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02/01/10

Um retrato da pátria (2)


O que terá a ver o retrato de 1966, feito mais abaixo, com o facto de haver dois milhões de portugueses (20% da população), que seriam quatro milhões se não fosse as ajudas do Estado, a viver em situação de pobreza? A crise em Portugal não é meramente conjuntural. Resulta de uma atitude política e social, onde a relação entre os portugueses, as elites políticas e a instrução geral tem um peso enorme e absolutamente nefasto. Salazar disseminou o desprezo pela instrução entre as camadas populares. A democracia disseminou o desprezo pelo esforço dentro da escolarização. Como não podia deixar de ser, há muito em comum na percepção da realidade por parte dos dirigentes políticos antes e após o 25 de Abril. Os resultados são os 4 milhões de pobres (40% da população), declarados ou disfarçados.

01/01/10

Um retrato da pátria

Graças ao Zé Ricardo, sempre atento a estes e outros fenómenos, cheguei aqui, de onde copiei esta interessante montagem de ficheiros de aspirantes a artistas (clique na imagem para ampliar e ler), da revista Plateia, do ano de 1966. Não há nada de especial que gente entre os 17 e os 24 anos aspirasse, naqueles dias, a ser artista. O que a Plateia então fazia fazem-no hoje as televisões generalistas. Mas se se olhar bem os ficheiros temos um retrato do Portugal salazarista. Não me estou a referir às fotografias ou à altura dos candidatos (varia entre 1,53m e um 1,75m). Hoje somos um povo mais crescido, todos sabemos isso, mas da altura não vem mal ao mundo. Repare-se, porém, nas habilitações literárias dos jovens pré-artistas. Em seis candidatos só um tem mais do que a antiga 4.ª classe, chegou ao 2.º ano comercial, o equivalente ao actual 8.º ano de escolaridade. Ter mais do que a 4.ª classe, em Portugal no ano de 1966, era uma absoluta excepção. Fiz, em Setembro desse ano, dez anos. Tinha concluído em Julho a 4.ª classe. A maioria dos meus colegas de turma terminou naquele instante a sua formação escolar, reproduzindo o padrão das gerações anteriores, nascidas nos anos 40. Há qualquer coisa na Educação que, desde há muito tempo, não funciona neste país.

O alelo 334


Como estive fora, só hoje dei por esta agradável notícia. Ficamos assim a saber que, segundo a psicóloga francesa Maryse Vaillant, a infidelidade masculina pode ajudar a salvar o casamento. Mas as coisas não ficam por aqui. Nós, os que pertencemos ao sexo masculino, não só podemos ser infiéis - para salvar o casamento, entenda-se -, como se o não formos é caso para desconfiar: «os homens que não têm casos extraconjugais podem ter “uma fraqueza de carácter”.» E qual é o homem que quer ter uma fraqueza de carácter? A sábia psicóloga esclarece: «Por norma, estes homens tiveram "um pai que era fisicamente ou moralmente ausente", e desta forma, "têm uma visão completamente idealizada da figura do pai e da função paternal. Eles não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem”. »

Dirá o leitor, ou a leitora, que tudo isso são especulações de uma ciência espúria, a Psicologia. São preconceitos actuais contra preconceitos antigos. Eu concordo, mas o problema é outro. Estava eu à procura de uma imagem para ilustrar este post e descubro isto: «A culpa da infidelidade masculina pode ser… dos genes. À primeira vista parece uma desculpa de um marido adúltero, mas cientistas suecos confirmam esta teoria. Segundo os investigadores do Instituto Karolinska de Estocolmo os homens que possuem um determinado gene, o alelo 334, têm mais tendência a cometer a fatídica “facada” no matrimónio. Um dos cientistas responsáveis pelo estudo afirma que “os homens que possuem uma ou duas cópias desta variação especifica no gene, têm o dobro das hipóteses de experimentar problemas com relações monogâmicas”.»

As especulações psicológicas parecem então fundar-se na pesquisa genética. O que me aborrece no meio disto tudo, porém, é que as minhas hipotéticas infidelidade ou fidelidade, mais ou menos canina, não se deverão nem a um estado passional nem ao meu livre-arbítrio, mas ao facto de possuir ou não uma ou várias cópias do alelo 334. Que depressão! Um infiel que se preze até perde a vontade de o ser ao pensar que aquilo não é ele, mas o alelo 334 em acção. Com tudo isto é a liberdade que se vai. Como compensação, naqueles países onde existe a civilizada prática de lapidação de adúlteros, passam apenas a apedrejar as mulheres (que definitivamente não têm alelo 334 e logo nada justifica a infidelidade) e os alelos 334.

31/12/09

Do saudável e do patológico



Não é a questão de saber se a homossexualidade é uma doença que me interessa (ver aqui e aqui). O que é interessante neste tipo de debate público é o papel da saúde e da doença, esses obscuros conceitos que atormentam os nossos sonhos mais agradáveis. Há, certamente, definições técnicas para o que é um estado patológico. A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma classifcação internacional de doenças, que definirá a doença segundos critérios técnico-científicos. A questão, porém, é outra. Do ponto de vista da natureza em geral, não existem estados patológicos. Os processos naturais sucedem-se uns aos outros e, de um ponto de vista global, é indiferente que eu vença um determinado vírus ou que esse vírus me mate.

A doença, ou os estados patológicos, é assim uma questão antropológica, um problema do homem. Por isso, a doença e a saúde são sobre-investidos com os nossos preconceitos e aspirações sociais e definidos segundo critérios políticos (os critérios técnicos da OMS são claramente critérios políticos, se consideraramos que, hoje em dia nas sociedades modernas, só são politicamente aceitáveis os critérios definidos de forma técnico-científica), os quais representam esses mesmos preconceitos e aspirações. Se o critério do saudável e do patológico teve um papel fundamental na instituição dos asilos psiquiátricos, por exemplo, ele não desapareceu de então para cá. Continuamos a assistir a uma intensificação da intervenção social fundada nessa separação. Num tempo em que a dominação técnica sobre a natureza humana, nomeadamente através da descodificação do ADN, se tornou avassaladora, a definição do saudável e do patológico vai ser um dos campo essenciais da nossa vida em comunidade, isto é, da nossa vida política.

Retomando a questão do início, a definição da homossexualidade como uma não patologia é tão política como a definição contrária, aquela que a propunha como uma doença, apenas os preconceitos que estribam uma ou outra decisão são diferentes. É evidente que os médicos psiquiatras referidos nos links mais acima jamais reconhecerão que a sua posição é fruto de um preconceito. Jamais um preconceito se reconhece enquanto tal, é esta uma das suas facetas. O que a humildade nos aconselharia seria então reconhecer que há diferentes tipos de preconceitos, e uns são mais úteis em determinado momento social, ou que estão mais de acordo com o espírito da época, do que outros. Contrariamente ao que se possa pensar, este tipo de pronunciamento técnico-científico não é apenas uma forma de luta contra um preconceito em desacordo com o Zeitgeist, é também uma manifestação, de natrueza não consciente, de um sintoma de mal-estar com o novo preconceito. Onde se encontra esse sintoma? Na necessidade de lhe dar, ao novo preconceito, uma fundamentação técnico-científica, tornando-o aos olhos da opinião pública, pouco versada na revisibilidade da ciência, uma aura de verdade definitiva e absoluta.

14/12/09

Banha da cobra


Sócrates

Há notícias que me deixam siderado. O i online, a propósito de um best-seller sobre um miúdo autista, noticia que Einstein, Mozart, Sócrates, Stanley Kubrik e Andy Warhol, além de geniais, tinham outra coisa em comum: todos sofriam da síndrome de Asperger, uma forma de autismo que afecta a interacção social. Diga-se de passagem que é relativamente modesto. Há outras listagens que incluem Newton, Wittgenstein e Darwin. Admito que se possa especular sobre Einstein ou Wittgenstein, gente bem conhecida e pública no século XX, para não falar de Kubrik ou de Warhol. Admito mesmo que há suficientes indícios sobre Darwin e Newton, indícios que permitiriam um diagnóstico, o qual, felizmente, nunca foi feito. Mas sobre Sócrates, de quem praticamente nada se sabe, que sentido faz este tipo de inclusão numa lista de nobres deficientes? Não seria antes Platão que sofreria de síndrome de asperger? Ou não teria Platão, genial proto-romancista, desenhado uma figura do mestre que permitisse à posteridade este tipo de exercícios? O que há de interessante nisto é a transformação, no caso de Sócrates, de uma atitude deliberada numa patologia. Ele não agiu como agiu, ele não enfrentou a hipocrisia pública como o fez, não aceitou o julgamento público e a morte, por convicção. O coitado sofria de síndrome de asperger e como não sabia, preferiu morrer por respeito à lei da cidade, em vez de aceitar a ajuda dos amigos e pôr-se a milhas, até que os ânimos se acalmassem. Isto é o que se chama transformar a ciência em banha da cobra.

13/12/09

Insuportável



Casas-abrigo para mulheres e crianças não chegam para as encomendas. O que se passa em Portugal é absolutamente insuportável. A violência dentro da família ou das relações ditas amorosas é uma doença social gravíssima, mas também um sintoma claro sobre a masculinidade desses heróis que batem desalmadamente e matam pessoas mais frágeis. Chegou a altura de o assunto ser tratado de outra forma. Em primeiro lugar, há que reconhecer que ainda está longe de ser um estigma social bater numa mulher, pelo contrário. Muitas vezes o herói em vez de ser visto na cobardia que o constitui é olhado com aprovação, quando não mesmo com respeito. Sempre é um "homem que sabe pôr as gajas no devido lugar". Este saber é especialmente apreciado nos lugares mais inusitados. Não se pense que isto se passa apenas nos sectores deprimidos socialmente ou sem instrução. Não passa. Em segundo lugar, a lei deve endurecer, mas mais do que isso a acção da justiça deve ser revista. Muitas vezes, e apesar dos alertas que a vítima vai emitindo, só quando ela é assassinada é que a polícia e a o aparelho judicial intervêm. Há que tornar insustentável esta cultura degradante e cobarde. No fundo, uma cultura de homens que não gostam de mulheres.

11/12/09

Já não se pode ter calor



Numa escola americana, a James Madison, um contínuo (agora em Portugal acho que se chamam técnicos operacionais de educação) encontrou duas professores nuas numa sala de aula. Nuas, mesmo, sem uma roupinha a cobrir a pele. Anda tudo intrigado com o motivo de elas terem confundido a sala de aula com o velho éden, o paraíso da nossa mãe Eva e do nosso pai Adão. Ignorantes, as autoridades instauraram um processo disciplinar por atentado ao pudor. Meu Deus, já ninguém pode ter calor.

05/12/09

Quotas e outras batotas



Há uma falta de honestidade essencial na relação do governo com os professores. A questão das quotas na avaliação, do ponto de vista da apreciação do mérito, são uma mentira sem fim. Aliás, a própria avaliação, a que vai acabar ou a que vai entrar, não discernirá o mérito de quem quer que seja. Mas a desonestidade governamental, desonestidade que passou do anterior para o actual governo, deve-se a um pormenor que não é assumido publicamente. Não há dinheiro para pagar os salários dos professores. O país não gera riqueza para tal. Isso não é assumido porque o problema não diz respeito apenas aos professores. Não há dinheiro para pagar como se paga aos juízes, aos militares, aos universitários, aos médicos, aos enfermeiros, às chefias e aos quadros superiores da função pública, não há dinheiro para pagar a maior parte dos salários dos funcionários públicos, centrais e locais. Não há dinheiro para tanta gente dependente do Estado. Não há dinheiro para pagar muitas das reformas que o Estado tem de pagar a antigos servidores. Não há dinheiro para tanto assessor e chefe de gabinete que as classes políticas, locais e centrais, criam para assegurar o seu poder. O governo anterior pensou que proletarizando os professores estabelecia um pacto de silêncio com os outros corpos servidores do Estado e que o regabofe poderia continuar. Não resolveu problema nenhum e criou um enorme conflito com os docentes.

As coisas chegaram a um ponto que vai, mais tarde ou mais cedo, ter de se mexer na constituição para poder anular certas direitos conquistados, pelo simples motivo que não há dinheiro para os pagar. Sócrates teve uma maioria para fazer isso. Preferiu escolher um bode expiatório e fingir que resolvia o problema. Um dia destes acordamos e estamos na Argentina de há uns anos atrás. Sócrates tornou-se um impecilho, até para o seu próprio partido. O pântano cresce todos os dias. Portugal está gravemente doente. Está a chegar a hora em que a batota já não consegue encobrir a incompetência que tomou conta do país desde que entrámos na CEE. Sim, Cavaco foi o primeiro culpado disto a que se chegou. Os outros têm sido uns meros continuadores da desgraça que se começou a desenhar no cavaquismo. Fingir-se civilizado, só porque os outros nos dão muito dinheiro para fazermos auto-estradas e rotundas, deu nisto. Vamos pagar duramente.

04/12/09

Universidade Independente



O esplendor de Portugal, ou aquilo em que se vem transformando, mais uma vez. É o que se chama amor ao saber, nomeadamente ao Inglês, o que é natural numa universidade.

03/12/09

Desamiganços


Consta que foi criada uma nova palavra de língua inglesa. Um verbo, mais precisamente. To unfriend, que significa retirar alguém de uma rede social da Internet (tipo Facebook), abolindo o seu estatuto de "amigo". O Público traduz literalmente como desamigar. Porém, este verbo lembra um outro que, porventura, já caiu em desuso, o verbo amigar. A não sei quantas amigou-se com o não sei quantos. Amigar-se era estabelecer, na linguagem pós-moderna que nos cabe, uma união de facto. Mas se hoje - bem, já há uns tempos - uma união de facto é coisa vista com bonomia e mesmo como prova de sensatez, já o amiganço, no tempo em que não era união de facto, era olhado de esguelha. Seria uma espécie de solução de recurso para a impossibilidade de um casamento segundo o regulamento geral. Se o amiganço tinha um estatuto sombrio, o desamiganço era invisível. Para além dos dramas efectivos dos desamigados, a estrutura social ignorava-o, apesar de se sentir reforçada, pois o desamiganço acabava por ser um tributo tardio à ordem regular do matrimónio.

O novo desamiganço, o das redes sociais da Internet, é leve e pueril, embora a sua puerilidade possa provocar, por vezes, dor e infortúnio. Amigar e desamigar nas redes sociais não passam de práticas metafóricas, digamos assim. Esses amigos virtuais representam uma espécie de plateia, num mundo que se tornou num imenso espectáculo virtual. Eu exponho-me à plateia dos meus amigos virtuais e em troca eles têm-me como espectador. Mas nada disto representa uma amizade séria. A amizade implica uma certa igualdade. Só os iguais são efectivamente amigos. Esta igualdade não é de classe, embora esta possa ter peso. Diria antes que é uma afinidade electiva a partir da qual se constrói um mundo de referências partilhadas, de vivências e, fundamentalmente, de segredos. Os segredos não precisam de ser de coisas escabrosas ou muito importantes. Por exemplo, a saúde dos pais dos meus amigos é uma coisa privada, a qual é partilhada entre nós com vivo interesse, como se fosse um segredo. Mas há outros segredos na amizade mais secretos, que só entre amigos se partilham.

A amizade efectiva recolhe os amigos, iguais entre si, num círculo de onde o espectáculo e a exposição públicos são reduzidos ao mínimo possível. O amiganço nas redes sociais é transversal e democrático, pois permite que todos sejam amigos de todos com a facilidade de um ou dois cliques. A grande questão é se a democratização da amizade não significa a morte da verdadeira amizade. É que se há coisa que não é mesmo nada democrática é a amizade. A afinidade electiva que leva as pessoas a aproximarem-se entre si é apenas o primeiro impulso, o qual deve ser secundado por um conjunto infinito de provas iniciáticas, nas quais os amigos vão consolidando o cenáculo constituído. Perder um amigo, por exemplo, devido à deslealdade, é provação ontológica. Ser descartado numa rede social pode ser um ferrete no narcisismo de quem colecciona espectadores, mas nunca uma dor que atinja o núcleo essencial daquilo que se é.

30/11/09

O sarilho europeu



A Europa está metida num belo sarilho. Veja-se aqui a reacção europeia ao resultado do referendo suíço sobre a construção de minaretes. A esquerda horrorizada e a direita dividida entre a concordância e a rejeição das opções dos suíços. Uns insistem que não se está a passar nada, outros aproveitam o medo para vender a sua mercadoria contaminada, os mais sensatos estão perplexos e tentam encontrar um caminho para um dos grandes problemas que desafia a humanidade europeia. Esse problema não é a questão da liberdade religiosa. A proibição da construção de minaretes é mais delicado do que isso. Esse problema nasce do medo perante a exibição crescente de uma militância político-religiosa, nasce do medo perante a diluição e a erosão dos valores ocidentais em relação a um islão militante.

Nota: foram censurados alguns comentários ao post anterior sobre o referendo suíço. Uma coisa é alertar para o perigo e a perplexidade que atravessa a Europa, outra é permitir comentários racistas ou a desvalorização da pessoa que pratica o islão. O islão, desde que respeite os direitos humanos e as liberdades civis, políticas e individuais, desde que não queira misturar religião e política, é muito bem vindo à Europa. Tem valores notáveis para partilhar com os não islâmicos. Todavia, a Europa não pode permitir certos projectos, mais ou menos radicais, que visam a sua destruição.

29/11/09

Ratos



São tempos ricos em homicídios de mulheres, sete nos últimos dias. Hoje, mais um. Incluiu a morte de um Guarda Republicano. O que se está a passar é absolutamente intolerável. A lei dá demasiadas garantias aos candidatos a homicidas. O país tem um combate civilizacional a travar. Nenhum ser humano pertence a ninguém. A agressividade tem crescido entre os jovens de uma forma insuportável. A percentagem de namoradas agredidas por namorados frágeis e psicologiacamente aterrados com a liberdade feminina não pára de crescer. Nem o amor, nem a infidelidade, nem o desejo, nem o quer que seja são motivos para que alguém se julgue no direito de tocar em alguém, ou de se achar proprietário de alguém. Uma mulher não é uma coisa, é uma pessoa. Homens que batem e matam mulheres não são homens, são ratos.

28/11/09

Desporto e virtude


Não sei se aquela retórica, que ribombava no meu tempo ao anunciar o desporto como escola de virtudes, ainda está em vigor. Provavelmente, mas claramente fora do prazo de validade. A máfia das apostas, segundo a justiça alemã, conseguiu perverter os resultados de competições desportivas em 17 países. Um dia, as pessoas decentes proibirão os filhos de pronunciar a palavra desporto. Quantos filmes não foram feitos sobre a perversão das corridas de cavalos? Agora começamos a suspeitar que não há jogo, seja de que modalidade for, que não faça parte de uma enorme rede e que qualquer resultado é fruto não do mérito, mas do embuste? Mas quando se acha que tudo é mercadoria e que o desporto é uma indústria, o que se pode esperar que aconteça? Mas o pior é que a suspeita não fica por aqui. A suspeita cresce desmesurada até à pergunta ingénua sobre quanto na economia real não é já fruto da mão invisível das máfias.

27/11/09

Condescendência



O Banco de Portugal (BdP) teve conhecimento da existência de concentração de risco na Sociedade Lusa de Negócios (SLN) durante o ano de 2000, falhas que na altura mandou corrigir sem verificar se os procedimentos tinham sido de facto alterados. O problema não é o Banco de Portugal. Esta atitude é apenas a expressão de um modo de ser, o modo de ser português. Por que carga de água haveria o Banco de Portugal ser diferente? Quantas vezes não se ouve dizer "não suporto perfeccionistas"? Ser exaustivo e tentar fazer tudo como deve ser feito e até ao fim não é, para os portugueses, uma virtude. Virtude é a condescendência. De condescendência em condescendência, o país em trinta anos chegou onde chegou.

20/11/09

A virtude de Henry



As palavras de Thierry Henry deveriam passar em todas as escolas portuguesas. Deveriam suscitar análise, discussão, transformar-se em exemplo. Por que se envergonha um homem que contribuiu, com a sua batota, para o apuramento da selecção do seu país para o mundial? Mesmo que nada se possa fazer em relação à Irlanda, a confissão virtuosa de Henry é absolutamente excepcional. Aquilo que o jogador diz é incompreensível para a generalidade dos nossos alunos, para não falar para a generalidade dos portugueses. E isso deveria preocupar-nos.

16/11/09

Sinal de contradição



É isto que se espera da Igreja Católica, que esteja neste mundo mas não lhe pertença. Bento XVI criticou o «egoísmo que permite que a especulação penetre mesmo no mercado dos cereais, colocando a comida no mesmo plano que todas as outras mercadorias». Este sinal de contradição é o melhor serviço que se pode prestar às sociedades humanas. A voz dos homens é a dos interesses pessoais e do egoísmo. Estes interesses e egoísmo têm um papel na iniciativa dos indivíduos e na dinâmica das sociedades, mas deverão ser contrabalançados pela moral, pela religião, pela política e pelo direito. O ideal seria que o equilíbrio se estabelecesse a partir da própria consciência, isto é, a partir das convicções morais e religiosas. Mas como o egoísmo tem pouca propensão para a consciência moral e faz ouvidos moucos à religião, aquilo que o Papa pede só pode ser realizado por iniciativa política. Esta, como se sabe, serve os senhores deste mundo. Sendo assim, ao menos que a voz do Papa clame, mesmo que seja no deserto, mesmo que ninguém o escute.

15/11/09

A tortura mais insuportável



Terão alguma vez os tiranos inventado torturas mais insuportáveis que aquelas que os prazeres fazem sofrer aos que se abandonam a eles? Eles trouxeram ao mundo males desconhecido ao género humano, e os médicos ensinam, a partir de uma perspectiva comum, que estas funestas complicações de sintomas e de doenças que desconcertam a sua arte, confundem as suas experiências, desmentem tantas vezes os antigos aforismas, têm a sua origem nos prazeres. [J-B Bossuet, Sermon contre l'amour des plaisirs, I.º point]

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Eis o progresso. Desde a condenação do prazer visto como tortura, devido à insuportabilidade de um desejo nunca saciado, até aos programas políticos da educação para o prazer vão cerca de três séculos. A grande diferença, curiosamente, é que Bossuet sermoneava desta forma perante Luís XIV e a sua corte, como forma de tornar os poderosos mais contidos, enquanto hoje é o poder político que evangeliza a população para o culto do prazer. Restará, contudo, fazer esta estranha pergunta: o que ganham as elites políticas com esta evangelização? O que pretendem elas? Bossuet diria que pretendem abrir uma espécie de caixa de Pandora e disseminar os males pelo mundo, ao mesmo tempo que submetem as populações à tortura mais insuportável, a do desejo nunca saciado (curiosamente, não é este desejo que funda a sociedade de consumo?). Mas Bossuet não passava de um teórico do absolutismo, adversário da democracia.

Masturbação política



Tomei contacto com a coisa no Ponteiros Parados, de lá segui para o Público, onde fui informado que a Exma. Junta da Extremadura espanhola, sob a égide dos socialistas (informação pesquisada por este blogger), está ocupadíssima em «pôr os jovens espanhóis, entre os 14 e os 17 anos, em contacto com o seu corpo e a sua sexualidade. As técnicas de masturbação estão entre os assuntos debatidos e explicados.» A notícia acrescenta: «A campanha, financiada pelo Governo, pediu a duas formadoras que ensinem aos jovens tudo o que é preciso saber sobre jogos eróticos, carícias, auto-erotismo e anatomia masculina e feminina. Temas mais complexos, como a identidade de género e a auto-estima, deverão igualmente ser abordados. As sessões de formação são itinerantes e incluem demonstrações com uma série de "brinquedos sexuais", incluindo vibradores e bolas chinesas.»

Ao fim de centenas de milhares de anos em que os seres humanos e os seus ancestrais se masturbaram como muito bem entenderam, o socialismo moderno decidiu que os jovens não sabem masturbar-se e que não há nada mais para fazer com o dinheiro dos contribuintes do que uns cursos de educação sexual, onde se ensina, entre outras coisas, os jovens nos seus jogos auto-eróticos. A intolerabilidade de tudo isto não reside no facto de haver alguém que ensine alguém a sexualidade, masturbação inclusive. A intolerabilidade está na intromissão do Estado no assunto. Esta intromissão tão cheia de boa vontade iluminista é perigosa porque rasga as fronteiras entre o público e o privado e abre uma nova frente de colonização da esfera da intimidade pela esfera do controlo político. Quando um organismo político acha que deve ensinar sexualidade aos seus cidadãos é porque não está contente com a sexualidade tal como existe e pretende interferir nas práticas sexuais, para as corrigir segundo o seu modelo. Extraordinário.

Mas não é só a esfera da intimidade que é assim ameaçada pelo controlo político. É o próprio poder político que se dissolve na irrelevância daquilo que toma por objecto da sua função. Estas causas da esquerda light, esquerda comprometida com a submissão da esfera política à esfera económica, significam a demissão das elites políticas das suas funções efectivas e a procura de um campo que, após se terem demitado da função de soberania, justique a sua inútil existência. Uma masturbação.

14/11/09

Serviço militar obrigatório



Um dos temas presentes na crónica de ontem, no Público, de Luís Campos e Cunha, e aqui citada, é o da disciplina. Pertenço a uma geração que assistiu e participou na abolição do valor da disciplina e, concomitantemente, desvalorizou até ao irrisório as virtudes militares e os seus valores. Não fui imune ao sortilégio. Há muitos anos, porém, que reconheço o elevado valor moral e social dos valores da instituição militar. Nunca concordei com a abolição do serviço militar obrigatório, pelo contrário. Ele deveria, nos dias de hoje, ser universal, abranger rapazes e raparigas. Seriam dispensáveis os 16 meses que me couberam em sorte, mas uma espécie de recruta prolongada, de seis meses, na qual todos sem excepção seriam iguais, não faria mal a ninguém. Seria um momento, se bem pensado e organizado como é apanágio da instituição militar, de alta qualidade na formação cívica, social, patriótica e moral. Depois de uma escolaridade anarquizante e mesmo de um ensino superior quase igual, a disciplina da instituição militar acabaria por ajudar uma extensa maioria de jovens. Sei que isto não é politicamente correcto afirmar, ainda por cima por alguém que pertence a uma geração que fugiu do cumprimento do dever militar através de múltiplos álibis. Mas 25 anos como professor, para além da experiência própria na instituição militar, corrigem muitos preconceitos e ideias feitas. O serviço militar obrigatório não seria apenas uma contribuição para solidificar o espírito patriótico e a noção de dever, mas também uma tábua de salvação para muitos jovens que andam pura e simplesmente à deriva.  A primeira coisa que deveria acabar era a objecção de consciência. Pode cumprir-se o dever militar sem ter de pegar em armas. O essencial é a rotina, os valores, a disciplina irremitente, o deitar e levantar cedo, o ter de fazer a cama, o de estar impecavelmente fardado, o aprender a falar com o superior hierárquico, o ter de obedecer, o espírito de entre-ajuda em situações difíceis, o reconhecimento do papel do esforço. Isto é, tudo aquilo que deveria ser já o apanágio das escolas, mas que o corpo político por irresponsabilidade, oportunismo, má-fé e pusilanimidade, com a cumplicidade de muitos professores, diga-se de passagem, decretou que acabasse, para infelicidade de muita gente.

13/11/09

Luís Campos e Cunha - O horror à decência



E a anarquia, quase geral em que vive o ensino secundário, tem horror ao Colégio Militar, obviamente. Aliás, a verdade é mais funda: a anarquia quase geral da nossa sociedade tem horror à instituição militar. Uma instituição organizada, como a militar, que cultiva os valores da honra, da camaradagem, da disciplina e do dever para com a pátria, não pode ser bem vista pela sociedade actual. A nossa vida colectiva -a civil - privilegia o oportunismo, habituou-se aos casos de corrupção (com ou sem fundamento), tem uma imprensa virada para o escândalo e uma televisão com novelas que são difusoras da falta valores e da ausência dos bons costumes. O Colégio Militar poderá acabar mas as razões estão na nossa sociedade e não dentro dos muros do Colégio. O horror à decência é dos indecentes.