15/04/07

Rugas

14/04/07

David Mourão-Ferreira - Fogo

A gôndola que fogo te penetra
que por dentro canais vai descobrindo

Até quando seremos os serenos
amantes que do fogo tudo aprendem

destroços que do fogo tudo esquecem

Títulos vãos e glórias frágeis

César morreu com cinquenta e seis anos, tendo sobrevivido apenas quatro anos a Pompeu. Esta dominação, este poder soberano que ele não deixou de perseguir através de mil perigos, e que obteve com tanta dor, apenas lhe acarretou um título vão e uma glória frágil, que atraíram o ódio dos seus concidadãos. [Plutarco, Vida de César, LXXV]

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Agora que estamos em tempo de títulos e de busca de glória, nada melhor do que meditar na frase de Plutarco. Apesar de não ter sido o caso de Júlio César, há muitos que na política entram como leões e acabam por sair como sendeiros. E por muito que muitos se imaginem tal, poucos são os que podem ser césares. A vida é o que é.

Afluentes de pedra


13/04/07

Vasco Graça Moura - Salmo 136

não são muitos, são muito poucos, os poetas
que inventam a poesia portuguesa
como radical abalo do mundo, ou metáfora
a estremecer que o refigura, ou como

crispação do destino e subversão,
no risco visceral da sua própria vida.
assim, e porque toda a liberdade reenvia
ao necessário exílio, eles atrevem-se

a atravessar sem rede o vão por sobre o abismo:
prendem-se a quanto é neles explosão, remorso,
erros, desequilíbrios, amores, visões, enganos,
nuvens de forma humana. pela palavra queimam

contradições passadas e presentes, peregrinam
em sarça que arde, enovelada, a fogo escuro,
iluminando a fronteira dúplice: os reflexos intermitentes
entre os vultos amalgamados de uma greda pobre

e uma sua imagem a lo divino feita;
não são muitos os que enfrentam o real,
retesando a percepção no meio dos salgueiros,
em desapego crepuscular dos instrumentos bíblicos:

flautas e cítaras sobre a terra tão áspera,
que tocam e rejeitam e rejeitam e tocam,
entre a decepção e o declive, no fio bambo
sobre os rios que vão por babilónia.

Utopia Cinética

O projecto da Modernidade funda-se, por conseguinte, — o que ainda nun­ca foi claramente enunciado — numa utopia cinética: todo o movimento do mundo deve passar a ser realização do plano que nós temos dele. Os nossos próprios movimentos vitais passam a ser, progressivamente, idênticos ao próprio movimento do mun­do; o processo mundial, no seu todo, coincide progressivamen­te com a nossa manifestação de vida; as coisas acontecem conforme se pensa, porque aquilo que acontece cada vez mais se realiza por nós o fazermos. Seria demasiado pouco dizermos que a Modernidade prometeu ser ela própria, doravante, a fazer a história humana. No seu núcleo ardente, ela não quer apenas fazer história, mas também Natureza. Enquanto este século du­ro se aproxima do seu fim, vai-se espalhando a noção de que a história a fazer era um pretexto. O tema decisivo dos tempos modernos é a Natureza que há a fazer.
[Peter Sloterdijk, A Mobilização Infinita. Para uma Crítica da Cinética Política]

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1. É dentro desta utopia cinética que deveremos compreender a retórica política dominante. Constantemente somos confrontados com um movimento que pretende mobilizar-nos para uma contínua reconstrução das instituições, funções, atitudes e até dos próprios gestos. Veja-se o que se passa nas instituições e nas empresas. A necessidade de inovação não é mais do que a narrativa legitimadora da mobilização infinita do homem até à reconstrução da sua natureza, ao homem novo, até que se possa dizer: Ecce Homo!

2. Observe-se, também aqui, como marxismo e liberalismo, socialismo e capitalismo se apresentam como as duas faces da mesma moeda. No marxismo, é a necessidade que empurra a mobilização militante até ao paroxismo; no liberalismo, é a liberdade que se realiza como movimento contínuo de diluição no futuro.

3. No mundo marxiano, o movimento, ao fundar-se na necessidade, tornou-se mais rígido e duro. A mobilização militante conduziu directamente à sobreposição da dimensão militar.

4. No mundo liberal, o movimento, ao fundar-se na liberdade, torna-se mais plástico e mais maleável, mas também mais dissolvente das instituições e modos de vida. Para não perecer imediatamente, necessita do contínuo apelo à inovação. A produção do novo está para o mundo liberal como a mobilização militar estava para as sociedades marxistas: o véu que cobre o puro vazio.
[JCM]

Participação

12/04/07

José Tolentino Mendonça - O Vento

Pelo secreto e espesso bosque da penumbra
que dolorosas viagens as indefesas figuras realizam
que terríveis segredos lhes revelam
pois se quedam assim emudecidas
e que brandura os líquenes adivinham
para crescer nelas e não em nós

Não te posso hoje dar nenhuma certeza
e se soprar o vento neste jardim de Villa Borghese
quem sabe talvez tudo voe

E destes nomes só um resíduo
uma réstia de alegria permaneça
a iluminar toda a vida

Habilitações e hierarquias

Tal «anarquia» tinha ainda uma origem importante na própria «revolução liberal» por que o país passara. Não havia hierarquias de género tradicionalista na classe política, à volta de gran­des aristocratas, como ainda acontecia na Inglaterra. Como reflectiu João Franco quando suge­riu a abolição do pariato hereditário, em Portugal «é-se geralmente avesso a tudo o que são «privilégios». Como bons liberais, os políticos portugueses só reconheciam o «mérito» individual somo critério diferenciador. Daí a importância que davam às habilitações e desempenhos acadé­micos. Os políticos provinham dos mesmos meios sociais e das mesmas escolas, e viviam todos em Lisboa, frequentando os mesmos lugares, ouvindo histórias e inconfidências uns dos outros. Conheciam-se demasiado bem para reconhecerem facilmente superioridade a um deles. Ressen­tiam o domínio uns dos outros, e tendiam a revoltar-se contra qualquer sinal de ascendência. O «predomínio no governo» de um deles era sempre experimentado pelos outros como tendo «alguma coisa de tirania». Não era por acaso que os chefes de partido designavam os seus part­idários como «amigos políticos», para atenuar qualquer efeito hierárquico. A «amizade» recobria indistintamente relações de igualdade ou de patrocínio, debaixo de um mesmo afecto recíproco e igualitário. [Rui Ramos, D. Carlos] [Fotografia de João Franco]
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Uma nova citação de Rui Ramos, do seu livro sobre D. Carlos. Começa-se a perceber que aquilo que vivemos tem muito pouco de original. O nosso Abril de 74 é analogável à «revolução liberal», veja-se a questão das «hierarquias» e dos «privilégios», nomeadamente a retórica do actual governo acerca dos presuntivos privilégios de certos sectores. Compare-se o culto das habilitações, assunto tão em voga nos dias que correm.

Entre colunas


11/04/07

Jorge Sena - Amátia

Timbórica, morfia, ó persefessa
meláina, andrófona, repitimbídia,
ó basilissa, ó scótia, masturlídia,
amata cíprea, calipígea, tressa

de jardinatas nigras, pasifessa,
luni-rosácea lambidando erídia,
erímea, erítia, erótia, erãnia, egídia,
eurínoma, ambológera, donlessa.

Ares, Hefáistos, Adonísio, tutos
alipigmaios atilícios, futos
da lívia damitada, organissanta,

agonimais se esgorem morituros,
necrotentavos de escancárias duros,
tantisqua abradimembra a teia canta.

Olhares excênticos

O falhanço total do marxismo [...] e o dramático desmembramento da União Soviética são apenas os precursores do colapso do liberalismo ocidental, a principal corrente da modernidade. Longe de ser alternativa ao marxismo e a ideologia reinante do fim dahistória, o liberalismo será a peça seguinte do dominó que cairá.
[Takeshi Umehara]

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Nós, ocidentais, deixamo-nos envolver demasiado nas nossas querelas particulares como se fossem a única coisa existente à face da terra. Ainda hoje somos vítimas dessa cisão que constitui a modernidade: liberalismo e socialismo. O que compreendemos quando lemos as palavras de Umehara, ou quando o mundo islâmico rejeita os nossos valores?

A divisão entre liberalismo e marxismo ocultou uma outra, muito mais funda e estrutural: tradição e modernidade. A nós, ocidentais, a palavra tradição repugna-nos, mas aos outros?

Um risco no céu


10/04/07

Bernardim Ribeiro

Dentro de meu pensamento
há tanta contrariedade
que sento contra o que sento
vontade e contra vontade.
Estou em tanto desvairo.
que não me entendo comigo.
Donde esperarei repairo?
que vejo grande o perigo
e muito mor o contrairo.

Quem me trouxe a esta terra
alheia, onde guardada
me estava tamanha guerra.
e a esperança levada?
Comigo me estou espantando
como em tão pouco me dei;
mas cuidando nisto estando.
os olhos com que outrem olhei
de mim se estavam vingando.

[Écloga de Jano e Franco – extracto]

Amigos

Martens [Ferrão] nunca quis fazer revolução nenhuma. Como contou ao rei, o seu primeiro passo, depois de incumbido de formar governo, foi contactar António de Serpa e José Luciano, chefes nominais de Regeneradores e Progressistas, a quem «expus longamente todo o meu pensamento», e pediu que o apoiassem com os seus «amigos políticos» na «organização do gabinete e na solução dos assuntos externos». E quando, a 6 de Outubro, desistiu de presidir a um gabinete, fê-lo porque se convenceu de que os «partidos faltaram ao compromisso tomado perante Vossa Majestade». De facto, Lopo Vaz recusou-se a abdicar do seu «testamento ministerial» de 2 de Outubro, as «dezasseis colunas do Diário do Governo» em que distribuiu 500 empregos pelos amigos, e que José Luciano não queria aceitar. José Luciano, pelo seu lado, exigira uma partilha das autoridades administrativas (administradores de concelho, governadores civis, etc.) entre os partidos. [Rui Ramos, D. Carlos]
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Estávamos em 1890. Nem vale a pena comentar. Querem começar a perceber o salazarismo e a sua aceitação no tecido social? Comece-se, então, pela monarquia constitucional antes de se entrar na I República.

Cicatriz

09/04/07

Antero de Quental - a J. Felix dos Santos

Sempre o futuro, sempre! e o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega… é presente… e só à dor assiste?...
Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delírio?... O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, pior, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa.

Universidade Independente - um exemplo

O ministro Mariano Gago recomendou o encerramento compulsivo da Universidade Independente. Mas o importante é pensar o que está aquém deste caso notoriamente desagradável. Que conceito de universidade está por detrás deste tipo de instituições?

Independentemente do debate que virá, parece que há uma coisa que sai claramente derrotada: a ideia de que a educação (preferiria ensino) é um negócio. A peregrina ideia, que circula em certos sectores, de que se deve olhar o aluno como cliente, a quem as instituições de ensino vendem um produto, deveria ser completamente erradicada.

A lógica das escolas e das universidades não é a mesma do mundo empresarial. Os bens fornecidos e a forma como se adquirem são completamente diferentes. Se eu quero comprar um carro, basta-me ter dinheiro. O saber, porém, não é adquirido com dinheiro. Exige esforço, trabalho, disciplina. Exige que o aluno se entregue e implica uma transformação pessoal. No ensino, nem os professores são vendedores ao serviço de uma empresa, nem os alunos são compradores. No ensino, apenas há o esforço de ensinar e o esforço de aprender. Qualquer consideração de carácter comercial deverá ser erradicada.

Hoje, no Público, o Prof. Santana Castilho alerta para a “ânsia de aumentar o protagonismo da iniciativa privada e do mercado na definição das políticas educativas». O Estado, nomeadamente os dois grandes partidos de governo, andam a brincar com coisas muito sérias. O carácter eminentemente político do bem que a educação fornece deveria levar a ter muito cuidado com as aventuras “privatizadoras” do ensino, em qualquer nível. Os vários casos no ensino superior privado são alertas. Imagine-se o que será privatizar os ensinos básico e secundário. Imagine-se a imensa criatividade dos nossos empresários. Imagine-se a catástrofe.

O tempo que passa


08/04/07

Sá de Miranda - Comigo me desavim

Comigo me desavim,
Sou posto em todo o perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

O eterno retorno do mesmo...

Descubra as semelhanças

“A 30 [de Janeiro de 1892], Oliveira Martins reapareceu, para revelar ao país «a extensão das nossas amarguras»: havia um défice de 10 000 contos, o equivalente a 25 % das receitas, e uma dívida flutuante de 23 000 contos. Para evitar a «bancarrota», propôs um drástico agravamento dos impostos, cortes nos ordenados dos funcionários e deduções de 30 % nos juros da dívida pública interna. Aboliu ainda o subsídio ao teatro da ópera de São Carlos e suspendeu indefinidamente as admissões na função pública.” [Rui Ramos, D. Carlos, pp. 87]

Desequilíbrio das contas públicas, agravamento de impostos, corte nos ordenados da função pública, suspensão de admissões na mesma função pública. Tal como agora. Até o nome de Oliveira Martins continua presente passados 115 anos, agora no Tribunal de Contas. Guilherme d’Oliveira Martins é um descendente de Oliveira Martins, um dos ministros da Fazenda de D. Carlos. Em Portugal, parece que tudo tende a perpetuar-se, das dívidas às famílias protagonistas da cena política.

Descubra as diferenças

“Mais uma vez, o rei resolveu solidarizar-se com a nação. Logo a 29, enviou uma carta aber­ta ao chefe do governo: «Querendo eu e a família real ser os primeiros nos sacrifícios que as circunstâncias do Tesouro impõem à nação», cedia 20% da dotação. «Em tudo e por tudo, hei-de seguir a sorte da nação, à qual reputo essencialmente ligados os meus destinos e os da mi­nha dinastia.»” [Rui Ramos, D. Carlos, ibidem]

Imagina a classe política actual, perante o défice, a tomar uma atitude idêntica? Se imagina, então está a viver uma alucinação. O que o actual governo fez foi atacar certos sectores inofensivos do funcionalismo (pequenos funcionários, professores, etc.) e recatar-se a si e aos sectores de que tem medo (militares, magistratura, catedráticos).

A discussão das retribuições da classe política é sempre muito mal vista. Apesar de partilhar a ideia de que ela, classe política, não é particularmente bem paga, o problema diz respeito à justiça, enquanto virtude das instituições políticas, e liga-se à distribuição dos sacrifícios numa situação como a actual. Um acto idêntico ao do penúltimo Bragança, acto esse que incluísse uma clara redução dos gastos envolventes da acção política – secretárias, motoristas, carros, assessores, etc., etc. –, não esquecendo neste pacote as câmara municipais, não só cairia bem na população como permitiria ao governo tomar medidas mais difíceis, mas que implicassem uma real e efectiva distribuição dos sacrifícios por todos, pelo menos por todos os que se encontram ligados ao Estado.

A forma como o actual governo atacou violentamente alguns sectores que prestam serviço no Estado português aliada ao modo como resguardou outros, e entre estes a própria classe política, mostra a venalidade das nossas elites políticas.

Talvez tenham razão. A Carlos de Bragança pouco valeu a sua disponibilidade. Não escapou, passados anos, ao assassinato.

Música em tempo de Páscoa V

Para concluir a música em tempo de Páscoa propõem-se, de novo, duas obras.

Bach, para concluir como se começou. Neste caso, o Oratório de Páscoa (Osteroratorium). O CD está integrado na Bach Edition, da etiqueta Brilliant. Como curiosidade, refira-se que a Bach Edition, a edição completa de Bach, é composta por 155 cd’s. É uma edição, do ponto de vista económico, bastante acessível (na amazon está a ser vendida a cerca de 150 €, embora quando comprei, na altura do lançamento, o preço fosse bastante mais baixo, julgo que não chegava a 90 €). Este tipo de edição tem tantos defensores como detractores, nomeadamente entre os especialistas em música erudita. Para o ouvinte comum, julgo ser uma excelente porta para a obra do compositor alemão. Por norma, as edições da Brilliant, apesar do seu reduzido preço, apresentam bastante qualidade.

A gravação deste oratório é de 1999, feita na igreja de Pforzheim, Alemanha. Foi dirigido pelo Prof. Rolf Schweizer. Christine Brenk (soprano), Anne Greiling (alto), Frank Bossert (tenor) e Thomas Pfeiffer (baixo) são os intérpretes.

A segunda proposta parece nada ter a ver com a Páscoa. É ópera de Mozart, A Flauta Mágica, filmada por Ingmar Bergman. Se esta obra apresenta marcados caracteres maçónicos e iluministas, não deixa, no entanto, de ser possível aproximá-la da Páscoa cristã. O que na ópera está em jogo é a iniciação do herói, Tamino, à sabedoria. Esta iniciação, na leitura de Bergman, passa pela experiência simbólica da morte em imagens que remetem tanto para o Inferno, de Dante, como para o mito de Orfeu. Ao vencer a morte, o herói acede à vida verdadeira, à luz da sabedoria. Toda a temática é analogável à paixão do Cristo.

Pequenos óbices: 1. a ópera, nesta encenação cinematográfica, é cantada não em alemão, mas em sueco; 2. existem no mercado edições com interpretações bastante mais convincentes; 3. a fixação da imagem em DVD não é muito boa.

A arte de Bergman e o encanto da obra de Mozart superam tudo isso. Vi no cinema, no velho Virgínia, acerca de 30 anos e foi para mim uma autêntica revelação. Tornei a vê-la, agora, em DVD e o encanto permanece intacto. Está legendada em português.

A luz que cresce


07/04/07

João Roiz de Castelo-Branco - Partindo-se

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

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Concluída a publicação do ciclo “12 Poemas sob Il Canto Sospeso, de Luigi Nono”, volta-se à poesia alheia, num ciclo de poesia portuguesa, a começar com o poema Partindo-se, de João Roiz de Castelo-Branco (um dos primeiro poemas a impressionar-me vivamente). Depois, seguir-se-á um novo ciclo pessoal composto por 24 temas a partir da experiência das ruínas de Cardílio.

Música em tempo de Páscoa IV

Começar com a música de um príncipe da renascença, Carlo Gesualdo, príncipe de Venosa. Gesualdo é conhecido pela sua música, nomeadamente pelos livros de madrigais os quais seriam, segundo alguns historiadores da música, bastante inovadores para a época, bem como pelos tenebrae responsoria, música idêntica à dos madrigais, mas com textos sobre a paixão de Cristo. Também ficou conhecido pelos assassinatos da sua primeira mulher, Maria d’Avalos e do duque de Andria, que mantinham um já prolongado «love affair» e a quem surpreendeu em flagrante.

Tenha-se em consideração as palavras iniciais de Renaud Machart, no “booklet”: “Desde que se trate de invocar a obra de Gesualdo, é necessário fazer previamente uma espécie de «tabula rasa» relativamente à personagem, pois o mito parece ocultar a realidade”. Marchart, por exemplo, não acompanha a ideia de Gesualdo ser um autor de vanguarda, mas um homem de «stile antico», embora com uma escrita musical muito singular. Fazer «tabula rasa» significa pura e simplesmente ouvir sem preconceito.

O CD proposto é da etiqueta harmonia mundi: Gesualdo, “Sabbato Sancto – responsoria”. Phillipe Hereweghe dirige o Ensemble Vocal Européen. O CD inclui anda 4 motetes, de Gesualdo, e um Requiem do compositor contemporâneo Sandro Gorli.

Uma segunda obra, agora contemporânea (1996), gravada em 1989. Do compositor polaco Krzysztof Penderecki, a Paixão segundo S. Lucas (Passio et mors domini nostri Jesu Christi secundum Lucam).

Segundo informação do «booklet» a “obra, uma encomenta da rádio alemã do oeste, foi oficialmente escrita para as celebrações do 700º aniversário da catedral de Münster, mas o ano da sua criação coincide também com o milénio da introdução do cristianismo na Polónia. Questionado sobre o que tinha motivado a música, Penderecki respondeu: ‘bastou ter convicções religiosas e querer exprimi-las. Não tenho objecções a que se considere a minha música como uma profissão de fé.’

Era talvez inevitável que Penderecki fosse fortemente influenciado por Bach na composição da Paixão segundo S. Lucas, e ele mesmo reconhece esta dívida para com este último. A forma de oratória em várias secções adoptadas por Penderecki na sua Paixão segue de perto o modelo de Bach.”

O CD é da Argos. O próprio compositor dirige a Orquestra Sinfónica da Rádio Nacional Polaca.

Luz e trevas


06/04/07

XII - Coro e timpani "...non ho paura della morte..."

Para o Eduardo Bento,
pelos anos dedicados a
mostrar o que há de
imortal na face dos deuses.
27/03/2006

Tomou banho o velho Sócrates e de corpo tão limpo
dos amigos dos mais queridos entre aqueles que lhe queriam
se despediu. Devemos um galo a Asclépio, disse e fechou
os olhos mesmo se antes não desistira de aos seus sondar,
esconder a vertigem, o coração encobrir. À mulher afugentou:
em casa chorasse se chorar fosse a vontade.

Nem só de atenienses se rodeara. Também de Mégara e de Tebas
vieram, pois a morte de todos os lados aos mortais puxa, e não há
lugar na Terra de amplo seio, ou na Hélade à barbárie avessa
que homens aos homens não gostem de ver, mesmo se tranquila e serena
mesmo se horrível e violenta, a morte chegar. Sentaram-se e
conversaram, enquanto a benfeitora caminhava, atravessava as ruas,

procurava, em desconcerto e ânsia, pela cidade de Atenas
o corpo do velho corruptor, ainda a falar, a falar,
os amigos dolosos inquietos pelo destino breve e o filósofo,
tão preso no seu desprendimento, tão cansado da vida,
pronto para que a caminhante que não pára chegasse e como
uma amante, mais bela que Alcibíades o fora, no leito o tomasse.

A morte, não a teme ele, mas ilumina-o a ira do deus:
Críton, devemos um galo a Asclépio… Paguem-lhe, não se esqueçam!
O que tanto falara pelo silêncio tomado, os amigos choram,
Diotima esquecida na penumbra. Resta nas cruas paredes da prisão
o aprisionado eco onde, ainda hoje, os caminhantes ouvem
a última interrogação: Paguem-lhe!, disse e a morte,
esquecida do calendário dos homens, confundiu-o com Lázaro e passou.
[Jorge Carreira Maia, 12 Poemas sob Il Canto Sospeso, de Luigi Nono]

Se até o FMI...

O “Público” de hoje noticiava que o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconhece, pela primeira vez, que a globalização (considere-se,por exemplo, o aumento de mão-de-obra disponível) está a aumentar as desigualdades sociais nos países ricos. Reconhece o FMI a redução da parte do rendimento que é distribuída pelo factor trabalho.

Isto toda a gente já tinha percebido. Também se tinha percebido que a intensificação da globalização pouco ou nada tinha a ver com uma repentina ternura para com o mundo de leste e a China, mas que foi estrategicamente planeado pelos interesses dos grandes grupos económicos multinacionais, como meio para encontrar mão-de-obra quase escrava. Tudo isto foi logo, como se tornou um triste hábito, abraçado pelas elites políticas ocidentais, numa clara e insidiosa traição aos povos que as elegeram. O notável é ser agora o FMI a reconhecer a situação difícil a que se está achegar nos países desenvolvidos, nomeadamente o aumento das desigualdades sociais.

Por que motivo fala agora o FMI? Medo. De quê? Do retorno de políticas proteccionistas. O caso não é para menos. Veja-se o exemplo de Portugal. No quadro actual, sejamos honestos, qual a saída que se vislumbra para o país? Nenhuma, no processo de globalização, tal como tem decorrido, o país é consistentemente inviável.

E o que recomenda o FMI? Ó desespero dos ultra-liberais, recomenda, segundo o “Público” “apostar na educação e fortalecer o sistema de segurança social”. Isto é, aumentar a intervenção estatal na sociedade como factor equilibrante. Então não tínhamos de destruir o Estado-previdência? Não havia que privatizar tudo? O Estado não deveria reduzir-se ao mínimo, isto é, às leis para defesa da propriedade? Agora terá de gastar dinheiro com a protecção dos mais frágeis, aqueles que só merecem perecer?

Esta remediação proposta pelo FMI foi a política europeia durante dezenas de anos, foi ela que fez o sucesso da Europa. Foi a ela que, desde há uns anos, começaram a destruir, quando se quis acabar com o «pacto social-democrata» que vigorou na União, construído pelo socialismo democrático, à esquerda, e pela democracia cristã, à direita.
Ou terá sido o FMI infiltado?

Música em tempo de Páscoa III

Comece-se com a mais conhecida obra de Giovanni Battista Pergolesi, “Stabat Mater”. O nome de Stabat Mater provém do início do poema cantado: “Stabat Mater dolorosa / Juxta crucem lacrimosa / Dum pedebat fillius”. Foram escritos centenas de “Stabat Mater”, entre eles alguns por compositores portugueses, por exemplo, António Carreira.

Também existem inúmeras gravações da obra de Pergolesi. A que se propõe é uma edição da etiqueta Harmonia Mundi, datada de 1983, com vozes masculinas: Sebastien Hennig (soprano) e René Jacobs (contra-tenor). René Jacons dirige o “Concerto Vocale”. O «booklet” apresenta o texto latino e traduções para francês, inglês e alemão.

Com a segunda obra volta-se ao The Hilliard Ensemble, dirigido por Paul Hillier, numa obra do compositor estoniano Arvo Part, Passio Domini Nostri Jesu Christi Secundum Joannem.

É uma obra com cerca de 71 minutos e gravada numa única faixa. Nesta obra, as várias personagens do drama crístico “dialogam” entre si, com o evangelista e o coro.

Part é um compositor conotado com a corrente minimalista, mas, no seu caso, de forte teor religioso. Quase uma combinação entre a experiência musical do minimalismo e a experiência mística.
A “Passio” é uma obra de 1982 concebida para solistas, ensemble vocal, coro e ensemble instrumental. A gravação apresentada é da ECM, data de 1988. No “booklet” apresenta o texto latino da “Passio” e a tradução inglesa.

A "coisa" vem de longe

Isto de estar a ler uma biografia do rei D. Carlos, da autoria do historiador Rui Ramos, permite descobrir algumas idiossincrasias nacionais. Num dos anexos, há uma cronologia relacionada coma vida do rei. Nessa cronologia refere-se que a 25 de Abril de 1864 “o governo recusa a dispensa de exames aos estudantes de Coimbra para comemorar o nascimento de D. Carlos”. Note-se que príncipe tinha nascido a 28 de Setembro de 1863.

Em primeiro lugar, há que referir que os estudantes de Coimbra, naqueles dias, eram de emoções fortes e prolongadas. Ainda não se teriam, no final do ano lectivo, recuperado da forte emoção que tomara conta deles com o nascimento do herdeiro do trono. Como poderiam eles fazer exames, depois de tantos e tantos meses da mais profunda alegria…

Em segundo lugar, se o governo recusou a dispensa aos exames é porque alguém a reivindicou. Seria um hábito nacional? Ou seria já uma propedêutica às novas teorias educacionais que o século XX viria a consagrar na destruição dos sistemas de ensino? Não sou historiador, não sei…

Esta recusa do governo gerou uma revolta estudantil em Coimbra, onde, parece, tiveram papel preponderante Antero de Quental e Eça de Queiroz. A revolta ficou conhecida como a “rolinada”, por os estudantes terem queimado um boneco de palha alusivo ao chefe do governo, o Duque de Loulé, Nuno Rolim de Moura Barreto. Não é de agora que se queimam efígies de políticos.

Como é óbvio, a «rolinada» não tinha qualquer razão de ser, mas uma coisa útil parece ter trazido: aproximou Antero Quental e Eça de Queiroz.

Conclusão da história. O Duque de Loulé não parecia muito disposto a facilitar a vida estudantil e abolir os exames, mesmo passageiramente. Mas o ideal dos estudantes de Coimbra acabou, de certa forma, por vencer. Os resultados são os que todos conhecemos.

Suspensão do tempo


05/04/07

XI - Orchestra

A relva pisada pelos cães crescia anónima
nos dias já um pouco maiores. O Inverno
deixava entrever como uma promessa a Primavera e
havia bandeiras dispersas casas, um rumor surdo
suado os passos se escutavam se eram passos
mais pareciam vozes alumiadas, penduradas nos raios
que da lua o vento desprendia. Tudo neste mundo
e no outro também se repete. Um círculo tão perfeito,
a superfície inundada de erva, os lados um pouco rombos
um círculo tão perfeito, exclamara para logo de seguida
como o tempo tinha acabado calar-se.

Precisamos de falar, tudo é uma ameaça:
Os sons, as mãos esventradas, os carros a passar,
os prédios como gruas a crescer, o ar das cidades,
a luz amarela, ainda não há centros comerciais, talvez
na América, lá há tudo isso, mas também é uma ameaça,
bem como os cães a ladrar durante o dia, as
crianças com insónia, mais do que tudo os sons, os sons. Só te quero
ouvir disse a rapariga ao telefone e ao telefone se calou,
olhos espetados no vidro da cabine, não as cabines
ainda não são de vidro um dia, de ar ou de éter. Talvez!
Precisamos de falar, preciso de te ouvir…

Admirara-se da perfeição de tudo, admirara-se da própria
perfeição. Depois, deixou-se levar pelo caminho e da casa
pois era de casa que se afastava afastou-se. Leu repetidamente
A primeira obrigação é acreditar que a nossa condição,
quanto à sua origem e à sua essência, é uma condição
desesperada que necessita de uma redenção.
Repetiu mil
vezes a palavra redenção e toda a redenção se tornara
pela subtil mecânica uma impossível redenção. Disse
Erlösung e não acreditou no que disse enquanto da casa se afastava
pois era dela que vinha como se precisasse de falar e
por isso pisava a pisada relva que os cães abandonaram e
anónima crescia nos dias já um pouco maiores ainda no Inverno.

[Jorge Carreira Maia, 12 Poemas sob Il Canto Sospeso, de Luigi Nono]

O que é o tempo?

Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo.

Nenhuns tempos Vos são coeternos porque Vós permaneceis imutável, e se os tempos assim Permanecessem, já não seriam tempos. Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras, o seu con­ceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreende­mos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação que, se nada sobrevivesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existia o tempo presente.

De que modo existem aqueles dois tempos — o passado e o futuro —, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo mas eternidade. Mas se o pre­sente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Para que digamos que o tempo verdadeiramente existe, porque tende a não ser? [Santo Agostinho, “Confissões”, Livro XI, Cap. 14]

Música em tempo de Páscoa II

Um obra de uma compositora, a russa Sofia Gubaidulina, "Johannes-Passio" (Paixão segundo S. João).

Esta obra foi escrita em língua russa. A primeira estranheza, na audição desta “Paixão”, é o corte radical que o russo estabelece com o hábito de escutar as “Paixões” em latim.

No “booklet” a autora diz o seguinte: “Estive muito consciente, desde o princípio, da especial dificuldade em compor uma “Paixão” em russo. A tradição da Igreja ortodoxa russa não admite a inclusão de instrumentos, nem no serviço divino nem em outros ofícios religiosos. Não há mediadores externos de carácter técnico entre os homens e Deus: tudo se reduz à voz e a uma vela na mão. Mas a maior difuldade, neste caso , é o facto da liturgia russa desconhecer a tradição da “Paixão”. Para a alma russa, a “arte da representação” foi sempre secundária relativamente à “arte da vivência”. Por isso, a liturgia elimina qualquer intenção de representação por pessoas, qualquer elemento teatral na Igreja."

Só a audição permite vislumbrar como a compositora resolveu o casamento entre duas tradições, ou melhor três, a católica, a protestante – fortíssima em “Paixões – e a ortodoxa.

O duplo CD é da Hanssler. Valery Gergiev dirige a St. Petersburger Kammerchor e o Chor und Orchester des Mariinsky-Theaters St. Petersburg.

A natureza da memória


04/04/07

X - Addio, Mamma

Sempre os fios tecidos de tão delicada forma,
a manhã entreaberta sobre a janela do quarto e a voz,
essa voz, entre o restolho dos afazeres, chama por mim.

Se as portas se abrissem e o horizonte
chegasse, o vento frio a crescer na serra, a
empinar-se contra as paredes da casa, o branco
maculado, deixando entrever mapas de salitre,
regiões, mais ao norte, desgastadas, como se a vida
as tivesse, de forma tão infame, carcomido. Ouvem-se,
passados tantos anos, as folhas da parreira a baloiçar ao
vento, a despenhar-se contra o solo, a ranger fantasmas
na noite, sombrias ameaças contra a precária solidez
da brancura a casa sustenta. Eram as noites de Setembro
as mais ferozes, a impiedade bruxuleando por
toda a aldeia, raparigas exaustas deixaram marcas
pela terra húmida e elas tão húmidas e tão cansadas
tão velhas de tanta infância. O mundo tecia-se
quando falavas, gestos dóceis, a água que sobe
e ameaça transbordar os muros do poço: quando se respira o
orvalho desses dias é musgo o que se respira, ervas
infelizes semeadas nas abertas valetas por onde
as águas pluviais corriam a caminho sabe-se lá de quê.
Não é que houvesse uma vinha, apenas parreiras
sustendo a esplanada que aos domingos tórridos do Verão
fazia descer uma sombra, a luz do Sol cortada,
o astro a fugir na distância que as parras traziam. Os cachos
começavam a formar-se e todos caminhavam por estreitas
sendas de tijolo cravadas no chão, imitando caminhos de
lajes, rememorando antigas tradições, oculta
a poeira que a tudo se pegava. Nos canteiros, talvez nos
teus canteiros, violetas e as roseiras espinhavam
o mundo, eu gritava quando o sangue saía da pele
e sentava-me no chão. O vento amainava o calor do meio-dia
e se tudo era tórrido, ainda o coração se abrigava
das intempéries na luz soturna coada por vidros
cortinados, o ar fresco da manhã que aquecia nas horas
primeiras da tarde. Numa casa obscura, havia uma
talha de azeite, no Inverno coalhava, jornais
velhos se acumulavam, cheios de notícias e de heróis
desportivos e, nessas folhas um pouco poeirentas,
entravam na noite onde todos os esqueceriam.

Os fios tecidos de tão delicada forma estão lassos
e a manhã entreaberta sobre a janela do quarto é noite escura
onde a voz, essa voz, entre o restolho dos afazeres, por mim chama.

[Jorge Carreira Maia, 12 Poemas sob Il Canto Sospeso, de Luigi Nono]

Música em tempo de Páscoa I

Tempo pascal. De hoje até domingo, apresenta-se um conjunto de obras musicais, tendo por referência a época litúrgica em que vivemos. Para começar e como preparação e reflexão sobre a morte, propõe-se um CD com música de J. S. Bach.

The Hilliard Ensemble e Christoph Poppen, no álbum “Morimur”, apresentam diversas obras corais, a Partita D Minor BWV 1004, para violino solo, e uma Ciaccona para violino e quatro vozes.

O grupo vocal The Hilliard Ensemble é constituído por Monika Mauch (soprano), David James (contratenor), John Potter (tenor) e Gordon Jones (barítono). São acompanhados neste CD pelo violinista Christoph Poppen.

Esta obra foi apresentada pelos mesmos artistas em 2002, num concerto integrado no Festival de Música de Leiria e realizado na Igreja de S. Francisco.

O CD, de 2001, é da editora ECM. Para além da música, há o sempre excelente trabalho de concepção estética das capas e do «booklet» que acompanha o CD.

Estar-fora-do-tempo

O estar-fora-do-tempo, disse Austerlitz, que ainda há pouco vigorava tanto nas regiões atrasadas e esquecidas do nosso país como nos continentes por descobrir além-mar, continua a vigorar mesmo numa metrópole temporal, como Londres. Os mortos estão fora do tempo, os moribundos e todos os doentes, em casa ou nos hospitais, e não apenas estes, basta um tanto de infelicidade pessoal para nos separar do passado e do futuro. Na verdade, disse Austerlitz, nunca possuí qualquer relógio, de parede ou despertador, de bolso e muito menos de pulso. Os relógios sempre me deram vontade de rir, coisa basicamente mentirosa, talvez porque sempre resisti ao poder do tempo graças a um impulso interior que eu próprio não entendo muito bem, sempre me fechei à chamada actualidade, na esperança, penso eu hoje, disse Austerlitz, de que o tempo não passe, não seja passado, de poder ir atrás dele, de encontrar à chegada tudo como dantes, ou, me­lhor dizendo, de descobrir que todos os momentos do tempo existiram simultaneamente, caso em que nada do que a história conta seria ver­dade, os acontecimentos não aconteceram, estão à espera de acontecer no momento em que pensarmos neles, embora, naturalmente, a pers­pectiva pouco animadora de eterna infelicidade e interminável dor fi­que assim em aberto. [W. G. Sebald, Austerliz. Teorema]

O engano do Conselheiro Pinto Monteiro

O procurador-geral da República, Dr. Pinto Monteiro, na contraproposta à lei da política criminal apresentada pelo governo, veio propor o tratamento prioritário dos actos de violência nas escolas contra professores ou funcionários. Sobre isto vale a pena referir o seguinte:

1. Parece que Pinto Monteiro percebe a gravidade da situação. Não é, como se poderá pensar, um tratamento de excepção, mas o reconhecimento, por parte do procurador-geral, da importância dos profissionais da educação no âmbito da comunidade nacional. É na escola que se estabelecem os fundamentos do viver em comum, é ali que se formam os cidadãos, é ali que permanece viva a chama da construção duma comunidade chamada Portugal. É ali, também, que se constroem os fundamentos da nossa soberania. O desrespeito e a violência contra professores e funcionários escolares são graves sintomas do estado patológico em que se vive. Alguém, porém, parece perceber a gravidade da situação.

2. Mais uma vez, agora por omissão, o governo mostra o seu mais profundo desprezo, para não dizer o seu enraizado ódio, pelos professores e outros agentes escolares. Foi preciso vir alguém da área da magistratura para chamar a atenção para aquilo que o governo, há muito, deveria estar atento. É um facto, porém, que não podemos acusar a equipa de José Sócrates de incoerência. Pelo contrário, desde a primeira hora, tem sido bastante clara uma política de desprezo, desconsideração e humilhação dos professores, a qual tem vindo a desprestigiar a profissão e o papel social do professor. Quem tem feito isto, quem tem dito que toda essa política é uma grande e corajosa conquista do governo, como lhe poderia ocorrer tratar na justiça e ainda como assunto prioritário as bem merecidas lambadas que uns reles professores andam a levar por esse país fora.

3. O Conselheiro Pinto Monteiro é que não percebeu o fundo da questão. Precisa de umas aulas de pedagogia moderna e fazer um mestrado em ciências da educação…

Música das esferas terrestres


03/04/07

IX - Coro e orchestra "Com'è durro dire addio per sempre"

Como se tudo estivesse fragmentado, os estilhaços
da vida a correr, sangue infunde-se no olhar,
o raiado azul na córnea. Esboça-se o horizonte, o lugar
onde inevitável acontecerá. Uma estrela risca de
súbito o céu, e todos os reis magos se põem a caminho.
Vêm tão lentamente, pé ante pé, os olhos nunca do
céu apartados. Contam as estrelas, projectam constelações,
fazem os planetas, a seus olhos, fulgurar.

Não te apartes de mim! Depois ergueu-se e caminhou.
As horas no deserto, de areia; as pedras no deserto, de areia;
as nuvens no céu deserto, de areia; a água no deserto, de areia;
as mulheres no deserto, de areia. Entre cactos e areia
há um esquisso de uma estrada. À noite, o vento uiva e
ela, no rascunho onde se esboça, entreabre-se como
uma mulher na ânsia sonâmbula da
maternidade. Não te apartes de mim! O deserto, tão longe.

Na distância, ecoam, como sinos tingidos de negro, os relógios.
Assinalam os séculos, uma badalada hoje, outra a cem anos,
outra a duzentos. Soam de areia os relógios,
as horas tão lentas, a morte rápida. No deserto,
só as horas uivam, o vento, há muito, encontrou
no silêncio a sabedoria que falta. Quando aqui chegam
os reis magos esquecem de cansaço a estrela que os guia.
No deserto, os astros como a noite, de areia.

[Jorge Carreira Maia, 12 Poemas sob Il Canto Sospeso, de Luigi Nono]

Não, não é de Portugal que escreve...

A verdade é que tais adoradores e amigos desses deuses, dos quais se comprazem em ser imitadores até no crime e na depravação, não têm a menor preocupação em que a república seja má e corrompida. «Contanto que ela se agente, contanto que floresça atulhada de abundância gloriosa em vitórias ou - o que ainda é melhor - se mantenha numa paz firme, que nos importa o resto? O que acima de tudo interessa é:

- que cada um aumente cada vez mais as suas riquezas;

- que estas cubram as prodigalidades diárias com que o poderoso conserva submisso o débil;

- que os pobres, procurando encher a barriga, estejam dispostos a agradar aos ricos;

- que sob a sua protecção disfrutem duma pacífica ociosidade;

- que os ricos abusem dos pobres, aumentando assim a sua clientela para serviço do próprio fausto;

- etc., etc., etc.

[Santo Agostinho, A Cidade de Deus, cap. XX]

Big Bang


02/04/07

VIII - Coro e orchestra "...le porte s'aprono"

Se para nada ouvir os lírios dessa forma tão inquieta
cantassem… Tudo circula e na circulação a matéria
perde o peso, o ar sobe, a leveza é agora uma virtude.
De que se escondem os que nas águas-furtadas se abrigam?
Chegam já perto dos deuses e trazem nas mãos nuvens
os olhos cansados, a penumbra o mundo divide.

Os ramos esfriados de Invernos seguram
pelos pés os pássaros, as asas entreabertas como se o voo
uma longa premeditação fosse. Os pássaros de
Inverno; assim começa um demorado pensamento
sobrancelhas arqueadas, cara descaída para o livro
das horas. Da janela, escutava-se a voz dos lírios e

a luz entardecia no canto que se escutava.
Quando as mãos mergulhadas na frieza da água
seguram a terra molhada, os barcos partem
extasiados, remos rentes, os remadores parados
na fria noite. Se pudesse, escreveria a tua história,
mas os países são tropos breves onde tudo se resguarda.

[Jorge Carreira Maia, 12 Poemas sob Il Canto Sospeso, de Luigi Nono]

Adriano Moreira e a soberania

“Um bom ensino superior é uma missão de soberania, não deve cair no economicismo”, diz o Prof. Adriano Moreira, em Entrevista ao “Público” e à “Rádio Renascença”. Adriano Moreia é uma personalidade que todos deveriam escutar, da esquerda à direita. Toda a entrevista, publicada hoje, merece atenção, mas a questão do ensino superior é tratada com mais desenvolvimento e com a clareza e a distinção habituais. Alguém escutará?

Interessante também, o entusiasmo do velho professor com a reedição das obras da Hanna Arendt.

Mas voltemos à ideia do ensino superior como missão de soberania e o economicismo. O importante é a tensão que subjaz, na frase, entre soberania e economia. Adriano Moreira mostra que o que deve ter uma função estrutural na sociedade não é a economia, mas a política. Na tradição aristotélica, a política tem uma função arquitectónica, isto é, estrutura o espaço onde se desenvolve a vida social e, dentro desta, a economia. Não é por acaso o entusiasmo com Arendt.

A subversão liberal, mas também marxista, cortou com a tradição ocidental. Os resultados são a completa submissão da dimensão política à económica. Tudo é organizado em nome de uma putativa eficácia económica, mesmo que isso destrua a soberania e se torne, dessa forma, um factor de desagregação das comunidades. O conceito chave que permitiu esta subversão é o de «economia-política».

Mas não é apenas, nem talvez principalmente, o ensino superior que tem uma missão de soberania. Os ensinos básico e secundário não podem ser compreendidos apenas como preparação para a universidade ou a vida activa. Eles são, do princípio ao fim, um acto político, e um acto político instituinte, a cada momento, da comunidade nacional. Porquê?

Porque, nas sociedades modernas, onde os conflitos sociais têm como pano de fundo um consenso geral, este é gerado e alimentado na escola. A escola ao ensinar a língua, a literatura, a história, as disciplinas científicas, as humanidades e as artes, está a criar um campo ideológico comum, partilhado por todos os cidadãos. A escola não precisa de fazer “educação cívica”, em disciplina própria para o assunto, basta um currículo geral bem pensado. Na escola, saímos da família e entramos num espaço onde o cidadão é construído.

Contrariamente ao que pensam os liberais mais assanhados, a soberania não reside apenas na segurança interna e na externa, e no poder político e judicial. A escola, desde o ensino básico ao superior, é um importante pilar da soberania, talvez o mais importante, pois é aquele que assegura que a comunidade queira continuar a ser comunidade.

Parece, no entanto, que os tempos não são propícios à soberania. Hoje em dia, troca-se com facilidade a soberania pela eficiência de fabricar chocolates, pilhas, telemóveis ou meias de nylon. É o Zeitgeist a que temos direito.

Fungos


VII - Tenore solo e orchestra "...se il cielo fosse carta"

Ali na varanda as corridas janelas ainda acesas
se mãos as percorrem. O ritmo quebrado dos dias
a morte, a aleivosia, o espírito escancarado, o espinho
se encrava, a garganta incendiada, o ondulado ritmo das noites,
a vida, a lealdade, o fechado espírito, o cravo se espinha,
o incêndio da garganta. Voltemos às enumerações,
às correntes circulares, de um mundo a outro mesmo retorna.

Se descrevo ainda é porque já não descrevo
apenas impressões, cadência insinuada que se desfaz,
a Terra a correr na ponta dos olhos. Como compões a melancolia?
Olhas, soletras sílaba a sílaba, deixas a entoação
tomar conta, o vento, o sopro interior,
as casas de Verão há muito fechadas. Começas a contagem
pelos dedos e o mar nunca terá fim.

Quando se rouba uma expressão, são infinitas variações
uma letra aqui, o acento tónico ali, as dunas a uivar
como gaivotas atravessadas pela dor. Poderei?
Poderás se o teu ofício te esquecer, se os saltos
rasos te caírem e os sapatos alteados
levar-te-ão para lá. Depois, retornam as enumerações
as cantigas que a memória de velhas foi esquecendo.

[Jorge Carreira Maia, 12 Poemas sob Il Canto Sospeso, de Luigi Nono]

01/04/07

Os meus maiores portugueses

Agora que o concurso do maior português acabou, como sou um bocado serôdio, vou escolher os meus melhores portugueses. Não é um, são 15. E em vez de votar, vou explicar por que motivo os escolho. Tirando Afonso Henriques, por ter sido o primeiro, todos os outros vêm segundo o acaso.


D. Afonso Henriques, porque foi o primeiro e ao querer ser rei, fez de nós portugueses, para o bem e para o mal.
Luís de Camões pela minha língua, pela épica, mas mais do que todo o resto pela lírica.

O Marquês de Pombal, apesar daquele tique para o torcionário, pelo que fez pelo país, pela Lisboa pombalina e pelo vinho do Porto.
Pedro Hispano ou Pedro Julião ou João XXI. Por ter sido Papa, o único português, pela medicina e pela filosofia.

Rainha D. Leonor, pelas misericórdias. Chegaram até hoje.


Fernando Pessoa, só ele é já um povo. E pela minha língua, e pelo Caeiro, e pelo Reis, e pelo Campos, e pelo Mora, e pelo Soares, e pelo Guedes, e por todos eus que ele teve...

D. Dinis, pelo pinhal de Leiria, ainda está aí, pela poesia, por outras folias, e pela Universidade.

Amália, pela voz, pelo sentimento singular de ser português.

Infante D. Henrique, pelo mar aberto, pelas viagens espantosas, pelas caravelas, pela capacidade de lançar mãos a uma aventura desmedida.

Mário Soares, pela liberdade, por se ter enganado muitas vezes, mas nunca no essencial, pela ilusão que me deu de poder ser europeu. E porque ninguém, incluindo este blogger, é perfeito.

Maria Helena Vieira da Silva, pela pintura, por aquela extraordinária biblioteca...
Vasco da Gama, pelo caminho marítimo para o mundo. Um dos primeiro grandes globalizadores, gostemos ou não da coisa.

José Saramago, pela língua portuguesa, pela forma extrordinária como o português se renova na sua escrita, mesmo que o conteúdo, muitas vezes, me desagrade.

D. Pedro I, pela Inês. Ter dotado um povo de um mito amoroso basta para fazer de D. Pedro um dos maiores portugueses.

Amadeo de Souza Cardoso, pela pintura, por ser verdadeiramente europeu do ponto de vista da arte. Quase um Fernando Pessoa da pintura.

A brotoeja cresce...

A brotoeja cresce. Não bastava já aquela história do superpolícia – também coordenará as investigações às universidades? –, agora também apareceu aquela mania de uns assessores, como não sabem, coitados!, o que fazer, de telefonar para as redacções. É evidente que não se pretende controlar a informação. É só para passar tempo, convidar os jornalistas para ir ver a bola. Nada de más intenções. O “Expresso”, de ontem, e o editorial, de hoje, do “Público”, tiveram, porém, o condão de me assanhar a brotoeja.

Segundo o médico, a brotoeja tem muito a ver com o clima em que se vive. Se é mais aberto, tranquilo, a brotoeja esconde-se. Quando o clima começa a ficar mais fechado, o ar mais irrespirável, quando os pacientes ficam com a sensação de falta de liberdade, a brotoeja ataque em força. Com o ambiente fechado, a pele recusa-se a deixar sair o suor e toma: um ataque de brotoeja. Patologias da vida quotidiana, num país pouco dado aos espaços abertos… Sempre podiam abrir uma janela, não é? Há pessoal que muito gosta de obstruções...

O Estado da Nação