos (crónicas, poemas, narrativas, filosofia, etc.). De certa forma, há sempre um certo escândalo na questão dos direitos de autor. Aquele que os pode reivindicar não é um verdadeiro autor e o verdadeiro autor (o eu escritor) não é uma pessoa e por isso não pode ter direitos.

O drama de tudo isto reside no seguinte paradoxo: aquele que escreve escreve para ser outro. Os leitores tendem porém a identificar, sem qualquer fissura, um e outro. Mas Ricardo Reis, Alberto Caeiro ou Álvaro de Campos não eram Fernando Pessoa. O próprio Fernando Pessoa não era Fernando Pessoa.

Credence Clearwater Revival - Proud Mary



Eis o que deu o trabalho arqueológico de hoje. Credence Clearwater Revival. “Proud Mary” foi um dos grandes êxitos do álbum “Bayou Country”, provavelmente de 1969, o segundo LP do grupo. Recordo claramente de ouvir, em casa de um amigo, a canção, não no álbum, mas num 45 rotações. O gira-discos estava incrustado num rádio de boa qualidade, telefonia como se dizia, e o som era o som do rádio. Na memória desses dias, o som parecia excelente, coisa que era quase impossível, o que mostra a relatividade das coisas. Alguém que esteja interessado em saber mais do disco, pode consultar no Allmusic a página dedicada ao Bayou Country.

Desolação IV

07/07/07

Elementos - 2. Futuro

Futuro,
Rosas bravas ao meio-dia.

E a árvore vinha no fruto que dela caía.

[Micropoemas, "Elementos"]

Os conflitos em política

Há dois tipos de conflito político. Um opõe as diversas elites políticas (partidos) entre si. Outro opõe os cidadãos ao mundo político. No primeiro, estamos perante um conflito aparente: uma elite quer substituir a outra, nada mais do que isso. Tudo o que a oposição diz, onde quer que seja, está contaminado pela ânsia da conquista do poder. Não há militantes inocentes. No segundo caso, porém, o que está em jogo é a limitação do poder, o traçar as suas fronteiras de forma cada vez mais nítida. Aqui também não há inocência: evitar os desmandos do poder não está nas mãos dos inocentes. Importa porém não desejar estar do lado dos culpados.

O lugar da utopia

Na vida individual ou na arte, a utopia é possível, por vezes, desejável. Na vida política, é a antecâmara do crime organizado.

Léo Ferré - Les Anarchistes


Confesso que o anarquismo nunca exerceu sobre mim grande atracção, mesmo nos meus piores anos. Claro que li o conde Kroptokine e Bakounine, mas a inexistência de uma «arquê» em torno da qual se estruture a comunidade humana nunca me convenceu.

Se o anarquismo político não me convenceu, já o anarquismo cantado por Léo Ferré sempre me seduziu. Agrada-me esta visão despojada, quase ascética, de um velho vestido de negro, solitário no palco, a cantar como quem enfrenta uma multidão. Anarquismo, sim, mas na voz de Ferré.

Para ver a letra clicar aqui.

Leo Ferre - Les Anarchistes (live1969)
Colocado por Brigada_Durruti

Decência

Agora que acabaram as utopias políticas, o que poderá o homem comum exigir da vida pública? A mera decência. Construir uma comunidade decente, e não mais do que isso, é o horizonte de expectativa máximo que, nos dias de hoje, nos cabe. Não é pouco, nunca o foi.

O pudor

O pudor é uma das noções-chave dos tempos modernos, época individualista que, hoje, imperceptivelmente, se afasta de nós; pudor: reacção epidérmica de defendermos a nossa vida privada; de insistirmos em que uma carta dirigida a A não seja lida por B.

Milan Kundera (1994). Os Testamentos Traídos. Edições Asa, pp. 235

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A edição francesa é de 1993. Há, nesta citação, uma palavra fatal: imperceptivelmente. Já nesses dias a época individualista, isto é, a modernidade, se afastava de nós. Como? Imperceptivelmente. Como um ladrão sorrateiro abandona a casa, deixando-a mais pobre. Este afastamento é então uma pauperização. Aquilo que nos é roubado é o pudor. Mas o pudor é lido como a reacção epidérmica de defendermos a nossa vida privada. Passaram 14 anos, a impudicícia cresceu, alastrou, a vida privada é agora exposta à publicidade. Não há carta que não possa ser lida, não há conversa que não possa ser escutada, não há passo que não se dê sob vigilância. Imperceptivelmente, instalou-se, no lugar dos tempos modernos, a pós-modernidade.

A pós-modernidade não é o lugar do indivíduo, da sua expressão exaltada, colorida pela cultura das emoções e dos afectos, dos quais haveria agora a liberdade de os tornar públicos; teriam ganho, diz-se, direito de cidadania, lugar na esfera pública. A pós-modernidade é a época de dissolução do indivíduo. Sobre ele caiu o manto da vigilância global. O mundo tornou-se no panóptico de Bentham. Não foi o medo que trouxe esta nova figura do mundo. O terror, o 11 de Setembro, apenas tornou claro um processo que já estava em curso, imperceptivelmente.

Desolação III

06/07/07

Elementos - 1. Árvores

Árvores,
Vozes do vento a soprar.

Nelas, ardem mulheres como ramos ao luar.

[Micropoemas, "Elementos"]

O futuro da escola portuguesa

Há uma ideia que vai fazendo caminho em Portugal. Os grifos e falcões esperam a sua hora. Depois deste governo, outro virá. A escola pública portuguesa, doente de tanta incompetência política, irá ser entregue à iniciativa privada. Aí os grifos e os abutres regurgitarão de iniciativa. O Estado pagar-lhes-á para eles serem donos das escolas, escolas construídas pela comunidade nacional, durante décadas e décadas. Ter uma escola particular, oferecida pelo Estado, com professores a ganhar salários miseráveis, eis o segredo que se esconde nos escaninhos da nossa sociedade. Ainda não chegou a hora, mas chegará. Eis a natureza do nosso empresário: um liberal que vive à custa do Estado e do suor dos outros.

Pensar ao calor

Chegou o calor. Tudo se torna turvo e insano. O espírito soçobra perante os mísseis térmicos. É quase impossível haver pensadores fora das frias paisagens do norte. Os neurónios tornam-se lassos e nessa lassidão não há ideia que ganhe forma, que tome figura, que desagúe na luz de um conceito. Odeio o calor.

A compra do Benfica

Fala-se que o Benfica vai ser “opado”, seja por Berardo, seja por chineses. Para além da verdade da coisa, estas movimentações significam a normalização do futebol português. Como os clubes internacionais, os clubes portugueses vão deixar de ser dos sócios e das comunidades que os produziram. Moral da história: o esforço de milhares e de milhares de pessoas, que ergueram gratuitamente, ou pagando do seu bolso, os clubes, que construíram, ao longo de gerações, comunidades autênticas, com vida própria, vai ser agora apropriado por um indivíduo ou um grupo. Pode ser que os clubes se tornem mais eficientes, mas as comunidades ficam dolorosamente mais pobres.

Música para o fim-de-semana: Boulez - Sonatine &

Continua-se a explorar a música erudita de vanguarda, do século XX. A escolha de hoje recai sobre o compositor e maestro francês Pierre Boulez, nascido em 1925 [Para ver biografia clicar aqui ou aqui]. Destaque-se o seu papel, a convite do Presidente francês Georges Pompidou – belos tempos em que os políticos tinham estas preocupações – na criaçãoe direcção do IRCAM (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique), instituição dedicada à música contemporânea e à investigação de caminhos criativos que sintetizassem a música erudita, a música electrónica e a produzida por computador. Deste compositor já tinha sido apresentado o álbum com a obra Domaines.
O álbum escolhido para hoje é constituído por diversas peças, com destaque para peças para flauta e/ou piano. Assim temos: Sonatine Pour Flûte & Piano; Sonate N° 1 Pour Piano; Dérive; Mémoriale; Dialogue De L'ombre Double; Cummings Ist Der Dichter.

O CD, da editora Apex, veio à luz do dia em 2003. Os intérpretes são, para além do compositor, Pierre-Laurent Aimard e Sophie Cherrier.

O vídeo que se apresenta é de uma outra obra de Boulez, dirigida pelo próprio, Le Soleil des Eaux.


Jornal Torrejano, 06 de Julho de 2007

On-line está a edição de hoje do Jornal Torrejano. Destaque para três notícias: a demissão da direcção do Centro Hospitalar do Médio Tejo, por decisão do Ministério; a polémica em torno das Festas do Almonda; a análise pela Assembleia Municipal do plano para o centro histórico da cidade. Na opinião, comece-se com o cartoon "do contra" de Hélder Dias, depois José Ricardo Costa (A douda ignorância), Jorge Salgado Simões (Paralelos Inusitados), Carlos Nuno (Os cogumelos), Pinto Correia (Filme Português na corrida aos Óscares) e o blogger de averomundo (A degradação do espírito). Há mais coisas por lá e, por certo, para a semana, se o mundo não acabar, haverá nova edição do Jornal Torrejano.

Desolação II


05/07/07

Bocage 10 - Na solidão do cárcere

Quando rósea nuvem sobe o dia,
De risos esmaltando a Natureza,
Bem que me aclare as sombras da tristeza,
Um tempo sensabor me principia.

Quando, por entre os véus da noite fria,
A máquina celeste observo acesa,
De angústia, de terror a imagem presa
Começa a devorar-me a fantasia.

Por mais ardentes preces que lhe faço,
Meus ais não ouve o númen sonolento,
Nem prende a minha dor com ténue laço.

No inferno se me troca o pensamento;
Céus! Porque hei-de existir, porquê, se passo
Dias de enjoo e noites de tormento.

Bocage & "Elementos"

Com “Na solidão do cárcere” termina uma pequena, muito pequena, viagem pelos sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage. Amanhã retomar-se-ão os “Micropoemas”, com um ciclo de 8 textos intitulado “Elementos”, de 1979.

Ser miserável

Há cães que ao sentir a fraqueza alheia rosnam e ladram e mordem; mal sentem a força, logo alçam o rabo e rastejam de língua de fora.

Salut, Sarkozy

Sarkozy está a deixar o establishment europeu à beira de um ataque de nervos. Introduziu um conceito desagradável, “patriotismo económico”, pretende diminuir a velocidade de redução do défice francês e fala, ó sacrilégio, em maior intervenção dos governos na política monetária e cambial. Ouviram-se logo rosnadelas, umas de pastores alemães, outras de fox terriers. Também houve uns latidos de cão d’água. Mas Sarkozy apenas reivindica um papel que os políticos nunca deveriam ter abandonado: gerir a economia em conformidade com os interesses dos povos que governam. A aposta é dura: ou a França ganha e muita coisa muda no mundo, ou a França perde e é esmagada.

Respeito e respeitinho

A autêntica autoridade é como uma paisagem montanhosa, gera, no silêncio que é o seu, o puro respeito. O pequeno despotismo não passa de uma visão de subúrbio, produz o sonoro flato do «respeitinho é muito bonito».

A liberalização das farmácias

A liberalização da propriedade das farmácias inscreve-se na óptica actual de acabar com putativos privilégios. Ficando aberta a propriedade das farmácias a quem não é farmacêutico, parece reforçado o papel dos Directores Técnicos, farmacêuticos de formação. Esta lei ainda impede que um proprietário detenha mais de 4 farmácias. Porém, não haja ilusões, estamos apenas perante um primeiro passo para uma lei que permita aos grandes grupos económicos apropriar-se também deste ramo. Mais dia, menos dia, já ninguém saberá de quem é a farmácia da esquina. Repare-se que em tudo a lógica é a da concentração dos bens nas mãos de muito poucos. Parece que é o mercado, mas não, é a política.

O rancor e a impotência

A pequenez é rancorosa. Em cada esquina vê um inimigo, em cada discórdia o fim dos ínfimos poderes. A pequenez não tem a ver com centímetros, mas com a inveja que nasce da impotência. Quando os impotentes sobem ao poder, apenas se pode esperar o pior.

Non Ho L'Età

A memória é um poço traiçoeiro, poço fundo e obscuro que tem lá dentro coisas destas. Eu passo a explicar: in illo tempore, em casa recebia-se estas imagens como fazendo parte de uma educação. Como toda a verdadeira educação, esta corria sem que se desse por ela. O arquétipo da namorada desejada e da esposa (odiada palavra) perfeita. A vida, porém, despótica em breve faria sonhar com isto (veja bem o que uma mulher pode fazer com o olhar, o sorriso e o jogo facial). Proponho um exercício didáctico: como da Gigliola Cinquetti do vídeo de hoje se chega àquela imagem feminina trazida pelo outro vídeo? Aliás, os dois vídeos em causa seriam, também eles, excelentes para a educação sexual indígena. Isto para não falar como seriam um belo suporte para aulas de História sobre os anos 60. Note-se que Cinquetti vive em Itália. Esta em 1964 era há muito uma democracia. Ela, Cinquetti, não é o produto de um país atrasado e fechado. Ela é a Europa em estado virginal. Talvez volte a eles, vídeos, um dia destes.

Do mestrado ao amestramento do mestre

Quem frequenta o mundo dos professores sente o medo que há neles, o temor pela liberdade, o pânico da insegurança. Como poderão educar homens livres se se sentem tratados como animais amordaçados que se quer amestrar?

Um nojo

No ano passado, 39 mulheres foram assassinadas pelo respectivo marido/companheiro. Gravemente feridas ficaram mais 43. O problema é generalizado. Não diz respeito apenas aos países da Europa do Sul (ver o Sol). Há múltiplas explicações para o fenómeno, desde a questão da «honra», no mundo árabe, até ao mero problema da posse. Sobre tudo isto duas coisas: 1. a capa da civilização é muito frágil, rebenta com facilidade; 2. o comportamento dos jovens «machos» é bastante preocupante. A violência entre namorados, em todos os níveis sociais, é muito maior do que se pode imaginar. Surrar mulheres frágeis, eis a medida da coragem desta gente. Um nojo.

Símbolos IV


04/07/07

Bocage 09 - Próximo aos seus últimos dias

Ave da morte, que piando agoiros
Tinges meus ares de funéreo luto!
Ave da morte (que em teus ais a escuto)
Meus dias murcharás, mas não meus loiros.

Doou-me Febo aos séculos vindoiros,
Deponho a flor da vida e guardo o fruto;
Pagando em vil matéria um vão tributo,
Retenho a posse de imortais tesoiros.

Nome no tempo, e ser na Eternidade!
Que fado! Oh ponto escuro, assoma embora,
Dê-me o piedoso adeus com saudade;

E rindo-me na campa os dons de Flora,
Mais do que eles a adorne esta verdade:
«Lísia cantava Elmano, e Lísia o chora.»

A mediocridade das estaturas

Nem sempre gostei do que escreveu Baptista-Bastos, talvez preconceito meu, mas reconheço que é um excelente cronista. Leia-se um excerto da sua crónica no DN de hoje (para ler tudo, clicar aqui).

«Digo-o de forma amistosa: Sócrates não resiste a dois assaltos. Posa de leão indomesticável, mantém um semblante grave, mas escapule-se, furtivo, à mais leve suspeita de distúrbio. A pesarosa cena, no Porto, fornece-nos o retrato de um homem que recusa enfrentar os problemas por si próprio criados e que transforma o abstracto numa vitória sobre o concreto.

As pessoas precisam de símbolos de destemor, porque desejam rever-se nessa espécie de silogismo que faz do exemplo uma criação da esperança. Cunhal, Soares, Sá Carneiro, Vasco Gonçalves, vivem nessa matriz. Podemos gostar, ou não, daquilo que foram ou ainda representam. Como diria o meu amigo Luís Pignatelli, boémio e poeta, eles conservavam a nudez de um bom verso que admite todas as rimas. Aceitaram as imprecações e as injúrias, a pressão dos dias e a convulsão de anos tumultuosos, mas nunca se esconderam. José Sócrates pertence à congregação de fugitivos cujos protótipos mais próximos podemos encontrar em António Guterres e em Durão Barroso. O destino que escolheram não resgata o seu absentismo nem acrescenta lustre à mediocridade das suas estaturas.»

Os exames, o CDS/PP e a esquerda

Raramente estou de acordo com Paulo Portas, mas hoje subscrevo a sua posição relativa à introdução de exames nos 4.º e 6.º anos de escolaridade. A esquerda em bloco rejeitou, como seria de esperar, a proposta. É um facto que a introdução de novos exames não resolve o problema escolar, mas seria um passo muito sério para dar credibilidade ao ensino e forneceria um horizonte objectivo para as aprendizagens mínimas. O BE acusou a proposta de ser pura ideologia. É um facto, mas é tão ideológica como a contrária. A introdução de exames não é apenas uma questão técnica, é uma questão política. A esquerda continua inimiga dos filhos dos seus eleitores.

Pequeno contributo para a educação sexual





Nos dois vídeos, filmados com os mesmos actores mas com 30 anos de intervalo, está tudo o que toca à sexualidade humana. Não só o seu carácter cénico e ritual, mas a natureza obsessiva do sexo que a encenação e o rito tornam evidente. Foi este carácter obsessivo que a espécie humana regulou através do interdito, a começar pela proibição do incesto até aos níveis mais frágeis de interdição que se manifestam no pudor, na vergonha, na timidez, reflexos subjectivos da objectividade social da proibição. O sexo humano sempre foi, e nada mais do que isso, obsessão e interdição, como em ambos os vídeos se mostra, embora no segundo a obsessão seja já apenas a representação uivada da representação obsessiva. À ritualização da obsessão sexual responde a impossibilidade, diria mesmo a impotência. O «não podemos», de Sophia Loren, e o sono (isto é, a confissão fisiológica do desgaste do desejo perante a falta de novidade), de Mastroianni, são apenas metáforas dessa interdição, cuja raiz, curiosamente, se pode inscrever nos limites do corpo.

Mas o sexo mesmo, a cópula, os corpos abraçados, a respiração alterada, o arfar desmedido, os órgãos genitais excitados, a penetração, as variações sobre o tema, onde fica tudo isso? Respondo com outra pergunta: o que tem tudo isso a ver com o sexo? Isso é a pura insignificância, o grau zero da sexualidade, um nada que só toma a aparência de ser alguma coisa porque, a montante e a jusante, está outra coisa.

O quê? A obsessão que resulta, através de uma espécie de hidráulica, do comunicar da tensão hormonal com o mundo dos significados, simbolizando-se no rito de acasalamento [poderíamos aqui traçar todo um percurso que vai do símbolo à metáfora e desta à palavra comum e ao discurso raso em que, as mais das vezes, se diz o «amor»] e a luta desmesurada dessa tensão simbolizada com a outra dinâmica simbólica, a da interdição. Sem a dimensão simbólica, onde o desejo hormonal (desagradável expressão, não é?) e a sua interdição se conjugam, o sexo teria talvez mais relevo do que a respiração, mas não perturbaria os espíritos mais do que uma ligeiríssima taquicardia.

É curioso, em todo este processo, a impossibilidade de se aceder ao «sexo cru» na sua própria crueza. Os que estão em acto estão perdidos nele, e quem está perdido não sabe onde está. Quando se está fora do acto, seja perante o acto de outros ou a memória do próprio, o acesso é já e só simbólico. Mas a questão tem ainda uma outra face.

Os influxos simbólicos, do desejo e da interdição, contaminam o próprio acto e este, por mais raso que aparente ser, é sempre uma realização simbólica. Não por acaso existe toda uma metafísica do sexo, onde este é o símbolo de múltiplas aventuras do espírito. Várias culturas humanas acabaram por simbolizar no acto sexual as relações entre os mundos terrestre e celeste, entre a alma e Deus, entre o que está em baixo e o que está em cima.

A grande questão do sexo, e de uma improvável educação sobre ele, não reside na sua possível realização de forma desafectada. Não é a falta de afecto e de amor que torna o acto sexual problemático. A questão reside em não haver, por estranho que pareça à mentalidade contemporânea, um sexo sem consequências, um sexo puro. Todo o acto sexual põe em jogo a dimensão simbólica do homem e arrasta nesse jogo as potências ontológicas, psíquicas e cósmicas, que se ocultam nos símbolos com que a sexualidade dos homens, mesmo quando se mostra, se esconde, se vela, se oculta. Dito de outra maneira, quando um homem e uma mulher copulam, são mais do que eles próprios, são símbolos de outra coisa. Também é esta a perspectiva freudiana, mesmo que ela, hoje em dia, já não me interesse: nos jogos de cama, os participantes não são simples «eus»; trazem consigo os respectivos superegos, isto é, toda uma cultura que os suporta no seu ser. Note-se que esta perspectiva tem um corolário interessante: todo o acto sexual a dois é uma orgia generalizada.

Eis o que o cinema faz pensar, ali naquele lugar onde não aconteceu o que se supunha que acontecesse.

Música às quartas - 7 Mercedes Sosa, Gracias a la Vida

Retomemos o tema de “Gracias a la Vida”, mas hoje com a cantora argentina Meercedes Sosa. Figura destacada da «nueva canción» sul-americana, claramente marcada pela intervenção política e, ao lado de Atahualpa Yupanqui, Violeta Parra e Victor Jara, uma das vozes mais marcantes do movimento ligado à canção de protesto que emergiu na década de 60 do século passado.

Independentemente da orientação política das suas convicções, Mercedes Sosa é uma intérprete dotada e de grande riqueza e expressividade. O CD, denominado Gracias a la Vida, é de 1987, editado pela Phillips, tendo sido reeditado várias vezes, tanto pela etiqueta original, como pela Polygram.

São 15 as faixas que compõem o álbum, da qual destacaria a primeira, Tudo Cambia, Unicórnio, com Charly Garcia, Razon de Vivir e a última, a canção de Violeta Parra que dá o nome ao álbum. No vídeo, uma interpretação ao vivo de Gracias a la Vida.

Símbolos III


03/07/07

Bocage 08 - A um velho maldizente

Tu, maligno dragão, cruel harpia,
Monstro dos monstros, fúria dos Infernos,
Que em vil murmuração, ralhos eternos,
Estragas sem descanso a noite e o dia;

Tu, que nas horas em que o mocho pia,
Caluniaste os meus suspiros ternos,
Sacode a carga de noventa Invernos
Nas descarnadas mãos da Morte fria.

Cai de chofre no Báratro profundo,
Cai nas entranhas da voraz fornalha,
Deixa em sossego o miserável mundo

E entre a maldita, réproba canalha,
Lá bem longe de nós, lá bem no fundo,
Arde, murmura, amaldiçoa e ralha!

Incompatibilidades regionais

O Tribunal Constitucional chumbou a extensão do regime de incompatibilidades dos deputados nacionais aos dos parlamentos das regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Uma vitória para Alberto João Jardim e uma derrota para o PS e toda a esquerda. Mas a grande derrotada desta decisão é a regionalização do continente. Criar situações que se tornam incontroláveis não é, por certo, algo que sustente a bondade do processo de regionalização. Quem estará disposto a semear parlamentos cujo regime de incompatibilidades esteja dependente dos humores dos caciques locais?

Compram-se filhos, por 2500 €

O governo socialista espanhol, em desespero de causa, decidiu dar 2500 € por cada nova criança nascida ou adoptada. Quais serão os resultados desta política? Olhemos para Espanha. Quem mais se reproduz são os emigrantes latino-americanos, julgo que da Colômbia, e os marroquinos. Para estes, 2500 € é um belo incentivo para aquilo que já fazem, isto é, multiplicarem-se. Mas será que os espanhóis de origem peninsular, ricos e instalados na existência, se irão deixar comprar para ter filhos? Por 2500 €? Que consequências políticas terá isto daqui a 15 ou 20 anos?

Liberdade e moralidade

Os estudantes do mosteiro paquistanês Jamia Hafsa, cheios de iniciativa, decidiram, pela violência, claro, impor novas regras de moralidade na capital, Islamabad. Para começar, obrigaram ao encerramento de lojas de música e de vídeo. Talvez tenham razão, que muita música e material audiovisual sejam puro lixo, logo imorais. Mas não há moralidade sem liberdade e quando a liberdade é atacada, a própria moralidade dissolve-se e corrompe-se. Os estudantes de Jamia Hafsa têm muitos parceiros Ocidente fora, gente pouco dada às liberdades.

Procol Harum - A whiter shade of pale [1967]



Houve tempos em que os bailes de aldeia (conceito muito impreciso) eram animados por conjuntos paroquiais que mimavam os êxitos internacionais, nomeadamente os que vinham da área do rock progressivo e da pop. Hoje, segundo parece, o que anima esses bailes e as festas universitárias é a música pimba.


O kitsch não é o piroso, mas a facilidade, a música que parece fluir como a água de um rio. Ora não é isso, a água do rio a fluir em direcção à foz, o que corre aqui, neste vídeo dos Procol Harum? E ali continuam os pares enlaçados no baile da terra, os músicos suam, o vocalista lá vai tentando acertar no inglês das palavras, saberá o que elas significam?

Ladrões de Bicicletas

São vários os ladrões de bicicletas: Nuno Teles, marimarieke, Ricardo Paes Mamede, Zé Guilherme, Pedro Nuno Santos, agente reactivo e João Rodrigues. Animam um blogue essencialmente ligado à economia. Tem a particularidade de ser um blogue de esquerda, não daquela de Sócrates, mas de esquerda que ainda não tem vergonha de dizer coisas de esquerda.

O blogue faz um trabalho sistemático de desmontagem do pensamento liberal e vai mostrando como a economia é muitas das vezes não uma ciência, mas pura ideologia ao serviço de determinados interesses (leitura minha). Mas há mais vida no blogue para além da economia, e esta é apresentada de forma compreensível.

Ideologia, dirá alguém ligado ao pensamento económico liberal. É um facto, mas poderá um liberal, sem nos fazer rir, acusar os outros de ideologia? Para ir até lá, clique aqui.

Símbolos II

02/07/07

Bocage 07 - O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz; não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos leram sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

Não vos inspire, oh versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

Glenn Gould - Partita n.º 6 (J. S. Bach)









Entre Bocage e Hannah Arendt, a música de Bach tocada por Glenn Gould. Enfim, para não ser acusado de um mau gosto sem fim, eis dois puros génios. A peça é a Partita n.º 6. Fazer uns minutos de silêncio e deixar que música enquanto música, essa estranha matemática dos sons, se aproprie do espírito, mesmo que o não tenhamos.

A natureza conservadora da escola

Evitemos os mal-entendidos: penso que o conservadoris­mo, tomado enquanto conservação, faz parte da essência mesma da actividade educativa cuja tarefa é sempre acari­nhar e proteger alguma coisa — a criança contra o mundo, o mundo contra a criança, o novo contra o antigo, o antigo contra o novo. A própria responsabilidade alargada pelo mundo que a educação assume implica, como é óbvio, uma atitude conservadora. Mas, isto só é válido para o domínio da educação, ou melhor, para as relações entre crescidos e crianças e, de modo algum para o domínio político, onde agimos sempre entre e com adultos ou iguais. Em política, a atitude conservadora — que aceita o mundo tal como ele é e unicamente luta por preservar o status quo — só pode levar à destruição. E isto porque, nas suas grandes linhas como nos seus detalhes, o mundo está irrevogavelmente condenado à acção destrutiva do tempo, a menos que os hu­manos estejam determinados a intervir, a alterar, a criar o novo. As palavras de Hamlet, «o tempo está fora dos gon­zos. Oh! sorte maldita, que nos fez nascer para restabelecer o seu curso», são verdadeiras para cada nova geração, ainda que, desde o início do nosso século, porventura tenham ad­quirido uma ainda validade maior do que anteriormente.

Hannah Arendt, "A Crise na Educação". Tradução de Olga Pombo, in Olga Pombo (org.), Quatro Textos Excêntricos. Relógio d’Água (2000).
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Um dos grandes equívocos da educação em Portugal reside na incompreensão do carácter conservador da função educativa. Um dos sintomas dessa incompreensão está na estrutura orgânica de escolas e agrupamentos de escolas. A escola portuguesa é uma espécie de república onde todos são iguais. Este equívoco expressa-se na existência de órgãos como a Assembleia de Escola e a presença de alunos, funcionários e encarregados de educação no Conselho Pedagógico, mesmo que de forma restrita.

A escola republicana não pode ser uma república; a escola democrática não pode ser uma democracia. Há distinções fundamentais entre professores e alunos, há deveres e direitos absolutamente desiguais. A organização escolar normal está muito mais próxima de uma perspectiva aristocrática. Ora é da negação desta orientação aristocrática da escola que nascem os mal-entendidos que têm conduzido às políticas e práticas aberrantes dos últimos decénios.

Neste momento, os próprios professores que durante muito tempo resistiram ao assalto das doutrinas ilógicas importadas do EUA e de França, estão a interiorizar um conjunto de chavões que acabam por conduzir a práticas educativas absolutamente dissolventes. Ao quererem ser modernos, ao quererem estar de acordo com os ventos da mudança, adoptam um jargão inqualificável que se traduz por práticas lectivas aberrantes e por uma cada vez maior permissividade. Neste momento, os professores, ao deixarem invadir o seu território, por todo este lixo ideológico (o eduquês) estão a demitir-se do seu papel conservador, estão a deixar que a ideologia do Ministério da Educação destrua as novas gerações, as torne um conjunto de gente iletrada.

Em tudo isto, há um extraordinário equívoco, que Arendt desmonta: para que a sociedade se transforme é necessário uma escola em contínua transformação. A verdade é radicalmente outra: precisamos de uma escola conservadora como ponto de apoio às transformações sociais. Foi a ignorância deste preceito que conduziu a educação ocidental a um beco do qual não se vislumbra saída. Se os professores não se derem conta do abismo para onde se estão a deixar conduzir, pode chegar o dia em que lhe peçam contas e lhes perguntem como puderam ser tão coniventes com aquilo que estava a destruir a sua missão, uma das mais nobres, de transmitir os valores fundamentais da sociedade (valores vindos do passado) às novas gerações. Não terá chegado já a altura dos professores assumirem a consciência da essência da sua missão?

Chávez e Ahmadinejad, uma só luta

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Então não é que os presidentes Chávez, da Venezuela, e Ahmadinejad, do Irão, se encontraram para assinar uma série de acordos. Chávez, que parece fazer, por cá, a delícia de alguns, declarou «Os dois países vão unir-se para derrotar o imperialismo da América do Norte». Não sei como os chavistas portugueses vêem este amor do seu herói pelos valores da revolução islâmica. Uma coisa, porém, todos percebem: Chávez e Ahmadinejad gostariam de cercar o mundo ocidental e, se possível, de esmagá-lo. Se o conseguissem então sim, viveríamos em verdadeira democracia, o imperialismo desapareceria da face da terra e o Pai Natal existiria mesmo.

A revolução islâmica em curso

As ameaças de atentado em Londres, o atentado de Glasgow e o atentado à bomba contra seis turistas espanhóis, no Iémen, são tudo indicações do bom rumo do processo revolucionário islâmico em curso. O terrorismo islâmico não tem qualquer consideração pela democracia, pelos direitos humanos, pela inocência das pessoas que morrem às suas mãos. Nisto não diferirão de muitos outros, dir-se-á. É um facto, mas contra esses outros está-se sempre disposto a gritar e a queimar bandeiras, enquanto perante esta agenda de destruição do ocidente, há muitos ocidentais de joelhos, sempre benévolos e tolerantes com o crime. Não será traição o nome dessa atitude?

Benfica, cor-de-rosinha

Depois de o segundo equipamento do Benfica ter sido amarelo e preto e cinzento e até azul, agora é cor-de-rosa, melhor cor-de-rosinha. Bem, se o Ricardo Araújo Pereira nada tem contra o assunto (ver aqui), quem sou eu para achar seja lá o que for. Cor-de-rosa, Violeta, Turquesa, Lilás, Creme, até Esmeralda. Enfim, um dia até será verde escuro… Ah, segundo parece, o equipamento principal voltou ao vermelho vivo, com pouco branco. Do mal, o menos.

Símbolos I

01/07/07

Bocage 06 - Tentativa de suicídio, combatida pelas lembranças da eternidade

Aquele a quem mil bens outorga o Fado,
Deseje, com razão da vida amigo,
Nos anos igualar Nestor, o antigo,
De trezentos invernos carregado.

Porém eu sempre triste, eu desgraçado,
Que só nesta caverna encontro abrigo,
Porque não busco as sombras do jazigo,
Refúgio perdurável e sagrado?

A! bebe o sangue meu, tosca morada;
Alma, quebra as prisões da humanidade,
Despe o vil manto que pertence ao nada!

Mas eu tremo!... Que escuto?... É a Verdade,
É ela, é ela que no Céu me brada…
Oh terrível pregão da Eternidade.

Simon & Garfunkel - Mrs Robinson


Quantas gerações terão crescido na sombra do filme de Mike Nichols, “A Primeira Noite” (The Graduate, 1967)? Independentemente da qualidade artística, para além da natureza estética do argumento, a relação entre um jovem licenciado (Dustin Hoffman, Ben) e uma amiga dos pais, mulher casada e de meia-idade (Anne Bancroft, Mrs. Robinson), incendiou não poucas imaginações, durante várias gerações. Hoje, por certo, já não será assim. São outros os incêndios. Na banda sonora do filme havia Simon & Garfunkel. O vídeo pertence a um concerto muito posterior, no Central Park, onde a dupla já não apresentava a frescura de outros tempos. Para ver, clicar acima no vídeo ou em baixo, no link:

Simon & Garfunkel - Mrs. Robinson

A morte do espírito

Há um furor de destruição das instituições em Portugal. Pela mão de Mariano Gago, o governo prepara-se para destruir a Universidade Portuguesa, para lhe retirar o carácter de Universalidade, para a transformar numa espécie de agenciamento de trabalho. Ora a lógica Universidade não é puramente técnica. Melhor, não é essencialmente técnica. A Universidade visa elevar os indivíduos ao universal e formar a elite espiritual de um país. Ora isto é incompreensível para engenheiros e economistas. Num país pouco dado ao espírito e à cultura, há que temer o pior. [Ver mais abaixo post com texto de Vasco Pulido Valente. Ler o texto completo no Público.]

Vasco Pulido Valente - Partir tudo o que ainda resta

Um dia destes, o dr. João Salgueiro, com a velha audácia da ignorância, explicava ao povo que, existindo cursos que levam ao desemprego (uma verdade incontestável) e cursos que não levam, o Estado português, como o Estado da Coreia do Sul, não faria mal em orientar a criançada, através, por exemplo, da concessão ou recusa de bolsas de estudo. Suponho que esta ideia agradaria ao eng.º Mariano Gago e que entre os cursos que o dr. João Salgueiro se propõe eliminar estarão os cursos de "Humanidades". Mas se o dr. João Salgueiro por acaso soubesse um pouco de História, de Filosofia ou de Sociologia talvez compreendesse que o elemento decisivo para o progresso ou atraso de uma sociedade é a cultura que nela domina e não recomendasse com tanta ligeireza reduzir a universidade a um mero fornecedor de mão-de-obra "qualificada".

É este, de resto, o grande erro do eng.º Mariano Gago. Como o nome indica, qualquer autêntica universidade pretende educar e formar um homem universal. A universidade indígena, sem campus e sem "vida em comum", já não cumpre, ou provavelmente nunca cumpriu, esta função básica. Infelizmente, a reforma que o Governo prepara não se destina a corrigir a desagregação e o isolamento, que hoje sufocam o espírito académico. Pelo contrário, Mariano Gago quer partir tudo o que ainda resta de uma universidade mutilada e dispersa e subordinar cada bocadinho a uma tutela exterior e ao arbítrio do que governos passageiros esperam do futuro e pensam que o país precisa.
Vasco Pulido Valente, Público de hoje, 1 de Junho.

Metamorfose VII