23/03/07

Música para o fim-de-semana

Música para o fim-de-semana: na área do jazz, Paul Motian com Stephan Oliva e Bruno Chevillon; na área da música erudita, um CD com a obra "Domaines" do compositor francês Pierre Boulez.
Um bom fim-de-semana!



22/03/07

Há água, sol e verde nas palavras

Há água, sol e verde nas palavras,
rios de sílabas,
fragmentos,
lábios
e cascatas.

As palavras
estão
por dentro do rio
e nas margens
fogo,
erva seca,
pedaços de letras,
espirais de verde
a arder
na boca desta água.

[20 de Abril de 1979]

OS POLÍTICOS

A política é uma disfunção hormonal. Os políticos não precisam de votos, mas de um bom endocrinologista. (JCM)

A SAÚDE DOS OLHOS

Ver apenas! Deixar a cintilação do mundo romper as pálpebras, entrar pelas órbitas, ferir as pupilas; nada mais querer e nada mais ter.

- O que desejas? – pergunta-me solícito o deus.
- A saúde dos olhos. – respondo. (JCM)

Caminhos da Floresta


Holz [madeira, lenha] é um nome antigo para Wald [floresta]. Na floresta [Holz] há caminhos que, o mais da vezes sinuosos, terminam perdendo-se, subitamente, no não-trilhado.
Chamam-se caminhos da floresta [Holzwege].
Cada um segue separado, mas na mesma floresta [Wald]. Parece, muitas vezes, que um é igual ao outro. Porém, apenas parece ser assim.
Lenhadores e guarda-florestais conhecem os caminhos. Sabem o que significa estar metido num caminho de floresta. [Heidegger, Caminhos da Floresta]

21/03/07

Rainer Maria Rilke, Vergers - 9

Se se canta um deus,
este deus dá-vos o seu silêncio.
Todos nós caminhamos apenas
para um deus silencioso.

Este imperceptível câmbio
que nos faz vibrar,
torna-se a herança de um anjo
sem nunca se nos dar.

(Tradução: JCM)

A nova virtude

A ambição foi outrora um vício, uma vergonha que se escondia, como se se encobrisse um segredo de família, obscuro e terrível. (JCM)

Inovação

Sempre que ouvires a palavra inovação deverás fugir. A boca que a profere não sabe o que diz, mas conhece o mal que faz. (JCM)

11 de Setembro - 20


Que melhor metáfora para terminar a série de fotografias sobre o 11 de Setembro? Por muitas idiotices que façam os americanos, e têm feito muitas, por muito modernos que sejam, e eles são a consumação da modernidade, a luz brilhante da liberdade não pode nunca deixar de nos comover.
Talvez a liberdade seja apenas uma pequena ilha perdida, rodeada por um mar proceloso, talvez... Mas o povo que um dia ergueu aquela estátua e a colocou com símbolo da sua vida só pode esperar uma eterna admiração.

20/03/07

SONETO DITADO NA AGONIA

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;

Conheço agora já quão vã figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura.

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... a santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

(Manuel Maria du Bocage)

Uma ideia

Há gente tão estúpida que se uma ideia aparecesse na superfície do seu cérebro, suicidar-se-ia, aterrorizada pela solidão. (Cioran, Le Crépuscule des Pensées)

11 de Setembro - 19


19/03/07

António Franco Alexandre - Duende - 39

Já proibi as letras e as imagens
e até o horizonte, azul-tranquilo,
penso bani-lo um dia, como o erro
que se corrige a tempo num esboço.
Se do poço te ergui, foi distraído
pelo suor maligno em que dormias,
julgando que mais tarde poderia
consertar o defeito de fabrico.
Agora me arrependo de ter dito
verdadeiras palavras ao ouvido
de cego e desastrado demiurgo;
vou fechar para férias o universo
e levar-te num verso com a vida
à oficina das falhas e perdidos.

António Franco Alexandre (2002). Duende. Lisboa: Assírio & Alvim.

A dignidade do trabalho

Que não se continue, portanto, a mascarar o que existe no seio desta civilização socrática! Um optimismo que se julga ilimitado! Que não nos deixemos assustar por vermos amadurecer os frutos deste optimismo; por vermos a sociedade, corroída até às suas camadas mais baixas, a revolver-se pela agitação dos apetites e das invejas; por vermos a crença de toda a gente na felicidade terrestre; por vermos, enfim, a crença numa civilização geral do saber transformar-se, a pouco e pouco, numa reivindicação ameaçadora desta felicidade terrestre alexandrina, sob a influência desse deus ex machina à Eurípides! Impõe-se pois a seguinte observação: para continuar a durar a civilização alexandrina não pode prescindir de uma classe de escravos, mas é obrigada, pela sua visão optimista da existência, a negar a necessidade dessa classe e caminhará então gradualmente para uma destruição desastrosa, quando se tiver esgotado o efeito das belas palavras, tão sedutoras quanto lenitivas, acerca da «dignidade do homem» e da «dignidade do trabalho». (F. Nietzsche, A Origem da Tragédia.) (Quadro: E. Munch - Nietzsche)

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Para meditação dos espíritos modernos. O texto é de 1871. Actual como tudo o que é grande. Estas poucas linhas valem 500 páginas de Marx. E Marx é um grande autor, mas sofre de optimismo e acredita na «dignidade do trabalho». É, ao contrário de Nietzsche, um filho de Hegel. Não será toda a modernidade uma doença? Talvez uma doença fatal... Daquelas que apenas apresentam sintomas benignos, mas que sob eles ocultam o que há de mais terrível.

11 de Setembro - 18


18/03/07

Francisco Brines - Los sinónimos

Más allá de la luz la sombra,
y detrás de la sombra no habrá luz
ni sombra. Ni sonidos, ni silencio.
Llámale eternidade, o Dios, o infierno.
O no le llames nada.
Como si nada hubiera sucedido.

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Tradução de José Bento:

Para lá da luz está a sombra,
e por trás da sombra não haverá luz
nem sombra. Nem silêncio, nem sons.
Chama-lhe eternidade, ou Deus, ou inferno.
Ou não lhe chames nada.
Como se nada tivesse acontecido.

In Francisco Brines (1987). Ensaio de uma despedida - Antologia (1960-86). Selecção e tradução de José Bento. Lisboa: Assírio& Alvim.

Julius Rontgen

Começar a semana com a música de um compositor, para nós, quase desconhecido, Julius Rontgen (1855-1932), e pouco disponível no mercado. É provável que sofra de algum apagamento no extenso panorama da música erudita. A gravação proposta é de Maio de 2006, um duplo CD, que contém 3 sonatas para viola e piano, 5 lyrisch gange (canções líricas), para viola, piano e voz. Como complemento, há duas canções, também para viola, piano e voz, de Joahnnes Brahms.
Francien Schatborn, em viola; Jeannette Koekkoek, em piano, e o mezzo-soprano Margriet van Reisen.

O primeiro CD apresenta as 3 sonatas, o segundo, as canções acompanhadas ao piano e viola.

11 de Setembro - 17


Leggio VI

Se tudo tão distante se tornou, as casas, as silhuetas
As ruas espinhadas de gente. Roncos de máquinas
Motorizados e frementes, se tudo tão distante se tornou,
As praças abertas para o rio, o vento, o vento as traz
Consigo, ao bater nos telhados. Ressoa uma canção,
Horas que ao silvar longe se ouvem, presas na solidão.

Em cadência imprecisa deixo os olhos vogar entre
Ruas e avenidas e espero a súbita sombra que a luz
Ao morrer em canto incerto faz cair. Abandonados,
Entre quintais vis e esfacelados, muros cobrem-se
De ervas, memória da terra a germinar na cidade.
No céu, um tremor de nuvens, astros e breve claridade.

As vozes sumidas entram pelas casas e escondem
O nada que as inflama. Tão cansadas, falam como se
A um deus orassem e nada dizem, e nada ouvem, vozes,
Ecos, o tempo as esqueceu, debruadas de silêncio,
Gradadas ervas sujeitas ao mar. Quando subo, de gente
Mirram as colinas, moinhos à espere que vente.

A distância aumenta se as ruas em desvario corro
E há homens e mulheres afadigados entre hotéis
Vazios e jardins fanados, castanheiros de úlceras
Cobertos. Nas estradas, pombos, gatos alados, as
Vísceras às varejeiras oferecem. Noite, tudo se cerra
E se alguém fala é na cidade a voz vinda da terra.

La Lontananza Nostalgica Utopica Futura

Com “Leggio 6” termina a publicação de uma séria de textos escritos sob a audição de “La Lontananza Nostalgica Utopica Futura”, de Luigi Nono. Mais uma vez se refere que os textos não são uma espécie de interpretação da música. São, antes, induzidos pela música, desencadeados pela audição sistemática das peças, para percorrerem o seu caminho. Em todos eles há, todavia, uma relação, ao mesmo tempo, nostálgica e utópica com a “minha” Lisboa, como ela pulsou um dia no meu olhar, como o Tejo desaguou na sensibilidade e cresceu nas palavras.
Luigi Nono é um dos «meus» compositores contemporâneos. Retorno sempre a ele. Daqui a uns dias, iniciarei um novo ciclo de textos escritos, entre Dezembro de 2005 e Janeiro de 2006, sob a audição de uma outra obra de Nono,”Il canto sospeso”. Entretanto, fica, para os próximos dias, o lugar para os «meus» poetas, para alguns deles, entenda-se.
Depois, há sempre a música de Nono...

17/03/07

11 de Setembro - 16


16/03/07

Leggio V

Cresce, em dias de Setembro, um medo
Emaranhado nas arribas do céu. As rajadas
Abanam prédios e os muros em precário
Equilíbrio dissolvem-se. Quando chove, pela cidade

Rugem deserdados cães e o rio dilata, engrossa,
Longe lança suas redes; os homens, ínfimos
Peixes, correm rua abaixo, gritam de lama
Inundados. Como barcos pela âncora surpresos,

Carros passam na vertigem da água e em janelas
Esconsas abrem-se indelicados olhos vítreos,
Pequenas, polidas pedras e espelhadas. As dolentes

Árvores, em mansidão vegetal, cobrem
De raios incendiados as avenidas brancas
E exíguas. Ao arder, gelam desmemoriadas.

Escola e barbárie

Este bric-a-brac pedagógico faz das obras literárias simples «instrumentos» ou «suportes» de um método de aprendizagem que visa fazer adquirir o mais rapidamente possível as competências operacionais, em detrimento do tempo necessário à formação da sensibilidade e do juízo crítico (jugement). Despreza a significação de uma obra literária enquanto ela abre para a interrogação, exprime a condição humana, fornece aos jovens referências e pontos de orientação na construção de uma identidade. Tudo isto no período de questionamento que é a adolescência. Aplicada ao ensino, a lógica das competências apaga as finalidades específicas da escola num sentimento estreitamente adaptativo e favorece o desenvolvimento duma relação utilitarista à cultura. Ela é a negação prática da cultura como elemento essencial daquilo que produz o humano. [Jean-Pierre Le Goff (1999/2003). La barbarie douce. La modernisation aveugle des entreprises et de l'école. Paris: La Découverte]. Tradução do excerto JCM.
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Quem quiser perceber o lixo que o actual Ministério da Educação está a impor às escolas portuguesas deverá ler o livro do sociólogo Jean-Pierre Le Goff. Note-se, no entanto, que a primeira edição é de 1999. Para nós, portugueses, está completamente actual. Sem tirar nem pôr. Este é o retrato do desastre educativo francês, aquele mesmo que conduziu às revoltas dos banlieus, aos carros queimados, etc. Uma socióloga como a Ministra da Educação talvez aprendesse alguma coisa, se é que a senhora está interessada em saber o que quer que seja. O que estamos a preparar? De forma doce, a barbárie...

11 de Setembro - 15


15/03/07

Leggio IV

Ruídos de sirenes pela noite de transeuntes
Ao acaso das ruas rendidos. Em estreitas ruelas,
Flamejam avaras pequenas luzes e se pelo chão
Imundos os destroços caem, é nas mãos

Vazias que brancos e lívidos se trazem. Esqueceram
Na senda da noite o nome que lhe deram e
Sentados na calçada ao deus pedem
Pela manhã a memória venha, mesmo se branca,

Mesmo se fria e gélida. Garrafas partidas
Estilhaçados copos, tudo a noite cobre
E os corpos destilam abraçados; gavinhas

Frágeis logo a aurora as desfaz. No frio da cidade
O ar recobre-se de névoas e o Tejo embarca
Pelo mar ali no lugar onde tudo se refaz.

O fim das ilusões

Retomemos o progresso moral da humanidade. A notícia da libertação, em Espanha, de 91 trabalhadores “escravizados” vem mostrar, mais uma vez, quão débeis sãos as aquisições civilizacionais. Em plena União Europeia é possível haver pessoas a passar por situações absolutamente inaceitáveis. Esta caso não é, por certo, único e situações destas, mesmo no espaço europeu, não se devem restringir a Espanha e a alegados “negreiros” portugueses. Há qualquer coisa no ambiente em que se vive que apela a esta “criatividade” extrema de certos meios empresariais dados à inovação. O interessante da notícia reside na seta para onde ela aponta. Serão apenas manifestações extravagantes, uma espécie de reminiscência do passado mais ou menos recente, ou, pelo contrário, estar-se-á a ter os primeiros vislumbres do admirável mundo novo que espera a humanidade? Para onde aponta a seta?

Mas há ilusões que não acabam...

Há pessoas que se julgam o centro do universo. O que irá na cabeça do dr. Santana Lopes para, a cada momento, escavar o terreno de Marques Mendes? Hoje vem falar em «diferenças quase insanáveis» sobre a orientação política do partido. Como é possível que no PSD ainda se dê crédito a este tipo de coisas e se suporte as opiniões do dr. Santana Lopes? Como é possível que um partido ature a ameaça velada de alguém se julga destinado a sabe lá Deus o quê? O dr. Santana Lopes não mostrou já o nada que tinha para mostrar? Tudo isto manifesta duas coisas: 1.ª Há muita gente que julga que fazer oposição é berrar, armar uma comédia, organizar jogos florais e deitar foguetes. Estar na oposição, pelo contrário, é duro e ser sério politicamente, enquanto não se está no poder, é duríssimo; 2.ª O PSD precisa de mão forte, cara feia e pouco simpática com a multidão de prima-donas que por lá pululam. Até hoje só Sá Carneiro (com dificuldade) e Cavaco Silva conseguiram meter alguma ordem, e não por tempo muito longo, naquela casa.

11 de Setembro - 14


14/03/07

Leggio III

Profícua luz a com qu’a tarde cai e no ruído
Entretecido de silêncio há pela cânfora das avenidas
Vultos viandantes, pequenas aves bêbadas
Poisadas na fímbria quântica das ruas. O deus
Aos corações incautos dardeja e sentados
Pelos bancos os olhos vêem passar na
Pressa que à noite o dia deu raparigas fanadas
Hirtos olhos de seios ligeiros flocos a tremer.

Animais famintos pelo Rossio exíguos a uivar
E das ruas que para o Tejo caem avisto barcos
Lêvedos a minguar. O oceano da terra os atrai.
Com tanta leveza do chão os olhos tudo fitam
Anseiam no céu divino o motim fértil e fecundo.
E onde os meteoros soçobram lá prendem-se
Reflexos velozes incendiados, aviões acesos
Pela vertigem na cidade em delíquio caem.

Se a inconstância logo tudo toca, em teus dedos
as paredes brancas, planície de vagens fluentes e
Negras, ruelas de palavras, a voz rouca se
Canta. Húmidas manchas aí se aninham
E homens sóbrios já a noite descai pelas ondas
Luminares banhados marcham enquanto
A cegueira tão cega os alevanta. Não há
Vapores no cais, só bandeiras a cidade mancham.

Em louvor da vida contemplativa

John Gray foi professor em Oxford e na London School of Economics. De formação em Filosofia, dedica-se, hoje em dia, a uma espécie de hermenêutica negativa, centrada no desmascaramento das ilusões que nos atravessam. Deu uma entrevista ao Público de Domingo passado. Dessa entrevista, são retirados alguns excertos para actividade meditacional... Sem comentários. Os títulos, a bold, são nossos.
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As ilusões

O que tento lembrar às pessoas é o lado negro dos seus sonhos ou, se quiser, as suas ilusões. O perigo de destruir as ilusões humanas é levar ao desespero. O perigo de encorajar as ilusões humanas é que produz arrogância. No século XX e agora, no XXI, o maior perigo, do ponto de vista político e intelectual, é esse mesmo – a arrogância.

A arrogância neoliberal

A arrogância ocidental traduziu-se numa ideologia neoliberal que se transformou numa espécie de marxismo ao contrário, com uma interpretação muito estreita da experiência humana, com alguma indiferença pelos sacrificados do progresso mesmo que numa escala muito menor.

Contemplação e não acção I

Tento recuperar a ideia de que uma vida humana pode ter significado sem ter necessidade de mudar o mundo ou as coisas. É o valor da contemplação, que foi muito importante em muitas civilizações até há 200 anos. Hoje, vivemos com a ideia de que, a não ser que mudemos o mundo, que melhoremos o mundo, falhamos. A maioria das pessoas não melhora coisa nenhuma.

Contemplação e não acção II

Os gregos antigos valorizavam a contemplação como a mais importante actividade humana. Os indianos, os chineses, alguns cristãos reconheceram que a vida humana pode ter significado e ter valor sem ter de mudar coisa nenhuma.

O liberalismo marxista

Aliás, muitos economistas liberais modernos são marxistas inconscientes. Acreditam que o desenvolvimento do capitalismo produz inevitavelmente uma civilização burguesa. Historicamente falando, não há assim tanta evidência. Na Europa, por exemplo, o capitalismo produziu uma grande variedade de regimes.

A lógica da globalização

A globalização deixou de ser um projecto predominantemente americano ou ocidental. Agora é um projecto chinês, indiano, etc. E isto era inevitável. Porque o que a globalização faz é espalhar a tecnologia e a industrialização através do mundo. Por isso, a lógica interna da globalização é minar o poder americano.

A ilusão do progresso I

O problema é esse, tentar perceber que ilusões ou mitos são os mais prejudiciais. O exemplo crucial é a crença no progresso. Provavelmente, a campanha contra a tortura que Voltaire e Montesquieu levaram a cabo dependia da ideia de progresso. Só que essa ideia tornou-se perigosa a partir do momento em que passou a alimentar a convicção de que a humanidade está sempre a subir degraus e não pode cair pela escada abaixo.
A ilusão do progresso II

Há um progresso científico cumulativo e que é difícil perder. Isso aceito. Não creio que a ética e a política possam ser cumulativas no mesmo sentido. Sabemos o suficiente da história da humanidade para saber que o que ganhamos pode ser perdido. Veja a tortura. Num abrir e fechar de olhos, começou a tornar-se outra vez legítima. Nos EUA está a ser redefinido o conceito…

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A entrevista foi dada pela ocasião de publicação, em Portugal, do seu novo livro Sobre Humanos e Outros Animais.

O livro mais conhecido, também já publicado em Portugal, é Falso Amanhecer.

11 de Setembro - 13


13/03/07

Leggio II

Em becos tranquilos flutuam no ar dolente
Casais de namorados tão enamorados, tão presos
Na urdidura que mãos em mãos tecem. Nem a luz
Os ilumina, passam apenas como se um jardim
Os chamasse. As casas pelos carros
Fumegadas em desvario abrem janelas, cegos olhos
Cantos onde a vida pelo tédio espreita.

Às vezes, fogem para o Castelo e choram
A dor que lhes dói. A luz ilumina as praças
Em esquadria, como se geométricas, um dia
Alguém, na ânsia de tanto ordenar, as fizesse. Barcos
Encalhados na areia, os jacarandás pelas avenidas
De Maio o fim espreitam. S. Jorge inquieto,

Firme, o dragão que à morte lhe deu vida, espera.
Quantos anos tens e assim ela mostra-lhe os dedos e
Ele conta-os, conta-os, pela tarde recoberta de luz
O Tejo a marulhar ao longe, as águas espessas
O coração ainda aberto praça desvalida sem armas
E sem tréguas ao tumulto do deus entregue.

O retorno da tradição

Bento XVI parece apostado em voltar à tradição. Sobriedade litúrgica, reintrodução do Canto Gregoriano, possivelmente o retorno da missa em Latim. Faz sentido? Do ponto de vista estético faz todo sentido. A liturgia católica tinha-se tornado absolutamente insuportável: um sentimentalismo xaroposo. Mas, por exemplo, a questão do Latim será pertinente, mesmo como sinal contra os tempos?

O que se está a passar, na Igreja Católica, mostra, mesmo que ninguém o queira dizer, a absoluta falência do Vaticano II. A expectativa de João XXIII e de Paulo VI de fazerem frente à erosão da fé através da abertura ao mundo foi completamente gorada. As igrejas que estavam cheias esvaziaram-se, as novas gerações afastaram-se se não da fé, pelo menos da prática e do seguimento dos preceitos. Ao modernizar-se, a Igreja contrariou a sua natureza não-moderna, não subjectivista, não individualista e parece agora em vias de naufragar num mundo cujo espírito lhe é, por essência, adverso.

A tentação é retornar aos fundamentos da tradição. Será isso possível, num mundo absolutamente voltado para a volúpia do futuro? O problema da Igreja não é diferente daquele que se abate sobre as nossas sociedades: a modernização contínua das sociedades e das suas instituições está a destruir os fundamentos dessas mesmas sociedades e instituições. Elas estão presas num círculo a que parecem condenadas a soçobrar: modernizam-se para persistir, mas a modernização arrasta para a destruição os fundamentos e sem esses fundamentos sociedades e instituições não podem subsistir.

Será ainda possível elaborar uma síntese entre a tradição (herdada dos clássicos e dos medievais) e a razão moderna iluminista? Uma síntese que permita um diálogo entre o presente, o passado, depósito da autoridade, e a expectativa de haver um futuro onde a humanidade exista? Não será já demasiado tarde e a restauração de Bento XVI não passará de uma tentativa de parar o vento com uma peneira?

11 de Setembro - 12


12/03/07

Leggio I

O fragor da madeira fresca para a cidade os homens
traziam e em apertadas ruas abriam com langor
avaras passagens. A estreita senda onde na manhã
dos dias de ontem os eléctricos esculpiam, no frio
da estrada, imensas, pois amarelas e vivas, as paisagens.

Os pregões, tal ainda dado ouvir me foi, ali
a voz calaram e as ruas ora desertas habita-as
gente, fantasmas ondulantes perdidos como
pássaros suados, a bramar por nós, chamam.
Quando gaivotas, poisam de asas descobertas.

Nas sombras da tarde não há mistério e pelos cafés
bóiam turistas, gente obscura, despojos breves vindos
da terra perdida do império. Quando as águas correm
a cidade grita e no céu como raparigas suspensas
regurgita de cinza a nuvem trespassada de mágoas.

O Sol em leve inclinação ao meio-dia deixa
entre casas um risco de frescura breve.
As árvores agachadas pois árvores são
fazem lembrar em funesta analogia difícil
um gigante, antes de um anão a breve mesura.

11 de Setembro - 11


O Intendente, o Cardeal, o Pastor e a minha brotoeja


Os dias passam, a brotoeja cresce. Esta história do superpolícia era hoje, no Público, comparada, pelo historiador Rui Tavares, ao superpolícia do Marquês de Pombal, o Intendente Pina Manique. A curiosidade é que o Intendente sobreviveu a quem o criou, com todas as capacidades de intendência que tinha. Morto D. José, D. Maria, pouco dada aos fervores iluministas, corre com Pombal, mas Pina Manique lá fica.

É uma espécie de Intendente que o seráfico Sócrates pretende agora reavivar, sob suas angelicais ordens, em tempos de crise. Por falar em serafins e outras legiões angélicas, parece que José Sócrates está a caminhar não para a glória do poder, a essa já chegou, mas para a dos altares. Veja-se o trabalho hagiográfico do Sol, a começar pela beatífica fotografia da 1.ª página (www.sol.pt). Depois, no caderno Tabu, lá se narra a miraculosa e miraculada vida do santo, com pecados e tudo, pois santo que seja santo, terá de ter sido um grande pecador. Tome-se em consideração o veraz exemplo de Agostinho de Hipona e de Inácio de Loyola, gente estouvada que subiu à glória dos altares.

É aqui que entra o cardeal. Qual? Esse mesmo, o prefeito da congregação para a causa dos santos, o cardeal Saraiva Martins. Apesar de Bento XVI não parecer particularmente dado à fabricação de beatos, o nosso cardeal podia meter uma cunha (sempre somos portugueses) e começava já, ainda em vida, a canonizar o nosso futuro S. José Sócrates, aquele que combina a régua do carpinteiro com a diatribe do sofista, enfim um verdadeiro pastor de almas.

Se o nosso primeiro-ministro, aquele que precisa de um Intendente, é um verdadeiro pastor, justifica-se ainda mais a sua canonização. Há apenas que reescrever a história de Fátima, acrescentar mais um pastorinho, que esteve congelado uns anos, e agora, (milagre, milagre - grita-se) veio ao mundo para salvar, com intendência, a pátria. Não lhe faltarão fiéis, pelo menos enquanto tiver poder, e mesmo se não faz milagres, pelo menos não deixa de os anunciar com vigor, convicção e paciência de um verdadeiro santo.

Seja como for, a questão da intendência e a canonização jornalística fazem-me brotoeja. E quanto mais se coça…


11/03/07

Olavo Bilac - Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O génio sem ventura e o amor sem brilho!

Baudelaire, Les Fleurs du Mal - IV Correspondances

A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam às vezes brotar confusas palavras;
O homem ali passa entre florestas de símbolos
Que o observam com olhos familiares.

Como longos ecos que ao longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e como a claridade,
A si, perfumes, cores e os sons se respondem.

Há perfumes frescos como corpos infantis,
Doces como oboés, verdes como campinas,
- E outros, corrompidos, ricos e triunfantes,

Têm a expansão das coisas infinitas,
Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que do espírito e dos sentidos o êxtase cantam.

(Tradução JCM)

11 de Setembro - 10


10/03/07

O tempo suspenso em Avis

Ida a Avis. O Alto-Alentejo, com a aproximação definitiva da Primavera, esplende, incendiado pela luz de um Março azul como o mar de Junho. Flores silvestres abertas ao olhar do viandante pontuam o verde dos campos que bordejam a estrada. Fundamentalmente, muito pouca intervenção humana. Um alívio! Sempre que o português põe em acção a veia construtora e o espírito de iniciativa, há que temer o pior.

Avis parece parada no tempo. Não, Avis está parada no tempo. Não, não, o tempo parou em Avis, suspendeu-se, ficou surpreso com a luz, arrepiou caminho. Cresce a eternidade onde o tempo não entra; Avis é eterna, na brancura caiada das casas, no negro das mulheres, no sossego do meio-dia.

Uma pintura mural da CDU garante que lá se constrói o futuro. Equívoco estratégico. A CDU deveria deixar o futuro para os outros, para os que abominam o presente. O futuro é o mais fácil de fazer vir, mesmo que nada se faça, ele virá. Que se construa o passado! Isso sim é uma verdadeira garantia. A única que vale a pena. Desconfio que ninguém em Avis quer o futuro, nem a CDU. Quando ali chego só quero o presente que me lembra o passado, saborear o tempo suspenso, as horas dolentes suprimidas pelo desatino de um deus. Chego ao Alentejo e gosto mais de Portugal. Tudo é mais sóbrio e mais autêntico.

Quando se está preso num tempo suspenso correm-se riscos. Não desespere por não encontrar um restaurante que se combine com a honra do lugar. Perca-se, primeiro, pelas ruas orladas de laranjeiras bravas, olhe as pessoas, o casario, a parte histórica. Depois, pegue no carro e tome a estrada de Arraiolos. Não vai sair de Avis, pelo menos do concelho. Pare logo que chegar à freguesia de Alcórrego, a meia dúzia de quilómetros de sede de concelho. Na pequena aldeia, procure a Taberna do Paulo, numa urbanização que já nos faz lembrar o futuro. Duvidamos… A casa é moderna, com um traço campestre à porta.

Entra-se desconfiado, o lugar, porém, mostra-se acolhedor. Uma sala de entrada, que serve como sala de espera, deita, por uma pequena porta lateral, para a sala de refeições. Decoração aceitável, paredes sombreadas de amarelo, presença do rústico pensado pelo citadino. Mobiliário forte, as mesas, as cadeiras, os bancos. Eis um Alentejo pujante. Mas nada de bibelôs campesinos em excesso. Se encontrar uma jarra com dois discretos cravos vermelhos , se por acaso for dado a uma certa inclinação para o lado direito, não faça leituras demasiado óbviAs. No Alentejo, o cravo vermelho é como o sobreiro, faz parte da paisagem. Há em tudo alguma justa medida. Talvez os alentejanos sejam descendentes de gregos, quem sabe?

O serviço é escorreito e simpático. Da cozinha, não se esperem revelações celestiais. Deus não se manifestou, nem Cristo veio à Terra. Mas a coisa está longe de ser de deitar fora. Pelo contrário, um belo trabalho com os materiais da região. O pão, excelente pão alentejano, vem em saco de pano e pode acompanhar um óptimo queijo de ovelha e azeitonas. Estamos no Alentejo, sejamos alentejanos. Migas-gata (não sei se se grafa assim, mas poderia grafar) e sardinha frita. Migas-gata é uma açorda de pão alentejano e alho com um corte de vinagre. O vinagre sabiamente cruzado com a tradicional açorda dá vida a esta, corta-lhe o adocicado, eleva-a e permite-lhe um belo casamento com a sardinha frita. Em tudo isto, não há oleosidades, nem untuosidades. Muitos pontos a favor da cozinheira. Depois, para continuar no terreno das migas, umas perfeitas migas de espargos a acompanhar carne do alguidar. Fizeram jus ao prato de peixe. Sóbrias, sápidas, um toque de elegância na rusticidade da planície. A sobremesa calhou ser um cónego da taberna (vá-se lá saber a razão do nome), isto é, um doce de ovos e amêndoa, com gila e merengue. Notava-se também um travo a noz. Sobremesa a partilhar, pois é, ela sim, excessiva. Tudo acompanhado por tinto do Alentejo. A carta não é grande, mas é suficiente para o tipo de comida.




Volte-se a Avis e no fim de uma volta pedestre, olhe-se, mais uma vez a água suave da barragem do Maranhão e encaminhemo-nos para a realidade. O tempo, esse que me torna a consumir e a encaminhar para o futuro, lá fica suspenso…

Rainer Maria Rilke, Vergers - 1

Esta noite, o meu coração fez cantar
os anjos que se rememoram…
Uma voz, quase a minha,
por tanto silêncio tentada,

cresce e decide-se
a não mais voltar;
terna e intrépida,
a quê vai ela se juntar?

(Tradução JCM)

11 de Setembro - 09


09/03/07

XIVa – Coloana fará sfârsit

Querer já que morte e vida se apaguem
E o tempo de tão breve se cale.
Nada hoje é vero, apenas imagem
E onde o bem vejo, sei oculto o mal.


Voa para longe da Terra
O verbo que tudo encerra.

Poesia e Música

Com “Coloana fará sfârsit” encerra-se um ciclo de textos escritos sob a audição de peças para piano do compositor Gyorgy Ligeti. As obras escutadas pertencem aos “Études”, Livres I et II, editadas pela Naxos, e tocadas por Idil Biret.

Estes estudos de Ligeti são pequenas composições elaboradas para o próprio compositor aperfeiçoar a sua técnica pianística. São exercícios.

Cada uma das peças do CD gerou um dos textos apresentados, também eles como exercício de combinação da métrica, embora sem atenção à acentuação rítmica interna de cada verso, e da rima, formando todos um jogo tensional entre uma quadra decassilábica e um dístico heptassilábico, pretendendo-se que o sentido nasça dessa tensão. Não se pense que os textos pretendem traduzir a música. Eles são antes escritos sob a música e não sobre a música.

Quem tiver prurido relativamente às gravações da Naxos, poderá ouvir as mesmas peças tocadas por Pierre-Laurent Aimard, em gravação para a Sony, integradas na “Gyorgy Ligeti Edition”.

Um novo ciclo, mais curto, de textos será começado a publicar a partir de 2.ª feira.

11 de Setembro - 08


Perplexidades perante o Cristianismo

O post de ontem com o texto de Cioran (cf. mais abaixo) está ligado a uma de duas perplexidades que há muito o cristianismo, nomeadamente o católico, fez nascer em mim.

A primeira perplexidade: o nível rasteiro, pimba e piroso da arte (arquitectura, música, escultura e pintura) que serve a vida da Igreja. A Liturgia é de uma pobreza franciscana. Toda a vida religiosa (há excepções, claro) está envolvida em elementos estéticos absurdos. Como é que uma religião que deu origem à catedral gótica, à grande pintura da renascença e posterior, à música de Tomás de Luís de Victoria e de Giovanni Pierlugi da Palestrina, chegou a um tão grande grau de decadência. Perante tal tipo de mau gosto, não admira que Deus se tenha retirado para longe…

A segunda perplexidade, a que se prende com o texto de Cioran: o carácter pouco viril do Cristianismo tal como me foi dado a conhecer. É preciso, porém, ter algum cuidado. Foi este mesmo Cristianismo que se casou com o Império Romano, que ordenou o mundo medieval e que sustentou as Cruzadas. Mas se compararmos Cristianismo e Islão, nota-se claramente uma diferença: o Cristianismo é essencialmente uma religião de mulheres, apesar destas estarem excluídas do acesso à ordenação sacerdotal, enquanto o Islão é uma religião de homens. O discurso sacerdotal é, no Cristianismo, fundamentalmente afectivo. No Islão, o discurso é racional, muitas vezes, de uma racionalidade política. A Igreja Católica acabou por se tornar num lugar de exclusão dos homens, isto é, do elemento varonil e racional.

Mais do que a cultura profana, foi a própria cultura da Igreja que abriu caminho para a decadência da religião no Ocidente, ao tornar-se um espaço de mau gosto estético e de vivência religiosa emasculada. O triunfo do sentimento conduziu, muitas vezes, ao sentimentalismo mais atroz e repugnante. O sagrado, para além do bom gosto, também precisa de homens, daqueles que, como diz Cioran, levantam os punhos para os céus…

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A beleza da música da contra-reforma. Ouvir In Paradisum, pelo The Hilliard Ensemble, a partir de música de Victoria e de Palestrina, mostra-nos que nem sempre a grande qualidade estética esteve separada do catolicismo.

08/03/07

XIV - Coloana infinita

Se o Sol entre nuvens logo desponta
As verdes folhas o rosto ao céu viram.
Cansada, esvoaça a ave louca e tonta
Pois da árvore a sua frágil casa tiram.

Tudo é pequeno e sem fim
Grande, só a morte em mim.

Os homens do Antigo Testamento

Gosto dos homens do Antigo Testamento: são vingativos e tristes. Foram os únicos que pediram contas a Deus, cada vez que quiseram, e que não deixaram escapar nenhuma ocasião de lhe lembrar que Ele é impiedoso, e que eles não têm mais tempo para esperar. Naquele tempo, os mortais tinham instinto religioso, hoje apenas fé – e por enquanto. O maior defeito do cristianismo foi não ter sabido endurecer as relações do homem ao seu Criador. Excesso de soluções e excesso de intermediários. O drama de Jesus adocicou o sofrimento e retirou todo o direito à virilidade nas questões religiosas. Antigamente, levantava-se os punhos para os céus; hoje, só o olhar.

Cioran, Le Crépuscule des Pensées

Moisés, de Miguel Ângelo

11 de Setembro - 07


07/03/07

XIII – L’escalier du diable

Infinito movimento ascende
Do céu luminoso ao escuro inferno.
Com suaves mãos a alma se te prende
À escura noite e ao fogo d’inverno.


Em cadência sonora
Noite fecha-se p’la aurora.

11 de Setembro - 06


Contributos para um desastre anunciado

Voltemos a António Barreto. Agora, porém, por péssimas razões. Leiam-se os seguintes extractos do artigo do último Domingo, no Público.

“Não são ideias novas. Há muito que algumas pessoas as defendem ou estudam. A primeira: a entrega do sistema de ensino básico e secundário às comunidades locais, incluindo nestas as autarquias, as associações existentes, os pais e os interesses locais, assim como, evidentemente, os professores.”

“No caso do ensino básico e secundário, foi o presidente da Associação Nacional de Municípios, Fernando Ruas, que assim se exprimiu. Garantiu que as câmaras municipais querem essa transferência e que já a estão a preparar. Acrescentou que estão interessadas em assumir todas as competências, incluindo as de recrutamento e colocação de professores, de gestão, de investimento e até de disciplina. E esclareceu que as únicas competências que deveriam ficar nas mãos do ministério seriam as pedagógicas. Creio que é a primeira vez que as câmaras se exprimem desta maneira. É quase uma revolução”.

Saberá António Barreto que Portugal não é a Suíça, onde viveu, nem a Finlândia?

Saberá o que é entregar, em Portugal, as escolas às câmaras, às associações, aos interesses locais (sic) e até aos professores? Vive em que planeta? Não percebe que tudo o que a comunidade tem de desprezo pelo saber, toda a cultura adversa à aprendizagem, ao rigor, à exigência, vai entrar, dessa maneira, e de uma forma ainda mais poderosa e radical nas escolas? A cultura de pechisbeque das autarquias vai fazer carreira na escola, os interesses locais vão minar o ambiente , o compadrio, ah esse, como deve estar a esfregar as mãos…

Quem disse a António Barreto que uma revolução, ou mesmo uma quase revolução, é uma coisa boa?

Queremos ensino de qualidade? Centralizemos a educação, fechemos as portas das escolas às comunidades, dêem-se condições, avaliem-se com rigor os alunos e os professores pelos resultados dos seus alunos, responsabilizem-se professores, alunos e famílias. Fora disto, em Portugal, qualquer coisa, como se viu, será um desastre.

Porque será que as autarquias querem – depois daquela saborosa experiência com os dinheiros para pagar os professores das expressões (Inglês, etc.) do 1.º ciclo, dinheiro esse que chegava apenas, a muitos desses professores, numa percentagem absolutamente ridícula – gerir a educação? Então as autarquias não hão-de querer? Não hão-de querer gerir escolas, colocar professores, etc., etc. E os interesses locais? E os pais? E os professores? Vai ser um fartar vilanagem...

Parece que o país enlouqueceu de vez e está toda a gente apostada em destruir o que resta de Portugal.

06/03/07

XII – Entrelacs

As tranças que desfaço em teus cabelos
São moinhos de ervas secas ao vento.
Enrolam-se nas mãos brancos novelos
Se em ti meu corpo cai suave e lento.

Um sopro de luz e mágoa
Fonte breve de seca água.

O Jeb e a nossa senhora da Educação

Eu sei, eu sei. A origem familiar, o país de proveniência, o cargo desempenhado, a cor política, tudo isto torna a personagem, aos olhos de muitos, pouco digna de crédito. E no entanto…

Jeb Bush, americano, ex-governador da Florida, irmão do actual Presidente, por certo republicano, apesar destes defeitos todos, conseguiu uma proeza extraordinária: inverteu a situação caótica da educação no Estado da Florida, tornando-o, hoje em dia, um exemplo para todos os EUA.

Como conseguiu este feito? Não foi inventando disciplinas estrambólicas como aquelas que existem no currículo português, nem perseguindo os professores, nem protegendo as crianças contra as exigências. Não seguiu nenhuma das reformas que os políticos portugueses tanto gostam. Não, não fez nada disso.

Destruiu alguns mitos, oiçamo-lo: 1) provámos que reter e acompanhar alunos do terceiro ano com rendimento fraco acaba por lhes dar maiores oportunidades de êxito no longo prazo; 2) testemunhámos, em primeira-mão, que exigir os mesmos padrões elevados a todos os alunos aumenta o seu êxito e melhora a taxa de conclusão dos estudos; 3) provámos que os professores não “ensinam para os testes”, mas sim em função dos padrões determinados pelos educadores; 4) Finalmente, demonstrámos que a responsabilização compensa.

Resuma-se: 1) reter um aluno pode compensar; 2) altos padrões de exigência são fundamentais; 3) responsabilizar é fundamental.

Como fez ele isso: 1) generalizou os exames (oh, palavra maldita em Portugal) entre o 3.º e o 10.º anos (cá dir-se-á: coitadinhos, tão pequeninos e já a fazer exame. O governo, qualquer que fosse, era logo demitido pela multidão em fúria. Por isso, cá agora existem provas aferidas que não contam para os alunos, é só para avaliar sabe-se lá o quê); 2) com os resultados destes exames organizou rankings credíveis, o que estimulou a competição entre escolas (coisa que cá faria cair outro governo); 3) com base nos resultados, premiou escolas e os professores (cá apenas se perseguem professores).

Veja-se o trabalho da senhora ministra da educação: andou a falar em avaliar professores, e em qualidade, diferenciação dos bons e dos maus, etc., etc. Agora chegou a altura de estabelecer regras para os professores chegarem a professor titular. Surpresa (minha não): nenhum item de avaliação contempla resultados dos alunos. Professores que andaram anos e anos a levar alunos a exame, a mostrar o que valiam, ou não, em provas públicas, estão em pé de igualdade com os outros. Não existe qualquer item, nem para disfarçar, que faça referência à qualidade do desempenho dos professores, nem aos resultados dos seus alunos em exames nacionais. Isso de ensinar com altos padrões de qualidade serve para quê? E depois se os alunos aprendessem mesmo, era um aborrecimento... Vão ser escolhidos os professores titulares à sorte, pois a sua escolha depende dos cargos que desempenharam e esses, na escola, são aleatórios e nada têm a ver com o mérito.

O pessoal que odeia os americanos, incluindo os da Florida, poderia fazer o favor de mandar para lá a nossa senhora da Educação mais os acólitos e os funcionários eduqueses do ME, para ver se, todos juntos e unidos, davam cabo daquilo…

11 de Setembro - 05


05/03/07

O superpolícia do governo e a minha brotoeja

A ideia da criação de um superpolícia (um secretário-geral) que coordene todas as forças policiais, sob a mão do governo, é algo que me deixa particularmente incomodado. Há qualquer coisa nesta geração de políticos socialistas que desliza sorrateiramente para situações de profunda ambiguidade...

A coisa não é nova. Já no governo de Guterres, não no próprio, mas num conjunto de jovens turcos de então se notava uma certa tendência desagradável para uma concepção de liberdade longe daquela que foi a de Mário Soares. Não eram factos, era mais uma espécie de sombra, uma inclinação. Notava-se, aqui e ali, uma certa pesporrência, um gosto pela criminalização, uma tendência para o controlo.

Esta sombra está de novo presente. Não é nada de muito definido, mas há qualquer coisa no ar que parece uma ligeira ameaça, um certo ar de desprezo pelos adversários, uma falta de respeito pelas pessoas, um erguer a mão do poder (dada pela maioria) de forma altiva, um tratamento dos que se opõem política ou socialmente como se de um bando de mentecaptos ou de parasitas se tratassem. Humilham-se, por questões tácticas, grupos sociais. Discretamente, mas de forma desagradável, o ambiente torna-se pesado. Um vácuo moral perigoso, ainda indefinido, parece crescer na vida pública.

Eu que me habituara a ver no Partido Socialista, devido a Mário Soares, um campeão das liberdades, confesso que quando olho para actual geração de governantes socialistas sinto brotoeja. Que a coisa não é boa, não é. A sensação é desagradável e quanto mais se coça…

Onde poderá chegar um governo, este ou outro, com um superpolícia à mão?

11 de Setembro - 04


XI – En suspens

Fiapos de neve ao vento andrajoso
Suspendem-se antes de tocar o chão
São palácios de gelo rugoso
Mal os vejo à luz da líquida mão.


‘Strela que no céu flutua
Deusa breve, branca e nua.

04/03/07

11de Setembro - 03


X – Der Zauberlehrling

Suave cântico de espuma azul
Onde te escondes se por nós não passas?
Nas pesadas montanhas mais ao sul
Ou no rio já lêvedo de barcaças?


Searas de pedra dura
Crescem na noite mais pura.

Manuel Bento, alguns outros guarda-redes e não só

Nestes dias, devido à parca maldita, tem-se falado de Manuel Bento como um dos melhores guarda-redes portugueses de todos os tempos. Jaime Pacheco refere mesmo que foi o melhor que encontrou, ele que jogou com o Vítor Damas e o Vítor Baía. Estas contabilidades são sempre difíceis de fazer. Os tempos são diferentes, o trabalho físico e técnico vai-se transformando, aquilo que o conhecimento e a metodologia de treino conseguem tirar de um jogador actual é muito diferente do que se conseguia fazer há apenas 10 anos. Como se poderão comparar jogadores dos quais já não há quase memória. Quem foram os grandes guarda-redes dos anos 30 e 40, mesmo dos anos 50?

Para mim Manuel Bento foi o último guarda-redes do Benfica. Depois dele já não consigo associar o nome do jogador e o clube. Talvez o belga Preud’homme ainda seja o nome mais significativo. Os outros, quem são os outros? Não sei, ou, melhor, nem quero saber. Mudam tanto e tão rapidamente que a memória mal os retém. Para mim o guarda-redes do Benfica será eternamente o Costa Pereira. Este representa, na minha memória, o arquétipo de todos os guarda-redes do meu clube. Foi o melhor? Não. Lembro dele um frango monumental na primeira final europeia, de muitas, que o Benfica perdeu, já não recordo se contra o Inter, se contra o Milan. Mas Costa Pereira era o monstro sagrado das redes da Luz, nessa longínqua infância em que despertei, através de meu pai, para o futebol e para o Benfica. Os melhores jogadores, na minha imaginação, são todos daquela época: Costa Pereira, Germano, Cavém, Santana, Coluna, Jaime Graça, José Augusto, Simões, Torres e Eusébio. Não há, no mundo, melhores jogadores do que estes. Eu sei, eu sei que isto é injusto. Basta referir os nomes de Figo e de Cristiano Ronaldo para mostrar quão enviesado é o meu imaginado gosto.

Depois do Costa Pereira, o guarda-redes do Benfica foi o José Henrique. Só após este chegou o Manuel Bento. Mas não foi o primeiro, foi o último. A partir dele já tinha crescido o suficiente para perceber que os futebolistas eram mortais e que os seus feitos eram muito mais imaginários do que reais. O futebol só tem sentido no espaço ingénuo da infância e da adolescência, nesse momento em que podemos acreditar em tudo. Quando se perde a inocência, o futebol, enquanto jogo de aventuras e realização de feitos divinos, desaparece. Ou a razão mata o encanto imaginário do jogo, ou o fanatismo clubista destrói a ingenuidade que nos fazia acreditar e ter fé naqueles rapazes. Hoje em dia que interesse poderá ter, para mim, o futebol? Nenhum, pois não passa de um jogo de rapazes, onde muitos jogadores, talvez a maioria, tem tão pouca idade, que poderiam ser meus filhos, como se costuma dizer. São profissionais, é certo, mas não passam de rapazolas.

Por falar em guarda-redes, refira-se que isto do Costa Pereira ser o meu guarda-redes do Benfica também se propaga a outros clubes. O Sporting terá sempre na baliza o Carvalho, o Porto, o Américo, a Académica, o Maló (esse mesmo, aquele que foi o primeiro a defender um “penalty” marcado pelo Eusébio), o V. de Guimarães, o Roldão, o V. de Setúbal, o Vital e depois o Mourinho (o pai do treinador do Chelsea), o Atlético, o Botelho, o Belenenses, o José Pereira. Há clubes que nos anos 60 estiveram na 1.ª divisão e cujos guarda-redes caíram no esquecimento, pelo menos no meu. Quem teriam sido os guarda-redes da CUF e do Barreirense? Do Leixões a memória traz-me o nome do Rosas (será?). Do Varzim, era o Benje. E do Sp. de Braga, que na altura tinha um avançado argentino (?) extraordinário, o Perrichon, quem seria o guarda-redes? À memória vem o nome de Armando. Será possível? Estes são os meus guarda-redes. Todos eles pertencem ao mundo encantado da infância e da adolescência. O Bento pertence já ao período final e ao meu tempo de entrada na idade adulta. Por isso, é o último dos guarda-redes do Benfica. Mesmo que seja o melhor.

Uma nota final sobre aquilo que se passou no estádio do Dragão aquando do minuto de silêncio em memória do Bento. Segundo li, parece que a falta de respeito foi total. Este fenómeno não é novo. Porém era impensável há 30 anos. Em 1977, estava a cumprir serviço militar no Porto e houve uma festa de homenagem ao guarda-redes Rui, que durante muitos anos foi o suplente do Américo, do FC Porto. Eu benfiquista desde sempre, lá fui ao velho estádio da Antas ver o jogo e participar na festa de um portista. Havia rivalidades, mas não havia paranóia, tão pouco havia, nas direcções dos clubes, quem suportasse manifestações deste novo tribalismo. Aquilo que aconteceu no Porto poderia ter acontecido em Lisboa. O que acho insuportável é o discurso que legitima estes comportamentos tribais. Há uma falência de humanidade nesta cultura que tomou conta do futebol. O fenómeno não é apenas futebolístico. O tribalismo urbano é uma das formas pós-modernas de desagregação da comunidade cívica, a substituição da pertença a uma totalidade nacional, pela pertença a micro-comunidades que forjam identidades simbólicas e pactos com a finalidade de enfrentar outras micro-comunidades. O resultado de tudo isto só pode ser a violência e a irracionalidade. Que significará o facto de já nem os mortos merecerem o mero respeito?

02/03/07

Sistemas planetários em formação - V


IX – Vertige

Da branca ravina suspendo o salto
Sobre do rio a tranquila margem.
Subo logo mais além e mais alto
E no céu duma sombra vejo imagem.


Na noite verde do rio
Aves cantam ao desafio.

11de Setembro - 02


01/03/07

O quase sagaz Portas

Discutir Paulo Portas a partir da divisão tradicional esquerda/direita é pura perda de tempo. Não porque as categorias esquerda/direita já não façam sentido. Fazem. Mas o que mais me interessa neste anúncio do seu regresso é a encenação. Paulo Portas é inteligente, bastante, tem leituras, é sagaz. Encena-se à maneira da tragédia grega. Encena que tem um destino a cumprir e isso transpira em cada palavra que diz, nas frases que compõe. Em todo o discurso da anunciação do retorno à liderança do CDS (chamar-lhe-ia a parusia de Paulo Portas), não houve uma ideia política, mas a proclamação de alguém que se acha destinado a seja lá ao que for. Quando sublinhou a vontade de Sócrates (Portas falou em determinação), foi para dizer que ele, Portas, também era um Titã, o único que poderia fazer frente a esse outro Titã socialista. Paulo Portas não nos veio anunciar uma política, mas a titanomaquia.

É aqui que falha a sagacidade de Portas. O seu narcisismo impede-o de olhar a realidade. Sócrates não é um Titã. É um mero mortal escorado na conjuntura e, ao mesmo tempo, temendo essa mesma conjuntura. Portas precisa de engrandecer o inimigo para, ele mesmo, parecer grande. Eis a fragilidade do novo/velho candidato à liderança das hostes do Largo do Caldas. A grandeza não se encena, tão pouco o destino. O destino não está nas mãos dos homens. São os acontecimentos com as suas provações que mostram se um homem tem ou não um destino. Quando se encena, com a veemência com que Portas o faz, um destino, não é o sublime trágico que está no fim da linha à espera do herói, mas o burlesco da comédia que transforma o candidato a deus em bufão.

Sistemas planetários em formação - IV


VIII – Fem

Rolam bravias as flores da tarde
Suaves, desenham a melodia
Onde um anjo trémulo as guarde
Como se a noite fosse meio-dia.

No mar de cinza silente
Abre-se à luz de repente.

11de Setembro - 01


Pessoa amiga fez-me chegar um álbum com fotografias inéditas do 11 de Setembro. A partir de hoje, dia a dia, irei partilhar essas fotografias. A autoria do álbum é de Sylvie Simoneau e o título, irónico e amargo título, é "Mots d’enfants". A barbárie existe...