Os chamados Antigos Mestres serviram sempre só o Estado ou a Igreja, o que vem a dar no mesmo, diz Reger com frequência, um imperador ou um papa, um duque ou um arcebispo. Assim como o chamado homem livre é uma utopia, o chamado artista livre foi também sempre uma utopia, um dislate, diz Reger muitas vezes. Os artistas, os chamados grandes artistas, diz Reger, penso eu, são, além disso, as pessoas com menos escrúpulos, são ainda muito menos escrupulosos que os políticos. Os artistas são os mais hipócritas, ainda muito mais hipócritas que os políticos, isto é, os artistas da arte são ainda muito mais hipócritas que os artistas do Estado, oiço eu agora Reger dizer de novo. Esta arte vira-se sempre para o Todo-poderoso e para os poderosos e afasta-se do mundo, diz Reger muitas vezes, é esta a sua infâmia. É mesquinha esta arte, mais nada, oiço eu agora Reger dizer ontem, enquanto hoje o observo da Sala Sebastiano. Porque é que realmente os pintores pintam, quando existe a natureza? perguntou ontem Reger uma vez mais a si próprio. Até a obra de arte mais extraordinária constitui apenas um esforço mesquinho, inteiramente absurdo e inútil, para imitar e mesmo macaquear a natureza, disse ele. O que é o rosto pintado por Rembrandt da sua mãe em comparação com o rosto real da minha mãe? perguntou ele de novo. O que são as margens do Danúbio, por onde eu posso andar enquanto as posso ver, em comparação com as pintadas? disse ele. Não há nada mais asqueroso para mim, disse ele ontem, que o poder pintado. Pintura do poder, mais nada, disse ele. Fixar, dizem as pessoas, documentar, mas o certo é que, como nós sabemos, tudo isso é mentido, falso, só a falsidade e a mentira é que são fixadas e documentadas, a posteridade só tem falsidade e mentira penduradas nas paredes, só falsidade e mentira se encontram nos livros que os chamados grandes escritores nos legaram, só falsidade e mentira nos quadros que estão pendurados aqui nestas paredes. [Thomas Bernhard, Antigos Mestres - comédia. Tradução de José Palma Caetano, Assírio & Alvim]
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Li esta passagem de Bernhard logo a seguir a ter lido o comentário do Zé Ricardo ao post sobre o blogue de Rodrigo Constantino. O Zé refere a expulsão, por Platão, do poeta, isto é, do artista em geral, da cidade. Há uma tensão curiosa entre o texto platónico e o de Bernhard. Em ambos existe a denúncia da mentira da arte, da falsificação da realidade. Mas Bernhard talvez nos permita perceber melhor Platão. Por que razão se deverá expulsar o artista da cidade? Porque ele reforça o poder, a dominação fundada na falsificação, através da ficcionalização. Em última análise, o artista, como encenador do poder, robustece a tirania. O artista emerge então como inimigo da liberdade.
Por aqui talvez possamos pensar mais fecundamente a questão da liberdade a partir de Platão. Talvez Platão, ao contrário do que pensa Popper, se preocupe, em tudo o que pensa, apenas e só com a questão da liberdade, com a euleutéria, o estado do homem livre. Acredito mesmo que, para pensar a liberdade, Platão seja muito mais fundamental do que Popper e os liberais. Mas sou suspeito, Platão é, para mim, o maior dos sóis que habitam a galáxia dos filósofos e dos artistas.
Por outro lado, há mais uma coisa que aproxima Bernhard e Platão: são ambos grandes romancistas, quero dizer: produtores de ficções, poetas, em última análise. Nietzsche tem razão, o diálogo platónico é a antecâmara de Cervantes. A expulsão, suprema ironia, vira-se contra eles, Bernhard e Platão. Há, no espírito sisudo dos grandes filósofos, uma forte e quase sempre não notada ironia. Platão que se expulsa a si mesmo da cidade, fingindo que o filósofo não é poeta, que não compõe ficções, coisa que ele fez durante toda a vida; Hegel, por exemplo, fazendo crer que Deus, o Absoluto falava pela sua boca, isto é, pela sua Lógica. O que coloca a questão: como ler estes refinados ficcionistas, estes supremos ironizadores?
É verdade que prefiro viver sob Guterres ou Cavaco do que sob Salazar, mas isso não me permite estabelecer uma analogia dizendo que a “Sociedade Aberta” de Popper me instrui melhor sobre a liberdade e a defende melhor do que a República platónica. Estou convencido do contrário.